Ruben
Ter consciência que não serei pai e que a culpa em
grande parte é minha fez-me tomar uma decisão, provavelmente irei arrepender-me
mas neste momento não aguento mais, preciso afastar-me, libertar este ódio que
sinto de mim mesmo, sinto-me preso a uma história que nunca devia ter sido
desenterrada, se ficou no passado não deveria ter remexido, só serviu para
magoar-me, fui cutucar um enxame de abelhas sabendo que seria picado, fui fraco
e caí em tentação, cedi ao desejo de ter o que no passado deixei fugir por
entre os dedos mas hoje arrependo-me amargamente, devia ter evitado tudo isto,
por capricho meu arrastei a Mariana para o abismo, a rapariga estava bem antes
de atravessar-me no seu caminho, se não tivesse insistido em recuperar o que
nunca foi meu hoje poderíamos ser amigos mas não… fui mimado e por isso perdi
tudo…
***
Cheguei a Braga e ao entrar no meu quarto um espasmo
percorreu o meu corpo, talvez provocado pela certeza que nunca mais a minha
vida terá cor, nunca mais terá alegria ou motivo para sorrir mas a decisão está
tomada e não será alterada, terei que aprender a viver com os erros do passado
e com a esperança de algum dia sentir-me livre da culpa que carrego no
presente.
Tentei comer algo mas nada passava na garganta, a
sensação de nó não deixava que metesse comida à boca, por isso mesmo fui
deitar-me, desliguei o telemóvel para não ser incomodado e tentei adormecer,
pelo menos enquanto dormia não pensaria na Mariana e na forma como tudo acabou
mas foi impossível, o peso na consciência não deixou que fechasse os olhos, sei
que a decisão que tomei deveria ser de mútuo acordo mas nenhum dos dois está em
condições para um novo confronto, ainda assim senti necessidade de lhe dizer
algo, saí da cama e fui buscar o portátil
Olá Mariana,
Regressei a Barga decidido a
seguir em frente e para que o consiga não dá para continuar ao teu lado,
desculpa mas não consigo, não dá mais…
O meu erro foi querer
recuperar algo que nunca teve concerto, misturei sentimentos e arrastei-te para
o abismo, errei quando achei possível ter o que deixei fugir no passado, o que
fiz há quase três anos deveria ter feito há mais de 10, nunca deveria ter
permitido que fosses para Faro sem lutar pelo que sentia, falhei nesse momento
e voltei a falhar em muitos mais, fui fraco e não resisti ao desejo de voltar a
ter-te, obriguei-te a mudar, deixaste de te reconhecer e foi isso que acabou
contigo.
Mariana não és pessoa para
casar e ser mãe, és sim pessoa para ser livre, para viver um dia de cada vez
por isso aproveita esta nova oportunidade e quando conseguires recuperar de
todo o mal que te fiz VIVE…
Por favor luta para recuares
do abismo para onde te conduzi, não me faças sentir ainda pior… faz por mim mas
principalmente por ti… Sei que encontrarás o teu caminho e este será longe do
meu… voltarás a sorrir… espero sinceramente poder ver esse dia chegar nem que
seja à distância…
Resta-me agradecer tudo o de
bom que vivi durante o tempo que estivemos juntos…
Ah… e sei que não sou ninguém
para te pedir algo mas fala com a tua família pois é a única coisa que será
eternamente tua…
Obrigado e VIVE
Ruben Amorim
Doeu escrever cada palavra mas quando carreguei no
enviar e o email seguiu senti-me liberto, sei que não é a melhor forma para
terminar com algo que não deveria sequer ter existido mas de outra forma não
seria capaz, aliás nem sei como lidarei com o fato de ter um afilhado em comum
com a Mariana, só sei que o menino não tem culpa e que por isso espero
sinceramente que a convivência seja possível, não digo para o imediato mas a
longo prazo…
Mariana
Admitir que perdi os minimeus arrasou-me ainda mais,
fiquei sem forças e por isso assim que o Ruben deitou-me na cama “apaguei”, não
conseguia falar e muito menos olhá-lo, só quis desaparecer mas infelizmente não
basta querer… Acordei horas mais tarde e sem forças para mexer um único músculo
que fosse, fiquei na cama a ganhar coragem para sair daquele quarto, para
terminar uma conversa que ficou no início, afinal devo um pedido de desculpas
ao Ruben por tudo o que fiz. Foi quando já tinha colocado os pés no chão que
bateram na porta do quarto, dei permissão para entrar e assim que olhei e vi o
Rui uma sensação de perda completa invadiu-me.
- O Ruben… - o Rui baixou o olhar – foi embora? – perguntei
já a chorar
- Mariana… - aproximou-se e reconfortou-me nos seus braços – o
Ruben saiu e ainda não voltou… mas isso não significa que não regresse…
Não tive forças para refutar o que falou, acho que
usei as que restavam para acreditar e agarrar-me à esperança que o Ruben regressaria
mas passou uma, duas, três… horas e nada, desisti e mergulhei no “vale dos
lençóis” não adormeci… aliás dormir foi algo que não fiz o resto da noite,
talvez pelas horas que já tinha dormido ou porque sempre que fechava os olhos
vi-a o rosto do Guilherme, a felicidade estampada na cara da Maria e do João… e
depois vi-a a dor da perda, aquela que senti e fiz outros sentir por culpa
minha…
Rui
Fui apanhado pelos destroços de duas vidas
completamente desfeitas, não conheço nenhum dos dois profundamente mas ainda
assim é visível que nem o Ruben nem a Mariana estão bem. O rapaz saiu arrasado
e nunca mais voltou, tentei ligar-lhe mas foi parar diretamente à caixa das
mensagens e a Mariana, essa, nem tenho palavras para descrever o estado em que
se encontra, por isso mesmo fui incapaz de deixá-la sozinha, passei a noite no
seu apartamento e de manhã acordei sobressaltado com o estrondo que ouvi,
percebi que vinha da cozinha e por isso fui ver o que se passava, encontrei a
Mari a apanhar os cacos do chão.
- Tu?! – falou assim que lhe agarrei nas mãos
- Sim… anda – puxei-a para que se levantasse – senta-te que
trato disso…
- Deixa-me… isso é só um copo partido que escapou-me
das mãos…
Voltei a olhá-la e percebi o porquê que deixou o copo
cair, todo o seu corpo tremia, tentei que comesse alguma coisa por achar
tratar-se de fraqueza mas não consegui, resolvi então partir para a última
solução, obriguei-a a mudar de roupa, algo que tive de ajudar apesar do
constrangimento que a situação nos causou ou melhor que me causou a mim porque
à Mariana duvido que lhe tenha causado alguma coisa, não no estado em que está,
e depois saímos, só parei no hospital onde a rapariga foi assistida,
colocaram-na a soro.
***
Regressei ao hospital horas depois, uma vez que tive
treino, e encontrei-a com melhor aspeto, pelo menos já não estava tão pálida,
fiquei a fazer-lhe companhia até ter alta e assim que a recebeu acompanhei-a, a
Mariana nem refutou e por isso desviei caminho, não fomos diretos ao seu apartamento
mas sim apanhar um pouco de ar.
- Rui… - olhei e encontrei-a já de pé – vou visitar a
Maria – falou determinada – prometi e vou cumprir!
- Tens a certeza?! – perguntei afinal perdeu os seus filhos
- Não… mas é o correto… - a voz dela esmoreceu – vens comigo?
- Sim… se é isso que queres, vamos!
Acompanhei a Mariana na visita à Maria, algo que
deixou o João intrigado, sim porque a Maria ficou radiante por ver a prima que
nem questionou a minha presença ao lado da Mariana em vez de ser o Ruben.
Estava no meu canto a observar a rapariga, por esperar que quebrasse a qualquer
momento quando o João avisou que iriamos beber um café, olhei-o e percebi a sua
intenção, nem contestei apesar de ter noção que não lhe poderia dizer a
verdade.
- Puto o que se passa? - olhei-o - Nem tentes negar que sabes
mais do que eu… que treta é esta de agora andares atrás da minha prima?
- Hey calma aí… não ando atrás da Mariana ou pelo
menos não nesse sentido que estás a insinuar - falei, afinal não gostei do tom de voz do João - e
sim, tens razão, sei o que se passa mas não posso dizer… desculpa mas é um
assunto delicado e pessoal…
- Mas quem queres enganar?! Conheço-te… e sei que
ultimamente só te queres divertir mas com a Mariana não, ouviste? Ela é mulher
do Ruben…
- Pensa o que quiseres mas antes de me condenares por
um crime que não cometi é melhor falares com o Ruben, isto se a ti atender as
chamadas porque a mim recusa-as…
- Mas o que se passa com estes dois? Estão novamente
armados em parvos…
- João – hesitei mas acabei por deixar escapar algo que o
alarmou – não os julgues… a última coisa que precisam é disso…
- Fala! Diz-me o que se passa porque já percebi que da
Mari não vou arrancar nada e o Ruben casmurro como é...
- Desculpa mas não dá…
O João teria insistido mas a saída repentina da
Mariana do quarto e a urgência dela em procurar um porto seguro foi de tal
ordem que quando reparei já a tinha abraçada a mim, a chorar desesperada.
- Mariana… - o João tentou falar mas fiz-lhe sinal para não o
fazer e levei a Mariana comigo, sentei-a numa cadeira e fui buscar uma garrafa
de água.
Foi quando a rapariga já estava mais calma que vi a
Ana a aproximar-se, temi que a Mariana voltasse a reagir menos bem mas isso não
se verificou.
- Vem comigo! – a Ana ordenou mas a Mariana não mexeu um único
músculo – Estás a ouvir? Deixa de ser teimosa… o João chamou-me porque
tiveste uma crise de nervos – a Mariana continuava “a leste” – Mariana
estás grá… - não deixei a Ana terminar, a Mariana não precisava que lhe
relembrassem que os nervos prejudicam a gravidez, a rapariga aprendeu isso da
pior forma possível e por isso mesmo puxei o braço da médica e amiga deles.
- Ana – respirei profundamente – a Mariana abortou.
- Como?! Não… não é possível… se fosse verdade já
sabia!
- Infelizmente é verdade… mas só nós, o Ruben e a
Mariana é que sabemos…
- Mas como…
- No dia que o Guilherme nasceu a Mariana perdeu os
gémeos, sei disso porque encontrei-a com dores e acompanhei-a ao hospital… a
Mariana não quis contar a ninguém e só o disse ao Ruben porque a obriguei.
- Como é que eles estão?
- Pois… não estão. A Mariana está no estado que vês e
o Ruben a última vez que o vi estava-se a recriminar e agora não atende o
telemóvel, só te contei a ti porque calculei que és a médica da Mariana…
- Tenho que a observar…
- Duvido que deixe mas hoje levei-a novamente ao
hospital, esteve a soro e quanto ao resto foi-nos dito que é uma questão de
tempo para recuperar…
***
Saímos do hospital e seguimos para o meu apartamento,
a pedido da Mariana uma vez que não conseguia ficar sozinha e muito menos
naquele apartamento cheio de recordações.
Mostrei-lhe os meus modestos aposentos e deixei-a à
vontade, arranjei-lhe umas calças e camisola minha para se trocar e quando
voltei a vê-la, a rapariga surpreendeu-me ao pedir que a deixasse ajudar-me a
preparar o nosso jantar, a atitude dela agradou-me, pelo menos estava a tentar
reagir.
Jantamos sem grandes conversas e no final a Mariana
pediu-me se podia usar o portátil de forma a consultar o email, dei-lhe
autorização e a devida password para ligar o portátil.
Acabei de arrumar a cozinha e quando voltei à sala
encontrei-a a chorar, aproximei-me e ao sentar-me do seu lado foi impossível
não olhar para o ecrã, percebi tratar-se de um email do Ruben e por isso li, o
rapaz simplesmente desistiu e isso abalou a Mariana. Deixei-a extravasar a dor
e umas horas depois já dormia, talvez vencida pelo cansaço.
Mariana
Acordei com uma dor de cabeça enorme, talvez por não
ter dormido nada, mas isso não foi impedimento para sair da cama.
- Oi... – murmurei um oi sem grande vontade quando vi o Rui a
preparar talvez o pequeno-almoço
- Bom dia! – sorriu talvez numa tentativa de transmitir-me algum
animo, tentativa essa falhada – senta-te para comeres...
- Não tenho fome – informei enquanto pegava numa das chávenas que
estavam na mesa e vertia um pouco de café
- Nem penses que começas o dia sem ingerires alguma
comida –
bufei, não o conheço muito bem mas a segurança com que falou foi suficiente
para entender que o melhor seria mesmo meter algo à boca
- Tudo bem... – sentei-me e fingi que comi, pelo menos tentei
disfarçar a ausência de vontade em comer
- Tenho treino daqui a nada – olhei-o – mas já deixei uma cópia
das chaves aqui de casa no móvel no hall de entrada para no caso de precisares
de sair... – o que falou surpreendeu-me, estava a oferecer-me um porto de
abrigo mesmo sem conhecer-me de lado algum.
- Obrigada – agradeci – mas não vai ser necessário - as
lágrimas caíram dos meus olhos – já fizeste muito... mais do que seria
suposto – interrompeu-me
- Não te vou virar as costas, estás a precisar de
alguém que esteja atento a ti e neste momento nem a Maria nem o João o podem
fazer e como amigo que sou do João e sabendo o quanto gosta de ti podes ter a
certeza que serei tal como uma carraça é para um cão, vou grudar em ti e
assegurar-me que segues em frente, que darás a volta por cima...
As palavras do Rui tocaram-me, no fundo tem razão
terei mesmo que dar a volta por cima nem que para isso tenha que fazer o
enterro da vida que vive até ao presente, se quero um futuro minimamente
decente tenho de reagir, foi a pensar nisso que ganhei forças e fui até ao
quarto, voltei a vestir a minha roupa e antes de sair avisei o Rui.
- Vou visitar a Maria e o Guigas – o rapaz olhou-me não foi pena que vi no
seu olhar foi mesmo apoio, algo que soube bem, pelo menos sei que não estou
sozinha e que terei um sítio para esconder-me quando assim for necessário,
quando precisar de estar simplesmente sozinha, chorar e recarregar baterias
para continuar em frente.
Segui para o hospital, se quero recuperar alguma
dignidade, sim sinto-me a pior pessoa por ter perdido os meus bebés, terei que
aprender a transformar a dor da perda em amor... amor pelo meu afilhado que não
tem culpa nenhuma do caos que está a minha vida e a Maria... a Maria também
precisa de mim, talvez seja mesmo esse o rumo certo, dedicar-me aos outros e
esquecer que morro a cada segundo, viver na sombra da felicidade dos outros e
aos pouquinhos ir aprendendo a viver com o sentimento de culpa que carrego por
ter morto os meus bebés.
- Mariana! – ouvi a Ana assim que aproximei-me do quarto da
Maria, parei e após respirar profundamente, voltei-me e vi no seu olhar
compaixão
- Diga Dra. Ana – olhou-me abismada
- Mariana... amiga – deu um passo em frente enquanto dei dois para trás
- Não faças isso... não preciso que tenham pena de mim
e muito menos quero falar do que aconteceu...
- Mas tens de falar... tens de ser seguida...
- Eu sei... e vou sê-lo mas não por ti... desculpa mas
não consigo voltar a entrar na clinica, voltar a deitar-me naquela maca e olhar
para o vazio... não Ana... esquece...
A Ana ainda tentou convencer-me a procurar apoio
psicológico porque segundo ela é uma fase complicada mas não aceitei,
complicado foi viver na incerteza que podia ter sida, perder os meus filhos é
viver com uma culpa para todo o sempre, é saber que sou tão ou mais homicida
que os que estão presos, porque foi isso que fiz... matei os meus bebés por ser
teimosa e infantil.
Estive o resto da manhã com a Maria e o Guigas, é
certo que vê-la com o menino nos braços destrói-me mas também ajuda a
clarificar as ideias, tenho mesmo que aprender a lidar com as consequências dos
meus atos e se não posso ser condenada pela morte dos meus bebés, posso sempre
cumprir a minha sentença, esta é ficar do lado do meu afilhado, vê-lo crescer e
amá-lo, é apoiar a Maria nesta fase inicial, é fingir que estou bem para que a
minha amiga fique serena e consiga cuidar do meu pequenino. Foi a pensar nisso
que quando a Maria pediu que fosse para a sua casa não hesitei e mesmo sabendo
que não será fácil, estou disposta a isso, já a prejudiquei demasiado, ter-me
afastado da Maria foi um erro que podia ter custado também a vida dela ou do
Guigas e esse erro nunca mais irei cometer, porque não serei capaz de viver com
uma culpa tão grande.
***
Três dias passaram, comigo dividida entre o hospital,
o apartamento do Rui e os passeios solitários mas que têm ajudado para manter a
cabeça ocupada, hoje foi o regresso a casa da Maria e o momento que o Guigas
conheceu o seu lar, mas foi também o dia que contei que já não há bebés, a
Maria respeitou o meu pedido e simplesmente apoiou-me sem grandes perguntas.
***
Um mês passou desde o fim de uma vida que nunca foi
minha, hoje já percebo as palavras que li e reli centenas de vezes naquele
email que o Amorim enviou-me, realmente ser mãe e casar nunca deveria ter feito
parte dos meus planos…
Hoje acordei mais uma vez na casa do Rui, sim tenho
ficado no seu apartamento mais vezes do que aquelas que seria suposto, mas a
verdade é que ser a quase a mãe do Guigas tem arrasado comigo, a Maria
atravessou uma fase complicada mas felizmente já passou e agora já cuida do
filho como uma mãe deve cuidar, por isso mesmo já não precisa de mim
constantemente e foi no Rui que encontrei o escape, foi o lagarto que
acompanhou-me e animou-me sempre que precisei, principalmente no dia que contei
à Maria que afinal já não será madrinha, pelo menos de um filho meu, esse dia
foi difícil, relembrei a perda dos meus minimeus e tudo o que daí resultou mas mais
uma vez o meu amigo esteve presente e não deixou que voltasse a bater no fundo,
tal como esteve presente no dia que recebi todos os meus pertences que se
encontravam em Braga e que foram enviados pelo Ruben sem aviso prévio, ou como
esteve do meu lado na consulta que a Ana obrigou-me a ter ou ainda no dia que
enfrentei os Mendes e que esclareci que preciso de tempo para aceitar a mentira
que contaram, que quero simplesmente deixar o tempo passar para a mágoa
desaparecer.
- Maria despacha-te! – reclamei afinal já devíamos estar em Alvalade
- Tem calma… ainda temos tempo… afinal que pressa é
essa para veres os lagartos? Ou será que é um lampião bracarense que queres ver?
Não respondi, se há algo que aprendi nestes trinta
dias, foi a bloquear os meus ouvidos ao assunto Amorim.
Chegamos a Alvalade e tal como tinha combinado, com o
Rui, subimos de imediato para o camarote, onde encontrei algumas das namoradas
dos lagartos, cumprimentei-as e apresentei a Maria às que ainda não conhecia.
- Bem… não sabia que estás assim tão entrosada…
Não lhe dei resposta, acomodei-me simplesmente na
cadeira exterior do camarote e fiquei a ver o aquecimento do Rui que entretanto
tinha pisado o relvado. Estava concentrada nele quando ouvi a primeira
assobiadela da noite, não foi difícil adivinhar o motivo, a equipa do Braga
tinha iniciado o aquecimento, neste momento começou uma luta árdua dentro de
mim, a razão contra o coração, a primeira impedia-me mas a segunda obrigava-me
a olhá-lo, resisti durante o aquecimento todo, bem como parte do jogo mas
quando percebi que seria substituído caí no erro de olhá-lo, o Ruben parecia
feliz, sim feliz e isso corroeu-me, já teria esquecido tudo o que partilhamos…
Ruben
Os primeiros dias foram complicados, entrar em casa e
não ter a Mariana à minha espera doía, tal como doía abrir o armário e
encontrar as suas roupas ou olhar para os móveis e ver fotos ou objetos dela,
por isso tomei a decisão de guardar tudo em caixas e enviei-lhe por uma empresa
de mudanças. Desde esse dia que nunca mais tive contato com a mulher da minha
vida, que infelizmente terei que esquecer e por isso mesmo voltei ao que fui no
passado, pelo menos enquanto andava entretido com outras não pensava na merda
de vida que tenho.
Um mês passou e o regresso à capital aconteceu, sim
desde que descobri que a Mariana abortou nunca mais regressei, talvez por medo
de não resistir procura-la, mas hoje o Braga joga com o Sporting e por isso não
tive como fugir. Passei o dia com um só pensamento, sabia que se perguntasse ao
Rui notícias da Mariana que as teria por isso só tinha que evitar cruzar-me com
ele.
O jogo correu bem, apesar de ser substituído até fiz
um bom jogo e no final despachei-me rapidamente afinal tinha alguém à minha
espera, a verdade é que não regresso a Braga com a equipa e convidei a minha
mais recente “amiga” a conhecer a capital assim sabia que não caía na estupidez
de procurar a Mariana.
Estava ao telemóvel, a falar com a Sofia para saber
onde estava quando oiço a voz do Rui, olhei e encontrei-o com a Maria que tinha
o Bruno no colo, foi impossível fingir que não os tinha visto porque a minha
amiga chamou-me, aproximei-me e a cada passo que dava sentia o meu coração a
apertar mais, porque se a Maria ali estava a Mariana também estaria…
- Boa noite – falei assim que fiquei diante do meu afilhado e da
mãe
- Seja bem aparecido! - a Maria reclamou
- Desculpa… - teria continuado a justificar-me mas fui abraçado e
beijado, sim a Sofia aproximou-se sem que tivesse visto e quando reparei tinha
a Maria a olhar-me desiludida – Maria…
- Cala-te! Não vales nada… a minha prima a sofrer e já
andas noutra… agora percebo a merda de email que lhe enviaste… o porquê que nem
pelo Guigas voltaste a Lisboa, o porquê que sempre que falávamos afirmavas
estar bem… sempre pensei que mentias mas pelo que vejo estás excelente…
A Maria voltou costas e desapareceu com o Guigas e
quando virei-me para a Sofia numa tentativa que me largasse, vi a Mariana
especada a olhar, não consegui descortinar o que lhe ia no pensamento, estava
simplesmente inerte, não sei porquê, só sei que quando caí em mim estava diante
da Mariana, tinha caminhado até si.
- Mariana… - olhou-me – como… como é que estás? –
perguntei mas que raio de pergunta mais estúpida
- Como estou? – sorriu mas um sorriso diferente de todos os que já
vi como sendo seus – a respirar… sim é isso… estou a respirar – atirou
antes de se afastar, segui o seu trajeto com os olhos e facilmente percebi que
caminhava para os braços de outro…
Mariana
O que temia aconteceu, cruzei-me com o Ruben, pior
ainda confirmei com os meus olhos que sou passado na vida dele, doeu vê-lo
agarrado a outra, a beijar uma loira oxigenada mas tudo aquilo deu-me também
força, sim parece mentira mas senti força, encontrei ali um motivo para
destruir de vez o pouco que ainda me ligava ao Ruben.
- Vamos?! – perguntei assim que cheguei junto do Rui e da minha
prima
- Mari…
- Prima – olhou-me surpreendida, pela primeira vez desde que
descobri que não sou Mendes de sangue chamei-a de prima – M-O-R-R-E-U –
soletrei letra por letra.
- Oh prima – a Maria abraçou-me
- Oh prima nada! – soltei-me dos seus braços – Sim doeu mas serviu
para perceber que só perdi tempo do seu lado, o Ruben acabou de morrer para
mim, é passado e apesar de estar a doer sei que o vou esquecer e encontrar algo
que preencha o vazio que deixou – respirei fundo – e agora vamos que
tenho de deixar-te em casa antes de seguir com o Rui – o meu amigo sorriu –
sim que hoje preciso do meu lagartinho preferido…
Saímos do estádio no meu carro, fui deixar a Maria a
casa e pelo caminho o assunto “Ruben” não surgiu. Despedi-me da minha prima e
do Guigas e segui com o Rui no seu carro.
- Onde queres ir?
- Rui… lagartinho… decide tu… estou por tua conta e
risco!
- Gosto disso… - olhei-o e encontrei-o a sorrir – ah e só digo
uma vez… esquece não te merece…
- Sim… sei disso mas dói na mesma…
- O que dói e não mata torna-nos mais fortes… se está
a doer é sinal que está a sarar… daqui a um tempo será só mais uma história que
fará parte do teu passado…
- Sim…
O resto da viagem foi animada com o Rui a contar
piadas o que é hábito nele, somos jantar os dois e depois seguimos para um bar.
Pedimos uma bebida cada um e fomo-nos sentar numa mesinha num canto recatado,
estávamos a falar quando reparei na presença do Exmo. Sr. Dr. Ruben Amorim e da
sua loira oxigenada.
- Que foi? – perguntou quando bufei, simplesmente fiz sinal com
a cabeça, o que foi suficiente para perceber o motivo – queres ir embora?
- Não… anda vamos sacudir a poeira!
- Vamos o quê?!
- Dançar filho… dançar…
- Bora!
Levantamo-nos e com o copo na mão fomos até ao centro
da pista de dança, pelo menos lá não conseguia vê-lo. Não sei o tempo que
tivemos a mexer-nos, sim mexer-nos porque se há coisa que o Rui não tem jeito é
para dançar, por isso mesmo estávamos mais numa de conversarmos enquanto
mexíamos os pés e bebíamos.
A noite que chegou a estar ameaçada pela presença do
Amorim acabou por se revelar positiva, deu para distrair-me mas principalmente
cansar-me, tanto que quando cheguei à cama, do quarto de hóspedes do
apartamento do Rui dormi até à hora de almoço.
Ruben
A forma como respondeu e depois como a vi de sorrisos
para o Rui deixou-me triste, a Mariana estava a seguir em frente, a fazer o que
lhe disse para fazer, confesso que esperava encontra-la abatida ou mesmo de
rastos, mas não, a Mariana estava bem… sim bem porque se não estivesse nunca
teria conseguido responder-me com aquela calma toda e muito menos agir como se
nada fosse… será que já esqueceu tudo o que vivemos? Será que o aborto foi
mesmo o melhor? Será que algum dia vou encontrar alguém capaz de preencher o
vazio que deixou no meu coração…
Estava a pensar nisso quando sou interrompido pela voz
da Sofia a pedir para irmos até a um bar, fiz-lhe a vontade, até porque se
fosse para casa seria bem pior, afinal o meu apartamento contínua como o
deixei, cheio de recordações da Mariana… Escolhi o bar ao acaso, para mim
qualquer canto servia… tive a sorte da escolha agradar a Sofia, tanto que quis
dançar, fiz-lhe a vontade mas arrependi-me amargamente de o ter feito, pois tive
que ver a Mariana nos braços de outro, assisti de “camarote” à descontração
daqueles dois, o Rui e a Mariana dançavam, falavam e sorriam, sim sorriam,
aquele sorriso dela… que em tempos foi meu agora pertencia a outro, muito
provavelmente até o seu corpo já lhe tinha entregue, a cumplicidade que
demonstravam ter espelhava isso perfeitamente… sim sem duvidas que já tinham
ido para a cama…
***
Rui
Acordei com uma voz doce a chamar-me, não foi difícil
perceber de quem seria, afinal no último mês tem sido frequente acordar com a
Mariana a chamar-me, a verdade é que sinto-me um autêntico puto que é acordado
pela mãe quando já tem o pequeno-almoço na mesa. Nestas últimas semanas
construí uma amizade sincera com a Mari, é incrível a forma como lida com a dor
da perda, conseguiu dar a volta por cima e apesar de ainda lhe doer e muito já
não se deixa abater sempre que ouve o nome do Ruben, no início de Junho começou
o carnaval em torno do regresso do rapaz ao Benfica e desde esse dia o nome
dele aparece sempre ou em conversas ou quando vemos as notícias mas ao
contrário do que temi para a Mari já lhe passa ao lado, ainda assim sei que
magoa mas evito tocar no assunto.
- Ainda demoras?! – perguntei já farto de a esperar
- Entra! – pediu-me afinal há uma barreira que sempre fizemos
questão de impor entre nós, a barreira do respeito mutuo e não invadimos a
privacidade um do outro a menos que seja autorizado como neste caso em que
pediu que entrasse – Ajuda-me aqui…
- Realmente… mulheres! – olhou-me de lado – sim são todas iguais…
querem meter colares e depois quem os coloca somos sempre nós…
- Oh… deixa-te de coisas e vamos que não posso chegar
atrasada ao batizado do meu afilhado
- Levasses menos tempo a despachar-te!
- Ai… já tiveste a falar melhor… olha que para amigo
andas a opinar demasiado como apêndice – gargalhei perante a forma como se referiu a um
namorado
- Engraçado… a menina é que está em casa alheia – impliquei e por isso fomos o caminho
todo a retorquir um com o outro, algo que em nós é comum.
Chegamos a casa do João e tivemos o desprazer de nos
cruzarmos de imediato com o Ruben.
- Olá – a Mariana tomou a iniciativa de o cumprimentar com
um beijo no rosto, o que o surpreendeu pois não conseguiu reagir.
- Tudo bem? – segui o exemplo da Mari e também o cumprimentei
afinal não tenho nada contra o rapaz.
- Sim… - o Ruben olhou-nos alternadamente – e convosco?
- Melhor impossível… - a Mariana esclareceu-o – o nosso afilhado onde
anda?
- No quarto à espera que a madrinha o vá vestir…
- Ups… - a Mariana virou-se para mim – já estou a levar
nas orelhas e a culpa é tua… sim tua porque te fiz o pequeno-almoço…
A Mariana fez de propósito para que o Ruben percebesse
que tínhamos passado a noite juntos, por momentos tive vontade de desmentir os
pensamentos que o Ruben deve ter tido mas não o fiz até porque a Mari se
afastou e o Ruben seguiu-a.
- Puto – olhei para o João – agora que somos só os dois
confessa lá que já és meu primo…
- Estás parvo?!
- Ohhh vais dizer que nunca…
- Cala-te… não digas disparates porque isso não tem
fundamento nenhum, somos só amigos.
- Sim… pois… e eu sou virgem queres ver?!
- João se conheces a Mari sabes perfeitamente que ama
o Ruben, pode não o admitir mas ama… tanto que ama que é o nome dele que diz
enquanto dorme… só ainda não percebi se é sonho ou pesadelo… a sério pára com
essas bocas porque entre nós não se passa rigorosamente nada, ao contrário do
Ruben que seguiu mesmo em frente a tua prima ainda continua de certa forma
pressa ao passado.
- Então e tu?
- Eu?!
- Sim não te faças de desentendido… já curaste os teus
males de amores?!
- Está quase… mas prefiro não falar disso…
O João respeitou o meu pedido e acabamos por ir até ao
quarto onde o Guigas estava a ser vestido, assim que lá entrei o meu olhar
cruzou com o da Mariana e percebi o esforço que fazia para sorrir, a presença
do Ruben do seu lado estava a consumi-la, ainda assim aguentou firme.
Como terminará o dia?
Olá! (que conste que vou conter-me nos palavroes, a Mari ja os leu uma vez quando discutimos o assunto Amorim nos tempos livres xD)
ResponderEliminarPrimeiro, nao gosto do Ruben. que va pastar! ele desistiu por isso nao posso ficar do lado dele! nao o fez so pela mari, mas tambem por ele, porque preferiu desistir a lidar com a culpa. é fraco e voltou à era de comer tudo o que mexe. Homens! -.-'
Quanto à Mariana agradou-me que conseguisse reagir e ate...destroçar um bocado o Amorim ao dar a entender qe esta com o rui mesmo que nao esteja (o ruben merece que ela use e abuse da qualidade de martiriza-lo!)
Este batizado vai dar que falar... Estou para ver isso!
Venha o proximo!!
Beso
Ana Santos
Olá meninas : )
ResponderEliminarPeço imensas desculpas por andar desaparecida!
Tenho lido os vossos capitulos e tenho adorado com já é hábito!
Espero que este dia continue a correr bem ahah adorei o facto do Ruben achar que a Mari está com o Rui xD
Aguardo o proximo
Beijinhos
Ritááá xD
"naquele email que o Amorim enviou" confesso que ver a Mariana tratar o Ruben por Amorim não me agrada, é triste :(
ResponderEliminarNão posso concordar com a Ana Santos não acho que ele desistiu apenas lhe deu espaço para a Mari poder curar as feridas dela, porque com a perda dos bebés, eu acho que, ela percebeu que estava errada em relação à Maria e até mesmo à família.
Estou a gostar da personagem do Rui, talvez venha a sofrer se se apegar demais à Mariana, mas acho que ambos merecem um final feliz e o Ruben também.
Estou a gostar mesmo do rumo da Maria e do João afinal agora são uma família e estão a agir como tal, espero que continuem assim, porque para eles já basta de confusões.
Abreijos
PatríciaQ
Adorei quero o próximo.bjs
ResponderEliminar"Lagartinho"??? "Amorim"??? Qué isto????
ResponderEliminarMeu deu, neste momento tenho o coração completamente partido!!
Como é que o Rubén foi desistir?? Que fraco!!! E ainda por cima voltou aos velhos tempos!! Que estupor!
Detesto ver a Mariana com o Rui!!! Não gosto nada!! E agora até já vê jogos do Sporting?! :o Coitada a rapariga está mesmo mal!!!
Bem é bom que isto comece a melhorar porque eu só tenho um coração!!!!
Ah estou ansiosa para ver no que vai dar este batizado!! Espero que pelo menos o Rubén não leve companhia! Ele foi mesmo parvo em desistir!!E deixa-me realmente triste que a Mariana o trate como o Amorim! Mas ela até me surpreendeu em cumprimentar o Ruben!
ResponderEliminarEstou ansiosa pelo próximo, quero ver como corre este batizado!
Olá! :)
ResponderEliminarEu não queria ver o Amorim (para usar as palavras da Mariana) "baixar os braços",por isto vocês vejam lá como vem o próximo que não quero que ele faça mais "asneiras" lool
Fico à espera de mais deste baptizado (que acho vai dar que falar :P)
Beijinhos
Rita
fabuloso...
ResponderEliminarquero mais... cada vez está melhor...
continua... tou super curiosa para ver o proximo...
A cada capítulo, uma emoção diferente. Ai, meu heart!! LOOL
ResponderEliminarO Ruben... af, o Ruben é mesmo parvo, pelo amor. Primeiro fez o que fez, depois ainda tem a cara de pau de insinuar mentalmente o que insinuou em relação à Mariana. Ok, também não sou lá muito fã desse Rui mas ele acha que tem moral pra falar alguma coisa? É que eu acho que não, muito menos com essa loira ao lado. A Mariana que está reagindo a tudo muito bem.
Estou amando, quero muito saber como vai ser esse batizado.
Beijos :*
Gabi
Olá.
ResponderEliminarCapítulo lido, e só tenho a dizer que o Rúben é qualquer coisa de...hun...idiota!? Não, é pior do que isso mas nem sei se consigo um insulto que esteja à altura xb
Beijinhos
Eu não condeno o Ruben, e não acho que ele tenha desistido, acho que acima de tudo ele culpa-se por não ter estado junto da Mariana no momento em que ela mais precisou dele, por isso ele se afastou, pois ele acha que a presença dele só a prejudica, e por gostar tanto dela escolheu afastar-se. Também não gosto que tenha voltado à antiga vida. A Mariana também não tem tido uma atitude melhor, embora não ande enrolada com o RP, também não me agrada esta proximidade, e até o facto de passar as noites na casa dele ela podia evitar, mas no fundo o que ela gosta mesmo é de continuar a provocar o Ruben, porque ela pode dizer as vezes que quiser que o Amorim morreu, que ninguém vai acreditar, acho que nem ela mesma. Se ela quer ser forte, ou melhor, mostrar que é forte acho que não é assim, perder um filho não deve ser fácil, mas ela acabou por perder os filhos e o homem que ama, se em relação aos filhos pouco podia fazer, em relação ao Amorim, como ela diz, podia lutar mais, mas também ela desistiu. Nesta história não há um culpado mas dois, porque são os dois responsáveis pela situação que estão a viver. A única coisa boa é que a Mariana voltou para junto da prima, agora só espero que o batizado corra bem.
ResponderEliminarAdorei o capitulo, como sempre, e adoro a história como já disse tanta vez à Mari.
Beijocas
Fernanda