domingo, 23 de novembro de 2014

183 - "É por isto que não gosto de fazer partos a pessoas que são como família…"

Ruben
Obrigaram-me a sair do bloco sem uma única explicação, deixei para trás a minha mulher e filhas sem sequer saber o que se estava a passar, senti-me a perder o rumo, o tempo que fiquei do lado de fora daquela porta à espera de notícias foi horroroso, parecia que a cada segundo espetavam-me mais uma faca no meu coração, tentei obter mais informações mas ninguém sabia de nada, acabei por após longos minutos, caminhar até à sala de espera, onde sabia que encontraria a Maria
- Finalmente! Vá mostra lá as fotos da família feliz!
Assim que ouvi a Maria não consegui controlar-me e abracei-me a ela a chorar.
- Ruben o que é que se passa? - a minha sogra perguntou de imediato mas não consegui dizer nada... simplesmente chorava, tentei acalmar-me mas só a ideia de poder perder uma das três...
Estava a tentar controlar o choro quando a Ana entrou
- Então já nasceram? - vinha alegre mas assim que se apercebeu - O que se passa???
Não sei o que lhe falaram, só sei que saiu sem demoras...
Fernanda
Acordei com o telefone de casa a tocar, atendi ainda meio ensonada mas assim que ouvi a voz da minha sobrinha a avisar que Mari já tinha dado entrada no bloco para ter as meninas,  fui acordar o Manuel e despachamo-nos o mais rápido possível.
Já não conseguimos ver a Mariana, uma vez que já estava no bloco e por isso ficamos na sala de espera com a Maria. Estávamos ansiosos por novidades e por isso quando o rapaz apareceu, a Maria não perdeu tempo mas... o impensável aconteceu, o Ruben desabou num pranto, tentamos perceber mas não estava em condições de falar... felizmente a Ana chegou e ao deparar-se com tal situação foi tentar perceber o que se passava...
Os minutos que tivemos de esperar foram angustiantes, ainda mais porque o Ruben, por entre o choro desesperado, nos disse o que sabia...
- Maria vem comigo!!! - a entrada de rompante da Ana assustou-nos ainda mais porque voltou a sair com a Maria,  em passo acelerado...
***
Passou alguns minutos e
- Ruben Amorim?
O meu genro levantou-se de imediato perguntando pelas meninas, a médica informou-nos do estado de saúde das minhas netas, explicando que a Carolina sentiu algumas dificuldades em respirar e que por isso o Ruben não a pode ver de imediato, disse-nos ainda o peso e altura das pequeninas, bem como uma breve explicação do que será as próximas horas, como se o Ruben não soubesse já…
Assimilamos tudo o que nos foi dito e no fim o Ruben perguntou pela Mariana, ao que a médica respondeu
- Houve uma complicação mas não lhe posso adiantar muito... a Dra. Graça já vem ter consigo.
- Posso ver as minhas filhas?
- Dentro de alguns minutos já o vêm chamar…
A médica afastou-se e o Ruben continuou a andar impaciente de um lado para o outro, só parou quando a Anabela apareceu, resolvemos nos afastar e foi quando estava junto do Manel e dos meus cunhados que
- Não percebo porquê que a Ana veio chamar a Maria…
- Também não percebi… mas a Ana sabe da ligação que as duas têm…
- Mas a minha filha não é médica! - olhei-o mas nem respondi, acho que se o fizesse corria o risco de falar demais…
Ana
Saí de casa a pensar que seria só mais um dia de trabalho, mas ao chegar ao hospital, fui informada que a Mariana tinha dado entrada em trabalho de parto, fui até à sala de espera feliz pelos meus amigos mas assim que entrei, rapidamente percebi que algo de grave tinha acontecido.
Fiz prevalecer a minha condição de médica para obter informações e assim que entrei no bloco, percebi o que se passava, ainda assim a Graça confirmou, ao dizer que após a Carolina nascer que a Mariana entrou em choque, perdendo os sentidos e estavam agora a tentar controlar a hemorragia sem recorrer a um procedimento mais evasivo, no entanto o útero continuava a não contrair e dado que já tinha perdido algum sangue, a Graça foi obrigada a fazer um procedimento cirúrgico, no entanto e como a Mari já tinha perdido algum sangue, foi necessário proceder a uma transfusão de sangue, mas dado o tipo de sangue, tivemos que recorrer a uma solução de algum risco…
Saí do bloco e fui à sala de espera, uma vez que a Maria tem o mesmo tipo sanguíneo que a Mariana, o que é uma coincidência enorme, uma vez que na verdade a nossa amiga não é Mendes de sangue…
- O que se passa?
- Maria a tua prima entrou em choque após o nascimento da Carolina, perdeu os sentidos, além disso está a perder muito sangue… a Graça terá que avançar para a remoção da placeta mas para isso é aconselhável a Mariana receber sangue… vocês as duas têm o mesmo tipo de sangue por isso… - não tive de dizer mais nada porque
- Eu dou!


Maria
Assim que o Ruben nos ligou voei para o hospital e quando lá cheguei informaram-me que a minha prima e o Ruben já estavam no bloco de partos, mas que ainda nenhuma das meninas tinha nascido. Aproveitei para avisar a família como tínhamos previamente combinado, apenas os avisei quando a minha prima entrou no bloco.
O tempo passava muito devagar, toda a família chegou e nada de novidades até ao momento em que o Ruben entra na sala, não me contive e saltei para ele queria fotos e saber como estavam, mas a reacção e aquilo que nos contou deixou-me em panico. Não podia conceber que acontecesse alguma coisa a minha prima, depois de o ver um pouco perto do Ruben o João veio até mim assim que se aproximou temi que nos denunciasse, já que tudo o que precisava era do seu “colo”
- Maria eu sei que tens medo… e também te queria abraçar, mas vais ter de manter a calma… por ti e por ele…
Neste instante a Ana entrou e quando soube o que se passava foi procurar mais informações até que voltou e me chamou sem grandes explicações segui-a.
Só quando já estávamos sozinhas tive coragem de perguntar o que se passava, ouvi que a Mari precisava de sangue e que eu poderia doar, nem pensei 1 vez quanto mais 2. A Ana ainda falou para lá sobre o risco de fazer a doação assim sem preparação.
Fui até uma enfermaria onde lá me tiraram o sangue e onde fiquei a contra gosto
- Ana quero ir ver a minha prima
- Maria não pode ser!
- Oh Ana…
- Não!
- Tu não podes sair daqui assim… tens de ficar um tempo em repouso… já te trazem qualquer coisa para comer
- Mas a Mariana
- Está a ser tratada pelos melhores profissionais que há e agora vai receber o sangue…
- Como é que sabias que eu era compativel?
- Sou vossa médica! Dahhh - falou a gozar-me
- Não é estranho? É sangue raro…
- Coincidencias…
- Agora fica quietinha! Queres que chame o João?
- O João? Porquê? - fiz-me desentendida e ela gargalhou
- Deves achar que me atiram areia para os olhos! A vocês já eu vos topei… mas vá queres a tua mãe?
- Não quero a minha prima
- Então ficas aqui sozinha até que a enfermeira te venha dizer que podes voltar para junto deles… eu vou ter com a tua prima.
Até que finalmente uma enfermeira me veio chamar e pude finalmente juntar-me ao resto da familia


Ana
Depois do stress todo, a Mariana foi transferida para o recobro. Saí do bloco com a Graça e simplesmente deixei o corpo escorregar pela parede, acabei sentada no chão.
- Estás bem?
- Sim… É por isto que não gosto de fazer partos a pessoas que são como família…
- Como médica sabes que pode acontecer mas correu bem e a Mariana recuperará… vens comigo falar com a familía?
- Sim…
Fomos até à sala de espera, onde já estava também o João e assim que entramos
- ANA… - o medo de perder a Mariana estava bem nítido no seu rosto e voz
- Tem calma… o pior já passou… mas a Graça explica-vos - o Ruben respirou fundo e senti que lhe tinha tirado toneladas de peso de cima, aliás dele e da restante família que aguardam impacientemente por notícias
- Graça, o que é que se passou? Porquê que a minha filha perdeu os sentidos? - desta foi a mãe da Mari
A Graça explicou o que na verdade se passou mas o Ruben não estava nem um pouco conformado, tanto que
- Mas como? Como é que isto aconteceu? Estava tudo a correr tão bem…
- São complicações que acontecem… mas já passou e o que interessa é que tens duas princesas lindas
- Sim… e estou agradecido por as ter às três mas…
- Mas querias que fosse diferente… - falei - querias a tradicional foto tirada ainda na sala de partos, querias estar agora com as tuas filhas nos braços e a olhar para a Mariana mas infelizmente terás que esperar
- Graça, a minha filha vai ficar bem? - a D. Fernanda insistiu
- Vai…
- Podemos vê-la?
- Sei que devem querer todos vê-la mas não aconselho, a Mariana precisa de repouso, é lógico que quando for para o quarto o Ruben pode entrar e ficar com a Mariana mas mais pessoas não… venham mais logo na hora da visita!
Fernanda
A Graça explicou-nos o que se passou e no fim o Ruben foi finalmente ver as filhas.
- Vocês sabiam que a Maria e a Mariana têm o mesmo tipo de sangue?
- Não - a minha cunhada respondeu de imediato
- Também não sabia mas isso é só um detalhe…
- Fernanda, um detalhe que hoje fez toda a diferença! - olhamos para a Graça - foi necessário fazer uma transfusão de sangue e dado o tipo raro de sangue que ambas têm, foi uma sorte a Ana ter entrado e saber que ambas partilham o mesmo grupo sanguíneo, o que não deixa de ser uma coincidência enorme, dado que o teu grupo de sangue é outro!
- Isso só significa que a Mariana herdou o tipo de sangue do pai dela… não vejo motivo para se estar a falar disso agora…
- Desculpa não te queria aborrecer!
- Sabes perfeitamente que não gosto de falar do assunto! - rematei e a conversa terminou porque vimos a Maria a chegar


Maria
Entrei na sala de espera e
- O Ruben?
- O Ruben foi ver as meninas… e tu filha onde foste?
- Maria viste a tua prima
- Não tia não a vi… eu fui dar sangue…
- Só foste dar sangue não a viste?
- Sim… não vi a Mariana… - falava com a minha mãe e a minha tia mas não tirava os olhos do João que percebeu que queria fugir dali
- Maria… desculpem interromper, mas a Ana pediu para irmos ali...
- Onde vamos? - perguntei quando entramos do corredor restrito de acesso a neonatologia
- A Ana mandou-me uma sms a dizer para te trazer para cá quando chegasse perto de nós… podemos ver as meninas… estar com o Ruben
- E a minha prima?
- E tu?
- Ãh?
- Essa história de dar sangue… estás bem?
- Sim… mas não sabia que tínhamos o mesmo tipo de sangue… o meu é raro… - o João ia falar qualquer coisa, mas arrependeu-se e já não consegui perguntar-lhe mais nada uma vez que chegamos perto do Ruben que pouco tempo depois deu pela nossa chegada.
Ainda esperei com eles que a minha prima acordasse e depois de deixar o Ruben contar o que tinha acontecido falei um pouquinho com ela até que tive mesmo de os deixar.
- Conduzes?
- Sim… estás bem?
- Deve ser do stress estou toda mole… e não me sinto bem…
- Não foi stress foi o sangue que te tiraram! Ana falou nisso… vamos para casa, para a minha para não haver “blá-blá-blá” levamos os meninos e passamos lá o dia
Aceitei a sugestão até porque faltava chegar a prenda do dia do pai e tinha pedido que entregassem em sua casa.


Ruben
O alivio que senti assim que garantiram que a Mariana está bem foi enorme mas ainda assim continuava nervoso, tanto que
- Ruben… - olhei para a Ana que caminhava ao meu lado, uma vez que fez questão de acompanhar-me até à unidade de neonatologia - já passou!
- Se lhe acontecesse alguma coisa…
- Hey… foi só um susto e agora anima-te que daqui a nada já tens a Mari no quarto
- Tive tanto medo… percebi que alguma coisa estava a correr mal quando levaram a Carolina sem que a pudéssemos ver mas ninguém disse nada… e depois a Mariana perdeu os sentidos… fui obrigado a sair do bloco sem saber nada das duas…
- Ruben o que interessa é que as tuas filhas estão bem e a mãe também…
- Vocês não têm noção… quando a vi perder os sentidos…
- Vá, não penses mais nisso e agora anda, vamos ver as pequenas
***
Perdi a noção do tempo, estava a dar miminhos às minhas princesas quando vi a Maria e o João, ainda assim fiquei junto das minhas filhas, até a Ana informar-me que a Mari já tinha sido transferida para o quarto, despedi-me das minhas filhas e fui até ao quarto da Mari na companhia do João e da Maria.
Entramos e percebemos que o meu amor ainda dormitava, aproximei-me e dei-lhe um beijo, no entanto não reagiu, fiquei a olhá-la para depois afastar-me, fui sentar-me no sofá ao lado deles.
Mariana
Abri os olhos e vi tudo enevoado
- Onde estou? - custou-me a falar mas depressa alguém se aproximou
- Tenha calma Mariana…
- As minhas filhas? - perguntei imediatamente assim que percebi que estava num sitio desconhecido mas claramente algures no hospital
- Estão bem e você também vai ficar…
- Mas…
- A Dra. Graça responderá a todas as suas dúvidas mas agora vou observá-la para depois a transferir para o seu quarto
- O meu marido? - perguntei ao olhar ao meu redor e não o encontrar
- Também já o verá…
Mas que merda de respostas tão sem conteúdo, foi esse o pensamento que tive e teria reclamado mas as forças faltaram, estava cansada. Não sei o tempo que ainda fiquei naquela sala, até porque devo ter adormecido pois quando abri os olhos novamente já estava num sítio mais agradável e assim que grunhi tal como os animais grunhem quando têm dores
- Amor… - ouvir a voz do Ruben fez-me procura-lo com o olhar mas nem tive de fazer grande esforço pois em segundos já o tinha junto de mim, quer dizer ele e a Maria
- As meninas? - perguntei com as lágrimas nos olhos
- São lindas - o sorriso do Ruben bastou para que serenasse
- Quero vê-las!
O Ruben sorriu e depois agarrou no telemóvel, mostrando-me as já imensas fotos que tem das nossas princesas, mas ver fotos não é a mesma coisa que tê-las nos braços e por isso sem que conseguisse disfarçar, as lágrimas caíram
- Prima não fiques assim… elas estão bem e quando te sentires melhor vais vê-las… - a Maria agarrou-me na mão esquerda e não sei porquê mas comecei a chorar ainda mais
O Ruben, a Maria e até o João nos minutos seguintes tentaram distrair-me mas quando a Graça entrou, acompanhada pela Ana, a primeira coisa que lhe perguntei foi pelas meninas
- Mariana sei que queres muito vê-las, o que é totalmente compreensível, mas agora tens de pensar em ti, precisas de descanso...
A Graça passou os minutos seguintes a explicar o que tinha acontecido, mas confesso que não ouvi metade, o meu pensamento era só e unicamente um, queria ver as minhas filhas, pegar nelas e dar muitos miminhos
- Mor... - senti os dedos do Ruben no meu rosto, limpava as lágrimas que caíam sem controlo
- Quero vê-las...
- Não podes.... mor estás fraca, perdeste muito sangue e levaste pontos... - o Ruben argumentava tanto quanto possível para convencer-me mas
- As minhas filhas precisam de mim! - falei determinada e tentei mesmo levantar-me mas
- Mariana chega! - o Ruben falou ao mesmo tempo que impediu-me de levantar, ao colocar as mãos nos meus ombros - caramba por uma vez na vida ouve o que te dizem! Não podes sair da cama, por muito que queiras ver as nossas filhas, vais ter de esperar!
- Mas... - interrompeu
- Mas nada! Mor por favor fica quieta... as meninas estão a lutar e precisam da mãe delas forte, sei que as queres ver e também sei o quanto é importante que sintam a tua presença, mas para isso precisas de estar bem...
- Sai... - gritei - deixa-me sozinha... não serves para nada... - continuei a falar mais uns quantos disparates e quando terminei
- Não vou a lado nenhum porque precisas de mim, mais que não seja, para descarregar a frustração que sentes por não puderes ver as nossas filhas ou pelo momento do parto não ter sido aquele que secretamente imaginaste, ou ainda porque estás com tanto ou mais receio do que tenho... Mariana também tenho medo das próximas horas, não és só tu que te recordas do que passamos com o Filipe, do que choramos abraçados um ao outro sempre que o Filipe piorava, das noites infindáveis que passámos acordados só porque tínhamos medo de acordar com o telemóvel a tocar e recebermos más notícias... da angústia que sentíamos sempre que o tínhamos de deixar... Mariana infelizmente sabemos bem o que é ser pai e mãe de um prematuro, por isso facilita dentro do possível... caramba em segundos vi partir a Carolina sem sequer saber se estava viva e logo depois fui expulso do bloco porque a minha mulher pura e simplesmente apagou... Mariana por momentos senti a minha vida a escapar-me por entre os dedos... se te acontecesse alguma coisa nem sei... por isso tem calma... por muito que custe, vais ter de esperar para veres as meninas, porque nós sem ti não somos ninguém...
Não tive argumentos, simplesmente calei-me, o que permitiu à Graça falar, informou-me que tirarei leite com uma bomba, de forma a estimular o peito e também a conservar o leite para as minhas filhas, tal informação só contribuiu para a revolta se tornar maior, mas desta vez, guardei-a dentro de mim.
Os minutos passaram e o momento de tirar o leite revelou-se pura tortura, uma vez que para além das dores que sentia, ainda tive que lidar com o facto de ter pouco leite, lógico que a enfermeira relativizou a questão, ao dizer que é normal nestas primeiras horas, mas para mim nada é normal...

Como será as próximas horas? A Mariana teve um parto complicado e está impedida de ver as filhas... que consequências terá??
E a prenda do João o que será?
E agora que a Mariana já é Mendes de sangue mudará alguma coisa na relação das primas???

sexta-feira, 7 de novembro de 2014

182 -O que é que te deu para expulsares o Ruben?

Mariana
É verdade que desde que acordei que estava a sentir-me estranha, mas não dei grande importância, dado que nos últimos dias dores é o que tenho sentido mais. Acabei por deitar-me assim que cheguei a casa mas com o passar do tempo as dores aumentaram, tanto que chamei pelo Ruben e assim que entrou no quarto e viu-me com as lágrimas nos olhos
- Mor o que se passa?
- Acho que as meninas querem nascer…
- Então vamos para o hospital - falou calmamente - Vou ligar à minha mãe para ficar com o Filipe!
Não questionei, até porque o meu pensamento naquele momento era um só, que ainda faltava umas semanas para o fim do tempo de gravidez, era nisso que pensava quando o Ruben regressou ao quarto, pegou na mala que tinha preparado para levar para o hospital e ajudou-me.
Minutos foi o que tivemos que esperar até a Anabela chegar, a minha sogra tentou animar-me mas confesso que só não a mandei para um sitio feio porque o filho dela percebeu a tempo e puxou-me pela mão.
A viagem de casa ao hospital foi rápida e mais rápida foi a entrada para ser observada, uns minutos foi o tempo necessário para ouvir da boca do médico a confirmação do que mais temia…
- Não pode ser! Ainda é cedo…
- Oh mor… - o Ruben que se encontrava ao meu lado e a agarrar na minha mão, deu-me um beijo na testa - não fiques assim… vai correr tudo bem…
- As meninas não podem nascer já!
- Nós sempre soubemos que dificilmente aguentarias até ao fim do tempo - o Ruben enquanto falava dava-me miminhos - mor estás grávida de gémeas, o mais comum é nascerem antes de tempo - suspirei
- Mas… - não precisei de falar para o Ruben perceber, tanto que
- Mas ainda tens bem presente o que passamos quando foi com o Filipe - sorriu ligeiramente - oh mor também tenho receio mas temos que ser optimistas, além disso o Filipe nasceu com menos semanas e hoje é um bebé cheio de energia, por isso vamos pensar positivo e agora vê se descansas…
Não barafustei mais, até porque de nada adiantava, mas isso não foi sinónimo de ter descontraído, muito pelo contrário com o passar dos minutos estava cada vez mais nervosa…

Ruben
Assim que a Mari informou que estava com dores, tentei manter a calma, para stressar já chegava o meu amor, mas por dentro… bem por dentro só eu sei como estava, a verdade é que tenho tanto ou mais receio que a Mari, só de pensar no que foram as primeiras semanas de vida do Filipe… ainda assim disfarcei o melhor que consegui e tentei apoiar a Mariana ao máximo.
No inicio consegui serena-la mas com o passar do tempo notei que estava cada vez mais ansiosa, tentei distraí-la ao dar-lhe mimos mas só a consegui irritar mais, tanto que ouvi um “sai daqui já!”, a forma como falou magoou-me, afinal só tentava apoiá-la e no fim correu comigo do quarto, alegando que só a estava a deixar mais nervosa.
Saí contrariado mas saí e quando estava no corredor
- Como é que ela está?
- Bem… a julgar pelo feitio de merda dela - atirei sem medir as palavras e só percebi o que tinha dito quando a Graça gargalhou
- Querias o quê? Ruben estamos a falar da Mariana - continuava a rir - ela nunca gostou de hospitais e menos ainda se for ela a precisar de cuidados, junta a isso o facto de estar com dores e consciente que as vossas filhas vão nascer antes do previsto ou melhor antes do tempo que na cabeça da tua mulher seria o indicado… não sei o que fez ou disse para estares irritado mas conheço-a o suficiente para saber que a sobrar para alguém, será para ti, a Mariana está com medo, aliás estão os dois, o que é normal dado o que passaram com o vosso filho, por isso tem paciência e filtra o que a Mari te possa dizer durante as próximas horas, é o melhor que tens a fazer!
- Aquela louca expulsou-me do quarto - suspirei - só porque a tentava acalmar e distrair…
- Dá-lhe tempo… daqui a nada já está a chamar por ti… afinal falamos da Mariana Mendes, daquela que sempre correu na tua direção ou na da Maria quando precisava de se sentir segura… 
As palavras da Graça foram como uma luz ao fundo do túnel e apesar da hora avançada, não me coibi em ligar para a Maria, no entanto não atendeu, voltei a insistir mas nada… acabei por perder a paciência e entrei no quarto, lógico que a Mari resmungou, ignorei e fui à sua mala, de onde tirei o telemóvel e voltei a sair.
Liguei para a Maria que atendeu ao segundo toque
- Mas o que é que tu e o teu marido querem a esta hora? - resmungou de forma nada amigável
- Sou eu… - conforme falei a Maria interrompeu
- Oh atrasado mental o que é que queres que não pode ficar para amanhã?
Nem respondi, simplesmente desliguei o telemóvel, não estava para aturar outra Mendes, além disso a mulher é minha logo quem a tem de aturar sou eu.
Estava a preparar-me mentalmente para entrar novamente no quarto quando o meu telemóvel começou a tocar, atendi e
- Mas isto agora é assim? Dás numa de empata fodas e depois desligas sem dizer o que queres? - foi impossível não gargalhar ao ouvir a Maria para depois
- Dispenso os detalhes sórdidos e desculpa se vos interrompi mas a tua prima está em trabalho de parto e… - não consegui terminar porque
- Trinta minutos e estou no hospital!
Conforme falou, desligou e em menos de trinta minutos já a tinha junto de mim
- Porquê que estás à porta do quarto?
- Porque a casmurra da tua prima não me quer lá dentro… foi por isso que te liguei… desculpa se estraguei a vossa noite
- Oh Ruben deixa de ser parvo… se foi mau? Sim foi… principalmente para o João mas a minha prima está primeiro! E agora vou entrar para meter juízo naquela cabeça - conforme falou começou a caminhar e ao perceber que não a acompanhava - não vens?
- Qual é a parte que a Mari não me quer no quarto que não percebeste?
- Até parece que não a conheces! Falou isso porque não tinha mais nada para dizer - encolheu os ombros

Mariana
Sei que o Ruben saiu por culpa minha mas não consegui deixar de sentir raiva dele, afinal saiu sem dar “luta”, talvez por isso quando regressou ao quarto, fui novamente indelicada e como resposta tive uma nova ausência. Estava a remoer nisso quando ouvi a porta a abrir novamente, olhei e para minha admiração vi a Maria acompanhada pelo Ruben
- Mas estás parva? - insultou-me de imediato - O que é que te deu para expulsares o Ruben? E deixares de ser criança? Ganha juízo! Juro que não percebo tens tudo e parece que não te chega… 
Não estava a entender as palavras da Maria e menos ainda o tom em que falava, só sei que quando dei por mim as lágrimas caíam dos meus olhos e
- Já chega Maria! Não foi para isto que te liguei! - o meu amor aproximou-se da cama
- Ah espera… a ideia era chegar aqui e passar a mão pela cabeça dela? Desculpa mas recuso-me a fazer isso! Já passei pelo que a Mari está a passar e dava tudo para ter o João do meu lado, por isso não percebo qual é a tua ideia - falava agora a olhar-me - caramba Mariana qual é o drama? Vais ser mãe, que é algo que já o és, estás mais do que preparada por isso deixa os dramas para aquelas que ainda não fazem a menor ideia do que é ser mãe, deixa o Ruben ficar do teu lado!
Não respondi nada, talvez por saber que tem razão ou então porque na verdade as palavras da Maria magoaram-me
- Mor não lhe ligues - a Maria olhou-o - aqui a Mariazinha está assim irritada porque se preparava para consolar o João… - sorriu de traçado - se é que me entendes…
Acabei a rir, sim que a cara da minha prima era tudo menos de alguém que estava a achar piada, a verdade é que uns minutos depois já nos riamos os três.

***

Estava deitada e ligada a fios e mais fios quando a Graça entrou e questionou se não mudei de ideias em relação à cesariana, uma vez que quando soube que era possível o parto normal decidi tê-las sem recurso à cesariana.
- Não… cesariana só se as meninas tiverem em sofrimento…
- Tudo bem… ficarás em observação e dependendo do evoluir da situação decidirei pelo melhor para ti e para as bebés, agora tem calma e tenta dormir…

***

Consegui passar pelo sono mas acordei molhada, tanto que barafustei e acordei o Ruben que se aproximou de imediato
- Estás bem?
- Não… acho que as águas rebentaram…
- Pensa positivo… o momento de as conhecermos está mais perto - deu-me um beijo - e agora vou chamar uma enfermeira para que avisem a Graça.
O Ruben saiu, regressando já com a Graça, que ao observar-me confirmou o que já sabia…
- A Maria? - perguntei por não a ver no quarto, o que fez a Graça sorrir e comentar
- Realmente vocês sempre foram muito unidas - sorriu - há irmãs que não  são tanto quanto vocês!
- Mor adormeceste e por isso a Maria foi para casa - olhei-o - não fazia sentido ficar aqui, onde nem sitio para dormir tinha… mas vou ligar-lhe… 

*** 

Não sei o tempo que passou, só sei que a cada minuto sentia mais dores… tinha a Maria de um lado e o Ruben do outro, ambos tentavam distrair-me mas quando as dores se intensificaram acabei por pedir que chamassem alguém, a Graça veio observar-me e
- Tens a certeza que não queres cesariana?
- Sim…
Confesso que hesitei, a verdade é que há umas horas estava muito mais segura da decisão, ainda assim mantive a minha decisão…

Ruben
Passei a noite em claro, ao contrário da Mari que conseguiu dormir, talvez pela medicação…
As horas passaram e o momento de ser transferida para o bloco chegou naturalmente, despedi-me dela por uns minutos, uma vez que voltaria a estar com o meu amor, no bloco.
Entrei no bloco e fui imediatamente ter com a Mariana, dei-lhe a mão e mantive-me sempre do seu lado…
Os minutos seguintes foram para mim completamente surreais, passou-me tudo pela cabeça, recordei o parto do Guigas e tudo o que daí resultou… a perda dos gémeos, a nossa separação, os meses de calvário, o nascimento do Filipe e principalmente o que foram as primeiras semanas de vida do nosso filho, era nisso que pensava quando o meu amor ao sentir mais uma contração apertou-me a mão, olhei-a e sorri, a Mariana estava agora mais calma…
Ouvi a Graça a pedir para a Mari fazer força e depois de algum tempo, recebeu nos seus braços a Leonor, sim tínhamos decidido que a primeira a nascer seria a Leonor.
Cortei o cordão umbilical e o que senti ao ver a nossa filha foi único, apesar de pequenina aos meus olhos é perfeita... a Graça mostrou a Leonor à Mari e depois entregou a menina a outra médica que a levou imediatamente para os primeiros exames…

Mariana
Não tenho noção do tempo mas desde que entrei para o bloco até a Leonor nascer pareceu uma eternidade, por muita força que fizesse não havia meio de a conhecer…
- Mariana só mais uma vez…
Assim que ouvi a Graça fiz toda a força possível e
- A Leonor é linda - ouvi a Graça depois o Ruben
- Posso cortar o cordão?
Não sei quem cortou… só sei que o que mais queria era ver a minha filha, algo que consegui por escassos segundos, uma vez que uma médica levou-a para longe de mim…
- Mariana… Mariana… - a Graça chamava-me e por isso olhei - concentra-te… que ainda tens a segunda para conhecer…
Era verdade… tinha mais uma para fazer nascer mas estava tão cansada…
- Mariana quando voltares a sentir nova contração faz força
Assim o fiz e quando a contração chegou fiz força mas
- Não consigo… 
- Consegues sim!!
Olhei para o meu amor, o que ajudou a concentrar-me e quando voltei a sentir nova contração fiz toda a força que consegui mas estava tão cansada... senti-me a perder as forças
- Mor olha para mim… concentra-te… mor está quase… só falta mais um bocadinho para… 
Voltei a sentir nova contração e por isso apertei a mão ao Ruben com toda a força que tinha, algo que voltei a fazer quando a Graça pediu e não sei onde fui buscar tanta força, mas consegui… consegui fazer com que a nossa Carolina nascesse, mas aquele momento não foi como o primeiro… não ouvi o Ruben a pedir para cortar o cordão, nem a Graça sugerir tal coisa…
- O que se passa?
Ouvir o desespero na voz do Ruben só contribuiu para ter a certeza que algo não estava bem… olhei em volta, olhei para cada recanto daquela sala, olhei até onde a minha visão permitia… mas não vi a minha menina… não vi nem ouvi o seu choro… senti uma enorme dor no meu peito, como se alguém tivesse arrancado um bocado de mim… voltei a ouvir o Ruben, para depois ouvir
- O pai tem de sair…
Aquilo era a voz da Graça mas estava tão distante… mal a consegui ouvir…

Maria
Atendi apenas por ser a minha prima, mas disparei de imediato
- Mas o que é que tu e o teu marido querem a esta hora?  - o João gargalhou enquanto me ia brindando com alguns mimos
- Sou eu… - do outro lado da “linha” soa a voz do Ruben, juro que me passei afinal estava ocupada
- Oh atrasado mental o que é que queres que não pode ficar para amanhã? - nova gargalhada desta vez bem audível do João
E do telefone apenas o “tu-tu-tu” irritante de quem tinha acabado de ficar pendurar
- É que ele nem sonhe que me faz isto!! - resmunguei enquanto retornava a chamada
- O que foi?
- O palhacinho do teu amigo…
- Meu?
- Pois tu é que nos apresentaste… mas tá a gozar só pode!
- O que foi?
- Ligou 500 vezes do dele e depois quando atendi desligou-me na cara!
- Oh fofa não foste propriamente simpatica…
- Detesto que me interrompam quando estou ocupada! - ele gargalhou e no mesmo instante o Ruben atende - Mas isto agora é assim? Dás numa de empata fodas e depois desligas sem dizer o que queres? - disparei e ouvi-o gargalhar e só ai tive noção de que me tinha confessado, mas fingi não ter feito nada já que
- Dispenso os detalhes sórdidos e desculpa se vos interrompi mas a tua prima está em trabalho de parto e… 
- Trinta minutos e estou no hospital! - desliguei a chamada e saltei da cama, ou melhor do colo do João
- O que se passa? Onde é que vais? - perguntava enquanto eu me vestia - oh Maria…
- Mas tu és surdo? Vou para o hospital! A minha prima está em trabalho de parto!
- Já?! Vou contigo espera!
- Nem penses tens de ficar com os meninos, a Micas está com o Rui
- Ok… mas vai com calma e vai dando noticias… - aproximei-me dele que se mantinha na cama e dei-lhe um beijo que tencionava fosse rápido mas se prolongou
- Tenho de ir…
Sai em direcção ao hospital e nem trinta minutos depois da chama estava perto do Ruben ao vê-lo do lado de fora do quarto apeteceu-me bater-lhe por deixar a minha prima sozinha, mas fui esclarecida que quem estava a “dar a louca” era mesmo e para não variar a dona Mariana, por isso entrei no quarto e meti ordem “na barraca” fiquei com eles até que finalmente a Mariana adormeceu
- Ruben vou só beber um café… e ligar ao João para saber dos meninos…
- Vai para casa… aposto que o João não se vai importar de retomar o que atrapalhei - fiz cara de ofendida - e vês os meninos… ela tá a dormir… assim que houver novidades eu aviso… até porque confesso que preciso de uma Mendes para aguentar a outra!
- Ruben juro que não te perdoo se não avisares a tempo de cá chegar antes da Leonor nascer!
- Não te preocupes… 
- Precisas de alguma coisa?
- Não…
Deixei o Ruben e num instante cheguei a casa o João estava na sala a fazer zapping
- Então?
- O Ruben está em pânico… a Mariana adormeceu, mas segundo a Graça não passa desta noite… ele liga a avisar… - deixei-me cair no sofá e encostei a minha cabeça no seu ombro - os meninos?
- Dormem como dois anjinhos… e nós?
- Oh mor - dei-lhe um beijo rápido - sim podíamos retomar, mas… esta adrenalina está a matar-me e a qualquer momento o Ruben liga e… ficas na mão - dei-lhe um novo beijo
- Fogo que as miúdas são mesmo Mendes!
- Desculpa?
- Sentido de oportunidade vem nos genes… - gargalhei
- És tão parvinho… 
Acabamos por ficar naquele aconchego durante uns minutos que só foram quebrados pela chegada da Micas em lágrimas
- Micaela o que se passa? - assim que a vi temi o pior
- Ah estão ai? - ficou admirada quando nos viu
- Sim estamos… a Mariana está em trabalho de parto estou a espera de noticias para ir até ao hospital… mas e tu o que tens? - ela tentava limpar as lágrimas mas não conseguia deixar de fungar
- Nada de novo…
- O que é que foi agora?
- É que ele está de folga e eu nem me lembrei e tenho uma cena combinada com o Joca… não vou desmarcar né?
- Tu é que sabes… se quiseres falar tou aqui…
- Vou só trocar de roupa e podem ir para o hospital que fico com os pirralhos - falou e sorriu
- Descansa!
Ela acabou mesmo por ir para o quarto
- Ela e o Rui não tá famoso pois não?
- Nada mesmo…
- Mas eles pareciam gostar tanto um do outro…
- E ela gosta dele, mas… caíram na rotina e agora apareceu para ai um amigo dela lá do Porto…
- E ela…
- Amigo João A-MI-GO… mas dá-lhe atenção… não cobra nada… e parece que o Rui anda um bocado chato… 
A conversa teria continuado mas recebi uma sms do Ruben a avisar que iam entrar no bloco operatório peguei na mala e desta vez acompanhada pelo João e depois de avisar o resto da família voltei para o hospital onde depois de uns bons minutos na sala de espera vejo aparecer o Ruben mas ao contrario do que seria de esperar para quem acabara de ser pai de duas meninas a sua cara não era nada boa, aliás o Ruben parecia estar completamente fora da realidade.

O que terá acontecido? Estará a Carolina viva? E a Mariana?