Maria
Desde que a minha prima teve as miúdas que o João anda esquisito, já tentei falar com ele, mas de nada serviu. Diz que não é nada que está tudo normal, que anda cansado. Desculpas que não pegam, mas também não vou insistir, se quiser contar que conte.
Hoje mais uma vez me deu uma desculpa esfarrapada para não almoçarmos juntos e também não foi buscar os miúdos como tínhamos combinado. Acabei por ir eu ao infantário e tinha acabado os banhos quando a campainha tocou olhei pelo video-porteiro e vi-o, abri a porta e esperei que subisse, dei-lhe um pequeno beijo só porque realmente tenho muitas saudades porque ele merecia era que o deixasse no “vácuo” e fomos logo abalroados pelos miudos que quiseram a sua companhia
- Jantas connosco?
- Já que insistes…
- Não, não insisto… se quiseres optimo se não bom também…
- Sim janto… o que tens?
- Eu nada… - encolhi os ombros - tou cansada… sabes como é os treinos…
- Olha a ironia…
Apenas o olhei e segui para a cozinha enquanto ele foi para a sala com os pestinhas que fizeram a festas. Depois de um jantar animado voltei a deixa-los sozinhos e fui arrumar a cozinha e foi nesse momento que a campainha tocou novamente ao abrir dei de caras com o meu primo e o pequeno Filipe que fez as delicias do Guilherme que adora ter a companhia do primo para brincar.
Voltei a cozinha, mas fiquei sozinha pouco tempo já que se alguém me podia dizer o que se passava com o João esse alguém era o Ruben, chamei-o
- Se queres ajuda com a loiça esquece! Nem sequer me ofereceste jantar!
- Tivesses chegado mais cedo!
- E cheguei quando o baixinho chegou já estava lá em baixo - olhei-o intrigada - a falar com o Rui… distrai-me
- ah… não o tenho visto… mas também não foi para isso que te chamei… queres comer alguma coisa?
- Nop, jantei antes de vir… mas vá pergunta lá o que queres saber…
- O que é que ele tem??
- Pergunta-lhe
- Achas que já não o fiz?!
- Oh Maria não sei como te dizer isto… - ele falou sério e eu fiquei inquieta para o ver depois gargalhar - ele anda com ciumes… MEUS!
- Desculpa?!
- Sim… diz que não lhe ligo! - gargalhou
- Tou a falar a sério Ruben!
- Eu também! Achei-o esquisito e perguntei-lhe! - não disfarcei que não me satisfez a resposta e por isso - prima tou a falar a sério!
- E como tem ciumes teus afasta-se de mim?! Ruben ele apareceu aqui agora, mas… só está com os miúdos…
- Oh… deves ser tu com macaquinhos!
- Não, não sou… - ouvimos os miúdos a gargalhar
- Vou lá ver… vais ficar ai?
- Vou acabar isto - apontei para a loiças que ainda tinha - e já lá vou
Ele saiu em direcção a sala ainda os ouvi falar durante um tempo.
Quando voltei a sala encontrei o Guigas e o Filipe sentados no tapete a olhar para a tv enquanto na porta que dava acesso aos quartos estava um Gustavo com cara de caso
- O que foi Gustavo?
- Nada!
- O papá e o tio Ruben?
- Não sei… o papá pediu eu tomar conta meninos…
- Mas saíram?
- Quarto mamã
Achei esquisito e fui até ao meu quarto quando lá cheguei, um medo percorreu-me a espinha e em vez de abrir a porta preferi tentar ouvir sei que não se faz, mas foi mais forte que eu
- Desculpa… mas não sei mesmo o que pensar e o que fazer… - ouvi o João a falar parecia confuso e preocupado
- Essa decisão é tua... - a resposta no mesmo tom do Ruben ainda mais assustada me deixou e ao perceber que iriam sair resolvi abrir a porta como acabada de chegar
- Posso saber o que fazem aqui fechados?!
- Viemos dar uma… - a resposta pronta do Ruben fez-me gargalhar o que chamou a atenção dos miúdos
Agora na minha presença tinha não um mais dois esquisitos, olhavam-se cúmplices e centravam as conversas nas crianças não dando espaço para que eu tentasse saber o que se passava e assim que o Ruben informou que se ia embora também o João o fez.
***
Com o passar dos dias o João foi ficando cada vez mais esquisito, tinha a sensação que queria dizer-me algo, mas que tinha medo. Tudo me passou pela cabeça, desde uma mudança de clube a uma nova traição. Mas neste momento quem me preocupa ainda mais é o Gustavo
- Maria o que foi? Vai ficar assim comigo? Já disse que não vou mudar de clube e que não tenho ninguém… Maria mesmo que quisesse - olhei-o com má cara - se quisesse que NÃO QUERO, não tinha tempo… - aproveitou o Guga estar atento aos bonecos e o Guigas ter adormecido para me dar um pequeno beijo - por isso deixa lá esse bico de amuo e dá mimos…
- Infelizmente o mundo não gira a tua volta! O que me está a preocupar é o Gustavo… não o achas tristonho?
- Sim… achei… mas não me pareceu nada de especial…
- Mas é… ele anda inquieto… triste e não tem dormido bem… os sonos são agitados… não sei o que se passa e ele não quer falar comigo… podias tentar…
Julieta
O Ruben acordou extremamente bem-disposto mas também preocupado, afinal a Mariana regressa hoje a casa no entanto as meninas ficam no hospital.
Estávamos a comer o pequeno-almoço, quando o rapaz nos convidou para o acompanhar até ao hospital, algo que negamos e demos como desculpa não querermos incomodar a Mariana, por ser um momento difícil para ela, afinal terá que deixar as meninas. O Ruben não insistiu e agradeci mentalmente, até porque mentimos, dado que o verdadeiro motivo é outro, hoje mais uma vez vamos visitar a nossa neta.
Estava à espera que o Augusto se despachasse quando mais uma vez recordei a primeira visita que fizemos à Sofia
Entramos e tivemos de aguardar uns minutos numa sala onde já estavam outras reclusas e por diversas vezes senti arrepios... aquelas mulheres... aquele meio…
- Vocês??? - ouvimos a sua voz e olhamo-la
- Oh meus Deus... estás tão magra...
- O que é que vieram cá fazer?
- Ver-te... somos teus avós - interrompeu o Augusto
- Nunca fui neta... - a Sofia estava tão serena, tão diferente daquela Sofia que sempre conheci - sempre vos tratei mal... porquê que vieram?
- É verdade que sempre nos rejeitaste, sempre nos trataste mal e nunca quiseste saber de nós - baixou o olhar - mas mesmo assim és nossa neta e continuamos a gostar de ti da mesma forma... apesar de tudo... acredito que não nos queres mal...
- Se o que diz é verdade porquê que só agora é que vieram? - olhei para o Augusto
- Porque tivemos receio que nos tratasses mal - fui sincera
- E agora já não têm?
- Temos mas resolvemos arriscar.
- E vieram de Braga de propósito para verem-me?
- Não… - hesitei por saber que o assunto era delicado - nós já não vivemos em Braga.
- Como?
- É uma longa história… Quando foste presa - baixou o olhar - nós ficamos a saber da existência do Filipe - assim que falei o nome do menino, a Sofia olhou - mas nunca conseguimos ter coragem para procurar o Ruben, passamos meses a imaginar como seria o menino e se estava bem, até que uns dias antes do Natal passou uma reportagem na televisão sobre o Ruben e a Rute mostrou-nos… o rapaz falou dele, da... - hesitei com receio que a Sofia se exaltasse mas
- Da Mariana...
- Sim da Mariana e do Filipe... pela primeira vez vimos o nosso bisneto, ficamos ainda com mais vontade de os procurar mas ao mesmo tempo o medo de não sermos bem recebidos fez com que continuássemos quietos... mas o destino... o Ruben e a Mariana foram à Doçaria dos pais da Rute... Nós estávamos lá e quando a Mariana soube quem éramos pegou no Filipe e aproximou-se, desde esse dia que mantivemos o contacto com eles... eles ligavam frequentemente para saberem de nós e quando a avó foi internada com uma pneumonia, a Mariana foi a Braga buscar-nos... cuidou do avô enquanto tive internada e depois quando tive alta, ficamos a viver com eles... eles acolheram-nos e tratam-nos como família… e nós retribuímos o amor que nos dão…
- Não quero saber! E se vêem para aqui defendê-los e acusar-me a mim podem ir embora! - falou magoada - Por causa dela é que estou aqui e se gostam tanto dela então não voltem mais!
- Estás aqui por tua culpa! Sofia, foste tu que atropelaste a Mariana, a rapariga estava simplesmente a viver a vida dela - interrompeu
- Ela robou-me o Ruben!
- Não foi isso que nos contaram, é verdade que quando conheceste o Ruben, o rapaz já não estava com a Mariana mas será que nunca percebeste que não te amava? Nem mesmo quando passou a desprezar-te? Pelo que nos contaram, ameaçaste-o, usaste a gravidez para o prender e quando percebeste que tinhas perdido nem do menino quiseste saber, por isso a Mariana não tem culpa nenhuma, a única coisa que fez foi ficar do lado do Filipe, aprendeu a amá-lo como se tivesse nascido dela.
- Ya… ela é a princesa enquanto sou a bruxa…
- Não foi isso que falei, Sofia és nossa neta e ninguém vai substituir-te mas temos de ser justos, a Mariana merece todo o respeito, admiração e amor, porque não nos julgou, não nos afastou, muito pelo contrário, faz questão que o Filipe conviva connosco, mas principalmente porque o ama de forma incondicional.
- Ainda bem… que seja muito feliz com o miúdo que não quero saber dele para nada - olhámo-la desiludidos - que foi? É verdade! Engravidei com um objectivo que não consegui atingir, além disso nunca serei a mãe que o Filipe precisa, estou presa e quando sair, serei só mais uma ex-condenada, para quem vão olhar de lado…
João
Falar com o Ruben não adiantou nada, mas pelo menos não tenho a sensação de guardar sozinho uma bomba.
A Maria cada dia que passa mostra mais que não acha piada a perceber que tenho um segredo, mas sinceramente não imagino como partilhar com ela o que suspeito, principalmente porque não passa de suspeita.
Os fins de tarde agora resumem-se a isto, os miúdos a dormir no sofá enquanto a tv está ligada num dos canais deles e nós apenas partilhamos o mesmo sofá enquanto não sou expulso de casa deles, mas hoje a Maria está ainda mais quieta do que o costume, tentei disfarçar a minha suspeita, mas fiquei a saber que a causa era o Gustavo.
- Queres que fale com ele?
- Já falei João
- Mas sabes que há coisas que não se contam às mães… tipo coisas de homens!
- O miudo tem 5 anos!
- E?? Sabes que na sala dele há umas loirinhas…
- João Pedro!!
- Que foi?
- Nem penses em meter essas ideias na cabeça do miúdo!
- Eu?! - sorri - Agora a sério vou falar com ele enquanto fazes o jantar…
A Maria tentou refilar e acabou a despertar o Guilherme que quis porque quis visitar o Pipipo e a madrinha
- Então vamos!
- Oh João a minha prima quer descanso
- A tua prima precisa ocupar o tempo que não pode estar no hospital… eu trato do Gustavo e tu do Guilherme - pisquei-lhe o olho - Vamos Gugas vamos mudar de roupa para ir a casa dos tios
O menino seguiu-me, dei-lhe banho sempre a tentar brincar com ele, mas ele manteve-se sempre muito sério
- Gustavo o papá e a mamã estão preocupados contigo
- Comigo poquê?
- Porque já percebemos que andas triste… e não falas conosco… estás zangado? Fizemos alguma coisa que não gostaste?
- Não…
- Então… passa-se alguma coisa na escola? Voltaram a dizer que não és nosso filho?
- Não é nada…
- De certeza?
- Sim…
- Prometes-me uma coisa?
- Sim…
- Quando tiveres um problema falas com o papá ou com a mamã?
- Sim…
- De mindinho?
Fizemos o gesto e no mesmo momento a Maria e o Guilherme juntaram-se a nós já prontos.
***
No final do jantar bastante animado o Gustavo voltou a dar sinais de estar ausente e por isso a Mariana e o Ruben também tentaram falar com ele.
Mas ele nada disse, pelo menos a nós já que assim que conseguiu desapareceu com a Mariana.
Mariana
Hoje acordei angustiada... deram-me alta mas vou ter de deixar as meninas no hospital... estava a arrumar o meu saco quando o Ruben chegou
- Como estás?
- Triste…
O Ruben tentou animar-me mas não conseguiu, a única coisa que deixou-me de sorriso no rosto, foi o momento em que fomos ver as nossas meninas e que pela primeira vez pude pegar na Carolina. Por mim não a largava mas tenho consciência que o Ruben também gosta de pegar nas nossas filhas e só por isso é que deixei.
Estava com a Leonor ao colo quando a menina começou a rabujar, tentei acalma-la mas cada vez estava mais agitada, olhei para o relógio e deduzi que fosse fome, por isso mesmo pedi ajuda à enfermeira, uma vez que sabia que tinha leite guardado para elas.
- A mãe não quer experimentar dar o peito? - olhei-a desconfiada, afinal desde que nasceram nunca deixaram que desse de mamar a nenhuma das duas - vá… a mamã consegue… - olhei para o Ruben que se aproximou com a nossa Carolina - mamã não tenha medo…
- Olhe lá… tenho nome próprio! - refilei já aborrecida por em menos de três minutos ser três vezes tratada por mamã, o que levou o Ruben a rir e a Ana que entrou sem ter percebido a gargalhar, já a coitada da enfermeira ficou tão sem jeito que só não desapareceu porque não podia
- Fátima se quer um conselho… é melhor não contrariar a mamã - olhei para a Ana que se riu - mas deixemo-nos de conversas que aqui a pequenina já está com fome…
Ao início foi complicado, a Leonor demorou a pegar no peito mas com algumas dicas da enfermeira e muita paciência lá começou a puxar o leite. Estava completamente babada a olhar para a minha pequenina quando ao desviar por segundos o olhar, vi o Ruben de lágrimas nos olhos, sorri e estiquei a mão, num sinal claro que o queria ainda mais perto.
Os minutos seguintes foram só nossos, a sensação que tive era que o resto do mundo tinha desaparecido, tal era a cumplicidade existente entre nós os quatro...
Se a tarefa de dar de mamar foi inteiramente minha e um momento inesquecível, a seguinte calhou ao pai, foi o Ruben que fez questão de colocar a Leonor a arrotar, aliás quase que batia na enfermeira quando a senhora o tentou fazer, o que fez a Ana rir, enquanto eu… bem… eu fiquei simplesmente a observá-lo… o meu amor tratou de lhe mudar a fralda.
- Dá cá a menina… - reclamei porque a Leonor já estava há demasiado tempo no seu colo
- Não dou… é minha!
- É nossa!!!! E tu não me irrites!!!
A Ana voltou a rir e o Ruben fez-me a vontade, aproximou-se de mim, ainda assim ficou com a menina ao colo, momento esse desta vez captado pela nossa amiga que continuava deliciada a olhar-nos
Estava no paraíso e a observar a Leonor que continuava ao colo do Ruben quando voltei a pegar na Carolina, que finalmente pode estar mais do que uns minutos fora da incubadora.
Aproveitamos ao máximo o tempo mas assim que as deixei sozinha, senti um aperto enorme no peito. A viagem até casa foi rápida e quando cheguei, tinha à minha espera o Filipe.
Dediquei-me em exclusivo ao menino, o que ajudou a passar as horas mas ainda assim continuava a sentir um aperto no peito que agravou quando chegou o momento de dormir…
Ruben
Acordei com a Mari a mexer-se, não dei grande importância mas com o passar dos minutos e dado que não parava de dar voltas na cama
- Estás bem? - acendi a luz
- Desculpa acordei-te…
- Hey o que se passa - abracei-a uma vez que chorava
- Não consigo... não consigo ficar aqui sem as nossas filhas!
- Mor também me custa mas tem de ser... elas ainda não podem vir para casa
- Mas não consigo ficar aqui...
A Mariana chorava cada vez mais, dei-lhe uns minutos para ver se se acalmava mas como não resultou, passei para o plano B
- Anda!
Saí da cama e puxei-a pela mão até ao quarto do nosso filho
- Mor sei que custa deixar as nossas filhas mas é para o bem delas... Nós já vivemos isto tudo com o Filipe e hoje temos o nosso filho cheio de saúde, com as meninas vai ser igual...
- Isto é horrível... sinto que estou a abandonar as nossas filhas... com o Filipe já custou mas agora está a ser pior...
- É normal... mas não penses mais nisso, concentra-te no nosso filho, dá-lhe ainda mais mimo que isso ajuda a passar o tempo... pelo menos comigo resulta, nestes dias que ficaste no hospital foi o Filipe que me deu força.
A Mariana não respondeu mas pelo menos acalmou, ainda ficamos um bocado a olhar para o nosso filho mas acabei por conseguir convencê-la a ir até ao quarto.
***
- Então como correu a noite? - o João meteu-se comigo mal entrei no balneário
- Se queres mesmo saber correu mal...
- Então??
- A Mari não está a lidar bem com a ideia de deixar as meninas no hospital...
- Mas há motivos para nos preocupar ou é algo passageiro?
- Espero que seja passageiro... ontem depois consegui acalmá-la...
- Vai correr bem... foi por ser a primeira noite...
- Espero que tenhas razão...
***
O treino foi puxado mas assim que terminou corri para o balneário, com a intensão de despachar-me rapidamente para ir ter com a Mariana ao hospital. Encontrei-a junto das meninas e muito mais serena. Aproveitamos o tempo para mimar as nossas filhas e quando reparei já eram horas de ir buscar o Filipe à creche, avisei o meu amor e ouvi algo que não esperava
- Vou contigo!
- Não queres ficar mais um bocado?
- Querer quero mas o Filipe também precisa de mim - suspirou - tens razão, não posso focar-me só nelas, por isso vamos buscar o menino.
Saímos do hospital diretos à creche e assim que o nosso filho nos viu aos dois sorriu num sinal nítido de satisfação. Fomos para casa onde brincamos com ele e quando a Mari já pensava no que ia fazer para o jantar ouvimos a campainha, fui abrir e vi o João, acompanhado pela Maria e pelos piolhos.
- O Pipipo? - o Guigas falou assim que abri a porta
- Está com a tua madrinha na sala - o pirralho assim que ouviu o que queria correu até à sala - Bem que pressa…
- Não sabes tu o que nos chateou para que viéssemos cá
- E também foi imposição dele que o meia leca viesse junto!
- Tão engraçado… - o João passou por mim e foi até à sala
Acabamos por seguir o João e quando entramos na sala, foi impossível não rir, o Guigas tentava dar um beijinho ao Filipe mas o meu filho estava numa de dificultar a tarefa, ao empurrar o primo.
Mariana
Ver a alegria do meu filho quando percebeu que teria a minha companhia depois da creche encheu-me o coração.
Dediquei algumas horas ao meu pequenino e só o deixei quando fui preparar o jantar na companhia da minha prima
- Como estão as miúdas?
- Estáveis... o que é muito bom...
- Oh prima anima-te! As princesas são Mendes e Mendes é sinónimo de vencedoras por isso quando menos esperares já estão em casa!
- É o que mais quero! Mas agora tu - olhou - o que se passa? Sim que essa do Guigas fazer birra porque queria brincar com o primo não me convenceu!
- É o João... anda estranho e sempre que pergunto o que se passa, diz que estou a exagerar...
- Desde quando está assim?
- Olha desde o dia que as meninas nasceram! - gargalhei - Onde está a piada?
- Por acaso já te passou pela cabeça que pode estar assim porque o nascimento das minhas filhas despertou nele a vontade de ser pai novamente?!
- Achas???
- Não sei mas é possível... - sorriu - hey parou tudo!!!!! Que sorriso é esse???
- Ohhh
- Ohhh???
- Que foi?
- Que foi pergunto eu! Estás a pensar nisso?
- A ideia agrada mas não será para já.
- Hum... hum... despacha mas é isso que estás deserta para que aconteça!
- Não - suspirou - podes achar a ideia maluca mas se for para engravidar, terá de ser uma decisão a dois!
- A ideia não é nada maluca, muito pelo contrário, só não entendo onde está o problema, o João quando falares no assunto vai delirar!
- Tenho medo - olhei-a - e se acontece o mesmo...
- Parou! Maria vocês estão juntos e tu mesmo já o falaste, a engravidares será uma decisão dos dois, por isso será uma gravidez com contornos diferentes!
- Pois... mas mesmo assim tem de ser bem pensado!
- Nisso concordo contigo!
***
O jantar foi agradável mas o Gugas parecia distante, ainda perguntamos o que tinha mas o menino não quis falar. No final fomos até à sala, onde o Guigas se entreteve com Filipe, enquanto o Guga preferiu ficar junto da janela a olhar as estrelas
- Mas afinal o que é que o puto tem?
- Não sei... mas está mesmo estranho - a Maria concordou com o Ruben
- Só há uma forma de se saber... - o João interrompeu-me
- Nós já perguntamos e o puto disse que não é nada
- Então insistimos!!! Ou vais continuar sem saber - retorqui
A Maria concordou comigo e chamou-o
- Sim...
- Anda cá se faz favor
- Que foi?
- Senta aqui - o menino sentou-se ao colo dela - o que é que se passa? Oh lindo já percebemos que estás preocupado com alguma coisa, podes falar connosco
- Não é nada!
A Maria voltou a insistir e o resultado foi desastroso, uma vez que o menino começou a chorar
- Pronto não precisas ficar assim - falei - não queres dizer não digas mas nós assim ficamos preocupados contigo, percebes?
- Sim tia mas eu não quero falar!
- Oh puto - olhou para o Ruben - Estás assim por causa de uma miúda? - gargalhei
- Porquê que a tia riu? - perguntou de imediato
- Porquê? Porque lembrei-me da altura que conheci o Ruben... sabes ele nessa altura era assim muitoooooo envergonhado e também ficava como estás agora... não sabia o que dizer!
- Que piada!!!
- É mentira queres ver!!!
O meu amor acabou por não responder porque o Gugas antecipou-se
- Como é que conheceste o tio Ruben?
- Uiiiiii isso já foi há muito tempo, mas foi o teu papá que nos apresentou
- E ficaram logo amigos?
- Sim... - olhei para o Ruben e sorrimos
- E ficaram logo namorados?
- Não... isso levou muito tempo!
- Ah...
Acabei por resumir a nossa história e no fim foi a vez da Maria contar a parte da história dela com o João, o que agradou ao menino, pelo menos já não estava com aquela carinha de preocupado.
Com tudo isto, as horas passaram e o Filipe começou com a birra do sono, foi quando lhe mudava a fralda para o deitar que vi o Gugas à porta do quarto
- Podes entrar - o menino aproximou-se e ficou a olhar para mim
- Que foi? Queres perguntar alguma coisa?
- Não...
- Diz lá! A tia já percebeu que estás preocupado com alguma coisa e podes falar comigo!
- Mas eu não posso...
- Porquê?
- Porque não é um segredo meu - falou com o olhar baixo
- Hum... é algum amigo teu que está com um problema?
- Não...
Estava cada vez mais intrigada e por isso depois de deitar o Filipe no berço, fui até ao meu quarto, pedi ao miúdo que se sentasse ao meu colo e
- Gustavo sabes que podes confiar em nós, que gostamos muito de ti, não sabes?
- Sim...
- Então porquê que não falas? Sabes a mamã Bea sempre que tinha um problema, falava comigo ou com a Maria, por isso também podes falar
- Mas eu não posso porque é sobre uma conversa que ouvi mas eu não percebi bem e não quero que o pai João e o tio Ruben fiquem zangados comigo
- Então é por isso que estás assim?
- É... eu não percebi bem mas acho que é mau e eu não quero ficar sem o pai João e a mãe Maria
- Isso não vai acontecer! Oh Guga os teus papás gostam muito de ti!
- Mas o pai João sabe uma coisa má e o tio Ruben não quer que ele conte e se a mamã descobre depois pode ficar zangada...
- Não te preocupes com isso, de certeza que o João vai contar porque é o que fazemos sempre... ao inicio podemos ficar na duvida se contamos ou não mas depois dizemos porque entre nós os quatro não há segredos e quando um está com problemas os outros ajudam!
- Tás a mentir! Se fosse verdade a tia não se tinha chateado com o tio e o Filipe não tinha nascido - a dedução do puto surpreendeu - e o pai João não tinha estragado tudo com a mãe - encolheu os ombros - eu já percebo as coisas, posso ser pequeno mas eu percebo - suspirou
- Sabes que tudo isso aconteceu numa fase má, originada na falta de comunicação, nós achamos que conseguíamos lidar com os problemas e que não precisávamos de falar porque o outro entendia, mas isso não é verdade e nós aprendemos com os erros, por isso é que insistimos contigo para que fales connosco, entendes?
O menino ficou a olhar para mim durante uns segundos e depois saiu do meu colo, deu alguns passos mas antes de sair do quarto pediu para não comentar com os outros a nossa conversa.
Desde que a minha prima teve as miúdas que o João anda esquisito, já tentei falar com ele, mas de nada serviu. Diz que não é nada que está tudo normal, que anda cansado. Desculpas que não pegam, mas também não vou insistir, se quiser contar que conte.
Hoje mais uma vez me deu uma desculpa esfarrapada para não almoçarmos juntos e também não foi buscar os miúdos como tínhamos combinado. Acabei por ir eu ao infantário e tinha acabado os banhos quando a campainha tocou olhei pelo video-porteiro e vi-o, abri a porta e esperei que subisse, dei-lhe um pequeno beijo só porque realmente tenho muitas saudades porque ele merecia era que o deixasse no “vácuo” e fomos logo abalroados pelos miudos que quiseram a sua companhia
- Jantas connosco?
- Já que insistes…
- Não, não insisto… se quiseres optimo se não bom também…
- Sim janto… o que tens?
- Eu nada… - encolhi os ombros - tou cansada… sabes como é os treinos…
- Olha a ironia…
Apenas o olhei e segui para a cozinha enquanto ele foi para a sala com os pestinhas que fizeram a festas. Depois de um jantar animado voltei a deixa-los sozinhos e fui arrumar a cozinha e foi nesse momento que a campainha tocou novamente ao abrir dei de caras com o meu primo e o pequeno Filipe que fez as delicias do Guilherme que adora ter a companhia do primo para brincar.
Voltei a cozinha, mas fiquei sozinha pouco tempo já que se alguém me podia dizer o que se passava com o João esse alguém era o Ruben, chamei-o
- Se queres ajuda com a loiça esquece! Nem sequer me ofereceste jantar!
- Tivesses chegado mais cedo!
- E cheguei quando o baixinho chegou já estava lá em baixo - olhei-o intrigada - a falar com o Rui… distrai-me
- ah… não o tenho visto… mas também não foi para isso que te chamei… queres comer alguma coisa?
- Nop, jantei antes de vir… mas vá pergunta lá o que queres saber…
- O que é que ele tem??
- Pergunta-lhe
- Achas que já não o fiz?!
- Oh Maria não sei como te dizer isto… - ele falou sério e eu fiquei inquieta para o ver depois gargalhar - ele anda com ciumes… MEUS!
- Desculpa?!
- Sim… diz que não lhe ligo! - gargalhou
- Tou a falar a sério Ruben!
- Eu também! Achei-o esquisito e perguntei-lhe! - não disfarcei que não me satisfez a resposta e por isso - prima tou a falar a sério!
- E como tem ciumes teus afasta-se de mim?! Ruben ele apareceu aqui agora, mas… só está com os miúdos…
- Oh… deves ser tu com macaquinhos!
- Não, não sou… - ouvimos os miúdos a gargalhar
- Vou lá ver… vais ficar ai?
- Vou acabar isto - apontei para a loiças que ainda tinha - e já lá vou
Ele saiu em direcção a sala ainda os ouvi falar durante um tempo.
Quando voltei a sala encontrei o Guigas e o Filipe sentados no tapete a olhar para a tv enquanto na porta que dava acesso aos quartos estava um Gustavo com cara de caso
- O que foi Gustavo?
- Nada!
- O papá e o tio Ruben?
- Não sei… o papá pediu eu tomar conta meninos…
- Mas saíram?
- Quarto mamã
Achei esquisito e fui até ao meu quarto quando lá cheguei, um medo percorreu-me a espinha e em vez de abrir a porta preferi tentar ouvir sei que não se faz, mas foi mais forte que eu
- Desculpa… mas não sei mesmo o que pensar e o que fazer… - ouvi o João a falar parecia confuso e preocupado
- Essa decisão é tua... - a resposta no mesmo tom do Ruben ainda mais assustada me deixou e ao perceber que iriam sair resolvi abrir a porta como acabada de chegar
- Posso saber o que fazem aqui fechados?!
- Viemos dar uma… - a resposta pronta do Ruben fez-me gargalhar o que chamou a atenção dos miúdos
Agora na minha presença tinha não um mais dois esquisitos, olhavam-se cúmplices e centravam as conversas nas crianças não dando espaço para que eu tentasse saber o que se passava e assim que o Ruben informou que se ia embora também o João o fez.
***
Com o passar dos dias o João foi ficando cada vez mais esquisito, tinha a sensação que queria dizer-me algo, mas que tinha medo. Tudo me passou pela cabeça, desde uma mudança de clube a uma nova traição. Mas neste momento quem me preocupa ainda mais é o Gustavo
- Maria o que foi? Vai ficar assim comigo? Já disse que não vou mudar de clube e que não tenho ninguém… Maria mesmo que quisesse - olhei-o com má cara - se quisesse que NÃO QUERO, não tinha tempo… - aproveitou o Guga estar atento aos bonecos e o Guigas ter adormecido para me dar um pequeno beijo - por isso deixa lá esse bico de amuo e dá mimos…
- Infelizmente o mundo não gira a tua volta! O que me está a preocupar é o Gustavo… não o achas tristonho?
- Sim… achei… mas não me pareceu nada de especial…
- Mas é… ele anda inquieto… triste e não tem dormido bem… os sonos são agitados… não sei o que se passa e ele não quer falar comigo… podias tentar…
Julieta
O Ruben acordou extremamente bem-disposto mas também preocupado, afinal a Mariana regressa hoje a casa no entanto as meninas ficam no hospital.
Estávamos a comer o pequeno-almoço, quando o rapaz nos convidou para o acompanhar até ao hospital, algo que negamos e demos como desculpa não querermos incomodar a Mariana, por ser um momento difícil para ela, afinal terá que deixar as meninas. O Ruben não insistiu e agradeci mentalmente, até porque mentimos, dado que o verdadeiro motivo é outro, hoje mais uma vez vamos visitar a nossa neta.
Estava à espera que o Augusto se despachasse quando mais uma vez recordei a primeira visita que fizemos à Sofia
Entramos e tivemos de aguardar uns minutos numa sala onde já estavam outras reclusas e por diversas vezes senti arrepios... aquelas mulheres... aquele meio…
- Vocês??? - ouvimos a sua voz e olhamo-la
- Oh meus Deus... estás tão magra...
- O que é que vieram cá fazer?
- Ver-te... somos teus avós - interrompeu o Augusto
- Nunca fui neta... - a Sofia estava tão serena, tão diferente daquela Sofia que sempre conheci - sempre vos tratei mal... porquê que vieram?
- É verdade que sempre nos rejeitaste, sempre nos trataste mal e nunca quiseste saber de nós - baixou o olhar - mas mesmo assim és nossa neta e continuamos a gostar de ti da mesma forma... apesar de tudo... acredito que não nos queres mal...
- Se o que diz é verdade porquê que só agora é que vieram? - olhei para o Augusto
- Porque tivemos receio que nos tratasses mal - fui sincera
- E agora já não têm?
- Temos mas resolvemos arriscar.
- E vieram de Braga de propósito para verem-me?
- Não… - hesitei por saber que o assunto era delicado - nós já não vivemos em Braga.
- Como?
- É uma longa história… Quando foste presa - baixou o olhar - nós ficamos a saber da existência do Filipe - assim que falei o nome do menino, a Sofia olhou - mas nunca conseguimos ter coragem para procurar o Ruben, passamos meses a imaginar como seria o menino e se estava bem, até que uns dias antes do Natal passou uma reportagem na televisão sobre o Ruben e a Rute mostrou-nos… o rapaz falou dele, da... - hesitei com receio que a Sofia se exaltasse mas
- Da Mariana...
- Sim da Mariana e do Filipe... pela primeira vez vimos o nosso bisneto, ficamos ainda com mais vontade de os procurar mas ao mesmo tempo o medo de não sermos bem recebidos fez com que continuássemos quietos... mas o destino... o Ruben e a Mariana foram à Doçaria dos pais da Rute... Nós estávamos lá e quando a Mariana soube quem éramos pegou no Filipe e aproximou-se, desde esse dia que mantivemos o contacto com eles... eles ligavam frequentemente para saberem de nós e quando a avó foi internada com uma pneumonia, a Mariana foi a Braga buscar-nos... cuidou do avô enquanto tive internada e depois quando tive alta, ficamos a viver com eles... eles acolheram-nos e tratam-nos como família… e nós retribuímos o amor que nos dão…
- Não quero saber! E se vêem para aqui defendê-los e acusar-me a mim podem ir embora! - falou magoada - Por causa dela é que estou aqui e se gostam tanto dela então não voltem mais!
- Estás aqui por tua culpa! Sofia, foste tu que atropelaste a Mariana, a rapariga estava simplesmente a viver a vida dela - interrompeu
- Ela robou-me o Ruben!
- Não foi isso que nos contaram, é verdade que quando conheceste o Ruben, o rapaz já não estava com a Mariana mas será que nunca percebeste que não te amava? Nem mesmo quando passou a desprezar-te? Pelo que nos contaram, ameaçaste-o, usaste a gravidez para o prender e quando percebeste que tinhas perdido nem do menino quiseste saber, por isso a Mariana não tem culpa nenhuma, a única coisa que fez foi ficar do lado do Filipe, aprendeu a amá-lo como se tivesse nascido dela.
- Ya… ela é a princesa enquanto sou a bruxa…
- Não foi isso que falei, Sofia és nossa neta e ninguém vai substituir-te mas temos de ser justos, a Mariana merece todo o respeito, admiração e amor, porque não nos julgou, não nos afastou, muito pelo contrário, faz questão que o Filipe conviva connosco, mas principalmente porque o ama de forma incondicional.
- Ainda bem… que seja muito feliz com o miúdo que não quero saber dele para nada - olhámo-la desiludidos - que foi? É verdade! Engravidei com um objectivo que não consegui atingir, além disso nunca serei a mãe que o Filipe precisa, estou presa e quando sair, serei só mais uma ex-condenada, para quem vão olhar de lado…
João
Falar com o Ruben não adiantou nada, mas pelo menos não tenho a sensação de guardar sozinho uma bomba.
A Maria cada dia que passa mostra mais que não acha piada a perceber que tenho um segredo, mas sinceramente não imagino como partilhar com ela o que suspeito, principalmente porque não passa de suspeita.
Os fins de tarde agora resumem-se a isto, os miúdos a dormir no sofá enquanto a tv está ligada num dos canais deles e nós apenas partilhamos o mesmo sofá enquanto não sou expulso de casa deles, mas hoje a Maria está ainda mais quieta do que o costume, tentei disfarçar a minha suspeita, mas fiquei a saber que a causa era o Gustavo.
- Queres que fale com ele?
- Já falei João
- Mas sabes que há coisas que não se contam às mães… tipo coisas de homens!
- O miudo tem 5 anos!
- E?? Sabes que na sala dele há umas loirinhas…
- João Pedro!!
- Que foi?
- Nem penses em meter essas ideias na cabeça do miúdo!
- Eu?! - sorri - Agora a sério vou falar com ele enquanto fazes o jantar…
A Maria tentou refilar e acabou a despertar o Guilherme que quis porque quis visitar o Pipipo e a madrinha
- Então vamos!
- Oh João a minha prima quer descanso
- A tua prima precisa ocupar o tempo que não pode estar no hospital… eu trato do Gustavo e tu do Guilherme - pisquei-lhe o olho - Vamos Gugas vamos mudar de roupa para ir a casa dos tios
O menino seguiu-me, dei-lhe banho sempre a tentar brincar com ele, mas ele manteve-se sempre muito sério
- Gustavo o papá e a mamã estão preocupados contigo
- Comigo poquê?
- Porque já percebemos que andas triste… e não falas conosco… estás zangado? Fizemos alguma coisa que não gostaste?
- Não…
- Então… passa-se alguma coisa na escola? Voltaram a dizer que não és nosso filho?
- Não é nada…
- De certeza?
- Sim…
- Prometes-me uma coisa?
- Sim…
- Quando tiveres um problema falas com o papá ou com a mamã?
- Sim…
- De mindinho?
Fizemos o gesto e no mesmo momento a Maria e o Guilherme juntaram-se a nós já prontos.
***
No final do jantar bastante animado o Gustavo voltou a dar sinais de estar ausente e por isso a Mariana e o Ruben também tentaram falar com ele.
Mas ele nada disse, pelo menos a nós já que assim que conseguiu desapareceu com a Mariana.
Mariana
Hoje acordei angustiada... deram-me alta mas vou ter de deixar as meninas no hospital... estava a arrumar o meu saco quando o Ruben chegou
- Como estás?
- Triste…
O Ruben tentou animar-me mas não conseguiu, a única coisa que deixou-me de sorriso no rosto, foi o momento em que fomos ver as nossas meninas e que pela primeira vez pude pegar na Carolina. Por mim não a largava mas tenho consciência que o Ruben também gosta de pegar nas nossas filhas e só por isso é que deixei.
Estava com a Leonor ao colo quando a menina começou a rabujar, tentei acalma-la mas cada vez estava mais agitada, olhei para o relógio e deduzi que fosse fome, por isso mesmo pedi ajuda à enfermeira, uma vez que sabia que tinha leite guardado para elas.
- A mãe não quer experimentar dar o peito? - olhei-a desconfiada, afinal desde que nasceram nunca deixaram que desse de mamar a nenhuma das duas - vá… a mamã consegue… - olhei para o Ruben que se aproximou com a nossa Carolina - mamã não tenha medo…
- Olhe lá… tenho nome próprio! - refilei já aborrecida por em menos de três minutos ser três vezes tratada por mamã, o que levou o Ruben a rir e a Ana que entrou sem ter percebido a gargalhar, já a coitada da enfermeira ficou tão sem jeito que só não desapareceu porque não podia
- Fátima se quer um conselho… é melhor não contrariar a mamã - olhei para a Ana que se riu - mas deixemo-nos de conversas que aqui a pequenina já está com fome…
Ao início foi complicado, a Leonor demorou a pegar no peito mas com algumas dicas da enfermeira e muita paciência lá começou a puxar o leite. Estava completamente babada a olhar para a minha pequenina quando ao desviar por segundos o olhar, vi o Ruben de lágrimas nos olhos, sorri e estiquei a mão, num sinal claro que o queria ainda mais perto.
Os minutos seguintes foram só nossos, a sensação que tive era que o resto do mundo tinha desaparecido, tal era a cumplicidade existente entre nós os quatro...
Se a tarefa de dar de mamar foi inteiramente minha e um momento inesquecível, a seguinte calhou ao pai, foi o Ruben que fez questão de colocar a Leonor a arrotar, aliás quase que batia na enfermeira quando a senhora o tentou fazer, o que fez a Ana rir, enquanto eu… bem… eu fiquei simplesmente a observá-lo… o meu amor tratou de lhe mudar a fralda.
- Dá cá a menina… - reclamei porque a Leonor já estava há demasiado tempo no seu colo
- Não dou… é minha!
- É nossa!!!! E tu não me irrites!!!
A Ana voltou a rir e o Ruben fez-me a vontade, aproximou-se de mim, ainda assim ficou com a menina ao colo, momento esse desta vez captado pela nossa amiga que continuava deliciada a olhar-nos
Estava no paraíso e a observar a Leonor que continuava ao colo do Ruben quando voltei a pegar na Carolina, que finalmente pode estar mais do que uns minutos fora da incubadora.
Aproveitamos ao máximo o tempo mas assim que as deixei sozinha, senti um aperto enorme no peito. A viagem até casa foi rápida e quando cheguei, tinha à minha espera o Filipe.
Dediquei-me em exclusivo ao menino, o que ajudou a passar as horas mas ainda assim continuava a sentir um aperto no peito que agravou quando chegou o momento de dormir…
Ruben
Acordei com a Mari a mexer-se, não dei grande importância mas com o passar dos minutos e dado que não parava de dar voltas na cama
- Estás bem? - acendi a luz
- Desculpa acordei-te…
- Hey o que se passa - abracei-a uma vez que chorava
- Não consigo... não consigo ficar aqui sem as nossas filhas!
- Mor também me custa mas tem de ser... elas ainda não podem vir para casa
- Mas não consigo ficar aqui...
A Mariana chorava cada vez mais, dei-lhe uns minutos para ver se se acalmava mas como não resultou, passei para o plano B
- Anda!
Saí da cama e puxei-a pela mão até ao quarto do nosso filho
- Mor sei que custa deixar as nossas filhas mas é para o bem delas... Nós já vivemos isto tudo com o Filipe e hoje temos o nosso filho cheio de saúde, com as meninas vai ser igual...
- Isto é horrível... sinto que estou a abandonar as nossas filhas... com o Filipe já custou mas agora está a ser pior...
- É normal... mas não penses mais nisso, concentra-te no nosso filho, dá-lhe ainda mais mimo que isso ajuda a passar o tempo... pelo menos comigo resulta, nestes dias que ficaste no hospital foi o Filipe que me deu força.
A Mariana não respondeu mas pelo menos acalmou, ainda ficamos um bocado a olhar para o nosso filho mas acabei por conseguir convencê-la a ir até ao quarto.
***
- Então como correu a noite? - o João meteu-se comigo mal entrei no balneário
- Se queres mesmo saber correu mal...
- Então??
- A Mari não está a lidar bem com a ideia de deixar as meninas no hospital...
- Mas há motivos para nos preocupar ou é algo passageiro?
- Espero que seja passageiro... ontem depois consegui acalmá-la...
- Vai correr bem... foi por ser a primeira noite...
- Espero que tenhas razão...
***
O treino foi puxado mas assim que terminou corri para o balneário, com a intensão de despachar-me rapidamente para ir ter com a Mariana ao hospital. Encontrei-a junto das meninas e muito mais serena. Aproveitamos o tempo para mimar as nossas filhas e quando reparei já eram horas de ir buscar o Filipe à creche, avisei o meu amor e ouvi algo que não esperava
- Vou contigo!
- Não queres ficar mais um bocado?
- Querer quero mas o Filipe também precisa de mim - suspirou - tens razão, não posso focar-me só nelas, por isso vamos buscar o menino.
Saímos do hospital diretos à creche e assim que o nosso filho nos viu aos dois sorriu num sinal nítido de satisfação. Fomos para casa onde brincamos com ele e quando a Mari já pensava no que ia fazer para o jantar ouvimos a campainha, fui abrir e vi o João, acompanhado pela Maria e pelos piolhos.
- O Pipipo? - o Guigas falou assim que abri a porta
- Está com a tua madrinha na sala - o pirralho assim que ouviu o que queria correu até à sala - Bem que pressa…
- Não sabes tu o que nos chateou para que viéssemos cá
- E também foi imposição dele que o meia leca viesse junto!
- Tão engraçado… - o João passou por mim e foi até à sala
Acabamos por seguir o João e quando entramos na sala, foi impossível não rir, o Guigas tentava dar um beijinho ao Filipe mas o meu filho estava numa de dificultar a tarefa, ao empurrar o primo.
Mariana
Ver a alegria do meu filho quando percebeu que teria a minha companhia depois da creche encheu-me o coração.
Dediquei algumas horas ao meu pequenino e só o deixei quando fui preparar o jantar na companhia da minha prima
- Como estão as miúdas?
- Estáveis... o que é muito bom...
- Oh prima anima-te! As princesas são Mendes e Mendes é sinónimo de vencedoras por isso quando menos esperares já estão em casa!
- É o que mais quero! Mas agora tu - olhou - o que se passa? Sim que essa do Guigas fazer birra porque queria brincar com o primo não me convenceu!
- É o João... anda estranho e sempre que pergunto o que se passa, diz que estou a exagerar...
- Desde quando está assim?
- Olha desde o dia que as meninas nasceram! - gargalhei - Onde está a piada?
- Por acaso já te passou pela cabeça que pode estar assim porque o nascimento das minhas filhas despertou nele a vontade de ser pai novamente?!
- Achas???
- Não sei mas é possível... - sorriu - hey parou tudo!!!!! Que sorriso é esse???
- Ohhh
- Ohhh???
- Que foi?
- Que foi pergunto eu! Estás a pensar nisso?
- A ideia agrada mas não será para já.
- Hum... hum... despacha mas é isso que estás deserta para que aconteça!
- Não - suspirou - podes achar a ideia maluca mas se for para engravidar, terá de ser uma decisão a dois!
- A ideia não é nada maluca, muito pelo contrário, só não entendo onde está o problema, o João quando falares no assunto vai delirar!
- Tenho medo - olhei-a - e se acontece o mesmo...
- Parou! Maria vocês estão juntos e tu mesmo já o falaste, a engravidares será uma decisão dos dois, por isso será uma gravidez com contornos diferentes!
- Pois... mas mesmo assim tem de ser bem pensado!
- Nisso concordo contigo!
***
O jantar foi agradável mas o Gugas parecia distante, ainda perguntamos o que tinha mas o menino não quis falar. No final fomos até à sala, onde o Guigas se entreteve com Filipe, enquanto o Guga preferiu ficar junto da janela a olhar as estrelas
- Mas afinal o que é que o puto tem?
- Não sei... mas está mesmo estranho - a Maria concordou com o Ruben
- Só há uma forma de se saber... - o João interrompeu-me
- Nós já perguntamos e o puto disse que não é nada
- Então insistimos!!! Ou vais continuar sem saber - retorqui
A Maria concordou comigo e chamou-o
- Sim...
- Anda cá se faz favor
- Que foi?
- Senta aqui - o menino sentou-se ao colo dela - o que é que se passa? Oh lindo já percebemos que estás preocupado com alguma coisa, podes falar connosco
- Não é nada!
A Maria voltou a insistir e o resultado foi desastroso, uma vez que o menino começou a chorar
- Pronto não precisas ficar assim - falei - não queres dizer não digas mas nós assim ficamos preocupados contigo, percebes?
- Sim tia mas eu não quero falar!
- Oh puto - olhou para o Ruben - Estás assim por causa de uma miúda? - gargalhei
- Porquê que a tia riu? - perguntou de imediato
- Porquê? Porque lembrei-me da altura que conheci o Ruben... sabes ele nessa altura era assim muitoooooo envergonhado e também ficava como estás agora... não sabia o que dizer!
- Que piada!!!
- É mentira queres ver!!!
O meu amor acabou por não responder porque o Gugas antecipou-se
- Como é que conheceste o tio Ruben?
- Uiiiiii isso já foi há muito tempo, mas foi o teu papá que nos apresentou
- E ficaram logo amigos?
- Sim... - olhei para o Ruben e sorrimos
- E ficaram logo namorados?
- Não... isso levou muito tempo!
- Ah...
Acabei por resumir a nossa história e no fim foi a vez da Maria contar a parte da história dela com o João, o que agradou ao menino, pelo menos já não estava com aquela carinha de preocupado.
Com tudo isto, as horas passaram e o Filipe começou com a birra do sono, foi quando lhe mudava a fralda para o deitar que vi o Gugas à porta do quarto
- Podes entrar - o menino aproximou-se e ficou a olhar para mim
- Que foi? Queres perguntar alguma coisa?
- Não...
- Diz lá! A tia já percebeu que estás preocupado com alguma coisa e podes falar comigo!
- Mas eu não posso...
- Porquê?
- Porque não é um segredo meu - falou com o olhar baixo
- Hum... é algum amigo teu que está com um problema?
- Não...
Estava cada vez mais intrigada e por isso depois de deitar o Filipe no berço, fui até ao meu quarto, pedi ao miúdo que se sentasse ao meu colo e
- Gustavo sabes que podes confiar em nós, que gostamos muito de ti, não sabes?
- Sim...
- Então porquê que não falas? Sabes a mamã Bea sempre que tinha um problema, falava comigo ou com a Maria, por isso também podes falar
- Mas eu não posso porque é sobre uma conversa que ouvi mas eu não percebi bem e não quero que o pai João e o tio Ruben fiquem zangados comigo
- Então é por isso que estás assim?
- É... eu não percebi bem mas acho que é mau e eu não quero ficar sem o pai João e a mãe Maria
- Isso não vai acontecer! Oh Guga os teus papás gostam muito de ti!
- Mas o pai João sabe uma coisa má e o tio Ruben não quer que ele conte e se a mamã descobre depois pode ficar zangada...
- Não te preocupes com isso, de certeza que o João vai contar porque é o que fazemos sempre... ao inicio podemos ficar na duvida se contamos ou não mas depois dizemos porque entre nós os quatro não há segredos e quando um está com problemas os outros ajudam!
- Tás a mentir! Se fosse verdade a tia não se tinha chateado com o tio e o Filipe não tinha nascido - a dedução do puto surpreendeu - e o pai João não tinha estragado tudo com a mãe - encolheu os ombros - eu já percebo as coisas, posso ser pequeno mas eu percebo - suspirou
- Sabes que tudo isso aconteceu numa fase má, originada na falta de comunicação, nós achamos que conseguíamos lidar com os problemas e que não precisávamos de falar porque o outro entendia, mas isso não é verdade e nós aprendemos com os erros, por isso é que insistimos contigo para que fales connosco, entendes?
O menino ficou a olhar para mim durante uns segundos e depois saiu do meu colo, deu alguns passos mas antes de sair do quarto pediu para não comentar com os outros a nossa conversa.
Irá a Mariana cumprir com o pedido do menino?
Será verdade e elas são irmãs?
Irá o João contar o que suspeita a Maria?


