Mariana
Ouvir da boca do
Ruben o quanto adorou assistir ao parto da Maria destruiu o muito pouco que
ainda restava de mim, não tive coragem para continuar a olhá-lo, sabendo o que
sei. Saí de casa sem olhar para trás e assim que cheguei à rua, respirei
finalmente ar puro, enchi os pulmões de ar e após algum tempo sem saber para
onde ir, lembrei-me do Rui, liguei-lhe e assim que percebeu quem lhe ligava
afirmou convictamente que viria ter comigo, disse-lhe onde estava e cerca de
uma hora depois já o tinha do meu lado, trocamos algumas palavras, não muitas,
porque não estava em condições de o fazer, mas ainda assim foram as suficientes
para que no momento que convidou-me a subir até ao seu apartamento o tenha
feito sem hesitar, afinal estava mesmo a precisar de um sítio sossegado para
descansar um pouco.
Estava sentada no
sofá a olhar não sei bem para o quê quando senti uma necessidade extrema de lhe contar tudo, sim
tudo, simplesmente falei e o Rui ouviu, voltei a sentir-me estranha mas ao
mesmo tempo aliviada, o rapaz durante o tempo que falei esteve sempre calado
mas no fim deu-me na cabeça, não se preocupou se iria ou não gostar do que
ouvia, acho que unicamente disse aquilo que julgava ser o certo e entre muita
coisa que falou, ouvi-o a afirmar que o meu lugar é ao lado do Ruben, agora
mais do que nunca e que para isso tenho que lhe contar tudo, recusei-me a
fazê-lo mas o Rui não se deu por vencido e voltou a insistir, foi de tal forma
que saí da sua casa com a promessa que contaria ao Ruben.
***
Regressei ao meu
apartamento e apesar de não estar a contar que o Ruben lá estivesse à minha
espera também não estava preparada para encontrar um bilhete dele
Mariana,
Quando te
dignares a ter atitudes de uma mulher adulta avisa... Não vou mais procurar-te,
estou a chegar ao meu limite, acho que já aceitei tudo o que tinha para
aceitar, esta tua atitude só me faz entender que talvez não te conheça, estou
farto de olhar para ti e não encontrar mais a minha Mariana.
Não estou a dizer
que tens de andar de sorriso na cara, até porque nem sequer imagino o que é
descobrir o que descobriste mas independentemente disso tens um passado em que
foste amada e isso só não continua no presente porque estás a ser criança!
Acorda para a
vida porque garanto-te que ninguém mas mesmo ninguém atura as tuas birras
eternamente!
Pensa bem no que
queres... pensa nos nossos filhos... já nem te digo para pensares em nós porque
sinceramente acho que já desististe do “nós”...
Mariana, decide o
que queres e depois comunica!
Vou até ao
hospital despedir-me do nosso afilhado e da restante família, sim que para mim
os Mendes são e serão sempre parte integrante da minha família!
Regresso ainda
hoje para Braga, já não deveria estar cá, mas como mais uma vez só pensaste em
ti, sem te preocupares comigo fiquei cá por não saber nada de ti... mais valia
ter regressado afinal não fiquei mesmo a fazer nada cá...
Fica bem! E cuida
dos nossos filhos... neste momento é só o que te peço...
Ruben Amorim
Ler cada palavra
daquelas só serviu para sentir-me ainda pior, fui completamente descartada e
sinceramente nem o posso culpar, afinal a culpa é só minha, ainda assim não
reagi ou melhor reagi, fiz o mesmo que as avestruzes, enterrei a cabeça na
areia, ou seja, ignorei o bilhete, fui até ao quarto e deitei-me, afinal não tinha
mais motivos para sair daquela cama... mas só estive uns minutos deitada,
levantei-me e sem pensar duas vezes para não me arrepender saí de casa com um
só destino, o hospital.
Confesso que ao
entrar no hospital perdi momentaneamente as forças, ao vislumbrar ao longe os
Mendes, num espaço de minutos revivi mentalmente toda a minha vida, tudo por
que passei, dei comigo a perceber uma série de situações que até então não
tinha entendido, como o zelo em demasia do Manuel, de como não queria que
andasse muito próxima dos rapazes, talvez só quisesse evitar que tivesse o
mesmo destino que aquela que me carregou no ventre, ainda assim não consigo
esquecer que sou única e exclusivamente uma MENTIRA desde o início até ao fim.
Para agravar
ainda mais a revolta que senti foi impossível não recordar as horas que estive
internada, aquelas em que... estive sozinha para o Ruben acompanhar a minha
prima, senti a cabeça a latejar e as pernas a tremerem ainda assim e sem saber
onde arranjei forças para continuar a andar, esquivei-me de forma que os Mendes
não me vissem e abri a porta do quarto que sabia ser o da Maria sem bater, ao
fazê-lo ouvi o desabafo do João
- Maria por amor de Deus CHE-GA! Esquece a
Mariana! Amor eu não aguento mais ver-te ai a amargurares quando devia ser o
momento mais feliz das nossas vidas só porque a tua prima para não variar está
a ser egoísta
- É optimo saber que somos bem consideradas pelos
amigos João é muito bom mesmo! - não aguentei e
mesmo sabendo que não tenho razão tive que resmungar e só não alonguei mais
porque a voz da Maria assim o impediu
- Pri... Mariana! - senti o meu coração a
mingar mais um pouco perante as saudades de a ouvir chamar-me prima, de sentir
o confroto do seu abraço - Eu queria
poder levantar-me e abraçar-te, mas eu não posso! Vem aqui por favor! Eu
preciso de um abraço teu!
Não a fiz esperar
mais, aproximei-me da sua cama e abracei-a, como soube bem aquele abraço, sei
que só não o recebi mais cedo por culpa minha, que fui eu que afastei a Maria
mas agora mais do que nunca precisava do seu apoio, mesmo sem lhe puder contar
o que se passou, mesmo sem ela nem sequer imaginar estava a reconfortar-me como
só ela sabe.
- Achas que posso conhecer o meu afilhado ou o
pai além de não te querer a falar comigo também não quer que o filho me
conheça? - falei após respirar fundo para que a
voz não me falhasse e denunciasse assim a lastima em que estou.
- Bruninho esta aqui é a maluca, chanfrada,
destrambelhada e completamente alucinada da tua madrinha, mas o papá assim como
a mamã e o padrinho adoram-na e tu vais adorar também! - não aguentei e ao ouvi-lo foi impossível
segurar as lágrimas, o mesmo aconteceu com a Maria, se bem que chorávamos por
motivos diferentes, ela talvez por alegria, já eu... por tristeza e completa
amargura provocada pelo que escondia e que jurei para mim mesmo não contar... - Desculpa amiga, mas convenhamos que não
tens sido fácil...
- É eu sei... - admiti ao baixar o olhar - agora
dá-me cá o Guigas que eu quero ver, sentir e cheirar a minha pipoquinha!! -
só eu sei o que custou dizer em voz alta tal desejo... mas no momento que
pequei pela primeira vez naquela doçura senti-me em paz comigo mesmo, é
estranho mas o Guigas transmitiu-me a serenidade que tanto procurei nestas
últimas semanas, ainda assim não consegui evitar sentir inveja da Maria e do
João, é feio mas foi o que senti, eles amam-se e agora têm o seu bem mais
precioso enquanto eu... eu não tenho nada a não ser o sentimento de culpa...
Estava a babar o
Guilherme quando senti o Ruben a aproximar-se e assim que a distância permitiu
abraçou-me, não consegui reagir e pior foi quando senti as suas mãos na minha
barriga, a vontade que tive foi de correr dali para fora mas até para isso fui
incapaz, acabei por deixá-lo estar próximo de mim e por muito que tenha tentado
obter uma reação minha fui incapaz de a dar.
Ruben
É oficial cheguei
ao meu limite, por muito que ame a Mariana não posso continuar a amparar-lhe os
golpes pois se o continuo a fazer nunca irá crescer e admitir que está errada.
Depois de lhe
deixar o bilhete segui para o hospital e assim que entrei a Maria perguntou-me
pela Mari, fui curto na resposta até porque o João explodiu ao afirmar que a
Maria tem que esquecer a prima e foi nesse instante que a porta abriu, ver o
meu amor trouxe-me sentimentos contraditórios, por um lado fiquei feliz de a
ver mas por outro com receio que fosse dar confusão, no entanto vi a Mari a
ceder por completo e num primeiro momento a aproximar-se da prima e de seguida
a pegar no Bruno.
Vê-la com o menino
nos braços fez-me sorrir ou não fosse ter imaginado nós os dois daqui a uns
meses com os nossos pequeninos, foi com esse pensamento que aproximei-me da
Mariana, abraçando-a, levei as mãos à sua barriga e senti-a a encolher-se,
nunca aquele meu gesto teve esse efeito na Mari, normalmente sorria mas hoje
ainda conseguiu fechar mais o seu rosto. A Mariana não afastou-me mas também
não retribuiu nem com um pequeno sorriso, algo que deixou-me desconfortável e
por isso mesmo quando o Fábio nos desafiou, a mim e ao João, a sairmos do
quarto nem hesitei, ainda assim aproximei-me da Mari e dei-lhe um beijo, que
não passou de um encosto de lábios, já que não reagiu.
- Puto... – olhei para o Fábio
- Diz!
- O que se passa?!
- Nada...
- Nada?! A quem queres enganar? – suspirei.
- Mano... - percebi que o João escolhia as palavras - é a Mariana não é? – olhei-o e nem tentei negar, afinal é mais do
que óbvio – Ficou chateada por teres
acompanhado a Maria, foi isso não foi? Daí não ter reagido quando a
abraçaste...
- Se queres saber não sei... já não a reconheço e
sinceramente não estou para continuar a viver assim...
- Puto! Não tomes decisão nenhuma... - o Fábio falou
- Não vou tomar decisão nenhuma, aliás deixei
isso para a Mariana, fui bem explicito no bilhete que lhe deixei...
- Bilhete?! - falaram os dois ao mesmo tempo
- Sim... bilhete! Foi a única forma que arranjei
para lhe dizer a verdade... só não sei se leu...
- O que escreveste?
- Resumidamente escrevi que se quiser regressar a
Braga sabe como o fazer, caso contrário juro que não vou correr atrás...
- Mano!! A Mariana está grávida... não lhe podes
virar as costas!
- Não lhe vou virar as costas mas também cresci
com os meus pais separados e não foi por isso que fui infeliz...
- Estás a ouvir aquilo que falas? Logo tu...
- João... viste bem que a Mariana nem sequer
falou para mim, não olhou e muito menos reagiu quando a abracei... e agora
também não retribuiu o beijo - baixei o olhar
- tê-la beijado a ela ou uma parede foi
exatamente o mesmo...
- A Mariana não anda bem... não sei o que se
passa - olhei para o Fábio - só sei que aquela não é mais a louca que
conhecemos no passado e muito menos a Mariana dos últimos meses... juro que não
percebo...
- Desculpa Fábio mas terá que ser a Mari a
contar-te...
- Na boa...
Continuamos à
conversa mas o tema mudou radicalmente ou não fosse agora o Bruno e as
primeiras horas de vida o assunto. Foi quando o João relatava o que se tinha
passado desde que abandonei ontem o hospital que recordei algo que a Mari falou
quando regressou ao seu apartamento.
- João não viste a Mari ontem?!
- Ãh?!
- Sim... não a viste?
- Desculpa?! A Mari só a vi agora quando
entrou...
- Mas ela disse-me que passou a noite no hospital
quando lhe perguntei onde esteve...
- Puto se isso for verdade não a vi... e no
quarto não entrou...
Fiquei a matutar
no assunto durante um bocado, afinal a Mariana mentiu-me mas acabei por
esquecer quando regressamos ao quarto e encontrei-a a trocar a fralda ao nosso
afilhado, o meu amor ainda adormeceu o pequenino e quando o deitou na sua
caminha ficou a observá-lo remetida ao silêncio.
- Mariana?! – aproveitei que os nossos amigos estavam numa conversa animada com a
Maria para tentar falar com a Mari.
- Sim... – respondeu sem nunca olhar-me – precisas
de alguma coisa?! – falou friamente o que fez com que perdesse
imediatamente a pouca paciência que ainda tinha para aturar as suas birras.
- Precisar até preciso... - assim que falei o pessoal olhou mas não impediu
que continuasse - preciso que acordes
para a realidade!
- E se não quiser a realidade... - foi bruta - e se a realidade for demasiado cruel para que a consiga aceitar... a
sério deixa-me... só quero estar sossegada!
- Ok... se é isso que queres... – respeitei o seu pedido e virei costas mas antes
de afastar-me não resisti e tive que perguntar - posso pelo menos saber se regressas a Braga?!
A Mariana não
disse mais nada, olhou-me só e senti um calafrio a percorrer-me o corpo, o
olhar dela estava vazio de sentimentos aliado à apatia em que estava fez-me
perceber que não adiantava insistir por isso mesmo ignorei-a, o que fez com que
não trocássemos mais nenhuma palavra.
Mariana
Desde que entrei
no quarto e que peguei no Guilherme sinto-me cada vez mais distante da
realidade, é verdade que já devia ter contado ao Ruben mas sinto-me incapaz de
o fazer, juro que bem tento mas sempre que começo a procurar a melhor forma
para o dizer perco de imediato as forças, talvez porque no fundo culpo-me pelo
que aconteceu, fui incapaz de cuidar de mim e por isso... Estava perdida em
pensamentos, já depois de ter trocado algumas palavras azedas com o Ruben
quando sou novamente “chamada à terra” pela Maria.
- Pri... Mari - olhei-a - anda para aqui!
- fez sinal para que me aproximasse e acabei por fazê-lo, sentando-me na beira
da cama bem do seu lado - daqui a uns
meses és tu - ouvir aquilo foi o mesmo que espetar facas no peito, não sei
como não deixei transparecer toda a dor que carrego ou talvez até sei, afinal
já chorei tudo o que tinha para chorar.
Não respondi
porque fui “salva” pela entrada de uma nova visita, que por sinal foi SÓ o Rui,
assim que os nossos olhares se cruzaram, um misto de sensações invadiu-me, por
um lado tive medo que o meu mais recente amigo abrisse a boca mas por outro
serenei, vi ali uma escapatória a toda a tortura que estava a ser subtida desde
que entrei no quarto.
O Rui
aproximou-se da Maria e depois de a cumprimentar foi ver o Guigas para logo
depois se “perder” na conversa com o João, ainda assim manteve sempre um
contato visual comigo, afinal os nossos olhares cruzaram-se por diversas vezes.
Estivemos todos
no quarto da Maria até recebermos ordem de “despejo” dada pela Ana, afinal
tanto a mãe como o filho precisavam de descanso.
- Voltas cá?! – a Maria perguntou
- Não sei…
- Oh Mariana… eu quero-te aqui comigo! Eu não vou
conseguir se não tiveres comigo – a Maria
enervou-se e só por isso fui obrigada a ceder
- Ok… amanhã volto cá!
- Isso quer dizer que não regressas comigo para
Braga?! – o Ruben foi bruto na forma como falou
ainda assim respondi com a calma possível dado o meu estado.
- Vou ficar com a Maria!
- Também preciso de ti – o Ruben resmungou e só serviu para revoltar-me
- Engraçado quando preciso de ti nunca estás – atirei de imediato – e se podes deixar-me sozinha para acompanhares a Maria eu também posso
fazer o mesmo! - o Ruben não teve coragem para contra-argumentar o óbvio e
por isso calou-se – Maria vou mas
regresso amanhã faz-me só um favor – olhou-me curiosa – quando não tiveres visitas liga-me que
venho cá fazer-te companhia…
- Sabes que não podes fugir eternamente, não
sabes?! – a Maria percebeu o que quis dizer com
“visitas”
- Não quero falar disso e agora tenho que ir - não lhe dei hipótese de falar e saí do quarto,
acompanhada pelo Ruben, Rui e Fábio porque o João teve autorização para ficar
com a Maria e a Ana ficou na condição de médica.
O Ruben não falou
mais, aliás não hesitou no momento de acelerar o passo e por isso pedi ao Rui
se por acaso não se importava de dar-me boleia, afinal as nossas casas ficam
para na mesma direcção, algo que não recusou, como tal quando chegamos ao
parque de estacionamento segui atrás do Rui, foi quando já estava a abrir a
porta do lado do pendura que ouvi a voz do Ruben
- Posso saber o que se passa??? - não gostei do seu tom de voz e ainda menos do
olhar dele para o Rui
- O Rui vai levar-me a casa - esclareci-o calmamente - e depois não sei...
- Mariana!! - falou todo ofendidinho
- Mariana o raio... lembraste-te agora que
precisas de mim, é?
Não lhe dei tempo
para responder porque entrei no carro e fechei a porta e assim que o Rui
entrou.
- Aquilo era escusado... - olhei-o de lado - o Ruben não merece...
- Ah e eu mereço?
- Mariana! O Ruben nem sequer sonha que a
realidade que julga existir afinal não passa de uma miragem...
- Já podia saber se não metesse a Maria...
- É que podes parar por aí!! Mariana que queiras
destruir-te é contigo mas não vou deixar que arrastes mais pessoas contigo - não o estava a reconhecer, o Rui que conhecia
nunca seria capaz de dizer tal coisa talvez por isso tentei sair do carro mas o
rapaz agarrou-me no braço - não sou o
Ruben que só para não te enervar porque provavelmente está só a pensar nos
filhos prefere acatar o teu egoísmo a ter que te enfrentar... a mim não
intimidas até porque sei mais do que o Ruben... e por isso mesmo digo-te ou
contas tu ou conto eu - senti a cólera a domar-me por completo, a raiva que
senti ao ser ameaça foi de tal forma que ainda levantei a mão mas o Rui
agarrou-a - nem penses! Mariana reage,
chora, excomunga-me, faz o que quiseres mas por favor não continues por este
caminho, não sei nem consigo imaginar o que sentes, afinal em semanas perdeste
tudo mas ainda te resta o Ruben, o rapaz ama-te...
- Nota-se o amor dele... olha só a pressa dele em
regressar a Barga...
- Compreendo-o perfeitamente, afinal aqui tem uma
doida que quer a todo o custo acabar com a sua vida e arrastá-lo a ele
também... e já em Braga tem o trabalho, ao qual não pode faltar…
Não respondi e o
Rui não insistiu, a viagem até ao meu apartamento foi feita no silêncio, que só
foi quebrado quando o convidei a subir, não queria ficar sozinha. Não sei as
razões pelas quais aceitou, só sei que o Rui subiu comigo.
- Fica à vontade – falei ao entrarmos na sala – vou só trocar de roupa…
Ruben
A Mariana está
completamente distante, quando a toco ou a beijo não sinto nada, não reage e o
fato de afirmar que fica em Lisboa para apoiar a Maria só revoltou-me mais,
afinal há umas horas nem a podia ver e agora só para não acompanhar-me no
regresso a Braga garantiu à prima que regressava para a visitar, algo que
revoltou-me e antes que lhe dissesse algo negativo acelerei o passo assim que
saí do quarto, precisava de uns minutos para respirar mas nunca pensei que
fosse presenciar o que presenciei, a Mariana não teve qualquer problema em
pedir boleia ao Rui e ainda a resmungar quando lhe pedi esclarecimentos.
Fiquei a vê-los
os dois a trocarem algumas palavras dentro do carro dele, o que revoltou ainda
mais, afinal não são amigos, logo não entendo o que tanto conversavam. Acabei
por seguir viagem ou melhor a ideia inicial foi essa mas a dúvida que se formou
cresceu de tal ordem de tamanho que inverti a marcha e só parei quando cheguei
junto do prédio do apartamento da Mariana e da Maria, não foi difícil encontrar
o carro do Rui e a certeza que estariam juntos fez com que subisse até ao
apartamento, entrei sem anunciar a minha presença e encontrei o Rui, sentado a
ver TV, aquilo revoltou-me e acho que só não parti para a violência porque o
rapaz falou.
- Ainda bem que chegaste… Ruben a Mariana não
está bem...
- Não preciso que venhas dizê-lo - respondi de forma rude e talvez por isso fui
interrompido
- O problema da Mariana deixou de ser com os pais - fez-se silêncio como é que o Rui sabia...
lógico que a Mariana contou-lhe
- CALA-TE!! - o berro da Mariana fez-me saltar e olhar para a porta, encontrei-a
como tem sido normal “vazia”, o seu olhar não transmitia nada, já nem dor - Cala-te! Não te dou autorização para
dizeres nada! - a Mariana começou a chorar.
- Chega Mariana! O Ruben tem o direito de
saber... precisas dele, aliás precisas da tua família, daquela que sempre
esteve do teu lado mas que por estupidez tua resolveste afastá-los e olha só no
que deu?! - o Rui estava a
ser bruto na forma como falava e ver a Mariana a chorar cada vez mais fez-me
vacilar e dar alguns passos na sua direção - Ruben não faças isso - olhei-o - não lhe ampares a queda, deixa-a cair, bater no fundo porque só assim é
que se irá levantar...
- Mas o que sabes tu?! Não a conheces... nem
amigos são... - ripostei e
quando esperava que respondesse algo foi a Mariana que o fez
- Mas foi o único que esteve comigo quando TU
estavas com a Maria! Quando me deixaste novamente para correres para a Maria
porque precisava, quando tu assistias ao parto de um filho que não é TEU foi o
Rui que... - a Mariana não
conseguiu continuar a falar, perdeu completamente as forças e deixou-se cair
levando as mãos à barriga, aquilo assustou-me, tanto que aproximei-me e tentei
levantá-la mas fui afastado - larga-me,
deixa-me - falava quase a sufocar no seu choro - não quiseste saber de mim, deixaste-me sozinha para veres o filho de
outro nascer...
- Chega! Mariana pára de ser mimada, caramba é a
Maria, a tua prima, tua amiga, como uma irmã para ti, pára com
os ciúmes, pára de ser infantil! Pensa um pouco nos outros e reage mais que não
seja pelos nossos bebés... - fui interrompido e ouvi o que nunca pensei
ouvir
- Já não há bebés... - fiquei sem reação mas isso não fez a Mariana
abrandar - enquanto estavas do lado da
Maria, senti-me mal... fui parar ao hospital, passei a noite internada,
sozinha... acordei e percebi que nunca terei o que a Maria teve, nunca terei
alguém que largue tudo só para estar do meu lado, mas pior nunca vou saber o
que é ser mãe, o que é ver a barriga nascer e imaginar como será o rosto do meu
filho, nunca vou sentir as dores do parto e as alegrias de ver um filho meu a
crescer – não consegui reagir, o que a Mariana falava era surreal - Sei que errei muito, sei que se estou
sozinha a culpa é minha, sei que não consigo reagir às tuas tentativas de
aproximação mas também sei a dor que sinto de todas as vezes que olho para ti,
sei que sempre que fecho os olhos recordo os momentos de pavor, o quanto me
culpo por ter perdido os bebés, sim a culpa é minha, sou uma incapaz que nem
para cuidar de mim sirvo... matei os minimeus porque sou uma inútil…
A Mariana
continuava sentada no chão e completamente alterada, chorava imenso agarrada à
sua barriga, mal olhava para nós e saber que também tenho a minha cota parte de
culpa em tudo não ajudou em nada, a verdade é que a Mariana tem razão, coloquei
a Maria em primeiro, sabia que a Mari não estava bem e mesmo assim mandei-a
para casa de táxi só para estar do lado da Maria, só para ver um filho que não
é meu nascer enquanto e sem imaginar perdia os meus, a Mariana precisou de mim
e não estive presente, tem todos os motivos para não me querer perto de si,
para não reagir ao meu toque, para estar vazia de sentimentos, afinal
abandonei-a novamente, já o tinha feito no passado quando a coloquei em segundo
plano para apoiar a Maria...
- Desculpa... - aproximei-me da Mari - desculpa
por não estar do teu lado quando... - calei-me por não conseguir admitir
que perdemos os nossos bebés e não estava do seu lado - Mariana... amor... – sentei-me no chão ao seu lado e assim que o
fiz a Mari quebrou completamente, abraçou-me com uma força tremenda e chorou
ainda com mais intensidade.
- Foi horrível... estar com dores e não saber o
que se estava a passar com os bebés... - puxei-a ainda
mais para mim e já chorava também, a Mariana aninhou-se por completo no meu
colo que nem criança quando está com medo de algo.
Não consegui
dizer nada, descobrir que perdi duas das três pessoas mais importantes arruinou
com toda a minha capacidade de raciocínio, só consegui recriminar-me, afinal se
não tivesse sido bruto, se não tivesse avisado a Maria nada disto tinha
acontecido, o Bruno não teria nascido e eu não teria perdido os minimeus.
- Amor... vamos sair do chão - falei após algum tempo mas a Mariana não
reagiu, tentei mexer-me mas o seu corpo em cima das minhas pernas não facilitou
a tarefa e acabou por ser o Rui a aproximar-se e a ajudá-la a levantar-se, acho
que nem para isso a Mari tinha forças.
Levantei-me
imediatamente e voltei a tomar a Mari nos meus braços, coloquei o meu braço em
volta do seu corpo e levei-a para o quarto, o meu amor deitou-se sem dizer mais
nada, estava novamente absorta em pensamentos, ainda fiquei um tempo com ela
mas assim que adormeceu fui até à sala.
- Rui... - o rapaz
olhou-me e antes que conseguisse dizer o que quer que fosse ouvi-o
- Desculpa não ter avisado mas encontrei a
Mariana num banco com dores, pediu-me para a levar ao hospital e foi o que fiz,
não fazia a mínima ideia do que se passava mas que era evidente que precisava
de ajuda, era. A Mariana acabou por implorar que não te dissesse, não percebi
ao início mas prometi que não diria, quando mais tarde descobri as razões dela
fiz de tudo para que te contasse... Ruben mal conheço a Mariana mas a rapariga
está um caco, não a culpes por não ter contado no fundo acho que só quis evitar
aquilo que deves estar a sentir agora... a Mariana ama-te acho que mais do que
a ela própria, pode não o ter demonstrado nestes dias mas o que aconteceu
traumatizou-a, a noção que perdeu os gémeos arrasou-a completamente.
- Não tinha o direito de ter ocultado... – a raiva por não estar presente mas principalmente
por a Mariana não ter contado imediatamente e ter-me deixado na ignorância
revoltou-me
- Tens razão mas pensa um pouco nos motivos que a
levaram a não contar...
- Foi egoísta...
- Não... não foi! A Mariana ama-te tanto que não
conseguiu partilhar a dor que sente contigo só para que não te sentisses
culpado - olhei-o - a Mariana pode ter-se afastado, pode não conseguir retribuir com gestos
e palavras o amor que sente por ti mas é esse amor que a fez contar-te, que fez
com que quando te aproximaste não te tenha afastado, muito pelo contrário a
Mariana permitiu que a reconfortasses, permitiu-se a ela própria quebrar e
simplesmente deixar-se ficar no conforto do teu colo e braços...
- Não sabes do que falas… não sabes o que é
perder os teus filhos por tua culpa…
- Ruben pára! Ninguém teve culpa, pelo pouco que
a Mariana conseguiu falar a gravidez desde o início foi considerada de risco…
- Ainda mais ajudas… não devia ter provocado o
encontro da Mari com a Maria, não devia tê-la abandonado, não devia ter incentivado
a Mari a falar com o Manuel, foi tudo culpa minha, fui eu que a convenci em ir
à casa dos pais, tive culpa em tudo – deixei o meu
corpo escorregar pela parede até encontrar o chão, onde acabei sentado com as
pernas encolhidas e a cabeça escondida entre os meus braços – a culpa de tudo é minha… a Mari estava bem
até os nossos caminhos se terem reencontrado… fui fraco… não devia nunca ter
permitido que nos aproximássemos, que nos envolvêssemos novamente…
- Ruben… oh Ruben – o Rui bem que insistia mas não tinha coragem
nem força para o olhar – não sei nada da
vossa história mas sei que se amam, porque senão houvesse amor não estariam a
sofrer desta forma, vocês precisam um do outro, a Mariana está desfeita, tu não
estás melhor mas dos dois terás que ser tu a segurares a corda que se quebrou e
voltar a uni-la, só assim será possível ultrapassarem mais esta prova. Não
imagino o que estás a sofrer, essa culpa que te consome é enorme mas não te
podes deixar vencer…
- Não sabes NADA! – gritei, revoltei-me contra alguém que só
queria ajudar e acabei por sair do apartamento, precisava de apanhar ar e foi
isso que fui fazer, tinha uma decisão a tomar…
Que decisão será essa?
:O mas...mas...eu nao sabia que a Mariana tinha abortado. Tipo...fiquei... Nao estava a espera. Pensei sempre que fosse apenas um susto. Mesmo com o desconforto dela por o ruben ter posto a mao na sua barriga ou pela maria ter dito "daqui a uns meses es tu" nao percebi que ela os tinha perdido. pensei que estava apenas...a por tudo no lugar. Mas afinal :s
ResponderEliminarEspero que a decisao do ruben nao passe por deixar a Mariana, a verdade é que aquele "a Mari estava bem até os nossos caminhos se terem reencontrado… fui fraco… não devia nunca ter permitido que nos aproximássemos, que nos envolvêssemos novamente…" nao me agradou nadinha!
Espero o proximo!!
Beso
Ana Santos
Oh! Meu Deus, agora é que o caldo entornou de vez, já esperava algo bombástico, mas não pensei que optasses pela hipótese aborto.
ResponderEliminarAté eu fiquei abananada com a notícia, fogo, ela tinha mesmo que abortar? Não bastava ele se sentir como se sente agora também o Ruben tem que viver com o peso da culpa, e não gostei nadinha destas palavras dele, que ela tava bem até os caminhos deles se terem cruzado, que não devia de ter permitido que se aproximassem e se envolvessem, a sério, não me agradou nada. Tu bem me dizias que o calvário da Mari tava só no início, agora até já tenho pena dela, mas será que ela perdeu mesmo os bebés ou isto foi um maneira dele se sentir culpado? É que se foi isso, é uma ideia muito macabra.
Adorei o reencontro das primas e vê lá tu que até o RP subiu um bocadinho na minha consideração, disse uma verdades à Mariana e ao Ruben, costuma-se dizer que quem tá de fora vê melhor as coisas, e foi o que ele fez.
Continuem, quero muito o próximo, porque adorei este.
Beijocas
Fernanda
Oh, God!
ResponderEliminarComo assim?? Acho que ainda não estou em mim... afinal, a Mariana perdeu os minimeus? :(( Juro que pra mim tudo não tinha passado de um susto e o que ela tinha que contar pro Ruben era que tinha passado a noite no hospital... com aquele outro lá (não fui muito com a cara dele, mas até que fez a coisa certa, contando ou fazendo a Mariana contar logo tudo) Tive que ler, e reler o discurso dela pra ter certeza porque ainda achei que só podia estar enxergando mal Oo
Já comecei a ler o capítulo com lágrimas nos olhos com o pequeno bilhete deixado pelo Ruben... imagina como terminei então... lool
Espero bem que ele tome a decisão certa, não a que ache ser a melhor ''para todos''. A Mariana precisa dele, e ele precisa dela. Os dois têm que ficar mais juntos do que nunca agora. Ai, quero muito o próximo. Beijinhos :*
Gabi
Oh... :( E eu tinha pensado que tu tinhas outra coisa destinada para a Mari, assim uma coisa mais soft.
ResponderEliminarEste capítulo foi difícil de ler e de imaginar. Espero que o Rúben tome uma decisão acertada.
Quero o próximo!
Beijinhos
Fabuloso...
ResponderEliminarQuero mais...
Continua...
Decisão? Qual decisão?? Preciso saber!
ResponderEliminarEstou em choque, nunca pensei que ela tivesse abortado.
E eu que não gostava do Rui e ele acabou por ser uma espécie de elo moderador. Agora mais do que nunca preciso de saber o que vem a seguir.