segunda-feira, 12 de agosto de 2013

088 - "sem o teu beijo e o teu abraço... e o teu mau feitio de manhã... e as birras que fazes quando ficas com ciumes e... nenhuma delas és tu por isso qual é mesmo o problema?!"

(Maria)

Preparei o Guigas a rigor afinal seria a primeira vez que iria a um jogo de futebol, desporto que por todos as razões e mais algumas irá estar ligado à sua vida.

A Mariana estava bastante ansiosa o que me fez questionar o verdadeiro motivo de tal presente ao afilhado. Cheguei mesmo a perguntar-lhe se o que ela queria não era ver o padrinho do afilhado algo que ela, tal como das outras vezes que falei do Ruben ignorou.
Assim que chegamos ao estádio, não sem antes me avisar que o mais provável era o pai não achar piada ao traje do Guigas, o que nos levou a uma divertida troca de palavras, subimos directamente para o camarote destinado às famílias dos jogadores do Sporting
- Olha lá o nosso camarote é aquele - falei apontando para a zona onde fica o camarote da empresa
- Não é nosso é teu... e como hoje quem manda sou eu vamos ficar aqui...

Estranhei e depois de entrar e perceber o quão bem integrada a Mari estava fiquei a saber que estaríamos a usufruir dos lugares destinados à família do Rui. A cada dia que passa eles estão mais próximos, mas ainda não consegui perceber qual a real proximidade e intimamente lamentei ali estar visto que no final do jogo iríamos com certeza encontrar o Rui o que complicaria mais a que o meu desejo de juntar os dois teimosos se realizasse.

Depois de confraternizar um pouco com os presentes dirigi-me ao outro camarote onde estava o meu tio, como ainda não tinha sido vista, levei o Guilherme no colo e quando lá cheguei fiz um “buuuhhh” surpreendendo o meu tio

- Maria?!
- Olá Tio! Olhá tivô! - fingi que o Guigas falava
- Olá campeão! - fala fazendo caretas - O que fazem aqui? Se soubesse que querias vir tinha-te ido buscar escusavas de vir a conduzir...
- Calma! Eu não vim sozinha!
- O João está aí?!
- Não! - respondi a rir - Foi mesmo a Mariana que me obrigou - fui irónica - a vir e ela ficou ali... - apontei para onde ela se encontrava - Já sabes que não quer contatos...
- É... sei... mas ela aqui? - olhou para o relvado  no momento em que o Braga entrava para o aquecimento
- Pois, mas parece que foi mais por... - olhou para a baliza Vitor Damas

baliza onde o Rui aquecia, a baliza do topo sul do Estádio José de Alvalade

- Mas isso é mesmo a sério?
- Isso o quê?
- Oh Maria... chegaram-me uns zum-zuns aos ouvidos...
- Até onde sei não há nada além de amizade, afinal o Rui ajudou-a num momento...
- Ahh assim fico mais descansado... E a vossa relação?
- Somos amigas... - suspirei - no fundo sempre fomos e na pratica tudo está igual só tenho que me acostumar em não usar expressões como “nós as Mendes” ou “prima”, de resto tenho muito que lhe agradecer porque tive ai uns dias...
- Passaste mal?
- Não, andei só com ideias malucas... mas a Mari e o João ajudaram-me
- Ah ok... - neste momento as equipas entraram em campo - Vês aqui connosco?
- Não, vamos ver com a madrinha, não é bebé? - peguei-o que estava ao colo do tio e ele chorou
- Vês ele não quer ir!
- Ele quer é comer e mudar a fralda e como não se cala até estar satisfeito vou perder a primeira parte... - o meu tio gargalhou ao ver-me encolher os ombros
- Quem não chora não mama! - riu - e tu sabes isso muito bem... que fazes uns lindos choradinhos nas negociações - riu - mas vai lá alimentar o Júnior
- Tchau.... - dei dois beijos ao meu tio e acenei aos restantes presentes

Tal como previra os cuidados do Guilherme ocuparam-me toda a 1ªparte e já quase no intervalo me consegui juntar à Mari

- Podias ter ficado lá com o teu tio!
- O nosso tio também refilou quando sai de lá no inicio do jogo mas o teu afilhado quis comer
- Ah se foi por isso tás desculpada...
- Olha como tá a correr o jogo?
- Oh... são 11 de cada lado, 1 bola e 3 árbitros... ahhh e o Rui está na baliza!
- Ah... muito mais esclarecida! E pelo Braga alguém conhecido?
- Não tive atenção... mas acho que o Quim, o Custodio, e o Hugo...
- E o padrinho do Guilherme?
- Não sei quem é!
- Vais começar?!
- Não vou acabar com a conversa porque o menino quer dormir e eu quero ver o jogo...

Foi impossível não reparar em como a Mari evitava olhar para a zona do campo onde provavelmente o Ruben estaria, focando-se na baliza ocupada pelo Rui, até ao momento que o nome do meu compadre foi anunciado no sistema de som do estádio por ele estar a ser substituído, nesse momento os olhos da Mariana focaram-se nele até que sentando-se no banco desapareceu do nosso campo de visão

- Tás a ver preguicinha?! Não viste o padrinho quase tempo nenhum... mas no fim vamos dar beijinhos a ele
- Oh Maria!
- Oh Mariana! É o padrinho dele e é meu amigo e teu...
- Meu nada... a tua sorte é que o Rui precisa de boleia...
A Mariana voltou a focar-se no jogo ou a fingir porque era capaz de ver o fumo a sair-lhe das orelhas com tudo o que pensava, mas optei por deixá-la e voltei atenções para o pequenote e resolvi recordar para sempre o momento com uma foto onde se via bem o que tinha vestido e depois de tirar uma ao relvado para que se visse onde estávamos enviei ao João

“Papá a Madinha touxe eu a vê o o painho e a mamã vestiu eu a rigor!
O painho já saiu e eu não vi puque paxei a 1ª pate a comê!!! :D
Mas no fim a mamã diz leva eu painho! Beijinhos meus e da mamã. Guigas”

Não demorou 5 minutos para o telemóvel tocar
- Tou
- Passou-te pela cabeça que eu podia gostar  de estar no 1º jogo dele??
- Eiii! Vamos lá a ter calma a Mariana insistiu e sabemos quem está em campo... achas mesmo que a deixava vir sozinha?? Além disso 1º jogo é relativo... a 1ªparte não vi porque o menino resolveu jantar e a segunda tenho estado... confesso... a babá-lo - ouvi-o rir
- Aaaah ok... e a madrinha e o padrinho?
- Tou à espera do final, mas para já ela evitou olhar sequer para a zona do campo onde ele esteve, só olhou mesmo quando anunciaram que ele ia sair
- Oh pá bem que podiam atinar... e o Rui?
- Tá a jogar!
- Olha até ai já suspeitava...
- Não sei... vai de boleia no fim...
- Manda-o com o Martins!!
- Boa ideia, estava a pensar como me livrava dele! Vou tentar!!
- Depois diz!!
- hum-hum... beijo!

Desligamos e pouco depois o jogo acabou, descemos de imediato e enquanto a Mariana conversava com algumas das meninas eu apanhei o Rui assim que ele chegou à garagem

- Olá Campeão! Gostaste do jogo?
- Não?!
- Ele a 1ª parte esteve a comer e na 2ª a falar com o pai
- Aaah e como está o pai?
- Pediu-te um favor... que é um pedido da família
- Xuta!
- Vai de boleia com o Martins - o Rui gargalhou
- Já tinha pensado niss... vim só despedir-me

Neste momento somos interrompidos pela chegada do Ruben e quando o Rui já se afastava fui surpreendida, o Ruben não estava sozinho, quem seria aquela?!

- Rui, fica! - disse assim que vi a outra no pescoço do Ruben e a minha prima atrás a ver tudo
- Já percebi

Os minutos seguintes foram para mostrar ao Ruben o meu desagrado e depois deixa-lo para trás.
A minha grande preocupação era a Mari, ainda a vi falar com ele mas em segundos estava junto a nós e pela primeira vez em todo este tempo voltou a chamar-me prima o que só me mostrou o quão fragilizada estava. Não toquei mais no assunto e vi-a seguir para destino incerto com o Rui depois de me deixar em casa.
Quando entrei no apartamento tive uma surpresa, ou melhor apanhei um valente susto quando ouvi barulho na cozinha, afinal supostamente a casa estava vazia e eu estava sozinha com o menino, se fosse um ladrão eu não conseguiria defender-nos.
Estava já de telemóvel em punho para chamar a policia e com a porta aberta, mas no mantinha-me no hall do prédio quando vindo da cozinha muito descontraído a comer

- Oh seu vadio... Onde é que o menino andou? O jogo do padrinho já acabou há muito tempo...
- Mas tu queres matar-me do coração?! - ele riu-se
- A tua mãe é uma exagerada - tirou o Guilherme do ovinho e puxou-me finalmente para dentro de casa - vais ligar para quem? Porque ainda não tinhas entrado?
- Porque me assustei quando ouvi barulho, não era suposto estar cá ninguém - ele riu-se
- Surpresa!!!!
- Parvo!!!! - o menino que estava ao seu colo choramingou - passa-o para cá que tá na hora da ceia
- Ah bom pensei que não tinha gostado da surpresa... - falou e depois de mo passar para os braços jogou-se no sofá
- Ói! Tu aí! - olhou-me - vamos a levantar o rabinho se faz favor que eu vou dar-lhe banho antes dele comer e como é obvio TU vais ajudar!!
- Oh Maria!!!
- Oh João! Isto ser pai não é só fazê-los e embala-los quando estão de barriguinha cheia e lavadinhos...
- Oh... mas convenhamos que fazê-los é bom! - falou já a seguir-me enquanto ria
- Piada! Toma - passei-lhe o menino que voltou a refilar - Acalma-o enquanto trato das coisas - coloquei agua na banheira e depois de tudo pronto - Vá podes despi-lo
- Ãh?!
- Tira-lhe a roupinha João!! - ele refilou qualquer coisa mas lá o fez - a fralda também...
- Oh Maria isto tá sujo... já cheirei!
- Optimo tens brinde!!! - mostrei-lhe a língua - tira a fralda e passa uma toalhita...

 O João fez o que lhe disse de cara feia e eu ri que nem perdida ou não fosse o menino resolver fazer xixi assim que o pai lhe tirou a fralda. Resultado: filho aliviado, pai molhado e mão com falta de ar de tanto rir. Acabei por me recompor

- Vá troca lá rápido de blusa que o menino tá ao frio! - ele olhou-me com cara feia mas cumpriu mais esta ordem - Agora pega nele e mete-o na banheira, cuidado com os ouvidinhos... vá já lhe podes dar o banho!
- Ãh?! Não... isso não! - ele estava todo atrapalhado, acho que mesmo em pânico - Agora dás tu! Eu fico aqui a ver e depois noutro dia logo dou... a sério amor! Eu não sei e ainda faço asneira...
- Só porque já é tarde e ele tem fome - assumi o comando dei banho ao Guilherme e depois de o secar
- Se quiseres eu posso por a fralda e vesti-lo 
- A sério?! Podes só ver e logo fazes outro dia - meti-me com ele
- Oh fofinha isto não mete agua ele não se afoga...
- Aahhh o problema era esse...

O João fez o que pediu e depois deu-mo para que mamasse e depois voltou a pega-lo e adormeceu-o colocando-o no berço e juntando-se a mim na cama. Ofereceu-me alguns miminhos inocentes mas quando começou a intensifica-los cortei-lhe as vazas porque não me sentia minimamente atraente, confiante e confortável, é que a cicatriz...

- O que foi?
- Nada... o menino...
- Tá a dormir e tanto quanto sei assim vai ficar nas próximas horas...
- Sim, mas...
- Mas?
- Ai... oh João... - suspirei e ele continuava à espera de uma resposta - não estou pronta... e além disso a Ana ainda não me deu autorização...
- Não?!
- Não... a consulta é só para a semana e a cicatriz...
- O que tem? - jogou a mão à bainha da blusa do meu pijama -  Mostra!
- Nem penses!!! - afastei a sua mão
- Porquê?
- Porque não! Isto é horrível!
- Deve ser, deve... que a Ana fazia-te mesmo isso...
- Esquece! Não a vais ver!
- Tenho saudades fofa... - voltou à carga
- Qual foi a parte do a Ana não ainda não... - calou-me com um beijo
- Só quero mimos!!! - acabei por rir e dar-lhe alguns mimos até que ele volta a falar -  Amor... como correu entre a tua prima e o Ruben - respirei fundo
- Ela voltou a chamar-me Prima!! - falei animada e ele riu - mas foi para a seguir dizer que o Ruben morreu... João ele tinha uma com ele...
- Uma quê?
- Amiga? Namorada? Não sei chegou quando ele estava a cumprimentar-me e jogou-se no seu pescoço - acabei por lhe contar tudo - Por isso acho que se não queremos trocar os padrinhos do menino o melhor é tratar do batizado o quanto antes...
- É melhor mesmo... e o casamento também... podia ser um 2 em 1
- Oh...
- O que é?
- Tinha pensado que podíamos casar em Faro... em Agosto...
- Dia 15... - sorriu
- É...
- Combinado - deu-me um beijo rápido
- Mas queria baptizar o menino aqui... e 15 de Agosto é muito tempo... acho que o Ruben e a Mari até lá...
- Então que tal final de Junho?
- Para o baptizado?
- Sim...
- Ok... e depois em Agosto quero pouca gente!
- Só os chegados...
- Isso!
- Mas em Agosto já estou novamente ao serviço... e assim ficamos sem lua-de-mel....
- Coitadinho! Mas eu podia ir... ou melhor nós podíamos ir contigo para Valência uns tempinhos...
- Isso soa bem.. mas não é a mesma coisa...
- O que tu queres sei eu! - ri - podemos fazer a lua-de-mel depois em Dezembro... ou para o ano!
- Para o ano!! Mas não abro mão da noite de núpcias!

Rimos os dois e o Guilherme choramingou e continuou a dormir, mesmo assim optamos por coloca-lo na cama no meio dos dois e passamos o resto da noite a mima-lo e entregues aquele momento só nosso, dos três.
O dia seguinte foi passado em modo família primeiro só os três aproveitando para marcar o batizado do Guilherme e depois com uma vista aos avós paternos.
Quando já voltávamos de casa dos seus pais e com o menino a dormir na cadeirinha lembrei-me de pedir algo ao João.

- Amor? - usei um tom de voz meloso de quem nitidamente pedia algo ele olhou-me -  Temos de comunicar aos padrinhos a data...
- Pois temos e onde é que está o problema??
- Na “coisa” que acompanhava o Ruben ontem!
- Oh Maria isso é com ele... fofa não nos podemos meter... além disso... - suspirou - a tua prima e o Rui...
- A minha prima e o Rui nada! João eu não sei bem o que se passa entre eles mas eu tive grávida e sei o que sentimos e imagino um pouco daquilo que a minha prima possa ter sentido... amor a Mariana agarrou-se ao Guilherme como tábua de salvação e... e tu não te esqueças que enquanto ele nascia acompanhado pelo padrinho os filhos dela morriam também pela falta dele! E... acredito que seja difícil para ela esta proximidade... E sei que as alterações nos nossos corpos são enormes e que existem períodos de resguardo a assegurar por isso se não for por mais nada acredito que não tenha havido nada de físico entre eles... E a minha prima também não o esfregou na cara do Ruben como ele fez ontem com... com a... isso!
- Talvez tenhas razão - olhei-o com cara de má - ok tens razão! Mas o que é que a “coisa” - disse a rir pela expressão que adoptei para falar na rapariga - tem que ver com o baptizado do Bruninho??
- É Guilherme! João... é Guilherme! - ele riu - E o que tem é que eu não a quero ver no baptizado!
- Tás a dizer que não queres que o Ruben leve acompanhante?
- Sim!
- E a tua prima pode levar? 
- A minha prima?
- Sim... achas que ela não leva o Rui?
- Não sei se vão juntos, mas tendo em conta a ligação que tens com ele sempre pensei que o convidasses...
- Tás a ser parcial....
- Não estou a ser pacional! Se profissionalmente não o posso ser, pessoalmente posso e vou dar-me ao luxo de ser. Além disso não quero o baptizado do meu filho estragado/marcado por uma cena que prevejo ser menos feliz...
- Ok... eu ligo-lhe e falo com ele - tínhamos chegado a casa e por isso saímos do carro e enquanto eu tirava o saco do bebé do porta malas o João colocava o ovo no suporte com rodas - E se em vez de subirmos déssemos uma voltinha à beira Tejo?
- Parece-me bem! - iniciamos então um percurso à beira-rio em silencio, um silencio bom enquanto o João empurrava o carrinho com uma das mãos seguíamos com as nossas interlaçadas. - Olha lá tás à espera de quê?
- Ãhn?!
- Burguer! Não ias ligar ao Ruben?
- Ia não vou já ligo... - olhou-me - ok ligo já! - passou-me os comandos do carrinho do Guilherme e pegou no telemóvel. - Puto como é?! O teu afilhado contou-me que te viu ontem e tu nem dizes nada para nos encontrar-mos? (...) tou cheguei ontem volto amanhã (...) pois, já sei, também me contaram isso (...) a vida é tua não tenho nada com isso (...) oh mano eu já não me meto nisso, vocês são adultos, entendam-se (...) não era mesmo para... agora que me disseste que isso com a.. Sofia?!... Ok isso com a Sofia é mesmo sério - enquanto o ouvia falar não liguei muito o Guilherme acordou e ia brincando com ele mas quando referiu um nome de mulher e disse que era sério, parei de andar e olhei-o, ele olhou-me e depois continuou - fiquei numa situação complicada... é que... (...) oh ia-te avisar que o baptizado do teu afilhado está marcado, mas que... bem que nós, principalmente a Maria - que lindo a atirar a responsabilidade para cima de mim é mesmo “menino” - não se sente muito à vontade com a ideia de vires acompanhado por isso... se não te importasses de vir sozinho... (...) Ok Obrigado por perceberes (...) oh já sabes como são as Mendes (...) Tá aqui sim! Queres falar com ela? (...) Ok eu dou! (...) Ele tá a acordado - olhou para o menino - Bruninho o padrinho está a mandar-te um beijinho - voltou a focar-se na chamada - puto o teu afilhado diz que isso dos beijinhos é para meninas, mas vá faz-te a vontade e manda outro! - gargalhou imaginei que o Ruben também o fizesse e fui incapaz de também eu não sorrir - Ok então depois falamos melhor - finalmente desligou.

Depois de desligar o João passou o braço pela minha cintura e continuamos caminho até resolvermos para numa esplanada para bebermos qualquer coisa.

- Então?
- Então o quê?
- O que te disse o Ruben?
- Oh disse algo que temi quando me contaste que o viste com alguém...
- Ou seja?
- Esta Sofia é outra Ana...
- Tás a gozar?
- Não Maria, eles estão mesmo juntos e foi um bocado chato pedir-lhe que não a trouxesse... Maria ele quer seguir em frente...
- Olha que siga! Mas também não é por estar com ela que precisa ficar colado, podem perfeitamente passar umas horas longe...
- Como é que reagias se me convidassem para algum lugar onde era logo avisado que não eras bem-vinda??
- Tinha que aceitar... se a pessoa não me quisesse presente...
- Ficas já a saber que eu não era tão compreensivo e eu também já não ia...
- Também?? Queres com isso dizer que o Ruben não vem? - confesso que pensei em repensar a minha posição
- Não Maria! Como é óbvio ele vem! Ele é nosso amigo e gosta do Bruninho, mas não ficou feliz com a informação de que viria sozinho... - respirei de alivio
- Oh ele também não vem sozinho... a mãe e o irmão também vêm...
- Ah claro... - ele riu-se - oh tontinha eu sei que isto é o melhor para os dois e para termos um dias sossegado, mas não deixa de ser uma situação complicada... - ia responder mas o Guilherme choramingou - O que é que ele tem?
- Fome... - respondi a olhar para o relógio - a tua sorte pequenino é que o teu leitinho tá sempre pronto... anda cá - enquanto falava pegava-o ao colo e já ajeitava a minha blusa para que o Guilherme conseguisse mamar quando
- O que é que estás a fazer?
- A dar-lhe de mamar!
- No meio da rua???
- Não, no lugar mais recatado desta esplanada... além disso não percebo onde possa estar o mal... - fiz-me de desentendida e depois de com a fralda do Guilherme tapar a sua cabecinha e o meu peito recostei-me um pouco na cadeira para ficar mais confortável - não há nada mais natural que uma mãe alimentar um filho por isso não percebo que cara é essa?
- A sério?! - falou irónico - Ontem tavas cheia de não me toques porque não posso ver a cicatriz que tens na barriga e que foi feita para o NOSSO filho nascer, mas hoje já podes mostrar as mamas para qualquer um!
- Ei o que para ai vai!! Modera lá o tom e os termos... que eu não me posso irritar porque se eu me irrito isso passa no leite e o menino fica mal disposto! Além disso eu não estou a mostrar nada a ninguém! E amamentar o Guilherme não é propriamente o mesmo do que tu querias ontem! - calei-me e ele não respondeu ficou apenas com cara de poucos amigos enquanto eu amamentei para assim que terminei
- Vamos para casa?
- A sério que vais ficar chateado?
- Eu não tou chateado...

Não lhe disse mais nada e chegamos a casa em pouco tempo, aproveitei para trocar o Guilherme e coloca-lo a dormir na caminha, peguei no intercomunicador e fui até à sala onde encontrei o João agarrado ao comando da ps, peguei no outro

- Vamos a um joguinho?
- Não... - lavantou-se e fazia tensões de sair da sala
- Onde é que vais? Se queres jogas sozinho é só dizeres! Toma! - joguei o comando que tinha na mão para si que tinha voltado atrás mas se mantinha de pé - Engole-o! Eu vou tratar da roupa do Guilherme... - levantei-me e fui directa para a “lavandaria” o que não me faltavam eram roupinhas e babetes do Guilherme para lavar
- Fofinha... - sussurrou-me enquanto me abraçava por trás - eu não queria jogar contigo... nem sozinho... eu queria mesmo era falar contigo!
- O que é? - afastei-o e entrando na cozinha sentei-me numa das cadeiras
- Isso pergunto eu! Tá tudo bem contigo?
- E porque não havia de estar?
- Porque da ultima vez que cá estive... não estava!
- Mas já passou João! A sério que passou!
- Então porque é que ontem à noite...
- Porque já te disse que a Ana ainda não me voltou a ver! E que enquanto ela não o fizer estou proibida, além disso não me apetece! E antes que comece com ideias parvas... é normal para alguém que acabou de ser mãe não ter vontade ok?! Além disso se em vez de estares a 1000km de distancia estivesses aqui todos os dias também não irias ter vontade te garanto! Como também não tinhas visto mal nenhum em ter amamentado o nosso filho no café! Mas como para ti, na pratica muito pouco mudou...
- Não digas isso Maria! Mudou muita coisa!
- Oh sim muita... realmente mudou! Agora tens um bonequinho para passear e mostrar quando cá vens e... tens sentido falta da boneca insuflável! - ele olhou-me abismado, até eu estava com o que dizia mas era o que sentia - E não me olhes assim porque para teres o bonequinho a boneca rompeu-se e agora.... agora é preciso esperar que o remendo cole... ah espera brinquedos insufláveis com remendos já não têm tanta piada! Eu se fosse a ti arranjava outra! - já estava a chorar
- Mas que parvoíce é essa?! Sabes perfeitamente que não foi isso que mudou! Sim tenho um bonequinho como lhe chamas... lindo cada vez que cá venho, mas não o tenho quando estou lá sozinho e só vos queria ter comigo! Queria vê-lo todos os dias, notar como muda a cada dia que passa como fica mais interactivo e como cresce! Queria poder passar noites sem dormir porque ele tem os horários trocados e tu não aguentas mais! Queria ver-te rabugenta como percebo que estás quando falamos ao telefone! Ajudar na hora do banho... ter ido com ele às primeiras vacinas ou ao pediatra! - falou num tom calmo, deu-me a sensação que não era a primeira vez que pensava em tudo isto - e quanto a ti... nunca gostei de bonecas insufláveis  E tu estás muito longe de ser uma! Mas sinceramente se quando entraste em paranóia porque não tinhas roupa que te servisse por causa da barriga, algo que nunca foi normal em ti, nunca imaginei que agora estarias assim com essa birra toda por causa de uma cicatrizinha! Oh Maria tem lá dó! Além do mais eu não penso só nisso! Mas sim gosto de ti! E gosto de ir prá cama contigo e... talvez tenhas razão talvez se tivesse aqui todos os dias a rotina com jogos e o menino não me ia deixar espaço para grandes vontades, mas não estou e não podemos fazer nada quanto a isso, não agora! Eu sei... sei que me avisaste para não ir, mas agora passado este tempo avalia da mesma forma que avaliaste friamente a proposta e diz-me que fiz mal! DIZ!!! - parou a olhar-me e eu chorava - Ah não dizes nada - falou uns minutos depois - não dizes porque sabes que fiz o melhor a nível profissional! Mas isso não quer dizer que não perceba que não queiras, que não te sintas confortável e que ainda não tenhas a autorização da Ana! Percebo isso tudo, mas não deixo de querer como sempre quis... adormecer e acordar abraçado a ti! E agora para de chorar! - Levantou-me da cadeira pegou-me ao colo e levou-me até à sala sentou-se no sofá sem nunca me largar - Tira essa maluquices da cabeça! Amo-te! E não é por estares mais gorda, ou mais magra ou por teres uma cicatriz que por sinal é só mais uma prova de que te amo e tu também me amas - foi impossível não sorrir com o ar convencido com que falou - sinceramente não percebo essas birras!
- Não são birras! Eu não me sinto bem!
- Mas tu nunca tiveste essas maluquices!
- Mas agora...
- Agora?... Maria fala!
- Oh agora tás lá longe! E tens uma data de espanholas todas giras e magras e sem leite e sem cicatrizes e...
- E sem o Bruninho! E sem o teu beijo e o teu abraço... e o teu mau feitio de manhã... e as birras que fazes quando ficas com ciumes e... nenhuma delas és tu por isso qual é mesmo o problema?!
- Sabes que te odeio?
- A mim?! Porquê?
- Porque dizes sempre essas coisas e depois eu fico sem resposta... - ele gargalhou
- Amo-te
- E eu a ti! - acabamos por nos deixarmos ficar ali assim aninhados no sofá até ouvir o Guilherme - Mais uma volta mais uma viagem! 

Acabei por ir ver o que se passava com o nosso príncipe e depois de voltar a coloca-lo a dormir levei-o comigo para a cozinha uma vez que era hora do jantar e quando lá cheguei fui surpreendida uma vez que o papá já tinha tudo preparado

- Não é um dos seus manjares, mas acho que não me sai mal!
- Também era difícil - disse a rir quando vi que o jantar era lasanha congelada feita no microondas - só faltava não saberes ligar o microondas! 

Sorrimos os dois para iniciarmos a refeição logo de seguida e assim que terminamos o jantar e depois de o ver arrumar toda a cozinha sozinho, fomos-nos deitar para no dia seguinte voltar a ficar sem a sua companhia.
Os dias seguintes voaram e estávamos já no inicio das férias do João e por isso na data marcada para o batizado do meu menino.

Como correrá o baptizado do Guilherme os padrinhos conseguirão conviver?
E a Maria e os seus complexos?
Sairá este casamento?


segunda-feira, 5 de agosto de 2013

087 - "...se está a doer é sinal que está a sarar…"

Ruben
Ter consciência que não serei pai e que a culpa em grande parte é minha fez-me tomar uma decisão, provavelmente irei arrepender-me mas neste momento não aguento mais, preciso afastar-me, libertar este ódio que sinto de mim mesmo, sinto-me preso a uma história que nunca devia ter sido desenterrada, se ficou no passado não deveria ter remexido, só serviu para magoar-me, fui cutucar um enxame de abelhas sabendo que seria picado, fui fraco e caí em tentação, cedi ao desejo de ter o que no passado deixei fugir por entre os dedos mas hoje arrependo-me amargamente, devia ter evitado tudo isto, por capricho meu arrastei a Mariana para o abismo, a rapariga estava bem antes de atravessar-me no seu caminho, se não tivesse insistido em recuperar o que nunca foi meu hoje poderíamos ser amigos mas não… fui mimado e por isso perdi tudo…
***
Cheguei a Braga e ao entrar no meu quarto um espasmo percorreu o meu corpo, talvez provocado pela certeza que nunca mais a minha vida terá cor, nunca mais terá alegria ou motivo para sorrir mas a decisão está tomada e não será alterada, terei que aprender a viver com os erros do passado e com a esperança de algum dia sentir-me livre da culpa que carrego no presente.
Tentei comer algo mas nada passava na garganta, a sensação de nó não deixava que metesse comida à boca, por isso mesmo fui deitar-me, desliguei o telemóvel para não ser incomodado e tentei adormecer, pelo menos enquanto dormia não pensaria na Mariana e na forma como tudo acabou mas foi impossível, o peso na consciência não deixou que fechasse os olhos, sei que a decisão que tomei deveria ser de mútuo acordo mas nenhum dos dois está em condições para um novo confronto, ainda assim senti necessidade de lhe dizer algo, saí da cama e fui buscar o portátil
Olá Mariana,
Regressei a Barga decidido a seguir em frente e para que o consiga não dá para continuar ao teu lado, desculpa mas não consigo, não dá mais…
O meu erro foi querer recuperar algo que nunca teve concerto, misturei sentimentos e arrastei-te para o abismo, errei quando achei possível ter o que deixei fugir no passado, o que fiz há quase três anos deveria ter feito há mais de 10, nunca deveria ter permitido que fosses para Faro sem lutar pelo que sentia, falhei nesse momento e voltei a falhar em muitos mais, fui fraco e não resisti ao desejo de voltar a ter-te, obriguei-te a mudar, deixaste de te reconhecer e foi isso que acabou contigo.
Mariana não és pessoa para casar e ser mãe, és sim pessoa para ser livre, para viver um dia de cada vez por isso aproveita esta nova oportunidade e quando conseguires recuperar de todo o mal que te fiz VIVE…
Por favor luta para recuares do abismo para onde te conduzi, não me faças sentir ainda pior… faz por mim mas principalmente por ti… Sei que encontrarás o teu caminho e este será longe do meu… voltarás a sorrir… espero sinceramente poder ver esse dia chegar nem que seja à distância…
Resta-me agradecer tudo o de bom que vivi durante o tempo que estivemos juntos…
Ah… e sei que não sou ninguém para te pedir algo mas fala com a tua família pois é a única coisa que será eternamente tua…
Obrigado e VIVE
Ruben Amorim  
Doeu escrever cada palavra mas quando carreguei no enviar e o email seguiu senti-me liberto, sei que não é a melhor forma para terminar com algo que não deveria sequer ter existido mas de outra forma não seria capaz, aliás nem sei como lidarei com o fato de ter um afilhado em comum com a Mariana, só sei que o menino não tem culpa e que por isso espero sinceramente que a convivência seja possível, não digo para o imediato mas a longo prazo…

Mariana
Admitir que perdi os minimeus arrasou-me ainda mais, fiquei sem forças e por isso assim que o Ruben deitou-me na cama “apaguei”, não conseguia falar e muito menos olhá-lo, só quis desaparecer mas infelizmente não basta querer… Acordei horas mais tarde e sem forças para mexer um único músculo que fosse, fiquei na cama a ganhar coragem para sair daquele quarto, para terminar uma conversa que ficou no início, afinal devo um pedido de desculpas ao Ruben por tudo o que fiz. Foi quando já tinha colocado os pés no chão que bateram na porta do quarto, dei permissão para entrar e assim que olhei e vi o Rui uma sensação de perda completa invadiu-me.
- O Ruben… - o Rui baixou o olhar – foi embora? – perguntei já a chorar
- Mariana… - aproximou-se e reconfortou-me nos seus braços – o Ruben saiu e ainda não voltou… mas isso não significa que não regresse…
Não tive forças para refutar o que falou, acho que usei as que restavam para acreditar e agarrar-me à esperança que o Ruben regressaria mas passou uma, duas, três… horas e nada, desisti e mergulhei no “vale dos lençóis” não adormeci… aliás dormir foi algo que não fiz o resto da noite, talvez pelas horas que já tinha dormido ou porque sempre que fechava os olhos vi-a o rosto do Guilherme, a felicidade estampada na cara da Maria e do João… e depois vi-a a dor da perda, aquela que senti e fiz outros sentir por culpa minha…

Rui
Fui apanhado pelos destroços de duas vidas completamente desfeitas, não conheço nenhum dos dois profundamente mas ainda assim é visível que nem o Ruben nem a Mariana estão bem. O rapaz saiu arrasado e nunca mais voltou, tentei ligar-lhe mas foi parar diretamente à caixa das mensagens e a Mariana, essa, nem tenho palavras para descrever o estado em que se encontra, por isso mesmo fui incapaz de deixá-la sozinha, passei a noite no seu apartamento e de manhã acordei sobressaltado com o estrondo que ouvi, percebi que vinha da cozinha e por isso fui ver o que se passava, encontrei a Mari a apanhar os cacos do chão.
- Tu?! – falou assim que lhe agarrei nas mãos
- Sim… anda – puxei-a para que se levantasse – senta-te que trato disso…
- Deixa-me… isso é só um copo partido que escapou-me das mãos…
Voltei a olhá-la e percebi o porquê que deixou o copo cair, todo o seu corpo tremia, tentei que comesse alguma coisa por achar tratar-se de fraqueza mas não consegui, resolvi então partir para a última solução, obriguei-a a mudar de roupa, algo que tive de ajudar apesar do constrangimento que a situação nos causou ou melhor que me causou a mim porque à Mariana duvido que lhe tenha causado alguma coisa, não no estado em que está, e depois saímos, só parei no hospital onde a rapariga foi assistida, colocaram-na a soro.
***
Regressei ao hospital horas depois, uma vez que tive treino, e encontrei-a com melhor aspeto, pelo menos já não estava tão pálida, fiquei a fazer-lhe companhia até ter alta e assim que a recebeu acompanhei-a, a Mariana nem refutou e por isso desviei caminho, não fomos diretos ao seu apartamento mas sim apanhar um pouco de ar.
- Rui… - olhei e encontrei-a já de pé – vou visitar a Maria – falou determinada – prometi e vou cumprir!
- Tens a certeza?! – perguntei afinal perdeu os seus filhos
- Não… mas é o correto… - a voz dela esmoreceu – vens comigo?
- Sim… se é isso que queres, vamos!
Acompanhei a Mariana na visita à Maria, algo que deixou o João intrigado, sim porque a Maria ficou radiante por ver a prima que nem questionou a minha presença ao lado da Mariana em vez de ser o Ruben. Estava no meu canto a observar a rapariga, por esperar que quebrasse a qualquer momento quando o João avisou que iriamos beber um café, olhei-o e percebi a sua intenção, nem contestei apesar de ter noção que não lhe poderia dizer a verdade.
- Puto o que se passa? - olhei-o - Nem tentes negar que sabes mais do que eu… que treta é esta de agora andares atrás da minha prima?
- Hey calma aí… não ando atrás da Mariana ou pelo menos não nesse sentido que estás a insinuar - falei, afinal não gostei do tom de voz do João - e sim, tens razão, sei o que se passa mas não posso dizer… desculpa mas é um assunto delicado e pessoal…
- Mas quem queres enganar?! Conheço-te… e sei que ultimamente só te queres divertir mas com a Mariana não, ouviste? Ela é mulher do Ruben…
- Pensa o que quiseres mas antes de me condenares por um crime que não cometi é melhor falares com o Ruben, isto se a ti atender as chamadas porque a mim recusa-as…
- Mas o que se passa com estes dois? Estão novamente armados em parvos…
- João – hesitei mas acabei por deixar escapar algo que o alarmou – não os julgues… a última coisa que precisam é disso…
- Fala! Diz-me o que se passa porque já percebi que da Mari não vou arrancar nada e o Ruben casmurro como é...
- Desculpa mas não dá…
O João teria insistido mas a saída repentina da Mariana do quarto e a urgência dela em procurar um porto seguro foi de tal ordem que quando reparei já a tinha abraçada a mim, a chorar desesperada.
- Mariana… - o João tentou falar mas fiz-lhe sinal para não o fazer e levei a Mariana comigo, sentei-a numa cadeira e fui buscar uma garrafa de água.
Foi quando a rapariga já estava mais calma que vi a Ana a aproximar-se, temi que a Mariana voltasse a reagir menos bem mas isso não se verificou.
- Vem comigo! – a Ana ordenou mas a Mariana não mexeu um único músculo – Estás a ouvir? Deixa de ser teimosa… o João chamou-me porque tiveste uma crise de nervos – a Mariana continuava “a leste” – Mariana estás grá… - não deixei a Ana terminar, a Mariana não precisava que lhe relembrassem que os nervos prejudicam a gravidez, a rapariga aprendeu isso da pior forma possível e por isso mesmo puxei o braço da médica e amiga deles.
- Ana – respirei profundamente – a Mariana abortou.
- Como?! Não… não é possível… se fosse verdade já sabia!
- Infelizmente é verdade… mas só nós, o Ruben e a Mariana é que sabemos…
- Mas como…
- No dia que o Guilherme nasceu a Mariana perdeu os gémeos, sei disso porque encontrei-a com dores e acompanhei-a ao hospital… a Mariana não quis contar a ninguém e só o disse ao Ruben porque a obriguei.
- Como é que eles estão?
- Pois… não estão. A Mariana está no estado que vês e o Ruben a última vez que o vi estava-se a recriminar e agora não atende o telemóvel, só te contei a ti porque calculei que és a médica da Mariana…
- Tenho que a observar…
- Duvido que deixe mas hoje levei-a novamente ao hospital, esteve a soro e quanto ao resto foi-nos dito que é uma questão de tempo para recuperar…
***
Saímos do hospital e seguimos para o meu apartamento, a pedido da Mariana uma vez que não conseguia ficar sozinha e muito menos naquele apartamento cheio de recordações.
Mostrei-lhe os meus modestos aposentos e deixei-a à vontade, arranjei-lhe umas calças e camisola minha para se trocar e quando voltei a vê-la, a rapariga surpreendeu-me ao pedir que a deixasse ajudar-me a preparar o nosso jantar, a atitude dela agradou-me, pelo menos estava a tentar reagir.
Jantamos sem grandes conversas e no final a Mariana pediu-me se podia usar o portátil de forma a consultar o email, dei-lhe autorização e a devida password para ligar o portátil.
Acabei de arrumar a cozinha e quando voltei à sala encontrei-a a chorar, aproximei-me e ao sentar-me do seu lado foi impossível não olhar para o ecrã, percebi tratar-se de um email do Ruben e por isso li, o rapaz simplesmente desistiu e isso abalou a Mariana. Deixei-a extravasar a dor e umas horas depois já dormia, talvez vencida pelo cansaço.

Mariana
Acordei com uma dor de cabeça enorme, talvez por não ter dormido nada, mas isso não foi impedimento para sair da cama.
- Oi... – murmurei um oi sem grande vontade quando vi o Rui a preparar talvez o pequeno-almoço
- Bom dia! – sorriu talvez numa tentativa de transmitir-me algum animo, tentativa essa falhada – senta-te para comeres...
- Não tenho fome – informei enquanto pegava numa das chávenas que estavam na mesa e vertia um pouco de café
- Nem penses que começas o dia sem ingerires alguma comida – bufei, não o conheço muito bem mas a segurança com que falou foi suficiente  para entender que o melhor seria mesmo meter algo à boca
- Tudo bem... – sentei-me e fingi que comi, pelo menos tentei disfarçar a ausência de vontade em comer
- Tenho treino daqui a nada – olhei-o – mas já deixei uma cópia das chaves aqui de casa no móvel no hall de entrada para no caso de precisares de sair... – o que falou surpreendeu-me, estava a oferecer-me um porto de abrigo mesmo sem conhecer-me de lado algum.
- Obrigada – agradeci – mas não vai ser necessário - as lágrimas caíram dos meus olhos – já fizeste muito... mais do que seria suposto – interrompeu-me
- Não te vou virar as costas, estás a precisar de alguém que esteja atento a ti e neste momento nem a Maria nem o João o podem fazer e como amigo que sou do João e sabendo o quanto gosta de ti podes ter a certeza que serei tal como uma carraça é para um cão, vou grudar em ti e assegurar-me que segues em frente, que darás a volta por cima...
As palavras do Rui tocaram-me, no fundo tem razão terei mesmo que dar a volta por cima nem que para isso tenha que fazer o enterro da vida que vive até ao presente, se quero um futuro minimamente decente tenho de reagir, foi a pensar nisso que ganhei forças e fui até ao quarto, voltei a vestir a minha roupa e antes de sair avisei o Rui.
- Vou visitar a Maria e o Guigas – o rapaz olhou-me não foi pena que vi no seu olhar foi mesmo apoio, algo que soube bem, pelo menos sei que não estou sozinha e que terei um sítio para esconder-me quando assim for necessário, quando precisar de estar simplesmente sozinha, chorar e recarregar baterias para continuar em frente.
Segui para o hospital, se quero recuperar alguma dignidade, sim sinto-me a pior pessoa por ter perdido os meus bebés, terei que aprender a transformar a dor da perda em amor... amor pelo meu afilhado que não tem culpa nenhuma do caos que está a minha vida e a Maria... a Maria também precisa de mim, talvez seja mesmo esse o rumo certo, dedicar-me aos outros e esquecer que morro a cada segundo, viver na sombra da felicidade dos outros e aos pouquinhos ir aprendendo a viver com o sentimento de culpa que carrego por ter morto os meus bebés.
- Mariana! – ouvi a Ana assim que aproximei-me do quarto da Maria, parei e após respirar profundamente, voltei-me e vi no seu olhar compaixão
- Diga Dra. Ana – olhou-me abismada
- Mariana... amiga – deu um passo em frente enquanto dei dois para trás
- Não faças isso... não preciso que tenham pena de mim e muito menos quero falar do que aconteceu...
- Mas tens de falar... tens de ser seguida...
- Eu sei... e vou sê-lo mas não por ti... desculpa mas não consigo voltar a entrar na clinica, voltar a deitar-me naquela maca e olhar para o vazio... não Ana... esquece...
A Ana ainda tentou convencer-me a procurar apoio psicológico porque segundo ela é uma fase complicada mas não aceitei, complicado foi viver na incerteza que podia ter sida, perder os meus filhos é viver com uma culpa para todo o sempre, é saber que sou tão ou mais homicida que os que estão presos, porque foi isso que fiz... matei os meus bebés por ser teimosa e infantil.
Estive o resto da manhã com a Maria e o Guigas, é certo que vê-la com o menino nos braços destrói-me mas também ajuda a clarificar as ideias, tenho mesmo que aprender a lidar com as consequências dos meus atos e se não posso ser condenada pela morte dos meus bebés, posso sempre cumprir a minha sentença, esta é ficar do lado do meu afilhado, vê-lo crescer e amá-lo, é apoiar a Maria nesta fase inicial, é fingir que estou bem para que a minha amiga fique serena e consiga cuidar do meu pequenino. Foi a pensar nisso que quando a Maria pediu que fosse para a sua casa não hesitei e mesmo sabendo que não será fácil, estou disposta a isso, já a prejudiquei demasiado, ter-me afastado da Maria foi um erro que podia ter custado também a vida dela ou do Guigas e esse erro nunca mais irei cometer, porque não serei capaz de viver com uma culpa tão grande.
***
Três dias passaram, comigo dividida entre o hospital, o apartamento do Rui e os passeios solitários mas que têm ajudado para manter a cabeça ocupada, hoje foi o regresso a casa da Maria e o momento que o Guigas conheceu o seu lar, mas foi também o dia que contei que já não há bebés, a Maria respeitou o meu pedido e simplesmente apoiou-me sem grandes perguntas.
***
Um mês passou desde o fim de uma vida que nunca foi minha, hoje já percebo as palavras que li e reli centenas de vezes naquele email que o Amorim enviou-me, realmente ser mãe e casar nunca deveria ter feito parte dos meus planos…
Hoje acordei mais uma vez na casa do Rui, sim tenho ficado no seu apartamento mais vezes do que aquelas que seria suposto, mas a verdade é que ser a quase a mãe do Guigas tem arrasado comigo, a Maria atravessou uma fase complicada mas felizmente já passou e agora já cuida do filho como uma mãe deve cuidar, por isso mesmo já não precisa de mim constantemente e foi no Rui que encontrei o escape, foi o lagarto que acompanhou-me e animou-me sempre que precisei, principalmente no dia que contei à Maria que afinal já não será madrinha, pelo menos de um filho meu, esse dia foi difícil, relembrei a perda dos meus minimeus e tudo o que daí resultou mas mais uma vez o meu amigo esteve presente e não deixou que voltasse a bater no fundo, tal como esteve presente no dia que recebi todos os meus pertences que se encontravam em Braga e que foram enviados pelo Ruben sem aviso prévio, ou como esteve do meu lado na consulta que a Ana obrigou-me a ter ou ainda no dia que enfrentei os Mendes e que esclareci que preciso de tempo para aceitar a mentira que contaram, que quero simplesmente deixar o tempo passar para a mágoa desaparecer.
- Maria despacha-te! – reclamei afinal já devíamos estar em Alvalade
- Tem calma… ainda temos tempo… afinal que pressa é essa para veres os lagartos? Ou será que é um lampião bracarense que queres ver?
Não respondi, se há algo que aprendi nestes trinta dias, foi a bloquear os meus ouvidos ao assunto Amorim.
Chegamos a Alvalade e tal como tinha combinado, com o Rui, subimos de imediato para o camarote, onde encontrei algumas das namoradas dos lagartos, cumprimentei-as e apresentei a Maria às que ainda não conhecia.
- Bem… não sabia que estás assim tão entrosada…
Não lhe dei resposta, acomodei-me simplesmente na cadeira exterior do camarote e fiquei a ver o aquecimento do Rui que entretanto tinha pisado o relvado. Estava concentrada nele quando ouvi a primeira assobiadela da noite, não foi difícil adivinhar o motivo, a equipa do Braga tinha iniciado o aquecimento, neste momento começou uma luta árdua dentro de mim, a razão contra o coração, a primeira impedia-me mas a segunda obrigava-me a olhá-lo, resisti durante o aquecimento todo, bem como parte do jogo mas quando percebi que seria substituído caí no erro de olhá-lo, o Ruben parecia feliz, sim feliz e isso corroeu-me, já teria esquecido tudo o que partilhamos…

Ruben
Os primeiros dias foram complicados, entrar em casa e não ter a Mariana à minha espera doía, tal como doía abrir o armário e encontrar as suas roupas ou olhar para os móveis e ver fotos ou objetos dela, por isso tomei a decisão de guardar tudo em caixas e enviei-lhe por uma empresa de mudanças. Desde esse dia que nunca mais tive contato com a mulher da minha vida, que infelizmente terei que esquecer e por isso mesmo voltei ao que fui no passado, pelo menos enquanto andava entretido com outras não pensava na merda de vida que tenho.
Um mês passou e o regresso à capital aconteceu, sim desde que descobri que a Mariana abortou nunca mais regressei, talvez por medo de não resistir procura-la, mas hoje o Braga joga com o Sporting e por isso não tive como fugir. Passei o dia com um só pensamento, sabia que se perguntasse ao Rui notícias da Mariana que as teria por isso só tinha que evitar cruzar-me com ele.
O jogo correu bem, apesar de ser substituído até fiz um bom jogo e no final despachei-me rapidamente afinal tinha alguém à minha espera, a verdade é que não regresso a Braga com a equipa e convidei a minha mais recente “amiga” a conhecer a capital assim sabia que não caía na estupidez de procurar a Mariana.
Estava ao telemóvel, a falar com a Sofia para saber onde estava quando oiço a voz do Rui, olhei e encontrei-o com a Maria que tinha o Bruno no colo, foi impossível fingir que não os tinha visto porque a minha amiga chamou-me, aproximei-me e a cada passo que dava sentia o meu coração a apertar mais, porque se a Maria ali estava a Mariana também estaria…
- Boa noite – falei assim que fiquei diante do meu afilhado e da mãe
- Seja bem aparecido! - a Maria reclamou
- Desculpa… - teria continuado a justificar-me mas fui abraçado e beijado, sim a Sofia aproximou-se sem que tivesse visto e quando reparei tinha a Maria a olhar-me desiludida – Maria…
- Cala-te! Não vales nada… a minha prima a sofrer e já andas noutra… agora percebo a merda de email que lhe enviaste… o porquê que nem pelo Guigas voltaste a Lisboa, o porquê que sempre que falávamos afirmavas estar bem… sempre pensei que mentias mas pelo que vejo estás excelente…
A Maria voltou costas e desapareceu com o Guigas e quando virei-me para a Sofia numa tentativa que me largasse, vi a Mariana especada a olhar, não consegui descortinar o que lhe ia no pensamento, estava simplesmente inerte, não sei porquê, só sei que quando caí em mim estava diante da Mariana, tinha caminhado até si.
- Mariana… - olhou-me – como… como é que estás? – perguntei mas que raio de pergunta mais estúpida
- Como estou? – sorriu mas um sorriso diferente de todos os que já vi como sendo seus – a respirar… sim é isso… estou a respirar – atirou antes de se afastar, segui o seu trajeto com os olhos e facilmente percebi que caminhava para os braços de outro…

Mariana
O que temia aconteceu, cruzei-me com o Ruben, pior ainda confirmei com os meus olhos que sou passado na vida dele, doeu vê-lo agarrado a outra, a beijar uma loira oxigenada mas tudo aquilo deu-me também força, sim parece mentira mas senti força, encontrei ali um motivo para destruir de vez o pouco que ainda me ligava ao Ruben.
- Vamos?! – perguntei assim que cheguei junto do Rui e da minha prima
- Mari…
- Prima – olhou-me surpreendida, pela primeira vez desde que descobri que não sou Mendes de sangue chamei-a de prima – M-O-R-R-E-U – soletrei letra por letra.
- Oh prima – a Maria abraçou-me
- Oh prima nada! – soltei-me dos seus braços – Sim doeu mas serviu para perceber que só perdi tempo do seu lado, o Ruben acabou de morrer para mim, é passado e apesar de estar a doer sei que o vou esquecer e encontrar algo que preencha o vazio que deixou – respirei fundo – e agora vamos que tenho de deixar-te em casa antes de seguir com o Rui – o meu amigo sorriu – sim que hoje preciso do meu lagartinho preferido…
Saímos do estádio no meu carro, fui deixar a Maria a casa e pelo caminho o assunto “Ruben” não surgiu. Despedi-me da minha prima e do Guigas e segui com o Rui no seu carro.
- Onde queres ir?
- Rui… lagartinho… decide tu… estou por tua conta e risco!
- Gosto disso… - olhei-o e encontrei-o a sorrir – ah e só digo uma vez… esquece não te merece…
- Sim… sei disso mas dói na mesma…
- O que dói e não mata torna-nos mais fortes… se está a doer é sinal que está a sarar… daqui a um tempo será só mais uma história que fará parte do teu passado…
- Sim…
O resto da viagem foi animada com o Rui a contar piadas o que é hábito nele, somos jantar os dois e depois seguimos para um bar. Pedimos uma bebida cada um e fomo-nos sentar numa mesinha num canto recatado, estávamos a falar quando reparei na presença do Exmo. Sr. Dr. Ruben Amorim e da sua loira oxigenada.
- Que foi? – perguntou quando bufei, simplesmente fiz sinal com a cabeça, o que foi suficiente para perceber o motivo – queres ir embora?
- Não… anda vamos sacudir a poeira!
- Vamos o quê?!
- Dançar filho… dançar…
- Bora!
Levantamo-nos e com o copo na mão fomos até ao centro da pista de dança, pelo menos lá não conseguia vê-lo. Não sei o tempo que tivemos a mexer-nos, sim mexer-nos porque se há coisa que o Rui não tem jeito é para dançar, por isso mesmo estávamos mais numa de conversarmos enquanto mexíamos os pés e bebíamos.
A noite que chegou a estar ameaçada pela presença do Amorim acabou por se revelar positiva, deu para distrair-me mas principalmente cansar-me, tanto que quando cheguei à cama, do quarto de hóspedes do apartamento do Rui dormi até à hora de almoço.

Ruben
A forma como respondeu e depois como a vi de sorrisos para o Rui deixou-me triste, a Mariana estava a seguir em frente, a fazer o que lhe disse para fazer, confesso que esperava encontra-la abatida ou mesmo de rastos, mas não, a Mariana estava bem… sim bem porque se não estivesse nunca teria conseguido responder-me com aquela calma toda e muito menos agir como se nada fosse… será que já esqueceu tudo o que vivemos? Será que o aborto foi mesmo o melhor? Será que algum dia vou encontrar alguém capaz de preencher o vazio que deixou no meu coração…
Estava a pensar nisso quando sou interrompido pela voz da Sofia a pedir para irmos até a um bar, fiz-lhe a vontade, até porque se fosse para casa seria bem pior, afinal o meu apartamento contínua como o deixei, cheio de recordações da Mariana… Escolhi o bar ao acaso, para mim qualquer canto servia… tive a sorte da escolha agradar a Sofia, tanto que quis dançar, fiz-lhe a vontade mas arrependi-me amargamente de o ter feito, pois tive que ver a Mariana nos braços de outro, assisti de “camarote” à descontração daqueles dois, o Rui e a Mariana dançavam, falavam e sorriam, sim sorriam, aquele sorriso dela… que em tempos foi meu agora pertencia a outro, muito provavelmente até o seu corpo já lhe tinha entregue, a cumplicidade que demonstravam ter espelhava isso perfeitamente… sim sem duvidas que já tinham ido para a cama…
***
Rui
Acordei com uma voz doce a chamar-me, não foi difícil perceber de quem seria, afinal no último mês tem sido frequente acordar com a Mariana a chamar-me, a verdade é que sinto-me um autêntico puto que é acordado pela mãe quando já tem o pequeno-almoço na mesa. Nestas últimas semanas construí uma amizade sincera com a Mari, é incrível a forma como lida com a dor da perda, conseguiu dar a volta por cima e apesar de ainda lhe doer e muito já não se deixa abater sempre que ouve o nome do Ruben, no início de Junho começou o carnaval em torno do regresso do rapaz ao Benfica e desde esse dia o nome dele aparece sempre ou em conversas ou quando vemos as notícias mas ao contrário do que temi para a Mari já lhe passa ao lado, ainda assim sei que magoa mas evito tocar no assunto.
- Ainda demoras?! – perguntei já farto de a esperar
- Entra! – pediu-me afinal há uma barreira que sempre fizemos questão de impor entre nós, a barreira do respeito mutuo e não invadimos a privacidade um do outro a menos que seja autorizado como neste caso em que pediu que entrasse – Ajuda-me aqui…
- Realmente… mulheres! – olhou-me de lado – sim são todas iguais… querem meter colares e depois quem os coloca somos sempre nós…
- Oh… deixa-te de coisas e vamos que não posso chegar atrasada ao batizado do meu afilhado
- Levasses menos tempo a despachar-te!
- Ai… já tiveste a falar melhor… olha que para amigo andas a opinar demasiado como apêndice – gargalhei perante a forma como se referiu a um namorado
- Engraçado… a menina é que está em casa alheia – impliquei e por isso fomos o caminho todo a retorquir um com o outro, algo que em nós é comum.
Chegamos a casa do João e tivemos o desprazer de nos cruzarmos de imediato com o Ruben.
- Olá – a Mariana tomou a iniciativa de o cumprimentar com um beijo no rosto, o que o surpreendeu pois não conseguiu reagir.
- Tudo bem? – segui o exemplo da Mari e também o cumprimentei afinal não tenho nada contra o rapaz.  
- Sim… - o Ruben olhou-nos alternadamente – e convosco?
- Melhor impossível… - a Mariana esclareceu-o – o nosso afilhado onde anda?
- No quarto à espera que a madrinha o vá vestir…
- Ups… - a Mariana virou-se para mim – já estou a levar nas orelhas e a culpa é tua… sim tua porque te fiz o pequeno-almoço…
A Mariana fez de propósito para que o Ruben percebesse que tínhamos passado a noite juntos, por momentos tive vontade de desmentir os pensamentos que o Ruben deve ter tido mas não o fiz até porque a Mari se afastou e o Ruben seguiu-a.
- Puto – olhei para o João – agora que somos só os dois confessa lá que já és meu primo…
- Estás parvo?!
- Ohhh vais dizer que nunca…
- Cala-te… não digas disparates porque isso não tem fundamento nenhum, somos só amigos.
- Sim… pois… e eu sou virgem queres ver?!
- João se conheces a Mari sabes perfeitamente que ama o Ruben, pode não o admitir mas ama… tanto que ama que é o nome dele que diz enquanto dorme… só ainda não percebi se é sonho ou pesadelo… a sério pára com essas bocas porque entre nós não se passa rigorosamente nada, ao contrário do Ruben que seguiu mesmo em frente a tua prima ainda continua de certa forma pressa ao passado.
- Então e tu?
- Eu?!
- Sim não te faças de desentendido… já curaste os teus males de amores?!
- Está quase… mas prefiro não falar disso…
O João respeitou o meu pedido e acabamos por ir até ao quarto onde o Guigas estava a ser vestido, assim que lá entrei o meu olhar cruzou com o da Mariana e percebi o esforço que fazia para sorrir, a presença do Ruben do seu lado estava a consumi-la, ainda assim aguentou firme.

Como terminará o dia?

sexta-feira, 2 de agosto de 2013

086- "deixar o teu filho com a mãe dele não é ao contrario do que deveria ser 100% seguro!"

(Maria)
O João acabou mesmo por seguir viagem, sabia que este momento era irremediavelmente garantido, mas tinha a secreta esperança que fosse adiável. Mas antes de sair fez questão de mais uma vez ser ele a trocar a fralda do Guilherme algo que nem discuti, aproveitei apenas o momento para registar e partilhar com o “mundo” o orgulho que tenho no papá do meu Guigas, que foi incansável neste dia e meio que passou connosco.
Quando saiu fiquei apenas eu e o pequenote que dormia, acabei por dar uma vista de olhos pelo que acontecia no mundo e dormir mais uns minutinhos.
Algumas horas depois recebi novamente a visita da Ana, na qualidade de minha médica e também da sua colega pediatra. Fiquei a saber que ficaria mesmo 5 dias internada, mas apenas para cumprir o protocolo estabelecido em casos de partos por cesariana uma vez que ambos estávamos com uma evolução perfeita.
Alguns minutos depois a porta voltou a abrir-se e desta vez quem surgia era a minha prima. Ela continuava estranha, distante, alheia ao mundo e duvido que esse seu estado fosse “apenas” pela revelação sobre a sua paternidade. Ela manteve-se quase todo o tempo que estive internada comigo e quando não estava no hospital estava com o Rui algo que me surpreendia ainda por cima juntando o quase total desaparecimento do Ruben que apenas enviava uma sms ao final de cada dia para saber como estava o afilhado à qual eu respondia com uma mms com uma foto do pequeno e um pequeno resumo do dia. Nunca me perguntou pela Mariana e ela não falava nele, aliás nem nele nem nos bebés e isso já começava a deixar curiosidade a mais.
O dia de deixar o hospital finalmente chegou e como ia poder contar com o apoio da Mariana resolvi ir para minha casa e não para casa dos meus pais. Afinal o Guilherme tinha direito a gozar o espaço que tínhamos preparado para ele desde o primeiro momento.
Assim que chegamos a casa e depois dos avós nos deixarem sozinhos deitei o Guilherme e segui com a minha prima até à sala sempre na companhia do intercomunicador caso o pequeno acordasse. Sentamos-nos no sofá da sala
- Finalmente em casa!!! - disse sem esconder a alegria que sentia
- Estava a ver que não dizias! Nem sei como ficaste tanto tempo no hospital sem refilar ainda para mais ligada ao soro...
- Oh eu refilei, mas a Ana abriu-me os olhos...
- Ui quando ela abre os olhos... - rimos-nos as duas já que a nossa amiga quando abre mais um pouco os olhos é sinal de que não está nada contente, mas o sorriso da minha prima era forçado e triste
- Mariana agora que estamos as duas aqui sozinhas... - ela olhou-me - conta-me!
- Conto o quê?
- O que se passa, eu não sou parva e sei perfeitamente que se passa algo! Mariana tu e o Ruben estavam estranhos quando estiveram os dois no hospital, ele desapareceu para Braga sem nem se despedir pessoalmente, evita a todo o custo que fale com ele, só mesmo sms’s e tu... Prima - ela fuzilou-me por a ter chamado assim, ignorei e continuei - tu estás triste... e não me digas que é pelo que descobriste porque eu sei que não é só, algo mais se passa e tu por algum motivo não me queres contar! 
Mariana sabes que podes não querer que sejamos mais primas, mas amigas... isso continuamos a ser e eu continuo a ter o orgulho de dizer que sou sem duvida a pessoa que mais e melhor te conhece... por isso explica-me essa tua aproximação ao Rui e o teu afastamento do Ruben, e por favor conta-me como está o meu afilhado, ou é afilhada?? É que nunca mais me disseste nada dele e do mano! - vi-a começar a chorar sem controlo
- Maria... - respirou fundo - ouve bem porque só o vou dizer uma vez e não repito nem volto a falar no assunto - parou limpou as lágrimas respirou fundo - Primeiro nós não somos primas e sim amigas e isso apesar de ter tentado não consegui apagar, orgulhaste de uma verdade ninguém me conhece como tu. 
Quanto ao Ruben, ao Rui e aos bebé... Não há mais bebés! - fiquei abismada - demos as duas entrada no hospital mais ou menos ao mesmo tempo, mas enquanto tu tinhas o Guilherme com o homem da minha vida ao teu lado eu perdi-a os meus minimeus - este constatar de factos por parte da Mariana arrepiou-me ela não falava com raiva de mim como senti quando se divorciaram há uns meses atrás ela apenas constatava um facto com uma tristeza que me cortava completamente o coração - e tinha ao meu lado alguem que até ao momento era praticamente um desconhecido, mas que não hesitou em dar-me a mão no momento em que mais precisei... o Rui encontrou-me a sentir-me mal e desde esse momento que posso contar com ele já o Ruben... bem o Ruben voltou para Braga e... sinceramente não imagino como estamos...
- Pri... Mari... - tentei falar afinal devia-lhe um pedido de desculpas por tudo o que tinha provocado, mesmo com todos os avisos vindos da parte de todos, nunca imaginei que a minha atitude tivesse todas estas consequências
- Não digas nada... e não a culpa não é tua! Tu abriste-me os olhos com o que me disseste na clínica eu é que devia ter reagido de outra forma e eu é que fui incapaz de cuidar dos minimeus... e a única coisa que preciso agora é do teu abraço e de ver o meu afilhado crescer lindo como já percebi que vai ser!
Fiz o que me pediu e apenas a abrecei e mimei enquanto o Guilherme nos deixou assim ficar, não sei se foram minutos ou horas o tempo que ali ficamos até o chorinho do meu comilão se fazer ouvir, para nesse mesmo instante as duas saltarmos do sofá em direcção ao quarto dele.
Os dias começaram a passar sempre ao mesmo ritmo, o ritmo do Guilherme. Estava acordada quando ele estava e quando ele dormia também ficava acorda, afinal tinha a casa para arrumar, as coisas do Guilherme para tratar e ainda espreitava o e-mail uma vez que não conseguia desligar-me do trabalho, tinha mesmo combinado com o meu tio que caso fosse necessário eu estaria presente em negociações.
Os dias eram passados na companhia da Mariana, mas as noites a maioria sozinhas, já que a minha prima saia para tratar da sua vida e principalmente para espairecer. Queria zangar-me com ela, mas sabia que eram estas saídas dela que lhe mantinham com um mínimo de estabilidade emocional.
E como eu precisava do seu equilíbrio, afinal agora com 15 dias de casa com o bebé eu parecia que estava a desaprender os hábitos mínimos de quotidiano e tratar do Guilherme era algo praticamente impensável, era a minha prima que fazia tudo o que o pequeno necessitava, eu já só me sentava de forma correcta para que ele mamasse mas até nesse momento a Mariana precisava estar por perto uma vez que eu não tinha qualquer “acção” e por vezes demos por mim a largar o menino quase deixando-o cair.
Se eu tinha noção do que se passava? Não! O que eu queria mesmo era dormir, algo que fazia dificilmente, mas nada mais me apetecia a minha prima tentava falar comigo, mas eu só a queria calada! Queria-a por perto, mas calada.
Quando não estava a alimentar o Guilherme andava pela casa feita fantasma, não conseguia fazer a mais básica tarefa, não me reconhecia, ou melhor até me reconhecia quando conseguia ligar o portátil e ligar-me ao mundo e ao mercado de trabalho, mas também isso acabava por me deixar frustrada visto que muitas movimentações começavam agora a desenhar-se e eu era mera espectadora. Estava neste momento a chorar, nem tinha percebido que o fazia enquanto, lia mais um e-mail quando a Mariana
- Chega! - tirou-me o portátil - Eu é que devia ser um fantasma! Eu é que não devia conseguir estar perto do teu filho! Eu é que devia chorar sem motivos! Maria tu tens um filho lindo e saudável, tu só tens que te dar um pouco de atenção porque tirando esses fatos de treino e penteando esse cabelo estás a voltar ao lugar muito rápidamente... e o pai do teu piolho é o mais presente que pode, ama-te a ti e a ele e - olhou ao relógio - não deve demorar muito a chegar e o que é que vai encontrar?! A mulher que parece um trapo, que não olha para o filho a não ser que seja de noite e esteja sozinha, ou pense que está, sim Maria já fingi que não estava em casa para ter a certeza que era seguro deixar-te sozinha com o teu filho! Tu achas normal ter que fazer isso? - apenas conseguia chorar já que ouvi-la fazia-me ter ainda mais certeza que era uma má mãe e que não tinha condições de ficar com o Guilherme - Pois ficas a saber que não é o mais seguro que pode acontecer, deixar o teu filho com a mãe dele não é ao contrario do que deveria ser 100% seguro! - senti o choro intensificar-se - eu não estou a dizer que fazes mal ao teu filho, mas também não fazes bem! Maria tu só vais perto dele quando o ouves chorar se mais ninguém o fizer, e só o fazes para que se cale o mais rápido possível e esperas que adormeça com a mesma rapidez e depois? Depois afastas-te do berço e ficas a olha-lo ao longe, muito ao longe, parece que não queres que te veja, ou que te sinta... Oh Maria... eu só te estou a dizer isto porque ando preocupada, sabes o que as tuas atitudes podem querer dizer não sabes?? - acenei afirmativamente - eu falei com a Ana - olhei-a admirada e um pouco indignada por o ter feito sem falar comigo - nem me olhes assim além de nossa amiga é tua médica e Maria a Ana foi bastante clara quando me disse que ou tu reagias de forma natural ou seria obrigada a medicar-te e indicar-te um colega de psicologia... - fiquei calada não queria nada disso, mas não me sentia capaz de tomar conta do Guilherme às vezes só de ouvi-lo só me apetecia desaparecer, precisava dormir, precisava mesmo de uma cura de sono - Maria promete-me que vais tentar... e para começar por favor explica-me o que sentes, deixa-me ajudar-te que já não aguento ver-te assim - fiquei uns minutos em silencio, minutos respeitados pela Mariana e quando senti forças
- Mariana... eu não sou uma boa mãe... acho que era melhor entregar-te o Guilherme a ti ou ao João e desaparecer, desaparecer da vida do Guilherme porque eu só vou conseguir magoar a todos com a minha falta de competência como mãe e pior eu vou acabar por magoar e temo que fisicamente o Guilherme... Mariana se no inicio eu não o conseguia largar só o queria perto de mim, agora ele estar perto aflige-me porque não sei quando vai chorar ou precisar de algo e eu não vou conseguir fazer... eu estou muito cansada e.... - calei-me quando reparei que ela não me respondia e que tinha o olhar preso na porta da sala, segui o olhar dela e encontrei o João com o Guilherme ao colo a olhar-me com o ar mais assustado com que alguma vez o tinha visto, esse momento durou o tempo de o Guilherme, quem mais, resolver chorar, e nesse momento só tive uma reacção, sair dali e trancar-me no quarto. Além da enorme vergonha que tinha de que ele tivesse ouvido toda a minha confissão de culpa, ainda me senti indigna de merecer o seu olhar e o seu amor, afinal estou um farrapo, estou gorda, tenho uma cicatriz enorme na barriga o cabelo que parece uma vassoura...

(João)
Como previsto consegui voltar a casa já o Bruno tinha 20 dias de vida 15 dos quais passados em casa com a mãe e a madrinha. A Mariana ao contrario do que cheguei a pensar entrou na vida do Bruno sem duvidas e a 100% já sei que infelizmente um dos motivos para que tal tenha acontecido não foi o mais feliz mas acredito que isto lhe esteja a fazer bem e tem sido sem sombra de duvida um grande apoio para a Maria.
Ai a Maria... Cada vez que falava com ela, e falávamos 3 a 4 vezes por dia, sentia-a mais estranha. A Maria anda indiscutivelmente cansada, mas também menos animada sentia que para ela falar no Bruno era algo que a deixava deixava bastante desconfortável, embora o fizesse sempre, mas de há uns dias para cá percebi que era a Mariana que tratava de quase todas as necessidades do pequeno. Lembrei-me do que a Ana me tinha falado no dia que o Bruno nasceu e resolvi pesquisar algumas coisas na internet e fiquei um bocado assustado, foi a relembrar tudo isto que entrei em casa.
Ouvi as vozes delas na sala e imaginei que o menino estivesse a dormir, preferi deixa-las e fui directamente ao quarto onde como previra estava o meu tesouro a acordar no mesmo momento, percebi que ia chorar por isso de imediato o peguei no colo e foi impossível praticamente não derreter ao perceber que deixou de lado a intenção de chorar. Embalei-o por uns segundos
- Vamos ter com a mamã e a madrinha? Vamos bebé? Vamos pois que tu tens fominha e o papá tem saudades da mamã!
Fui falando com ele até à porta da sala e quando lá cheguei o que a Mariana dizia petrificou-me, a Mari estava a confrontar a Maria e a exigir-lhe que reagisse e ela apenas conseguia ficar apática, apenas lhe corria um rio de lágrimas pela cara, até que resolveu abrir finalmente a boca e o que ouvi não foi nada agradável ouvir a Maria considerar-se má mãe, confessar que pensa em deixa-lo a ele e a nós para trás para que não nos faça mal, que não o consegue sentir por perto, mas foi o ultimo desabafo dela antes de perceber que eu estava presente que  fez com que pensasse em algo que  pudesse vir a fazer com que a Maria reagisse, não era nada de mais e poderia não ter qualquer efeito mas também pensaria nisso mais tarde, já há minutos que nos olhávamos e ninguém dizia nada quando o Bruno choramingou e nos vez a todos despertar, para no mesmo instante a ver sair disparada e trancar-se no quarto
- Isto não está fácil João, nada mesmo...
- Eu já percebi... e o menino... o que faço com ele? - estava sem saber o que fazer
- Anda vamos até ao quarto, chama-a à realidade relembra-lhe que ele está a chorar
- Maria... -bati na porta do quarto - amor o menino está a chorar e... - ela abriu a porta
- Dá-mo está na hora de comer 
A Maria falou de forma fria, passei-o para o seu colo e vi que a Mariana a teve que ajudar para que fosse possível ambos ficarem de forma confortável. Os minutos seguintes foram novamente de silencio e quando o menino acabou de comer a Mariana pegou nele e disse com todas as letras que tomaria conta do pequeno enquanto nós falávamos. A Mariana saiu e o silencio continuou.
- Maria não podemos ficar assim contigo nesse estado... estás ai deitada a tentar-te esconder debaixo dos lençóis nem sei porquê...
-  João sai! Deixa-me sozinha eu preciso de dormir! Daqui a nada o gaiato precisa comer outra vez e mesmo um biberão precisa de descansar um bocadinho!
- Gaiato?! Maria estás a falar do Bruninho!
- Ou isso! Agora sai! Que o Bruninho - falou irónica - daqui a nada quer comer outra vez e eu preciso dormir! Se ele não decidir chorar com colicas ou assim... - ela começou a chorar - João eu estou cansada - falou assim que a tomei nos meus braços e a aconcheguei no meu peito - tão cansada... e sou má, tão má mãe! - o choro ia-se intensificando
- Não és nada amor! Só estás cansada, muito cansada... ficares sozinha com o Guilherme depois de tudo o que aconteceu não foi boa ideia...
- Não é uma questão de boa ou má ideia! É mesmo uma questão de normalidade! Eu sou mãe dele e tenho de tomar conta dele é assim a normalidade e a lei da vida!
- Maria a lei da vida também diz que não devia acontecer o que aconteceu com a tua prima e com o Ruben e muito menos com os minimeus e isso também natural! Amor vou ficar aqui o fim de semana todo por isso a partir deste momento eu assumo a responsabilidade com o Bruno e tu... bem preciso só que o alimentes porque isso eu não posso fazer... - vi-a sorrir - e tu vais descansar, relaxar, sair de casa, passear com a tua prima sei lá... mas vais reagir e segunda quando me for embora de manhã vais ver como tudo estará melhor... combinado?
- Tenho opção? - acenei negativamente - então...

(Maria)
Esta ideia do João de me “libertar” das obrigações de mãe, menos uma claro acabou por me parecer bastante agradável e por isso mesmo de imediato resolvi aproveitar estas primeiras duas horas antes de o menino voltar a ter fome. Levantei-me dos seu colo tencionando ir tomar um duche rápido e trocar o fato de treino
- Onde é que vais?
- Tomar duche! Vou aproveitar e levar a minha prima para uma caminhada...
- Fazes bem, mas e o meu beijo? - ele levantou-se e apanhou-me pela cintura e ai reagi novamente menos bem, senti todos os músculos do corpo contraírem
- Tá aqui - dei-lhe um muito rápido beijo nos lábios e corri para a banheira
- Mariaaaa - ainda ouvi chamar - Maria o que se passa - falou assim que entrou na casa de banho e se sentou na bancada
- Mas agora já não se pode tomar banho?
- Podes tomar os banhos que quiseres, mas acho que também podes ou melhor deves explicar-me o que é que se passa o que é que eu fiz!!
- Nada João não fizeste nada!
- Então é isso! O que é que eu não fiz que devia ter feito?
- Ai oh João... nada não devias ter feito nada!
- Então porque é que eu não posso receber um beijo decente? Porque é que reagiste mal ao meu abraço?
- Ai oh João...
- Oh João nada!
- Deixa-me tomar banho!
- Eu espero-te no quarto despacha-te!
Ele saiu e eu lá consegui finalmente tomar duche, ou melhor um banho bem demorado. Quando sai vesti rapidamente a roupa que tinha na casa de banho e quando regressei ao quarto ele estava mesmo lá
- Mas o que é que tás ai a fazer?
- Eu disse que te esperava aqui não disse?
- Sim, mas pensei que tivesse ido ter com o Guilherme...
- Mas não fui! Não fui porque as saudades que tenho dele e a vontade que tenho de o ter pertinho só não são maiores do que as que tenho tuas! E cheguei aqui e desde que o fiz além de ter-me já caído o céu e a terra em cima não recebi um beijo nem um sorriso teu! - bufei, eu não me sentia minimamente atraente o que me fazia apenas querer tê-lo a uma distancia de segurança que já que não evitava o contacto visual pelo menos evitasse o físico - porra Maria eu sei que não tem sido fácil para ti, mas e para mim achas que é? 
- Desculpa... - senti a cara novamente cheia de lágrimas - eu não estou muito confortável... é só isso... eu tenho vergonha...
- Confortavel com o quê? Vergonha de quê??
- De mim! Já viste bem o estado em que estou?? Pareço um biberão com pernas! Tenho a barriga de uma velha de 100 anos e nem vou comentar a linda cicatriz que tenho porque a Ana acha que fez bom trabalho e eu não vou desiludi-la
- Oh por favor Maria! Tás linda! E não tás nada parecida com um biberão e... - não me disse mais nada puxou-me e espetou-me, sim espetou-me é mesmo o termo certo, um enorme beijo que ao principio tentei evitar, mas finalmente acabei por ceder já que morria de saudades de um e com o tempo o mesmo só foi intensificando acabando só com a nossa falta de ar - aiiiiiiiiiiii
- aiiiii?! - repetiu-me a rir
- Tu não me gozes que eu tou com falta de ar!
- Com falta de ar?! Isso resolve-se com umas manobras de respiração boca-a-boca
Escusado será dizer que apesar de ainda não me sentir muito confortável aqueles foram só os primeiros de muitos beijos e mimos bastante decentes que trocamos até sermos despertos pelo chorinho do nosso menino, foi impossível não sorrir, não sei porquê, mas desta vez ouvir o seu choro não me assustou, antes pelo contrario voltei a ter vontade de o pegar e mimar e foi isso que fiz peguei-o e alimentei-o e depois de o colocar para arrotar de lhe trocar a fraldinha e o adormecer, ainda cheia de medo de o deixar cair
- Mariana vai buscar a tua mala que vamos sair
- Vamos?!
- Sim vamos, nós as duas!
- Bem que animação é essa?
- Ai despacha-te pega na mala e vamos! 
Ela lá fez o que lhe pedi e quando já caminhávamos junto ao rio
- Já me podes contar o que se passou?
- Oh o João obrigou-me a fazer qualquer coisa diz que preciso de descansar e que ele hoje toma conta do menino, aliás até ir embora só não lhe dá de comer porque não pode de resto quer-me a descansar e relaxar porque quando ele se for embora quer-me minimamente apta para tratar do Guilherme... Prima - suspirei - obrigada por tudo! Tudo mesmo! Tudo o que me tens ajudado desde que descobri que estava grávida apesar de tudo o que a minha gravidez afectou a tua vida... obrigada por mais uma vez me abrires os olhos esta tarde... sim o João deu o ultimo empurrão, mas se não tivesse dito o que disseste eu não era capaz de reagir... não sei como te agradecer
- Mas eu sei!
- Oh... a resposta correcta era “não precisas agradecer” - fingi-me ofendida
- Pois era, mas isso era para as pessoas politicamente correctas e sejamos realistas estás a falar comigo a boa e velha Mari! - sorriu e é impressionante como o sorriso dela tem vindo a melhorar
- É tens razão... mas vá diz lá o que posso fazer?
- Podes ser a mãe que sei que és... deixar-te de medinhos e seres a Maria Mendes que nada a abala! E passar isso ao meu afilhado sim que o pai é um menino e é isso que o vai ensinar a ser... toda agente sabe que naquela casa quem os tem no sitio és tu! - foi impossível gargalhar
- Tirando os exageros prometo que vou fazê-lo daqui para a frente
- Ainda bem e.. ahhh...
- Sim...
- Eu fiquei a ouvir a vossa conversa! - olhei-a com reprovação - Deixa-te de cenas que estás muitoooo bem para quem foi mãe há 20 dias! Não te quero com exercícios físicos porque sei que a Ana não te deu alta, mas esta é a primeira das caminhadas diárias que vamos dar, nas próximas trazemos a pipoquinha connosco, mas não era isso que queria dizer - disse assim que tentei interrompe-la - o que eu queria dizer é que... coitadinho do João bem lhe podias dar umas abébias - olhei com ponto de interrogação - assim uns beijinhos e uns miminhos - acabei a gargalhar
- Sim... sim... foi ele que te pediu ajuda?
- Achas?! Achas mesmo que aquele machão vinha falar disso comigo?!
- Não! - rimos as duas e ouvi o alarme do meu telemóvel - E agora vamos lá que o teu afilhado deve estar a acordar e cá me quer parecer que o pai não o vai conseguir calar...
Seguimos para casa e quando lá chegamos fui recepcionada com uma imagem linda, o João estava todo sorridente a conversa com o Guigas que estava deitado sobre o seu peito de olhinhos abertos sentei-me na cama ao lado deles e confesso que sentia a babar e nesse momento ouvi uma gargalhada
- Oh priminho tão lindo que tu tás!!!
- Priminho?! - o João olhou admirado afinal a Mariana tinha-o tratado por primo
- Desculpa foi a força do habito... agora a sério tás lindinho olha! - ela mostrou o telemóvel tinha-nos tirado uma fotografia
- Mariana empresta-me o teu telemóvel! - ela percebeu e passou-mo para as mãos e em minutos

@_MariaMMendes_ o papá veio salvar-me das garras das malucas da mamã e da madrinha, mas mesmo assim elas não nos largam! E ainda bem se não corria o risco de morrer afogado na baba do papá!! Agora vou comer!!!! #Guigas

O resto do fim de semana foi passado em modo completamente família, não sai de casa fiquei sempre a aproveitar a presença do João, que levou mesmo a letra a promessa que fez. E confesso que realmente o saber que ele estava a fazê-lo e que não estava a sobrecarregar a Mariana me deixou descansar, dormi muito e bem e sentia-me realmente muito melhor psicologicamente, quanto a contacto físico prefiro-o manter afastado. Mas o João está a respeitar acho que já percebeu que forçar não será boa ideia.
No dia que ele partiu foi a altura de começar a cumprir a minha parte. E fi-lo, organizei um horário que me permitiu cumprir todas as minha tarefas como mãe, mas que me obrigou também a cuidar de mim como mulher e como profissional.
E nesse ritmo cheguei ao dia de festejar o primeiro mês de vida do Guilherme e a sua primeira saída para passeio. Que teve um destino no mínimo inusitado já que foi uma “prenda” da madrinha.

Onde será que o Guigas vai no seu primeiro passeio?
Como estará a vida da Mariana?
E a Maria estará mesmo “curada”?