segunda-feira, 5 de agosto de 2013

087 - "...se está a doer é sinal que está a sarar…"

Ruben
Ter consciência que não serei pai e que a culpa em grande parte é minha fez-me tomar uma decisão, provavelmente irei arrepender-me mas neste momento não aguento mais, preciso afastar-me, libertar este ódio que sinto de mim mesmo, sinto-me preso a uma história que nunca devia ter sido desenterrada, se ficou no passado não deveria ter remexido, só serviu para magoar-me, fui cutucar um enxame de abelhas sabendo que seria picado, fui fraco e caí em tentação, cedi ao desejo de ter o que no passado deixei fugir por entre os dedos mas hoje arrependo-me amargamente, devia ter evitado tudo isto, por capricho meu arrastei a Mariana para o abismo, a rapariga estava bem antes de atravessar-me no seu caminho, se não tivesse insistido em recuperar o que nunca foi meu hoje poderíamos ser amigos mas não… fui mimado e por isso perdi tudo…
***
Cheguei a Braga e ao entrar no meu quarto um espasmo percorreu o meu corpo, talvez provocado pela certeza que nunca mais a minha vida terá cor, nunca mais terá alegria ou motivo para sorrir mas a decisão está tomada e não será alterada, terei que aprender a viver com os erros do passado e com a esperança de algum dia sentir-me livre da culpa que carrego no presente.
Tentei comer algo mas nada passava na garganta, a sensação de nó não deixava que metesse comida à boca, por isso mesmo fui deitar-me, desliguei o telemóvel para não ser incomodado e tentei adormecer, pelo menos enquanto dormia não pensaria na Mariana e na forma como tudo acabou mas foi impossível, o peso na consciência não deixou que fechasse os olhos, sei que a decisão que tomei deveria ser de mútuo acordo mas nenhum dos dois está em condições para um novo confronto, ainda assim senti necessidade de lhe dizer algo, saí da cama e fui buscar o portátil
Olá Mariana,
Regressei a Barga decidido a seguir em frente e para que o consiga não dá para continuar ao teu lado, desculpa mas não consigo, não dá mais…
O meu erro foi querer recuperar algo que nunca teve concerto, misturei sentimentos e arrastei-te para o abismo, errei quando achei possível ter o que deixei fugir no passado, o que fiz há quase três anos deveria ter feito há mais de 10, nunca deveria ter permitido que fosses para Faro sem lutar pelo que sentia, falhei nesse momento e voltei a falhar em muitos mais, fui fraco e não resisti ao desejo de voltar a ter-te, obriguei-te a mudar, deixaste de te reconhecer e foi isso que acabou contigo.
Mariana não és pessoa para casar e ser mãe, és sim pessoa para ser livre, para viver um dia de cada vez por isso aproveita esta nova oportunidade e quando conseguires recuperar de todo o mal que te fiz VIVE…
Por favor luta para recuares do abismo para onde te conduzi, não me faças sentir ainda pior… faz por mim mas principalmente por ti… Sei que encontrarás o teu caminho e este será longe do meu… voltarás a sorrir… espero sinceramente poder ver esse dia chegar nem que seja à distância…
Resta-me agradecer tudo o de bom que vivi durante o tempo que estivemos juntos…
Ah… e sei que não sou ninguém para te pedir algo mas fala com a tua família pois é a única coisa que será eternamente tua…
Obrigado e VIVE
Ruben Amorim  
Doeu escrever cada palavra mas quando carreguei no enviar e o email seguiu senti-me liberto, sei que não é a melhor forma para terminar com algo que não deveria sequer ter existido mas de outra forma não seria capaz, aliás nem sei como lidarei com o fato de ter um afilhado em comum com a Mariana, só sei que o menino não tem culpa e que por isso espero sinceramente que a convivência seja possível, não digo para o imediato mas a longo prazo…

Mariana
Admitir que perdi os minimeus arrasou-me ainda mais, fiquei sem forças e por isso assim que o Ruben deitou-me na cama “apaguei”, não conseguia falar e muito menos olhá-lo, só quis desaparecer mas infelizmente não basta querer… Acordei horas mais tarde e sem forças para mexer um único músculo que fosse, fiquei na cama a ganhar coragem para sair daquele quarto, para terminar uma conversa que ficou no início, afinal devo um pedido de desculpas ao Ruben por tudo o que fiz. Foi quando já tinha colocado os pés no chão que bateram na porta do quarto, dei permissão para entrar e assim que olhei e vi o Rui uma sensação de perda completa invadiu-me.
- O Ruben… - o Rui baixou o olhar – foi embora? – perguntei já a chorar
- Mariana… - aproximou-se e reconfortou-me nos seus braços – o Ruben saiu e ainda não voltou… mas isso não significa que não regresse…
Não tive forças para refutar o que falou, acho que usei as que restavam para acreditar e agarrar-me à esperança que o Ruben regressaria mas passou uma, duas, três… horas e nada, desisti e mergulhei no “vale dos lençóis” não adormeci… aliás dormir foi algo que não fiz o resto da noite, talvez pelas horas que já tinha dormido ou porque sempre que fechava os olhos vi-a o rosto do Guilherme, a felicidade estampada na cara da Maria e do João… e depois vi-a a dor da perda, aquela que senti e fiz outros sentir por culpa minha…

Rui
Fui apanhado pelos destroços de duas vidas completamente desfeitas, não conheço nenhum dos dois profundamente mas ainda assim é visível que nem o Ruben nem a Mariana estão bem. O rapaz saiu arrasado e nunca mais voltou, tentei ligar-lhe mas foi parar diretamente à caixa das mensagens e a Mariana, essa, nem tenho palavras para descrever o estado em que se encontra, por isso mesmo fui incapaz de deixá-la sozinha, passei a noite no seu apartamento e de manhã acordei sobressaltado com o estrondo que ouvi, percebi que vinha da cozinha e por isso fui ver o que se passava, encontrei a Mari a apanhar os cacos do chão.
- Tu?! – falou assim que lhe agarrei nas mãos
- Sim… anda – puxei-a para que se levantasse – senta-te que trato disso…
- Deixa-me… isso é só um copo partido que escapou-me das mãos…
Voltei a olhá-la e percebi o porquê que deixou o copo cair, todo o seu corpo tremia, tentei que comesse alguma coisa por achar tratar-se de fraqueza mas não consegui, resolvi então partir para a última solução, obriguei-a a mudar de roupa, algo que tive de ajudar apesar do constrangimento que a situação nos causou ou melhor que me causou a mim porque à Mariana duvido que lhe tenha causado alguma coisa, não no estado em que está, e depois saímos, só parei no hospital onde a rapariga foi assistida, colocaram-na a soro.
***
Regressei ao hospital horas depois, uma vez que tive treino, e encontrei-a com melhor aspeto, pelo menos já não estava tão pálida, fiquei a fazer-lhe companhia até ter alta e assim que a recebeu acompanhei-a, a Mariana nem refutou e por isso desviei caminho, não fomos diretos ao seu apartamento mas sim apanhar um pouco de ar.
- Rui… - olhei e encontrei-a já de pé – vou visitar a Maria – falou determinada – prometi e vou cumprir!
- Tens a certeza?! – perguntei afinal perdeu os seus filhos
- Não… mas é o correto… - a voz dela esmoreceu – vens comigo?
- Sim… se é isso que queres, vamos!
Acompanhei a Mariana na visita à Maria, algo que deixou o João intrigado, sim porque a Maria ficou radiante por ver a prima que nem questionou a minha presença ao lado da Mariana em vez de ser o Ruben. Estava no meu canto a observar a rapariga, por esperar que quebrasse a qualquer momento quando o João avisou que iriamos beber um café, olhei-o e percebi a sua intenção, nem contestei apesar de ter noção que não lhe poderia dizer a verdade.
- Puto o que se passa? - olhei-o - Nem tentes negar que sabes mais do que eu… que treta é esta de agora andares atrás da minha prima?
- Hey calma aí… não ando atrás da Mariana ou pelo menos não nesse sentido que estás a insinuar - falei, afinal não gostei do tom de voz do João - e sim, tens razão, sei o que se passa mas não posso dizer… desculpa mas é um assunto delicado e pessoal…
- Mas quem queres enganar?! Conheço-te… e sei que ultimamente só te queres divertir mas com a Mariana não, ouviste? Ela é mulher do Ruben…
- Pensa o que quiseres mas antes de me condenares por um crime que não cometi é melhor falares com o Ruben, isto se a ti atender as chamadas porque a mim recusa-as…
- Mas o que se passa com estes dois? Estão novamente armados em parvos…
- João – hesitei mas acabei por deixar escapar algo que o alarmou – não os julgues… a última coisa que precisam é disso…
- Fala! Diz-me o que se passa porque já percebi que da Mari não vou arrancar nada e o Ruben casmurro como é...
- Desculpa mas não dá…
O João teria insistido mas a saída repentina da Mariana do quarto e a urgência dela em procurar um porto seguro foi de tal ordem que quando reparei já a tinha abraçada a mim, a chorar desesperada.
- Mariana… - o João tentou falar mas fiz-lhe sinal para não o fazer e levei a Mariana comigo, sentei-a numa cadeira e fui buscar uma garrafa de água.
Foi quando a rapariga já estava mais calma que vi a Ana a aproximar-se, temi que a Mariana voltasse a reagir menos bem mas isso não se verificou.
- Vem comigo! – a Ana ordenou mas a Mariana não mexeu um único músculo – Estás a ouvir? Deixa de ser teimosa… o João chamou-me porque tiveste uma crise de nervos – a Mariana continuava “a leste” – Mariana estás grá… - não deixei a Ana terminar, a Mariana não precisava que lhe relembrassem que os nervos prejudicam a gravidez, a rapariga aprendeu isso da pior forma possível e por isso mesmo puxei o braço da médica e amiga deles.
- Ana – respirei profundamente – a Mariana abortou.
- Como?! Não… não é possível… se fosse verdade já sabia!
- Infelizmente é verdade… mas só nós, o Ruben e a Mariana é que sabemos…
- Mas como…
- No dia que o Guilherme nasceu a Mariana perdeu os gémeos, sei disso porque encontrei-a com dores e acompanhei-a ao hospital… a Mariana não quis contar a ninguém e só o disse ao Ruben porque a obriguei.
- Como é que eles estão?
- Pois… não estão. A Mariana está no estado que vês e o Ruben a última vez que o vi estava-se a recriminar e agora não atende o telemóvel, só te contei a ti porque calculei que és a médica da Mariana…
- Tenho que a observar…
- Duvido que deixe mas hoje levei-a novamente ao hospital, esteve a soro e quanto ao resto foi-nos dito que é uma questão de tempo para recuperar…
***
Saímos do hospital e seguimos para o meu apartamento, a pedido da Mariana uma vez que não conseguia ficar sozinha e muito menos naquele apartamento cheio de recordações.
Mostrei-lhe os meus modestos aposentos e deixei-a à vontade, arranjei-lhe umas calças e camisola minha para se trocar e quando voltei a vê-la, a rapariga surpreendeu-me ao pedir que a deixasse ajudar-me a preparar o nosso jantar, a atitude dela agradou-me, pelo menos estava a tentar reagir.
Jantamos sem grandes conversas e no final a Mariana pediu-me se podia usar o portátil de forma a consultar o email, dei-lhe autorização e a devida password para ligar o portátil.
Acabei de arrumar a cozinha e quando voltei à sala encontrei-a a chorar, aproximei-me e ao sentar-me do seu lado foi impossível não olhar para o ecrã, percebi tratar-se de um email do Ruben e por isso li, o rapaz simplesmente desistiu e isso abalou a Mariana. Deixei-a extravasar a dor e umas horas depois já dormia, talvez vencida pelo cansaço.

Mariana
Acordei com uma dor de cabeça enorme, talvez por não ter dormido nada, mas isso não foi impedimento para sair da cama.
- Oi... – murmurei um oi sem grande vontade quando vi o Rui a preparar talvez o pequeno-almoço
- Bom dia! – sorriu talvez numa tentativa de transmitir-me algum animo, tentativa essa falhada – senta-te para comeres...
- Não tenho fome – informei enquanto pegava numa das chávenas que estavam na mesa e vertia um pouco de café
- Nem penses que começas o dia sem ingerires alguma comida – bufei, não o conheço muito bem mas a segurança com que falou foi suficiente  para entender que o melhor seria mesmo meter algo à boca
- Tudo bem... – sentei-me e fingi que comi, pelo menos tentei disfarçar a ausência de vontade em comer
- Tenho treino daqui a nada – olhei-o – mas já deixei uma cópia das chaves aqui de casa no móvel no hall de entrada para no caso de precisares de sair... – o que falou surpreendeu-me, estava a oferecer-me um porto de abrigo mesmo sem conhecer-me de lado algum.
- Obrigada – agradeci – mas não vai ser necessário - as lágrimas caíram dos meus olhos – já fizeste muito... mais do que seria suposto – interrompeu-me
- Não te vou virar as costas, estás a precisar de alguém que esteja atento a ti e neste momento nem a Maria nem o João o podem fazer e como amigo que sou do João e sabendo o quanto gosta de ti podes ter a certeza que serei tal como uma carraça é para um cão, vou grudar em ti e assegurar-me que segues em frente, que darás a volta por cima...
As palavras do Rui tocaram-me, no fundo tem razão terei mesmo que dar a volta por cima nem que para isso tenha que fazer o enterro da vida que vive até ao presente, se quero um futuro minimamente decente tenho de reagir, foi a pensar nisso que ganhei forças e fui até ao quarto, voltei a vestir a minha roupa e antes de sair avisei o Rui.
- Vou visitar a Maria e o Guigas – o rapaz olhou-me não foi pena que vi no seu olhar foi mesmo apoio, algo que soube bem, pelo menos sei que não estou sozinha e que terei um sítio para esconder-me quando assim for necessário, quando precisar de estar simplesmente sozinha, chorar e recarregar baterias para continuar em frente.
Segui para o hospital, se quero recuperar alguma dignidade, sim sinto-me a pior pessoa por ter perdido os meus bebés, terei que aprender a transformar a dor da perda em amor... amor pelo meu afilhado que não tem culpa nenhuma do caos que está a minha vida e a Maria... a Maria também precisa de mim, talvez seja mesmo esse o rumo certo, dedicar-me aos outros e esquecer que morro a cada segundo, viver na sombra da felicidade dos outros e aos pouquinhos ir aprendendo a viver com o sentimento de culpa que carrego por ter morto os meus bebés.
- Mariana! – ouvi a Ana assim que aproximei-me do quarto da Maria, parei e após respirar profundamente, voltei-me e vi no seu olhar compaixão
- Diga Dra. Ana – olhou-me abismada
- Mariana... amiga – deu um passo em frente enquanto dei dois para trás
- Não faças isso... não preciso que tenham pena de mim e muito menos quero falar do que aconteceu...
- Mas tens de falar... tens de ser seguida...
- Eu sei... e vou sê-lo mas não por ti... desculpa mas não consigo voltar a entrar na clinica, voltar a deitar-me naquela maca e olhar para o vazio... não Ana... esquece...
A Ana ainda tentou convencer-me a procurar apoio psicológico porque segundo ela é uma fase complicada mas não aceitei, complicado foi viver na incerteza que podia ter sida, perder os meus filhos é viver com uma culpa para todo o sempre, é saber que sou tão ou mais homicida que os que estão presos, porque foi isso que fiz... matei os meus bebés por ser teimosa e infantil.
Estive o resto da manhã com a Maria e o Guigas, é certo que vê-la com o menino nos braços destrói-me mas também ajuda a clarificar as ideias, tenho mesmo que aprender a lidar com as consequências dos meus atos e se não posso ser condenada pela morte dos meus bebés, posso sempre cumprir a minha sentença, esta é ficar do lado do meu afilhado, vê-lo crescer e amá-lo, é apoiar a Maria nesta fase inicial, é fingir que estou bem para que a minha amiga fique serena e consiga cuidar do meu pequenino. Foi a pensar nisso que quando a Maria pediu que fosse para a sua casa não hesitei e mesmo sabendo que não será fácil, estou disposta a isso, já a prejudiquei demasiado, ter-me afastado da Maria foi um erro que podia ter custado também a vida dela ou do Guigas e esse erro nunca mais irei cometer, porque não serei capaz de viver com uma culpa tão grande.
***
Três dias passaram, comigo dividida entre o hospital, o apartamento do Rui e os passeios solitários mas que têm ajudado para manter a cabeça ocupada, hoje foi o regresso a casa da Maria e o momento que o Guigas conheceu o seu lar, mas foi também o dia que contei que já não há bebés, a Maria respeitou o meu pedido e simplesmente apoiou-me sem grandes perguntas.
***
Um mês passou desde o fim de uma vida que nunca foi minha, hoje já percebo as palavras que li e reli centenas de vezes naquele email que o Amorim enviou-me, realmente ser mãe e casar nunca deveria ter feito parte dos meus planos…
Hoje acordei mais uma vez na casa do Rui, sim tenho ficado no seu apartamento mais vezes do que aquelas que seria suposto, mas a verdade é que ser a quase a mãe do Guigas tem arrasado comigo, a Maria atravessou uma fase complicada mas felizmente já passou e agora já cuida do filho como uma mãe deve cuidar, por isso mesmo já não precisa de mim constantemente e foi no Rui que encontrei o escape, foi o lagarto que acompanhou-me e animou-me sempre que precisei, principalmente no dia que contei à Maria que afinal já não será madrinha, pelo menos de um filho meu, esse dia foi difícil, relembrei a perda dos meus minimeus e tudo o que daí resultou mas mais uma vez o meu amigo esteve presente e não deixou que voltasse a bater no fundo, tal como esteve presente no dia que recebi todos os meus pertences que se encontravam em Braga e que foram enviados pelo Ruben sem aviso prévio, ou como esteve do meu lado na consulta que a Ana obrigou-me a ter ou ainda no dia que enfrentei os Mendes e que esclareci que preciso de tempo para aceitar a mentira que contaram, que quero simplesmente deixar o tempo passar para a mágoa desaparecer.
- Maria despacha-te! – reclamei afinal já devíamos estar em Alvalade
- Tem calma… ainda temos tempo… afinal que pressa é essa para veres os lagartos? Ou será que é um lampião bracarense que queres ver?
Não respondi, se há algo que aprendi nestes trinta dias, foi a bloquear os meus ouvidos ao assunto Amorim.
Chegamos a Alvalade e tal como tinha combinado, com o Rui, subimos de imediato para o camarote, onde encontrei algumas das namoradas dos lagartos, cumprimentei-as e apresentei a Maria às que ainda não conhecia.
- Bem… não sabia que estás assim tão entrosada…
Não lhe dei resposta, acomodei-me simplesmente na cadeira exterior do camarote e fiquei a ver o aquecimento do Rui que entretanto tinha pisado o relvado. Estava concentrada nele quando ouvi a primeira assobiadela da noite, não foi difícil adivinhar o motivo, a equipa do Braga tinha iniciado o aquecimento, neste momento começou uma luta árdua dentro de mim, a razão contra o coração, a primeira impedia-me mas a segunda obrigava-me a olhá-lo, resisti durante o aquecimento todo, bem como parte do jogo mas quando percebi que seria substituído caí no erro de olhá-lo, o Ruben parecia feliz, sim feliz e isso corroeu-me, já teria esquecido tudo o que partilhamos…

Ruben
Os primeiros dias foram complicados, entrar em casa e não ter a Mariana à minha espera doía, tal como doía abrir o armário e encontrar as suas roupas ou olhar para os móveis e ver fotos ou objetos dela, por isso tomei a decisão de guardar tudo em caixas e enviei-lhe por uma empresa de mudanças. Desde esse dia que nunca mais tive contato com a mulher da minha vida, que infelizmente terei que esquecer e por isso mesmo voltei ao que fui no passado, pelo menos enquanto andava entretido com outras não pensava na merda de vida que tenho.
Um mês passou e o regresso à capital aconteceu, sim desde que descobri que a Mariana abortou nunca mais regressei, talvez por medo de não resistir procura-la, mas hoje o Braga joga com o Sporting e por isso não tive como fugir. Passei o dia com um só pensamento, sabia que se perguntasse ao Rui notícias da Mariana que as teria por isso só tinha que evitar cruzar-me com ele.
O jogo correu bem, apesar de ser substituído até fiz um bom jogo e no final despachei-me rapidamente afinal tinha alguém à minha espera, a verdade é que não regresso a Braga com a equipa e convidei a minha mais recente “amiga” a conhecer a capital assim sabia que não caía na estupidez de procurar a Mariana.
Estava ao telemóvel, a falar com a Sofia para saber onde estava quando oiço a voz do Rui, olhei e encontrei-o com a Maria que tinha o Bruno no colo, foi impossível fingir que não os tinha visto porque a minha amiga chamou-me, aproximei-me e a cada passo que dava sentia o meu coração a apertar mais, porque se a Maria ali estava a Mariana também estaria…
- Boa noite – falei assim que fiquei diante do meu afilhado e da mãe
- Seja bem aparecido! - a Maria reclamou
- Desculpa… - teria continuado a justificar-me mas fui abraçado e beijado, sim a Sofia aproximou-se sem que tivesse visto e quando reparei tinha a Maria a olhar-me desiludida – Maria…
- Cala-te! Não vales nada… a minha prima a sofrer e já andas noutra… agora percebo a merda de email que lhe enviaste… o porquê que nem pelo Guigas voltaste a Lisboa, o porquê que sempre que falávamos afirmavas estar bem… sempre pensei que mentias mas pelo que vejo estás excelente…
A Maria voltou costas e desapareceu com o Guigas e quando virei-me para a Sofia numa tentativa que me largasse, vi a Mariana especada a olhar, não consegui descortinar o que lhe ia no pensamento, estava simplesmente inerte, não sei porquê, só sei que quando caí em mim estava diante da Mariana, tinha caminhado até si.
- Mariana… - olhou-me – como… como é que estás? – perguntei mas que raio de pergunta mais estúpida
- Como estou? – sorriu mas um sorriso diferente de todos os que já vi como sendo seus – a respirar… sim é isso… estou a respirar – atirou antes de se afastar, segui o seu trajeto com os olhos e facilmente percebi que caminhava para os braços de outro…

Mariana
O que temia aconteceu, cruzei-me com o Ruben, pior ainda confirmei com os meus olhos que sou passado na vida dele, doeu vê-lo agarrado a outra, a beijar uma loira oxigenada mas tudo aquilo deu-me também força, sim parece mentira mas senti força, encontrei ali um motivo para destruir de vez o pouco que ainda me ligava ao Ruben.
- Vamos?! – perguntei assim que cheguei junto do Rui e da minha prima
- Mari…
- Prima – olhou-me surpreendida, pela primeira vez desde que descobri que não sou Mendes de sangue chamei-a de prima – M-O-R-R-E-U – soletrei letra por letra.
- Oh prima – a Maria abraçou-me
- Oh prima nada! – soltei-me dos seus braços – Sim doeu mas serviu para perceber que só perdi tempo do seu lado, o Ruben acabou de morrer para mim, é passado e apesar de estar a doer sei que o vou esquecer e encontrar algo que preencha o vazio que deixou – respirei fundo – e agora vamos que tenho de deixar-te em casa antes de seguir com o Rui – o meu amigo sorriu – sim que hoje preciso do meu lagartinho preferido…
Saímos do estádio no meu carro, fui deixar a Maria a casa e pelo caminho o assunto “Ruben” não surgiu. Despedi-me da minha prima e do Guigas e segui com o Rui no seu carro.
- Onde queres ir?
- Rui… lagartinho… decide tu… estou por tua conta e risco!
- Gosto disso… - olhei-o e encontrei-o a sorrir – ah e só digo uma vez… esquece não te merece…
- Sim… sei disso mas dói na mesma…
- O que dói e não mata torna-nos mais fortes… se está a doer é sinal que está a sarar… daqui a um tempo será só mais uma história que fará parte do teu passado…
- Sim…
O resto da viagem foi animada com o Rui a contar piadas o que é hábito nele, somos jantar os dois e depois seguimos para um bar. Pedimos uma bebida cada um e fomo-nos sentar numa mesinha num canto recatado, estávamos a falar quando reparei na presença do Exmo. Sr. Dr. Ruben Amorim e da sua loira oxigenada.
- Que foi? – perguntou quando bufei, simplesmente fiz sinal com a cabeça, o que foi suficiente para perceber o motivo – queres ir embora?
- Não… anda vamos sacudir a poeira!
- Vamos o quê?!
- Dançar filho… dançar…
- Bora!
Levantamo-nos e com o copo na mão fomos até ao centro da pista de dança, pelo menos lá não conseguia vê-lo. Não sei o tempo que tivemos a mexer-nos, sim mexer-nos porque se há coisa que o Rui não tem jeito é para dançar, por isso mesmo estávamos mais numa de conversarmos enquanto mexíamos os pés e bebíamos.
A noite que chegou a estar ameaçada pela presença do Amorim acabou por se revelar positiva, deu para distrair-me mas principalmente cansar-me, tanto que quando cheguei à cama, do quarto de hóspedes do apartamento do Rui dormi até à hora de almoço.

Ruben
A forma como respondeu e depois como a vi de sorrisos para o Rui deixou-me triste, a Mariana estava a seguir em frente, a fazer o que lhe disse para fazer, confesso que esperava encontra-la abatida ou mesmo de rastos, mas não, a Mariana estava bem… sim bem porque se não estivesse nunca teria conseguido responder-me com aquela calma toda e muito menos agir como se nada fosse… será que já esqueceu tudo o que vivemos? Será que o aborto foi mesmo o melhor? Será que algum dia vou encontrar alguém capaz de preencher o vazio que deixou no meu coração…
Estava a pensar nisso quando sou interrompido pela voz da Sofia a pedir para irmos até a um bar, fiz-lhe a vontade, até porque se fosse para casa seria bem pior, afinal o meu apartamento contínua como o deixei, cheio de recordações da Mariana… Escolhi o bar ao acaso, para mim qualquer canto servia… tive a sorte da escolha agradar a Sofia, tanto que quis dançar, fiz-lhe a vontade mas arrependi-me amargamente de o ter feito, pois tive que ver a Mariana nos braços de outro, assisti de “camarote” à descontração daqueles dois, o Rui e a Mariana dançavam, falavam e sorriam, sim sorriam, aquele sorriso dela… que em tempos foi meu agora pertencia a outro, muito provavelmente até o seu corpo já lhe tinha entregue, a cumplicidade que demonstravam ter espelhava isso perfeitamente… sim sem duvidas que já tinham ido para a cama…
***
Rui
Acordei com uma voz doce a chamar-me, não foi difícil perceber de quem seria, afinal no último mês tem sido frequente acordar com a Mariana a chamar-me, a verdade é que sinto-me um autêntico puto que é acordado pela mãe quando já tem o pequeno-almoço na mesa. Nestas últimas semanas construí uma amizade sincera com a Mari, é incrível a forma como lida com a dor da perda, conseguiu dar a volta por cima e apesar de ainda lhe doer e muito já não se deixa abater sempre que ouve o nome do Ruben, no início de Junho começou o carnaval em torno do regresso do rapaz ao Benfica e desde esse dia o nome dele aparece sempre ou em conversas ou quando vemos as notícias mas ao contrário do que temi para a Mari já lhe passa ao lado, ainda assim sei que magoa mas evito tocar no assunto.
- Ainda demoras?! – perguntei já farto de a esperar
- Entra! – pediu-me afinal há uma barreira que sempre fizemos questão de impor entre nós, a barreira do respeito mutuo e não invadimos a privacidade um do outro a menos que seja autorizado como neste caso em que pediu que entrasse – Ajuda-me aqui…
- Realmente… mulheres! – olhou-me de lado – sim são todas iguais… querem meter colares e depois quem os coloca somos sempre nós…
- Oh… deixa-te de coisas e vamos que não posso chegar atrasada ao batizado do meu afilhado
- Levasses menos tempo a despachar-te!
- Ai… já tiveste a falar melhor… olha que para amigo andas a opinar demasiado como apêndice – gargalhei perante a forma como se referiu a um namorado
- Engraçado… a menina é que está em casa alheia – impliquei e por isso fomos o caminho todo a retorquir um com o outro, algo que em nós é comum.
Chegamos a casa do João e tivemos o desprazer de nos cruzarmos de imediato com o Ruben.
- Olá – a Mariana tomou a iniciativa de o cumprimentar com um beijo no rosto, o que o surpreendeu pois não conseguiu reagir.
- Tudo bem? – segui o exemplo da Mari e também o cumprimentei afinal não tenho nada contra o rapaz.  
- Sim… - o Ruben olhou-nos alternadamente – e convosco?
- Melhor impossível… - a Mariana esclareceu-o – o nosso afilhado onde anda?
- No quarto à espera que a madrinha o vá vestir…
- Ups… - a Mariana virou-se para mim – já estou a levar nas orelhas e a culpa é tua… sim tua porque te fiz o pequeno-almoço…
A Mariana fez de propósito para que o Ruben percebesse que tínhamos passado a noite juntos, por momentos tive vontade de desmentir os pensamentos que o Ruben deve ter tido mas não o fiz até porque a Mari se afastou e o Ruben seguiu-a.
- Puto – olhei para o João – agora que somos só os dois confessa lá que já és meu primo…
- Estás parvo?!
- Ohhh vais dizer que nunca…
- Cala-te… não digas disparates porque isso não tem fundamento nenhum, somos só amigos.
- Sim… pois… e eu sou virgem queres ver?!
- João se conheces a Mari sabes perfeitamente que ama o Ruben, pode não o admitir mas ama… tanto que ama que é o nome dele que diz enquanto dorme… só ainda não percebi se é sonho ou pesadelo… a sério pára com essas bocas porque entre nós não se passa rigorosamente nada, ao contrário do Ruben que seguiu mesmo em frente a tua prima ainda continua de certa forma pressa ao passado.
- Então e tu?
- Eu?!
- Sim não te faças de desentendido… já curaste os teus males de amores?!
- Está quase… mas prefiro não falar disso…
O João respeitou o meu pedido e acabamos por ir até ao quarto onde o Guigas estava a ser vestido, assim que lá entrei o meu olhar cruzou com o da Mariana e percebi o esforço que fazia para sorrir, a presença do Ruben do seu lado estava a consumi-la, ainda assim aguentou firme.

Como terminará o dia?

11 comentários:

  1. Olá! (que conste que vou conter-me nos palavroes, a Mari ja os leu uma vez quando discutimos o assunto Amorim nos tempos livres xD)

    Primeiro, nao gosto do Ruben. que va pastar! ele desistiu por isso nao posso ficar do lado dele! nao o fez so pela mari, mas tambem por ele, porque preferiu desistir a lidar com a culpa. é fraco e voltou à era de comer tudo o que mexe. Homens! -.-'

    Quanto à Mariana agradou-me que conseguisse reagir e ate...destroçar um bocado o Amorim ao dar a entender qe esta com o rui mesmo que nao esteja (o ruben merece que ela use e abuse da qualidade de martiriza-lo!)

    Este batizado vai dar que falar... Estou para ver isso!

    Venha o proximo!!

    Beso
    Ana Santos

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  2. Olá meninas : )
    Peço imensas desculpas por andar desaparecida!
    Tenho lido os vossos capitulos e tenho adorado com já é hábito!
    Espero que este dia continue a correr bem ahah adorei o facto do Ruben achar que a Mari está com o Rui xD
    Aguardo o proximo
    Beijinhos
    Ritááá xD

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  3. "naquele email que o Amorim enviou" confesso que ver a Mariana tratar o Ruben por Amorim não me agrada, é triste :(
    Não posso concordar com a Ana Santos não acho que ele desistiu apenas lhe deu espaço para a Mari poder curar as feridas dela, porque com a perda dos bebés, eu acho que, ela percebeu que estava errada em relação à Maria e até mesmo à família.
    Estou a gostar da personagem do Rui, talvez venha a sofrer se se apegar demais à Mariana, mas acho que ambos merecem um final feliz e o Ruben também.
    Estou a gostar mesmo do rumo da Maria e do João afinal agora são uma família e estão a agir como tal, espero que continuem assim, porque para eles já basta de confusões.
    Abreijos
    PatríciaQ

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  4. Adorei quero o próximo.bjs

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  5. "Lagartinho"??? "Amorim"??? Qué isto????
    Meu deu, neste momento tenho o coração completamente partido!!
    Como é que o Rubén foi desistir?? Que fraco!!! E ainda por cima voltou aos velhos tempos!! Que estupor!
    Detesto ver a Mariana com o Rui!!! Não gosto nada!! E agora até já vê jogos do Sporting?! :o Coitada a rapariga está mesmo mal!!!
    Bem é bom que isto comece a melhorar porque eu só tenho um coração!!!!

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  6. Ah estou ansiosa para ver no que vai dar este batizado!! Espero que pelo menos o Rubén não leve companhia! Ele foi mesmo parvo em desistir!!E deixa-me realmente triste que a Mariana o trate como o Amorim! Mas ela até me surpreendeu em cumprimentar o Ruben!
    Estou ansiosa pelo próximo, quero ver como corre este batizado!

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  7. Olá! :)
    Eu não queria ver o Amorim (para usar as palavras da Mariana) "baixar os braços",por isto vocês vejam lá como vem o próximo que não quero que ele faça mais "asneiras" lool
    Fico à espera de mais deste baptizado (que acho vai dar que falar :P)
    Beijinhos
    Rita

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  8. fabuloso...

    quero mais... cada vez está melhor...

    continua... tou super curiosa para ver o proximo...

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  9. A cada capítulo, uma emoção diferente. Ai, meu heart!! LOOL
    O Ruben... af, o Ruben é mesmo parvo, pelo amor. Primeiro fez o que fez, depois ainda tem a cara de pau de insinuar mentalmente o que insinuou em relação à Mariana. Ok, também não sou lá muito fã desse Rui mas ele acha que tem moral pra falar alguma coisa? É que eu acho que não, muito menos com essa loira ao lado. A Mariana que está reagindo a tudo muito bem.
    Estou amando, quero muito saber como vai ser esse batizado.
    Beijos :*
    Gabi

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  10. Olá.
    Capítulo lido, e só tenho a dizer que o Rúben é qualquer coisa de...hun...idiota!? Não, é pior do que isso mas nem sei se consigo um insulto que esteja à altura xb

    Beijinhos

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  11. Eu não condeno o Ruben, e não acho que ele tenha desistido, acho que acima de tudo ele culpa-se por não ter estado junto da Mariana no momento em que ela mais precisou dele, por isso ele se afastou, pois ele acha que a presença dele só a prejudica, e por gostar tanto dela escolheu afastar-se. Também não gosto que tenha voltado à antiga vida. A Mariana também não tem tido uma atitude melhor, embora não ande enrolada com o RP, também não me agrada esta proximidade, e até o facto de passar as noites na casa dele ela podia evitar, mas no fundo o que ela gosta mesmo é de continuar a provocar o Ruben, porque ela pode dizer as vezes que quiser que o Amorim morreu, que ninguém vai acreditar, acho que nem ela mesma. Se ela quer ser forte, ou melhor, mostrar que é forte acho que não é assim, perder um filho não deve ser fácil, mas ela acabou por perder os filhos e o homem que ama, se em relação aos filhos pouco podia fazer, em relação ao Amorim, como ela diz, podia lutar mais, mas também ela desistiu. Nesta história não há um culpado mas dois, porque são os dois responsáveis pela situação que estão a viver. A única coisa boa é que a Mariana voltou para junto da prima, agora só espero que o batizado corra bem.
    Adorei o capitulo, como sempre, e adoro a história como já disse tanta vez à Mari.

    Beijocas

    Fernanda

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