sábado, 27 de julho de 2013

085 - "Mas o que sabes tu?! Não a conheces... nem amigos são..."

Mariana
Ouvir da boca do Ruben o quanto adorou assistir ao parto da Maria destruiu o muito pouco que ainda restava de mim, não tive coragem para continuar a olhá-lo, sabendo o que sei. Saí de casa sem olhar para trás e assim que cheguei à rua, respirei finalmente ar puro, enchi os pulmões de ar e após algum tempo sem saber para onde ir, lembrei-me do Rui, liguei-lhe e assim que percebeu quem lhe ligava afirmou convictamente que viria ter comigo, disse-lhe onde estava e cerca de uma hora depois já o tinha do meu lado, trocamos algumas palavras, não muitas, porque não estava em condições de o fazer, mas ainda assim foram as suficientes para que no momento que convidou-me a subir até ao seu apartamento o tenha feito sem hesitar, afinal estava mesmo a precisar de um sítio sossegado para descansar um pouco.
Estava sentada no sofá a olhar não sei bem para o quê quando senti uma  necessidade extrema de lhe contar tudo, sim tudo, simplesmente falei e o Rui ouviu, voltei a sentir-me estranha mas ao mesmo tempo aliviada, o rapaz durante o tempo que falei esteve sempre calado mas no fim deu-me na cabeça, não se preocupou se iria ou não gostar do que ouvia, acho que unicamente disse aquilo que julgava ser o certo e entre muita coisa que falou, ouvi-o a afirmar que o meu lugar é ao lado do Ruben, agora mais do que nunca e que para isso tenho que lhe contar tudo, recusei-me a fazê-lo mas o Rui não se deu por vencido e voltou a insistir, foi de tal forma que saí da sua casa com a promessa que contaria ao Ruben.
***
Regressei ao meu apartamento e apesar de não estar a contar que o Ruben lá estivesse à minha espera também não estava preparada para encontrar um bilhete dele
Mariana,
Quando te dignares a ter atitudes de uma mulher adulta avisa... Não vou mais procurar-te, estou a chegar ao meu limite, acho que já aceitei tudo o que tinha para aceitar, esta tua atitude só me faz entender que talvez não te conheça, estou farto de olhar para ti e não encontrar mais a minha Mariana.
Não estou a dizer que tens de andar de sorriso na cara, até porque nem sequer imagino o que é descobrir o que descobriste mas independentemente disso tens um passado em que foste amada e isso só não continua no presente porque estás a ser criança!
Acorda para a vida porque garanto-te que ninguém mas mesmo ninguém atura as tuas birras eternamente!
Pensa bem no que queres... pensa nos nossos filhos... já nem te digo para pensares em nós porque sinceramente acho que já desististe do “nós”...
Mariana, decide o que queres e depois comunica!
Vou até ao hospital despedir-me do nosso afilhado e da restante família, sim que para mim os Mendes são e serão sempre parte integrante da minha família!
Regresso ainda hoje para Braga, já não deveria estar cá, mas como mais uma vez só pensaste em ti, sem te preocupares comigo fiquei cá por não saber nada de ti... mais valia ter regressado afinal não fiquei mesmo a fazer nada cá...
Fica bem! E cuida dos nossos filhos... neste momento é só o que te peço...
Ruben Amorim
Ler cada palavra daquelas só serviu para sentir-me ainda pior, fui completamente descartada e sinceramente nem o posso culpar, afinal a culpa é só minha, ainda assim não reagi ou melhor reagi, fiz o mesmo que as avestruzes, enterrei a cabeça na areia, ou seja, ignorei o bilhete, fui até ao quarto e deitei-me, afinal não tinha mais motivos para sair daquela cama... mas só estive uns minutos deitada, levantei-me e sem pensar duas vezes para não me arrepender saí de casa com um só destino, o hospital.
Confesso que ao entrar no hospital perdi momentaneamente as forças, ao vislumbrar ao longe os Mendes, num espaço de minutos revivi mentalmente toda a minha vida, tudo por que passei, dei comigo a perceber uma série de situações que até então não tinha entendido, como o zelo em demasia do Manuel, de como não queria que andasse muito próxima dos rapazes, talvez só quisesse evitar que tivesse o mesmo destino que aquela que me carregou no ventre, ainda assim não consigo esquecer que sou única e exclusivamente uma MENTIRA desde o início até ao fim.
Para agravar ainda mais a revolta que senti foi impossível não recordar as horas que estive internada, aquelas em que... estive sozinha para o Ruben acompanhar a minha prima, senti a cabeça a latejar e as pernas a tremerem ainda assim e sem saber onde arranjei forças para continuar a andar, esquivei-me de forma que os Mendes não me vissem e abri a porta do quarto que sabia ser o da Maria sem bater, ao fazê-lo ouvi o desabafo do João
- Maria por amor de Deus CHE-GA! Esquece a Mariana! Amor eu não aguento mais ver-te ai a amargurares quando devia ser o momento mais feliz das nossas vidas só porque a tua prima para não variar está a ser egoísta
- É optimo saber que somos bem consideradas pelos amigos João é muito bom mesmo! - não aguentei e mesmo sabendo que não tenho razão tive que resmungar e só não alonguei mais porque a voz da Maria assim o impediu
- Pri... Mariana! - senti o meu coração a mingar mais um pouco perante as saudades de a ouvir chamar-me prima, de sentir o confroto do seu abraço - Eu queria poder levantar-me e abraçar-te, mas eu não posso! Vem aqui por favor! Eu preciso de um abraço teu!
Não a fiz esperar mais, aproximei-me da sua cama e abracei-a, como soube bem aquele abraço, sei que só não o recebi mais cedo por culpa minha, que fui eu que afastei a Maria mas agora mais do que nunca precisava do seu apoio, mesmo sem lhe puder contar o que se passou, mesmo sem ela nem sequer imaginar estava a reconfortar-me como só ela sabe.
- Achas que posso conhecer o meu afilhado ou o pai além de não te querer a falar comigo também não quer que o filho me conheça? - falei após respirar fundo para que a voz não me falhasse e denunciasse assim a lastima em que estou.
- Bruninho esta aqui é a maluca, chanfrada, destrambelhada e completamente alucinada da tua madrinha, mas o papá assim como a mamã e o padrinho adoram-na e tu vais adorar também! - não aguentei e ao ouvi-lo foi impossível segurar as lágrimas, o mesmo aconteceu com a Maria, se bem que chorávamos por motivos diferentes, ela talvez por alegria, já eu... por tristeza e completa amargura provocada pelo que escondia e que jurei para mim mesmo não contar... - Desculpa amiga, mas convenhamos que não tens sido fácil...
- É eu sei... - admiti ao baixar o olhar - agora dá-me cá o Guigas que eu quero ver, sentir e cheirar a minha pipoquinha!! - só eu sei o que custou dizer em voz alta tal desejo... mas no momento que pequei pela primeira vez naquela doçura senti-me em paz comigo mesmo, é estranho mas o Guigas transmitiu-me a serenidade que tanto procurei nestas últimas semanas, ainda assim não consegui evitar sentir inveja da Maria e do João, é feio mas foi o que senti, eles amam-se e agora têm o seu bem mais precioso enquanto eu... eu não tenho nada a não ser o sentimento de culpa...
Estava a babar o Guilherme quando senti o Ruben a aproximar-se e assim que a distância permitiu abraçou-me, não consegui reagir e pior foi quando senti as suas mãos na minha barriga, a vontade que tive foi de correr dali para fora mas até para isso fui incapaz, acabei por deixá-lo estar próximo de mim e por muito que tenha tentado obter uma reação minha fui incapaz de a dar.
Ruben
É oficial cheguei ao meu limite, por muito que ame a Mariana não posso continuar a amparar-lhe os golpes pois se o continuo a fazer nunca irá crescer e admitir que está errada.
Depois de lhe deixar o bilhete segui para o hospital e assim que entrei a Maria perguntou-me pela Mari, fui curto na resposta até porque o João explodiu ao afirmar que a Maria tem que esquecer a prima e foi nesse instante que a porta abriu, ver o meu amor trouxe-me sentimentos contraditórios, por um lado fiquei feliz de a ver mas por outro com receio que fosse dar confusão, no entanto vi a Mari a ceder por completo e num primeiro momento a aproximar-se da prima e de seguida a pegar no Bruno.
Vê-la com o menino nos braços fez-me sorrir ou não fosse ter imaginado nós os dois daqui a uns meses com os nossos pequeninos, foi com esse pensamento que aproximei-me da Mariana, abraçando-a, levei as mãos à sua barriga e senti-a a encolher-se, nunca aquele meu gesto teve esse efeito na Mari, normalmente sorria mas hoje ainda conseguiu fechar mais o seu rosto. A Mariana não afastou-me mas também não retribuiu nem com um pequeno sorriso, algo que deixou-me desconfortável e por isso mesmo quando o Fábio nos desafiou, a mim e ao João, a sairmos do quarto nem hesitei, ainda assim aproximei-me da Mari e dei-lhe um beijo, que não passou de um encosto de lábios, já que não reagiu.
- Puto... – olhei para o Fábio
- Diz!
- O que se passa?!
- Nada...
- Nada?! A quem queres enganar? – suspirei.
- Mano... - percebi que o João escolhia as palavras - é a Mariana não é? – olhei-o e nem tentei negar, afinal é mais do que óbvio – Ficou chateada por teres acompanhado a Maria, foi isso não foi? Daí não ter reagido quando a abraçaste...
- Se queres saber não sei... já não a reconheço e sinceramente não estou para continuar a viver assim...
- Puto! Não tomes decisão nenhuma... - o Fábio falou
- Não vou tomar decisão nenhuma, aliás deixei isso para a Mariana, fui bem explicito no bilhete que lhe deixei...
- Bilhete?! - falaram os dois ao mesmo tempo
- Sim... bilhete! Foi a única forma que arranjei para lhe dizer a verdade... só não sei se leu...
- O que escreveste?
- Resumidamente escrevi que se quiser regressar a Braga sabe como o fazer, caso contrário juro que não vou correr atrás...
- Mano!! A Mariana está grávida... não lhe podes virar as costas!
- Não lhe vou virar as costas mas também cresci com os meus pais separados e não foi por isso que fui infeliz...
- Estás a ouvir aquilo que falas? Logo tu...
- João... viste bem que a Mariana nem sequer falou para mim, não olhou e muito menos reagiu quando a abracei... e agora também não retribuiu o beijo - baixei o olhar - tê-la beijado a ela ou uma parede foi exatamente o mesmo...
- A Mariana não anda bem... não sei o que se passa - olhei para o Fábio - só sei que aquela não é mais a louca que conhecemos no passado e muito menos a Mariana dos últimos meses... juro que não percebo...
- Desculpa Fábio mas terá que ser a Mari a contar-te...
- Na boa...
Continuamos à conversa mas o tema mudou radicalmente ou não fosse agora o Bruno e as primeiras horas de vida o assunto. Foi quando o João relatava o que se tinha passado desde que abandonei ontem o hospital que recordei algo que a Mari falou quando regressou ao seu apartamento.
- João não viste a Mari ontem?!
- Ãh?!
- Sim... não a viste?
- Desculpa?! A Mari só a vi agora quando entrou...
- Mas ela disse-me que passou a noite no hospital quando lhe perguntei onde esteve...
- Puto se isso for verdade não a vi... e no quarto não entrou...
Fiquei a matutar no assunto durante um bocado, afinal a Mariana mentiu-me mas acabei por esquecer quando regressamos ao quarto e encontrei-a a trocar a fralda ao nosso afilhado, o meu amor ainda adormeceu o pequenino e quando o deitou na sua caminha ficou a observá-lo remetida ao silêncio.
- Mariana?! – aproveitei que os nossos amigos estavam numa conversa animada com a Maria para tentar falar com a Mari.
- Sim... – respondeu sem nunca olhar-me – precisas de alguma coisa?! – falou friamente o que fez com que perdesse imediatamente a pouca paciência que ainda tinha para aturar as suas birras.
- Precisar até preciso... - assim que falei o pessoal olhou mas não impediu que continuasse - preciso que acordes para a realidade!
- E se não quiser a realidade... - foi bruta - e se a realidade for demasiado cruel para que a consiga aceitar... a sério deixa-me... só quero estar sossegada!
- Ok... se é isso que queres... – respeitei o seu pedido e virei costas mas antes de afastar-me não resisti e tive que perguntar - posso pelo menos saber se regressas a Braga?!
A Mariana não disse mais nada, olhou-me só e senti um calafrio a percorrer-me o corpo, o olhar dela estava vazio de sentimentos aliado à apatia em que estava fez-me perceber que não adiantava insistir por isso mesmo ignorei-a, o que fez com que não trocássemos mais nenhuma palavra.

Mariana
Desde que entrei no quarto e que peguei no Guilherme sinto-me cada vez mais distante da realidade, é verdade que já devia ter contado ao Ruben mas sinto-me incapaz de o fazer, juro que bem tento mas sempre que começo a procurar a melhor forma para o dizer perco de imediato as forças, talvez porque no fundo culpo-me pelo que aconteceu, fui incapaz de cuidar de mim e por isso... Estava perdida em pensamentos, já depois de ter trocado algumas palavras azedas com o Ruben quando sou novamente “chamada à terra” pela Maria.
- Pri... Mari - olhei-a - anda para aqui! - fez sinal para que me aproximasse e acabei por fazê-lo, sentando-me na beira da cama bem do seu lado - daqui a uns meses és tu - ouvir aquilo foi o mesmo que espetar facas no peito, não sei como não deixei transparecer toda a dor que carrego ou talvez até sei, afinal já chorei tudo o que tinha para chorar.
Não respondi porque fui “salva” pela entrada de uma nova visita, que por sinal foi SÓ o Rui, assim que os nossos olhares se cruzaram, um misto de sensações invadiu-me, por um lado tive medo que o meu mais recente amigo abrisse a boca mas por outro serenei, vi ali uma escapatória a toda a tortura que estava a ser subtida desde que entrei no quarto.
O Rui aproximou-se da Maria e depois de a cumprimentar foi ver o Guigas para logo depois se “perder” na conversa com o João, ainda assim manteve sempre um contato visual comigo, afinal os nossos olhares cruzaram-se por diversas vezes.
Estivemos todos no quarto da Maria até recebermos ordem de “despejo” dada pela Ana, afinal tanto a mãe como o filho precisavam de descanso.
- Voltas cá?! – a Maria perguntou
- Não sei…
- Oh Mariana… eu quero-te aqui comigo! Eu não vou conseguir se não tiveres comigo – a Maria enervou-se e só por isso fui obrigada a ceder
- Ok… amanhã volto cá!
- Isso quer dizer que não regressas comigo para Braga?! – o Ruben foi bruto na forma como falou ainda assim respondi com a calma possível dado o meu estado.
- Vou ficar com a Maria!
- Também preciso de ti – o Ruben resmungou e só serviu para revoltar-me
- Engraçado quando preciso de ti nunca estás – atirei de imediato – e se podes deixar-me sozinha para acompanhares a Maria eu também posso fazer o mesmo! - o Ruben não teve coragem para contra-argumentar o óbvio e por isso calou-se – Maria vou mas regresso amanhã faz-me só um favor – olhou-me curiosa – quando não tiveres visitas liga-me que venho cá fazer-te companhia…
- Sabes que não podes fugir eternamente, não sabes?! – a Maria percebeu o que quis dizer com “visitas”
- Não quero falar disso e agora tenho que ir - não lhe dei hipótese de falar e saí do quarto, acompanhada pelo Ruben, Rui e Fábio porque o João teve autorização para ficar com a Maria e a Ana ficou na condição de médica.
O Ruben não falou mais, aliás não hesitou no momento de acelerar o passo e por isso pedi ao Rui se por acaso não se importava de dar-me boleia, afinal as nossas casas ficam para na mesma direcção, algo que não recusou, como tal quando chegamos ao parque de estacionamento segui atrás do Rui, foi quando já estava a abrir a porta do lado do pendura que ouvi a voz do Ruben
- Posso saber o que se passa??? - não gostei do seu tom de voz e ainda menos do olhar dele para o Rui
- O Rui vai levar-me a casa - esclareci-o calmamente - e depois não sei...
- Mariana!! - falou todo ofendidinho
- Mariana o raio... lembraste-te agora que precisas de mim, é?
Não lhe dei tempo para responder porque entrei no carro e fechei a porta e assim que o Rui entrou.
- Aquilo era escusado... - olhei-o de lado - o Ruben não merece...
- Ah e eu mereço?
- Mariana! O Ruben nem sequer sonha que a realidade que julga existir afinal não passa de uma miragem...
- Já podia saber se não metesse a Maria...
- É que podes parar por aí!! Mariana que queiras destruir-te é contigo mas não vou deixar que arrastes mais pessoas contigo - não o estava a reconhecer, o Rui que conhecia nunca seria capaz de dizer tal coisa talvez por isso tentei sair do carro mas o rapaz agarrou-me no braço - não sou o Ruben que só para não te enervar porque provavelmente está só a pensar nos filhos prefere acatar o teu egoísmo a ter que te enfrentar... a mim não intimidas até porque sei mais do que o Ruben... e por isso mesmo digo-te ou contas tu ou conto eu - senti a cólera a domar-me por completo, a raiva que senti ao ser ameaça foi de tal forma que ainda levantei a mão mas o Rui agarrou-a - nem penses! Mariana reage, chora, excomunga-me, faz o que quiseres mas por favor não continues por este caminho, não sei nem consigo imaginar o que sentes, afinal em semanas perdeste tudo mas ainda te resta o Ruben, o rapaz ama-te...
- Nota-se o amor dele... olha só a pressa dele em regressar a Barga...
- Compreendo-o perfeitamente, afinal aqui tem uma doida que quer a todo o custo acabar com a sua vida e arrastá-lo a ele também... e já em Braga tem o trabalho, ao qual não pode faltar…
Não respondi e o Rui não insistiu, a viagem até ao meu apartamento foi feita no silêncio, que só foi quebrado quando o convidei a subir, não queria ficar sozinha. Não sei as razões pelas quais aceitou, só sei que o Rui subiu comigo.
- Fica à vontade – falei ao entrarmos na sala – vou só trocar de roupa…

Ruben
A Mariana está completamente distante, quando a toco ou a beijo não sinto nada, não reage e o fato de afirmar que fica em Lisboa para apoiar a Maria só revoltou-me mais, afinal há umas horas nem a podia ver e agora só para não acompanhar-me no regresso a Braga garantiu à prima que regressava para a visitar, algo que revoltou-me e antes que lhe dissesse algo negativo acelerei o passo assim que saí do quarto, precisava de uns minutos para respirar mas nunca pensei que fosse presenciar o que presenciei, a Mariana não teve qualquer problema em pedir boleia ao Rui e ainda a resmungar quando lhe pedi esclarecimentos.
Fiquei a vê-los os dois a trocarem algumas palavras dentro do carro dele, o que revoltou ainda mais, afinal não são amigos, logo não entendo o que tanto conversavam. Acabei por seguir viagem ou melhor a ideia inicial foi essa mas a dúvida que se formou cresceu de tal ordem de tamanho que inverti a marcha e só parei quando cheguei junto do prédio do apartamento da Mariana e da Maria, não foi difícil encontrar o carro do Rui e a certeza que estariam juntos fez com que subisse até ao apartamento, entrei sem anunciar a minha presença e encontrei o Rui, sentado a ver TV, aquilo revoltou-me e acho que só não parti para a violência porque o rapaz falou.
- Ainda bem que chegaste… Ruben a Mariana não está bem...
- Não preciso que venhas dizê-lo - respondi de forma rude e talvez por isso fui interrompido
- O problema da Mariana deixou de ser com os pais - fez-se silêncio como é que o Rui sabia... lógico que a Mariana contou-lhe
- CALA-TE!! - o berro da Mariana fez-me saltar e olhar para a porta, encontrei-a como tem sido normal “vazia”, o seu olhar não transmitia nada, já nem dor - Cala-te! Não te dou autorização para dizeres nada! - a Mariana começou a chorar.
- Chega Mariana! O Ruben tem o direito de saber... precisas dele, aliás precisas da tua família, daquela que sempre esteve do teu lado mas que por estupidez tua resolveste afastá-los e olha só no que deu?! - o Rui estava a ser bruto na forma como falava e ver a Mariana a chorar cada vez mais fez-me vacilar e dar alguns passos na sua direção - Ruben não faças isso - olhei-o - não lhe ampares a queda, deixa-a cair, bater no fundo porque só assim é que se irá levantar...
- Mas o que sabes tu?! Não a conheces... nem amigos são... - ripostei e quando esperava que respondesse algo foi a Mariana que o fez
- Mas foi o único que esteve comigo quando TU estavas com a Maria! Quando me deixaste novamente para correres para a Maria porque precisava, quando tu assistias ao parto de um filho que não é TEU foi o Rui que... - a Mariana não conseguiu continuar a falar, perdeu completamente as forças e deixou-se cair levando as mãos à barriga, aquilo assustou-me, tanto que aproximei-me e tentei levantá-la mas fui afastado - larga-me, deixa-me - falava quase a sufocar no seu choro - não quiseste saber de mim, deixaste-me sozinha para veres o filho de outro nascer...
- Chega! Mariana pára de ser mimada, caramba é a Maria, a tua prima, tua amiga, como uma irmã para ti, pára com os ciúmes, pára de ser infantil! Pensa um pouco nos outros e reage mais que não seja pelos nossos bebés... - fui interrompido e ouvi o que nunca pensei ouvir
- Já não há bebés... - fiquei sem reação mas isso não fez a Mariana abrandar - enquanto estavas do lado da Maria, senti-me mal... fui parar ao hospital, passei a noite internada, sozinha... acordei e percebi que nunca terei o que a Maria teve, nunca terei alguém que largue tudo só para estar do meu lado, mas pior nunca vou saber o que é ser mãe, o que é ver a barriga nascer e imaginar como será o rosto do meu filho, nunca vou sentir as dores do parto e as alegrias de ver um filho meu a crescer – não consegui reagir, o que a Mariana falava era surreal - Sei que errei muito, sei que se estou sozinha a culpa é minha, sei que não consigo reagir às tuas tentativas de aproximação mas também sei a dor que sinto de todas as vezes que olho para ti, sei que sempre que fecho os olhos recordo os momentos de pavor, o quanto me culpo por ter perdido os bebés, sim a culpa é minha, sou uma incapaz que nem para cuidar de mim sirvo... matei os minimeus porque sou uma inútil…
A Mariana continuava sentada no chão e completamente alterada, chorava imenso agarrada à sua barriga, mal olhava para nós e saber que também tenho a minha cota parte de culpa em tudo não ajudou em nada, a verdade é que a Mariana tem razão, coloquei a Maria em primeiro, sabia que a Mari não estava bem e mesmo assim mandei-a para casa de táxi só para estar do lado da Maria, só para ver um filho que não é meu nascer enquanto e sem imaginar perdia os meus, a Mariana precisou de mim e não estive presente, tem todos os motivos para não me querer perto de si, para não reagir ao meu toque, para estar vazia de sentimentos, afinal abandonei-a novamente, já o tinha feito no passado quando a coloquei em segundo plano para apoiar a Maria...
- Desculpa... - aproximei-me da Mari - desculpa por não estar do teu lado quando... - calei-me por não conseguir admitir que perdemos os nossos bebés e não estava do seu lado - Mariana... amor... – sentei-me no chão ao seu lado e assim que o fiz a Mari quebrou completamente, abraçou-me com uma força tremenda e chorou ainda com mais intensidade.
- Foi horrível... estar com dores e não saber o que se estava a passar com os bebés... - puxei-a ainda mais para mim e já chorava também, a Mariana aninhou-se por completo no meu colo que nem criança quando está com medo de algo.
Não consegui dizer nada, descobrir que perdi duas das três pessoas mais importantes arruinou com toda a minha capacidade de raciocínio, só consegui recriminar-me, afinal se não tivesse sido bruto, se não tivesse avisado a Maria nada disto tinha acontecido, o Bruno não teria nascido e eu não teria perdido os minimeus.
- Amor... vamos sair do chão - falei após algum tempo mas a Mariana não reagiu, tentei mexer-me mas o seu corpo em cima das minhas pernas não facilitou a tarefa e acabou por ser o Rui a aproximar-se e a ajudá-la a levantar-se, acho que nem para isso a Mari tinha forças.
Levantei-me imediatamente e voltei a tomar a Mari nos meus braços, coloquei o meu braço em volta do seu corpo e levei-a para o quarto, o meu amor deitou-se sem dizer mais nada, estava novamente absorta em pensamentos, ainda fiquei um tempo com ela mas assim que adormeceu fui até à sala.
- Rui... - o rapaz olhou-me e antes que conseguisse dizer o que quer que fosse ouvi-o
- Desculpa não ter avisado mas encontrei a Mariana num banco com dores, pediu-me para a levar ao hospital e foi o que fiz, não fazia a mínima ideia do que se passava mas que era evidente que precisava de ajuda, era. A Mariana acabou por implorar que não te dissesse, não percebi ao início mas prometi que não diria, quando mais tarde descobri as razões dela fiz de tudo para que te contasse... Ruben mal conheço a Mariana mas a rapariga está um caco, não a culpes por não ter contado no fundo acho que só quis evitar aquilo que deves estar a sentir agora... a Mariana ama-te acho que mais do que a ela própria, pode não o ter demonstrado nestes dias mas o que aconteceu traumatizou-a, a noção que perdeu os gémeos arrasou-a completamente.
- Não tinha o direito de ter ocultado... – a raiva por não estar presente mas principalmente por a Mariana não ter contado imediatamente e ter-me deixado na ignorância revoltou-me
- Tens razão mas pensa um pouco nos motivos que a levaram a não contar...
- Foi egoísta...
- Não... não foi! A Mariana ama-te tanto que não conseguiu partilhar a dor que sente contigo só para que não te sentisses culpado - olhei-o - a Mariana pode ter-se afastado, pode não conseguir retribuir com gestos e palavras o amor que sente por ti mas é esse amor que a fez contar-te, que fez com que quando te aproximaste não te tenha afastado, muito pelo contrário a Mariana permitiu que a reconfortasses, permitiu-se a ela própria quebrar e simplesmente deixar-se ficar no conforto do teu colo e braços...
- Não sabes do que falas… não sabes o que é perder os teus filhos por tua culpa…
- Ruben pára! Ninguém teve culpa, pelo pouco que a Mariana conseguiu falar a gravidez desde o início foi considerada de risco…
- Ainda mais ajudas… não devia ter provocado o encontro da Mari com a Maria, não devia tê-la abandonado, não devia ter incentivado a Mari a falar com o Manuel, foi tudo culpa minha, fui eu que a convenci em ir à casa dos pais, tive culpa em tudo – deixei o meu corpo escorregar pela parede até encontrar o chão, onde acabei sentado com as pernas encolhidas e a cabeça escondida entre os meus braços – a culpa de tudo é minha… a Mari estava bem até os nossos caminhos se terem reencontrado… fui fraco… não devia nunca ter permitido que nos aproximássemos, que nos envolvêssemos novamente…
- Ruben… oh Ruben – o Rui bem que insistia mas não tinha coragem nem força para o olhar – não sei nada da vossa história mas sei que se amam, porque senão houvesse amor não estariam a sofrer desta forma, vocês precisam um do outro, a Mariana está desfeita, tu não estás melhor mas dos dois terás que ser tu a segurares a corda que se quebrou e voltar a uni-la, só assim será possível ultrapassarem mais esta prova. Não imagino o que estás a sofrer, essa culpa que te consome é enorme mas não te podes deixar vencer…
- Não sabes NADA! – gritei, revoltei-me contra alguém que só queria ajudar e acabei por sair do apartamento, precisava de apanhar ar e foi isso que fui fazer, tinha uma decisão a tomar…

Que decisão será essa?

terça-feira, 23 de julho de 2013

084 - "Eu tenho medo de não conseguir tomar conta do Guilherme..."

(Maria)
Depois de todos saírem senti-me ser vencida pelo cansaço, posso dizer que apaguei mesmo.
Quando voltei a acordar estava já num quarto e assim que abri os olhos
- Filhota como estás? - ouvi a minha mãe, mas sinceramente não sabia o que responder esta tarde tinha sido toda surreal e ainda a juntar à “festa” sentia que a minha barriga tinha sido esmagada por um camião TIR. Olhei em volta - Está aqui! O menino está aqui! É lindo filha, Parabéns!
- Ah... - olhei o pequeno berço e vi-o já lavadinho e vestidinho ainda o quis ir pegar mas assim que me tentei mexer
- Nem penses Maria! - desta quem falou foi a Teresa - a Ana pediu que evitasses grandes movimentos por causa dos pontos!
- Mas eu queria-o aqui mais perto
- Ui que ela acordou logo a querer mimo! - a Ana entrou neste momento - Queres perto? Então prepara-te que vamos alimentar o pequenote
- Vamos?
- Vais Tu! - riram-se as três
- Como se não me posso mexer?!
- Calma... - uma enfermeira que entrou com a Ana mexeu na cama e em mim de forma a que ficasse numa posição confortável - Estás confortável?
- Acho que sim... mas a barriga...
- Doi-te, mas prometo que vais ter uma cicatriz linda, sim que sempre fui boa em trabalhos manuais - a Ana gozava-me - fiz-te ai um quadro em ponto cruz que nem te conto! - A curiosidade foi maior que tudo e enquanto ela pegava o Guilherme eu levantei o lençol e descolei um bocado do penso - Maria!!!!
- Ana isto é... horroroso!
- Oh Maria ainda está inchado e é normal que com pouco mais de duas horas não está com o aspecto que ficará no final além disso não podes tirar o penso assim! Só eu ou uma das enfermeiras volta a mexer aqui estás a perceber?! - a Ana passou o bebé para os braços da enfermeira e falava-me agora num tom nada simpático - Maria se fazes isso aumentas o risco de uma infecção na incisão! E todas as complicações que tal te trará! E tu não precisas disso! Correu tudo bem apesar de inesperado, tu e o Guilherme estão opitimos e o João vem a caminho por isso agora se não te importas páras de inventar asneiras, porque te juro que fiz um excelente trabalho e quando sarar definitivamente, vais ver porque isso vês sempre mas será algo que se notará pouco!
- Ei calma só tinha curiosidade e tens de concordar que ver isto na tua barriga não é propriamente agradável!
- Concordo e por isso sei que não é boa ideia estares a espreitar! E agora vamos alimentar este lindão da tia que tá visto que nasceu com o apetite do pai - falou assim que o Guilherme choramingou, pegou e passou-me para os meus braços e afastou-se
- Onde é que vais?
- A lado nenhum! Estou aqui!
- Mas isso é muito longe e se eu perco a força e ele cai? Ana eu não estou com muita força! - ouvi novamente todas a rirem
- Qual das avós babadas vai ajudar a mamã em panico?
- Oh Ana tu não me gozes!
- Calma filha a mummy tá aqui! - a minha mãe sentou-se junto a mim
- Maria é normal sentires tudo o que estás a sentir e não és a primeira recém-mamã que vejo a passar-se por isso sei que me posso afastar até aqui e confesso que ver a Srª Drª Maria Mendes em panico dá-me um certo gozo porque nunca te vi assim!
- Maria relaxa querida - desta foi a Teresa a chegar perto de mim - Vês como está tudo bem... e olha que só me lembro de ver alguém a mamar assim com tanto gosto quando metia o pai dele ao peito! - falou a rir e foi impossível eu não gargalhar
- Ai bebé... - falei fazendo uma pequena festa na carequinha - vamos lá a ter calma que isso doi... -falei já que o pequenino sugava o meu peito com alguma velocidade, mas acabei por sorrir, quando ele perdeu o mamilo e, mesmo sabendo que não me via parece que me olhou - vá pequenino come...
- Oh tanto medo e afinal até tem jeitinho - a Ana e as avós continuavam a gozar-me e ficaram assim durante todo o tempo que o Guilherme levou na sua primeira refeição que não acabou antes de
- Oh Ana em vez de gozares se pegasses no meu telemóvel e tirasses uma foto aqui ao esfomeado!
- Que vicio!
- Não é vicio é só para mostrar ao pai que ele já comeu!!
- Ah se é por isso!
A Ana tirou a foto e depois acabou por me ajudar colocando o Guilherme para arrotar enquanto eu convenci as avós corujas a deixarem-me sozinha com o pequenino e a Ana, elas refilaram, mas lá aceitaram.
- Ana... - ela olhou-me assim que colocou o menino no berço
- Diz?
- A Mariana?
- Oh Maria não penses nela agora, o teu filhote nasceu é lindo e precisa que tu tenhas as energias todas para gastar com ele e não que as gastes com outros assuntos
- Mas... oh Ana é a Mari!
- Pois é! Mas ela está a precisar deste tempo Maria! E tu já fizeste mais doque o que devias! E o que é que ganhaste com isso?! Uma valente humilhação, sim que eu sei que ouvir o que ela te disse, como disse e onde disse te deixou humilhada já para não falar na desilusão monstruosa e no facto de o Guilherme estar já cá fora. Maria ambas gostamos muito da Mariana e como vossa amiga também não gosto de ver tudo pelo que estão a passar, mas..., olha mas aqui esta bata branca que visto obriga-me a agir como tua médica única e exclusivamente e é nessa qualidade que te proíbo, PROÍBO estás a perceber? De falares com a tua prima pelo teu bem e pelo bem dela!
Maria por favor, não fiques assim...
- Ana a culpa do Guilherme ter nascido antes do tempo é minha! Por acaso estavas presente e salvas-te-nos e se não estivesses?! E se eu estivesse sozinha e não conseguisse chegar aqui a tempo? E se o Guilherme tivesse....
- Maria não aconteceu nada disso, por favor eu sei que tudo está a mexer com os teus nervos, é normal, mas agora relaxa. Respira fundo, limpa essa carinha e vamos lá receber os avôs e os tios-avós e a priminha que estão ansiosos lá fora, para depois descansares um bocadinho para tares lindona quando o papá chegar!
- Eles que venham! - sorri
- Ah bom assim gosto mais!
Passados uns minutos entraram o meu pai e o pai do João e ainda os meus tios e a pequena M
- Prima o teu bebé é muitoooo lindo! - falou toda animada junto ao berço
- Matilde! - a minha tia ralhou-lhe - fala baixo o menino está a dormir e a prima ainda está cansada
- Desculpa prima eu não queria acorda-lo - a Matilde sentou-se na cama junto a mim - Porque é que tu tás cansada?
- Porque a prima precisou fazer força para o Guilherme sair - sei que era uma resposta muito pouco explicita para a idade dela, mas não tinha cabeça para nada melhor
- Ah... não percebi - todos se riram
- A mãe depois explica-te sim? Agora dá beijinho à prima e vamos que a prima e o Guilherme têm de descansar - a pequenina assim o vez e a mãe também - Parabéns querida o menino é lindo!
- Obrigada tia!
- Pequenina do tio eu disse-te que não era boa ideia, não disse? - fiz só que sim com a cabeça - o miúdo é lindo, modéstia à parte tem Mendes escrito na testa! - falou a rir - Parabéns! Dá um abraço meu ao João quando ele chegar
- Obrigada por tudo tio!
Eles saíram e ainda ficaram os dois avôs que depois de babarem muito o menino e discutirem a qual dos dois o menino saía acabaram por também se despedir.
Fiquei sozinha no quarto e pude ver o pequenote a dormir. E só ai comecei a juntar as peças todas do que aconteceu neste dia e o peso na minha consciência começou a crescer uma vez que a minha casmurrice tinha provocado o nascimento do Guilherme, tinha feito o João vir de Valência à pressa, tinha feito o Ruben estar no lugar dele e como será que a Mariana tinha reagido a isso?! Sim que depois de se terem divorciado e afastado por minha culpa ...
Eu só desejava que a Mariana mesmo sem querer que eu soubesse tivesse estado na sala de espera, que a Mariana tivesse visto o afilhado e que tivesse dado força para que o Ruben me acompanhasse. Senti uma lágrima a cair-me no rosto e preferi seguir o conselho da Ana e centrar-me no meu bonequinho sim era isso que tinha ali naquele pequeno berço junto a mim um bonequinho que eu confesso que tinha algum receio de não conseguir saber cuidar, defender, educar... Fiquei a olhar para o pequeno e como a Ana previra acabei por sentir os olhos a fecharem-se ainda tentei lutar contra de forma a estar acordada quando o João chegasse, mas mesmo assim acabei por ceder.

Não sei quanto tempo passou, sei que quando voltei a abrir os olhos senti a porta abrir também de imediato olhei e vi quem esperava foi impossível não sorri, ele entrou devagarinho e aproximou-se do berço
- Olá papá! Eu não consegui esperar! - senti necessidade de me desculpar por tudo o que tinha provocado principalmente depois de ele me ter avisado que isto podia acontecer e mesmo me ter pedido para que não o fizesse - Podex pegar eu! Eu não choro!
- Eu não sei... - era notório o desconforto e atrevo-me a dizer o medo que o João sentia
- Oh João?! 
- É tão pequenino e se o deixo cair?! - a vontade que tive foi de gargalhar ou mesmo de me jogar a ele abraça-lo e enche-lo de beijos
- João Pedro! Eu não me posso mexer desta cama tou perdida de dores e já o peguei e já lhe dei de mamar por isso ganha mas é vergonha na cara! - quando falei fi-lo de forma a que percebesse que se eu sem me mexer consegui já pegá-lo e alimenta-lo ele também conseguia e consegui o meu objectivo e ver o João com o Guilherme no colo foi das cenas mais.... nem sei bonita, emocionante, apaixonante, nem sei como classificar e vê-lo babar quando o menino adormeceu ainda me deixou mais encantada.
O João sentou-se na cabeceira da minha cama e eu não hesitei em trocar a almofada pelo peito do João que adivinhou que apesar de ambos sabermos que tínhamos muito que falar preferiu deixar-me relaxar, sim, foi o que aconteceu sentir o seu cheiro, o seu toque e o bater do seu coração acabou por me relaxar por me limpar o pensamento de coisas menos felizes e por me levar no caminho de mais um sono desta vez calmo e tranquilo pelo menos de inicio.

Quando acordei, novamente sem saber se muito ou pouco tempo depois de adormecer, estava no meio de um pesadelo. Sonhava que o Guilherme não mamava no meu peito, não comia de forma nenhuma e vá-se lá saber porquê a única solução era que a Mariana o alimentasse e nesse momento, no momento em que pedia que a minha prima o fizesse ela dava gargalhadas histéricas enquanto me dizia que não. Ainda fiquei uns minutos atordoada até que percebi que acordei porque o menino chorava, consegui com alguma dificuldade chegar perto dele e quando o tive no colo e senti um grande alivio quando ele de forma natural pegou no peito e se alimentou estava a relaxar dos pensamentos e do sonho louco quando o João voltou a entrar no quarto

- Bom dia - sussurrou
- Bom dia papá! Eu tou aqui a tomar o pequeno almoço depois já falo contigo
- Come sim bebé! - falou fazendo uma festa na cabecinha do pequenote enquanto me dava um pequeno beijo nos lábios.
Passamos toda a manhã a babar o pequenote e apesar de tudo estar a correr bem os meus pensamentos continuavam a ser dominados pela ausência da Mariana

- João?
- Precisas de alguma coisa? - ele desviou o olhar do Guilherme olhando para mim expectante
- Não... - respondi prontamente para tranquiliza-lo, e depois ainda a medo, com muito medo da resposta - a minha prima disse-te alguma coisa?
- A mim não... Maria faz-me um favor esquece a Mariana ESQUECE-A! - comecei a chorar não só pela forma ríspida como falou mas pelo que me pedia - Amor não chores! - saiu de perto do bebé e voltou a sentar-se na cabeceira da minha cama, aconchegando-me no seu peito - Desculpa a rispidez, mas essa tua paranóia com a tua prima serve de quê?! De nada só trouxe chatices! - respirou fundo, percebi que estava a controlar o raspanete que me queria dar - E não, não estou a falar do nascimento que podia ter sido evitado, mas que correu bem. Estou a falar dos nervos em que andas e do facto de há mais de um mês que não sei onde está a Maria, a minha Maria desapareceu! Sentes a falta da tua prima? Eu sinto falta de TI! - ele tinha razão, e eu sabia, sabia que desde que soube o que se passava que estava completamente apática e só conseguia pensar em como poderia alterar o “cenário de guerra” em que a minha vida estava a decorrer - Maria desculpa, mas agora está na hora de parares de pensar nela! Ela disse-te com todas as letras que não quer saber de ti nem do Bruno e por isso por muito que me custe e custa porque tu sabes que adoro a tua prima ela tomou a posição dela, a Ana já me contou aquilo que ela te disse e desculpa, mas agora vamos ser os três e quem quiser ser e estar junto de nós. Maria eu acho mesmo que devemos repensar os padrinhos - fuzilei-o com o olhar - ou melhor a madrinha! Desculpa Maria, mas não acho saudável para ninguém fazermos questão de manter presente nas nossas vidas alguém que pura e simplesmente não quer fazer parte delas - o João ia continuar a falar e eu já nem tentava controlar as lágrimas quando bateram na porta e em segundos a Ana entrou
- O que é que se passa? Maria estás com dores? Sentes-te bem?
- Si... sim
- Sente-se Ana ela sente-se bem... só não gostou de ouvir a verdade!
- João sai daqui! - gritei e ele olhou-me assustado
- João é melhor saíres mesmo por favor! - a Ana lá o convenceu e ele saiu - Maria calma o que é que se passou?
- O João não quer que eu fale da minha prima - vi-a bufar e revirar os olhos - e tu tás igual vocês não percebem que eu não consigo?! Não percebem que a queria aqui?! EU PRECISO DA MINHA PRIMA! PORRA EU NÃO SEI VIVER SEM ELA!!! Eu sei que vocês não percebem, mas eu também não consigo explicar! - sentia-me imputente - Mas a minha vida foi toda cruzada com a dela e esta gravidez só chegou aqui bem porque a Mariana deu muito dela também e eu... eu sempre imaginei que agora aqui nesta situação.... que eu podia contar com a ajuda dela. Desculpem se me custa que a minha prima ainda não conheça o meu filho, desculpa se não consigo aceitar aquilo que ela me disse... - já chorava novamente
- Maria eu percebo juro amiga, mas se não afastas a Mariana dos teus pensamentos isso vai-te fazer mal... vai fazer-te mal a ti, ao João, a vocês os dois e ao Guilherme - quando falou no nome dele ele choramingou  - Maria pelo pequenote promete-me que vais evitar pensar nisso
- Prometo...
- Não fiquei convencida, mas depois voltamos a falar porque há aqui alguém com fome! 
- Anda cá bebé da mamã! - a Ana passou-o para o meu colo - Tia Ana chama o papá pró pé de mim!
- Chamo sim!
Assim que a Ana saiu o João entrou
- Desculpa! Eu não consigo deixar de pensar nela...
- Eu sei, também exagerei! - demos um beijo e ele ficou sentado aos pés da cama enquanto observava minuciosamente o nosso pequenino a mamar
- Agora pega no teu filho e fá-lo arrotar!
- Eu não sei....
- Saaaabes!!!!!!!
Ele pegou no menino e depois de fazer o que lhe ia dizendo o pequenote arrotou mesmo
- Oh viste! Sou muito BOOOOOOOM!!!
Desatei a rir
- E agora uma novidade?? Que tu és bom já eu sabia!
- Isso foi um elogio?
- Amoooor!! - ele olhou-me - I lóve i uuuuuuuuuuuuuu!!!
Foi a vez dele gargalhar
- Bruninho a mamã flipou do juízo.... os neurônios queimaram de vez! - ele fala enquanto ria muito e embalava o pequenote e nesse momento mais uma vez alguém bate na porta
- Entra Ana.... entra!!!!!!
- Lamento a desilusão, mas não é a Ana...
- Olha Bruninho o padrinhou veio ver-te! - o João chegou perto do Ruben para o cumprimentar sempre com o bebé no colo
- Olá! O padrinho bem dizia que depois do banho ficavas mais bonito - foi impossível não gargalhar
- Olha lá oh padrinho babão e o meu beijo?? - ele aproximou-se deu-me um beijo na testa e eu não resisti - Vieste sozinho?
- Vim Maria... vim... - percebi que algo se passava e que ele não me queria dizer, mas não pude insistir já que o João voltou a demonstrar todo o seu desagrado pela minha insistência
- Maria por amor de Deus CHE-GA! - ele gritou mesmo - Esquece a Mariana! Amor eu não aguento mais ver-te ai a amargurares quando devia ser o memento mais feliz das nossas vidas só porque a tua prima para não variar está a ser egoísta
- É optimo saber que somos bem consideradas pelos amigos João é muito bom mesmo! - olhei e foi impossível não chorar, mas pela primeira vez de hoje era de pura alegria agora naquele quarto tinha as pessoas mais importantes da minha vida
- Pri... Mariana! Eu queria poder levantar-me e abraçar-te, mas eu não posso! Vem aqui por favor! Eu preciso de um abraço teu!
Não precisei dizer mais nada a Mariana chegou-se perto de mim e deu-me um abraço,
- Achas que posso conhecer o meu afilhado ou o pai além de não te querer a falar comigo também não quer que o filho me conheça?
- Claro que podes conhecer aliás deves! Oh prim... -ela olhou-me - Mariana isto tá tudo a flipar dos neurónios por causa das “novidades” - enquanto falava com a Mariana vi-a o Ruben a olhar-nos com um sorriso cúmplice e o João foi-se chegando perto de nós com o menino no colo
- Bruninho esta aqui é a maluca, chanfrada, destrambelhada e completamente alucinada da tua madrinha, mas o papá assim como a mamã e o padrinho adoram-na e tu vais adorar também! - enquanto ele falava eu e a Mariana chorávamos - Desculpa amiga, mas convenhamos que não tens sido fácil...
- É eu sei... agora dá-me cá o Guigas que eu quero ver, sentir e cheirar a minha pipoquinha!!
A Mariana pegou no Guilherme e ficou também ela a baba-lo aliás esta foi a tarde dos “tios” conhecerem o meu príncipe sim que passados alguns minutos a Ana juntou-se a nós e consigo trouxe o Fábio que acabou por raptar o João e o Ruben deixando-nos apenas a nós “meninas” no quarto enquanto o Guilherme dormia. Estava feliz por finalmente ter todos à minha volta, mas algo na minha prima, sim ela não quer que a chame assim, mas eu não sei chama-la de outra forma, a minha prima não está bem o olhar está perdido e ela está distante, parece por momentos um bloco de gelo.
Os rapazes acabaram por nos deixar sozinhas,
- Mariana o que se passa pri... ? - consegui corrigir a tempo - Porque é que estás tão fria com o Ruben? É porque ele veio comigo? Oh Mariana desculpa ter pedido para ele estar comigo no bloco, mas na ausência do João não me sentia bem com mais ninguém que não fosse ele ou tu... e não sabia onde estavas... - ela não me respondeu, afastou-se e ficou por alguns momentos a olhar pela janela do quarto - Pri... Mari - olhou-me - anda para aqui! - assim que se sentou do meu lado - daqui a uns meses és tu - fiquei com a sensação que iria dizer-me algo, mas foi interrompida pela chegada de mais uma visita e ainda o regresso dos nossos homens.

Aquele fim de dia no meu quarto foi uma autentica festa, acabamos por conversar e mimar muito o meu pequenote, embora tenha notado um clima esquisito entre o Ruben e a Mariana. A festa só acabou quando a Ana resolveu voltar a vestir a bata de minha médica
- Bom meus senhores e minha senhora está na hora de desampararem a loja que tanto a mãe como o bebé precisam de descansar e de ser observados
- Eu não vou a lado nenhum  - o João fez cara de puto com birra e cruzou os braços sentando-se aos meus pés
- Também ninguém falou consigo... Mas fica avisado que não vai se eu não decidir que vai... porque se o fizer garanto-lhe que nem que tenha que chamar a policia, mas aqui não fica - a Ana falava num tom bastante formal o que nos levou todos a gargalhar e quando os vejo sair resolvi perguntar algo que me estava a deixar morta de curiosidade,
- Voltas cá?! – perguntei à Mariana
A sua resposta acabou por gerar um “estalar de verniz” entre a própria e o Ruben o que me deixou ainda com mais certezas de que algo se passava.

Assim que todos, menos o João, saíram, a Ana examinou-me para grande frustração minha que não queria que o João visse a cicatriz, se bem que como ambos me disseram ele ia acabar por vê-la. E depois da pediatra avaliar o Guilherme e nos dizer que tudo estava bem voltamos a ficar apenas os três sozinhos
- O príncipe já dorme, agora está na hora da rainha descansa também
- Fica aqui comigo - bati num espacinho na cama e ele não hesiitou deitou-se ao meu lado
- Fala..
- Não tenho nada para dizer... ou melhor tenho tanta coisa...
- Isso sei eu! Tens uma tabeleta na testa a dizer tenho a cabeça a mil e preciso deitar tudo cá para fora... sou todo ouvidos...
- É tanta, mas tanta coisa... - suspirei e fiquei a repensar tudo o que se assolava

Realmente estava com a cabeça a mil eram todas as conversas com a Mariana hoje, era o estado dela que não precisava que ela abrisse a boca para saber que estava no lodo, era a forma estranha como ela e o Ruben estavam a relacionar-se e ainda a forma cúmplice com que interagia com outra das visitas, mas o que me deixava a cabeça acelerada neste momento em que apenas estávamos os três no quarto e que apenas o escuro do céu se via pela janela era o facto de ir ficar sozinha com o Guilherme, não no hospital, mas em casa, naquela que era a nossa casa e onde apenas estaria eu e o pequenino que irá precisar de mim para tudo e eu? Bem eu agora mal me mexo se bem que a Ana já me avisou que amanhã acabou-se a moleza e tenho de começar a andar, mais do que hoje que só fui até ao duche, e se ele chorar e eu não conseguir ir até ele? Se não aguentar com ele ao colo? Se for preciso mudar-lhe a fralda? Sim hoje mudei uma, com ajuda da minha mãe e da Teresa e a outra quem mudou foi a madrinha! E se ele tiver cólicas, ou alguma dor...

- Maria... fala amor eu tento, mas ainda não consigo ler pensamentos - o João falava enquanto me fazia um “cafuné” delicioso que me acalmava um bocadinho os pensamentos
- Eu... - hesitei, não sabia o que sentia por isso não sabia como descrever - eu... - voltei a parar e respirar fundo - eu... eu tenho medo João! É isso tenho medo!
- Medo?! - perguntou-me espantado - medo de quê?!
- De tudo! De ter voltado a interferir na relação da minha prima com o Ruben, viste como eles estavam? - ele revirou os olhos - eu já sei que não posso pensar nisso, mas viste?
- Vi Maria, vi e perguntei ao Ruben o que aconteceu mas ele não entrou em detalhes, mas se te descansa acho que é só mesmo o estado de confusão total em que a tua prima deve estar...
- E o resto?
- Qual resto?
- Tu também estranhaste aquela proximidade entre...
- Sim Maria estranhei e tentei saber o que se passa, mas não obtive qualquer resposta... de certeza que é impressão nossa... Mas não é só isso que te deixa assim pois não?
- Eu tenho medo de não conseguir tomar conta do Guilherme... - confessei num suspiro quase inaudível
- Tens medo de quê?
- De não conseguir tomar conta do Guilherme! - desta vez gritei - Eu não me consigo mexer! Isto dói! Eu tenho medo de não conseguir ficar com ele sozinha em casa! De não conseguir acalmar-lhe uma cólica, ou que ele se engasgue e eu não consiga fazer nada! Tenho medo de o deixar cair! De o deixar afogar-se enquanto lhe dou banho! De adormecer e não acordar quando for hora de mamar ou com o choro dele por algum outro motivo! Eu tenho medo! Medo... - comecei a chorar
- Calma Maria! A Ana já tinha falado comigo sobre isso, é normal sentires tudo isso ainda mais porque eu vou ter de ir embora amanhã e tu vais ficar com ele, mas não vais ficar sozinha Maria! A tua mãe, a minha, as tuas tias e até parece que a Mariana também vão estar sempre por perto! E se não te sentes confiante em ficares sozinha em casa... confesso que também fico preocupado porque tu não podes fazer grandes esforços... podias aceitar o convite dos teus pais e ficar lá em casa deles até estares mais segura... vais ver que com duas noites lá já vais para nossa mais segura! Tu vais ser... já és... a melhor mãe do Mundo! - enquanto ele falava eu continuava a soluçar - calma fofa, tu vais conseguir, nós vamos! - deu-me um pequeno beijo e não dissemos mais nada ficamos os dois no silencio.
Um silencio acolhedor que só foi interrompido pelo nosso pequenino a anunciar que tinha fome, alimentei-o e depois assisti à cena mais hilariante da minha vida, o João de livre e espontânea vontade, só isto já assusta, resolveu trocar a fralda do Guilherme SOZINHO!


(João)

O dia foi cheio de emoções desde a minha tomada de posição sobre a presença da Mariana nas nossas vidas que deixou a Maria melindrada, até ao aparecimento da Mariana que acabou ao seu jeito trapalhão por matar as saudades que já matavam as duas e ainda conheceu o Bruninho que é decididamente o bebé mais bonito do mundo! Passando pela relação do Ruben e da Mariana que decididamente não está bem e pela sua proximidade com quem menos esperaria. Terminando no choro compulsivo da Maria enquanto confessava todo o medo que tinha de não conseguir tomar conta do Bruno sozinha o que me deixou um pouco assustado embora já tivesse sido avisado pela Ana de que a Maria estava tinha todos os pré-requisitos para entrar em depressão pós-parto, dadas todas as circunstâncias que a acompanharam desde o inicio.
Acabei por conseguir que acalmasse e apenas voltamos a falar quando o Bruno teve fome e nesse momento a Maria mais uma vez lhe deu de mamar e era impressionante como aquela imagem dela com o nosso pequenino me deixava completamente nas nuvens e com um sorriso ridículo nos lábios. Assim que ela se levanta para lhe trocar a fralda não deixei que continuasse
- Eu troco!
- Tu o quê? - disse a rir - Deita-te mas é que o teu mal é sono! Além disso é bom que te tapes bem que a qualquer altura pode entrar por ai a dentro uma enfermeira que não tem nada de te ver nesses preparos! - foi impossível não sorrir com o ar indignado e com ciumes dela - olha lá porque raio estás só de boxers?! A tua mãe nunca te apresentou o pijama??
- Apresentou... apresentou... -falei enquanto a abraçava por trás ao mesmo tempo que ela colocava o Bruno no trocador, ou lá como se chama aquilo onde trocam as fraldas - mas a mãe do meu filho fez-me cortar relações com ele! -disse dando-lhe um beijo no pescoço
- Parvo! - falou indignada - E ainda estás assim?? Se queres trocar a fralda é bom que te vistas e muito rapidamente!
- Sim mamã!
Acabei por aceder ao seu pedido por ter consciência que não estava em casa, assim que acabei de me vestir a Maria tinha acabado de despir o body do Bruno, num movimento rápido mas doce afastei-a do menino e tomei em mãos a tarefa de ser eu a troca-lo. Claro está que se quando a mãe e a madrinha o fizeram as fraldas estavam limpinhas, ou praticamente, comigo tal não aconteceu o que levou às gargalhadas da Maria, que só aumentaram conforme a minha óbvia falta de pratica e jeito se revelava. Mas não a deixei interferir e demorando um pouco mais de tempo e com um resultado um pouco menos perfeitinho completei com sucesso a tarefa e já não deixei que ela pegasse no menino o que a fez refilar
- Olha lá! O filho é meu!
- Sim... sim que tu és a primeira mulher da historia a conseguir engravidar sozinha! - falei a gozar
- Não... não engravidei sozinha, mas ele é meu e eu quero-o no meu colo já!
- Temos pena né Bruninho? - falava enquanto o ia embalando - Porque ele também é meu filho e eu também o quero ao meu colo!
- Oh amor dá lá o bebé a mim... -ele olhava-me com cara de criança e fazia voz de mimo enquanto esticava os braços na nossa direcção
- Nem comeces com essa carinha que não dou! - ela olhou-me a fingir-se amuada - vá lá amor... amanhã tenho de voltar e tu ficas com ele...
- Oh... -fez uma carinha agora sim realmente triste - só por isso... - acabou de falar e riu-se - Mas para me compensar - vi-a pegar no telemóvel - vamos apresentar o menino ao mundo!
- És impossível tu!
- Cala-te e volta lá o menino para mim!!
Acabei por lhe fazer a vontade e tiramos umas quantas fotografias que ela de imediato “montou” e publicou

@_MariaMMendes_ Olá! Nasci ontem às 16:58 com 46cm e 2,600kg!! O papá e a mamã ainda não pararam de me babar e estamos todos muito felizes!! #Guigas

As reacções não tardaram a chegar, mas nenhum dos dois deu grande atenção uma vez que o Bruno adormeceu e nós seguimos-lhe o exemplo.

Um par de horas depois já estávamos de novo todos acordados já que o pequenote voltou a pedir comida, enquanto ele saciava a fome eu fui-me despachar já que era hora de voltar a Valência, uma vez que já teria de comparecer no treino da tarde. Quando voltei para perto deles a Maria ia troca-lo e pedi para que me deixasse ser eu a fazê-lo, desta vez ela não reclamou nem me gozou aproveitou apenas para registar o momento e quando o deitei na cama e o telemóvel da sinal vejo uma notificação e o ultimo post da Maria


@_MariaMMendes_ Não a mamã não enlouqueceu de vez, só está a calar o papá! 
Assim como assim ele vai já embora :( e depois a mamã põe a minha fraldinha bem ;) 
We <3 you Daddy!!!!!! #Guigas

- Muito engraçada sem duvida nenhuma!! - rimos os dois - Agora tem mesmo de ser...- ela aproximou-se de nós, estava visivelmente melhor já se mantinha levantada e mexia-se muito melhor, e deu-me um beijo
- Boa viagem... nós ficamos aqui... ou melhor nós esperamos por ti em casa... - deu-me outro beijo e praticamente me expulsou do quarto - vai já antes que te prenda ao pé da cama... 
Acabei por sair mesmo e seguir caminho a Valência, sem conseguir imaginar o que seriam os próximos tempos.

Como serão os primeiros tempos de vida do Guilherme Bruno?
Como será o regresso da Maria a casa? E a relação com a Mariana?
Como estarão realmente a Mariana e o Ruben?

segunda-feira, 15 de julho de 2013

083 - "Ajuda-me... leva-me ao hospital…"

Ruben
Hoje ao contrário das outras vezes que fomos a Lisboa tive que comparecer ao treino da manhã, dado que só tive autorização para faltar ao da tarde. Quando voltei para casa encontrei a Mariana com um humor impossível de aturar, o que fez com que hesitasse na hora de dar o toque à Maria, como tinha ficado combinado, naquele momento tive sérias duvidas se seria o melhor mas acabei por fazê-lo.
A consulta correu bem, os nossos minimeus estão a desenvolverem-se normalmente, ainda assim saímos do consultório como lá entramos, sem a indefinição nos dar o prazer de sabermos se é menino ou menina, o que irritou a Mariana mais um pouco, ela chegou mesmo a dizer à Ana que se fizesse o pino talvez a indefinição se mostrasse, lógico que só serviu para a nossa amiga gargalhar.
O momento de nos despedirmos da Ana chegou e foi quando o estávamos a fazer que vi a Maria, ela observava a prima remetida ao silêncio e após um bocadinho acabou por falar denunciando assim a sua presença. A Mariana tal como já esperava tentou sair o quanto antes mas a prima não deixou, a Maria chegou mesmo a agarrar-lhe o braço para que não fosse embora sem a ouvir, algo que aconteceu, a Maria despejou tudo o que tinha entalado e que sinceramente a Mariana já estava a precisar de ouvir à muito, conheço o meu amor e sei que ouvir aquelas palavras a atingiu mais do que deixava transparecer, por isso mesmo quando saiu fui atrás de si, mesmo tendo noção que deixava para trás a Maria, no entanto ela tinha a Ana do seu lado.


Mariana
Ainda falam que a cena das mulheres terem um sexto sentido apurado não é verdade, pois cada vez convenço-me mais que esse maldito sexto sentido existe sim, afinal acordei com a sensação que o dia não iria correr bem e não me enganei em nada. Começou com a indefinição não nos deixar ver se é menino ou menina e continuou no momento que tive o desprazer de encontrar a Maria no consultório, juro que quando a vi voltei a sentir tudo o que senti durante os dias seguintes a ter descoberto que não sou ninguém e talvez por isso tentei sair o quanto antes, estar no mesmo espaço que um Mendes deixa-me agoniada e com o coração apertado. No entanto a Maria não deixou, aliás começou a debitar palavras atrás de palavras como se alguma vez pudesse saber o que é descobrir que afinal viveu na ilusão de ter família, que a sua vida não passa de um caminho trilhado ao sabor da mentira.
Tentei ao máximo bloquear os meus ouvidos, não a queria ouvir, mas chegou um momento que foi impossível, este aconteceu quando senti os braços do Ruben a envolverem o meu corpo, parece que quebrou a armadura que tinha criado, simplesmente deixei de ter forças para ignorar todo o que a Maria falava.
A cada palavra que dizia a vontade de abraça-la aumentava, estava numa luta interior enorme, por um lado sei que tem razão, nós sempre fomos muito mais que primas, sempre nos demos como irmãs, aliás há irmãs de sangue que não se dão tão bem como nós mas ao mesmo tempo quando a olho vejo a mentira, a vida que vivi e que não me pertence, por isso acabei mesmo por ser desumana quando lhe disse que era só mais um detalhe que compunha a mentira em que vivi.
Não aguentei ficar ali a assistir, saí porta fora e só quando já estava junto do carro é que parei.
- Mariana! - o Ruben abraçou-me assim que conseguiu alcançar-me - amor... - não continuou porque o interrompi
- Porquê? Porquê que me mentiram, que me roubaram tudo - rompi num choro tremendo, ainda assim não foi suficiente para o Ruben se conter nas palavras.
- Deixa de ser infantil – olhei-o – sim Mariana estás a ser uma mimada de primeira, é verdade que durante as últimas semanas nada falei mas também é verdade que já começo a ficar farto desta situação, só estás assim porque queres, caso ainda não tenhas entendido tens a tua família toda feita em farrapos só porque meteste na cabeça que não pertences ao clã dos Mendes, quando na verdade fazes parte dele, pode não ser o sangue dos Mendes que te corre nas veias mas tudo o resto é! Mariana foi o Manuel que te amou desde o primeiro segundo, foi ele que te criou e que sofreu durante anos por estar a mentir-te ou achas que para o TEU PAI e para a TUA MÃE foi fácil esconder a verdade de ti, só para não sofreres?!
Deixa de ser fútil e acorda para a vida, se não o fizeres por ti, faz por mim mas principalmente pelos nossos filhos! Ah e já agora pela Maria que caso não tenhas reparado ficou desfeita porque ignoraste-a, simplesmente esqueceste os anos e tudo o que partilharam, foi? Esqueceste que foi a Maria que esteve do teu lado quando descobriste que podias ter sida, que te apoiou quando nos afastamos e que sofreste com isso mesmo sem admitires…
- CHEGA! – gritei e quando ia pedir para irmos embora ouvi aquilo que não esperava
- Tens razão… chega mesmo! Vou mas é ver da Maria que ficar aqui a falar para ti ou para uma burra é igual ao litro!
Fiquei estarrecida com as últimas palavras dele, ainda mais quando vi o Ruben a virar costas e entrar novamente na clinica para ver a Maria… ou será que devo dizer a queridinha dele, sim queridinha, afinal o Ruben desde que a Maria engravidou sempre a colocou em primeiro…
Estava ainda a tentar digerir o que se tinha passado quando vejo o Ruben a trazer a Maria no colo, confesso que aquilo assustou-me, ainda assim não consegui aproximar-me, fiquei a observar e quando o Ruben se aproximou.
- Finalmente! Quero ir para casa!
- Força! – atirou de imediato – Apanha um táxi e vai porque vou até ao hospital… caso não tenhas reparado a tua prima passou mal…
- E o mosqueteiro tem que a ir socorrer – falei com desdém – vai e não voltes! – atirei ao virar-lhe as costas, o Ruben já não respondeu e por isso mesmo continuei a pé até à praça de táxis que existe próximo da clinica.

Ruben
Arrependi-me amargamente por ter concordado com a ideia da Maria aparecer no consultório, senti-me culpado por tudo e acabei por descontar em cima da Mariana, a verdade é que não aguentei mais e disse-lhe tudo o que pensava a respeito da sua atitude nestas últimas semanas, ainda assim não foi suficiente para a Mariana acordar para a realidade e acabei por deixá-la sozinha, estava preocupado com a Maria e fui vê-la.
Quando entrei novamente na clinica percebi que algo se passava, a Ana estava preocupada com os sintomas que a Maria apresentava e por isso pediu que a ajudasse a levar a nossa amiga para o carro, de forma a chegar o quanto antes ao hospital, ainda tentei ir de imediato com elas mas a Maria enxotou-me porque segundo ela tinha a minha mulher à minha espera, a Ana também alertou-me para o fato de ser melhor ficar com a Mariana, uma vez que não poderia dar apoio às duas.
Acabei por ficar para trás mas foi só por alguns minutos, afinal a Mariana demonstrou que estava bem demais, já que continuava só a olhar para o seu umbigo e por isso mesmo quando disse que pretendia ir para casa, disse-lhe para ir de táxi, sei que não gostou mas também sei que lhe há-de passar assim que perceber que quem está errada é ela.
Cheguei ao hospital e uns minutos depois entraram na sala de espera os pais do João, para de seguida chegar o Jorge e os pais da Maria, disse-lhes o pouco que sabia e foi nesse momento que uma enfermeira chegou e ao avisar que a Maria queria-me com ela não hesitei um segundo que fosse.
Entrei na sala já a filmar, como tinha prometido ao João, algo que a Maria não gostou mas também não refilou em demasiado, até porque as dores que já sentia não lhe permitia tal coisa, tentei manter uma conversa animada com ela para a tentar distrair mas no momento que a Ana nos informou que tinha de ser cesariana senti a minha amiga a ficar ainda mais nervosa, mantive-me sempre do seu lado e confesso que dei comigo a pensar que quando chegar a hora da Mari não sei se conseguirei aguentar sem dar-me os “cinco minutos”, toda aquela demora arruinou com os meus nervos e ter que disfarça-los não ajudou em nada.
Finalmente o momento em que ouvi o choro do meu afilhado pela primeira vez chegou, o que senti naquele instante foi indescritível, ver a alegria da Maria foi algo único mas vê-lo sujo de sangue tornou o momento quase nojento, não sei como é que consegui aguentar-me de pé ao seu lado, algo que a Ana percebeu quando falei que ia sair e que voltava quando o Guigas tivesse limpo, elas gargalharam mas sinceramente nem me importei, afinal tinha testemunhado um momento único.
Ainda fiquei um bocadinho com a Maria mas saí para ligar ao pai e enviar-lhe a primeira foto do Guilherme. Cheguei à sala de espera e assim que a família Mendes deu pela minha presença aproximou-se em bloco, rodearam-me para saber notícias, disse-lhes tudo o que se tinha passado incluindo que o Guilherme é um bebé lindo.
- Ruben não tens nenhuma foto? - a mãe da Maria perguntou o que fez com que sorrisse
- Tenho...
- Mostra!!! - falaram todos em conjunto
- Tomem... - dei o meu telemóvel à mãe da Maria e fiquei simplesmente a observar a “cena” pareciam loucos de volta de um telemóvel – sei que fui o privilegiado e vi o Guilherme antes de vocês todos mas sabem que dentro de minutos o podem ver também! – falei numa de implicar mas simplesmente ignoraram-me.
***
O momento da primeira visita ao Guilherme chegou e por isso acabei por despedir-me deles, já tinha estado com o meu afilhado e agora queria o quanto antes estar com a Mariana. Saí do hospital direto ao meu apartamento mas não encontrei a Mariana, tentei ligar-lhe mas para variar não atendeu, voltei a insistir e nada, as horas passaram e comecei a ficar verdadeiramente preocupado, por isso mesmo e antes de alarmar a restante família, fui procura-la ao seu apartamento, afinal com a Maria no hospital ninguém a iria incomodar lá em casa.
Conduzi até Lisboa sempre com a certeza que a iria encontrar mas assim que entrei usando a cópia das chaves que tenho em meu poder percebi que também não se encontrava naquele espaço, algo que deixou-me imediatamente inquieto, afinal onde estaria a louca da Mariana!
Ainda esperei algum tempo com a esperança que a Mariana aparecesse mas como isso não aconteceu, não tive outra hipótese do que ligar para alguns dos seus amigos mais próximos, a resposta que obtive foi unanime, ninguém a tinha visto nem falado com a Mariana. Esta ausência de notícias deixou-me verdadeiramente alarmado, afinal desapareceu sem deixar rasto.

Mariana
Quando entrei no táxi, a ideia inicial foi chegar ao meu apartamento o quanto antes mas durante os minutos que durou a viagem mudei de destino, deixei de ter vontade para enfiar-me em casa a deprimir sozinha, porque mais uma vez fui abandonada pelo Ruben, ainda por cima em prol de alguém que não nos é nada e que num passado recente quase destruiu o nosso amor…
Foi a pensar nisso tudo e em como estou sozinha que resolvi caminhar um pouco à beira Tejo, agora acima de tudo tenho de pensar nos meus bebés, neste momento, são a única razão do meu viver.
Não sei o tempo que durou a caminhada, só sei que serviu para distrair-me mas assim que parei para descansar um pouco, voltou tudo, a revolta por não saber quem sou, por terem mentido durante anos, por o Ruben na primeira oportunidade que tem deixar-me sozinha, por nem sequer pensar um segundo que fosse em como preciso dele, por colocar o filho de outro à frente dos dele, por sentir-me cada vez mais impotente perante tudo o que se está a passar, resumindo sinto que não sou ninguém ou melhor sou sim algo que podem usar e deitar fora, afinal foi isso que fizeram a vida toda, começando pela pessoa que me carregou durante nove meses na sua barriga que usou-me para prender um homem que apesar de não ser o seu namorado teve peninha da menina e assumiu um fardo que não era dele, usada por esse mesmo individuo para colmatar a ausência de uma filha biológica, fui durante anos usada para compor o quadro de uma família que não é de todo a minha, usaram-me para mostrarem ao mundo única e exclusivamente uma mentira.
Como se ainda não bastasse, voltei a ser usada pelo pai dos meus filhos, primeiro para desemburrar e anos depois para passar bons momentos, recentemente sinto que nem para passar bons momentos sirvo, aliás sinceramente devo ser mais um fardo que outra coisa, tanto que sempre que pode livra-se desse fardo, como fez hoje.
Estou farta… farta de não ter vida própria, de pensar nos outros e depois em mim, talvez tenha sido mesmo esse o meu maior erro, ter deixado morrer a Mari que só se queria divertir, viver a vidinha dela pouco se importando com os outros, afinal foi quando deixei o sentimento que me une ou unia ao Ruben dominar-me que perdi as rédeas à minha vida, hoje sinto-me completamente à deriva, sem rumo, sem sítio para onde correr que nem menina assustada, hoje simplesmente sou alguém que acorda com um único propósito, que as horas passem o mais rápido possível para que volte a adormecer, pelo menos enquanto durmo não sinto-me perdida e com vontade em desaparecer sem deixar rasto.
Tenho noção que tudo isto anda a fragilizar-me, sinto-me cada vez mais exausta, as forças há muito que andam a falhar, sinto que a qualquer momento posso perde-las e cair para nunca mais elevar-me, tenho medo que quando esse dia chegar nem pelos meus bebés consiga continuar a lutar.
Sei que caminho em passo apressado para o abismo, ainda assim não consigo ter forças e muito menos iniciativa para mudar a rota, aliás nestes últimos dias, já dei comigo por diversas vezes a desejar chegar rapidamente ao abismo para poder saltar e sentir-me novamente liberta de tudo e de todos…

Rui
Saí do treino, em Alcochete, cansado ainda assim quando estacionei o carro na garagem, em vez de subir direto para o meu apartamento, resolvi dar uma volta pelo jardim junto ao Tejo.
Estava perdido em pensamentos quando ao passar perto de um dos bancos do jardim percebi que a pessoa que se encontrava sentada estava a precisar de ajuda, olhei quando a sua voz pediu socorro, reconheci de imediato a sobrinha do Jorge, a Mariana chorava desesperada e agarrada à barriga.
- Hey… tem calma… – sentei-me ao seu lado
- Ajuda-me... leva-me ao hospital…
Não percebi o motivo de tal pedido mas nem questionei, a rapariga estava tão desesperada que a ajudei, levei-a até ao hospital da CUF Descobertas por ser o mais próximo e só quando lá chegamos é que entendi o motivo do desespero da rapariga, afinal encontra-se grávida e com dores na zona abdominal.
A Mariana foi atendida de imediato mas antes de entrar pediu-me encarecidamente que não avisasse ninguém, que depois explicava, ainda hesitei mas acabei por fazer o que pediu.
Esperei algum tempo na sala de espera e quase após uma hora tive finalmente notícias suas, uma enfermeira feio chamar-me, informou do estado da Mariana e ainda que queria ver-me, segui a senhora e assim que entrei no quarto encontrei a Mariana já mais calma, ainda assim os seus olhos continuavam vermelhos de tanto chorar.
- Rui… antes de ires embora só te quero pedir novamente para esqueceres o que viste! – olhei-a estupefacto – não comentes com ninguém e muito menos com o Ruben ou o Jorge Mendes – a forma como falou o nome do tio foi estranha, quase que arrisco que o disse com uma pontinha de raiva à mistura
- Mariana… não sei o que se passou mas não estás bem…
- Só preciso que esqueças tudo… vou ficar bem – suspirou pesadamente – só preciso ficar sozinha…
- Sei que não somos propriamente amigos do “peito” mas também não somos desconhecidos, já percebi que não estás bem e como é lógico não te vou deixar sozinha…
- Mas eu quero! DEIXA-ME!
- Hey… não precisas gritar! Desculpa se estou preocupado contigo… é que caso não tenhas percebido se não te tivesse ajudado ainda podias estar naquele banco de jardim a contorceres-te com dores!
Não fui propriamente simpático, muito pelo contrário, mas também não estou a atravessar um bom momento, a Mariana virou-me a cara, pedindo que saísse mas não lhe obedeci, fiquei no quarto mas junto da janela a olhar para o exterior, não sei porquê mas não consegui sair daquele quarto e deixá-la sozinha, no fundo tinha a sensação que precisava de companhia, ainda que fosse só para marcar uma presença física.
Passei algum tempo imóvel e foi quando resolvi sentar-me um pouco que o fiz aos pés da Mariana, ela tinha adormecido e fiquei a contemplá-la, nunca tinha percebido o quanto é bonita, a verdade é que apesar de conviver com o Ruben nunca privei muito com a Mariana, até porque das poucas vezes que tivemos no mesmo espaço deu para entender a ligação especial que tem com o Ruben.
Fiquei naquele quarto até ser avisado por uma enfermeira que teria que sair, nem questionei, afinal não sou da família no entanto pedi um papel e uma caneta para deixar uma mensagem à Mariana.
Oi, quando leres o bilhete já não vou estar aqui… mas só não fiquei porque não é permitido, amanhã regresso para falarmos, não sei porquê mas sinto que o tenho de fazer, passarei por cá logo de manhã porque só tenho treino de tarde! Ah e fica tranquila que não avisei ninguém… apesar de não concordar não te vou contrariar, terás as tuas razões…
Beijinhos Rui

Mariana
Estava no jardim, ainda sentada no banco a observar o rio, quando comecei a sentir algum incómodo na zona abdominal, levei as mãos à barriga e tinha-a rígida, fiquei assustada o que só contribuiu para agravar ainda mais o meu desespero, não sei porquê mas não consegui reagir, ou melhor a única coisa que fiz foi pedir ajuda a um individuo que passou naquele momento por mim, só quando se aproximou é que percebi tratar-se do Rui Patrício, arrependi-me por ter medo que fosse contar ao Ruben mas naquele momento precisava de ajuda, pedi-lhe que me levasse ao hospital, algo que fez mesmo sem entender o meu pedido.
Chegamos à CUF e assim que expliquei os sintomas fui atendida de imediato, mas antes de entrar pedi encarecidamente ao Rui para não avisar ninguém, ele ainda tentou negar mas acabou por garantir que não o fazia, não fiquei certa que o fosse cumprir mas a prioridade eram os meus meninos.
Entrei numa sala de observações, estar ali sozinha só me fez sentir pior, a culpa era toda de uma só pessoa, ainda assim tentei afastar aqueles pensamentos e concentrar-me no pessoal médico que tinha à minha volta, numa tentativa de perceber o que se estava a passar.
Os minutos passaram no entanto pareceram horas e quando finalmente fiquei a saber que teria que ficar internada para meu bem, só consegui pensar que não queria que ninguém soubesse o que se estava a passar, fui para o quarto e pedi que chamassem o Rui, isto era se ainda estivesse na sala de espera.
A porta do quarto abriu e assim que vi o Rui pedi-lhe que não contasse, ainda tentou chamar-me à realidade, mas não lhe permiti isso, afinal a realidade é algo que quero esquecer…
O Rui não respeitou o meu pedido, para se ir embora, e manteve-se no quarto, ignorei até porque estava demasiado cansada para dizer o que quer que fosse, senti os olhos a ficarem pesados e não resisti muito mais, deixei-me vencer pelo efeito da medicação…
Acordei sozinha e mais uma vez foi impossível não chorar, sentia-me cada vez mais isolada de tudo e de todos, estava a pensar muito seriamente no rumo a dar à minha vida quando ao olhar para o lado vi um bilhete, peguei nele e percebi que era do Rui.
Aquelas simples palavras, escritas numa folha de papel, deram-me algum alento e até força, é estranho ser praticamente um estranho a dar-me motivos para animar-me ligeiramente. Não consegui dormir mais e quando o Rui chegou foi impossível não sorrir, afinal vinha com um ramo lindo de flores.
- Obrigada… - agradeci e retribui os seus dois beijinhos
- Já estás mais calma? – não respondi, encolhi simplesmente os ombros – Pode parecer estranho mas se quiseres falar… - olhei-o – Mariana não é preciso ser-se muito inteligente para perceber que não estás bem… e o teu pedido para não avisar ninguém é muito estranho… aliás só concordei porque te vi desesperada no entanto acho que deves avisar alguém, o Ruben deve estar preocupado contigo…
- Esse está entretido com a mascote mais recente da família Mendes! – atirei sem o mínimo cuidado
- Ok… não insisto… mas o que vais fazer quando tiveres alta?
- Não sei… - confessei – preciso de tomar decisões…
- Já sabes quando é que te dão alta?
- Não…
- Hum… então quando souberes diz-me! – olhei-o surpreendida perante a sua determinação – Ah… é que… já percebi que estás um bocado sozinha e não gosto disso…
- Ok… dá-me o teu número que depois aviso – falei simplesmente para que se calasse e se fosse embora, algo que acabou por acontecer mais de uma hora depois, mesmo comigo a não querer grandes conversas o Rui ficou a fazer-me companhia até ter que sair.
***
Durante a manhã tive a “visita” do médico que me atendeu ontem, informou-me dos cuidados a ter nesta “nova fase” e ainda que teria alta durante a tarde. Agradeci a forma como fui tratada e depois de ter em meu poder o papel da alta e de ter pago a despesa associada à minha estadia involuntária no hospital saí finalmente daquele lugar.
Chamei um táxi e fui até ao meu apartamento, quer dizer meu e da Maria Mendes, dei comigo a pensar qual seria o melhor destino a dar ao imóvel, já que não pretendo usufruir daquele espaço sabendo que não é só meu… Cheguei ao meu quarto e deitei-me, fechei os olhos e durante uns minutos estive no paraíso…

Ruben
Não consegui dormir nada durante a noite, esta ausência de notícias da Mariana está a destruir-me aos poucos e por isso mesmo ainda equacionei ligar para os hospitais a perguntar se tinha dado lá entrada mas não o fiz, no fundo acho que não tive coragem para tanto e se lhe tivesse acontecido alguma coisa também já saberia. Estava a pensar nisso quando oiço a porta do apartamento a abrir, levantei-me de imediato e ainda a vi de raspão a entrar no seu quarto, a Mariana não andava, ela arrastava simplesmente os pés, aquela imagem destruiu-me ainda mais, hesitei aproximar-me mas acabei por entrar no seu quarto e ao sentar-me na sua cama a Mariana abriu os olhos, o seu olhar estava vazio, sem brilho, sem uma “pinga” de vontade de reagir, aproximei-me ainda mais dela e assim que lhe toquei o inesperado aconteceu, a Mariana pura e simplesmente não reagiu, não fugiu mas também não teve qualquer reacção, estar a tocar-lhe ou não, foi completamente indiferente…
- Mariana… amor… - continuava sem reagir – onde estiveste? – continuava imóvel – Fiquei preocupado contigo… não dormi nada… tentei ligar-te mas não atendeste, porquê? Responde! – o não reagir irritou-me e acabei por elevar a voz, o que fez a Mariana se levantar da cama.
- Onde estive não interessa!
- Interessa sim! Fiquei preocupado…
- Então despreocupa-te! Estou aqui, não estou?!
- Estás de corpo mas de resto não… - voltei a aproximar-me dela e mais uma vez se não me repeliu também não demonstrou vontade em ter-me por perto
- Ruben… só quero dormir! – deitou-se novamente na cama – Sai por favor…
- Nem penses! Só quando saber onde tiveste e o porquê que não atendeste as minhas chamadas é que posso ponderar sair deste quarto! – falei determinado.
- Queres saber onde estive, é?
- Sim…
- Então fica a saber que passei a noite no hospital… - interrompi-a de imediato
- Foste ver a Maria? O nosso afilhado é lindo – falei todo orgulhoso do Guigas mas ao contrário do que esperava a Mariana não reagiu mas isso não fez com que parasse de falar – sabes que assisti ao parto? Opa aquilo é um bocado nojento mas o momento em que ouvi o choro do Guigas foi único, a sério foi muita emoção… - a Mariana interrompeu-me
- Ainda bem para ti… - falou com uma mágoa tremenda na voz
- Hey… é o nosso afilhado… não estás contente? Afinal não sentiste nada quando o viste? Sim porque se tiveste no hospital foi porque o quiseste ver, se não vieste dormir a casa é porque finalmente acordaste e percebeste que a Maria precisa de nós, que erraste ao afastares-te dela… foi isso não foi?! Percebeste finalmente que quem errou foste tu e foste-lhe pedir desculpas e pronto ficaram a falar até altas horas…
- Não! Não foi isso! Mas também não interessa!
A Mariana levantou-se na cama, pegou na sua mala e saiu, ainda a chamei mas só ouvi a porta do apartamento a bater, mais uma vez a Mariana deixou-me para trás, no entanto não me dei ao trabalho de ir atrás, estou farto de andar sempre atrás dela…
Que consequência teve a ida e internamento da Mariana? Terá tudo bem com os bebés?
E quando o Ruben perceber que a ida ao hospital afinal não foi para ver a Maria e o Guigas?

Como irá ficar a família Mendes depois de tudo?