sábado, 23 de novembro de 2013

109 - "...depois cada um segue a sua vida..."

Mariana
Acordei com uma só vontade, esquecer o dia de ontem e para isso tentei usar o “escape” do Filipe ao perguntar ao Ruben se o ia ver, mas aquele que amo foi bem explícito ao afirmar que preciso de ajuda... sei que tem razão, que preciso mesmo de virar a página mas sinto-me incapaz de reviver tais memórias, só quero esquecer, no entanto já se passou um ano e aquela tarde e noite continua tão presente na minha memória...
Tentei fugir mais uma vez ao refugiar-me na casa de banho, não sei o tempo que demorei, só sei que quando saí embrulhada numa toalha lá estava ele, o Ruben estava decidido a fazer marcação serrada.
- Mas não desistes?
- Não me peças para desistir da MINHA VIDA - olhei-o - Mariana és a MINHA VIDA e não aguento ver-te assim - as lágrimas molharam-lhe o rosto - porque enquanto não estiveres bem eu também não estou! Dói ver-te assim e a culpa que sinto corrói-me por dentro, sei que te abandonei e que no meio disto tudo sou o que menos mural tenho para te pedir ou exigir alguma coisa mas também sei que neste momento sou o único que conseguirei fazer algo por ti e não, não me peças para cometer o mesmo erro e abandonar-te de novo! - deu um passo na minha direção, reduzindo assim a distância a nada, estávamos agora com os rostos colados - nós precisamos de superar a dor e vamos fazê-lo juntos, só assim conseguiremos aguentar mas acima de tudo superar o que nos aconteceu.
- O que nos aconteceu?! O que aconteceu é muito simples não sou suficientemente mulher para aguentar uma gravidez! É isso que aconteceu e não é a falar com uma psicóloga que passarei a ser - respondi aos gritos
- Não quero saber se és ou não suficientemente mulher para suportar uma gravidez, o que quero é a MINHA MULHER! Aquela que não vira a cara, que não desiste e tu estás a desistir de TI, DE MIM, DE NÓS!! - respondeu-me também aos gritos talvez para que me calasse - e não vou deixar! Nós até podemos nunca mais voltar a namorar mas garanto que não desistirei de ti, independentemente de tudo és minha amiga por isso não peças que te veja a caminhar para o abismo e não faça nada...
- Ok queres que vá a merda de uma psicóloga eu vou mas depois cada um segue a sua vida, porque garanto-te que serei incapaz de olhar novamente para ti...
- Isso é o que veremos! E agora vou ligar à Ana a perguntar se consegue interceder por nós e marcar uma consulta para hoje!
- Não é preciso...
- Cala-te! Quem sabe o que é preciso sou eu!
- Não és meu pai!
- Pois não sou aquele que amas e que te ama!
A vontade que tive foi de lhe bater mas até para isso estava sem forças. Acabei por correr com ele do quarto para que pudesse vestir-me e assim que entrei na sala
- Temos a primeira consulta dentro de duas horas! - olhei-o - Se quiseres podemos ir ver o Filipe...
- Não uses o menino para me dares a volta! - sorriu
- Longe de mim usar o nosso menino para dar-te a volta - fiquei sem reação ao ouvir o “nosso menino” e quando voltei a mim já o tinha bem próximo - és difícil mas ainda tenho argumentos suficientes para conseguir que entendas o que é melhor - agarrou-me as mãos - Mariana vai doer, vai magoar e ao início até podemos achar que não está a resultar mas no final tudo acabará bem...
Não respondi mas caí no erro de o abraçar, voltei a ceder e a deixar que me desse a volta...

Ruben
Dez dias passaram desde que vi a Mariana naquele desespero e desde esse dia que temos “trabalhado” juntos para recuperarmos a alegria de viver, a verdade é que as nossas vidas tiveram suspensas durante o último ano.
As sessões com a psicóloga têm sido duras, especialmente a primeira onde a Mariana contou com detalhes aquela tarde e noite, ouvir tudo fez-me sentir ainda pior, não sei como é que conseguiu suportar tudo mas o certo é que conseguiu, caso contrário não a teria comigo agora...
Os últimos dias têm sido divididos entre os treinos, o hospital para estar o máximo de tempo com o Filipe e os momentos com a Mariana. A verdade é que com a desculpa das consultas tenho aproveitado ao máximo todas as oportunidades para estar do seu lado e os passeios após sairmos das sessões têm-se tornado recorrentes...

Sofia
A melhor coisa que me podia ter acontecido foi ver-me livre daquela coisa que estava dentro de mim a pesar cada vez mais... A verdade é que já não servia para nada e quanto mais depressa visse livre melhor... por isso mesmo quando acordei naquela cama de hospital e fui informada que a aberração estava a lutar pela vida desejei a sua morte, era só o que mais faltava ter que cuidar daquilo... se quisesse um animal de estimação tinha um cão ou gato...
Felizmente só tive de ficar uns dias naquele quarto, ainda assim foi demasiado tempo... todos queriam convencer-me a visita-lo e isso só irritava, ainda mais sabendo que o Ruben também não estava interessado no monstrinho...
Ao fim de três semanas recebi uma carta do tribunal a informar que tinha de registar aquela coisa... adiei ao máximo mas não tive outra solução do que entrar em contacto com um advogado que tratou de todo o processo, não queria ter mais contacto com o monstro...
Os dias foram passando e já sentia novamente com forças para lutar pelo que é meu por direito por isso regressei a Lisboa para estar perto do Ruben... Descobri que afinal o senhor certinho assumiu aquilo... assumiu o monstrinho depois dele nascer... aquilo revoltou-me porque aquela coisa estava a rouba-lo de mim... Passei os dias seguintes a desejar pela milésima vez que algo acontecesse mas de cada vez que ele saía do hospital o seu sorriso não enganava... o Ruben estava feliz... nunca o tinha visto sorrir assim...
Mas se este tempo serviu para perceber que se for boa mãe que o terei para mim também serviu para descobri que a outra mo quer roubar... começou a ser frequente vê-la a rondar o Ruben e não sei como consegui controlar-me quando os vi sair a sorrir e depois seguirem juntos no carro dele, o clima era evidente... Segui-os e percebi que estavam às compras para o atrassadinho... ela estava a ocupar o meu lugar e isso não deixarei nem que...
Os dias continuaram a passar comigo atenta a todos os passos daquele que é meu... consegui descobri o buraco onde aquela que vou ter que despachar vive... o Ruben anda a passar muito tempo com ela...
Sessenta dias depois finalmente sinto-me novamente eu... cada vez tenho menos marcas no meu corpo... agora já consigo olhar ao espelho e reconhecer-me, aquela coisa bem tentou deixar-me feia mas não conseguiu... finalmente posso voltar a aparecer à frente do Ruben... agora sim já tenho corpinho para isso...
Saí de casa com um único objectivo... esperar o Ruben no hospital para entramos juntos... se o quero para mim vou ter que tolerar a presença daquela coisa nas nossas vidas, pelo menos até conseguir livrar me dele...
Estava já a perder a paciência uma vez que o Ruben nunca mais chegava quando vi o seu carro mas com ele vinha a outra estúpida... ainda pensei em ir até junto dele mas ao vê-lo a tirar a cadeirinha do carro percebi que é hoje que a aberração vai para casa, algo que não estava de todo nos meus planos e por isso deixei-me ficar sossegada.
Vi-os a entrarem de sorriso no rosto mas pior que isso abraçados, sim o Ruben colocou o seu braço por cima dos ombros daquela estúpida e isso revoltou-me… Assim que os deixei de ver, ocupei o pensamento com uma só cena, a melhor forma de começar a atormentar a vida deles… o Ruben só terá descanso quando perceber que só comigo será feliz…

Ruben
Hoje faz sessenta dias que o meu menino nasceu e é um dia que ficará marcado para sempre na minha vida e na vida do Filipe, finalmente vou poder levar o meu filho para casa.
Estava a terminar de comer o pequeno-almoço quando tocaram à campainha e assim que vi quem era um sorriso surgiu no meu rosto.
- Bom dia - deu-me dois beijinhos
- Posso saber o que fazes aqui quando deverias estar a trabalhar?
- Dever devia mas como hoje é um dia especial - olhei-a - meti o dia de férias...
- Isso quer dizer que vais comigo buscar o nosso menino - quando falei “nosso” a Mariana olhou-me e notei surpresa mas quem ficou verdadeiramente surpreendido fui eu quando a Mariana respondeu
- Se deixares...
- Só faz sentido se fores comigo - respondi de sorriso no rosto
- Então vamos!
- Isso é tudo pressa para o trazeres para casa?
- É! O lugar do menino é aqui!
- O lugar do nosso menino é ao NOSSO lado… - interrompeu-me
- Ruben não tentes usar a vinda do Filipe para casa a teu belo prazer!
- Desculpa…
- Esquece! E agora vamos!
- Ok vou só buscar a cadeirinha do Filipe ao quarto!
- Trás também o saco dele!
- Ãh?
- O saco com as fraldas e tudo o que o menino precisa para quando sai de casa - olhei-a sem entender - porra o saco que tens em cima da cómoda e que deixei pronto ontem quando aqui estive! - sorri ao perceber mais uma vez todo o cuidado que tem com o Filipe
Fui ao quarto buscar o que pediu e quando regressei encontrei-a a olhar para uma foto nossa que tínhamos tirado há uns dias num passeio à beira-rio depois de mais uma sessão com a psicóloga
- Para ser perfeita só falta aí o Filipe - aproveitei que estava de costas e que não tinha dado pela minha presença para a abraçar, falando desta forma ao seu ouvido, o que a fez suspirar
- Já tens tudo?
- Porquê que insistes em continuar a fugir? - olhou-me
- Porque é o melhor para todos…
- O melhor para todos é assumires que dependes de mim para ser feliz tal como dependo de ti!
- Ruben não insistas! E agora vamos!
A Mariana soltou-se dos meus braços e saiu, fui atrás levando a cadeirinha uma vez que o saco do menino, ela levou-o.
Conduzi calmamente até ao hospital e pelo caminho falamos de tudo um pouco mas foi quando chegamos que ao vê-la a retirar o saco do carro que tive de a questionar
- Porquê que insististe em levar o saco? - olhou-me
- Porque é aqui que tenho a roupinha para vestir ao Filipe e porque o menino pode precisar de alguma coisa…
- Mas do hospital vamos diretos a casa…
- Não compliques! E deixa isto para quem sabe! - olhei-a e foi impossível não sorrir, tal como foi controlar a vontade que tinha e por isso abracei-a
- Larga-me! - olhou-me
- Não consigo…
- Desculpa?!
- Oh Mariana… - desviei o olhar
- Que foi?
- Será que vou conseguir…
- Lógico que vais! Ruben pode ser complicado ao início mas daqui a uns dias já tudo será normal, passará a ser a tua rotina e sentirás mais segurança…
- Só espero que tenhas razão…
- Lógico que tenho! - falou determinada e pela primeira vez no dia abraçou-me, o que aproveitei para a puxar ainda mais para mim e foi abraçados que entramos no hospital
- Ena que novidade é esta? - a Mariana assim que ouviu a Ana largou-me
- Não é novidade! É mais do mesmo - a nossa amiga olhou-nos à vez - aqui o menino está com medo da nova fase…
- Pois e tu como boa amiga que és, vieste apoia-lo não resistindo a abraça-lo… pois sei!
- Não comeces! - pedi e a Ana lá parou, acompanhando-nos até ao gabinete do pediatra do Filipe.
Os minutos seguintes foram para o pediatra nos explicar os cuidados redobrados que teremos que ter com o Filipe, bem como algumas dicas que poderão ser-nos úteis daqui para a frente. Voltou ainda a explicar que não podemos ou melhor não devemos comparar o desenvolvimento do Filipe com o de um bebé de fim de tempo, porque o nosso menino terá sempre um “atraso” em relação a esse outro bebé, tanto que para se poder “comparar” as fases de crescimento por norma usam o que chamam de idade corrigida, que não é mais que retirar aos meses que o bebé tem desde que nasceu o número de meses que faltava para o fim do tempo, ou seja no caso do Filipe apesar de já ter dois meses na idade corrigida é como se tivesse acabado de nascer, daí não podermos esperar que o menino comesse já a sorrir ou a fazer gracinhas…
O que podemos e devemos fazer é estimula-lo ao máximo para que o seu desenvolvimento seja cada vez mais progressivo e foi isso que também nos foi explicado. A Mariana tal como eu teve sempre atenta e aproveitou para retirar dúvidas, o que acabou também por dar-me alguma serenidade pois sei que terei nela um apoio fundamental…
Finalmente o momento de levá-lo chegou, fomos até junto do Filipe e foi a Mariana que o vestiu, sim que apesar do menino não estar nu, o meu amor meteu na cabeça que aquilo não era roupa para o menino sair do hospital, enfim… mulheres!
Aproveitei para registar o momento, afinal era o último dia do Filipe naquela unidade…
- O papá está pronto?
- E a mamã?
- Ruben!
- Mariana!
- Estás aqui, estás ali!
- Desde que te tenha do nosso lado estou onde quiseres!
- Chega! Estás a passar todos os limites!
Resolvi terminar com a brincadeira antes que a Mariana se chateasse a sério comigo e depois dela colocar o menino na cadeirinha, agarrou no saco colocando-o ao ombro e a mim coube-me a tarefa de levar o nosso menino.
Caminhava feliz por ter finalmente o Filipe connosco mas assim que transpor as portas do hospital para o exterior desci ao “inverno” sem esperar fomos fotografados, estavam jornalistas à nossa espera e não tiveram qualquer problema em invadir a nossa privacidade.
De um momento para o outro vi-me rodeado de jornalistas que queriam a melhor foto, a sorte é que a Mariana antes de sairmos do hospital resolveu tapar a cadeirinha com uma fralda de pano… Aqueles que tinha diante de mim não tiveram acanhamento nenhum e começaram com perguntas atrás de perguntas, queriam saber detalhes que não estava disposto a partilhar e por isso mesmo recusei prestar qualquer tipo de declaração, ainda assim voltaram a insistir, foi ao ponto da Mariana tomar uma atitude, pediu-me as chaves do carro e depois pegou na cadeirinha do Filipe levando-o até ao carro ou melhor tentou porque houve um engraçadinho que se colocou à sua frente
- Importa-se de sair? Quero passar!
- É verdade que depois de tudo regressou para o Ruben Amorim? E está disposta a assumir um filho que não é seu mesmo depois de ter perdido dois?
- É a verdade que quer? - por momentos temi o que pudesse dizer, a Mariana estava nitidamente com cara de quem ia aprontar alguma - Então tudo bem… a verdade é só uma e resume-se à - neste momento já estavam todos atentos ao que falava - à vossa falta de profissionalismo!
- Não lhe admito…
- Não admite o quê? Que diga que não tem ética profissional? Lamento mas não tem mesmo! Você não veio à procura de informar os leitores do seu jornal, você veio tentar esmiuçar a minha vida pessoal e achou-se no direito de opinar sobre um assunto que não lhe diz respeito, quando não pediu sequer permissão para o fazer! Vocês acham-se os senhores da razão mas esquecem-se que também são humanos, nenhuma mulher está livre de perder os seus filhos, nem a sua… páre por uns minutos e pense em como a sua mulher se sentiria se depois de perder os vossos filhos houvesse alguém que aparecesse na sua frente com uma câmara apontada ao seu rosto e perguntasse se ia substituir os filhos que amava mas que infelizmente não conheceu por outro que até nem é seu mas sim filho de um amigo de longa dada…
Mas já que estão assim tão interessados no assunto posso esclarecer que uma parte de mim morreu há pouco mais de um ano, morreu junto com os nossos filhos - dei a mão à Mariana - só quem perdeu os seus filhos desta ou de forma idêntica saberá o que sinto, só essa mulher entenderá que vocês são uma cambada de insensíveis!
Aproveito ainda para esclarecer que a única relação que me liga ao Ruben é unicamente a amizade.
- Mas não tem como negar que ultimamente estão mais próximos, a Mariana até regressou a Lisboa após o nascimento do filho do Ruben…
- Sim regressei por motivos profissionais e pessoais que nunca tiveram relacionados com o nascimento do menino e muito mesmo com o hipotético reatamento da nossa relação!
- No entanto são vistos frequentemente em clima de romance - o palhaço que abriu a boca para falar da perda dos gémeos voltou a mandar a boca e quando já preparava para responder a Mariana voltou a fazê-lo
- O que é que pretende? Que admita que amo o Ruben? Ou que admita que reatamos? Ou ainda que serei mãe do filho dele? Ah espere quer que diga o que vende… é isso! Então aqui vai… sim amo o Ruben e continuarei a amar, não reatamos a relação entre homem e mulher mas reatamos a amizade, amizade essa que no passado nos manteve sempre no rumo certo, éramos o apoio um do outro e é assim que queremos continuar. Quanto ao facto de ultimamente andarmos mais tempo juntos, é perfeitamente normal, como amiga senti o dever e até a obrigação de o apoiar, independentemente do que sempre senti de cada vez que entrei na unidade de neonatologia ou o que sinto sempre que dou colo e conforto ao menino ou ainda o que sinto por ter noção que nunca saberei o que é ser mãe mas isso não vos interessa, o que interessa é enxovalhar a vida das pessoas… então os meus sinceros parabéns porque de facto fazem um trabalho exemplar mas comigo garanto que não o farão, porque acabei de admitir a única verdade existente… façam dela o que quiserem mas garanto que se vir uma vírgula fora do lugar no mesmo instante processo quem tiver que processar!
E agora deem licença o carnaval terminou!
Ainda estava a assimilar o que a Mariana tinha admitido quando os jornalistas se afastaram permitindo desta forma a nossa passagem.
- Estás bem? - perguntei assim que entramos no carro, isto depois da Mariana certificar-se que a cadeirinha do Filipe estava bem presa
- Sim…
- E agora a verdade - olhou-me
- É a verdade que queres? Então fica a saber que pela primeira vez consegui falar da perda dos gémeos sem ter vontade de chorar mas também não quero continuar a falar disso…
- Desculpa - pedi ao agarrar a sua mão que estava pousada na sua perna esquerda - a culpa disto é toda minha…
- Shiu! Ruben não tens culpa ou melhor tens tanta culpa quanto eu… nós erramos os dois no passado e no presente queremos os dois isto - sorriu ao ouvi-la - portanto a culpa é dos dois!
- Define o isto?
- Ai oh Ruben… isto que temos… a amizade…
- Quero muito mais que amizade e nunca te escondi isso!
A Mariana não respondeu, aliás retirou a sua mão debaixo da minha, ainda assim mantive a mão na sua perna. O meu amor durante a viagem até ao meu apartamento olhou diversas vezes para o Filipe.
- O menino não foge… - meti-me com ela, o que fez com que sorrisse
- Ainda não foge… espera mais uns meses e vais ver parece uma enguia a fugir de ti!
- De nós!
- Ãh?
- Parece uma enguia a fugir de nós!
A Mariana voltou a ignorar o que falei e assim que estacionei o carro na garagem do meu prédio, depressa saiu do carro para retirar a cadeirinha do Filipe do carro
- Deixa estar que levo…
- Não o posso levar?
- Podes mas não há necessidade - olhou-me - O menino já pesa…
- Eich que exagerado! Mas tudo bem leva lá o Filipe!
Peguei na cadeirinha do Filipe enquanto a Mariana voltou a levar o seu saco, mas durante pouco tempo porque assim que entramos no elevador o Filipe começou a chorar e a Mariana pegou nele, fazendo de mim “burro de carga”, uma vez que levei a cadeirinha e o saco do Filipe. Abri a porta e dei passagem aos meus dois amores, a Mariana estava com um sorriso lindo e isso aqueceu-me o coração…
Mas se julgava que os minutos seguintes seriam só nossos enganei-me… afinal fomos surpreendidos por uma receção, a minha família, a Maria, os pais da Mariana e o Jorge esperavam o Filipe, o que fez com que os primeiros minutos do menino em casa tenham sido agitados, todos queriam vê-lo e não consegui impedir que o menino começasse a passar de colo em colo, o  que irritou o Filipe que pouco tempo depois de o deitar no seu berço começou a chorar, tentei acalma-lo mas a tarefa tornou-se numa missão impossível, o Filipe chorava cada vez mais e fui “socorrido” pela avó babada que assim que conseguiu tirou o neto dos braços do pai, o que acabou por originar um momento de risota para os restantes pois a minha mãe não o conseguiu calar, o menino estava mesmo numa de fazer a sua primeira birra em casa.
- Dê cá o menino… - a Mariana retirou o Filipe do colo da minha mãe - Oh Filipe eles não percebem nada disto… - sorri ao ouvi-la mas principalmente ao vê-la a cuidar do meu tesouro, a Mariana sentou-se no sofá, tal como fazia na cadeira do hospital e colocou o Filipe contra o seu peito e após uns minutos o menino já estava sereno ainda assim de olho aberto.
- E não é que o puto já sabe o que é bom… - a boca do meu irmão fez com que o fuzilasse com o olhar mas de nada adiantou pois ainda fez pior - que foi? Vais dizer que não gostavas de fazer o mesmo que o teu filho está a fazer…
A Mariana assim que o ouvi levantou-se de imediato e saiu com o Filipe
- Estás satisfeito? Sinceramente Mauro se tivesses calado ganhavas mais! - atirei aborrecido
- Desculpa lá mas vocês estão a atirar areia para os nossos olhos! Achas mesmo que acredito que são só amigos? Se fossem a Mariana não tinha feito metade do que fez…
- Infelizmente somos SÓ amigos!
Atirei ao sair da sala para procurar a Mariana, precisava o quanto antes de perceber até onde as palavras do meu irmão a tinha atingido. Encontrei-a no quarto do Filipe a adormece-lo e por isso mantive-me quieto a ouvi-la cantar para o meu filho.
- Já adormeceu! - falou com um sorriso no rosto enquanto o deitava no seu berço
- Desculpa… - olhou-me - o meu irmão abusou…
- Não falou nada que os outros não pensem também…
- Sim mas podia ter evitado…
- Esquece! - o meu amor voltou a concentrar as atenções no Filipe - Hoje é dia de alegria e não dia para te chateares com o teu irmão… e agora vamos deixar o pequenino dormir
- É…
A Mariana passou próximo da cómoda e pegou no intercomunicador que permite ouvir da sala caso o menino acorde, algo que mais uma vez fez-me sorrir.
- Que foi?
- Nada…
- Estás a sorrir por nada?
- Estou a sorrir porque te tenho aqui - aproveitei a proximidade dos nossos corpos para a abraçar - atenta a tudo para que o Filipe esteja bem…
- Pois mas não te habitues porque é mal de pouca duração!
- Mal? Quem me desse que todos os meus males fossem como este…
- Ruben… - desprendeu-se dos meus braços e foi até à sala
- Então o meu neto?
- Ficou a dormir! - a Mariana respondeu tranquilamente
- Ah…
- Oh mãe parece que ficou desiludida… - meti-me com a minha mãe mas ouvi algo que não esperava
- Fiquei mesmo! O meu neto preferiu o colo da Mariana ao da avó - os presentes sorriram enquanto a Mariana ficou constrangida e talvez por isso a Maria tenha vindo em seu socorro
- Oh Ruben responde mas é ao que interessa - olhei-a - estás preparado para a primeira grande prova de fogo? - a Maria gozou - a primeira noite sozinho com a riqueza do Filipe???
- Não… - confessei o meu maior receio - mas sou pai e tenho que habituar-me…
- Podes sempre pedir ajuda à avó! - a Mari atirou de forma automática o que nos deixou a todos a olhá-la - Que foi? Assim a avó deixa de ter ciúmes da madrinha do teu filho! - todos sorriram pois perceberam que a Mari só respondeu assim porque tinha ficado com aquela entalada mas quem surpreendeu foi o Sr. Manuel quando disse
- Mas não é da avó que o menino precisa e muito menos da madrinha… - fiquei literalmente pasmo a olhar para o pai da Mariana - mas isso são outros quinhentos…
Depois da boca que o pai da Mari mandou a conversa desenrolou-se sempre à volta do que espero para os primeiros dias do Filipe em casa e quanto mais ouvia mais apavorado estava a ficar.


Irá o Ruben aguentar a pressão de ficar sozinho com o Filipe? E a Sofia o que andará a tramar? Quanto aos jornalistas será que terminou por aqui?

terça-feira, 19 de novembro de 2013

#108 - " foi com ele que o meu filho festejou, foi ele que mereceu a dedicatória e era ele que era chamado de pai."

João
Cada dia que passava era mais um. Mais um dia de solidão e de culpa. Tentei manter ao máximo a minha rotina diária e a forma como me relacionava com os outros mas de dia para dia sentia-me mais em baixo, tão em baixo que acabei por ficar doente.
Fui atacado por uma valente gripe e apesar de já ter a autorização para poder estar presente no aniversário do Bruno acabei por passar o dia de cama. Apenas vi o meu campeão através de uma chamada skype que a Ana e o Fábio conseguiram fazer de forma à que a Maria não se apercebeu.
A noite foi péssima piorei imenso, uma vez que a febre aumentou
- João tens mesmo que ir ao médico!
- Isto passa... amanhã já estou bom... 
- Isso foi o que disseste ontem e olha para ti
- Ai oh Filipa... - tinha neste momento a visita do casal Postiga
- Nem Filipa, nem meio Filipa... se não queres ir pelo menos que venha cá a Drª Eva
- Não é preciso... eu... 
- Tu...
- Eu - custou mas tive de admitir - só estou assim porque o Bruno faz hoje um ano e... e eu não posso estar com ele.... aliás nos últimos 365 dias tive poucas vezes... por culpa minha...
- Não te vou passar a mão pelo pêlo... tens mesmo culpa! E se eu fosse a Maria te garanto que o Hélder não tinha a tua sorte!
- Sorte?!
- Sim sorte... se o Hélder me tivesse traído, pensado que ia ser pai do filho de outra e ainda me tentasse tirar a guarda dos miúdos uma coisa te garanto ele nunca mais os via!
Não respondi, sabia que ela tinha razão, sabia que a Maria engolia o orgulho para deixar o menino ver-me. Eles ainda ficaram algum tempo, mas acabaram por sair e eu deitei-me de baixo de uma tonelada de cobertores e quando finalmente consegui adormecer sonhei.
Sonhei com a Maria, com o nosso filho e com o Rui, o homem que se tinha tornado referência para o meu filho.
Vi-os a passearem os três felizes, vi o Bruno a jogar futebol... era na selecção aquele equipamento era da selecção e aquele jovem só podia ser o Bruno, confirmei quando pude ler "Guilherme Mendes 23" na camisola, ele tinha acabado de marcar e correu para a bancada a festejar consegui ler-lhe nos lábios "para ti pai" mas não era na minha direcção que vinha ele correu para junto da Maria, a idade pouco a tinha mudado mantinha-se linda e estava visivelmente feliz abraçada a ele, ao homem para quem o MEU FILHO corria chamando de Pai. Era ele, era o Rui, foi com ele que o meu filho festejou, foi ele que mereceu a dedicatória e era ele que era chamado de pai. Senti as pernas a tremerem e sei que ia iniciar caminho para perto deles. Mas fui interrompido acordei assustado, em pânico, e não era pelo som estridente da campainha mas pelo sonho que passava como um filme e só depois de o rever consegui levantar-me e ir abrir a porta.
Assim que a abri dei de caras com a Drª Eva, uma das médicas do Valência

- Buenos Dias João
- Bom dia Dra… desculpe mas o que faz aqui? Eu já estou melhor hoje até vou ao treino
- Não, hoje não vais!
- Mas estou mesmo melhor! Já nem febre tenho!
- Pois realmente estás com melhor cara - tocou-me com as costas da mão na testa - e febre também não me parece que tenhas, mas mantenho que hoje já não vais ao treino!
- Mas porquê? Não posso continuar a faltar ainda para mais se já estou melhor!
- Realmente não convém que faltes, mas tendo em conta as horas só conseguirás ir ao treino de amanhã!
Só nesse instante olhei para o relógio que tinha na parede de entrada de casa
- Ahh… eu não ouvi o despertador… e agora?!
- Agora vais aproveitar o dia de hoje para descansar e ficares realmente bom e… bem… quando nos apercebemos que estavas atrasado o Hélder disse-nos que tinha estado contigo e acabou por nos dizer que o teu filho fez anos ontem, eu como não sabia que tinhas filhos acabei por falar com a Filipa que me fez o resumo daquilo que tem sido a tua vida pessoal, desculpa sei que é pessoal, mas se puder ajudar?
- A Filipa não tinha que contar nada! - falei de forma rispida - como disse é a minha vida pessoal. Vou cumprir a sua ordem e ficar de descanso hoje, mas amanhã estarei de regresso aos treinos e agradecia que não voltasse a falar do meu filho!
- É nítido que precisas de ajuda a esse nível… conheces o nosso psicólogo não conheces?!
- Já lhe disse que não preciso de ninguém a meter-se neste assunto!
- Como queiras…
- Obrigado por ter vindo, peço desculpa pelo incomodo - dirigi-me até à porta e abri-a num nítido convite a que saísse e assim que ela o faz olho para o lado de fora e tenho em minha frente as duas pessoas mais importantes da minha vida e o meu pequeno assim que me viu esticou os seus braços na minha direcção 
- Papá!!!
- Bruninho! Parabéns campeão!!! - tirei-o do colo da Maria e entrei para a sala onde o enchi de beijos e mimos até que
- Mamã? - o Bruno olhava em volta e parou a sua cabecinha na direcção da porta - Mamã!!!! - começou a choramingar

Maria
Quem abriu a porta foi o João, mas para que de casa saísse aquela que era considerada a mulher mais “hot” do futebol a antiga médica do Chelsea e actual médica do Valência, não me viram de imediato por isso foi fácil ver que o João estava em “trajes menores” , leia-se de boxers e uma tshirt, ela só quando passou a porta é que me viu e como nos conhecíamos não deixou de mostrar um ar espantado apesar de me cumprimentar, para no instante seguinte sentir que o João me levava do colo o Guilherme.
A Eva continuou o seu caminho até à rua e eu fiquei no mesmo sitio sem conseguir reagir, só conseguia pensar que no dia anterior o meu filho não tinha tido a presença do pai no seu primeiro aniversário porque este tinha estado “ocupado” com a nova médica do clube. A vontade que tive foi de pegar no Guilherme e voltar para Lisboa, mas quando ouvi as suas gargalhadas de felicidade por receber os mimos do pai, acabei por ficar sem reacção, ali no meio do hall do prédio sem saber o que fazer, a única coisa que me ocorreu foi ligar ao Rui e quando já desbloqueava o telemóvel ouvi
- Mamã!!! - olhei e vi o Guilherme todo esticado no colo do pai, tentando vir ter comigo
- Entra… 
- Obrigada… não quero incomodar, vim só trazer o Guilherme já que a tua mãe não podia vir e tu estavas muito “ocupado” - nem tentei esconder a ironia - eu vou até ao hotel, levo o Guilherme também se ele te empatar os planos…
- Que conversa é essa? Nem ele, nem tu… vocês nunca empatam os meus planos!
- Tira-me desse filme! Se ele não te incomoda, tens aqui as coisas dele. Voltamos a Portugal amanhã depois do almoço. Eu agora vou… Bebé da mamã porta bem que a mamã amanhã vem buscar-te sim?! - aproveitei que o João tinha vindo até perto da porta e beijei o pequenino - Amanhã venho busca-lo, qualquer coisa tens o meu numero. Adeus
- Maria… - tentei ignorar e continuar - Maria…
- Diz?
- Não precisas ir para nenhum hotel… sabes perfeitamente que podes ficar aqui connosco…
- Tás parvo só pode!
- A sério Maria! Se não o fizeres por também sentires saudades de estarmos juntos fá-lo pelo menino… Maria a Drª Eva estava a sair cá de casa não pelas coisas que imaginaste, mas porque eu estive doente - assim que o ouvi admito que fiquei preocupada, ele raramente fica doente - Sim Maria doente! - odeio quando ele me lê os pensamentos - não foi nada de mais, só uma gripe e durante a noite tive febre… acordei melhor, mas tenho medo de piorar e ficar sozinho com o menino… - voltei a ficar sem saber o que fazer e nesse tempo pai e filho aproximaram-se para que o Guilherme voltasse ao meu colo enquanto que o João pegou na pequena mala que tinha comigo - vamos?
- Eu não acho boa ideia…
- Posso saber porquê?
- Porque… porque como é mais que óbvio não vou ficar no teu quarto!
- Tens o quarto da… quer dizer o quarto de hospedes!
- O quarto da Carmen… nesse muito menos!
- Oh Maria podes sempre ficar no quarto do Bruninho, se bem que não é no meu quarto mas sim no NOSSO que te estás a recusar a ficar!
- Eu fico no do Guilherme, mas voltas a usar nosso para falar de algo que não seja o nosso filho e juro que não fico nem mais um segundo… ah e quanto menos falarmos melhor
- Como queiras… vá entra está á vontade… estás em casa - olhei-o de lado - o que é? Não se costuma dizer faz como se estivesses em casa?!
- Importas-te que leve as coisas para o quarto do menino então?
- Já te disse para estares à vontade…
Sai de perto dele assim que consegui, fui até ao quarto do Guilherme e vi que ele tinha acabado de o decorar, que tinha enchido o quarto de fotos da minha gravidez e dos tempos que tinnhamos passado juntos, olhei uma por uma e senti um aperto no coração. Respirei fundo e nesse mesmo momento ouvi o toque do meu telemovel, com aquele toque só poderia ser uma pessoa
- Estou?
- Estás onde? Com quem? Estás bem? O menino?! - não consegui não rir - não gozes estou preocupado!
- Calma Rui! Não estou a gozar só achei piada! É que nem a minha mãe me controla assim!
- Oh… estou preocupado e confesso que com saudades vossas! Saudades?! - enquanto falava resolvi meter o telemovel em alta-voz, para ir arrumando as malas 
- Eu já te ligava quando acabasse de arrumar as nossas coisa…
- Arrumar as vossas coisas? Mas o menino não ficou com o pai?
- Ficou… e eu também, fiquei em casa dele…
- Tu o quê?!
- Eu fiquei em casa do João… 
- Posso saber porquê?
- Porque parece que ele tem estado doente e não se sentia bem em ficar com o menino sozinho…
- Ah… e não era melhor terem voltado para cá? O menino não pode ficar doente?
- Rui relaxa… parece que o João já está melhor e o menino está tão feliz que… olha se apanhar uma constipação o pior que pode acontecer é ter que passar uns dias com ele de molho em casa…
- Tu és a mãe tu é que sabes… - reparei que o Rui não tinha gostado, mas ele tinha razão eu é que era a mãe e o João o pai
- Vais amuar? - resolvi brincar
- Oh não… mas tenho saudades vossas e tomar o pequeno almoço sozinho é horrível!
- Oh coitadinho! - gargalhei
- Não tem piada Maria Micaela! Não tem piada nenhuma! 

João
Quando consegui que a Maria ficasse lá em casa, no quarto do Bruno, mas mesmo assim debaixo do mesmo tecto que eu, foi impossível não deixar crescer uma esperançazinha de que  fosse possível explicar-lhe tudo o que se tinha passado e quem sabe se assim os três sozinhos não fosse uma boa situação para nos entender-mos, para lhe pedir desculpa…
Foi com essa ideia, de lhe amolecer o coração que resolvi ir com o Bruno até ao seu quarto onde a Maria tinha ido guardar as coisas, para convida-la a tomar o pequeno almoço comigo. Mas quando lá cheguei, percebi que falava ao telemóvel e deixei-me ficar a ouvir a conversa sendo levado para o meu “pesadelo” desta noite só despertando quando oiço
- Mamã!!! UIIII!!!
- É o Rui sim bebé! Queres falar com ele?? - a Maria chegou-se perto de mim tirou-me o menino do colo - E tu deste para ouvir as conversas dos outros foi?
- Eu vinha só… -não pude continuar 
- Maria o que se passa?
- Uiii!
- Guilherme?! A mamã?
- Guigas qui! Mamã qui!
- Tou aqui! Tenho isto em alta-voz e ouve quem ouvisse a conversa… e quisesse falar contigo
- Olá campeão!
- Guigas!
- Sim o Guigas é o campeão! Onde é que tu andas que eu tenho de tomar o pequeno almoço sozinho?
- Papá!!! - finalmente algo nesta conversa de “família” me fazia sorrir, o MEU filho respondeu ao outro que tinha vindo ter comigo e quando o fez olhou-me a sorrir
- Foste ter com o papá? Que bom! Mas volta rápido que eu tenho saudades tuas e da mamã!
- Sim… sim… vai mas é trabalhar malandro! 
- Sim Sra os seus desejos são ordens!! - pensava que finalmente iam acabar com aquela tortura - mas mais logo liga sim?
- Claro que sim! Não é Guilherme? Quando viermos dormir ligamos para dar as boas noites ao bebé grande!
- Se for para vos ouvir até me podes chamar de bebé pequeno! - gargalharam os dois 
- Parvo! Beijinhos té logo - e agora sim o pesadelo acabou - Podes explicar-me agora porque raio estavas a ouvir a conversa?
- Eu não tive intenção vinha só chamar-te para tomares o pequeno almoço comi… conosco e o Bruno é que assim que ouviu vozes…
- Ah… eu já comi obrigada… mas fico com o menino, para não te atrapalhar… e sim ele assim que ouve o Rui reage logo… eles dão-se muito bem…
Tinha ficado muito melhor sem esta informação, mas mesmo assim fingi que não me afectava e convidei-a a fazer-me companhia para poder ir brincando com o menino.

Maria
Confesso que o momento em que percebi que o João acompanhava a conversa me deixou um tanto desconfortável afinal o Ruben já tinha comentado comigo as tentativas do João em saber se as ultimas noticias eram ou não verdade, mas decidi não fazer nada que confirmasse ou desmentisse as suas suspeitas apenas continuei com a conversa que agora incluía o Guilherme que adora o Ui como ele chama. 
Quando a conversa terminou e depois de ter mostrado o meu desagrado por ter tido uma conversa pessoal escutada acabei por ser convidada a acompanhar o pequeno-almoço, algo a que acedi apenas porque tinha o Guilherme ao meu colo.
- Não comes mais nada?! - perguntei admirada quando vi que o pequeno almoço do João se cingia apenas a um copo de leite
- Não consigo comer mais… a febre parece que está a querer voltar e a garganta doi-me - deu-me uma certa vontade de rir, e de o abraçar e dar-lhe colo afinal o João doente é pior que uma criança
- Ai ai filho que pai mais mariquinhas que te arranjei! Anda!
- Para onde? Deixa-me só…
- Não, não vais beber isso assim! Anda lá para a sala - quando ele já se sentava no sofá coloquei o Guilherme no chão - Filho não deixes o teu pai fazer nenhuma asneira… e tu quietinho que eu volto já!!
Não o deixei responder e voltei para a cozinha. Aqueci um copo de leite e misturei-lhe mel, encontrei facilmente tudo afinal estava exactamente no sitio onde tinha deixado, andar naquela cozinha deu-me um aperto no coração enorme aquele já tinha sido “território meu” e agora eu não passava de uma intrusa, fosse como fosse acabei mesmo por ser invadida por várias recordações mais ou menos decentes passadas naquele espaço e naquela casa e quando a torradeira “deu sinal” acabei por despertar e afastar de mim aqueles pensamentos, passei as mãos por aguas e as mesmas pela cara respirei fundo e segui com a refeição para a sala.
- Tudo comido se fazes favor! - disse enquanto pousava o tabuleiro no seu colo
- Oh Maria…
- Mau! É que nem penses em dar maus exemplos ao teu filho!
- É só por isso que queres que coma? E que estás a cuidar de mim?
- Não vás por ai! Come se quiseres se não quiseres não comas! 
- Guigas qué!!! - o pequenote apontava para o leite do pai e pedia
- Desculpa mas vou invadir-te a cozinha outra vez
- Sabes que é… - olhei-o - que estás à vontade…
Segui até á cozinha e no biberão do Guilherme meti-lhe um pouco de leite igual ao do pai
- Está aqui Guilherme! A mamã dá ou bebes sozinho
- Guigas! - disse sorrindo, passei-lhe o biberão para as mãos e sentei-me com ele no chão enquanto o via todo satisfeito e ao mesmo tempo ia dando um olhinho ao pai que continuava a fazer caretas cada vez que levava o leite á boca
- Deixa-te de fitas! Olha pró teu filho a beber o leite sozinho! - ele riu-se e acabou por beber o leite - e as torradas também são para comer!
- Oh Maria…
- Tou a ver que em vez de ser o pai a ensinar o filho vai ter de ser o filho a dar exemplo ao pai! Guilherme! - o menino olhou para mim - Queres pãozinho queres? - o menino esticou a mão, afinal não recusa comida nunca - Toma! - assim que lhe passei um bocadinho de torrada ele levou de imediato à boca comendo todo satisfeito, voltei-me para o João - Vês?! É facil até um bebé de um ano e um dia consegue! 
- Não me gozes… obrigado pelo pequeno almoço mas não consigo mesmo! - olhou para o menino - Ele já comeu tudo?!
- Este na hora de comer mostra logo quem é o pai!
- Estás-me a chamar comilão?!
- Quem eu?! Não!!!! - rimos-nos os dois e quando dei por isso o nosso pequenino acompanhava-nos na gargalhada.
O Resto do tempo até a hora do almoço foi passada comigo colada ao ecrã do tablet tentando abstrair-me de onde estava e na companhia de quem, conversei com o Rui, com a Ana e com o meu tio via chat, mas mesmo assim a voz, o riso e o cheiro do João “invadiam-me” deixando-me completamente fragilizada, estar ali obrigava-me a reviver os momentos que tínhamos passado, bons e maus.
Acabei por deixa-los na sala e seguir para a varanda e foi de lá que tirei a fotografia que não resiti em partilhar
“O meu filho veio festejar o seu primeiro ano de vida com o pai!! A sorte é que o pai está doente! (coitadinho! :p )”


Quando a publiquei limitei o acesso a quem a poderia ver apenas a família e os amigos mais íntimos, para que não houvesse qualquer tipo de especulações. Mas de seguida vi-me “obrigada” a partilhar nova fotografia e desta vez nem liguei com quem o fazia
”Quem é o pai? Quem é o filho? O Guilherme quando for grande vai ser médico!


- Mamã o menino precisa trocar a fralda!
- E o pai tem algum problema nas mãos?
- Tu fazes melhor...
- OK... estás melhor? - acenou com a cabeça - então trata lá do almoço...
- Vamos almoçar com o pessoal? Eles tão sempre a perguntar por ti...
- Como quiseres... vou tratar dele...
Acabei por despachar o menino e juntar-me ao João. O almoço foi bastante animado embora o pessoal tenha estado sempre a tentar perceber se nós estávamos novamente juntos.
Quando chegou a hora de voltar a casa o João insistiu em passear pelas ruas de valência e quando finalmente chegamos a casa enquanto fui ver o meu email o João jogou-se para o tapete com o Guilherme. Fiquei a observar e mais uma vez não resisti
"Cada vez com mais duvidas sobre quem é o adulto! :p"


A tarde foi passada na brincadeira e acabei por me juntar a eles de forma natural. Até que o João acabou por se aproximar de mais e eu vi-me obrigada a afastar.
O jantar foi tranquilo e depois de adormecer-mos o Guilherme fui novamente até ao tablet desta vez liguei imediatamente o skype e iniciei uma chamada com o Rui onde ele quis saber tudo o que se passava.
- E depois almoçamos com o Postiga... - neste momento sou interrompida o João tirou-me o tablet das mãos
- E ela foi a casa de banho a meio e arrotou 2 ou foram 3 - olhou para mim - vezes?
- Não tens piada! Dá-me isso!
- oh que pena o palhaço perdeu a piada! - atirou para o sofá - namorem à vontade vou-me deitar... não se incomodem por mim... -saiu da sala
- Desculpa Rui... não sei o que lhe deu
- Ciúmes Maria! Ele viu-te chegar e ainda lhe deste comida... achava que agora iam para a cama e tava tudo bem!
- Mas eu nunca lhe dei qualquer indício...
- Maria nós nunca namoramos, nunca casamos, não temos um filho e mesmo assim eu tenho esperanças imagina ele...
- oh Rui...
- eu sei, eu sei... desculpa...
- bem o campeão acordou... vou lá
Despedi-me do Rui e quando cheguei ao quarto já lá estava o João
- O que é que ele tem?
- Não precisava deixar o teu namorado pendurado eu tratava dele! Perdeu só a chupa não foi amor?
Aproximei-me e ao tirar o Guilherme do seu colo toquei-lhe e senti-o a ferver. Joguei a mão à sua testa
- João vai-te deitar imediatamente! Estas a arder!
- Eu estou bem!
- E eu sou o Pai Natal, agora a serio João estás a por o menino em risco!
- Maria eu preciso falar contigo! Por favor!
- Vai deitar-te eu já lá vou...  Porque temos mesmo muito que esclarecer...

Ele saiu e eu adormeci o nosso bebé. Quando o deixei parei alguns minutos em frente ao quarto do João sem coragem para abrir aquela porta. Já tinha sido muito feliz ali, mas também tinha sido muito triste. Respirei fundo, bati e abri a porta 

- Já cá estou o que queres? - quando a olhei ele estava coberto de mantas e a tremer
- Frio Maria muito frio!
- Isso é da febre! - aproximei-me e realmente ele estava cada vez mais quente. Pouco podia fazer dei-lhe um antipoético e esperei que baixasse mas nada. O João queria falar, mas sabia o que ele queria e ele no estado  que estava não conseguia ter nenhuma conversa. - João fica quieto e calado por favor se não essa febre não vai baixar!
- Mas eu preciso pedir-te desculpa Maria... desculpa...
- Esquece João... não quero falar nisso foi o que teve de ser e acabou. Agora é continuar cada um com a sua vida e sempre que o nosso filho precisar é partilharmos o mesmo espaço o mais civilizadamente possível e quem sabe sermos amigos...
- Mas..
- Mas agora vais dormir... eu vou buscar agua fria e umas toalhas para ver se a febre baixa
Sai do quarto e fiquei no corredor encostada contra a parede. Ver o João naquele estado estava a partir-me o coração. Continuei o que ia fazer e lá lhe molhei com toalhas húmidas e felizmente a febre baixou
- Pronto já baixou... eu vou deitar-me mas deixo aqui o intercomunicador qualquer coisa chama que eu ouço no quarto do Guilherme
- Fica aqui - olhei-o - como amiga Maria mas não me deixes sozinho
- estou no quarto do lado e qualquer coisa ouço no comunicador...
- obrigado
Acabei por sair e deitar-me junto do Guilherme, mas não dormi fiquei apenas a observá-lo e a lembrar-me do seu sorriso durante o dia. Não sei quanto tempo passou mas algum tempo depois comecei a ouvir um ligeiro ruido, parecia um gemido e segundos depois foi perfeitamente nítido a voz do João. Ele falava palavras sem sentido mas parecia aflito. Desliguei o comunicador e fui até ao quarto dele assim que abri a porta vi-o agitado e encharcado em suor enquanto tremia. 
- João calma... estás outra vez a arder! É melhor chamar um médico...
- Maria não! 
- João o médico passa-te qualquer coisa e de manhã já estás bom!
- Maria... Bruninho... Maria não me faças isto! Não deixes o Bruninho fazer-me isto! - sei que o devia acalmar mas ao mesmo tempo tinha de saber o que o agitava tanto afinal ele estava em pânico - Maria eu vim só ver o menino... o nosso filho está óptimo grande... e o golo... que golo! Mas ele não pode Maria o pai dele sou eu! Eu sei... sei que vos fiz mal... que vos troquei por um embuste.... mas Maria ele não pode chamar esse homem... ele nao pode chamar o Rui de pai! O pai dele sou eu!!!
- João calma o pai dele és tu! Ninguém vai ocupar esse lugar...
- mas o teu marido também era eu e agora tas ai com ele! E vão ser pais??
- oh João mas tu tas parvo?!
- perdoa-me... por favor!
O João devia estar a ter alguma alucinação da febre o certo é que ele estava mesmo aflito.
- João eu perdoar já perdoei... mas esquecer nunca vou ser capaz e é por isso que o melhor é cada um seguir a sua vida! Agora por favor acalma-te, dorme para amanhã estares bem...

Sai do quarto e afundei-me no sofá só consegui chorar o que o João dizia não fazia sentido e só depois de um par de horas percebi que ele estava a projectar o futuro e nesse futuro o Guilherme tinha o Rui como seu pai. Chorei mais ainda nunca na minha vida pensei em tal coisa. Se alguma coisa eu tinha como certa engolindo os sapos que fossem precisos era que o meu filho ia estar com o pai sempre que ambos o quisessem.
O resto da noite foi passada assim entre os quartos de pai e filho um dormia tranquilamente o outro continuava agitado e de quando em quando voltava a pedir-me perdão e que não deixasse o Guilherme chamar outro de pai como eu já chamava outro de amor. Cada palavra dele era um punhal no coração ainda para mais sendo ditas de forma inconsciente, mas aquilo que tinha visto há uns meses naquele quarto e o que tinha ouvido não o permitiam.
O dia amanheceu e o João surpreendeu-me quando dava o pequeno almoço ao Guilherme
- oh João vai deitar-te!
- eu tenho treino!
- Tu tas maluco? Passaste a noite a delirar!
- Então não foi um pesadelo? Tu disseste-me mesmo que acabou de vez?
- Disse João disse
- Não há mesmo hipótese?! 
- João por favor! - implorei para que se afastasse
- Como achares melhor... desculpa! Pequenote nunca te esqueças que o papa sou eu! Eu!
Ele continuava agitado embora já sem febre todo este medo ele estava mesmo assustado com a ideia... 
Fiquei estes dias com ele até ele estar perfeitamente bem e voltei para Lisboa e para a agitação e loucura da minha vida profissional. Com apenas uma mudança, passei a ser eu a levar o Guilherme ao pai e começamos a reanimar a nossa amizade, aquela que tínhamos no secundário. Enquanto a minha relação com o Rui estava cada vez mais próxima.
 
Será Amizade só?!
E o Rui e a Dra Eva terão uma palavra a dizer?
E como estarão o Ruben, a Mariana e o pequeno Filipe?



sábado, 9 de novembro de 2013

107 - "Há primeira tentativa tua salto fora!"

Mariana
Dez dias passaram desde que beijei o Ruben e que senti necessidade de afastar-me  novamente, a verdade é que ando extremamente confusa, por um lado preciso dele, dos seus beijos, carinhos de o ouvir dizer que me ama mas por outro contínuo a não conseguir confiar nele e isso faz com que me afaste. Ainda assim mantive-me por perto, até porque tenho uma outra necessidade de seu nome Filipe, aquele anjinho conquistou-me e já não consigo passar um dia sem o ver. Hoje completou quarenta dias e o Ruben deu-lhe primeiro banho ao filho, isto depois de ter passado os últimos dois dias a mentalizar-se para o momento, o que me proporcionou algumas gargalhadas. Confesso que me emocionei ao ver pai e filho e acabei por registar o momento através de vídeo para mais tarde poderem assistir os dois.
- Não é suposto o banho acalmar o bebé? - sorri ao ouvi-lo
- Teoricamente sim...
- Então porquê que o Filipe está tão irrequieto?
- Ai não sabes? - sorri - Quer mimo...
Peguei no menino e depois de sentar-me encostei-o ao meu peito, uns minutos bastaram para adormecer, algo que o Ruben voltou a fotografar

Rubenamorim_ o Filipe está cada dia maior e mais gordinho mas também com mais manias... @Marianamendes quero ver quem o cala quando for para casa...
Não consegui ignorar a forma como legendou a foto e por isso respondi
Marianamendes_ @Rubenamorim essa é simples de responder... EU!!! :P
No entanto arrependi-me imediatamente pois o Ruben não perdeu a oportunidade para mais uma vez demonstrar o que quer...
Rubenamorim_ @Marianamendes é o que mais quero...
Não tive coragem para responder ao que o Ruben escreveu e acabei por fingir que não tinha reparado, algo que ele não deixou passar pois na primeira oportunidade que teve aproximou-se de mim, “colando” o seu peito nas minhas costas e ainda teve o desplante de colocar as suas mãos na minha cintura, sussurrando-me ao ouvido
- Admite que também queres... - caí no erro de desviar a cara para o olhar, o que fez as nossas bocas ficarem demasiado perto - Não fujas ao que sentes, nós só funcionamos juntos, amamo-nos e merecemos ser felizes, já para não dizer que é inegável que já amas o Filipe - a proximidade dos nossos rostos e o olhar dele estavam a fragilizar-me
- Ruben pára! - tentei que me soltasse mas foi em vão
- Páro... páro no dia que me deixares de amar mas como esse dia não chegará...
- Desculpa? Mas quem és tu para dizer isso?
- Alguém com plena capacidade mental! Mariana depois de tudo o que te fiz continuas a amar-me por isso...
O Ruben teria continuado com aquele jogo de provocação mas a entrada de uma das médicas que seguem o Filipe fez com que se afastasse, uma vez que a doutora veio falar connosco para nos dizer as últimas novidades do Filipe.

***

O tempo passou e tivemos que nos despedir do Filipe e foi quando já estávamos a sair do hospital que o Ruben fez um pedido.
- Queres ir comigo às compras para o Filipe?
- Eu?!
- Sim... Mariana ainda não comprei nada e gostava que fosses comigo - olhei-o - não tenho jeito para essas cenas...
- Pede à tua mãe!
- Mas és tu que quero do meu lado!
- Ruben...
- Mariana senão fazes por mim, faz pelo Filipe!
- Isso é chantagem!
- Temos pena, se for a única forma que tiver para te convencer a acompanhares-me...
- Estúpido!
- Isso é um sim?
- Não devia de ser mas - sorriu, o que me irritou - não te metas com ideias! Há primeira tentativa tua salto fora!
- Ok...
O resto da tarde foi passada a entrar e sair de lojas para bebés mas conseguimos comprar tudo o que um recém-nascido precisa, no entanto tive algum trabalho a controlar o Ruben, pois para ele tudo fazia falta o que contribuiu para dar algumas gargalhadas.
- Bem agora que já compraste tudo o que achas de jantarmos?
- Onde queres ir?
- Sinceramente? Comprava uma pizza ou algo do género levava para casa e comíamos lá... estou toda rota!
O Ruben concordou com a minha ideia e por isso fomos comprar o jantar para seguirmos de imediato até ao meu apartamento por ser o mais perto.

***

- Shii esqueci-me - falei quando já estávamos na sala - queres um café? - sorriu
- Não... - olhou-me - o que quero é muito mais fácil de arranjar… - toda eu tremi ao ouvi-lo, ainda mais quando pegou na minha mão e puxou-me para o sofá - que tal uma sessão de cinema?
- Ah… sim pode ser! - sorriu o que foi suficiente para enlouquecer-me ainda assim controlei a vontade súbita que tive em saltar para o seu colo - escolhe o filme enquanto vou ver se tenho pipocas para fazer…
Dei a desculpa das pipocas para conseguir afastar-me uns minutos para ter tempo de retirar os pensamentos insanos da minha cabeça e quando regressei à sala já o Ruben estava sentado à minha espera.
Vimos o filme lado a lado e a partilhar a mesma taça de pipocas, o que fez com que volta e meia as nossas mãos se tocassem e sempre que acontecia a sensação de ter um formigueiro dentro do meu corpo aumentava.
O filme não era mais do que uma comédia romântica e não foi difícil entender o motivo da escolha do Ruben, ainda para mais não gostando ele de filmes lamechas. A intensão do Ruben foi sem dúvida fragilizar-me, o que acabou por acontecer e sem que desse bem conta de como aconteceu, já nos estávamos a beijar e o que começou com um simples beijo depressa tomou outras proporções e em segundos já o tinha deitado por cima do meu corpo
e beijo atrás de beijo, entramos por um caminho verdadeiramente perigoso, pois a lucidez era casa vez menor e o desejo maior, foi quando já estava completamente entregue à vontade louca de voltar a ter uma noite de sexo que o Ruben se afastou ligeiramente, ainda assim mantivemo-nos a trocar “mimos” até que

- É melhor ir embora… - o Ruben num momento de lucidez afastou-se e ainda bem.
Despedimo-nos como dois bons amigos com dois beijinhos um de cada lado do rosto…

 Ruben
Não sei como consegui mas a verdade é que a razão prevaleceu ao coração e consegui resistir ao desejo e à saudade de ser da Mari novamente, a verdade é que se não tivesse saído da sua casa provavelmente teríamos feito amor mas isso não significaria que a voltasse a ter de forma completa, o meu amor estava a reagir no impulso e a última coisa que quero é que se arrependa depois, só por isso saí e deixei-a sozinha. Algo que não me arrependo porque no dia seguinte ouvi-a a agradecer o meu gesto, admitindo mesmo que ainda não se sente preparada e muito menos sabe se é isso que quer.
Os dias continuaram a passar com o Filipe a ter cada vez mais melhorias, ainda assim ainda não deixou o oxigénio e também não tem o peso que os médicos acham ser o indicado para ele, só por isso é que ainda não teve alta porque felizmente não teve mais complicações.
Quem também anda a Flipar é o João porque finalmente abriu os olhos e percebeu a besta-quadrada que foi... agora que julga estar a perder a Maria, sim julga porque é tão otário que ainda não percebeu que a mãe do meu afilhado continua a amá-lo e a sofrer com tudo o que ele lhe fez, anda ruído de ciúmes e a chatear-me a cabeça pois quer informações, como se alguma vez as fosse dar...
***

Já se passaram cinquenta e um dias desde que o Filipe nasceu e hoje é um dia complicado, o Guigas comemora um ano de vida e faz precisamente um ano que a Mariana perdeu os gémeos.
Acordei triste, abatido e sem vontade de sair da cama, ainda assim levantei-me e fui treinar, mas nem isso consegui fazer em condições e acho que só não levei uma reprimenda do mister porque todos sabem o que se passou há um ano…
Saí do Seixal direto ao hospital e pela primeira vez em cinquenta e um dias desejei não cruzar-me com a Mariana, não imagino como esteja e sinceramente nem sei o que dizer, foi a pensar nisso que entrei no hospital, caminhei até junto do meu filho e mal abri a porta estagnei por completo, o meu amor estava com o Filipe ao colo, ela estava ali…
Aproximei-me devagar para não a assustar uma vez que percebi que estava a falar com o meu pequenino mas assim que percebi o teor da conversa estagnei novamente
- … conheço o teu papá já há muitos anos - um espasmo percorreu o meu corpo -  achava-o um menino e adorava implicar com ele porque ficava envergonhado mas depois com o tempo a implicância deu lugar à amizade, tornamo-nos os melhores amigos - quanto mais ouvia maior era a vontade de aproximar-me ainda mais - depois da minha prima é o teu papá que me conhece melhor, naquele tempo não percebi que o que nos ligava já não era só amizade, era algo mais forte, hoje sei que não entendi isso naquela altura porque era demasiado leviana, só queria divertir-me e estar com os rapazes sem ter cobranças, por isso nunca namorei, nunca soube o que era gostar de um rapaz, até ao dia que o teu papá mostrou-me o significado de fazer amor, foi com ele que aprendi, ele do seu jeito trapalhão declarou-se quando perguntou se o motivo por o ter convidado a ir ao meu baile de finalista foi por pena, disse-lhe que foi pela amizade e o teu papá ficou triste com a minha resposta, ainda tentei perceber o motivo mas disse para esquecer, foi o que fiz... esqueci mas não por muito tempo, porque quando fui mostrar a escola e já no ginásio a conversa desenrolou-se e o teu pai surpreendeu - foi impossível controlar as lágrimas, a Mariana falava de nós ao meu filho - o teu papá amou-me, assim de um jeito meio trapalhão ou não fosse a imagem de marca dele naquela altura, mas foi um trapalhão tão bom mas tão bom que ainda hoje recordo, sabes nunca disse a ninguém mas quando fecho os olhos sinto aquele friozinho na barriga, aquele nervosinho que só ele consegue provocar em mim, consigo até sentir o cheiro do seu perfume, aquele que na altura lhe ofereci nos anos e que reclamou porque não usava perfume mas depois passou a usar... ai Filipe porquê que a vida não é como nós queremos...
- Só não é se não quiseres!
- Estavas aí há muito tempo?
- Desde que começaste a contar ao Filipe como nos conhecemos - aproximei-me mais dela - como sem saber te fiz sentir especial - os meus dedos acariciaram o seu rosto, inicialmente nas bochechas para irem até aos lábios – como nos amamos...
- Ruben... não... – tentou apelar ao bom senso, àquele que nenhum dois tinha mais depois do desabafo sentido que teve
- Shiu... - a Mariana levantou-se talvez para fugir à conversa mas não deixei, sentei-me na cadeira e com cuidado, uma vez que tinha o Filipe nos seus braços,  fi-la sentar-se ao meu colo - acho que o Filipe merece ouvir a minha versão - a Mariana olhou-me - filho já sabes que nos conhecemos há muito tempo porque a Mariana já contou e também já sabes que ao inicio foi complicado porque o papá era tímido e a Mari sem vergonha, sofri bastante até perceber que quanto mais fugia mais a ela se grudava, percebi ainda que tinha a miúda mais batida da escola mas também aquela que qualquer gabiru queria, mas eu tinha-a de uma forma especial, sempre a tive por inteiro, ela comigo não era só aquela que queria se divertir, comigo mostrava as suas fraquezas, os seus medos, as suas virtudes mas acima de tudo o seu amor para com as pessoas que realmente são importantes para ela, foi assim que a nossa amizade cresceu e que mais tarde se tornou em amor sem nenhum dos dois perceber, era normal os beijinhos repenicados ou mesmo os beijinhos no cantinho dos nossos lábios ou ainda o darmos as mãos só porque nos apetecia, ou o rebolarmos na areia sempre que íamos à praia ou ainda o ficarmos simplesmente a olharmo-nos olhos nos olhos, tudo isto fazia parte do nosso dia-a-dia, até que ganhei coragem e dei o passo seguinte, amei a Mari mesmo não sabendo bem o que estava a fazer porque nunca o tinha feito, amei-a e estava longe de imaginar que aquilo que senti naquela noite se iria tornar em algo maior... mas nem tudo foi bom... nós separamo-nos e sofremos bastante para anos mais tarde o nosso caminho se cruzar novamente e aí não deu para disfarçar mais o que nos unia, ainda andamos um tempo meio parvos mas conseguimos encontrar o rumo certo, até ao momento que por uma sucessão de erros nos separamos, mas o amor foi mais forte e voltamos a fazer as pazes, foi nessa altura que fizemos os teus manos - desde o início que falava a olhá-la nos olhos e por isso sabia o quanto a estava a fragilizá-la, ainda assim não abrandei -  aqueles que por culpa do papá não nasceram e foi por culpa que o papá deixou a Mari, errei novamente e errei bastante mas pelo meio fiz algo muito certo, fiz-te a ti - peguei no meu filho - hoje agradeço por te ter aqui connosco, aprendi a amar-te e és tu que neste momento dás-me forças para continuar a lutar pelo amor da única mulher que alguma vez amei, sim Filipe infelizmente nasceste por descuido mas não tens culpa e hoje o papá ama-te, és uma parte de mim mas não só - suspirei - és também a razão pela qual o papá está a ter a oportunidade que tanto quis e que a Mariana evitou sempre… és tu a razão pela qual a Mari hoje está connosco - olhei-a, a Mariana continuava ao meu colo - perdoa-me... perdoa-me por todo o mal que te fiz... não fujas mais... nós merecemos ser felizes!
- É o que mais quero – falou por entre um soluçar intenso e um sorriso enorme surgiu no meu rosto para desaparecer logo depois – mas não dá... desculpa mas não consigo...
- Não consegues ou não queres?
- Não sei… Ruben magoaste-me imenso… contigo aprendi que o amor tem duas faces, a boa e a má… e não consigo esquecer a má…
- Não estás mesmo disposta a tentar pois não?
- A tentar o quê?
- A tentar ser feliz… Mariana nós amamo-nos…
- Só amor não chega e agora tens o Filipe… tens é mais que te concentrar nele e ama-lo!
- O Filipe merece uma mãe… e já a escolheu…
- NÃO! Não faças isso… chantagem dessa não… não quando perdi os meus filhos e nunca saberei o que é ser mãe…
- Perdeste os nossos filhos e sabes sim o que é ser mãe, caso contrário não estarias aqui, não tinhas alterado o teu dia-a-dia para conseguires passar o máximo de tempo com o Filipe, não passarias horas aqui a falar para o menino, não lhe tinhas contado a nossa história, não te sujeitarias a tanto... Mariana amas o Filipe e isso é inegável, tal como é inegável que esse é amor de mãe pois só assim consigo perceber o porquê que estás aqui hoje…
- Sim amo-o tal como amo o nosso filhado e por falar em afilhado tenho de ir - a Mariana saiu do meu colo - a Maria deve estar a precisar de ajuda…
- A Maria tem ajuda suficiente - falei ao agarrar o seu braço - e nós precisamos de ti… - suspirou - Mariana fica por favor…
- Fico a fazer o quê? A magoar-me ainda mais? Achas que não chega já? Achas que mereço isto? Achas? Ruben faz hoje um ano que perdi os gémeos, há um ano que não vivo para mim… vivo para os filhos dos outros… primeiro foi o Guigas e agora o Filipe… faço pelos filhos dos outros o que nunca poderei fazer pelos meus… não peças mais do que já dei… Ruben cada visita ao Filipe é uma faca que espeto diretamente no meu coração… mas mesmo assim não consigo evitá-lo porque te amo - a Mariana rompeu num choro profundo - mas isso não significa que consigo esquecer o que senti naquela manhã ao acordar ou o que senti ao ouvir que ias casar ou ainda quando te pedi para não o fazeres e que tiveste a indecência de afirmar que amavas a Sofia… Ruben não dá… perdi a confiança no teu amor… e o amor que sinto por ti já não é forte o suficiente para arriscar tanto, no fundo sei que mais dia menos dia irás desiludir… é só isso que sabes fazer… desiludir… além disso o teu filho merece um pai por inteiro e agora vou ter com a Maria! Adeus!
Não consegui reagir e a Mariana saiu sem sequer conseguir despedir-me dela, ainda assim sabia que a voltaria a ver logo no jantar de aniversário do Guilherme.
Passei as horas seguintes com o meu menino e quando saí do hospital fui direto à casa da Maria e assim que entrei na sala os nossos olhares cruzaram e imediatamente a Mari baixou o seu, ainda assim aproximei-me do meu afilhado que brincava alegremente no chão na companhia da madrinha mas mal me sentei a Mariana levantou-se e saiu da sala.
- O que é que se passou no hospital? - a pergunta da Maria despertou-me
- Nada…
- Nada? A minha prima saiu cá de casa abatida mas chegou aqui pior ainda, com os olhos vermelhos de tanto chorar e agora mal entras ela sai…
- Pedi-lhe desculpas por todo o mal que lhe fiz - suspirei - basicamente tivemos a falar…
- E ela?
- A Mari está decidida a continuar com a vida dela e não vou interferir mais…
- Vais desistir?
- Maria a tua prima está arrasada… destruí tudo o que tinha para destruir…
- Estás enganado… mas a decisão é vossa!
As últimas palavras da Maria deixaram-me a pensar e por isso durante o jantar foram mais os momentos que estive ausente do que presente, só voltei à realidade quando foi para cantarmos os parabéns ao Guigas. A Maria ajudou o filho a apagar as velas e depois partiu o bolo, foi enquanto o fazia que inevitavelmente olhei para a Mariana e percebi o esforço que fazia para segurar as lágrimas, aquele momento estava a destruí-la e só um cego é que não via, não aguentei mais assistir à dor do meu amor, levantei-me e retirei-a da mesa.
Fomos até à varanda e assim que ficamos só os dois, o meu amor agarrou-se a mim a chorar, naquele momento não foram precisas palavras, ambos sabíamos o que o outro estava a sentir, afinal sofremos os dois pelo menos motivo, por termos perdido os nossos filhos…
Não sei o tempo que ali ficamos, só sei que a Mariana acabou por limpar as suas lágrimas e regressar para a sala, teve a coragem que não tive e regressou para junto do nosso afilhado enquanto fiquei simplesmente a olhar para uma das muitas fotos que tenho do Filipe no meu telemóvel e só despertei quando a voz do pai da Mari despertou-me para a realidade.
- Estás bem? - limpei as lágrimas que continuavam a caírem
- Não…
- Ruben tem paciência com a Mariana, dá-lhe tempo…
- Acha que ainda posso ter esperanças?
- Se a amares de verdade saberás a resposta a essa pergunta…
- Sr. Manuel, amo a sua filha mais do que a mim mesmo e talvez seja por isso que começo a achar que devo afastar-me… a Mariana merece ser feliz e do meu lado nunca o será…
- Achas que não? - olhei-o - Ruben a minha filha fez a escolha dela há cinquenta e um dia, no dia que o teu filho nasceu a minha escolheu ficar do teu lado mesmo sofrendo diariamente manteve-se nunca vos abandonou, ajudou-te quando mais precisaste, tal como a ajudaste hoje ao retirá-la da mesa, ao trazê-la para aqui, vocês hoje fizeram o que já deviam ter feito há um ano, choraram juntos pela primeira vez a perda dos vossos filhos, por isso Ruben não digas que o melhor é se afastarem, o melhor é ficarem juntos, vocês nunca se deviam ter separado, deviam ter ultrapassado a perda dos meus netos unidos, mas não o conseguiram fazer, não interessa o motivo, o que interessa é que um ano depois estão aqui juntos e com o Filipe a unir-vos, dá tempo à Mariana mas acima de tudo não desistas agora ou então é que nunca mais recuperas a confiança dela…

***

Após uns minutos sozinho regressei à sala e encontrei a Mariana a brincar com o Guigas, fiquei a observá-la e só despertei quando o meu amor ao apanhar-me a olha-los mandou a bola para perto de mim
- Oh Guigas acho que vais ter de ir buscar a bola… - sorri para agarrar na bola e aproximar-me
- O padrinho dá a bola ao menino, né? - falei para o pequeno que se riu para agarrar na bola logo de seguida
Ficamos a brincar com nosso afilhado e quando o menino começou a ficar com sono a Mariana disponibilizou-se para o ir adormecer, algo que a Maria deixou e por isso voltei a ficar longe do meu amor, no entanto durou pouco, muito pouco ou não fosse ter saído pouco tempo depois. Fui até ao quarto do nosso afilhado e fiquei a observar remetido ao silêncio a tremenda capacidade que a Mari tem em conseguir transformar toda a dor que sente em amor para o menino.
- Não chores… - falou ao limpar-me as lágrimas que nem tinha percebido que caiam dos meus olhos
- Como é que consegues?
- Consigo o quê?
- Amar o Guigas e o Filipe desta forma…
- São amores diferentes… o Guigas é o meu eterno salvador, foi ele que não me deixou ir ao fundo e é nele que penso sempre que preciso de afastar a dor que sinto por ter perdido os gémeos, o Filipe… o Filipe é o teu filho… uma parte de ti… como tal amo-o…
- Sabes… gostava de ter essa tua força…
- Força?! O que chamas força eu chamo de viver um dia de cada vez…
A Mariana regressou à sala para se despedir da sua família, algo que também fiz pois precisava de ficar sozinho, saímos os dois ao mesmo tempo e por isso só nos despedimos junto dos nossos carros, mais uma vez fizemo-lo como dois bons amigos que somos…

Mariana
O dia hoje tem sido uma autentica montanha russa no que respeita a emoções, já chorei e já sorri para agora estar na minha cama sozinha e a sentir um vazio enorme, dei voltas e mais voltas na cama e cada reviravolta as imagens da noite de à um ano atrás pareciam mais reais na minha cabeça, não aguentei e tive que ligar para a única pessoa que provavelmente compreendia melhor o que se estava a passar, liguei para o Rui e estivemos imenso tempo a falar primeiro pelo telemóvel e depois pelo Skype, foi ele que viveu de perto a minha dor e foi ele que conseguiu acalmar-me, ainda assim estava longe de sentir-me capaz de desligar, não queria ficar sozinha e foi quando estava a confessar isso mesmo que a campainha tocou.
- Vai abrir… e tudo o que falaste comigo, fala com ele!
- Ãh? Como é que sabes quem está à porta?
- Amiga… não é de mim que precisas, é do Ruben!
- Avisaste-o?
- Sim!
- Para quê?
- Esquece Mariana não vou ficar a discutir isso contigo… não agora… porque agora vais desligar e abrir a porta ao Ruben, vocês têm é mais que curtir a dor da perda juntos, passaste as últimas semanas a apoiá-lo, agora é a vez dele retribuir isso… vocês precisam ambos disso… beijos!
Conforme falou desligou sem dar-me tempo de reagir, voltei a ouvir a campainha e ainda meio atordoada fui abrir a porta, primeiro a do prédio e depois a do apartamento. Minutos… minutos foi o que precisei para a porta do elevador abrir e de lá sair o Ruben, não tive coragem para o olhar, tinha consciência que estava um farrapo autêntico mas isso não foi impedimento para o Ruben abraçar-me, sentir o calor do seu corpo fez-me quebrar por completo, perdi as forças nas pernas e acho que só não caí porque o Ruben agarrou em mim ao colo, foi nos braços dele que fui até à cama e foi na cama agarrada a ele que chorei, chorei até não conseguir mais…

Ruben
Estava na cama sem conseguir adormecer quando recebi uma mensagem e assim que li o conteúdo da mesma saltei imediatamente da cama, vesti e saí com um só destino, o apartamento da Mari, uma vez que o Rui mandou mensagem a dizer que o meu amor estava a precisar de mim.
Não hesitei em ir ao seu encontro mas confesso que não esperava encontra-la naquele estado, doeu vê-la naquele desespero e só aí percebi o quanto sofre diariamente…
Fiquei remetido ao silêncio, a Mari precisava de tudo mesmo de falar, deixei-a descarregar a dor através das lágrimas e por fim adormeceu completamente exausta ainda assim agarrada.
Horas depois acordou e saiu da cama como se nada tivesse acontecido, algo que surpreendeu ainda mais quando ao entrar na cozinha a ouvi
- Vais ver o Filipe?
- Esquece o Filipe! - fi-la virar-se de modo a conseguir olhá-la nos olhos - Mariana nós daqui vamos mas é procurar ajuda…
- Ajuda?
- Sim, de um psicólogo!
- Para quê?
- Não adianta, amor nós precisamos disso, só assim conseguiremos ultrapassar a perda dos gémeos…
- Primeiro pára de falar no plural - olhou-me - eu e tu não temos nada muito menos de ultrapassar a perda dos meus filhos! Segundo não sou louca para precisar de um psicólogo! Terceiro desaparece da minha frente! RUA!
- Já acabaste? - falei serenamente
- Tu não me irrites!
- Irrita-te as vezes que quiseres mas daqui vamos ter com a Ana porque na clínica há uma psicóloga e vais fazer o favor de não dificultares!
- Mas quem és tu para dizeres o que devo ou não devo fazer? Ah espera… és aquele que há um ano não esteve presente… realmente tens muita mural para falar!!
- CHEGA!! Não posso mudar o passado mas no presente posso fazer algo para melhorar o futuro, amor o que vi ontem foi desesperante, mal conseguias respirar de tanto chorar, não sei nem sequer consigo imaginar o que sentiste quando te disseram que tinhas perdidos os nossos filhos, muito menos sei o quanto sofreste calada durante este ano inteiro, mas sei aquilo que vi e sei que não é isto que quero para a pessoa que amo, Mariana já se passou um ano e não conseguiste lidar com a perda e prova disso foi o que vi ontem, amor neste ano que passou agarraste-te a tudo para camuflares aquilo que estavas a sentir, nunca deixaste aqueles que te são mais próximos ajudar mas isso agora mudou, nem penses que vou deixar que te afundes cada vez mais… não vou deixar que fujas à realidade… vens e vens mesmo!
- Não quero!
- Lamento… Mariana depois do que vi deixou de ser uma questão de querer, por favor faz por ti, é só o que te peço…
- Ruben percebe uma coisa eu não me sinto preparada para falar do que se passou por isso não adianta ir a psicóloga nenhuma…
- Mas tens de ir…
- Não consigo!!!!!
- Vamos juntos… amor - aproximei-me ainda mais dela e limpei as lágrimas que escorriam pelo seu rosto - nós precisamos de ajuda… reconhece isso por favor!
- A única coisa que preciso é de um banho!
- Ok… vai tomar banho!
Resolvi não insistir e deixá-la tomar um banho, depois logo voltaria a falar com a Mari.
Será que a Mariana procurará ajuda?
E qual será o impacto deste episódio na “amizade/amor” destes dois?