(Maria)
O dia foi relativamente calmo, conseguimos fazer tudo como planeado a casa estava pronta e eu e a Mariana também já estávamos prontas a receber os convidados, no fundo eram apenas o grupo de amigos mais chegado, o núcleo duro do secundário que agora se tinha reencontrado e mais dois ou três “novos” amigos.
- Mariana a campainha!
- Vais lá?
- Até ia mas não posso deixar isto no forno mais tempo - estava a desenformar um bolo, sim adoro cozinhar é terapêutico e para os amigos então...
Ouvi a Mariana abrir a porta e passado pouco tempo senti-o aproximar-se e abraçar-me por trás apenas me recostei de modo a me aninhar melhor nos seus braços.
- Isto é assim?! - olhei-o - Já te vens recostando toda no primeiro que te abraça?!
- Eu sabia que eras tu...
- Ah sim e como é que sabias? Só o Ruben é que falou que eu não fiz barulho!
- Nunca ouviste falar no 6º sentido das mulheres?
- Uiii 6º sentido... - gozou-me
- Mas tu achas mesmo que eu não senti logo que eras tu?
- Tretas eu cá se me chegar uma qualquer a abraçar por trás... só se ela falar é que vejo que não és tu...
- Pois por isso é que não te podes recostar como eu...
- Ai não, não posso!! Recosto-me e ainda faço mais qualquer coisinha! - disse a rir-se agradeci mentalmente a Mariana e o Ruben entreterem-se um ao outro e podermos estar ali assim - tinha saudades tuas...
- Eu também esta semana foi corrida... para ter tudo pronto hoje... mas...
- Mas?
- Esta semana não foi nada comparado com o mês de Janeiro que se prevê... algo me diz que vai ser a loucura...
- O que é que queres dizer com isso?
- Que não sei se vou ter muito tempo livre...
- Já esperava...-falou num tom calmo - e por isso ficas a saber que me vais ter aqui batido todas as noites para jantar!
- É preciso ter lata! Então eu estou a dizer que não vou ter tempo e tu ainda vens atrapalhar?
- Atrapalhar?! Eu venho é garantir que não ficas dias seguidos sem dormir e agarrada ao portátil e ao telemóvel isso sim!
- ahh se é para tomares conta de mim podes vir paizinho...
- paizinho?! oh fofinha na manhã de Natal chamaste-me coisas bem melhores e olha que o paizinho anda longe - falou enquanto me tirava das mãos a travessa com o bolo pousando-a para finalmente desde que chegou nos beijarmos
- Joãaaooo... - acabei por o chamar à razão de forma arrastada e molengona de quem dizia não querendo dizer que sim assim que vi que entravamos por caminhos perigosos para o ouvir
- Vês é assim... - deu-me um pequeno beijo nos lábios- é assim que eu gosto que me chames...
- Parvo - disse enquanto lhe dava uma chapada no braço
- Ai que ela é má! - comecei a rir-me com a forma como ele imitou uma criança quando falou e continuei a dar-lhe pequenas chapadas nos braços - Oh bate amor bate... quanto mais me bates mais eu gosto de ti! - aumentei a velocidade e um pouco de força com que lhe “batia” - continua fofinha “chapada de amor não doi não” - falou a imitar o sotaque brasileiro e continuando a rir. Não o queria magoar mas queria que ele parasse de gozar com a minha pouca força por isso peguei a colher de pau que tinha perto e dei-lhe em cheio no braço- Ehhh!! Parou!! - voltei a repetir o gesto desta vez sem força - Vamos a parar se faz favor que isto assim já começa a mudar de figura e eu vou ser obrigado a reagir - falou a rir enquanto me agarrou nos braços para que eu não continuasse e o aleijasse a sério
O seu gesto trouxe-me automaticamente à memoria a ultima vez que vi o Pedro e por isso a única coisa que consegui fazer foi afastá-lo e sair disparada da cozinha para o meu quarto passando pela sala sem nem se quer cumprimentar os presentes.
O João não me seguiu acho que ficou tão surpreendido com a minha reacção que nem conseguiu reagir. E eu alguns minutos depois e “acordada” pelo som da campainha que indicava a chegada de mais pessoal acabei por retocar o make-up e regressar à sala vi que a Mariana já tinha terminado de colocar a mesa e por isso iria apenas preocupar-me em encontrar o João e tentar inventar qualquer coisa que servisse de desculpa uma vez que não queria tocar no verdadeiro motivo. Não o consegui encontrar, por isso acabei por cumprimentar todos os que já tinham chegado deixando para ultimo o Ruben que estava acompanhado da Mariana
- Olá! Olá!
- Boa noite! Tá tudo bem? - disse dando-me dois beijos
- Sim - forcei o sorriso
- Eu vou fingir que acredito, mas qualquer coisa já sabes...
- Está tudo bem a sério...- o Ruben afastou-se para atender uma chamada
- O João?
- Não sei ele teve aqui na sala e depois distrai-me e já não o vi... Maria ele não entrou em detalhes mas pelo que contou ele fez-te lembrar o que se passou não foi?
- Foi automático aquela lembrança veio e quando consegui ter novamente noção da realidade já estava fechada no quarto
- Vais contar-lhe?
- Não quero falar sobre isso e não me parece que seja realmente importante... digo-lhe que fiquei mal-disposta... é isso digo-lhe que vomitei e que agora passou
- Oh Maria vais mata-lo de susto! O desgraçado ainda pensa que vai ser pai!
- Piada e ele pensaria isso porque?
- Mas tu achas que eu sou burra? E não sei o que se anda a passar?
- Não faço ideia do que falas - disse a rir - mas esta vai ser a desculpa!
Voltamos a ser interrompidas pela chegada de mais pessoas e estava a conversar com alguns colegas quando vejo o João entrar na sala vindo da varanda, quis aproximar-me mas foi impossível não consegui cortar a conversa que estava a ter e ele também se juntou logo a um grupo animado.
Foi da Mariana a iniciativa de jantar. Tínhamos organizado tudo para que cada um se servisse e se sentasse espalhado pela sala, fiz por isso tudo para me servir só depois do João e sentar-me “distraidamente” ao seu lado.
- Desculpa - disse quando o empurrei um pouco para dividir um ele um sofá de apenas um lugar
- Deixa eu saio, para ficares confortável
- Fica...estava a falar do que se passou à bocado...
- Desculpa é só o que tens a dizer?
- Fiquei enjoada de repente e tinha mesmo que sair...
- Enjoada assim do nada? Isso tem-te acontecido muito? Tens notado mais alguma coisa de diferente?...- oh não! então não é que a Mariana acertou em cheio?! Só me apeteceu rir mas fiquei a ouvi-lo encher-me de perguntas cuja resposta só poderia indicar que estaria gravida, deixei-o falar e quando se calou
- Não João, eu não estou gravida... e sim João tenho a certeza absoluta! -sorri - passei o dia a mexer na comida e fui experimentando de tudo deve ter sido qualquer coisa que me caiu mal...
- Mas já tás melhor?
- Sim! Olha lá o que é que tavas a fazer lá fora?
- Oh não quis ser vela dos pombinhos! - disse fazendo uma cara de nojo no fim
- Conta lá isso
- Escuta vim para a sala ter com eles e eles alaparam-se! - desatei a rir - tas a rir do quê?
- Da tua indignação até parece que é uma grande novidade?
- Não, não é mas depois do que vimos nos meus anos temi o pior - dei uma gargalhada daquelas mesmo sentidas que chamou como é óbvio atenção de todos incluindo dos visados na conversa que também se tinham sentado juntos.
O resto da noite passou-se entre conversas e brincadeiras e foi impossível não reparar na constante troca de mimos entre a Mariana e o Ruben aqueles dois estavam decididamente a querer assumir-se perante todos.
A meia-noite chegou e foi celebrada por todos com grande animação, para depois começarmos a ver partir os convidados ao poucos e perto das 3h da manhã apenas restava o quarteto do costume.
(João)
Depois da euforia da meia-noite todos começaram a dispersar e como já se tornava habito a noite acabou apenas com nós os quatro.
Assim que saíram os últimos convidados, sim que eu e o Ruben já fazemos parte da mobília, a Mariana já estava outra vez alapada com o Ruben e a Maria jogou-se para cima de um puff ficando exactamente da forma que caiu foi impossível não nos rirmos da figurinha dela
- Tão a rir do quê?
- De ti!
- Palhaços! Já não pode uma pessoa estar cansada sem ser gozada?
- Ahh se é por isso espera ai... - a Mariana levantou-se e atirou-se para cima da Maria - aiii estou tão cansada!!
Não tardou muito a que eu e o Ruben fizéssemos o mesmo e acabássemos em cima delas
- Oh pá seus elefantes saiam de cima de mim!! - a Maria gritava de baixo de nós mas não era muito credível porque também ela ria à gargalhada, como não saiamos ele forçou um movimento com o corpo que nos fez cair a todos no chão o que só fez aumentar as gargalhadas.
Ainda ficamos estendidos no chão sem nos mexer e só a rir durante uns minutos. Minutos esses que serviram para me lembrar da véspera do baile de finalistas a que fomos e que passamos a tarde a jogar twister a tarde toda e que terminou numa cena semelhante quando me apercebo era o único que continuava a rir sozinho e tinha três pares de olhos postos em mim ainda gargalhei mais
- Mariana aponta ai na próxima festa comprar Champomy... que aqui o menino não aguenta a pressão...
- Está registado!
- Engraçadas! Uma pessoa já não se pode lembrar de nada sem ser gozada?
- Uma pessoa sim... tu não..-desta foi o Ruben a gozar
- Pronto vá não gozamos mais com o menino! - a Maria acabou por sair em minha defesa ao mesmo tempo que se sentava ao meu lado enquanto me fazia festas na cabeça como se faz a uma criança com birra - Nós não gozamos mais, mas tu partilhas o que te fez rir
- Na boa... lembrei-me da véspera do baile em que acabamos todos assim...- não acabei de falar porque todos começaram a rir
- É foi a ultima vez em que estivemos realmente os quatro juntos...- a Mariana falou
- Sim porque desde esse dia até agora não nos tínhamos visto mais
- O que a minha prima quis dizer foi que depois dessa tarde nada voltou a ser como antes...- olhei-a - nunca mais voltamos a estar nós sem defesas nem ataques sem capas e sem medos... e muitas vez nem sequer voltamos a estar fisicamente os quatro porque houve alturas principalmente neste últimos meses quase um ano em que muitas vezes um de nós faltou propositadamente para não ter que ser “ele próprio”... percebeu menino João?
- Percebi Dona Maria estás a querer dizer, estão as duas, que até essa tarde éramos transparentes uns para os outros, mas que esse fui o ultimo momento totalmente “puro” porque a partir dai começamos a misturar outras coisas...
As duas resolveram meter o dedo na ferida e como sempre que se faz isso “ardeu”. Mas o Ruben ainda jogou álcool que foi mesmo para doer.
- E de quem foi a culpa? Quem é que deixou que isso acontecesse?
- Não entres por ai foste tu o primeiro que desapareceu!
- Não entrem por ai os dois... isso faz parte da idade! Todos deixamos de ser “crianças” e todos crescemos e por vários motivos crescemos separados e agora se o essencial se mantém porque a nossa personalidade já estava formada naquela altura, há pequenas coisas que mudaram pelas experiências que vivemos e por vezes reagimos de formas esquisitas a coisas que antes nem ligaríamos...
- Confessa lá Maria tu és psicóloga e não gestora...-o Ruben brincou - mas isso resolve-se
- Isso o quê? - a Mariana verbalizou a duvida que pairava
- O não sabermos porque os outros passaram... é só contarmos! Cada um conta o que mudou...
- Eish... nem pensem... passado é passado como tal é para estar morto e enterrado!
- Eu não me importo... começo eu? - sim aquela proposta do Ruben entusiasmou-me era para contar eu contava sem problemas
- É isso mesmo mano... chuta!
- Façam o que quiserem eu acho que é estar a procurar esqueletos nos quintais e a reabrir feridas...
- Eu também não me importo, mas sim podes começar tu - a Maria falou a olhar-me consegui descodificar-lhe uma enorme curiosidade no olhar
- Então o que é que querem saber?
- Já que vais falar conta tudo... mas salta a parte do currículo profissional isso o pessoal vê na net!
- Então já que da ultima vez que falamos sobre o passado não tive coragem de falar agora cá vai - olhei para a Maria e via a curiosidade dos olhos dela a aumentar - ao contrario do que vos disse eu não andei de “cama em cama” tive uma relação que durou quase tanto tempo como o que estive em Barcelos, - senti o corpo da Maria que estava muito perto do meu afastar-se e quando olhei vi-a a endireitar-se e olhar-me muito séria - mas acabou pouco tempo depois de ir para Braga ou melhor sensivelmente 6 meses depois...
- É que nem penses em parar começas-te agora acabas nós queremos saber! Não é Maria?
- Oh prima o João é que sabe se quer mesmo falar não sou eu...
- Eu continuo mas a partir de agora peço que só façam perguntas no fim... poucos sabem porque acabou e eu tinha enterrado esta história, mas hoje, já depois de ter chegado aqui aconteceu algo que me fez relembrar o que se passou - fiz uma pausa para ganhar coragem - A Cristiana, refilou um bocadinho quando mudei para Braga, ela como todos à nossa volta e confesso também eu, já tinhas silenciosamente definido que aquele namoro só acabaria no altar - foi impossível não ouvir o “ãhhh?!” que a Maria tentou sem êxito abafar - ela pensou que casaríamos nesse verão, mas eu não me cheguei à frente nem para um casamento nem para convida-la a que se mudasse comigo para Braga, as coisas para mim como estavam, estavam muito bem, mas ela queria mais, mas nunca o disse de forma clara. Tentou fazê-lo acontecer de forma menos recomendável... sem que eu soubesse ele deixou de tomar a pílula e quando eu voltei do estágio de pré-época anunciou que estava grávida, não era algo planeado por mim, mas também não fiquei chateado com isso, antes pelo contrário. - comecei a sentir a Maria inquieta - mas para meu espanto quando lhe pedi que viesse comigo para Braga para que pudesse acompanhar a 100% a gravidez ela recusou, alegou que queria ficar perto da mãe e ser acompanhada pela médica dela. Ainda tentei argumentar com a pouca distancia que separa Braga de Barcelos, mas ela usou o mesmo argumento como prova de que não era necessário a mudança. Acabei por concordar afinal ela estaria mais confortável numa fase mais sensível. Mas com os jogos, os treino e os horários dela deixamos de ter tempo para nos encontrar-mos, ela ia contando o que acontecia pelo telefone e mesmo eu pedindo esquecia-se sempre de me avisar das consultas, enviando-me depois as imagens da ecografia. Quando estávamos juntos estava sempre nervosa e evitava a todo o custo que eu lhe tocasse na barriga. Se eu não achava esquisito, achava mas...
- Mas?!
- Sempre ouvi dizer que as gravidas têm as suas manias e não insistia... até ao dia que tivemos uma “folga” surpresa no treino da tarde e como no dia seguinte só treinava de tarde resolvi ir ter com ela. Cheguei a casa dos seus pais e eles estavam de saída nem precisei tocar na campainha e mãe dela disse-me que ela estava com uma amiga no quarto e eu sem pensar duas vezes fui ter com ela... quando cheguei perto da porta do quarto ouvi a Cristiana agradecer os pais terem saído porque assim podia tirar “aquela porcaria” que só lhe dava calor enquanto que a outra lhe perguntava quando é que ela tava a pensar simular o aborto, não esperei mais um segundo entrei no quarto sem bater e encontrei a Cristiana de lingerie ainda mais magra que o normal e em cima da cama uma almofada com alças, que percebi ser supostamente a barriga dela. Como estavam de costas para a porta ainda continuaram a desenrolar todo o plano que tinham só se aperceberam da minha presença quando a Cristiana me enviou para o telemóvel mais uma imagem da eco que afinal era da amiga, essa sim grávida - parei de falar ali acho que a cara de espanto e pena que os três tinham enquanto me olhavam me fez sentir ainda mais otario do que na altura em que descobri - sim já sei que se estão a perguntar como não percebi antes... nem eu sei! Mas depois da Cristiana ai sim saltei de cama em cama... corri muitas em Braga, mas continuo a ser um menino perto de vocês dois - falei para o Ruben e para a Mariana
- Puto não sei se tou mais danado com essa fulana se contigo! Sim contigo que não contaste nada! Que ficaste ai a ruminar isso...
- Não gosto de falar nisto. Enterrei o assunto naquele dia quando acabei com ela e pronto
- E não tinham coisas já prontas... sei lá roupinhas e quarto do bebé? Onde é que meteste as coisas e não me digas que não tinhas comprado nada... - desta foi a Mariana que falou enquanto a Maria se mantinha impavidamente, sinceramente esperava que ela se atirasse ao ar e me chamasse de tudo por não ter percebido antes o que se passava
- Doei tudo! A uma associação lá de Braga logo no dia seguinte e nunca mais passei sequer perto de lojas com cenas dessas
- E o bichinho de seres pai também doaste?
- Não mano, não doei esse ficou cá... eu pensava que tinha morrido, mas ao mais pequeno sinal de que pudesse acontecer despertou... é esquisito - vi a Maria suster a respiração afinal ela sabia como eu daquilo que falava
- Mais alguma revelação bombástica? - ela interrompeu
- Não já acabei... - confesso que o desinteresse dela surpreendeu-me
(Maria)
Ouvir a história do João deixou-me meio confusa e tinha dispensado por completo aquela ultima declaração sobre paternidade, alem de me ter arrependido de ter falado em enjoo para fugir no inicio da noite, no entanto fiquei com mais vontade de contar aos meninos o que se tinha passado com o Pedro. Por isso fiz questão de terminar com o momento “desabafo do João” para iniciar o “desabafo da Maria”
- Então agora é a minha vez... quando vos contei como foram as coisas falei-vos de uma relação estável e duradoura que tive, o que não vos contei foi o porquê de ter chegado ao fim quando todos inclusive nós até data já tínhamos marcado para o casamento - o João olhou-me surpreendido - sim tinha a data marcada e disto nem a Mari sabe. Desculpa prima, mas o Pedro tratou de tudo e comunicou-me e a ideia era fazermos uma surpresa, mas depois... bem depois foi tudo por agua abaixo. Não, não era o grande amor da minha vida, nem uma paixão arrebatadora, mas era uma relação repleta de amor.... amor de amigos... de irmãos talvez, mas acima de tudo carinho, amizade, cumplicidades e respeito ou pelo menos assim eu pensava até ao dia em que eu apresentei a minha tese de Mestrado e o nosso tio nos convidou para trabalhar com ele, no mesmo instante eu sem pestanejar, quanto mais consultar fosse quem fosse, aceitei e assinei o contrato mudando de novo toda a minha vida para Lisboa. Durante toda a comemoração com a família o Pedro não se manifestou desagradado antes pelo contrario parecia contente e até orgulhoso, mas quando chegamos a casa e ficamos sozinhos as coisas mudaram ele fez questão de me dizer com todas as letras que não tinha gostado que tivesse tomado a decisão sem lhe pedir autorização...
- Pedires autorização?! Mas ele era teu pai?!
- Ruben deixa-a falar
- Obrigada prima, Ruben no fim percebes - olhei para o João que não reagia desde que tinha falado em data de casamento - bem como estava a dizer ele achava que eu devia ter pedido autorização. Autorização essa que não me seria dada uma vez que já tinha brincado o suficiente às mulheres modernas e independentes e por isso estava na hora de casar e engravidar muito depressa para encher a casa de crianças de quem eu tomaria conta enquanto ele trabalhava. Como de imediato refutei tal ideia a atitude do Pedro foi inesperada. Ele agarrou-me pelos braços e apertou-mos com forças sacudindo-me - olhei para o João quando falei e percebi que ele tinha percebido toda a reacção de mais cedo - para em seguida dar-me a primeira de várias chapadas que me deu naquela noite - comecei a chorar como nunca o tinha feito depois disto acontecer -só não apanhei ainda mais porque a Mariana ouviu-me e acabou por o correr lá de casa à vassourada... a minha prima é a minha heróia!
- Ele bateu-te dessa maneira porque tu aceitaste um trabalho que já todos percebemos que é o que te deixa feliz?
- Sim Ruben por isso e porque segundo ele, e até tinha razão, isto só me ia fazer voltar para perto do meu “amiguinho” que me ofereceu o porta-chaves para quem ninguém podia olhar e muito menos tocar... - foi a vez do João se manifestar engasgando-se - nesse dia depois de sair lá de casa ele teve a decência de nunca mais me ligar ou aparecer e eu ainda passei um mês de férias maravilhoso no Algarve antes de atacar o mercado de transferências.
Pensava eu que os desabafos tinham acabado ali, com o abraço inesperado que recebi do João, mas que como sempre me deixou a levitar, mas a Mariana resolveu também ela, para minha grande surpresa, revelar o que de mais assustador a tinha marcado nestes anos. Confesso que assim que a ouvi previ tempestade e infelizmente não me enganei.
O que contará a Mariana? Como reagiram os amigos?
O dia foi relativamente calmo, conseguimos fazer tudo como planeado a casa estava pronta e eu e a Mariana também já estávamos prontas a receber os convidados, no fundo eram apenas o grupo de amigos mais chegado, o núcleo duro do secundário que agora se tinha reencontrado e mais dois ou três “novos” amigos.
- Mariana a campainha!
- Vais lá?
- Até ia mas não posso deixar isto no forno mais tempo - estava a desenformar um bolo, sim adoro cozinhar é terapêutico e para os amigos então...
Ouvi a Mariana abrir a porta e passado pouco tempo senti-o aproximar-se e abraçar-me por trás apenas me recostei de modo a me aninhar melhor nos seus braços.
- Isto é assim?! - olhei-o - Já te vens recostando toda no primeiro que te abraça?!
- Eu sabia que eras tu...
- Ah sim e como é que sabias? Só o Ruben é que falou que eu não fiz barulho!
- Nunca ouviste falar no 6º sentido das mulheres?
- Uiii 6º sentido... - gozou-me
- Mas tu achas mesmo que eu não senti logo que eras tu?
- Tretas eu cá se me chegar uma qualquer a abraçar por trás... só se ela falar é que vejo que não és tu...
- Pois por isso é que não te podes recostar como eu...
- Ai não, não posso!! Recosto-me e ainda faço mais qualquer coisinha! - disse a rir-se agradeci mentalmente a Mariana e o Ruben entreterem-se um ao outro e podermos estar ali assim - tinha saudades tuas...
- Eu também esta semana foi corrida... para ter tudo pronto hoje... mas...
- Mas?
- Esta semana não foi nada comparado com o mês de Janeiro que se prevê... algo me diz que vai ser a loucura...
- O que é que queres dizer com isso?
- Que não sei se vou ter muito tempo livre...
- Já esperava...-falou num tom calmo - e por isso ficas a saber que me vais ter aqui batido todas as noites para jantar!
- É preciso ter lata! Então eu estou a dizer que não vou ter tempo e tu ainda vens atrapalhar?
- Atrapalhar?! Eu venho é garantir que não ficas dias seguidos sem dormir e agarrada ao portátil e ao telemóvel isso sim!
- ahh se é para tomares conta de mim podes vir paizinho...
- paizinho?! oh fofinha na manhã de Natal chamaste-me coisas bem melhores e olha que o paizinho anda longe - falou enquanto me tirava das mãos a travessa com o bolo pousando-a para finalmente desde que chegou nos beijarmos
- Joãaaooo... - acabei por o chamar à razão de forma arrastada e molengona de quem dizia não querendo dizer que sim assim que vi que entravamos por caminhos perigosos para o ouvir
- Vês é assim... - deu-me um pequeno beijo nos lábios- é assim que eu gosto que me chames...
- Parvo - disse enquanto lhe dava uma chapada no braço
- Ai que ela é má! - comecei a rir-me com a forma como ele imitou uma criança quando falou e continuei a dar-lhe pequenas chapadas nos braços - Oh bate amor bate... quanto mais me bates mais eu gosto de ti! - aumentei a velocidade e um pouco de força com que lhe “batia” - continua fofinha “chapada de amor não doi não” - falou a imitar o sotaque brasileiro e continuando a rir. Não o queria magoar mas queria que ele parasse de gozar com a minha pouca força por isso peguei a colher de pau que tinha perto e dei-lhe em cheio no braço- Ehhh!! Parou!! - voltei a repetir o gesto desta vez sem força - Vamos a parar se faz favor que isto assim já começa a mudar de figura e eu vou ser obrigado a reagir - falou a rir enquanto me agarrou nos braços para que eu não continuasse e o aleijasse a sério
O seu gesto trouxe-me automaticamente à memoria a ultima vez que vi o Pedro e por isso a única coisa que consegui fazer foi afastá-lo e sair disparada da cozinha para o meu quarto passando pela sala sem nem se quer cumprimentar os presentes.
O João não me seguiu acho que ficou tão surpreendido com a minha reacção que nem conseguiu reagir. E eu alguns minutos depois e “acordada” pelo som da campainha que indicava a chegada de mais pessoal acabei por retocar o make-up e regressar à sala vi que a Mariana já tinha terminado de colocar a mesa e por isso iria apenas preocupar-me em encontrar o João e tentar inventar qualquer coisa que servisse de desculpa uma vez que não queria tocar no verdadeiro motivo. Não o consegui encontrar, por isso acabei por cumprimentar todos os que já tinham chegado deixando para ultimo o Ruben que estava acompanhado da Mariana
- Olá! Olá!
- Boa noite! Tá tudo bem? - disse dando-me dois beijos
- Sim - forcei o sorriso
- Eu vou fingir que acredito, mas qualquer coisa já sabes...
- Está tudo bem a sério...- o Ruben afastou-se para atender uma chamada
- O João?
- Não sei ele teve aqui na sala e depois distrai-me e já não o vi... Maria ele não entrou em detalhes mas pelo que contou ele fez-te lembrar o que se passou não foi?
- Foi automático aquela lembrança veio e quando consegui ter novamente noção da realidade já estava fechada no quarto
- Vais contar-lhe?
- Não quero falar sobre isso e não me parece que seja realmente importante... digo-lhe que fiquei mal-disposta... é isso digo-lhe que vomitei e que agora passou
- Oh Maria vais mata-lo de susto! O desgraçado ainda pensa que vai ser pai!
- Piada e ele pensaria isso porque?
- Mas tu achas que eu sou burra? E não sei o que se anda a passar?
- Não faço ideia do que falas - disse a rir - mas esta vai ser a desculpa!
Voltamos a ser interrompidas pela chegada de mais pessoas e estava a conversar com alguns colegas quando vejo o João entrar na sala vindo da varanda, quis aproximar-me mas foi impossível não consegui cortar a conversa que estava a ter e ele também se juntou logo a um grupo animado.
Foi da Mariana a iniciativa de jantar. Tínhamos organizado tudo para que cada um se servisse e se sentasse espalhado pela sala, fiz por isso tudo para me servir só depois do João e sentar-me “distraidamente” ao seu lado.
- Desculpa - disse quando o empurrei um pouco para dividir um ele um sofá de apenas um lugar
- Deixa eu saio, para ficares confortável
- Fica...estava a falar do que se passou à bocado...
- Desculpa é só o que tens a dizer?
- Fiquei enjoada de repente e tinha mesmo que sair...
- Enjoada assim do nada? Isso tem-te acontecido muito? Tens notado mais alguma coisa de diferente?...- oh não! então não é que a Mariana acertou em cheio?! Só me apeteceu rir mas fiquei a ouvi-lo encher-me de perguntas cuja resposta só poderia indicar que estaria gravida, deixei-o falar e quando se calou
- Não João, eu não estou gravida... e sim João tenho a certeza absoluta! -sorri - passei o dia a mexer na comida e fui experimentando de tudo deve ter sido qualquer coisa que me caiu mal...
- Mas já tás melhor?
- Sim! Olha lá o que é que tavas a fazer lá fora?
- Oh não quis ser vela dos pombinhos! - disse fazendo uma cara de nojo no fim
- Conta lá isso
- Escuta vim para a sala ter com eles e eles alaparam-se! - desatei a rir - tas a rir do quê?
- Da tua indignação até parece que é uma grande novidade?
- Não, não é mas depois do que vimos nos meus anos temi o pior - dei uma gargalhada daquelas mesmo sentidas que chamou como é óbvio atenção de todos incluindo dos visados na conversa que também se tinham sentado juntos.
O resto da noite passou-se entre conversas e brincadeiras e foi impossível não reparar na constante troca de mimos entre a Mariana e o Ruben aqueles dois estavam decididamente a querer assumir-se perante todos.
A meia-noite chegou e foi celebrada por todos com grande animação, para depois começarmos a ver partir os convidados ao poucos e perto das 3h da manhã apenas restava o quarteto do costume.
(João)
Depois da euforia da meia-noite todos começaram a dispersar e como já se tornava habito a noite acabou apenas com nós os quatro.
Assim que saíram os últimos convidados, sim que eu e o Ruben já fazemos parte da mobília, a Mariana já estava outra vez alapada com o Ruben e a Maria jogou-se para cima de um puff ficando exactamente da forma que caiu foi impossível não nos rirmos da figurinha dela
- Tão a rir do quê?
- De ti!
- Palhaços! Já não pode uma pessoa estar cansada sem ser gozada?
- Ahh se é por isso espera ai... - a Mariana levantou-se e atirou-se para cima da Maria - aiii estou tão cansada!!
Não tardou muito a que eu e o Ruben fizéssemos o mesmo e acabássemos em cima delas
- Oh pá seus elefantes saiam de cima de mim!! - a Maria gritava de baixo de nós mas não era muito credível porque também ela ria à gargalhada, como não saiamos ele forçou um movimento com o corpo que nos fez cair a todos no chão o que só fez aumentar as gargalhadas.
Ainda ficamos estendidos no chão sem nos mexer e só a rir durante uns minutos. Minutos esses que serviram para me lembrar da véspera do baile de finalistas a que fomos e que passamos a tarde a jogar twister a tarde toda e que terminou numa cena semelhante quando me apercebo era o único que continuava a rir sozinho e tinha três pares de olhos postos em mim ainda gargalhei mais
- Mariana aponta ai na próxima festa comprar Champomy... que aqui o menino não aguenta a pressão...
- Está registado!
- Engraçadas! Uma pessoa já não se pode lembrar de nada sem ser gozada?
- Uma pessoa sim... tu não..-desta foi o Ruben a gozar
- Pronto vá não gozamos mais com o menino! - a Maria acabou por sair em minha defesa ao mesmo tempo que se sentava ao meu lado enquanto me fazia festas na cabeça como se faz a uma criança com birra - Nós não gozamos mais, mas tu partilhas o que te fez rir
- Na boa... lembrei-me da véspera do baile em que acabamos todos assim...- não acabei de falar porque todos começaram a rir
- É foi a ultima vez em que estivemos realmente os quatro juntos...- a Mariana falou
- Sim porque desde esse dia até agora não nos tínhamos visto mais
- O que a minha prima quis dizer foi que depois dessa tarde nada voltou a ser como antes...- olhei-a - nunca mais voltamos a estar nós sem defesas nem ataques sem capas e sem medos... e muitas vez nem sequer voltamos a estar fisicamente os quatro porque houve alturas principalmente neste últimos meses quase um ano em que muitas vezes um de nós faltou propositadamente para não ter que ser “ele próprio”... percebeu menino João?
- Percebi Dona Maria estás a querer dizer, estão as duas, que até essa tarde éramos transparentes uns para os outros, mas que esse fui o ultimo momento totalmente “puro” porque a partir dai começamos a misturar outras coisas...
As duas resolveram meter o dedo na ferida e como sempre que se faz isso “ardeu”. Mas o Ruben ainda jogou álcool que foi mesmo para doer.
- E de quem foi a culpa? Quem é que deixou que isso acontecesse?
- Não entres por ai foste tu o primeiro que desapareceu!
- Não entrem por ai os dois... isso faz parte da idade! Todos deixamos de ser “crianças” e todos crescemos e por vários motivos crescemos separados e agora se o essencial se mantém porque a nossa personalidade já estava formada naquela altura, há pequenas coisas que mudaram pelas experiências que vivemos e por vezes reagimos de formas esquisitas a coisas que antes nem ligaríamos...
- Confessa lá Maria tu és psicóloga e não gestora...-o Ruben brincou - mas isso resolve-se
- Isso o quê? - a Mariana verbalizou a duvida que pairava
- O não sabermos porque os outros passaram... é só contarmos! Cada um conta o que mudou...
- Eish... nem pensem... passado é passado como tal é para estar morto e enterrado!
- Eu não me importo... começo eu? - sim aquela proposta do Ruben entusiasmou-me era para contar eu contava sem problemas
- É isso mesmo mano... chuta!
- Façam o que quiserem eu acho que é estar a procurar esqueletos nos quintais e a reabrir feridas...
- Eu também não me importo, mas sim podes começar tu - a Maria falou a olhar-me consegui descodificar-lhe uma enorme curiosidade no olhar
- Então o que é que querem saber?
- Já que vais falar conta tudo... mas salta a parte do currículo profissional isso o pessoal vê na net!
- Então já que da ultima vez que falamos sobre o passado não tive coragem de falar agora cá vai - olhei para a Maria e via a curiosidade dos olhos dela a aumentar - ao contrario do que vos disse eu não andei de “cama em cama” tive uma relação que durou quase tanto tempo como o que estive em Barcelos, - senti o corpo da Maria que estava muito perto do meu afastar-se e quando olhei vi-a a endireitar-se e olhar-me muito séria - mas acabou pouco tempo depois de ir para Braga ou melhor sensivelmente 6 meses depois...
- É que nem penses em parar começas-te agora acabas nós queremos saber! Não é Maria?
- Oh prima o João é que sabe se quer mesmo falar não sou eu...
- Eu continuo mas a partir de agora peço que só façam perguntas no fim... poucos sabem porque acabou e eu tinha enterrado esta história, mas hoje, já depois de ter chegado aqui aconteceu algo que me fez relembrar o que se passou - fiz uma pausa para ganhar coragem - A Cristiana, refilou um bocadinho quando mudei para Braga, ela como todos à nossa volta e confesso também eu, já tinhas silenciosamente definido que aquele namoro só acabaria no altar - foi impossível não ouvir o “ãhhh?!” que a Maria tentou sem êxito abafar - ela pensou que casaríamos nesse verão, mas eu não me cheguei à frente nem para um casamento nem para convida-la a que se mudasse comigo para Braga, as coisas para mim como estavam, estavam muito bem, mas ela queria mais, mas nunca o disse de forma clara. Tentou fazê-lo acontecer de forma menos recomendável... sem que eu soubesse ele deixou de tomar a pílula e quando eu voltei do estágio de pré-época anunciou que estava grávida, não era algo planeado por mim, mas também não fiquei chateado com isso, antes pelo contrário. - comecei a sentir a Maria inquieta - mas para meu espanto quando lhe pedi que viesse comigo para Braga para que pudesse acompanhar a 100% a gravidez ela recusou, alegou que queria ficar perto da mãe e ser acompanhada pela médica dela. Ainda tentei argumentar com a pouca distancia que separa Braga de Barcelos, mas ela usou o mesmo argumento como prova de que não era necessário a mudança. Acabei por concordar afinal ela estaria mais confortável numa fase mais sensível. Mas com os jogos, os treino e os horários dela deixamos de ter tempo para nos encontrar-mos, ela ia contando o que acontecia pelo telefone e mesmo eu pedindo esquecia-se sempre de me avisar das consultas, enviando-me depois as imagens da ecografia. Quando estávamos juntos estava sempre nervosa e evitava a todo o custo que eu lhe tocasse na barriga. Se eu não achava esquisito, achava mas...
- Mas?!
- Sempre ouvi dizer que as gravidas têm as suas manias e não insistia... até ao dia que tivemos uma “folga” surpresa no treino da tarde e como no dia seguinte só treinava de tarde resolvi ir ter com ela. Cheguei a casa dos seus pais e eles estavam de saída nem precisei tocar na campainha e mãe dela disse-me que ela estava com uma amiga no quarto e eu sem pensar duas vezes fui ter com ela... quando cheguei perto da porta do quarto ouvi a Cristiana agradecer os pais terem saído porque assim podia tirar “aquela porcaria” que só lhe dava calor enquanto que a outra lhe perguntava quando é que ela tava a pensar simular o aborto, não esperei mais um segundo entrei no quarto sem bater e encontrei a Cristiana de lingerie ainda mais magra que o normal e em cima da cama uma almofada com alças, que percebi ser supostamente a barriga dela. Como estavam de costas para a porta ainda continuaram a desenrolar todo o plano que tinham só se aperceberam da minha presença quando a Cristiana me enviou para o telemóvel mais uma imagem da eco que afinal era da amiga, essa sim grávida - parei de falar ali acho que a cara de espanto e pena que os três tinham enquanto me olhavam me fez sentir ainda mais otario do que na altura em que descobri - sim já sei que se estão a perguntar como não percebi antes... nem eu sei! Mas depois da Cristiana ai sim saltei de cama em cama... corri muitas em Braga, mas continuo a ser um menino perto de vocês dois - falei para o Ruben e para a Mariana
- Puto não sei se tou mais danado com essa fulana se contigo! Sim contigo que não contaste nada! Que ficaste ai a ruminar isso...
- Não gosto de falar nisto. Enterrei o assunto naquele dia quando acabei com ela e pronto
- E não tinham coisas já prontas... sei lá roupinhas e quarto do bebé? Onde é que meteste as coisas e não me digas que não tinhas comprado nada... - desta foi a Mariana que falou enquanto a Maria se mantinha impavidamente, sinceramente esperava que ela se atirasse ao ar e me chamasse de tudo por não ter percebido antes o que se passava
- Doei tudo! A uma associação lá de Braga logo no dia seguinte e nunca mais passei sequer perto de lojas com cenas dessas
- E o bichinho de seres pai também doaste?
- Não mano, não doei esse ficou cá... eu pensava que tinha morrido, mas ao mais pequeno sinal de que pudesse acontecer despertou... é esquisito - vi a Maria suster a respiração afinal ela sabia como eu daquilo que falava
- Mais alguma revelação bombástica? - ela interrompeu
- Não já acabei... - confesso que o desinteresse dela surpreendeu-me
(Maria)
Ouvir a história do João deixou-me meio confusa e tinha dispensado por completo aquela ultima declaração sobre paternidade, alem de me ter arrependido de ter falado em enjoo para fugir no inicio da noite, no entanto fiquei com mais vontade de contar aos meninos o que se tinha passado com o Pedro. Por isso fiz questão de terminar com o momento “desabafo do João” para iniciar o “desabafo da Maria”
- Então agora é a minha vez... quando vos contei como foram as coisas falei-vos de uma relação estável e duradoura que tive, o que não vos contei foi o porquê de ter chegado ao fim quando todos inclusive nós até data já tínhamos marcado para o casamento - o João olhou-me surpreendido - sim tinha a data marcada e disto nem a Mari sabe. Desculpa prima, mas o Pedro tratou de tudo e comunicou-me e a ideia era fazermos uma surpresa, mas depois... bem depois foi tudo por agua abaixo. Não, não era o grande amor da minha vida, nem uma paixão arrebatadora, mas era uma relação repleta de amor.... amor de amigos... de irmãos talvez, mas acima de tudo carinho, amizade, cumplicidades e respeito ou pelo menos assim eu pensava até ao dia em que eu apresentei a minha tese de Mestrado e o nosso tio nos convidou para trabalhar com ele, no mesmo instante eu sem pestanejar, quanto mais consultar fosse quem fosse, aceitei e assinei o contrato mudando de novo toda a minha vida para Lisboa. Durante toda a comemoração com a família o Pedro não se manifestou desagradado antes pelo contrario parecia contente e até orgulhoso, mas quando chegamos a casa e ficamos sozinhos as coisas mudaram ele fez questão de me dizer com todas as letras que não tinha gostado que tivesse tomado a decisão sem lhe pedir autorização...
- Pedires autorização?! Mas ele era teu pai?!
- Ruben deixa-a falar
- Obrigada prima, Ruben no fim percebes - olhei para o João que não reagia desde que tinha falado em data de casamento - bem como estava a dizer ele achava que eu devia ter pedido autorização. Autorização essa que não me seria dada uma vez que já tinha brincado o suficiente às mulheres modernas e independentes e por isso estava na hora de casar e engravidar muito depressa para encher a casa de crianças de quem eu tomaria conta enquanto ele trabalhava. Como de imediato refutei tal ideia a atitude do Pedro foi inesperada. Ele agarrou-me pelos braços e apertou-mos com forças sacudindo-me - olhei para o João quando falei e percebi que ele tinha percebido toda a reacção de mais cedo - para em seguida dar-me a primeira de várias chapadas que me deu naquela noite - comecei a chorar como nunca o tinha feito depois disto acontecer -só não apanhei ainda mais porque a Mariana ouviu-me e acabou por o correr lá de casa à vassourada... a minha prima é a minha heróia!
- Ele bateu-te dessa maneira porque tu aceitaste um trabalho que já todos percebemos que é o que te deixa feliz?
- Sim Ruben por isso e porque segundo ele, e até tinha razão, isto só me ia fazer voltar para perto do meu “amiguinho” que me ofereceu o porta-chaves para quem ninguém podia olhar e muito menos tocar... - foi a vez do João se manifestar engasgando-se - nesse dia depois de sair lá de casa ele teve a decência de nunca mais me ligar ou aparecer e eu ainda passei um mês de férias maravilhoso no Algarve antes de atacar o mercado de transferências.
Pensava eu que os desabafos tinham acabado ali, com o abraço inesperado que recebi do João, mas que como sempre me deixou a levitar, mas a Mariana resolveu também ela, para minha grande surpresa, revelar o que de mais assustador a tinha marcado nestes anos. Confesso que assim que a ouvi previ tempestade e infelizmente não me enganei.
O que contará a Mariana? Como reagiram os amigos?

