Ruben
Obrigaram-me a sair do bloco sem uma única explicação, deixei para trás a minha mulher e filhas sem sequer saber o que se estava a passar, senti-me a perder o rumo, o tempo que fiquei do lado de fora daquela porta à espera de notícias foi horroroso, parecia que a cada segundo espetavam-me mais uma faca no meu coração, tentei obter mais informações mas ninguém sabia de nada, acabei por após longos minutos, caminhar até à sala de espera, onde sabia que encontraria a Maria
- Finalmente! Vá mostra lá as fotos da família feliz!
Assim que ouvi a Maria não consegui controlar-me e abracei-me a ela a chorar.
- Ruben o que é que se passa? - a minha sogra perguntou de imediato mas não consegui dizer nada... simplesmente chorava, tentei acalmar-me mas só a ideia de poder perder uma das três...
Estava a tentar controlar o choro quando a Ana entrou
- Então já nasceram? - vinha alegre mas assim que se apercebeu - O que se passa???
Não sei o que lhe falaram, só sei que saiu sem demoras...
Fernanda
Acordei com o telefone de casa a tocar, atendi ainda meio ensonada mas assim que ouvi a voz da minha sobrinha a avisar que Mari já tinha dado entrada no bloco para ter as meninas, fui acordar o Manuel e despachamo-nos o mais rápido possível.
Já não conseguimos ver a Mariana, uma vez que já estava no bloco e por isso ficamos na sala de espera com a Maria. Estávamos ansiosos por novidades e por isso quando o rapaz apareceu, a Maria não perdeu tempo mas... o impensável aconteceu, o Ruben desabou num pranto, tentamos perceber mas não estava em condições de falar... felizmente a Ana chegou e ao deparar-se com tal situação foi tentar perceber o que se passava...
Os minutos que tivemos de esperar foram angustiantes, ainda mais porque o Ruben, por entre o choro desesperado, nos disse o que sabia...
- Maria vem comigo!!! - a entrada de rompante da Ana assustou-nos ainda mais porque voltou a sair com a Maria, em passo acelerado...
***
Passou alguns minutos e
- Ruben Amorim?
O meu genro levantou-se de imediato perguntando pelas meninas, a médica informou-nos do estado de saúde das minhas netas, explicando que a Carolina sentiu algumas dificuldades em respirar e que por isso o Ruben não a pode ver de imediato, disse-nos ainda o peso e altura das pequeninas, bem como uma breve explicação do que será as próximas horas, como se o Ruben não soubesse já…
Assimilamos tudo o que nos foi dito e no fim o Ruben perguntou pela Mariana, ao que a médica respondeu
- Houve uma complicação mas não lhe posso adiantar muito... a Dra. Graça já vem ter consigo.
- Posso ver as minhas filhas?
- Dentro de alguns minutos já o vêm chamar…
A médica afastou-se e o Ruben continuou a andar impaciente de um lado para o outro, só parou quando a Anabela apareceu, resolvemos nos afastar e foi quando estava junto do Manel e dos meus cunhados que
- Não percebo porquê que a Ana veio chamar a Maria…
- Também não percebi… mas a Ana sabe da ligação que as duas têm…
- Mas a minha filha não é médica! - olhei-o mas nem respondi, acho que se o fizesse corria o risco de falar demais…
Ana
Saí de casa a pensar que seria só mais um dia de trabalho, mas ao chegar ao hospital, fui informada que a Mariana tinha dado entrada em trabalho de parto, fui até à sala de espera feliz pelos meus amigos mas assim que entrei, rapidamente percebi que algo de grave tinha acontecido.
Fiz prevalecer a minha condição de médica para obter informações e assim que entrei no bloco, percebi o que se passava, ainda assim a Graça confirmou, ao dizer que após a Carolina nascer que a Mariana entrou em choque, perdendo os sentidos e estavam agora a tentar controlar a hemorragia sem recorrer a um procedimento mais evasivo, no entanto o útero continuava a não contrair e dado que já tinha perdido algum sangue, a Graça foi obrigada a fazer um procedimento cirúrgico, no entanto e como a Mari já tinha perdido algum sangue, foi necessário proceder a uma transfusão de sangue, mas dado o tipo de sangue, tivemos que recorrer a uma solução de algum risco…
Saí do bloco e fui à sala de espera, uma vez que a Maria tem o mesmo tipo sanguíneo que a Mariana, o que é uma coincidência enorme, uma vez que na verdade a nossa amiga não é Mendes de sangue…
- O que se passa?
- Maria a tua prima entrou em choque após o nascimento da Carolina, perdeu os sentidos, além disso está a perder muito sangue… a Graça terá que avançar para a remoção da placeta mas para isso é aconselhável a Mariana receber sangue… vocês as duas têm o mesmo tipo de sangue por isso… - não tive de dizer mais nada porque
- Eu dou!
Maria
Assim que o Ruben nos ligou voei para o hospital e quando lá cheguei informaram-me que a minha prima e o Ruben já estavam no bloco de partos, mas que ainda nenhuma das meninas tinha nascido. Aproveitei para avisar a família como tínhamos previamente combinado, apenas os avisei quando a minha prima entrou no bloco.
O tempo passava muito devagar, toda a família chegou e nada de novidades até ao momento em que o Ruben entra na sala, não me contive e saltei para ele queria fotos e saber como estavam, mas a reacção e aquilo que nos contou deixou-me em panico. Não podia conceber que acontecesse alguma coisa a minha prima, depois de o ver um pouco perto do Ruben o João veio até mim assim que se aproximou temi que nos denunciasse, já que tudo o que precisava era do seu “colo”
- Maria eu sei que tens medo… e também te queria abraçar, mas vais ter de manter a calma… por ti e por ele…
Neste instante a Ana entrou e quando soube o que se passava foi procurar mais informações até que voltou e me chamou sem grandes explicações segui-a.
Só quando já estávamos sozinhas tive coragem de perguntar o que se passava, ouvi que a Mari precisava de sangue e que eu poderia doar, nem pensei 1 vez quanto mais 2. A Ana ainda falou para lá sobre o risco de fazer a doação assim sem preparação.
Fui até uma enfermaria onde lá me tiraram o sangue e onde fiquei a contra gosto
- Ana quero ir ver a minha prima
- Maria não pode ser!
- Oh Ana…
- Não!
- Tu não podes sair daqui assim… tens de ficar um tempo em repouso… já te trazem qualquer coisa para comer
- Mas a Mariana
- Está a ser tratada pelos melhores profissionais que há e agora vai receber o sangue…
- Como é que sabias que eu era compativel?
- Sou vossa médica! Dahhh - falou a gozar-me
- Não é estranho? É sangue raro…
- Coincidencias…
- Agora fica quietinha! Queres que chame o João?
- O João? Porquê? - fiz-me desentendida e ela gargalhou
- Deves achar que me atiram areia para os olhos! A vocês já eu vos topei… mas vá queres a tua mãe?
- Não quero a minha prima
- Então ficas aqui sozinha até que a enfermeira te venha dizer que podes voltar para junto deles… eu vou ter com a tua prima.
Até que finalmente uma enfermeira me veio chamar e pude finalmente juntar-me ao resto da familia
Ana
Depois do stress todo, a Mariana foi transferida para o recobro. Saí do bloco com a Graça e simplesmente deixei o corpo escorregar pela parede, acabei sentada no chão.
- Estás bem?
- Sim… É por isto que não gosto de fazer partos a pessoas que são como família…
- Como médica sabes que pode acontecer mas correu bem e a Mariana recuperará… vens comigo falar com a familía?
- Sim…
Fomos até à sala de espera, onde já estava também o João e assim que entramos
- ANA… - o medo de perder a Mariana estava bem nítido no seu rosto e voz
- Tem calma… o pior já passou… mas a Graça explica-vos - o Ruben respirou fundo e senti que lhe tinha tirado toneladas de peso de cima, aliás dele e da restante família que aguardam impacientemente por notícias
- Graça, o que é que se passou? Porquê que a minha filha perdeu os sentidos? - desta foi a mãe da Mari
A Graça explicou o que na verdade se passou mas o Ruben não estava nem um pouco conformado, tanto que
- Mas como? Como é que isto aconteceu? Estava tudo a correr tão bem…
- São complicações que acontecem… mas já passou e o que interessa é que tens duas princesas lindas
- Sim… e estou agradecido por as ter às três mas…
- Mas querias que fosse diferente… - falei - querias a tradicional foto tirada ainda na sala de partos, querias estar agora com as tuas filhas nos braços e a olhar para a Mariana mas infelizmente terás que esperar
- Graça, a minha filha vai ficar bem? - a D. Fernanda insistiu
- Vai…
- Podemos vê-la?
- Sei que devem querer todos vê-la mas não aconselho, a Mariana precisa de repouso, é lógico que quando for para o quarto o Ruben pode entrar e ficar com a Mariana mas mais pessoas não… venham mais logo na hora da visita!
Fernanda
A Graça explicou-nos o que se passou e no fim o Ruben foi finalmente ver as filhas.
- Vocês sabiam que a Maria e a Mariana têm o mesmo tipo de sangue?
- Não - a minha cunhada respondeu de imediato
- Também não sabia mas isso é só um detalhe…
- Fernanda, um detalhe que hoje fez toda a diferença! - olhamos para a Graça - foi necessário fazer uma transfusão de sangue e dado o tipo raro de sangue que ambas têm, foi uma sorte a Ana ter entrado e saber que ambas partilham o mesmo grupo sanguíneo, o que não deixa de ser uma coincidência enorme, dado que o teu grupo de sangue é outro!
- Isso só significa que a Mariana herdou o tipo de sangue do pai dela… não vejo motivo para se estar a falar disso agora…
- Desculpa não te queria aborrecer!
- Sabes perfeitamente que não gosto de falar do assunto! - rematei e a conversa terminou porque vimos a Maria a chegar
Maria
Entrei na sala de espera e
- O Ruben?
- O Ruben foi ver as meninas… e tu filha onde foste?
- Maria viste a tua prima
- Não tia não a vi… eu fui dar sangue…
- Só foste dar sangue não a viste?
- Sim… não vi a Mariana… - falava com a minha mãe e a minha tia mas não tirava os olhos do João que percebeu que queria fugir dali
- Maria… desculpem interromper, mas a Ana pediu para irmos ali...
- Onde vamos? - perguntei quando entramos do corredor restrito de acesso a neonatologia
- A Ana mandou-me uma sms a dizer para te trazer para cá quando chegasse perto de nós… podemos ver as meninas… estar com o Ruben
- E a minha prima?
- E tu?
- Ãh?
- Essa história de dar sangue… estás bem?
- Sim… mas não sabia que tínhamos o mesmo tipo de sangue… o meu é raro… - o João ia falar qualquer coisa, mas arrependeu-se e já não consegui perguntar-lhe mais nada uma vez que chegamos perto do Ruben que pouco tempo depois deu pela nossa chegada.
Ainda esperei com eles que a minha prima acordasse e depois de deixar o Ruben contar o que tinha acontecido falei um pouquinho com ela até que tive mesmo de os deixar.
- Conduzes?
- Sim… estás bem?
- Deve ser do stress estou toda mole… e não me sinto bem…
- Não foi stress foi o sangue que te tiraram! Ana falou nisso… vamos para casa, para a minha para não haver “blá-blá-blá” levamos os meninos e passamos lá o dia
Aceitei a sugestão até porque faltava chegar a prenda do dia do pai e tinha pedido que entregassem em sua casa.
Ruben
O alivio que senti assim que garantiram que a Mariana está bem foi enorme mas ainda assim continuava nervoso, tanto que
- Ruben… - olhei para a Ana que caminhava ao meu lado, uma vez que fez questão de acompanhar-me até à unidade de neonatologia - já passou!
- Se lhe acontecesse alguma coisa…
- Hey… foi só um susto e agora anima-te que daqui a nada já tens a Mari no quarto
- Tive tanto medo… percebi que alguma coisa estava a correr mal quando levaram a Carolina sem que a pudéssemos ver mas ninguém disse nada… e depois a Mariana perdeu os sentidos… fui obrigado a sair do bloco sem saber nada das duas…
- Ruben o que interessa é que as tuas filhas estão bem e a mãe também…
- Vocês não têm noção… quando a vi perder os sentidos…
- Vá, não penses mais nisso e agora anda, vamos ver as pequenas
***
Perdi a noção do tempo, estava a dar miminhos às minhas princesas quando vi a Maria e o João, ainda assim fiquei junto das minhas filhas, até a Ana informar-me que a Mari já tinha sido transferida para o quarto, despedi-me das minhas filhas e fui até ao quarto da Mari na companhia do João e da Maria.
Entramos e percebemos que o meu amor ainda dormitava, aproximei-me e dei-lhe um beijo, no entanto não reagiu, fiquei a olhá-la para depois afastar-me, fui sentar-me no sofá ao lado deles.
Mariana
Abri os olhos e vi tudo enevoado
- Onde estou? - custou-me a falar mas depressa alguém se aproximou
- Tenha calma Mariana…
- As minhas filhas? - perguntei imediatamente assim que percebi que estava num sitio desconhecido mas claramente algures no hospital
- Estão bem e você também vai ficar…
- Mas…
- A Dra. Graça responderá a todas as suas dúvidas mas agora vou observá-la para depois a transferir para o seu quarto
- O meu marido? - perguntei ao olhar ao meu redor e não o encontrar
- Também já o verá…
Mas que merda de respostas tão sem conteúdo, foi esse o pensamento que tive e teria reclamado mas as forças faltaram, estava cansada. Não sei o tempo que ainda fiquei naquela sala, até porque devo ter adormecido pois quando abri os olhos novamente já estava num sítio mais agradável e assim que grunhi tal como os animais grunhem quando têm dores
- Amor… - ouvir a voz do Ruben fez-me procura-lo com o olhar mas nem tive de fazer grande esforço pois em segundos já o tinha junto de mim, quer dizer ele e a Maria
- As meninas? - perguntei com as lágrimas nos olhos
- São lindas - o sorriso do Ruben bastou para que serenasse
- Quero vê-las!
O Ruben sorriu e depois agarrou no telemóvel, mostrando-me as já imensas fotos que tem das nossas princesas, mas ver fotos não é a mesma coisa que tê-las nos braços e por isso sem que conseguisse disfarçar, as lágrimas caíram
- Prima não fiques assim… elas estão bem e quando te sentires melhor vais vê-las… - a Maria agarrou-me na mão esquerda e não sei porquê mas comecei a chorar ainda mais
O Ruben, a Maria e até o João nos minutos seguintes tentaram distrair-me mas quando a Graça entrou, acompanhada pela Ana, a primeira coisa que lhe perguntei foi pelas meninas
- Mariana sei que queres muito vê-las, o que é totalmente compreensível, mas agora tens de pensar em ti, precisas de descanso...
A Graça passou os minutos seguintes a explicar o que tinha acontecido, mas confesso que não ouvi metade, o meu pensamento era só e unicamente um, queria ver as minhas filhas, pegar nelas e dar muitos miminhos
- Mor... - senti os dedos do Ruben no meu rosto, limpava as lágrimas que caíam sem controlo
- Quero vê-las...
- Não podes.... mor estás fraca, perdeste muito sangue e levaste pontos... - o Ruben argumentava tanto quanto possível para convencer-me mas
- As minhas filhas precisam de mim! - falei determinada e tentei mesmo levantar-me mas
- Mariana chega! - o Ruben falou ao mesmo tempo que impediu-me de levantar, ao colocar as mãos nos meus ombros - caramba por uma vez na vida ouve o que te dizem! Não podes sair da cama, por muito que queiras ver as nossas filhas, vais ter de esperar!
- Mas... - interrompeu
- Mas nada! Mor por favor fica quieta... as meninas estão a lutar e precisam da mãe delas forte, sei que as queres ver e também sei o quanto é importante que sintam a tua presença, mas para isso precisas de estar bem...
- Sai... - gritei - deixa-me sozinha... não serves para nada... - continuei a falar mais uns quantos disparates e quando terminei
- Não vou a lado nenhum porque precisas de mim, mais que não seja, para descarregar a frustração que sentes por não puderes ver as nossas filhas ou pelo momento do parto não ter sido aquele que secretamente imaginaste, ou ainda porque estás com tanto ou mais receio do que tenho... Mariana também tenho medo das próximas horas, não és só tu que te recordas do que passamos com o Filipe, do que choramos abraçados um ao outro sempre que o Filipe piorava, das noites infindáveis que passámos acordados só porque tínhamos medo de acordar com o telemóvel a tocar e recebermos más notícias... da angústia que sentíamos sempre que o tínhamos de deixar... Mariana infelizmente sabemos bem o que é ser pai e mãe de um prematuro, por isso facilita dentro do possível... caramba em segundos vi partir a Carolina sem sequer saber se estava viva e logo depois fui expulso do bloco porque a minha mulher pura e simplesmente apagou... Mariana por momentos senti a minha vida a escapar-me por entre os dedos... se te acontecesse alguma coisa nem sei... por isso tem calma... por muito que custe, vais ter de esperar para veres as meninas, porque nós sem ti não somos ninguém...
Não tive argumentos, simplesmente calei-me, o que permitiu à Graça falar, informou-me que tirarei leite com uma bomba, de forma a estimular o peito e também a conservar o leite para as minhas filhas, tal informação só contribuiu para a revolta se tornar maior, mas desta vez, guardei-a dentro de mim.
Os minutos passaram e o momento de tirar o leite revelou-se pura tortura, uma vez que para além das dores que sentia, ainda tive que lidar com o facto de ter pouco leite, lógico que a enfermeira relativizou a questão, ao dizer que é normal nestas primeiras horas, mas para mim nada é normal...Como será as próximas horas? A Mariana teve um parto complicado e está impedida de ver as filhas... que consequências terá??
E a prenda do João o que será?
E agora que a Mariana já é Mendes de sangue mudará alguma coisa na relação das primas???