(Maria)
Preparei o Guigas a rigor afinal seria a primeira vez que iria a um jogo de futebol, desporto que por todos as razões e mais algumas irá estar ligado à sua vida.
A Mariana estava bastante ansiosa o que me fez questionar o verdadeiro motivo de tal presente ao afilhado. Cheguei mesmo a perguntar-lhe se o que ela queria não era ver o padrinho do afilhado algo que ela, tal como das outras vezes que falei do Ruben ignorou.
Assim que chegamos ao estádio, não sem antes me avisar que o mais provável era o pai não achar piada ao traje do Guigas, o que nos levou a uma divertida troca de palavras, subimos directamente para o camarote destinado às famílias dos jogadores do Sporting
- Olha lá o nosso camarote é aquele - falei apontando para a zona onde fica o camarote da empresa
- Não é nosso é teu... e como hoje quem manda sou eu vamos ficar aqui...
Estranhei e depois de entrar e perceber o quão bem integrada a Mari estava fiquei a saber que estaríamos a usufruir dos lugares destinados à família do Rui. A cada dia que passa eles estão mais próximos, mas ainda não consegui perceber qual a real proximidade e intimamente lamentei ali estar visto que no final do jogo iríamos com certeza encontrar o Rui o que complicaria mais a que o meu desejo de juntar os dois teimosos se realizasse.
Depois de confraternizar um pouco com os presentes dirigi-me ao outro camarote onde estava o meu tio, como ainda não tinha sido vista, levei o Guilherme no colo e quando lá cheguei fiz um “buuuhhh” surpreendendo o meu tio
- Maria?!
- Olá Tio! Olhá tivô! - fingi que o Guigas falava
- Olá campeão! - fala fazendo caretas - O que fazem aqui? Se soubesse que querias vir tinha-te ido buscar escusavas de vir a conduzir...
- Calma! Eu não vim sozinha!
- O João está aí?!
- Não! - respondi a rir - Foi mesmo a Mariana que me obrigou - fui irónica - a vir e ela ficou ali... - apontei para onde ela se encontrava - Já sabes que não quer contatos...
- É... sei... mas ela aqui? - olhou para o relvado no momento em que o Braga entrava para o aquecimento
- Pois, mas parece que foi mais por... - olhou para a baliza Vitor Damas
- Mas isso é mesmo a sério?
- Isso o quê?
- Oh Maria... chegaram-me uns zum-zuns aos ouvidos...
- Até onde sei não há nada além de amizade, afinal o Rui ajudou-a num momento...
- Ahh assim fico mais descansado... E a vossa relação?
- Somos amigas... - suspirei - no fundo sempre fomos e na pratica tudo está igual só tenho que me acostumar em não usar expressões como “nós as Mendes” ou “prima”, de resto tenho muito que lhe agradecer porque tive ai uns dias...
- Passaste mal?
- Não, andei só com ideias malucas... mas a Mari e o João ajudaram-me
- Ah ok... - neste momento as equipas entraram em campo - Vês aqui connosco?
- Não, vamos ver com a madrinha, não é bebé? - peguei-o que estava ao colo do tio e ele chorou
- Vês ele não quer ir!
- Ele quer é comer e mudar a fralda e como não se cala até estar satisfeito vou perder a primeira parte... - o meu tio gargalhou ao ver-me encolher os ombros
- Quem não chora não mama! - riu - e tu sabes isso muito bem... que fazes uns lindos choradinhos nas negociações - riu - mas vai lá alimentar o Júnior
- Tchau.... - dei dois beijos ao meu tio e acenei aos restantes presentes
Tal como previra os cuidados do Guilherme ocuparam-me toda a 1ªparte e já quase no intervalo me consegui juntar à Mari
- Podias ter ficado lá com o teu tio!
- O nosso tio também refilou quando sai de lá no inicio do jogo mas o teu afilhado quis comer
- Ah se foi por isso tás desculpada...
- Olha como tá a correr o jogo?
- Oh... são 11 de cada lado, 1 bola e 3 árbitros... ahhh e o Rui está na baliza!
- Ah... muito mais esclarecida! E pelo Braga alguém conhecido?
- Não tive atenção... mas acho que o Quim, o Custodio, e o Hugo...
- E o padrinho do Guilherme?
- Não sei quem é!
- Vais começar?!
- Não vou acabar com a conversa porque o menino quer dormir e eu quero ver o jogo...
Foi impossível não reparar em como a Mari evitava olhar para a zona do campo onde provavelmente o Ruben estaria, focando-se na baliza ocupada pelo Rui, até ao momento que o nome do meu compadre foi anunciado no sistema de som do estádio por ele estar a ser substituído, nesse momento os olhos da Mariana focaram-se nele até que sentando-se no banco desapareceu do nosso campo de visão
- Tás a ver preguicinha?! Não viste o padrinho quase tempo nenhum... mas no fim vamos dar beijinhos a ele
- Oh Maria!
- Oh Mariana! É o padrinho dele e é meu amigo e teu...
- Meu nada... a tua sorte é que o Rui precisa de boleia...
A Mariana voltou a focar-se no jogo ou a fingir porque era capaz de ver o fumo a sair-lhe das orelhas com tudo o que pensava, mas optei por deixá-la e voltei atenções para o pequenote e resolvi recordar para sempre o momento com uma foto onde se via bem o que tinha vestido e depois de tirar uma ao relvado para que se visse onde estávamos enviei ao João
Não demorou 5 minutos para o telemóvel tocar
- Tou
- Passou-te pela cabeça que eu podia gostar de estar no 1º jogo dele??
- Eiii! Vamos lá a ter calma a Mariana insistiu e sabemos quem está em campo... achas mesmo que a deixava vir sozinha?? Além disso 1º jogo é relativo... a 1ªparte não vi porque o menino resolveu jantar e a segunda tenho estado... confesso... a babá-lo - ouvi-o rir
- Aaaah ok... e a madrinha e o padrinho?
- Tou à espera do final, mas para já ela evitou olhar sequer para a zona do campo onde ele esteve, só olhou mesmo quando anunciaram que ele ia sair
- Oh pá bem que podiam atinar... e o Rui?
- Tá a jogar!
- Olha até ai já suspeitava...
- Não sei... vai de boleia no fim...
- Manda-o com o Martins!!
- Boa ideia, estava a pensar como me livrava dele! Vou tentar!!
- Depois diz!!
- hum-hum... beijo!
Desligamos e pouco depois o jogo acabou, descemos de imediato e enquanto a Mariana conversava com algumas das meninas eu apanhei o Rui assim que ele chegou à garagem
- Olá Campeão! Gostaste do jogo?
- Não?!
- Ele a 1ª parte esteve a comer e na 2ª a falar com o pai
- Aaah e como está o pai?
- Pediu-te um favor... que é um pedido da família
- Xuta!
- Vai de boleia com o Martins - o Rui gargalhou
- Já tinha pensado niss... vim só despedir-me
Neste momento somos interrompidos pela chegada do Ruben e quando o Rui já se afastava fui surpreendida, o Ruben não estava sozinho, quem seria aquela?!
- Rui, fica! - disse assim que vi a outra no pescoço do Ruben e a minha prima atrás a ver tudo
- Já percebi
Os minutos seguintes foram para mostrar ao Ruben o meu desagrado e depois deixa-lo para trás.
A minha grande preocupação era a Mari, ainda a vi falar com ele mas em segundos estava junto a nós e pela primeira vez em todo este tempo voltou a chamar-me prima o que só me mostrou o quão fragilizada estava. Não toquei mais no assunto e vi-a seguir para destino incerto com o Rui depois de me deixar em casa.
Quando entrei no apartamento tive uma surpresa, ou melhor apanhei um valente susto quando ouvi barulho na cozinha, afinal supostamente a casa estava vazia e eu estava sozinha com o menino, se fosse um ladrão eu não conseguiria defender-nos.
Estava já de telemóvel em punho para chamar a policia e com a porta aberta, mas no mantinha-me no hall do prédio quando vindo da cozinha muito descontraído a comer
- Oh seu vadio... Onde é que o menino andou? O jogo do padrinho já acabou há muito tempo...
- Mas tu queres matar-me do coração?! - ele riu-se
- A tua mãe é uma exagerada - tirou o Guilherme do ovinho e puxou-me finalmente para dentro de casa - vais ligar para quem? Porque ainda não tinhas entrado?
- Porque me assustei quando ouvi barulho, não era suposto estar cá ninguém - ele riu-se
- Surpresa!!!!
- Parvo!!!! - o menino que estava ao seu colo choramingou - passa-o para cá que tá na hora da ceia
- Ah bom pensei que não tinha gostado da surpresa... - falou e depois de mo passar para os braços jogou-se no sofá
- Ói! Tu aí! - olhou-me - vamos a levantar o rabinho se faz favor que eu vou dar-lhe banho antes dele comer e como é obvio TU vais ajudar!!
- Oh Maria!!!
- Oh João! Isto ser pai não é só fazê-los e embala-los quando estão de barriguinha cheia e lavadinhos...
- Oh... mas convenhamos que fazê-los é bom! - falou já a seguir-me enquanto ria
- Piada! Toma - passei-lhe o menino que voltou a refilar - Acalma-o enquanto trato das coisas - coloquei agua na banheira e depois de tudo pronto - Vá podes despi-lo
- Ãh?!
- Tira-lhe a roupinha João!! - ele refilou qualquer coisa mas lá o fez - a fralda também...
- Oh Maria isto tá sujo... já cheirei!
- Optimo tens brinde!!! - mostrei-lhe a língua - tira a fralda e passa uma toalhita...
O João fez o que lhe disse de cara feia e eu ri que nem perdida ou não fosse o menino resolver fazer xixi assim que o pai lhe tirou a fralda. Resultado: filho aliviado, pai molhado e mão com falta de ar de tanto rir. Acabei por me recompor
- Vá troca lá rápido de blusa que o menino tá ao frio! - ele olhou-me com cara feia mas cumpriu mais esta ordem - Agora pega nele e mete-o na banheira, cuidado com os ouvidinhos... vá já lhe podes dar o banho!
- Ãh?! Não... isso não! - ele estava todo atrapalhado, acho que mesmo em pânico - Agora dás tu! Eu fico aqui a ver e depois noutro dia logo dou... a sério amor! Eu não sei e ainda faço asneira...
- Só porque já é tarde e ele tem fome - assumi o comando dei banho ao Guilherme e depois de o secar
- Se quiseres eu posso por a fralda e vesti-lo
- A sério?! Podes só ver e logo fazes outro dia - meti-me com ele
- Oh fofinha isto não mete agua ele não se afoga...
- Aahhh o problema era esse...
O João fez o que pediu e depois deu-mo para que mamasse e depois voltou a pega-lo e adormeceu-o colocando-o no berço e juntando-se a mim na cama. Ofereceu-me alguns miminhos inocentes mas quando começou a intensifica-los cortei-lhe as vazas porque não me sentia minimamente atraente, confiante e confortável, é que a cicatriz...
- O que foi?
- Nada... o menino...
- Tá a dormir e tanto quanto sei assim vai ficar nas próximas horas...
- Sim, mas...
- Mas?
- Ai... oh João... - suspirei e ele continuava à espera de uma resposta - não estou pronta... e além disso a Ana ainda não me deu autorização...
- Não?!
- Não... a consulta é só para a semana e a cicatriz...
- O que tem? - jogou a mão à bainha da blusa do meu pijama - Mostra!
- Nem penses!!! - afastei a sua mão
- Porquê?
- Porque não! Isto é horrível!
- Deve ser, deve... que a Ana fazia-te mesmo isso...
- Esquece! Não a vais ver!
- Tenho saudades fofa... - voltou à carga
- Qual foi a parte do a Ana não ainda não... - calou-me com um beijo
- Só quero mimos!!! - acabei por rir e dar-lhe alguns mimos até que ele volta a falar - Amor... como correu entre a tua prima e o Ruben - respirei fundo
- Ela voltou a chamar-me Prima!! - falei animada e ele riu - mas foi para a seguir dizer que o Ruben morreu... João ele tinha uma com ele...
- Uma quê?
- Amiga? Namorada? Não sei chegou quando ele estava a cumprimentar-me e jogou-se no seu pescoço - acabei por lhe contar tudo - Por isso acho que se não queremos trocar os padrinhos do menino o melhor é tratar do batizado o quanto antes...
- É melhor mesmo... e o casamento também... podia ser um 2 em 1
- Oh...
- O que é?
- Tinha pensado que podíamos casar em Faro... em Agosto...
- Dia 15... - sorriu
- É...
- Combinado - deu-me um beijo rápido
- Mas queria baptizar o menino aqui... e 15 de Agosto é muito tempo... acho que o Ruben e a Mari até lá...
- Então que tal final de Junho?
- Para o baptizado?
- Sim...
- Ok... e depois em Agosto quero pouca gente!
- Só os chegados...
- Isso!
- Mas em Agosto já estou novamente ao serviço... e assim ficamos sem lua-de-mel....
- Coitadinho! Mas eu podia ir... ou melhor nós podíamos ir contigo para Valência uns tempinhos...
- Isso soa bem.. mas não é a mesma coisa...
- O que tu queres sei eu! - ri - podemos fazer a lua-de-mel depois em Dezembro... ou para o ano!
- Para o ano!! Mas não abro mão da noite de núpcias!
Rimos os dois e o Guilherme choramingou e continuou a dormir, mesmo assim optamos por coloca-lo na cama no meio dos dois e passamos o resto da noite a mima-lo e entregues aquele momento só nosso, dos três.
O dia seguinte foi passado em modo família primeiro só os três aproveitando para marcar o batizado do Guilherme e depois com uma vista aos avós paternos.
Quando já voltávamos de casa dos seus pais e com o menino a dormir na cadeirinha lembrei-me de pedir algo ao João.
- Amor? - usei um tom de voz meloso de quem nitidamente pedia algo ele olhou-me - Temos de comunicar aos padrinhos a data...
- Pois temos e onde é que está o problema??
- Na “coisa” que acompanhava o Ruben ontem!
- Oh Maria isso é com ele... fofa não nos podemos meter... além disso... - suspirou - a tua prima e o Rui...
- A minha prima e o Rui nada! João eu não sei bem o que se passa entre eles mas eu tive grávida e sei o que sentimos e imagino um pouco daquilo que a minha prima possa ter sentido... amor a Mariana agarrou-se ao Guilherme como tábua de salvação e... e tu não te esqueças que enquanto ele nascia acompanhado pelo padrinho os filhos dela morriam também pela falta dele! E... acredito que seja difícil para ela esta proximidade... E sei que as alterações nos nossos corpos são enormes e que existem períodos de resguardo a assegurar por isso se não for por mais nada acredito que não tenha havido nada de físico entre eles... E a minha prima também não o esfregou na cara do Ruben como ele fez ontem com... com a... isso!
- Talvez tenhas razão - olhei-o com cara de má - ok tens razão! Mas o que é que a “coisa” - disse a rir pela expressão que adoptei para falar na rapariga - tem que ver com o baptizado do Bruninho??
- É Guilherme! João... é Guilherme! - ele riu - E o que tem é que eu não a quero ver no baptizado!
- Tás a dizer que não queres que o Ruben leve acompanhante?
- Sim!
- E a tua prima pode levar?
- A minha prima?
- Sim... achas que ela não leva o Rui?
- Não sei se vão juntos, mas tendo em conta a ligação que tens com ele sempre pensei que o convidasses...
- Tás a ser parcial....
- Não estou a ser pacional! Se profissionalmente não o posso ser, pessoalmente posso e vou dar-me ao luxo de ser. Além disso não quero o baptizado do meu filho estragado/marcado por uma cena que prevejo ser menos feliz...
- Ok... eu ligo-lhe e falo com ele - tínhamos chegado a casa e por isso saímos do carro e enquanto eu tirava o saco do bebé do porta malas o João colocava o ovo no suporte com rodas - E se em vez de subirmos déssemos uma voltinha à beira Tejo?
- Parece-me bem! - iniciamos então um percurso à beira-rio em silencio, um silencio bom enquanto o João empurrava o carrinho com uma das mãos seguíamos com as nossas interlaçadas. - Olha lá tás à espera de quê?
- Ãhn?!
- Burguer! Não ias ligar ao Ruben?
- Ia não vou já ligo... - olhou-me - ok ligo já! - passou-me os comandos do carrinho do Guilherme e pegou no telemóvel. - Puto como é?! O teu afilhado contou-me que te viu ontem e tu nem dizes nada para nos encontrar-mos? (...) tou cheguei ontem volto amanhã (...) pois, já sei, também me contaram isso (...) a vida é tua não tenho nada com isso (...) oh mano eu já não me meto nisso, vocês são adultos, entendam-se (...) não era mesmo para... agora que me disseste que isso com a.. Sofia?!... Ok isso com a Sofia é mesmo sério - enquanto o ouvia falar não liguei muito o Guilherme acordou e ia brincando com ele mas quando referiu um nome de mulher e disse que era sério, parei de andar e olhei-o, ele olhou-me e depois continuou - fiquei numa situação complicada... é que... (...) oh ia-te avisar que o baptizado do teu afilhado está marcado, mas que... bem que nós, principalmente a Maria - que lindo a atirar a responsabilidade para cima de mim é mesmo “menino” - não se sente muito à vontade com a ideia de vires acompanhado por isso... se não te importasses de vir sozinho... (...) Ok Obrigado por perceberes (...) oh já sabes como são as Mendes (...) Tá aqui sim! Queres falar com ela? (...) Ok eu dou! (...) Ele tá a acordado - olhou para o menino - Bruninho o padrinho está a mandar-te um beijinho - voltou a focar-se na chamada - puto o teu afilhado diz que isso dos beijinhos é para meninas, mas vá faz-te a vontade e manda outro! - gargalhou imaginei que o Ruben também o fizesse e fui incapaz de também eu não sorrir - Ok então depois falamos melhor - finalmente desligou.
Depois de desligar o João passou o braço pela minha cintura e continuamos caminho até resolvermos para numa esplanada para bebermos qualquer coisa.
- Então?
- Então o quê?
- O que te disse o Ruben?
- Oh disse algo que temi quando me contaste que o viste com alguém...
- Ou seja?
- Esta Sofia é outra Ana...
- Tás a gozar?
- Não Maria, eles estão mesmo juntos e foi um bocado chato pedir-lhe que não a trouxesse... Maria ele quer seguir em frente...
- Olha que siga! Mas também não é por estar com ela que precisa ficar colado, podem perfeitamente passar umas horas longe...
- Como é que reagias se me convidassem para algum lugar onde era logo avisado que não eras bem-vinda??
- Tinha que aceitar... se a pessoa não me quisesse presente...
- Ficas já a saber que eu não era tão compreensivo e eu também já não ia...
- Também?? Queres com isso dizer que o Ruben não vem? - confesso que pensei em repensar a minha posição
- Não Maria! Como é óbvio ele vem! Ele é nosso amigo e gosta do Bruninho, mas não ficou feliz com a informação de que viria sozinho... - respirei de alivio
- Oh ele também não vem sozinho... a mãe e o irmão também vêm...
- Ah claro... - ele riu-se - oh tontinha eu sei que isto é o melhor para os dois e para termos um dias sossegado, mas não deixa de ser uma situação complicada... - ia responder mas o Guilherme choramingou - O que é que ele tem?
- Fome... - respondi a olhar para o relógio - a tua sorte pequenino é que o teu leitinho tá sempre pronto... anda cá - enquanto falava pegava-o ao colo e já ajeitava a minha blusa para que o Guilherme conseguisse mamar quando
- O que é que estás a fazer?
- A dar-lhe de mamar!
- No meio da rua???
- Não, no lugar mais recatado desta esplanada... além disso não percebo onde possa estar o mal... - fiz-me de desentendida e depois de com a fralda do Guilherme tapar a sua cabecinha e o meu peito recostei-me um pouco na cadeira para ficar mais confortável - não há nada mais natural que uma mãe alimentar um filho por isso não percebo que cara é essa?
- A sério?! - falou irónico - Ontem tavas cheia de não me toques porque não posso ver a cicatriz que tens na barriga e que foi feita para o NOSSO filho nascer, mas hoje já podes mostrar as mamas para qualquer um!
- Ei o que para ai vai!! Modera lá o tom e os termos... que eu não me posso irritar porque se eu me irrito isso passa no leite e o menino fica mal disposto! Além disso eu não estou a mostrar nada a ninguém! E amamentar o Guilherme não é propriamente o mesmo do que tu querias ontem! - calei-me e ele não respondeu ficou apenas com cara de poucos amigos enquanto eu amamentei para assim que terminei
- Vamos para casa?
- A sério que vais ficar chateado?
- Eu não tou chateado...
Não lhe disse mais nada e chegamos a casa em pouco tempo, aproveitei para trocar o Guilherme e coloca-lo a dormir na caminha, peguei no intercomunicador e fui até à sala onde encontrei o João agarrado ao comando da ps, peguei no outro
- Vamos a um joguinho?
- Não... - lavantou-se e fazia tensões de sair da sala
- Onde é que vais? Se queres jogas sozinho é só dizeres! Toma! - joguei o comando que tinha na mão para si que tinha voltado atrás mas se mantinha de pé - Engole-o! Eu vou tratar da roupa do Guilherme... - levantei-me e fui directa para a “lavandaria” o que não me faltavam eram roupinhas e babetes do Guilherme para lavar
- Fofinha... - sussurrou-me enquanto me abraçava por trás - eu não queria jogar contigo... nem sozinho... eu queria mesmo era falar contigo!
- O que é? - afastei-o e entrando na cozinha sentei-me numa das cadeiras
- Isso pergunto eu! Tá tudo bem contigo?
- E porque não havia de estar?
- Porque da ultima vez que cá estive... não estava!
- Mas já passou João! A sério que passou!
- Então porque é que ontem à noite...
- Porque já te disse que a Ana ainda não me voltou a ver! E que enquanto ela não o fizer estou proibida, além disso não me apetece! E antes que comece com ideias parvas... é normal para alguém que acabou de ser mãe não ter vontade ok?! Além disso se em vez de estares a 1000km de distancia estivesses aqui todos os dias também não irias ter vontade te garanto! Como também não tinhas visto mal nenhum em ter amamentado o nosso filho no café! Mas como para ti, na pratica muito pouco mudou...
- Não digas isso Maria! Mudou muita coisa!
- Oh sim muita... realmente mudou! Agora tens um bonequinho para passear e mostrar quando cá vens e... tens sentido falta da boneca insuflável! - ele olhou-me abismado, até eu estava com o que dizia mas era o que sentia - E não me olhes assim porque para teres o bonequinho a boneca rompeu-se e agora.... agora é preciso esperar que o remendo cole... ah espera brinquedos insufláveis com remendos já não têm tanta piada! Eu se fosse a ti arranjava outra! - já estava a chorar
- Mas que parvoíce é essa?! Sabes perfeitamente que não foi isso que mudou! Sim tenho um bonequinho como lhe chamas... lindo cada vez que cá venho, mas não o tenho quando estou lá sozinho e só vos queria ter comigo! Queria vê-lo todos os dias, notar como muda a cada dia que passa como fica mais interactivo e como cresce! Queria poder passar noites sem dormir porque ele tem os horários trocados e tu não aguentas mais! Queria ver-te rabugenta como percebo que estás quando falamos ao telefone! Ajudar na hora do banho... ter ido com ele às primeiras vacinas ou ao pediatra! - falou num tom calmo, deu-me a sensação que não era a primeira vez que pensava em tudo isto - e quanto a ti... nunca gostei de bonecas insufláveis E tu estás muito longe de ser uma! Mas sinceramente se quando entraste em paranóia porque não tinhas roupa que te servisse por causa da barriga, algo que nunca foi normal em ti, nunca imaginei que agora estarias assim com essa birra toda por causa de uma cicatrizinha! Oh Maria tem lá dó! Além do mais eu não penso só nisso! Mas sim gosto de ti! E gosto de ir prá cama contigo e... talvez tenhas razão talvez se tivesse aqui todos os dias a rotina com jogos e o menino não me ia deixar espaço para grandes vontades, mas não estou e não podemos fazer nada quanto a isso, não agora! Eu sei... sei que me avisaste para não ir, mas agora passado este tempo avalia da mesma forma que avaliaste friamente a proposta e diz-me que fiz mal! DIZ!!! - parou a olhar-me e eu chorava - Ah não dizes nada - falou uns minutos depois - não dizes porque sabes que fiz o melhor a nível profissional! Mas isso não quer dizer que não perceba que não queiras, que não te sintas confortável e que ainda não tenhas a autorização da Ana! Percebo isso tudo, mas não deixo de querer como sempre quis... adormecer e acordar abraçado a ti! E agora para de chorar! - Levantou-me da cadeira pegou-me ao colo e levou-me até à sala sentou-se no sofá sem nunca me largar - Tira essa maluquices da cabeça! Amo-te! E não é por estares mais gorda, ou mais magra ou por teres uma cicatriz que por sinal é só mais uma prova de que te amo e tu também me amas - foi impossível não sorrir com o ar convencido com que falou - sinceramente não percebo essas birras!
- Não são birras! Eu não me sinto bem!
- Mas tu nunca tiveste essas maluquices!
- Mas agora...
- Agora?... Maria fala!
- Oh agora tás lá longe! E tens uma data de espanholas todas giras e magras e sem leite e sem cicatrizes e...
- E sem o Bruninho! E sem o teu beijo e o teu abraço... e o teu mau feitio de manhã... e as birras que fazes quando ficas com ciumes e... nenhuma delas és tu por isso qual é mesmo o problema?!
- Sabes que te odeio?
- A mim?! Porquê?
- Porque dizes sempre essas coisas e depois eu fico sem resposta... - ele gargalhou
- Amo-te
- E eu a ti! - acabamos por nos deixarmos ficar ali assim aninhados no sofá até ouvir o Guilherme - Mais uma volta mais uma viagem!
Acabei por ir ver o que se passava com o nosso príncipe e depois de voltar a coloca-lo a dormir levei-o comigo para a cozinha uma vez que era hora do jantar e quando lá cheguei fui surpreendida uma vez que o papá já tinha tudo preparado
- Não é um dos seus manjares, mas acho que não me sai mal!
- Também era difícil - disse a rir quando vi que o jantar era lasanha congelada feita no microondas - só faltava não saberes ligar o microondas!
Sorrimos os dois para iniciarmos a refeição logo de seguida e assim que terminamos o jantar e depois de o ver arrumar toda a cozinha sozinho, fomos-nos deitar para no dia seguinte voltar a ficar sem a sua companhia.
Os dias seguintes voaram e estávamos já no inicio das férias do João e por isso na data marcada para o batizado do meu menino.
Preparei o Guigas a rigor afinal seria a primeira vez que iria a um jogo de futebol, desporto que por todos as razões e mais algumas irá estar ligado à sua vida.
A Mariana estava bastante ansiosa o que me fez questionar o verdadeiro motivo de tal presente ao afilhado. Cheguei mesmo a perguntar-lhe se o que ela queria não era ver o padrinho do afilhado algo que ela, tal como das outras vezes que falei do Ruben ignorou.
Assim que chegamos ao estádio, não sem antes me avisar que o mais provável era o pai não achar piada ao traje do Guigas, o que nos levou a uma divertida troca de palavras, subimos directamente para o camarote destinado às famílias dos jogadores do Sporting
- Olha lá o nosso camarote é aquele - falei apontando para a zona onde fica o camarote da empresa
- Não é nosso é teu... e como hoje quem manda sou eu vamos ficar aqui...
Estranhei e depois de entrar e perceber o quão bem integrada a Mari estava fiquei a saber que estaríamos a usufruir dos lugares destinados à família do Rui. A cada dia que passa eles estão mais próximos, mas ainda não consegui perceber qual a real proximidade e intimamente lamentei ali estar visto que no final do jogo iríamos com certeza encontrar o Rui o que complicaria mais a que o meu desejo de juntar os dois teimosos se realizasse.
Depois de confraternizar um pouco com os presentes dirigi-me ao outro camarote onde estava o meu tio, como ainda não tinha sido vista, levei o Guilherme no colo e quando lá cheguei fiz um “buuuhhh” surpreendendo o meu tio
- Maria?!
- Olá Tio! Olhá tivô! - fingi que o Guigas falava
- Olá campeão! - fala fazendo caretas - O que fazem aqui? Se soubesse que querias vir tinha-te ido buscar escusavas de vir a conduzir...
- Calma! Eu não vim sozinha!
- O João está aí?!
- Não! - respondi a rir - Foi mesmo a Mariana que me obrigou - fui irónica - a vir e ela ficou ali... - apontei para onde ela se encontrava - Já sabes que não quer contatos...
- É... sei... mas ela aqui? - olhou para o relvado no momento em que o Braga entrava para o aquecimento
- Pois, mas parece que foi mais por... - olhou para a baliza Vitor Damas
baliza onde o Rui aquecia, a baliza do topo sul do Estádio José de Alvalade
- Mas isso é mesmo a sério?
- Isso o quê?
- Oh Maria... chegaram-me uns zum-zuns aos ouvidos...
- Até onde sei não há nada além de amizade, afinal o Rui ajudou-a num momento...
- Ahh assim fico mais descansado... E a vossa relação?
- Somos amigas... - suspirei - no fundo sempre fomos e na pratica tudo está igual só tenho que me acostumar em não usar expressões como “nós as Mendes” ou “prima”, de resto tenho muito que lhe agradecer porque tive ai uns dias...
- Passaste mal?
- Não, andei só com ideias malucas... mas a Mari e o João ajudaram-me
- Ah ok... - neste momento as equipas entraram em campo - Vês aqui connosco?
- Não, vamos ver com a madrinha, não é bebé? - peguei-o que estava ao colo do tio e ele chorou
- Vês ele não quer ir!
- Ele quer é comer e mudar a fralda e como não se cala até estar satisfeito vou perder a primeira parte... - o meu tio gargalhou ao ver-me encolher os ombros
- Quem não chora não mama! - riu - e tu sabes isso muito bem... que fazes uns lindos choradinhos nas negociações - riu - mas vai lá alimentar o Júnior
- Tchau.... - dei dois beijos ao meu tio e acenei aos restantes presentes
Tal como previra os cuidados do Guilherme ocuparam-me toda a 1ªparte e já quase no intervalo me consegui juntar à Mari
- Podias ter ficado lá com o teu tio!
- O nosso tio também refilou quando sai de lá no inicio do jogo mas o teu afilhado quis comer
- Ah se foi por isso tás desculpada...
- Olha como tá a correr o jogo?
- Oh... são 11 de cada lado, 1 bola e 3 árbitros... ahhh e o Rui está na baliza!
- Ah... muito mais esclarecida! E pelo Braga alguém conhecido?
- Não tive atenção... mas acho que o Quim, o Custodio, e o Hugo...
- E o padrinho do Guilherme?
- Não sei quem é!
- Vais começar?!
- Não vou acabar com a conversa porque o menino quer dormir e eu quero ver o jogo...
Foi impossível não reparar em como a Mari evitava olhar para a zona do campo onde provavelmente o Ruben estaria, focando-se na baliza ocupada pelo Rui, até ao momento que o nome do meu compadre foi anunciado no sistema de som do estádio por ele estar a ser substituído, nesse momento os olhos da Mariana focaram-se nele até que sentando-se no banco desapareceu do nosso campo de visão
- Tás a ver preguicinha?! Não viste o padrinho quase tempo nenhum... mas no fim vamos dar beijinhos a ele
- Oh Maria!
- Oh Mariana! É o padrinho dele e é meu amigo e teu...
- Meu nada... a tua sorte é que o Rui precisa de boleia...
A Mariana voltou a focar-se no jogo ou a fingir porque era capaz de ver o fumo a sair-lhe das orelhas com tudo o que pensava, mas optei por deixá-la e voltei atenções para o pequenote e resolvi recordar para sempre o momento com uma foto onde se via bem o que tinha vestido e depois de tirar uma ao relvado para que se visse onde estávamos enviei ao João
“Papá a Madinha touxe eu a vê o o painho e a mamã vestiu eu a rigor!
O painho já saiu e eu não vi puque paxei a 1ª pate a comê!!! :D
Mas no fim a mamã diz leva eu painho! Beijinhos meus e da mamã. Guigas”
- Tou
- Passou-te pela cabeça que eu podia gostar de estar no 1º jogo dele??
- Eiii! Vamos lá a ter calma a Mariana insistiu e sabemos quem está em campo... achas mesmo que a deixava vir sozinha?? Além disso 1º jogo é relativo... a 1ªparte não vi porque o menino resolveu jantar e a segunda tenho estado... confesso... a babá-lo - ouvi-o rir
- Aaaah ok... e a madrinha e o padrinho?
- Tou à espera do final, mas para já ela evitou olhar sequer para a zona do campo onde ele esteve, só olhou mesmo quando anunciaram que ele ia sair
- Oh pá bem que podiam atinar... e o Rui?
- Tá a jogar!
- Olha até ai já suspeitava...
- Não sei... vai de boleia no fim...
- Manda-o com o Martins!!
- Boa ideia, estava a pensar como me livrava dele! Vou tentar!!
- Depois diz!!
- hum-hum... beijo!
Desligamos e pouco depois o jogo acabou, descemos de imediato e enquanto a Mariana conversava com algumas das meninas eu apanhei o Rui assim que ele chegou à garagem
- Olá Campeão! Gostaste do jogo?
- Não?!
- Ele a 1ª parte esteve a comer e na 2ª a falar com o pai
- Aaah e como está o pai?
- Pediu-te um favor... que é um pedido da família
- Xuta!
- Vai de boleia com o Martins - o Rui gargalhou
- Já tinha pensado niss... vim só despedir-me
Neste momento somos interrompidos pela chegada do Ruben e quando o Rui já se afastava fui surpreendida, o Ruben não estava sozinho, quem seria aquela?!
- Rui, fica! - disse assim que vi a outra no pescoço do Ruben e a minha prima atrás a ver tudo
- Já percebi
Os minutos seguintes foram para mostrar ao Ruben o meu desagrado e depois deixa-lo para trás.
A minha grande preocupação era a Mari, ainda a vi falar com ele mas em segundos estava junto a nós e pela primeira vez em todo este tempo voltou a chamar-me prima o que só me mostrou o quão fragilizada estava. Não toquei mais no assunto e vi-a seguir para destino incerto com o Rui depois de me deixar em casa.
Quando entrei no apartamento tive uma surpresa, ou melhor apanhei um valente susto quando ouvi barulho na cozinha, afinal supostamente a casa estava vazia e eu estava sozinha com o menino, se fosse um ladrão eu não conseguiria defender-nos.
Estava já de telemóvel em punho para chamar a policia e com a porta aberta, mas no mantinha-me no hall do prédio quando vindo da cozinha muito descontraído a comer
- Oh seu vadio... Onde é que o menino andou? O jogo do padrinho já acabou há muito tempo...
- Mas tu queres matar-me do coração?! - ele riu-se
- A tua mãe é uma exagerada - tirou o Guilherme do ovinho e puxou-me finalmente para dentro de casa - vais ligar para quem? Porque ainda não tinhas entrado?
- Porque me assustei quando ouvi barulho, não era suposto estar cá ninguém - ele riu-se
- Surpresa!!!!
- Parvo!!!! - o menino que estava ao seu colo choramingou - passa-o para cá que tá na hora da ceia
- Ah bom pensei que não tinha gostado da surpresa... - falou e depois de mo passar para os braços jogou-se no sofá
- Ói! Tu aí! - olhou-me - vamos a levantar o rabinho se faz favor que eu vou dar-lhe banho antes dele comer e como é obvio TU vais ajudar!!
- Oh Maria!!!
- Oh João! Isto ser pai não é só fazê-los e embala-los quando estão de barriguinha cheia e lavadinhos...
- Oh... mas convenhamos que fazê-los é bom! - falou já a seguir-me enquanto ria
- Piada! Toma - passei-lhe o menino que voltou a refilar - Acalma-o enquanto trato das coisas - coloquei agua na banheira e depois de tudo pronto - Vá podes despi-lo
- Ãh?!
- Tira-lhe a roupinha João!! - ele refilou qualquer coisa mas lá o fez - a fralda também...
- Oh Maria isto tá sujo... já cheirei!
- Optimo tens brinde!!! - mostrei-lhe a língua - tira a fralda e passa uma toalhita...
O João fez o que lhe disse de cara feia e eu ri que nem perdida ou não fosse o menino resolver fazer xixi assim que o pai lhe tirou a fralda. Resultado: filho aliviado, pai molhado e mão com falta de ar de tanto rir. Acabei por me recompor
- Vá troca lá rápido de blusa que o menino tá ao frio! - ele olhou-me com cara feia mas cumpriu mais esta ordem - Agora pega nele e mete-o na banheira, cuidado com os ouvidinhos... vá já lhe podes dar o banho!
- Ãh?! Não... isso não! - ele estava todo atrapalhado, acho que mesmo em pânico - Agora dás tu! Eu fico aqui a ver e depois noutro dia logo dou... a sério amor! Eu não sei e ainda faço asneira...
- Só porque já é tarde e ele tem fome - assumi o comando dei banho ao Guilherme e depois de o secar
- Se quiseres eu posso por a fralda e vesti-lo
- A sério?! Podes só ver e logo fazes outro dia - meti-me com ele
- Oh fofinha isto não mete agua ele não se afoga...
- Aahhh o problema era esse...
O João fez o que pediu e depois deu-mo para que mamasse e depois voltou a pega-lo e adormeceu-o colocando-o no berço e juntando-se a mim na cama. Ofereceu-me alguns miminhos inocentes mas quando começou a intensifica-los cortei-lhe as vazas porque não me sentia minimamente atraente, confiante e confortável, é que a cicatriz...
- O que foi?
- Nada... o menino...
- Tá a dormir e tanto quanto sei assim vai ficar nas próximas horas...
- Sim, mas...
- Mas?
- Ai... oh João... - suspirei e ele continuava à espera de uma resposta - não estou pronta... e além disso a Ana ainda não me deu autorização...
- Não?!
- Não... a consulta é só para a semana e a cicatriz...
- O que tem? - jogou a mão à bainha da blusa do meu pijama - Mostra!
- Nem penses!!! - afastei a sua mão
- Porquê?
- Porque não! Isto é horrível!
- Deve ser, deve... que a Ana fazia-te mesmo isso...
- Esquece! Não a vais ver!
- Tenho saudades fofa... - voltou à carga
- Qual foi a parte do a Ana não ainda não... - calou-me com um beijo
- Só quero mimos!!! - acabei por rir e dar-lhe alguns mimos até que ele volta a falar - Amor... como correu entre a tua prima e o Ruben - respirei fundo
- Ela voltou a chamar-me Prima!! - falei animada e ele riu - mas foi para a seguir dizer que o Ruben morreu... João ele tinha uma com ele...
- Uma quê?
- Amiga? Namorada? Não sei chegou quando ele estava a cumprimentar-me e jogou-se no seu pescoço - acabei por lhe contar tudo - Por isso acho que se não queremos trocar os padrinhos do menino o melhor é tratar do batizado o quanto antes...
- É melhor mesmo... e o casamento também... podia ser um 2 em 1
- Oh...
- O que é?
- Tinha pensado que podíamos casar em Faro... em Agosto...
- Dia 15... - sorriu
- É...
- Combinado - deu-me um beijo rápido
- Mas queria baptizar o menino aqui... e 15 de Agosto é muito tempo... acho que o Ruben e a Mari até lá...
- Então que tal final de Junho?
- Para o baptizado?
- Sim...
- Ok... e depois em Agosto quero pouca gente!
- Só os chegados...
- Isso!
- Mas em Agosto já estou novamente ao serviço... e assim ficamos sem lua-de-mel....
- Coitadinho! Mas eu podia ir... ou melhor nós podíamos ir contigo para Valência uns tempinhos...
- Isso soa bem.. mas não é a mesma coisa...
- O que tu queres sei eu! - ri - podemos fazer a lua-de-mel depois em Dezembro... ou para o ano!
- Para o ano!! Mas não abro mão da noite de núpcias!
Rimos os dois e o Guilherme choramingou e continuou a dormir, mesmo assim optamos por coloca-lo na cama no meio dos dois e passamos o resto da noite a mima-lo e entregues aquele momento só nosso, dos três.
O dia seguinte foi passado em modo família primeiro só os três aproveitando para marcar o batizado do Guilherme e depois com uma vista aos avós paternos.
Quando já voltávamos de casa dos seus pais e com o menino a dormir na cadeirinha lembrei-me de pedir algo ao João.
- Amor? - usei um tom de voz meloso de quem nitidamente pedia algo ele olhou-me - Temos de comunicar aos padrinhos a data...
- Pois temos e onde é que está o problema??
- Na “coisa” que acompanhava o Ruben ontem!
- Oh Maria isso é com ele... fofa não nos podemos meter... além disso... - suspirou - a tua prima e o Rui...
- A minha prima e o Rui nada! João eu não sei bem o que se passa entre eles mas eu tive grávida e sei o que sentimos e imagino um pouco daquilo que a minha prima possa ter sentido... amor a Mariana agarrou-se ao Guilherme como tábua de salvação e... e tu não te esqueças que enquanto ele nascia acompanhado pelo padrinho os filhos dela morriam também pela falta dele! E... acredito que seja difícil para ela esta proximidade... E sei que as alterações nos nossos corpos são enormes e que existem períodos de resguardo a assegurar por isso se não for por mais nada acredito que não tenha havido nada de físico entre eles... E a minha prima também não o esfregou na cara do Ruben como ele fez ontem com... com a... isso!
- Talvez tenhas razão - olhei-o com cara de má - ok tens razão! Mas o que é que a “coisa” - disse a rir pela expressão que adoptei para falar na rapariga - tem que ver com o baptizado do Bruninho??
- É Guilherme! João... é Guilherme! - ele riu - E o que tem é que eu não a quero ver no baptizado!
- Tás a dizer que não queres que o Ruben leve acompanhante?
- Sim!
- E a tua prima pode levar?
- A minha prima?
- Sim... achas que ela não leva o Rui?
- Não sei se vão juntos, mas tendo em conta a ligação que tens com ele sempre pensei que o convidasses...
- Tás a ser parcial....
- Não estou a ser pacional! Se profissionalmente não o posso ser, pessoalmente posso e vou dar-me ao luxo de ser. Além disso não quero o baptizado do meu filho estragado/marcado por uma cena que prevejo ser menos feliz...
- Ok... eu ligo-lhe e falo com ele - tínhamos chegado a casa e por isso saímos do carro e enquanto eu tirava o saco do bebé do porta malas o João colocava o ovo no suporte com rodas - E se em vez de subirmos déssemos uma voltinha à beira Tejo?
- Parece-me bem! - iniciamos então um percurso à beira-rio em silencio, um silencio bom enquanto o João empurrava o carrinho com uma das mãos seguíamos com as nossas interlaçadas. - Olha lá tás à espera de quê?
- Ãhn?!
- Burguer! Não ias ligar ao Ruben?
- Ia não vou já ligo... - olhou-me - ok ligo já! - passou-me os comandos do carrinho do Guilherme e pegou no telemóvel. - Puto como é?! O teu afilhado contou-me que te viu ontem e tu nem dizes nada para nos encontrar-mos? (...) tou cheguei ontem volto amanhã (...) pois, já sei, também me contaram isso (...) a vida é tua não tenho nada com isso (...) oh mano eu já não me meto nisso, vocês são adultos, entendam-se (...) não era mesmo para... agora que me disseste que isso com a.. Sofia?!... Ok isso com a Sofia é mesmo sério - enquanto o ouvia falar não liguei muito o Guilherme acordou e ia brincando com ele mas quando referiu um nome de mulher e disse que era sério, parei de andar e olhei-o, ele olhou-me e depois continuou - fiquei numa situação complicada... é que... (...) oh ia-te avisar que o baptizado do teu afilhado está marcado, mas que... bem que nós, principalmente a Maria - que lindo a atirar a responsabilidade para cima de mim é mesmo “menino” - não se sente muito à vontade com a ideia de vires acompanhado por isso... se não te importasses de vir sozinho... (...) Ok Obrigado por perceberes (...) oh já sabes como são as Mendes (...) Tá aqui sim! Queres falar com ela? (...) Ok eu dou! (...) Ele tá a acordado - olhou para o menino - Bruninho o padrinho está a mandar-te um beijinho - voltou a focar-se na chamada - puto o teu afilhado diz que isso dos beijinhos é para meninas, mas vá faz-te a vontade e manda outro! - gargalhou imaginei que o Ruben também o fizesse e fui incapaz de também eu não sorrir - Ok então depois falamos melhor - finalmente desligou.
Depois de desligar o João passou o braço pela minha cintura e continuamos caminho até resolvermos para numa esplanada para bebermos qualquer coisa.
- Então?
- Então o quê?
- O que te disse o Ruben?
- Oh disse algo que temi quando me contaste que o viste com alguém...
- Ou seja?
- Esta Sofia é outra Ana...
- Tás a gozar?
- Não Maria, eles estão mesmo juntos e foi um bocado chato pedir-lhe que não a trouxesse... Maria ele quer seguir em frente...
- Olha que siga! Mas também não é por estar com ela que precisa ficar colado, podem perfeitamente passar umas horas longe...
- Como é que reagias se me convidassem para algum lugar onde era logo avisado que não eras bem-vinda??
- Tinha que aceitar... se a pessoa não me quisesse presente...
- Ficas já a saber que eu não era tão compreensivo e eu também já não ia...
- Também?? Queres com isso dizer que o Ruben não vem? - confesso que pensei em repensar a minha posição
- Não Maria! Como é óbvio ele vem! Ele é nosso amigo e gosta do Bruninho, mas não ficou feliz com a informação de que viria sozinho... - respirei de alivio
- Oh ele também não vem sozinho... a mãe e o irmão também vêm...
- Ah claro... - ele riu-se - oh tontinha eu sei que isto é o melhor para os dois e para termos um dias sossegado, mas não deixa de ser uma situação complicada... - ia responder mas o Guilherme choramingou - O que é que ele tem?
- Fome... - respondi a olhar para o relógio - a tua sorte pequenino é que o teu leitinho tá sempre pronto... anda cá - enquanto falava pegava-o ao colo e já ajeitava a minha blusa para que o Guilherme conseguisse mamar quando
- O que é que estás a fazer?
- A dar-lhe de mamar!
- No meio da rua???
- Não, no lugar mais recatado desta esplanada... além disso não percebo onde possa estar o mal... - fiz-me de desentendida e depois de com a fralda do Guilherme tapar a sua cabecinha e o meu peito recostei-me um pouco na cadeira para ficar mais confortável - não há nada mais natural que uma mãe alimentar um filho por isso não percebo que cara é essa?
- A sério?! - falou irónico - Ontem tavas cheia de não me toques porque não posso ver a cicatriz que tens na barriga e que foi feita para o NOSSO filho nascer, mas hoje já podes mostrar as mamas para qualquer um!
- Ei o que para ai vai!! Modera lá o tom e os termos... que eu não me posso irritar porque se eu me irrito isso passa no leite e o menino fica mal disposto! Além disso eu não estou a mostrar nada a ninguém! E amamentar o Guilherme não é propriamente o mesmo do que tu querias ontem! - calei-me e ele não respondeu ficou apenas com cara de poucos amigos enquanto eu amamentei para assim que terminei
- Vamos para casa?
- A sério que vais ficar chateado?
- Eu não tou chateado...
Não lhe disse mais nada e chegamos a casa em pouco tempo, aproveitei para trocar o Guilherme e coloca-lo a dormir na caminha, peguei no intercomunicador e fui até à sala onde encontrei o João agarrado ao comando da ps, peguei no outro
- Vamos a um joguinho?
- Não... - lavantou-se e fazia tensões de sair da sala
- Onde é que vais? Se queres jogas sozinho é só dizeres! Toma! - joguei o comando que tinha na mão para si que tinha voltado atrás mas se mantinha de pé - Engole-o! Eu vou tratar da roupa do Guilherme... - levantei-me e fui directa para a “lavandaria” o que não me faltavam eram roupinhas e babetes do Guilherme para lavar
- Fofinha... - sussurrou-me enquanto me abraçava por trás - eu não queria jogar contigo... nem sozinho... eu queria mesmo era falar contigo!
- O que é? - afastei-o e entrando na cozinha sentei-me numa das cadeiras
- Isso pergunto eu! Tá tudo bem contigo?
- E porque não havia de estar?
- Porque da ultima vez que cá estive... não estava!
- Mas já passou João! A sério que passou!
- Então porque é que ontem à noite...
- Porque já te disse que a Ana ainda não me voltou a ver! E que enquanto ela não o fizer estou proibida, além disso não me apetece! E antes que comece com ideias parvas... é normal para alguém que acabou de ser mãe não ter vontade ok?! Além disso se em vez de estares a 1000km de distancia estivesses aqui todos os dias também não irias ter vontade te garanto! Como também não tinhas visto mal nenhum em ter amamentado o nosso filho no café! Mas como para ti, na pratica muito pouco mudou...
- Não digas isso Maria! Mudou muita coisa!
- Oh sim muita... realmente mudou! Agora tens um bonequinho para passear e mostrar quando cá vens e... tens sentido falta da boneca insuflável! - ele olhou-me abismado, até eu estava com o que dizia mas era o que sentia - E não me olhes assim porque para teres o bonequinho a boneca rompeu-se e agora.... agora é preciso esperar que o remendo cole... ah espera brinquedos insufláveis com remendos já não têm tanta piada! Eu se fosse a ti arranjava outra! - já estava a chorar
- Mas que parvoíce é essa?! Sabes perfeitamente que não foi isso que mudou! Sim tenho um bonequinho como lhe chamas... lindo cada vez que cá venho, mas não o tenho quando estou lá sozinho e só vos queria ter comigo! Queria vê-lo todos os dias, notar como muda a cada dia que passa como fica mais interactivo e como cresce! Queria poder passar noites sem dormir porque ele tem os horários trocados e tu não aguentas mais! Queria ver-te rabugenta como percebo que estás quando falamos ao telefone! Ajudar na hora do banho... ter ido com ele às primeiras vacinas ou ao pediatra! - falou num tom calmo, deu-me a sensação que não era a primeira vez que pensava em tudo isto - e quanto a ti... nunca gostei de bonecas insufláveis E tu estás muito longe de ser uma! Mas sinceramente se quando entraste em paranóia porque não tinhas roupa que te servisse por causa da barriga, algo que nunca foi normal em ti, nunca imaginei que agora estarias assim com essa birra toda por causa de uma cicatrizinha! Oh Maria tem lá dó! Além do mais eu não penso só nisso! Mas sim gosto de ti! E gosto de ir prá cama contigo e... talvez tenhas razão talvez se tivesse aqui todos os dias a rotina com jogos e o menino não me ia deixar espaço para grandes vontades, mas não estou e não podemos fazer nada quanto a isso, não agora! Eu sei... sei que me avisaste para não ir, mas agora passado este tempo avalia da mesma forma que avaliaste friamente a proposta e diz-me que fiz mal! DIZ!!! - parou a olhar-me e eu chorava - Ah não dizes nada - falou uns minutos depois - não dizes porque sabes que fiz o melhor a nível profissional! Mas isso não quer dizer que não perceba que não queiras, que não te sintas confortável e que ainda não tenhas a autorização da Ana! Percebo isso tudo, mas não deixo de querer como sempre quis... adormecer e acordar abraçado a ti! E agora para de chorar! - Levantou-me da cadeira pegou-me ao colo e levou-me até à sala sentou-se no sofá sem nunca me largar - Tira essa maluquices da cabeça! Amo-te! E não é por estares mais gorda, ou mais magra ou por teres uma cicatriz que por sinal é só mais uma prova de que te amo e tu também me amas - foi impossível não sorrir com o ar convencido com que falou - sinceramente não percebo essas birras!
- Não são birras! Eu não me sinto bem!
- Mas tu nunca tiveste essas maluquices!
- Mas agora...
- Agora?... Maria fala!
- Oh agora tás lá longe! E tens uma data de espanholas todas giras e magras e sem leite e sem cicatrizes e...
- E sem o Bruninho! E sem o teu beijo e o teu abraço... e o teu mau feitio de manhã... e as birras que fazes quando ficas com ciumes e... nenhuma delas és tu por isso qual é mesmo o problema?!
- Sabes que te odeio?
- A mim?! Porquê?
- Porque dizes sempre essas coisas e depois eu fico sem resposta... - ele gargalhou
- Amo-te
- E eu a ti! - acabamos por nos deixarmos ficar ali assim aninhados no sofá até ouvir o Guilherme - Mais uma volta mais uma viagem!
Acabei por ir ver o que se passava com o nosso príncipe e depois de voltar a coloca-lo a dormir levei-o comigo para a cozinha uma vez que era hora do jantar e quando lá cheguei fui surpreendida uma vez que o papá já tinha tudo preparado
- Não é um dos seus manjares, mas acho que não me sai mal!
- Também era difícil - disse a rir quando vi que o jantar era lasanha congelada feita no microondas - só faltava não saberes ligar o microondas!
Sorrimos os dois para iniciarmos a refeição logo de seguida e assim que terminamos o jantar e depois de o ver arrumar toda a cozinha sozinho, fomos-nos deitar para no dia seguinte voltar a ficar sem a sua companhia.
Os dias seguintes voaram e estávamos já no inicio das férias do João e por isso na data marcada para o batizado do meu menino.
Como correrá o baptizado do Guilherme os padrinhos conseguirão conviver?
E a Maria e os seus complexos?
Sairá este casamento?