sábado, 27 de julho de 2013

085 - "Mas o que sabes tu?! Não a conheces... nem amigos são..."

Mariana
Ouvir da boca do Ruben o quanto adorou assistir ao parto da Maria destruiu o muito pouco que ainda restava de mim, não tive coragem para continuar a olhá-lo, sabendo o que sei. Saí de casa sem olhar para trás e assim que cheguei à rua, respirei finalmente ar puro, enchi os pulmões de ar e após algum tempo sem saber para onde ir, lembrei-me do Rui, liguei-lhe e assim que percebeu quem lhe ligava afirmou convictamente que viria ter comigo, disse-lhe onde estava e cerca de uma hora depois já o tinha do meu lado, trocamos algumas palavras, não muitas, porque não estava em condições de o fazer, mas ainda assim foram as suficientes para que no momento que convidou-me a subir até ao seu apartamento o tenha feito sem hesitar, afinal estava mesmo a precisar de um sítio sossegado para descansar um pouco.
Estava sentada no sofá a olhar não sei bem para o quê quando senti uma  necessidade extrema de lhe contar tudo, sim tudo, simplesmente falei e o Rui ouviu, voltei a sentir-me estranha mas ao mesmo tempo aliviada, o rapaz durante o tempo que falei esteve sempre calado mas no fim deu-me na cabeça, não se preocupou se iria ou não gostar do que ouvia, acho que unicamente disse aquilo que julgava ser o certo e entre muita coisa que falou, ouvi-o a afirmar que o meu lugar é ao lado do Ruben, agora mais do que nunca e que para isso tenho que lhe contar tudo, recusei-me a fazê-lo mas o Rui não se deu por vencido e voltou a insistir, foi de tal forma que saí da sua casa com a promessa que contaria ao Ruben.
***
Regressei ao meu apartamento e apesar de não estar a contar que o Ruben lá estivesse à minha espera também não estava preparada para encontrar um bilhete dele
Mariana,
Quando te dignares a ter atitudes de uma mulher adulta avisa... Não vou mais procurar-te, estou a chegar ao meu limite, acho que já aceitei tudo o que tinha para aceitar, esta tua atitude só me faz entender que talvez não te conheça, estou farto de olhar para ti e não encontrar mais a minha Mariana.
Não estou a dizer que tens de andar de sorriso na cara, até porque nem sequer imagino o que é descobrir o que descobriste mas independentemente disso tens um passado em que foste amada e isso só não continua no presente porque estás a ser criança!
Acorda para a vida porque garanto-te que ninguém mas mesmo ninguém atura as tuas birras eternamente!
Pensa bem no que queres... pensa nos nossos filhos... já nem te digo para pensares em nós porque sinceramente acho que já desististe do “nós”...
Mariana, decide o que queres e depois comunica!
Vou até ao hospital despedir-me do nosso afilhado e da restante família, sim que para mim os Mendes são e serão sempre parte integrante da minha família!
Regresso ainda hoje para Braga, já não deveria estar cá, mas como mais uma vez só pensaste em ti, sem te preocupares comigo fiquei cá por não saber nada de ti... mais valia ter regressado afinal não fiquei mesmo a fazer nada cá...
Fica bem! E cuida dos nossos filhos... neste momento é só o que te peço...
Ruben Amorim
Ler cada palavra daquelas só serviu para sentir-me ainda pior, fui completamente descartada e sinceramente nem o posso culpar, afinal a culpa é só minha, ainda assim não reagi ou melhor reagi, fiz o mesmo que as avestruzes, enterrei a cabeça na areia, ou seja, ignorei o bilhete, fui até ao quarto e deitei-me, afinal não tinha mais motivos para sair daquela cama... mas só estive uns minutos deitada, levantei-me e sem pensar duas vezes para não me arrepender saí de casa com um só destino, o hospital.
Confesso que ao entrar no hospital perdi momentaneamente as forças, ao vislumbrar ao longe os Mendes, num espaço de minutos revivi mentalmente toda a minha vida, tudo por que passei, dei comigo a perceber uma série de situações que até então não tinha entendido, como o zelo em demasia do Manuel, de como não queria que andasse muito próxima dos rapazes, talvez só quisesse evitar que tivesse o mesmo destino que aquela que me carregou no ventre, ainda assim não consigo esquecer que sou única e exclusivamente uma MENTIRA desde o início até ao fim.
Para agravar ainda mais a revolta que senti foi impossível não recordar as horas que estive internada, aquelas em que... estive sozinha para o Ruben acompanhar a minha prima, senti a cabeça a latejar e as pernas a tremerem ainda assim e sem saber onde arranjei forças para continuar a andar, esquivei-me de forma que os Mendes não me vissem e abri a porta do quarto que sabia ser o da Maria sem bater, ao fazê-lo ouvi o desabafo do João
- Maria por amor de Deus CHE-GA! Esquece a Mariana! Amor eu não aguento mais ver-te ai a amargurares quando devia ser o momento mais feliz das nossas vidas só porque a tua prima para não variar está a ser egoísta
- É optimo saber que somos bem consideradas pelos amigos João é muito bom mesmo! - não aguentei e mesmo sabendo que não tenho razão tive que resmungar e só não alonguei mais porque a voz da Maria assim o impediu
- Pri... Mariana! - senti o meu coração a mingar mais um pouco perante as saudades de a ouvir chamar-me prima, de sentir o confroto do seu abraço - Eu queria poder levantar-me e abraçar-te, mas eu não posso! Vem aqui por favor! Eu preciso de um abraço teu!
Não a fiz esperar mais, aproximei-me da sua cama e abracei-a, como soube bem aquele abraço, sei que só não o recebi mais cedo por culpa minha, que fui eu que afastei a Maria mas agora mais do que nunca precisava do seu apoio, mesmo sem lhe puder contar o que se passou, mesmo sem ela nem sequer imaginar estava a reconfortar-me como só ela sabe.
- Achas que posso conhecer o meu afilhado ou o pai além de não te querer a falar comigo também não quer que o filho me conheça? - falei após respirar fundo para que a voz não me falhasse e denunciasse assim a lastima em que estou.
- Bruninho esta aqui é a maluca, chanfrada, destrambelhada e completamente alucinada da tua madrinha, mas o papá assim como a mamã e o padrinho adoram-na e tu vais adorar também! - não aguentei e ao ouvi-lo foi impossível segurar as lágrimas, o mesmo aconteceu com a Maria, se bem que chorávamos por motivos diferentes, ela talvez por alegria, já eu... por tristeza e completa amargura provocada pelo que escondia e que jurei para mim mesmo não contar... - Desculpa amiga, mas convenhamos que não tens sido fácil...
- É eu sei... - admiti ao baixar o olhar - agora dá-me cá o Guigas que eu quero ver, sentir e cheirar a minha pipoquinha!! - só eu sei o que custou dizer em voz alta tal desejo... mas no momento que pequei pela primeira vez naquela doçura senti-me em paz comigo mesmo, é estranho mas o Guigas transmitiu-me a serenidade que tanto procurei nestas últimas semanas, ainda assim não consegui evitar sentir inveja da Maria e do João, é feio mas foi o que senti, eles amam-se e agora têm o seu bem mais precioso enquanto eu... eu não tenho nada a não ser o sentimento de culpa...
Estava a babar o Guilherme quando senti o Ruben a aproximar-se e assim que a distância permitiu abraçou-me, não consegui reagir e pior foi quando senti as suas mãos na minha barriga, a vontade que tive foi de correr dali para fora mas até para isso fui incapaz, acabei por deixá-lo estar próximo de mim e por muito que tenha tentado obter uma reação minha fui incapaz de a dar.
Ruben
É oficial cheguei ao meu limite, por muito que ame a Mariana não posso continuar a amparar-lhe os golpes pois se o continuo a fazer nunca irá crescer e admitir que está errada.
Depois de lhe deixar o bilhete segui para o hospital e assim que entrei a Maria perguntou-me pela Mari, fui curto na resposta até porque o João explodiu ao afirmar que a Maria tem que esquecer a prima e foi nesse instante que a porta abriu, ver o meu amor trouxe-me sentimentos contraditórios, por um lado fiquei feliz de a ver mas por outro com receio que fosse dar confusão, no entanto vi a Mari a ceder por completo e num primeiro momento a aproximar-se da prima e de seguida a pegar no Bruno.
Vê-la com o menino nos braços fez-me sorrir ou não fosse ter imaginado nós os dois daqui a uns meses com os nossos pequeninos, foi com esse pensamento que aproximei-me da Mariana, abraçando-a, levei as mãos à sua barriga e senti-a a encolher-se, nunca aquele meu gesto teve esse efeito na Mari, normalmente sorria mas hoje ainda conseguiu fechar mais o seu rosto. A Mariana não afastou-me mas também não retribuiu nem com um pequeno sorriso, algo que deixou-me desconfortável e por isso mesmo quando o Fábio nos desafiou, a mim e ao João, a sairmos do quarto nem hesitei, ainda assim aproximei-me da Mari e dei-lhe um beijo, que não passou de um encosto de lábios, já que não reagiu.
- Puto... – olhei para o Fábio
- Diz!
- O que se passa?!
- Nada...
- Nada?! A quem queres enganar? – suspirei.
- Mano... - percebi que o João escolhia as palavras - é a Mariana não é? – olhei-o e nem tentei negar, afinal é mais do que óbvio – Ficou chateada por teres acompanhado a Maria, foi isso não foi? Daí não ter reagido quando a abraçaste...
- Se queres saber não sei... já não a reconheço e sinceramente não estou para continuar a viver assim...
- Puto! Não tomes decisão nenhuma... - o Fábio falou
- Não vou tomar decisão nenhuma, aliás deixei isso para a Mariana, fui bem explicito no bilhete que lhe deixei...
- Bilhete?! - falaram os dois ao mesmo tempo
- Sim... bilhete! Foi a única forma que arranjei para lhe dizer a verdade... só não sei se leu...
- O que escreveste?
- Resumidamente escrevi que se quiser regressar a Braga sabe como o fazer, caso contrário juro que não vou correr atrás...
- Mano!! A Mariana está grávida... não lhe podes virar as costas!
- Não lhe vou virar as costas mas também cresci com os meus pais separados e não foi por isso que fui infeliz...
- Estás a ouvir aquilo que falas? Logo tu...
- João... viste bem que a Mariana nem sequer falou para mim, não olhou e muito menos reagiu quando a abracei... e agora também não retribuiu o beijo - baixei o olhar - tê-la beijado a ela ou uma parede foi exatamente o mesmo...
- A Mariana não anda bem... não sei o que se passa - olhei para o Fábio - só sei que aquela não é mais a louca que conhecemos no passado e muito menos a Mariana dos últimos meses... juro que não percebo...
- Desculpa Fábio mas terá que ser a Mari a contar-te...
- Na boa...
Continuamos à conversa mas o tema mudou radicalmente ou não fosse agora o Bruno e as primeiras horas de vida o assunto. Foi quando o João relatava o que se tinha passado desde que abandonei ontem o hospital que recordei algo que a Mari falou quando regressou ao seu apartamento.
- João não viste a Mari ontem?!
- Ãh?!
- Sim... não a viste?
- Desculpa?! A Mari só a vi agora quando entrou...
- Mas ela disse-me que passou a noite no hospital quando lhe perguntei onde esteve...
- Puto se isso for verdade não a vi... e no quarto não entrou...
Fiquei a matutar no assunto durante um bocado, afinal a Mariana mentiu-me mas acabei por esquecer quando regressamos ao quarto e encontrei-a a trocar a fralda ao nosso afilhado, o meu amor ainda adormeceu o pequenino e quando o deitou na sua caminha ficou a observá-lo remetida ao silêncio.
- Mariana?! – aproveitei que os nossos amigos estavam numa conversa animada com a Maria para tentar falar com a Mari.
- Sim... – respondeu sem nunca olhar-me – precisas de alguma coisa?! – falou friamente o que fez com que perdesse imediatamente a pouca paciência que ainda tinha para aturar as suas birras.
- Precisar até preciso... - assim que falei o pessoal olhou mas não impediu que continuasse - preciso que acordes para a realidade!
- E se não quiser a realidade... - foi bruta - e se a realidade for demasiado cruel para que a consiga aceitar... a sério deixa-me... só quero estar sossegada!
- Ok... se é isso que queres... – respeitei o seu pedido e virei costas mas antes de afastar-me não resisti e tive que perguntar - posso pelo menos saber se regressas a Braga?!
A Mariana não disse mais nada, olhou-me só e senti um calafrio a percorrer-me o corpo, o olhar dela estava vazio de sentimentos aliado à apatia em que estava fez-me perceber que não adiantava insistir por isso mesmo ignorei-a, o que fez com que não trocássemos mais nenhuma palavra.

Mariana
Desde que entrei no quarto e que peguei no Guilherme sinto-me cada vez mais distante da realidade, é verdade que já devia ter contado ao Ruben mas sinto-me incapaz de o fazer, juro que bem tento mas sempre que começo a procurar a melhor forma para o dizer perco de imediato as forças, talvez porque no fundo culpo-me pelo que aconteceu, fui incapaz de cuidar de mim e por isso... Estava perdida em pensamentos, já depois de ter trocado algumas palavras azedas com o Ruben quando sou novamente “chamada à terra” pela Maria.
- Pri... Mari - olhei-a - anda para aqui! - fez sinal para que me aproximasse e acabei por fazê-lo, sentando-me na beira da cama bem do seu lado - daqui a uns meses és tu - ouvir aquilo foi o mesmo que espetar facas no peito, não sei como não deixei transparecer toda a dor que carrego ou talvez até sei, afinal já chorei tudo o que tinha para chorar.
Não respondi porque fui “salva” pela entrada de uma nova visita, que por sinal foi SÓ o Rui, assim que os nossos olhares se cruzaram, um misto de sensações invadiu-me, por um lado tive medo que o meu mais recente amigo abrisse a boca mas por outro serenei, vi ali uma escapatória a toda a tortura que estava a ser subtida desde que entrei no quarto.
O Rui aproximou-se da Maria e depois de a cumprimentar foi ver o Guigas para logo depois se “perder” na conversa com o João, ainda assim manteve sempre um contato visual comigo, afinal os nossos olhares cruzaram-se por diversas vezes.
Estivemos todos no quarto da Maria até recebermos ordem de “despejo” dada pela Ana, afinal tanto a mãe como o filho precisavam de descanso.
- Voltas cá?! – a Maria perguntou
- Não sei…
- Oh Mariana… eu quero-te aqui comigo! Eu não vou conseguir se não tiveres comigo – a Maria enervou-se e só por isso fui obrigada a ceder
- Ok… amanhã volto cá!
- Isso quer dizer que não regressas comigo para Braga?! – o Ruben foi bruto na forma como falou ainda assim respondi com a calma possível dado o meu estado.
- Vou ficar com a Maria!
- Também preciso de ti – o Ruben resmungou e só serviu para revoltar-me
- Engraçado quando preciso de ti nunca estás – atirei de imediato – e se podes deixar-me sozinha para acompanhares a Maria eu também posso fazer o mesmo! - o Ruben não teve coragem para contra-argumentar o óbvio e por isso calou-se – Maria vou mas regresso amanhã faz-me só um favor – olhou-me curiosa – quando não tiveres visitas liga-me que venho cá fazer-te companhia…
- Sabes que não podes fugir eternamente, não sabes?! – a Maria percebeu o que quis dizer com “visitas”
- Não quero falar disso e agora tenho que ir - não lhe dei hipótese de falar e saí do quarto, acompanhada pelo Ruben, Rui e Fábio porque o João teve autorização para ficar com a Maria e a Ana ficou na condição de médica.
O Ruben não falou mais, aliás não hesitou no momento de acelerar o passo e por isso pedi ao Rui se por acaso não se importava de dar-me boleia, afinal as nossas casas ficam para na mesma direcção, algo que não recusou, como tal quando chegamos ao parque de estacionamento segui atrás do Rui, foi quando já estava a abrir a porta do lado do pendura que ouvi a voz do Ruben
- Posso saber o que se passa??? - não gostei do seu tom de voz e ainda menos do olhar dele para o Rui
- O Rui vai levar-me a casa - esclareci-o calmamente - e depois não sei...
- Mariana!! - falou todo ofendidinho
- Mariana o raio... lembraste-te agora que precisas de mim, é?
Não lhe dei tempo para responder porque entrei no carro e fechei a porta e assim que o Rui entrou.
- Aquilo era escusado... - olhei-o de lado - o Ruben não merece...
- Ah e eu mereço?
- Mariana! O Ruben nem sequer sonha que a realidade que julga existir afinal não passa de uma miragem...
- Já podia saber se não metesse a Maria...
- É que podes parar por aí!! Mariana que queiras destruir-te é contigo mas não vou deixar que arrastes mais pessoas contigo - não o estava a reconhecer, o Rui que conhecia nunca seria capaz de dizer tal coisa talvez por isso tentei sair do carro mas o rapaz agarrou-me no braço - não sou o Ruben que só para não te enervar porque provavelmente está só a pensar nos filhos prefere acatar o teu egoísmo a ter que te enfrentar... a mim não intimidas até porque sei mais do que o Ruben... e por isso mesmo digo-te ou contas tu ou conto eu - senti a cólera a domar-me por completo, a raiva que senti ao ser ameaça foi de tal forma que ainda levantei a mão mas o Rui agarrou-a - nem penses! Mariana reage, chora, excomunga-me, faz o que quiseres mas por favor não continues por este caminho, não sei nem consigo imaginar o que sentes, afinal em semanas perdeste tudo mas ainda te resta o Ruben, o rapaz ama-te...
- Nota-se o amor dele... olha só a pressa dele em regressar a Barga...
- Compreendo-o perfeitamente, afinal aqui tem uma doida que quer a todo o custo acabar com a sua vida e arrastá-lo a ele também... e já em Braga tem o trabalho, ao qual não pode faltar…
Não respondi e o Rui não insistiu, a viagem até ao meu apartamento foi feita no silêncio, que só foi quebrado quando o convidei a subir, não queria ficar sozinha. Não sei as razões pelas quais aceitou, só sei que o Rui subiu comigo.
- Fica à vontade – falei ao entrarmos na sala – vou só trocar de roupa…

Ruben
A Mariana está completamente distante, quando a toco ou a beijo não sinto nada, não reage e o fato de afirmar que fica em Lisboa para apoiar a Maria só revoltou-me mais, afinal há umas horas nem a podia ver e agora só para não acompanhar-me no regresso a Braga garantiu à prima que regressava para a visitar, algo que revoltou-me e antes que lhe dissesse algo negativo acelerei o passo assim que saí do quarto, precisava de uns minutos para respirar mas nunca pensei que fosse presenciar o que presenciei, a Mariana não teve qualquer problema em pedir boleia ao Rui e ainda a resmungar quando lhe pedi esclarecimentos.
Fiquei a vê-los os dois a trocarem algumas palavras dentro do carro dele, o que revoltou ainda mais, afinal não são amigos, logo não entendo o que tanto conversavam. Acabei por seguir viagem ou melhor a ideia inicial foi essa mas a dúvida que se formou cresceu de tal ordem de tamanho que inverti a marcha e só parei quando cheguei junto do prédio do apartamento da Mariana e da Maria, não foi difícil encontrar o carro do Rui e a certeza que estariam juntos fez com que subisse até ao apartamento, entrei sem anunciar a minha presença e encontrei o Rui, sentado a ver TV, aquilo revoltou-me e acho que só não parti para a violência porque o rapaz falou.
- Ainda bem que chegaste… Ruben a Mariana não está bem...
- Não preciso que venhas dizê-lo - respondi de forma rude e talvez por isso fui interrompido
- O problema da Mariana deixou de ser com os pais - fez-se silêncio como é que o Rui sabia... lógico que a Mariana contou-lhe
- CALA-TE!! - o berro da Mariana fez-me saltar e olhar para a porta, encontrei-a como tem sido normal “vazia”, o seu olhar não transmitia nada, já nem dor - Cala-te! Não te dou autorização para dizeres nada! - a Mariana começou a chorar.
- Chega Mariana! O Ruben tem o direito de saber... precisas dele, aliás precisas da tua família, daquela que sempre esteve do teu lado mas que por estupidez tua resolveste afastá-los e olha só no que deu?! - o Rui estava a ser bruto na forma como falava e ver a Mariana a chorar cada vez mais fez-me vacilar e dar alguns passos na sua direção - Ruben não faças isso - olhei-o - não lhe ampares a queda, deixa-a cair, bater no fundo porque só assim é que se irá levantar...
- Mas o que sabes tu?! Não a conheces... nem amigos são... - ripostei e quando esperava que respondesse algo foi a Mariana que o fez
- Mas foi o único que esteve comigo quando TU estavas com a Maria! Quando me deixaste novamente para correres para a Maria porque precisava, quando tu assistias ao parto de um filho que não é TEU foi o Rui que... - a Mariana não conseguiu continuar a falar, perdeu completamente as forças e deixou-se cair levando as mãos à barriga, aquilo assustou-me, tanto que aproximei-me e tentei levantá-la mas fui afastado - larga-me, deixa-me - falava quase a sufocar no seu choro - não quiseste saber de mim, deixaste-me sozinha para veres o filho de outro nascer...
- Chega! Mariana pára de ser mimada, caramba é a Maria, a tua prima, tua amiga, como uma irmã para ti, pára com os ciúmes, pára de ser infantil! Pensa um pouco nos outros e reage mais que não seja pelos nossos bebés... - fui interrompido e ouvi o que nunca pensei ouvir
- Já não há bebés... - fiquei sem reação mas isso não fez a Mariana abrandar - enquanto estavas do lado da Maria, senti-me mal... fui parar ao hospital, passei a noite internada, sozinha... acordei e percebi que nunca terei o que a Maria teve, nunca terei alguém que largue tudo só para estar do meu lado, mas pior nunca vou saber o que é ser mãe, o que é ver a barriga nascer e imaginar como será o rosto do meu filho, nunca vou sentir as dores do parto e as alegrias de ver um filho meu a crescer – não consegui reagir, o que a Mariana falava era surreal - Sei que errei muito, sei que se estou sozinha a culpa é minha, sei que não consigo reagir às tuas tentativas de aproximação mas também sei a dor que sinto de todas as vezes que olho para ti, sei que sempre que fecho os olhos recordo os momentos de pavor, o quanto me culpo por ter perdido os bebés, sim a culpa é minha, sou uma incapaz que nem para cuidar de mim sirvo... matei os minimeus porque sou uma inútil…
A Mariana continuava sentada no chão e completamente alterada, chorava imenso agarrada à sua barriga, mal olhava para nós e saber que também tenho a minha cota parte de culpa em tudo não ajudou em nada, a verdade é que a Mariana tem razão, coloquei a Maria em primeiro, sabia que a Mari não estava bem e mesmo assim mandei-a para casa de táxi só para estar do lado da Maria, só para ver um filho que não é meu nascer enquanto e sem imaginar perdia os meus, a Mariana precisou de mim e não estive presente, tem todos os motivos para não me querer perto de si, para não reagir ao meu toque, para estar vazia de sentimentos, afinal abandonei-a novamente, já o tinha feito no passado quando a coloquei em segundo plano para apoiar a Maria...
- Desculpa... - aproximei-me da Mari - desculpa por não estar do teu lado quando... - calei-me por não conseguir admitir que perdemos os nossos bebés e não estava do seu lado - Mariana... amor... – sentei-me no chão ao seu lado e assim que o fiz a Mari quebrou completamente, abraçou-me com uma força tremenda e chorou ainda com mais intensidade.
- Foi horrível... estar com dores e não saber o que se estava a passar com os bebés... - puxei-a ainda mais para mim e já chorava também, a Mariana aninhou-se por completo no meu colo que nem criança quando está com medo de algo.
Não consegui dizer nada, descobrir que perdi duas das três pessoas mais importantes arruinou com toda a minha capacidade de raciocínio, só consegui recriminar-me, afinal se não tivesse sido bruto, se não tivesse avisado a Maria nada disto tinha acontecido, o Bruno não teria nascido e eu não teria perdido os minimeus.
- Amor... vamos sair do chão - falei após algum tempo mas a Mariana não reagiu, tentei mexer-me mas o seu corpo em cima das minhas pernas não facilitou a tarefa e acabou por ser o Rui a aproximar-se e a ajudá-la a levantar-se, acho que nem para isso a Mari tinha forças.
Levantei-me imediatamente e voltei a tomar a Mari nos meus braços, coloquei o meu braço em volta do seu corpo e levei-a para o quarto, o meu amor deitou-se sem dizer mais nada, estava novamente absorta em pensamentos, ainda fiquei um tempo com ela mas assim que adormeceu fui até à sala.
- Rui... - o rapaz olhou-me e antes que conseguisse dizer o que quer que fosse ouvi-o
- Desculpa não ter avisado mas encontrei a Mariana num banco com dores, pediu-me para a levar ao hospital e foi o que fiz, não fazia a mínima ideia do que se passava mas que era evidente que precisava de ajuda, era. A Mariana acabou por implorar que não te dissesse, não percebi ao início mas prometi que não diria, quando mais tarde descobri as razões dela fiz de tudo para que te contasse... Ruben mal conheço a Mariana mas a rapariga está um caco, não a culpes por não ter contado no fundo acho que só quis evitar aquilo que deves estar a sentir agora... a Mariana ama-te acho que mais do que a ela própria, pode não o ter demonstrado nestes dias mas o que aconteceu traumatizou-a, a noção que perdeu os gémeos arrasou-a completamente.
- Não tinha o direito de ter ocultado... – a raiva por não estar presente mas principalmente por a Mariana não ter contado imediatamente e ter-me deixado na ignorância revoltou-me
- Tens razão mas pensa um pouco nos motivos que a levaram a não contar...
- Foi egoísta...
- Não... não foi! A Mariana ama-te tanto que não conseguiu partilhar a dor que sente contigo só para que não te sentisses culpado - olhei-o - a Mariana pode ter-se afastado, pode não conseguir retribuir com gestos e palavras o amor que sente por ti mas é esse amor que a fez contar-te, que fez com que quando te aproximaste não te tenha afastado, muito pelo contrário a Mariana permitiu que a reconfortasses, permitiu-se a ela própria quebrar e simplesmente deixar-se ficar no conforto do teu colo e braços...
- Não sabes do que falas… não sabes o que é perder os teus filhos por tua culpa…
- Ruben pára! Ninguém teve culpa, pelo pouco que a Mariana conseguiu falar a gravidez desde o início foi considerada de risco…
- Ainda mais ajudas… não devia ter provocado o encontro da Mari com a Maria, não devia tê-la abandonado, não devia ter incentivado a Mari a falar com o Manuel, foi tudo culpa minha, fui eu que a convenci em ir à casa dos pais, tive culpa em tudo – deixei o meu corpo escorregar pela parede até encontrar o chão, onde acabei sentado com as pernas encolhidas e a cabeça escondida entre os meus braços – a culpa de tudo é minha… a Mari estava bem até os nossos caminhos se terem reencontrado… fui fraco… não devia nunca ter permitido que nos aproximássemos, que nos envolvêssemos novamente…
- Ruben… oh Ruben – o Rui bem que insistia mas não tinha coragem nem força para o olhar – não sei nada da vossa história mas sei que se amam, porque senão houvesse amor não estariam a sofrer desta forma, vocês precisam um do outro, a Mariana está desfeita, tu não estás melhor mas dos dois terás que ser tu a segurares a corda que se quebrou e voltar a uni-la, só assim será possível ultrapassarem mais esta prova. Não imagino o que estás a sofrer, essa culpa que te consome é enorme mas não te podes deixar vencer…
- Não sabes NADA! – gritei, revoltei-me contra alguém que só queria ajudar e acabei por sair do apartamento, precisava de apanhar ar e foi isso que fui fazer, tinha uma decisão a tomar…

Que decisão será essa?

6 comentários:

  1. :O mas...mas...eu nao sabia que a Mariana tinha abortado. Tipo...fiquei... Nao estava a espera. Pensei sempre que fosse apenas um susto. Mesmo com o desconforto dela por o ruben ter posto a mao na sua barriga ou pela maria ter dito "daqui a uns meses es tu" nao percebi que ela os tinha perdido. pensei que estava apenas...a por tudo no lugar. Mas afinal :s
    Espero que a decisao do ruben nao passe por deixar a Mariana, a verdade é que aquele "a Mari estava bem até os nossos caminhos se terem reencontrado… fui fraco… não devia nunca ter permitido que nos aproximássemos, que nos envolvêssemos novamente…" nao me agradou nadinha!
    Espero o proximo!!

    Beso
    Ana Santos

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  2. Oh! Meu Deus, agora é que o caldo entornou de vez, já esperava algo bombástico, mas não pensei que optasses pela hipótese aborto.
    Até eu fiquei abananada com a notícia, fogo, ela tinha mesmo que abortar? Não bastava ele se sentir como se sente agora também o Ruben tem que viver com o peso da culpa, e não gostei nadinha destas palavras dele, que ela tava bem até os caminhos deles se terem cruzado, que não devia de ter permitido que se aproximassem e se envolvessem, a sério, não me agradou nada. Tu bem me dizias que o calvário da Mari tava só no início, agora até já tenho pena dela, mas será que ela perdeu mesmo os bebés ou isto foi um maneira dele se sentir culpado? É que se foi isso, é uma ideia muito macabra.
    Adorei o reencontro das primas e vê lá tu que até o RP subiu um bocadinho na minha consideração, disse uma verdades à Mariana e ao Ruben, costuma-se dizer que quem tá de fora vê melhor as coisas, e foi o que ele fez.
    Continuem, quero muito o próximo, porque adorei este.

    Beijocas

    Fernanda

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  3. Oh, God!
    Como assim?? Acho que ainda não estou em mim... afinal, a Mariana perdeu os minimeus? :(( Juro que pra mim tudo não tinha passado de um susto e o que ela tinha que contar pro Ruben era que tinha passado a noite no hospital... com aquele outro lá (não fui muito com a cara dele, mas até que fez a coisa certa, contando ou fazendo a Mariana contar logo tudo) Tive que ler, e reler o discurso dela pra ter certeza porque ainda achei que só podia estar enxergando mal Oo
    Já comecei a ler o capítulo com lágrimas nos olhos com o pequeno bilhete deixado pelo Ruben... imagina como terminei então... lool
    Espero bem que ele tome a decisão certa, não a que ache ser a melhor ''para todos''. A Mariana precisa dele, e ele precisa dela. Os dois têm que ficar mais juntos do que nunca agora. Ai, quero muito o próximo. Beijinhos :*

    Gabi

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  4. Oh... :( E eu tinha pensado que tu tinhas outra coisa destinada para a Mari, assim uma coisa mais soft.
    Este capítulo foi difícil de ler e de imaginar. Espero que o Rúben tome uma decisão acertada.
    Quero o próximo!
    Beijinhos

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  5. Fabuloso...

    Quero mais...

    Continua...

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  6. Decisão? Qual decisão?? Preciso saber!
    Estou em choque, nunca pensei que ela tivesse abortado.
    E eu que não gostava do Rui e ele acabou por ser uma espécie de elo moderador. Agora mais do que nunca preciso de saber o que vem a seguir.

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