quarta-feira, 30 de janeiro de 2013

063 - "...tivesses controlado os gemidos..."


Ruben
Estes últimos dias têm sido uma seca, talvez porque a única coisa que quero é estar com a Mari mas infelizmente não dá, tive de regressar a Braga e ela não quis vir comigo ou melhor não pode devido ao seu trabalho. Mas hoje acordei animado, depois do último treino do ano de 2012, só tinha que esperar mais umas horas para voltar a ter a Mari nos meus braços, o voo até Valência foi feito com um só pensamento, aproveitar estes dois dias para namorar imenso com a Mariana.
Cheguei ao aeroporto e à minha espera tinha o João quando no mais intimo do meu ser queria que fosse a Mariana talvez por isso não mostrei grande animo quando o vi.
- Isso é tudo alegria por ao fim deste meses todos visitares pela primeira vez aqui o mano, é?!
- Deixa-te de cenas...
- Mau... que falta de animo é essa? Até parece que as cenas entre vocês não estão bem!
- Ohhh
- Queres desenvolver esse “ohhh”?!
- Sei lá... tenho medo que as cenas não estejam assim tão bem como aparentam.
- Traduz lá isso que não entendi!
- João, pedi à Mari para ir comigo para Braga estes dias mas recusou e agora sinceramente esperava encontrá-la aqui à minha espera no entanto foste tu que vieste...
- Shiii que filme! Puto a Mari não veio mas garanto que está desejosa de te meter os olhos em cima... quer dizer... não é só os olhos mas pronto - sorri perante a insinuação que fez - mano a Mari só não veio porque além de ainda não se orientar bem em Valência está com a Maria e a Ana a preparar o nosso jantar.
- Ahh!
- Ahh - imitou-me - mesmo sério às vezes parece que és burro ou que comes merda às colheres! Ainda agora fizeram as pazes com a Mari e já estás a ver problemas onde não existem... puto atina de uma vez!
- Para ti é fácil... não foste tu que viste a tua vida a alterar por completo - olhou-me.
- Estás a insinuar que a culpa é minha ou da Maria?! É que se estás vais por um caminho sem retorno... puto não sou a Mariana que andou meses a comer e calar, sim errei mas ninguém se arrepende mais do que eu, no entanto não te admito que nos culpes por não teres coragem de assumir a merda que fizeste! Ou achas mesmo que o que originou isto tudo foi o teres mimado demasiado a Maria? Se achas lamento informar mas não foi... o que arruinou o teu casamento foi teres ignorado todos os sinais que a Mari te deu, foi nem sequer dares abertura para discutirem o assunto filhos... Puto a Mari contra todas as expectativas quis assentar e constituir família, o único erro dela foi e continua a ser não perceber que ainda não apanhaste a mesma onda que ela, continuas no mundo da lua quando a Mari há muito que está com os dois pés bem assentes no chão!
Não respondi e por isso a viagem até à sua casa foi feita no silêncio no entanto as suas palavras começaram a fazer cada vez mais sentido à medida que ia pensando nelas.
Entramos em casa e assim que chegamos à sala a Mari, que também vinha a entrar, correu na minha direcção e saltou de imediato para o meu colo, beijando-me demoradamente.

- Finalmente... estava a ver que nunca mais chegavas! - sorri ao ouvi-la e quando desviei o olhar para o João encontrei-o a sorrir como quem diz “Vês... deixa de ser otário”
Os minutos seguintes foram dedicados inteiramente à Mariana tanto que quando desgrudamos um do outro percebemos que estávamos sozinhos mas acabamos por ir procurar os restantes.
- Olhem só quem já parou com a troca acentuada de saliva! - o Fábio foi o primeiro a dar pela nossa presença.
- Mais descansado?! - a Mari olhou-me assim que o João falou - Ou continuas um menino da mamã?
- E estares caladinho, não? - o João gargalhou
- E tu podes explicar que boca foi esta que o João mandou! - a Mariana não pediu praticamente ordenou ainda assim
- Fui eu que pensei que ias buscar-me ao aeroporto e quando vi o João posso ter dito assim alguns disparates...
- Alguns?! - se o olhar fuzilasse acho que o João naquele momento teria sido fuzilado - Sim Mari... esse menino aí tá todo cagadinho tal não é o medinho - gargalhou ao ver-me descontente - que tem em meter novamente a pata na poça!
O assunto “morreu” porque a Mari não deu conversa e as horas seguintes foram partilhadas a seis ou melhor a sete porque a a Maria informou-nos que o Bruno Guilherme estava a desafiar o pai para um pé de dança, aquilo levou-nos a gargalhar porque se há coisa que o João detesta é dançar e por isso mesmo fugiu em grande estilo ao afirmar que entre dançar ou sentir o menino prefere a segunda, algo que a levou a Maria a babar e a nós a sorrir por os vermos aos dois finalmente a viverem as maravilhas da gravidez.
- Pshiu... chega para lá que também quero sentir o Guilherme! - a Ana arranjou forma de se sentar entre a Maria e o João, sim é verdade que já estava bem animada mas ainda sabia o que fazia e fê-lo só para chatear o papá babado que refilou mas acabou por dar-se por vencido e ficar a olhar enquanto o Fábio também se aproximava, estavam agora os três de volta da barriga da Maria.
- Olhem e vocês não se aproximam? - a Maria picou-nos e foi o suficiente para
- Ui... a mãe do meu Bruno Guilherme - a Maria fuzilou-me com o olhar mas não foi o suficiente para calar-me - está a reclamar pelos meus mimos, é?! Isso é tudo saudades dos miminhos aqui do padrinho... - falei ao ajoelhar-me perante a sua barriga e ao colocar as mãos nela.
- Sai daqui JÁ!!! É que nem penses que chamas essas coisas ao meu filho e depois vens meter as tuas patas dianteiras na minha barriga!... Bruno Guilherme?! Ainda me vais dizer onde foste buscar essa ideia! - ela afastou-me as mãos da barriga enquanto o João e o pessoal riam
- Onde fui buscar a ideia? A lado nenhum... pois não é uma ideia mas sim o nome da pipoquinha do padrinho!
- Ruben Filipe tu não me enerves! A pipoquinha da mamã chama-se GUI-LHER-ME! E vocês os dois - apontou para mim e para o João - Escusam de fazer panelinha que eu não vou mudar de ideias!
- Sim... pois... está bem... até lhe podes chamar de GUILHERME mas para nós será sempre Bruno! - respondi numa de provocar mas acabei por ouvir aquilo que não queria.
- Engraçado... ao contrário da minha prima e sabendo o significado que o nome tem para vocês os dois até podia ponderar dá-lo ao meu filho mas para isso preciso arranjar um PAI para o meu filho...
A Mariana assim que respondeu saiu da sala sem se importar com a baixa temperatura que se fazia notar na rua.
- És mesmo camelo, não és? - a Maria falou - Realmente tens mesmo tendência para te enterrares... É que nem comigo quase a gritar o “Sai daqui JÁ” percebeste que a tua brincadeira magoou mais uma vez a minha prima...
A Maria levantou-se com a intenção de ir ter com a Mariana mas impedi-a, quem fez a porcaria fui eu logo sou eu que a tenho de resolver.

Mariana
Ver o Ruben novamente vidrado na barriga da Maria e ouvi-lo a falar daquela forma melindrou-me por completo, apesar de saber que o motivo que o leva a não querer ser pai é os Km’s que nos separam continuo a sentir-me lixo sempre que vejo os seus olhos brilharem ao olhar para a barriga da Maria, sinto que no fundo o Ruben não quer porque um filho é para a vida e talvez isso seja demasiado tempo para ele, talvez ache que o nosso amor não será eterno.
Tentei, juro que tentei, controlar-me ao máximo e guardar para mim o que estava a sentir mas acabei por deixar fugir pelos lábios entreabertos algo que sabia que o iria magoar mas ao mesmo tempo chamar para a realidade mas conforme o fiz também sai da sala, não iria dar o prazer ao Ruben de ver-me novamente a chorar por algo que para ele está mais do que decidido.
Refugiei-me na varanda e nem o frio fez com que regressasse, fiquei no máximo dois ou três minutos sozinha uma vez que o Ruben apareceu, tentei limpar disfarçadamente as lágrimas mas...
- Sei que estás a chorar... não precisas disfarçar e muito menos negar!
- Se sabes que estou a chorar também deves saber o porquê e ainda que se vim para aqui é porque quero estar SOZINHA!
- Até podes querer ficar sozinha mas não vais conseguir - o Ruben sentou-se no chão e do meu lado - por muito que queiras não vou afastar-me de ti - abraçou-me e sinceramente só não me afastei porque estava novamente sem forças - Mariana quero muito um BRUNO ou uma BRUNA ou lá o que for mas não acho justo trazermos um filho ao mundo quando continuamos separados fisicamente, não é justo para o bebé nem para nós - agarrou-me no rosto - quero viver cada segundo da gravidez, quero apoiar-te desde o início e não só quando der...
- Quem te disse que não podes apoiar desde o início?
- Ya... eu em Braga e tu em Lisboa!
- Posso mudar-me...
- Nem penses! - olhei-o novamente desiludida perante a prontidão com que interrompeu-me - Mariana mais do que nunca precisamos ser razoáveis, amor o empréstimo ao Braga termina daqui a uns meses, ainda não faço a mais pequena ideia do que irá acontecer e isso não me deixa nem um pouco tranquilo, além disso e agora exijo que sejas o mais sincera possível, estás preparada para darmos esse passo em frente? É que se o dermos não há mais volta a dar...
- Onde queres chegar?
- Onde quero chegar... a algo tão simples como um filho é para a vida mas principalmente só serei pai quando tiver a certeza absoluta que estou preparado para isso e neste momento não me sinto, não quando nos divorciamos à primeira dificuldade, Mariana amo-te e sei que sou correspondido, não é isso que está em causa mas sim se temos a maturidade suficiente para aguentarmos o barco sem o deixar ir ao fundo... Mariana sou filho de pais separados e apesar de ter crescido rodeado de amor, dos meus pais sempre se terem dado bem, não deixo de sentir um vazio enorme porque nunca tive o mesmo que os outros miúdos tinham quando chegavam a casa e partilhavam com os pais o que tinha acontecido num dia de escola, nunca soube o que é acordar a meio da noite com um pesadelo e refugiar-me na cama dos pais à procura de sentir-me protegido pelos dois, nunca passei um Natal que seja na companhia dos dois, sempre tive duas casas e fins-de-semanas alternados, sempre tive amor é verdade mas nunca foi completo porque ou tinha o amor do pai ou o da mãe mas ambos ao mesmo tempo ainda hoje não sei o que é... por tudo isto e por aquilo que não disse mas que sinto não consigo tolerar a ideia de ser PAI neste momento... desculpa mas não me sinto preparado para encarar este desafio por muito que te AME não consigo... Desculpa...
Senti-me a pessoa mais pequenina e mesquinha ao de cima da terra, a verdade é que andei este tempo todo só a olhar para o meu umbigo, nunca parei para perceber o verdadeiro motivo pelo qual o Ruben afastava a ideia de ser pai, sempre pensei que o problema era meu e afinal é mais complexo.
- Desculpa! - abracei-o - Desculpa por obrigar-te a falares algo que deves ter guardado estes anos todos só para ti - olhou-me.
- Não tens que pedir desculpas... até porque se tivesse sido honesto desde o início não te tinha magoado.
- Esquece! Ruben quero ser mãe e apesar de achares que não estás preparado para ser pai sei que estás... basta que penses no que foi os nossos últimos meses para perceberes que estás mais do que preparado mas compreendo que tenhas receio e até medo desta nova etapa ainda mais agora que acabamos de passar por uma fase negra, por isso prometo que não toco mais no assunto, pelo menos nos próximos meses, vamos esperar a época terminar para saberes o rumo que a tua vida profissional vai dar e aí decidirmos os dois em comum acordo a vinda ou não do nosso primeiro rebento.
Ainda ficamos mais um bocado sozinhos mas acabamos por regressar para junto deles, até porque já estávamos a congelar, e assim que entramos serenamos tanto a grávida como os restantes ao afirmar que tínhamos resolvido de uma vez o assunto.
***
As horas passaram e pouco tempo depois das doze badaladas cada casal foi para o respectivo quarto, uma vez que o João treina amanhã. Ainda não tinha chegado ao quarto e já o Ruben demonstrava bem o que tinha em mente mas resolvi dificultar-lhe a vida ao afastar-me dele.
- Não queres? - perguntou-me assim que percebeu que encaminhava-me para a casa-de-banho mas não lhe dei resposta e o Ruben também não insistiu.
Demorei alguns minutos e quando regressei ao quarto o Ruben já estava deitado de barriga para cima e de olhos fechados, sorri ao pensar que devia estar convencido que o deixaria dormir a noite toda quando na verdade os meus planos eram outros.
Aproximei-me lentamente e sem denunciar a minha presença, mirei cada milímetro do seu corpo despido, confesso que perdi-me a olhar uma certa parte do seu corpo, tanto que fui apanhada...
- Sabes que é todo teu - olhei-o e vi que sorria talvez por ter apanhado-me em flagrante - não precisas ficar só a olhar - devo ter corado porque o Ruben gargalhou para no instante seguinte puxar-me para ele, caí literalmente em cima do seu corpo mas não o devo ter magoado porque não se queixou até pelo contrário - agora vais sofrer... - o Ruben virou-se, deixando-me debaixo de si e tomou de imediato as rédeas dos acontecimentos, o Ruben beijou-me com uma urgência destemida para logo depois ver-se livre da lingeri que escolhi para a primeira noite de 2013 e assim conseguiu percorrer todo o meu corpo com a sua boca deixando um rasto de saliva e fargilizando-me cada vez mais, à medida que foi descendo com a boca e língua pelo meu peito e barriga as suas mãos foram subindo pelas minhas pernas, acariciando as minhas coxas para irem de encontro à parte mais sensível do corpo de uma mulher, uma coisa é inegável o Ruben conhece-me muito bem ao ponto de levar-me em minutos ao desespero completo, queria ser dele o quanto antes mas parece que queria que lhe implorasse tal coisa, algo que o meu orgulho não deixou e como tal decidi vingar-me, fazê-lo provar do mesmo veneno e assim mostrar-lhe que nem sempre pode sair vitorioso. Brindei-o com todo um conjuntos de “mimos” dados pelas minhas mãos, boca e língua por todo o seu corpo mas concentrando-me no seu sexo, a verdade é que o “torturei” e quanto mais se tentava controlar e abafar os gemidos mais rapidez colocava nos movimentos de vaivém que lhe estava a fazer com a boca, brinquei tanto com o “fogo” que acabei “queimada”, o Ruben não se controlou e... mas se pensava que iria ficar incomodada enganou-se, muito pelo contrário não estava minimamente satisfeita e não lhe dei hipótese sequer de recuperar, continuei a brincar e minutos depois já estava novamente em brasa, sorri ao olhá-lo para no momento seguinte “sofrer” nas suas mãos, o Ruben inverteu a posição, deixando-me completamente dominada por ele, pensei que fosse também ele “torturar-me” mas enganei-me redondamente, o Ruben penetrou-me sem mais demoras e nada incomodado se no quarto ao lado podiam ou não ouvir os nossos gemidos de prazer, a verdade é que não consegui controlar-me e quanto mais gemia mais o Ruben aumentava o ritmo, não sei se foi durante muito ou poucos minutos só sei que senti-me completa como há muito não sentia no momento que atingimos novamente o orgasmo em plena sintonia, ainda assim não ficámos satisfeitos, tanto que ainda durante a noite voltamos a ser um do outro mas de forma mais “pacifica” e silenciosa.
Acabei por adormecer nos seus braços e com uma sensação de completa harmonia, aquilo que tínhamos acabado de fazer para uns pode ser só sexo e ser condenável mas para mim foi amor do mais puro e inocente que pode existir, não há nada melhor que duas pessoas que se amam se entregarem sem pudores uma à outra, namorar não é só dar beijinhos ou dar a mão, é também sexo porque este é uma forma de conhecer o outro, de o amar e de o idoletrar, sexo quando feito com a pessoa de quem gostamos verdadeiramente e que queremos do nosso lado para todo o sempre é muito mais que uma entrega física, de uns minutos de prazer, é a fusão de duas partes numa só, é sentirmo-nos um só, é ter a certeza que nem sempre será com a mesma intensidade mas será sempre único e partilhado em plena sintonia com o outro.
Acordei e assim que consegui abrir os olhos deparei-me com o Ruben a olhar-me de uma forma tão intensa mas ao mesmo tempo tão calma que foi impossível não sorrir, deixamos-nos ficar a brincar com as mãos um do outro e a olharmo-nos como se o mundo fosse acabar...

Acabamos por sair da cama e consequentemente do quarto uma vez que estávamos ambos cheios de fome.
Entramos na cozinha algo animados e isto porque o Ruben na distância percorrida do nosso quarto até à cozinha resolveu armar-se em puto e desafiar-me para uma corrida de modo a descobrirmos quem chegaria primeiro e não sei o que me deu para alinhar em tal parvoíce mas o certo é que lhe ganhei.
- Ahahah... perdeste - meti a lingua de fora e sem esperar o Ruben agarou-me ao colo e...

Lógico que com a noite agitada que tivemos aquilo só serviu para reacender o rastilho e depressa nos esquecemos do sítio onde estávamos mas...
- Hey! Parou! Não basta já nos terem traumatizado ontem?! Sim que tenho-vos a dizer que não foram nem um pouco contidos...
- Ana! - falei em tom de represália, sim nós é que abusamos mas quer dizer ela bem que podia controlar certo tipo de comentários
- Que foi?! Vão negar, é? - gargalhou talvez por ter escondido a minha cara no ombro do Ruben - Isso é que foi tirar a barriga da miséria... que animação...
- Menos... muito menos!
- Amiga... tivesses controlado os gemidos e já não estávamos a ter esta conversa - voltou a rir - mas ok... dou-vos umas tréguas afinal nós - olhou para o Fábio que já estava a beber um copo de leite e que por isso engasgou-se quando a ouviu - fizemos o mesmo que vocês... somos é mais discretos!
- Shiii estás a querer matar o teu homem, é? - o Ruben aproveitou a dica do Fábio se ter engasgado para desviar a conversa.
- Não te preocupes que não é com um copito de leite que ele morre engasgado...
Olhei incrédula perante a insinuação que a Ana fez mas esta ficou sem respostas porque a entrada da Maria e do João fez com que mudássemos de tema ou não fosse a minha prima anuncias a ida ao centro de treinos do Valência, algo que tanto eu como a Ana nos colamos de imediato, afinal não perderíamos um momento destes por nada...
E agora esta ida ao centro de estágio correrá bem? E os próximos tempos?

sábado, 26 de janeiro de 2013

062 - "O nosso primeiro Natal"


Maria
Os três dias que se seguiram foram dedicados às compras de Natal que deixei mesmo para os últimos dias e para elas tive a companhia do João, já que segundo ele eu não podia carregar o peso dos sacos.
Este ano para variar a ceia de Natal foi em casa do meu tio Jorge e como se isso não fosse novidade que chegasse ainda foi o primeiro Natal em que a Mariana o que mais desejava era que eu explodisse para que ela não me tivesse de ver, ela tentou disfarçar durante uns tempos mas agora é óbvio que a minha presença se tornou insuportável e isso deixou-me nitidamente mexida. A conversa conseguiu ser animada até que a Matilde resolveu perguntar pelo Ruben e ai a Mariana resolveu abrir o jogo para a família algo que ainda não tinha feito e quando o fez apesar de tentar falar com ela fui literalmente enxotada e ela acabou mesmo por revelar a sua alteração de estado civil. Claro está que o meu tio Manuel acabou por jogar gasolina na fogueira e quando a Mariana mais uma vez o calou fomos todos surpreendidos pela entrada do Ruben que se manteve calado até que a Mariana deu pela sua presença e ai quem recebeu uma prenda de Natal fui eu ao ver os dois unirem-se novamente. E eu aproveitei para “espalhar a noticia” afinal sabia perfeitamente que havia alguém que andava a fazer tudo o que podia para que estes dois se atinassem.

Pertinho da meia-noite a Mariana e o Ruben voltaram depois de chamados pela Matilde e o tema da conversa mudou completamente quando esta resolveu perguntar se a Mari e o Ruben não queriam  filhos a conversa voltou a azedar e de que maneira, mas acabou tudo resolvido e quando chegou a hora
- Bem família nós vamos andando! - apontei para a barriga
- Vais com quem filha?
- Sozinha! Porquê pai?
- Nada... pensei que agora que tu e o João se acertaram que ele passaria por aqui...
- Pai, menos... já falamos sobre isso...
Despedi-me de todos e quando já saia
- Maria!
- Sim tio?
- Não queres ficar aqui?
- Não obrigada... vou até casa que prometi que amanhã almoçava em casa dos pais do João!
- Hummm em casa dos pais do João... -falou a rir
- Tio! É a outra metade da família do Guilherme!
- Pronto não digo mais nada!
Segui até casa, foi uma viagem rápida e tranquila até chegar a porta do apartamento porque quando ai cheguei o coração saltou-me à boca
- Feliz Natal papá! - sussurrei-lhe ao ouvido acordando-o, sim ele estava sentado no tapete a dormir - o que é que tu estás aqui a fazer? - perguntei no mesmo tom assim que o senti mexer
- Vim desejar feliz Natal ao meu filhão - puxou-me de forma a ficar sentada no meio das pernas dele - e à... à... à... mamã mais linda do mundo - deu-me um beijo no pescoço
- Huuummm e não podias enviar por sms?
- Precisava de dar os respectivos beijinhos... mas se incomodo vou-me já embora....- levantou-se e ajudou-me a levantar
- Não é bem incomodar, mas nas escadas não é o sitio ideal!- ele gargalhou - Vamos entrar?
- Claro até porque ainda temos a prenda do Bruno para abrir
- Bruno?? Prenda?
- Aqui! - ele apontou para um enorme embrulho que tinha junto da zona da escada
- Entra! Entra! Quero abrir!!! - ele voltou a gargalhar e arrastou o presente com ele até à sala - Posso? -disse eu arrancando o papel
- Serve de alguma coisa dizer que não?
Rasguei todo o papel para dar de caras com um enorme Urso!

- Ohh adoro!!!
- Sabes que não és tu que tens de gostar não sabes?
- Sei, mas eu adorar é meio caminho andado para ele gostar também...
- Então óptimo! - voltou a rir e as saudades que eu tinha
- Psiu... ele também gostou olha sente só! -  o Guilherme dava “pulos”
- Bem que animação! E agora...- olhei-o enquanto ele foi ao sofá pegar um saco - a prenda da mamã!
- Tás a gozar?!
- Abre e deixa-te de cenas porque o “não era preciso” comigo não pega,  gostas mais de prendas que os bebés!
Abri o saco e de lá tirei um álbum de fotografias, daqueles à moda antiga com fotos em papel e tudo! E quando comecei a folhear comecei a chorar tinha fotografias até do dia em que nasci... e dele também era no fundo a nossa historia desde que ambos nascemos até a fotografias que desconhecia totalmente dos primeiros dias na secundária, do dia do inter-turmas e do primeiro jogo de verdade ou consequência aquele em que a Mari beijou o Ruben... continuei a folhear e baile de finalistas, a noite de meu aniversário e do re-encontro depois de voltar de Faro, os vários jantares a quatro ou a seis, muitos momentos a dois... e algumas fotografias destes últimos meses, a apresentação dele em Valência, alguns jogos dele, e as fotografias que fui partilhando no Facebook da gravidez incluindo a primeira eco e a que tiramos no dia em que conversamos e o Guilherme mexeu em todas tinha uma legenda personalizada ao máximo ou nalgumas  situações a visão do João do acontecimento e algumas linhas em branco para que eu pudesse deixar a minha visão também e muitas folhas em branco iniciadas por uma que só tinha

- Então? Está assim tão mal que te meta a chorar?
- Deixa de ser “humilde” sabes perfeitamente que está brutal... opá! Quem é que te arranjou estas fotografias?
- Isso não interessa nada...
- E agora? Como é que eu vou conseguir manter isto com este nível?
- Fácil! Tens-me a mim para tratar disso!
- Obrigada! E agora anda cá tu e o urso!
-  Eu e o urso?!
- Sim para a foto a meter aqui!
Peguei na minha maquina fotográfica e depois de programar o temporizador sentei-me no sofá com o João ambos a agarrar bem  na minha barriga enquanto o urso nos acompanhava no chão
- Anda - puxei-lhe pela mão fui ao escritório e imprimi a foto colei-a no álbum e escrevi

- Vês como te safas bem?
- É... mas esta não é A fotografia que queria meter aqui... esta também queria porque é a primeira prenda de Natal que o Guilherme recebe, mas... anda cá!
Sem pensar muito mais sentei-me no colo dele e juntei os nossos lábios disparando a maquina e quando tentei ver a fotografia, o simples encosto de lábios já estava transformado em algo mais, deixei a maquina cair no sofá e aproveitei cada milésimo de segundo daquele beijo que tinha muito de saudade e de arrependimento e muito pouco de inocente, quando o ar nos  faltou afastamos-nos muito lentamente mas não sai do colo dele encostei a cabeça ao seu ombro e ficamos a olhar-nos parecendo dois parvos a rir
- É suposto esta fotografia marcar um momento importante? - disse mostrando na imagem da maquina o nosso beijo
- Juro que se sonho... só sonho que te pões de sorrisinhos com alguma espanhola... o Guilherme é mesmo o primeiro e ultimo filho que tens!
- Huum vamos fazer um plantel completo!
- Exagerado!
Durante algum tempo ainda o coloquei a par dos últimos acontecimentos com os padrinhos do Guilherme e depois, depois o momento foi apenas para tentar recuperar toda a falta que o MEU João me fazia. Da sala mudamos-nos para o quarto onde passamos toda a noite a trocar mimos, mas sem chegarmos mais longe já que era notório que neste momento, não nego que tivesse muita vontade, mas mais do que isso tinha uma certa insegurança e aqueles mimos “simples” e aquelas promessas de amor  ridículas me deixavam a levitar...

João
A Maria não estava nada convencida em que voltássemos a ser novamente um casal, mas eu sabia que aquilo era a cabeça a falar e que se eu conseguisse chegar ao coração conseguia mudar as coisas.
Nem tentei que o Natal fosse passado em conjunto, sabia que a Maria não iria abdicar da família e eu também não me consegui dar ao luxo de abdicar do pouco tempo que tenho para os meus por isso ficou combinado que a ceia seria separada, mas que o Bruno iria almoçar com os avós e o pai no dia de Natal. Na véspera ainda estive com ela de manhã, mas perto da hora do almoço ela seguiu para casa dos tios, assim que soube que a Mariana já lá estava. Apesar de a prima não estar a disfarçar nem por um segundo que culpava a Maria por tudo o que lhe estava a acontecer a Maria tinha decidido que iria ignorar até que conseguisse solucionar o que se passava.
A meio da tarde e já em casa dos meus, depois de terminar de tratar das pendas do Bruno e da Maria achei que era a altura ideal para dar mais um “toque” ao Ruben, e como estávamos todos em Lisboa podia ser que ele reagisse. Não queria que desatinasse comigo no Natal por isso enviei apenas uma sms com uma expressão que eu sabia que lhes dizia muito “que seja infinito”
Tal como esperava ele não me respondeu e já a noite ia avançada quando recebo uma sms da Maria, sorri para o telemóvel já que era supostamente o Guilherme que a escrevia
- Alguma mensagem daquelas divertias?
- Não minha cusca preferida - a minha mãe não disfarçava a curiosidade - É o Guilherme...
- Ahhh... o Guilherme?!
- A Maria né mãe?!
- Ehhh - disse a rir - ela sempre vem cá amanhã?
- Sim...
- E esse sorriso é? - gargalhei
- Parece que o Ruben e a Mariana voltaram às boas
- Ainda bem... a Maria andava tão em baixo...
- Oh pai! - fingi uma voz de criança que faz queixas - a mãe já não gosta de mim agora só quer saber da Maria... - continuei no mesmo tom e fiz cara de amuo
- Oh coitadinho do meu filho! - ele chegou e “despenteou-me” enquanto o resto da família ria - Está com ciumes da mãe do filho!
- É coitadinho - a minha mãe repetiu-lhe o gesto - mas não te preocupes que agora que cá estás nem lhe digo um ai...
A entrada dos mais novinhos da família a correr na sala voltou desviar as atenções e assim que a meia noite e a entrega das prendas passou, agarrei nos dois embrulhos que me faltavam e levei-os até ao carro e voltei atrás
- Mãe até amanhã! - dei-lhe um beijo
- Vais para tua casa? Não queres ficar aqui?
- Não vou para casa... pelo menos não directamente... a que horas nos queres cá em casa amanhã?
- Ás 13h tá bom?
- Tá óptimo! Eu vou andando
Sai directo para o apartamento das MM’s, quando lá cheguei ainda estive alguns minutos na rua à espera que uma delas me abrisse a porta, mas só consegui entrar no prédio quando uns dos vizinhos saíram. Subi e na porta do apartamento toquei novamente e novamente ninguém abriu, acabei por me sentar no tapete da entrada e esperar que alguém aparecesse eu tinha que lhes entregar os presentes...
A espera foi ainda longa e parece que adormeci pois quando voltei a dar por isso consegui sentir o calor do corpo da Maria muito perto do meu e ainda ouvi a sua voz bem baixinho junto do meu ouvido, em vez de me levantar puxei para junto de mim e ainda ali ficamos alguns minutos até que me pareceu que ela me queria longe dali e preparei-me para sair, mas percebi que afinal só queria entrar.
Entreguei-lhe as prendas e felizmente ela gostou! Tanto do urso para o Bruno como do álbum que me deu muito gozo organizar com a ajuda da Ana, sim pedi ajuda para a Ana e não para a Mariana porque como ela andava nem quis jogar lenha para a fogueira. Mas ainda fiquei mais feliz quando a Maria resolveu começar naquele momento a completar o álbum e depois de uma fotografia de “família” acabou por tomar a iniciativa de se sentar no meu colo e unir os nossos lábios. Senti o flash da maquina e quando a Maria tentou afastar os nossos lábios não a deixei, continuamos o beijo até que o ar nos faltou e nesse momento temi levar um par de estalos por me ter esticado, mas em vez disso e felizmente a Maria apenas encostou a cabeça no meu ombro e ficamos a olhar-nos e trocar sorrisos. Arrisquei pegar na maquina e depois perguntar-lhe o significado do que se tinha passado e adorei a resposta, foi a melhor prenda de Natal que podia ter.
Os momentos que se seguiram foram para matar-mos saudades, mas sem grandes “festas” apenas mimos e conversas sem grande lógica enquanto íamos sentindo o Bruno que estava bastante animado, não que não me apetecesse algo mais mas era óbvio que a Maria não estava confortável por isso nem sequer tentei... até porque ao percebê-la desconfortável também eu assim fiquei e com várias duvidas...
- Tás a sentir-te mal? -  perguntei-lhe quando a vi bufar
- Não, tou com sono... mas o teu filho não me deixa dormir!
- MEU filho?! Ah que engraçado! É meu filho isto, meu filho aquilo... e agora como não te deixa dormir já é teu filho!
- Claro... vê lá se não é óbvio que é teu filho! Agora que estou de rastos e preciso dormir é que resolve estar todo animadinho!
- Ah já percebi... quando é bonzinho e bonitinho é teu... quando faz asneira é meu...
- Vês como sabes! - mostrou-me a língua e aninhou-se no meu abraço
- Filho, vamos lá ter uma conversa os dois... - ela riu - tá na hora de dormir! Vá deita lá ai na barriguinha da mamã para ela dormir também! - fiquei a fazer-lhe algumas festas e senti o bebé acalmar e pouco tempo depois a Maria mexeu-se de forma a ficar mais confortável e acabei por ficar a vê-la dormir até me sentir também eu adormecer.
Nos dias seguintes aproveitamos para matar todas as saudades que tínhamos, ou quase... É que ao contrario do que tinha pensado o facto de a Maria estar grávida e de a barriga ser bem visível o meu desejo por ela não diminui nada, antes pelo contrário, mas sempre que estávamos os dois sozinhos ao principio sentia-a desconfortável e quando finalmente mesmo sem falar estávamos ambos em sintonia sempre que o momento se aproximava éramos interrompidos.
Infelizmente a passagem de ano para mim já não poderia ser em Portugal e por isso decidi desafiar o pessoal a passa-la em Valência comigo o que prontamente aceitaram, e acabaram mesmo por ir no mesmo voo que eu e ai assisti a uma cena que nunca tinha imaginado ver!
Assim que entramos no avião a Maria teve de correr até ao wc enquanto nós nos sentava-mos, nesse momento sou abordado por uma das hospedeiras de bordo que era minha conhecida ela prolongou ao máximo a conversa mesmo eu não estando com grande vontade para tal o que a Mariana e a Ana aproveitaram para começarem as duas a mandar bocas
- Ana nem sabes hoje durante o voo vamos poder observar uma espécie de pássaros muito raros... - só pelo tom que usou percebi que iria lançar asneira
- Claro que sei... vai ser algo muito raro mesmo - lindo a Ana estava ao mesmo nível
- Pássaro raro?! Mas vocês tão parvas? - boa o Fabio tinha acabado de perder uma excelente oportunidade de ficar calado
- Não mor vamos poder hoje observar o maravilhoso voo de um animal em vias de extinção...
- Mas que animal? - enquanto tomava atenção à conversa deles sorria para a Elena fingindo que a ouvia
- Então a hostess flying nunca ouviste falar? - tinha eu próprio gargalhado com a resposta da Mari se a não tivesse visto a Maria aproximar-se
- Bom dia... - a Maria cumprimentou a Elena e ficou parada junto a ela no corredor já que esta lhe barrava o acesso ao seu banco
- Buenos dias...en el que puedo ayudar?

Maria
- Precisava de duas coisas... a primeira que chamasse a sua superior já que estando gravida preciso avisá-la e penso que ela terá alguns conselhos a dar-me e a segunda que me ajude a chegar ao meu lugar
- Una vez que el vuelo a comenzar mi jefe pasará cerca de usted...Pero vai embarazada y viajar sola? ¿Cuál es su lugar? - perguntou a olhar o meu bilhete
- Não, vou viajar com o meu namorado … e o meu lugar é esse ai... se não se importasse de se desviar...
- ¿Dónde está tu novio? que se espera que viaje con él podemos cambiar de lugar sin problema - mas ela será burra ou estará a testar-me os limites, já não chega os sorrisinhos com que os dois estavam!
- Mira cariño yo no me tengo que cambiar mi lugar, ya que es libre y que ya hay al lado de mi novio y padre del bebé, ahora puedo sentarme? - ela desviou-se e olhou admirada para mim e para o João, enquanto eu me sentava e dava um pequeno beijo no João para de imediato ouvir o Fábio
- Tão a ver como não há pássaros... a Maria chegou aqui e “like a boss” meteu tudo nos seus lugares! - não percebi a dos pássaros, mas estava mais preocupada na conversa ao meu lado
- Yo no sabía que usted está comprometido y vas a ser padre ... los mejores deseos
- Gracias... - o João balbuciou e finalmente a “querida” voltou à posição dela para de seguida ouvirmos os primeiros sons dos avisos de segurança - fofinha... Maria...
- Diz?
- Ela é minha vizinha...
- E quem é que perguntou alguma coisa?
- Não precisavas ter falado castelhano ela percebia se falasses em português
- Percebia não me pareceu nada... mas assim tenho a certeza que percebeu! 
- Isso é tudo ciumes?
- Ciumes? Eu? - fingi-me indignada enquanto tentava controlar o riso - O que é que achas?!
- Que tás roidinha, mas anda cá! - puxou-me para ele e demos um rápido beijo que acabou por desencadear outros menos rápidos só interrompidos pelo uma tosse forçada da chefe de cabine que me indicou todos os cuidados que deveria ter durante o voo.
Assim que voltei a ficar sozinha senti algo que não sentia há algum tempo, desejo e muito!
Ainda tentei disfarçar tal coisa ignorando o João e tentando saber que raio de historia era essa dos pássaros mas foi uma tentativa falhada já que o João resolveu mimar o filho e assim que o senti por perto acabei por me recostar a ele e deixar que a minha mão viajasse primeiro pelas suas coxas para acabar distraidamente um pouco mais acima.
- Maria...- ouvi-o chamar-me num sussurro
- hum?
- Fofinha pára com isso....
- Não estou a fazer nada - fingi-me desentendida enquanto intensificava a massagem que tinha começado
- Não... claro que não és tu! É só a tua mão! - disse num tom mais aflito - Pára...
- Guilherme o teu pai tá transformado num fraquinho! - quando falei pensei que talvez fosse outro o problema, talvez eu tivesse deixado de ser uma mulher desejável para passar a ser uma incubadora com pernas e por isso resolvi terminar a brincadeira e sentar-me novamente direita no meu lugar
- O que é que se passa? Tás-te a sentir mal?
- Está tudo óptimo...
- Tens a certeza? É que estavas aqui tão bem e agora ficaste assim tão distante...
- Ai estava bem? Pois, mas quando estava bem queixaste-te e agora já queres? Vê mas é se te decides que a grávida aqui sou eu! E por isso tenho a exclusividade das mudanças de humor!
- Oh Maria! Eu não me queixei!
- Pois não pediste que parasse! Já percebi que deixei de ter piada...
- Tu tá mas é calada porque sobre isso o que eu tenho a dizer não é nada digno de ser dito em publico... - olhou-me com cara de “safado” mordeu o lábio e riu-se
- Sério que tens essas coisas para me dizer?!
- Tens duvidas é? - puxou-me para mais perto dele e deu-me alguns beijinhos na nuca
- Não provoques que eu não me aguento!
- Quero ver isso quando chegar-mos a casa - o João acabou por aumentar o tom de voz
- O que é que queres ver quando chegares a casa priminho? Tu partilha a conversa!
- O João quer ver a barriga a mexer, sim que está aos saltos!
- Oh eu também quero ver!
- Sim Mariana... eu sento-me e vocês vêem todos!
A conversa acabou por passar a ser de grupo e eu realmente tive de controlar as minhas vontades.
Chegados a Valência e depois de um carro alugado porque não iríamos caber todos no mesmo e quando já íamos a caminho de casa do João
- Olha lá oh meia-dose a que horas é que o meu homem chega?
- Sei lá... ao fim da tarde...
- Hum... eu venho busca-lo!
- Tu ficas é quieta! Porque ainda te perdes... ficam em casa e eu venho
A minha prima resolveu não facilitar, mas depois de chegarmos ao apartamento do João e de nos termos acomodado lá conseguimos que ela acalmasse e o João foi mesmo busca-lo e nessa altura enquanto a Mari foi “aprontar-se” e o Fabio jogava playstation
- Olha lá não achas que eu cai na história da barriga mexer pois não?! Vá conta lá!
- Oh Ana não é nada...
- Como é que estão essas actividades extra?
- Não estão
- E qual dos dois é que está com problemas com a barriga?
- Nenhum dos dois! Descobri no avião! - disse a rir
- Ah eu sabia... aproveita... a ciência e as minhas pacientes dizem que é a melhor altura para...
- Melhor altura para o quê?
- Para o Guilherme nascer papá! Para o Guilherme nascer... - respondi ao João enquanto ia até à sala cumprimentar o Ruben.
Os momentos seguintes foram de amena cavaqueira entre todos até que começou a tocar uma daquelas musicas bem “calientes”
- Oh João! - chamei a fazer cara de mimo e quando ele olhou - Vamos dançar! - levantei-me e estendi-lhe a mão
- Nem penses!
- Eu quero!
- Mas eu não... anda cá - puxou-me para o colo dele - nós ficamos aqui quietinhos e o Bruno dança...
- GUILHERME! E eu preferia dançar...
- Mas eu prefiro ficar a fazer festinhas aos meus dois amores...- e pronto deixou-me toda derretida
- Pronto... tá bem... - acabei por me recostar no sofá e em vez de momentos de paz levantou-se um pé de vento já que a Ana resolveu ser “só” tia e não minha médica assistente e sentou-se no meio de nós e logo de seguida veio o Fábio e quando resolvi meter-me com os padrinhos
- Olhem e vocês não se aproximam? 
- Ui... a mãe do meu Bruno Guilherme - estava capaz de o matar! - está a reclamar pelos meus mimos, é?! Isso é tudo saudades dos miminhos aqui do padrinho... - assim que o senti ajoelhar-se aos meus pés e acariciar a minha barriga olhei a minha prima e percebi que não tinha achado piada nenhuma por isso enxutei o Ruben e começamos uma pequena discussão sobre o nome do bebé que acabou por gerar mais um arrufo entre os padrinhos e que ainda me assustou, mas acabou por ser resolvido por eles. Esperamos as doze badaladas e depois de passas e champagne
- Amor vou para a cama!
- Isso é um convite?
- Se quiseres aceitar...
- Bem pessoal eu tenho treino amanhã e a grávida está com sono por isso fiquem à vontade a casa é vossa...
- Oh João! - a Ana que já estava ligeiramente bebida chamou-o - Contenham-se nos sons que uma pessoa dispensa certas informações!
- Parva! - atirei-lhe uma almofada - vamos - puxei o João e assim que entramos no quarto ele fechou a porta e trancou-a - trancada??
- Não vá nenhum engraçadinho vir empatar
- Empatar?!
Ele já não me respondeu puxou-me com ele para a cama e os momentos seguintes foram de muitos mimos e caricias mais atrevidas e sim finalmente ouvi as coisas menos próprias que ele tinha para me dizer e fomos avançando até chegar ao momento pelo qual realmente eu já desesperava é que as saudades eram muitas e realmente uma mulher fica muitooooooooo mais sensível com a gravidez e eu para ajudar ainda cometi o erro de revelar tal facto ao João que usou-o como trunfo e me fez sofrer ao máximo. Quando o momento chegou a animação ainda foi maior já que se normalmente gostávamos de variar agora a minha barriga a isso nos obrigou e os momentos seguintes foram de muitos gemidos e ainda mais prazer. Tinha acabado de cair no colchão ao lado do João quando sons que tínhamos abafado a muito custo começaram a invadir o quarto desatei a rir feita parva, parecia uma criança que ouve falar de sexo
- Tás-te a rir do quê?
- É preciso ter muita lata! Uma pessoa tá aqui a controlar-se e depois tem de ouvir isto?? Não é justo!
- Tens razão não é mesmo nada justo... se calhar começávamos tudo do principio né? - falou já a deixar-me novamente em braza
- É... quer dizer do principio não! Vamos saltar as primeiras etapas e passar logo aos finalmentes que eu acho que morro se tiver que passar por tudo...
- Achas é? Anda cá!  
Ele puxou-me para cima dele e a noite foi passada em modo repeat enquanto as energias nos deixavam, quando estava incapaz de mexer nem que fosse os olhos e já aninhada nos braços do João apercebi-me que o meu pipoquinha estava imparável, peguei a mão do João
- Olha bem a animação que aqui vai! -enquanto ele ia fazendo festas e sentindo também o Guilherme
- Achas que exageramos? 
- Acho! - ele olhou-me assustado - Acho que tive foi muito tempo sem vir aos treinos e já não tenho resistência nenhuma... - fiz beicinho e ele gargalhou
- Isso com uns treininhos intensivos resolve-se - piscou-me o olho - mas agora a sério achas que...
- Que ele está feliz! Ele sente tudo o que eu sinto e sou forçada a admitir que foram grandes descargas de felicidade...
- Descargas de felicidade? Só tu para arranjar um nome fofinho para brutais orgasmos!
Dei-lhe uma chapada assim que vi o ar ordinário com que falou
- Vamos a ter respeitinho se faz favor que está a falar com uma mãe de família!
Acabamos por ainda dizer mais meia-dúzia de parvoíces e alguns beijos depois adormecemos para o João acordar atrasado no dias seguinte e ter que se despachar a velocidade relâmpago enquanto eu mesmo de pijama lá fiz o esforço de o acompanhar até ao pequeno-almoço, mas quando chegamos à cozinha já lá estavam os quatro que pararam a conversa assim que nos viram entrar.

Porque pararam os amigos a conversa na chegada do casal? E as coisas continuaram em modo felicidade extrema ou irá voltar a passar por turbulência? E a Maria ficará em Valência ou voltará para Lisboa?

quinta-feira, 24 de janeiro de 2013

061 - "que seja infinito"


Mariana
Desde que sou oficialmente divorciada que os meus dias se resumem a casa trabalho, trabalho casa. 
Os dias passam e a sensação de vazio é cada vez maior, principalmente quando encontro a Maria pela casa feliz da vida, a sensação que tenho quando a vejo é a que estão a trespassar-me com facas, a verdade é que não deixa de ter culpa em tudo o que se está a passar comigo e parece que não é nada com ela.
Decidi gozar os meus últimos dias de férias e como tal fui até Faro, afinal Algarve é sinónimo de refúgio para mim, foi lá que vivi durante anos, anos esses em que consegui por momentos abstrair-me do Ruben e foi à procura de momentos desses que fui.
Diverti-me imenso ou melhor fingi que estava a divertir-me mas no fundo estive só a adiar o inadiável, pois no momento que regressei a Lisboa fui invadida pelo mesmo sentimento de culpa e falhanço com que vivi nas últimas semanas.
Hoje, véspera de Natal, o meu desejo resume-se a desaparecer da face da terra, sim pode ser exagerado mas é o que sinto, dói cada vez mais a ausência do Ruben, um mimo ou simplesmente um “amo-te” proferido à distância de um telefonema, o vazio que sinto dentro de mim é cada vez maior e está a arrastar-me para um poço sem fundo, no entanto e mais uma vez, fiz o esforço de fingir que estou a reagir, este ano a noite será na casa do meu tio e apesar de não ter grande vontade apareci mais cedo.
A tarde foi passada entre muita conversa mas nunca o tema Ruben surgiu, talvez por ter mentido, há uns dias, quando a minha tia perguntou o porquê dele não vir ao jantar e lhe disse que tínhamos decidido passar com as respectivas famílias. A verdade é que não percebo como é que ainda acreditam em mim quando ando visivelmente na merda mas ainda bem que assim é, não estou com paciência para grandes explicações e muito menos para ouvir o meu pai.
A noite chegou e com ela o momento do jantar, estávamos todos à mesa quando e sem contar a minha prima Matilde resolve questionar o motivo pelo qual o Ruben não estava presente.
- Matilde, o Ruben está a jantar com a família dele...
- Ohh mas tu agora também és família dele - a perspicácia da miúda atingiu-me de uma forma que não consegui segurar as lágrimas - porquê que estás a chorar? - perguntou preocupada mas não respondi, aliás saí da mesa sem pedir licença.
Fui até ao jardim, precisava de uns minutos a sós antes de comunicar o fim do meu casamento, não adiantava continuar a negar o óbvio e um tempo depois, que afinal foram mais do que pensei pois quando voltei a entrar em casa já tinham terminado de jantar.
- Preciso dizer-vos algo - falei assim que entrei na sala onde encontrei a minha família que olharam-me imediatamente - sei que já vos devia ter dito mas... - não consegui continuar a falar, verbalizar que divorciei-me era para mim o final deprimente de um amor que tinha tudo para ser eterno.
- Prima... - a Maria veio ao meu encontro e abraçou-me mas até aquele gesto de carinho meteu-me nojo, afinal era culpa dela
- Larga-me! - não pedi mas sim ordenei, a minha prima olhou-me com tristeza e culpa, aliás é algo que tem feito desde que lhe comuniquei que divorciei-me.
- Mas afinal o que se passa? - o “velho do Restelo” foi quem falou para admiração de todos - O que é que aquele playboy fez?! - ouvir tal coisa feriu-me ainda mais, ainda assim
- Páre! Páre de falar assim - as lágrimas escorriam-me pela cara - chega... não aguento mais, você sempre teve contra mas pode descansar finalmente porque já sou uma mulher divorciada! - percebi pelo rosto de TODOS que não esperavam tal coisa.
- Sempre tive razão! - como é que simples palavras podem magoar tanto - Aquele fedelho nunca gostou da Mariana! Mas parece que fui o único a ver isso... espero que tenha sido um abre olhos e que para a próxima oiças o que tenho a dizer! - a arrogância com que falou foi o limite dos limites e que levou-me a explodir de vez.
- Para a próxima? Qual próxima? Aquela que não vai haver porque primeiro amar verdadeiramente só se ama uma vez e eu AMO o Ruben, segundo não vai haver próxima porque simplesmente NUNCA mas mesmo NUNCA lhe vou dar nova hipótese de me magoar, até pode estar cheio de razão mas tinha mesmo que dizê-lo quando estou na merda por ter perdido a única motivo para viver? Você não é pai... você nem o significado da palavra amar sabe por isso é que nunca apoiou a minha decisão de ficar com o Ruben...
Falei por entre saluços, estava literalmente no fundo do poço e nem a presença da Matilde fez com que lutasse para esconder a realidade, vi a tristeza no rosto da maioria da minha família mas também alguma surpresa e só percebi o motivo quando virei-me para sair da sala por não conseguir ficar sob o olhar de “pena” deles.
- Mariana preciso falar contigo... - não reagi porque simplesmente não tinha forças para tal - por favor! - respirei fundo - Mariana não vou desistir de NÓS! - ouvir tal coisa revoltou-me tanto que acabei por desabafar
- A sério?! A sério que não vais desistir de nós?! - perdi a noção do tom de voz há muito que andava a controlar-me mas ouvir tal mentira fez-me perder as estribeiras - Realmente não podes desistir de nós porque isso pressupõe que ainda existe um nós... mas esse destruíste quando meteste a Maria em primeiro plano, quando passaste a viver em função de uma gravidez da qual não és responsável, quando negaste vezes e vezes pensares sequer em ter um filho TEU - o Ruben baixou o olhar - mas sabes o que doeu mais, sabes? - gritei - Responde!
- Não - murmurou ainda assim não ficou sem resposta
- O que doeu e fez com que tomasse a decisão de divorciar-me de ti foi o precisar de ti, dos teus mimos e sentir-me a pior pessoa por querer algo tão banal como sentir-me desejada pelo meu marido, senti-me egoísta por querer o que a Maria está a viver, perdi a conta às vezes que desejei ser eu a estar no lugar da Maria, vi-te a mimá-la e eu... eu ficava simplesmente com os restos... Ruben viveste os últimos meses em função da Maria e da pipoquinha quando ela só se tinha que virar, ser mulher, meter o rabo entre as pernas e falar com o pai do filho dela, algo que acabou por fazer mas tarde demais! Não aguentei esperar por ti, não aguentei magoar-me mais e mais a cada dia, mas o erro foi meu, quis proteger tanto a Maria que compactuei com a loucura dela e fui arrastada para o abismo, sim saltei porque se não o fizesse era bem capaz de cometer alguma loucura...
- NÃO! Não digas isso... só saber que pensaste mata-me por dentro - os olhos do Ruben brilhavam talvez por estar a controlar-se para não chorar - Mariana és a MINHA VIDA... é verdade não te dei valor nos últimos meses mas és o ar que respiro... és a minha essência... és aquela por quem o meu coração bate todos os segundos... és aquela que é capaz de enlouquecer-me só com um beijo mas também quando encascas nessa cabeça que só te quero usar... levas-me ao desespero e ao êxtase em segundos... PORRA ÉS A RAZÃO DO MEU VIVER... não podes desistir assim... nós amamo-nos e não tentes negar isso porque se não existisse amor não estaríamos os dois mal como estamos...
Mariana, lutamos para esquecermos o sentimento que nos unia, luta essa ingrata porque só serviu para nos magoarmos, vivemos na ilusão e a iludir outras pessoas, reencontramo-nos anos depois para nos voltarmos a magoar pois teimávamos em não reconhecer que o sentimento que nos uniu na noite do baile de finalistas continuava tão ou mais acesso como naquele dia que nos despedimos antes de ires para Faro, acabamos por ceder e envolvemo-nos várias vezes, acordamos viver uma amizade colorida quando na verdade sempre foi amor, sim porque de todas as vezes que nos envolvemos nunca foi para temperar o corpo mas sim para voltarmos a sentirmo-nos amados, porque se fosse pelo sexo em si tínhamos onde o ir buscar - olhava-o na expectativa de saber até onde iria - mas como nunca fomos adultos o suficiente voltamos a afastarmo-nos quando revelaste algo que poucas pessoas sabem - tremi ao ouvi-lo - ainda assim procuraste-me quando soubeste que estava no hospital, apoiaste-me mesmo depois de ter sido um otário e te ter magoado com o que falei, mais uma vez acabamos por ceder para dias depois estragar tudo ao não admitir que namorávamos, ficámos meses afastados até finalmente reconhecemos que nos amamos, nessa altura colocaste o meu amor à prova, prova essa que acabamos por vencer e nem o facto de termos o teu pai contra mudou alguma coisa, lutaste contra ele, apoiaste-me incondicionalmente quando mais precisei, aceitaste casar e cortaste relações com o teu pai por isso Mariana não consigo tolerar a ideia de perder-te... não desta forma tão estúpida... Porra AMO-TE tanto e sim errei e muito quando parti do pressuposto que te tinha para sempre, reconheço que não te dei o devido valor... se quiseres que implore eu imploro mas não me deixei, não te dês por vencida, juntos conseguimos recuperar desta fase má... - já há muito que as lágrimas escorriam pelo meu rosto, tê-lo diante de mim mas principalmente com a minha família a assistir ele a admitir tudo fez-me perceber que se chegamos até aqui o erro foi tanto dele como meu, porque também não fiz grande coisa para mudar... - Mariana - agarrou-me as mãos - não desistas... - interrompi-o.
- Ruben não aguento mais - as lágrimas que há muito tentava segurar molharam-lhe o rosto, percebi que não tinha entendido o que estava a dizer por isso - não consigo continuar assim... - levei as mãos ao seu rosto limpando-lhe o rosto húmido - preciso de ti... dos teus mimos... do teu amor, de te ter perto de mim todos os dias e sim estou a ser o mais egoísta possível mas a minha prima que atine, que corra atrás de quem ama e ele.. ele que deixe de ser cona de sabão, até parece que não tem os tomates no sítio, e lute para recuperar a mulher que ama - o Ruben sorriu mas ouvi o que não esperava
- Lamento... mas tenho de discordar - a desilusão apoderou-se de mim mas... - se há coisa que o João tem no sítio são os tomates e já sei disso desde o tempo do Benfica mas se ainda assim tiveres dúvidas basta olhares para a barriga da tua prima...
Acabei por rir, não pelo que falou mas por ter olhado no exacto momento em que, o Ruben, falava para a minha família e ter visto a cara de desagrado do meu pai ao ouvir tal disparate, ainda assim senti necessidade de esclarecer...
- Ruben... e agora? Como é que vai ser? - sorriu-me e que sorriso...
- Agora?! Agora vamos deixar de ser parvos e de nos magoarmos - olhou-me com uma intensidade tremenda - Mariana, vamos deixar que os outros resolvam os seus próprios problemas que nós temos os nossos e não são tão poucos quanto isso... A Maria tem o João que pode muito bem cuidar dela? E quanto à pipoquinha... essa está muito bem dentro da barriga da sua mãe e não será mais tema de discórdia entre os seus padrinhos... Mariana foi preciso quase perder-te para perceber o quanto deixei-me envolver pela gravidez da Maria, que mesmo não sendo o responsável acabei por tomar as dores do João - suspirou - desculpa... desculpa porque acabei por esquecer-me de ti talvez porque calhei no erro absurdo de pensar que te tinha como garantida... quando basta um acumular de situações para desgastar uma relação e levá-la ao extremo...
- Promete... - não consegui continuar a falar porque o Ruben simplesmente puxou-me para ele beijando-me, sentir de novo os seus lábios fez-me sentir novamente viva, foi minha a iniciativa de prolongar ao máximo aquele momento e só separamos as nossas bocas quando precisamos de ar.
- Prometo tudo o que quiseres - sorri ao ouvi-lo - mas promete tu também que se houver algum momento em que sintas que não estou a dar o máximo que falas comigo imediatamente, não deixes arrastar a situação porque não vou aguentar passar pelo mesmo que passei nestes últimos dias...
Não lhe respondi por palavras mas sim por actos, beijei-o novamente para depois o arrastar comigo, precisava urgentemente de estar a sós com ele e por isso fomos até ao piso superior.

Ruben
A mensagem que recebi do João com uma simples frase

recordou-me o colar que ofereci à Mari no primeiro Natal depois do seu regresso a Lisboa fez-me perceber que tinha de reagir, fui até à casa do Jorge e assim que cheguei toquei à campainha, quem abriu a porta foi a empregada do Jorge, cumprimentei-a e fui até à sala onde ao entrar ouvi as palavras do Manuel, a filha estava desfeita mas ainda assim não perdeu a oportunidade de lhe jogar à cara que sempre teve razão, no entanto a Mariana surpreendeu-me com o que falou, apesar de estarmos separados defendeu-me, ouvir tais palavras só serviu para reforçar ainda mais a minha intenção de resolvermos tudo, pedi-lhe para falarmos e ao contrário do que tinha em mente a conversa foi em frente da sua família mas confesso que abstrai-me desse detalhe no instante que comecei a falar tudo o que tinha entalado.
Os minutos seguintes serviram para perceber verdadeiramente todo o mal que lhe fiz, sem intenção magoei-a imenso e cheguei a ter medo que não houvesse volta a dar mas mais uma vez a Mariana cedeu, talvez porque no fundo nos amamos e isto não passou de mais uma crise.
- Posso saber o que estamos aqui a fazer?! - perguntei abraçado a ela e com a minha boca a percorrer-lhe o pescoço.
- Pára! - soltou-se dos meus braços e afastou-se.
- Desculpa - aproximei-me dela e voltei a rodear o seu corpo com os meus braços - mas as saudades são mais que muitas...
- Também tenho saudades mas não te trouxe aqui para isso! - olhou-me - só preciso ficar assim abraçada a ti mas sem o olhar da minha família sobre nós...
Fiz-lhe a vontade e acabamos por nos deitarmos na cama, onde passamos os minutos seguintes a trocar alguns mimos, simples beijos ou carícias mas acabamos por ser despertados para a realidade quando vimos a Matilde a entrar no quarto.
- Prima!!! Anda lá abaixo para eu ver as minhas prendas que a mãe não deixa desembrulhar se não tiveres lá...
Sorrimos ao ouvi-la e acabamos por segui-la sem hesitarmos mas assim que entramos novamente na sala senti o olhar da sua família em cima de mim, principalmente do seu pai, ainda assim fiz o esforço de disfarçar o desconforto que senti e sentei-me do sofá, já a Mariana preferiu o meu colo ao lugar vago que havia do meu lado mas se pensava que iria ficar por isso mesmo enganei-me...
- Não mudas mesmo… - a Maria meteu-se com a Mariana assim que colou os seus lábios aos meus.
- Dói-te alguma coisa, é?
- Não… mas podias evitar certo tipo de cenas como sentares-te ao colo do Ruben e pior ainda se beijarem à frente do tio quando sabes perfeitamente que detesta este tipo de manifestações de carinho…
- Temos pena! Também não gosto de muita coisa e tenho de comer! Além disso tenho saudades do Ruben...
- Não digo mais nada mas depois não te queixes quando o tio armar a barraca!
- Ah… isso descansa que se há coisa que o velho do Restelo não arma são barracas… ainda para mais à frente dos outros… - percebemos o sentido que a Mari deu à palavra quando pronunciou “barracas” e por isso acabamos por gargalhar e só não lhe respondemos porque a sua tia iniciou a distribuição dos presentes.
Os instantes seguintes foram para observar a alegria da Matilde ao ver os presentes mas a surpresa da noite tive-a quando a miúda após estar já à diversos minutos a brincar com os seus brinquedos novos perguntou algo que apanhou-me a mim e à Mariana desprevenidos.
- Oh prima - olhou para a Mariana - tu tavas chateada com o Ruben? - é incrível como uma simples perguntar despertou o interesse da família toda
- Sim!
- E agora já não tás?
- Não.
- Tu casaste com o Ruben não foi? - a pergunta da Matilde reabriu uma ferida que estava longe de ficar sarada ainda assim a Mari respondeu-lhe serenamente.
- Sim!
- Então porquê que não usas uns anéis como o papá e mamã usam?
- Matilde a prima e o Ruben somos diferentes... - a Mariana estava numa de fugir às perguntas da miúda mas esta não facilitou
- Foi por isso é que não fui ao teu casamento? É por serem diferentes que não quiseram ninguém?
- É mais ou menos isso...
- Mas eu gostava de chamar primo ao Ruben, posso?
- Se o Ruben não se importar, podes!
- Tu deixas não deixas? - perguntou agora virada para mim.
- Sim! - respondi prontamente para ver se ela parava com as perguntas mas e ao contrário do que desejava continuou tocando num assunto delicado.
- Fixe... mas prima quando é que vais ter uma barriga assim como a da prima Maria?! - a pergunta da miúda voltou a despertar a atenção dos presentes pois o barulhinho de fundo acabou imediatamente.
- Oh minha piolha isso ainda não está nos nossos planos - tentou acabar ali com o assunto mas…
- Porquê? É tão giro… - a Maria sorriu
- Giro?! Sei… - deixei escapar o que fez a Mari olhar-me
- Oh Matilde porque o Ruben não está em Lisboa e agora vou buscar alguma coisa para comer!
A Mariana fugiu assim à curiosidade da Matilde que acabou por ir brincar com as suas bonecas e assim que se afastou
- Continuas com essa ideia de não quereres filhos?!
- Não comeces…
- Desculpa mas primo desde que soubeste que estou grávida andas a babar na minha barriga e não venhas dizer que é mentira porque sabemos bem que é verdade… tanto que é que vocês separaram-se...
A Maria teria continuado mas houve algo que nos despertou a atenção...

Mariana
A noite de consoada estava a ser surpreendente, primeiro pela “visita” inesperada do Ruben e tudo o que daí resultou e segundo pela insistência da Matilde em falar sobre o casamento que já não tem efeitos legais e depois sobre filhos, mais uma vez o Ruben magoou-me com a falta de vontade em discutir o assunto.
Como não queria continuar a levar com as perguntas da Matilde resolvi ir até à mesa dos doces e foi quando deixei todos a olharem-me, afinal pedi à minha tia que colocasse uma rabanada no meu prato por estar mais perto delas.
- Que foi? Está tudo a olhar-me porquê?
- Filha nunca gostaste de rabanadas!
- Ai… oh mãe mas hoje apetece-me!
- Estás bem dessa cabeça?! Oh prima aqui a grávida sou eu… supostamente sou a única - a minha prima fez uma pequena pausa o que criou uma certa desconfiança no ar - que posso ter desejos estranhos… sim porque sou a única grávida, certo?! - a insinuação e/ou interrogação dela deixou a nossa família toda a olhar-me incluindo o Ruben e por isso mesmo resolvi...
- Isso agora… não achas que estás a querer saber muito…
- Mariana?! - olhei para o Ruben
- Que foi?
- Nem brinques!
- Sim… sei que não queres mas quem anda à chuva molha-se e olha que temos um bom exemplo disso aqui nesta sala... - o Ruben olhou-me nada satisfeito com o rumo da conversa, até porque se fosse verdade e tivesse mesmo grávida já estaria de mais de oito semanas, dado que não nos envolvemos há quase dois meses - mas podes ficar descansado que só me apeteceu uma rabanada mas se isto vos faz assim tanta confusão fiquem lá com as rabanadas todas que viro-me para os outros doces!
Assim que falei escolhi o que me apeteceu e quando já regressava para junto da Maria o Ruben colocou-se à minha frente.
- Tinhas mesmo necessidade de dizer aquilo?!
- Não vais começar, pois não? Foi só uma brincadeira…
- Sem piada nenhuma!
- Fonix… sei que não queres ser pai de um filho meu mas também não precisas fazer de uma brincadeira inocente um drama! - respondi com sete pedras na mão.
- Primeiro a questão não é essa - o Ruben olhou-me - sabes bem que quero ser pai dos TEUS sim TEUS filhos porque quero ter mais que um mas também sabes que esse planos serão para daqui a um tempo!
- Pois… deve ser quando tiver idade para ser avó dos filhos da Maria mas tudo bem… deixa que enquanto não sou avó dos filhos dos outros serei madrinha…
Assim que lhe respondi virei costas e fui até ao jardim, apesar do frio que se fazia sentir precisava de arejar os neurónios ou até mesmo congelá-los para não voltar a chatear-me a sério com o Ruben.
- Posso?!
- Ruben... o que queres?
- Importaste de regressar lá para dentro?
- Preciso de uns minutos a sós... já vou ter contigo!
- Tudo bem... mas tens a nossa família - foi impossível não o olhar quando ouvi o “nossa família” - lá dentro à tua espera!
- Já vou... a sério.
O Ruben já não insistiu mais, deu-me um leve beijo e entrou em casa para regressar logo depois com o meu casaco que colocou pelas minhas costas, de facto conhece-me e sabe que aquele “já vou” seria mais longo do que o suposto.
Não sei o tempo que estive no jardim só sei que quando entrei ouvi vozes vindas de outra divisão da casa que despertou-me a atenção, aproximei-me e encontrei o Ruben à conversa ou diria antes a ouvir uma data de disparates do meu pai.
- … sempre tive razão, não és homem para a minha filha!
- Engraçado... você também não é pai para a filha que tem! Mas que moral tem você para julgar-me quando há meses que não fala com a Mariana e nem depois de vê-la mal conseguiu ter uma palavra de apoio!
- Sou o pai dela...
- Não parece nada! Pai que é pai quer o melhor para os filhos e tudo bem você até pode achar que o melhor não sou eu mas caramba não teve já tempo suficiente para perceber que nós nos amamos, da nossa forma é um facto mas amamo-nos ou acha que conseguimos chegar até aqui por mero acaso?! Acabou de saber que nos divorciamos mas testemunhou de imediato a nossa reconciliação, viu o quanto mal a Mariana estava e em vez de a apoiar ainda espezinhou mais... se conhecesse a sua filha verdadeiramente sabe perfeitamente que não é pessoa de se deixar levar facilmente por isso se está comigo, se resolveu dar nova oportunidade ao nosso amor é porque existe mais na nossa relação do que o que você pensa!
- Se a amasses assim tanto não lhe negavas um filho! - ouvia a conversa escondida queria saber até onde iriam aqueles dois - E até digo mais se a amasses como falas nunca terias colocado a gravidez da Maria à frente do vosso casamento.
- Não nego que dei demasiada atenção à Maria e sim isso arrastou-nos para o abismo, as minhas atitudes magoaram muito a Mariana, tanto que pediu-me o divórcio, ouvi-a dizer algo tão doloroso como preferia morrer a continuar assim e foi só por isso que assinei os papéis, a última coisa que queria era levá-la a cometer algum disparate mas apesar de tudo hoje presenciou a nossa reconciliação porque nos amamos e quanto ao filho você não tem nada com o assunto mas que fique esclarecido que só não quero ser pai enquanto tivermos afastados... é horrível só poder ver a barriga crescer de quinze em quinze dias ou saber que há uma consulta e que estou em estágio ou nos jogos fora... é doloroso pensar que pode acontecer alguma coisa e não vou estar presente... sim... são estas as razões que estão na origem de negar-lhe um filho e nunca o não amar a Mariana!
O Ruben assim que terminou de falar virou costas e regressou à sala, segui atrás dele mas sem deixar que percebesse e quando entrei fui sentar-me ao seu colo, algo que o surpreendeu mas ainda assim não o impediu de mimar-me ao ponto de dar-me alguns beijinhos discretos que por sinal adorei.
As horas passaram e o momento de despedir-me da minha família chegou, distribuí beijinhos por todos à excepção daquele a quem deveria chamar de pai. O Ruben acabou também por seguir o meu exemplo e saímos finalmente.
- Queres ir até lá a casa? - notei algum receio no seu tom de voz.
- Ruben - suspirei - não sei se é boa ideia...
- Porquê? - aproximou-se perigosamente de mim.
- Porque apesar de te querer e muito sinto que preciso de espaço para organizar a confusão de sentimentos que vai dentro de mim...
- Estás a querer dizer que queres continuar separada?
- Não! Quero dizer que preciso de espaço para assimilar tudo o que dizemos um ao outro nestes últimos tempos mas principalmente hoje, ali diante da minha família...
- Queres dizer da nossa... da NOSSA FAMÍLIA! Mariana, podemos estar divorciados no papel mas em momento algum depois de ter assinados os papéis senti isso, continuei a respeitar-te e a amar da mesma forma...
- Só preciso de espaço... não estou a terminar mas preciso desta noite para organizar as ideias, só te peço isso!
- Tudo bem... mas podes fazê-lo no meu apartamento.
- Não compliques...
- Ok! - suspirou - posso pelo menos despedir-me de ti com um beijo?
Não lhe respondi por palavras mas sim por actos, foi minha a iniciativa de unir as nossas bocas mas a intenção de ser só um mero beijo de despedida caiu por terra quando o Ruben prensou o meu corpo contra o carro dele, as nossas línguas entrelaçaram-se e percorreram a boca um do outro numa ânsia destemida, deixei-me levar e só despertei quando senti as mãos do Ruben por baixo do meu casaco.
- Boa noite! - falei ao afastar-me dele.
- Tens a certeza que preferes assim?
- Tenho!
O Ruben deu-se por vencido e ficou a ver-me a arrancar com o carro, conduzi até ao meu apartamento mas sempre a pensar nele e em tudo o que se passou nesta noite, a cada km percorrido a certeza que tinha tomado a decisão errada apoderava-se mais de mim mas ainda assim a cabeça foi mais teimosa que o coração e levou-me até ao destino traçado inicialmente mas foi quando lá cheguei e depois de ver algo que mudei de ideias. Conduzi até ao apartamento dele e apesar de ter as chaves decidi anunciar a minha chegada ao tocar na campainha.
O Ruben veio à porta já sem camisa e não resisti, atirei-me para os seus braços

e acabei por ser levada ao seu colo até ao quarto no entanto não nos amamos, o Ruben respeitou o meu pedido de “espaço” e conformou-se em simplesmente adormecer abraçado a mim.

Ruben
Acordei com a Mariana a mexer-se e abri imediatamente os olhos para perceber que continuava a dormir, aproveitei que ainda dormia para levantar-me e preparar o nosso pequeno-almoço, estava tão entretido que nem dei pela entrada da Mariana e só quando é que dei pela sua presença.
- Oi - sorri e limpei as mãos para dar-lhe um beijo de bons dias que serviu para quebrar algum do “gelo” que estranhamente se tinha formado entre nós e que já durava há tempo demais, joguei com isso a meu favor puxando-a para mim, estávamos com os nossos corpos colados, tanto que sentia a sua respiração a bater-me no rosto, o seu cheiro entranhou-se em mim de uma forma que enlouqueceu-me e foi uma questão de segundos até saciar o desejo que invadiu-me ou melhor que nos invadiu, sim que apesar de querer e muito senti-la novamente como uma parte de mim só o fiz porque o seu olhar não deixava dúvidas, a Mariana queria que tornasse mais uma vez realidade tudo o que nos ia no pensamento naquele exacto momento...

Amamo-nos ali mesmo na cozinha e louco é aquele ou aquela que julga que ficamos por isso mesmo... o resto da manhã foi para fazermos verdadeiramente as pazes mas desta vez na cama e da forma em que realmente somos bons... a levar o outro ao extremo... a permitimos em horas sentir-nos vivos de todas as formas possíveis e imaginárias, tanto que nem houve fome... só mesmo quando os nossos estômagos deram sinal é que nos lembramos que ainda estávamos em jejum... gargalhamos feitos loucos que somos e no fim de mais uns quantos beijos lá nos levantamos para comer o nosso pequeno-almoço que deveria ser mesmo almoço mas que nenhum dos dois teve energias para o fazer.
A tarde acabou também por ser passada em casa, ainda tentei arrancar a Mariana do sofá mas foi impossível e no meio de simples brincadeiras de dois putos apaixonados, sim que era assim que sentia-me... novamente um adolescente mas desta vez a redescobrir a própria namorada e o quanto é bom estar naquele impasse do “avanço ou não avanço” ou do “será que ela quer?” ou ainda “o quero mais...” acabei por fazer o mesmo que os putos fazem e tentei a minha sorte e a Mari... a Mari fez-me uma que não esperava e ao terminar o longo beijo deu-me uma ligeira mordidela no lábio, ligeira é forma de dizer porque senti o sabor do meu próprio sangue e como “paga” atirei-lhe uma almofada

à cara e segundos depois já a tinha completamente dominada debaixo de mim, sentei-me em cima das suas pernas, prendendo-as com as minhas e o resto... bem o resto foi mais do mesmo e assim se passou um dia inteirinho enfiados em casa.

Mariana
Cada vez convenço-me mais que já não há solução possível para nós, tanto o Ruben como eu somos dois loucos, só assim consigo justificar estas últimas semanas mas principalmente a noite de ontem e o dia de hoje.
Estava a preparar o nosso jantar quando o Ruben apareceu e abraçou-me imediatamente.
- Precisas de ajuda?
- Não... Preciso que desampares a loja que hoje já tiveste a tua dose...
- Na na ni na não... - olhei-o por cima do meu ombro e encontrei-o de sorriso no rosto - isto não é nem um terço do que andamos a dever um ao outro - suspirou.
- Lá porque ando a dever não quer dizer que tenho de pagar tudo no mesmo dia, além disso hoje já conseguiste destruir as minhas reservas de energia.
A conversa continuou sempre em volta do mesmo assunto e com algumas picardias à mistura para terminarem no momento que nos sentamos à mesa para jantar.
O resto do serão foi mais do mesmo connosco a mimarmo-nos e terminou comigo a adormecer nos braços do Ruben.

Será que é desta que ficam juntos para sempre?