terça-feira, 9 de julho de 2013

081 - " ah e tu devias estar orgulhoso afinal os teus bichinhos são hipersónicos"

Ruben
Ouvir que toda a vida da Mariana tem sido uma mentira deixou-me sem reação, pelo menos nos primeiros minutos mas acabei por despertar ao vê-la a não conseguir reagir, chamei-a mas não obtive resposta e como tal resolvi retirá-la de lá o quanto antes, afinal a última coisa que precisávamos agora era de um confronto com aquele que ela sempre chamou de pai.
Agarrei-a pela mão e saímos. Apesar da Mariana nada falar percebi que o melhor seria rumar direto a Braga, o meu amor precisava de tempo e espaço para gerir tudo o que tinha ouvido, como tal só parei mesmo quando chegamos ao nosso destino. A Mariana acabou por adormecer durante a viagem e custou-me ter que despertá-la, afinal sabia que estaria a obrigá-la a acordar para a realidade, ainda assim fi-lo.
- Amor... - fiz-lhe algumas festinhas no seu rosto - Mariana - mexeu-se e logo depois abriu os olhos.
- Já chegamos?! - questionou calmamente o que deixou-me intrigado
- Sim...
Não falou mais, simplesmente saiu do carro entrando direta em casa, mais concretamente para o nosso quarto e quando lá cheguei encontrei-a a trocar de roupa, o meu amor estava a vestir o pijama mas assim que deu pela minha presença olhou-me, doeu ver o tamanho da dor que os seus olhos espelhavam, ainda assim calculei que quisesse ficar sozinha e foi isso mesmo que lhe perguntei.
- Acabei de descobrir que a única coisa verdadeira em toda a minha vida é o amor que nos une logo é impossível não querer que fiques aqui comigo, não serei grande companhia mas neste momento estou a precisar de ti mais do que nunca, és a única verdade que tenho, tu e os nossos bebés... e é a essa verdade que vou agarrar-me para dar um novo rumo à minha vida!
Arrepiei-me ao ouvi-la a ser tão fria mas nem abri a boca, simplesmente deitei-me ao seu lado e por lá fiquei, acabei por vê-la a adormecer novamente e só depois é que sai do quarto, estava com fome e por isso fui até à cozinha.
Estava já na sala a ver um pouco de televisão quando sou acordado para a realidade pelo toque de chamada do meu telemóvel, atendi de imediato por ser o meu irmão.
- Então puto vens a Lisboa e nem visitas a família! - reclamou assim que teve oportunidade.
- Desculpem - suspirei
- Está tudo bem?
- Se queres que te diga a verdade não... não está nada bem... mas espero que fique...
- Estás a assustar-me, é alguma coisa com a Mariana e com os bebés?
- Com os bebés está tudo bem mas... - calei-me porque não tinha o direito de revelar algo que ouvi por acidente
- Ruben! Estás aí? Fala de uma vez!
- Mano a única coisa que posso dizer é que estamos os quatro bem, não te preocupes.
- Ruben Filipe! Bem é coisa que não estás... nem é preciso olhar para ti para perceber isso, basta ouvir-te!
- Mauro não insistas, não vou contar pelo menos para já, é um assunto da Mariana e como tal não vou comentar contigo, desculpa não te queria deixar preocupado.
- Mas está mesmo tudo bem, certo?
- Sim...
- Então e como correu a consulta?
- Correu bem... os bebés estão a desenvolverem-se bem, com a Mari também está tudo bem por isso melhor seria impossível.
- Oh mas não deu para ver se são meninos ou meninas? - gargalhei com a pergunta.
- Mais ou menos! Um dos bebés não quis mostrar mas o outro... bem o outro não deixou duvidas - falei todo babado - é um puto!!!
- Shiii a cota é que tinha razão...
- Ãh?
- Mano a mãe sempre disse que eram meninos...
- Tem lá calma contigo que ainda só sabemos o sexo de um dos minimeus... o outro pode ser menina - um sorriso surgiu no meu rosto.
- Ui que ele quer um casal e nem tentes negar que apesar da distância sei que deves estar com um sorriso parvo no rosto só de te imaginares com um casal...
- Sim... estou mesmo de sorriso parvo mas um parvo orgulhoso - o meu irmão gargalhou - a sério mano seja menino ou menina a alegria que sinto sempre que olho para a eco é imensa, são uma parte de mim...
- Sim... sei o que é isso ou já te esqueceste que já sou pai!
- Pois... - sorri - e o meu sobrinho como anda?
- Cada vez mais reguila mas está tudo bem... vê mas é se da próxima vez apareces cá para o ver!
- Fica prometido - olhei para a porta da sala e encontrei a Mari a observar-me - mano vou ter que desligar, dá beijinhos aí ao puto e à Paula.
- Serão entregues mas vê se ligas para a mãe...
- Ok!
Despedi-me dele e desliguei a chamada.
- Não precisavas de ter desligado! - a Mariana falou depois de se ter sentado no meu colo.
- Oh... já tinha falado o que interessava - olhou-me - queria saber como correu a consulta - informei-a.
- Ah! - aconchegou-se melhor nos meus braços - já comeste?
- Sim... queres que te faça alguma coisa?
- Não... - olhei-a - amor sinto-me incapaz de engolir o que quer que seja - baixou o olhar - talvez daqui pouco coma umas torradas e beba um chá...
Não insisti devido ao momento, acabei por ficar a mimá-la mas depois de uns minutos lá liguei para a minha mãe que ficou toda babada por um dos bebés ser mais um menino. Terminei a chamada e ainda pensei perguntar se não queria avisar os seus pais mas dado o que descobrimos esta tarde, achei melhor nem dizer nada.
O resto da noite foi passada na cama mas dormir foi coisa que não fiz, primeiro porque a Mariana não parava quieta, estava com insónias e depois quando finalmente conseguiu adormecer, não consegui deixar de pensar no que está por vir.

Mariana
O dia que tinha tudo para ser perfeito ou não fosse um dos minimeus se ter revelado aos pais e a conversa com o Ruben sobre a minha pouca vontade de fazer sexo ter corrido tão bem, mas como nem tudo é perfeito tive que descobrir que afinal sou filha de um descuido e ainda por cima fui enganada a vida toda.
Estava a remoer no assunto quando o Ruben entra na sala, depois de regressar do treino, com um saco.
- Toma... mas aviso já que a gracinha não é minha! - olhei-o sem perceber - É um mimo dos rapazes que hoje estavam particularmente engraçados...
Não liguei muito ao que falava e abri o saco, lógico que assim que vi bem o presente tive que gargalhar.

- Ah mas fica o aviso que isto é só uma lembrança - olhei-o - até tenho medo de pensar o que vem por aí...
- Oh deixa de implicar até achei fofo - gargalhei - ah e tu devias estar orgulhoso afinal os teus bichinhos são hipersónicos - olhou-me - sim... que em vez de ter sido brincada com o mais rápido fui com os dois mais rápidos...
- É tão engraçada que ela está - o Ruben começou a fazer algumas cócegas e só parou quando lhe implorei - como é que estás? - suspirei por saber ao que se referia.
- Nem sei... parece que estou a viver um pesadelo sem fim à vista - suspirei pesadamente.
- Amor... tens de reagir...
Deixei-o a falar sozinho não porque a conversa estivesse a chatear-me mas sim porque deu-me uma vontade louca de comer, desde que acordei que ando assim, só me apetece devorar tudo o que me aparece à frente. Estava a deliciar-me a comer uma banana quando o Ruben entrou.
- Banana?! - olhei-o de lado - oh filhos vocês dão cabo da vossa mãe - falou já com as suas mãos na minha barriga - para vossa informação existem coisas que não devem desejar... como por exemplo banana já que a vossa mãe detesta...
- Mas tu importaste de parar de desencaminhar os nossos bebés?! Eles têm é mais que comer de tudo! - o Ruben gargalhou
- Muito me contas... onde vai o tempo em que falavas o contrário? - olhei-o com vontade de lhe torcer o pescoço, afinal estava a gozar com os desejos de uma grávida e ainda por cima em dia que acordou carente - ah e não me olhes assim que não metes medo - deitou-me a língua de fora - muito pelo contrário... - começou a dar-me beijinhos no pescoço - ficas ainda mais irresistível - senti as suas mãos a subirem pela minha barriga e a sua boca a descer cada vez mais no meu pescoço - e depois aqui o pai dos bebés fica em brasa - tocou com os seus lábios no meu peito e sem que conseguisse controlar um gemido escapou-me por entre os lábios - a menos que os filhos liberem a mãe... - as mãos do Ruben continuaram a percorrer o meu corpo de uma forma liberal como há muito não o faziam, muito por culpa minha que não deixava mas a verdade é que hoje aquilo tudo estava a saber-me muito bem, tanto que não o impedi de continuar e quando dei por mim já eu própria o estava a despir - tens a certeza... - ouvi-o a perguntar mas ignorei, o Ruben já tinha conseguido despertar em mim um desejo incalculável e já só pensava em satisfazê-lo, acabei por arrastá-lo até ao quarto e foi lá que iniciamos o regresso aos treinos, o Ruben teve todo o cuidado comigo, levou-me ao limite com as carícias que fez mas só quando uniu os nossos corpos é que conseguiu satisfazer-me ao máximo, amámo-nos como há semanas não o fazíamos, completámo-nos e no fim ainda fui brindada com um conjunto de mimos extras, o Ruben estava empenhado em tornar o momento único, como se isso fosse difícil dado que para mim todos os momentos com ele são únicos e inesquecíveis.
- Amo-te - afirmei ao olhá-lo e por isso vi o sorriso que tanto adoro.
- Também te amo - beijou-me calmamente para logo depois começar a beijar a minha barriga - e a vocês os dois também - fez algumas festinhas - apesar de andarem a dificultar aqui a vida ao vosso pai - gargalhei ou não fosse ter entendido ao que se referia - mas vá lá que hoje até se portaram bem... - voltou a beijar-me a barriga para iniciar um trajeto com a sua boca e língua até chegar aos meus lábios, onde uniu novamente as nossas bocas e línguas em mais um beijo intenso - estás bem? - questionou ao mesmo tempo que levou uma das mãos à minha barriga.
- Sim... - suspirei - Obrigada!
- Estás a agradecer o quê?
- Oh... tudo... a tua paciência para me aturares e o teu amor por nós os três - levei também eu as mãos à minha barriga - tenho consciência que nem sempre sou fácil de aturar... - o Ruben calou-me com um beijo demorado.
- Shiuu não tens de agradecer nada... até porque o amor não se agradece... simplesmente se retribui
Não lhe respondi, limitei-me a enroscar no seu corpo e assim passamos os minutos seguintes mas acabamos por nos vestir quando reclamei com fome, o Ruben gargalhou talvez porque momentos antes lhe tinha contado que hoje não tenho feito outra coisa que não comer.
- Não gozes...
- Desculpa - beijou-me - então e os minimeus querem alguma coisa em especial?
- Ui... hoje como isto anda acho que comem de tudo... por isso desde que seja para comer tudo marcha!
O Ruben acabou por rir novamente mas lá parou quando lhe fiz cara de má e por isso acabamos por ir os dois até à cidade, onde comemos um belo de um bacalhau à Narcisa.
- Queres ir já para casa?
- Tens alguma coisa em mente?
- Se não tiveres muito cansada pensei em irmos passear um pouco...
- Oh só se for até ao centro comercial - olhou-me de lado - amor... anda lá... quero mostrar-te uma coisa!
- Mariana não vais comprar mais roupa, certo?
- Não! É que no outro dia lá no Porto vi um carrinho para gémeos mesmo fofinho e gostava que o visses também...
- Ok... não era bem este género de passeio que tinha em mente mas tudo bem...
O Ruben fez-me a vontade e por isso fomos ver o tal carrinho, que por sinal também agradou ao Ruben no entanto decidimos não comprar já, pois queríamos ver outras opções.
De tarde resolvi acompanhá-lo ao treino mas fiquei pelo carro à sua espera, não estava com paciência para vê-los a correr atrás de uma bola e devo mesmo ter passado pelas “brasas” porque acordei quando ouvi o Ruben a falar com os minimeus.
- Oh filhotes vocês estão mesmo a desregular a vossa mãe... agora já a metem a dormir em pleno dia e tudo - apesar de ter despertado mantive-me de olhos fechados, estava a saber-me bem ouvi-lo a conversar com os bebés - o pai ama-vos muito - sorri ao ouvi-lo o que fez com que percebesse que afinal estava acordada - olha que bem... a menina a fingir que dormia...
- Para sua informação estava mesmo a dormir mas um certo pai babadão acordou-me! - o Ruben sorriu
- Babadão mesmo! É verdade os rapazes estão a combinar no próximo sábado depois do jogo um jantar, alinhas?
- Sim... quer dizer se os minimeus resolverem colaborar por mim é na boa.
Ainda trocamos algumas palavras mas acabamos por seguir até casa e assim que chegamos tivemos uma pequena grande surpresa...

Ruben
Apesar de tudo o dia de hoje correu melhor do que pensei, a Mariana está a reagir de uma forma inesperada à realidade que nos assombrou e apesar de não tocar no assunto também não está no fundo do poço, no entanto tenho receio que de um momento para o outro quebre, afinal de contas ignorar nunca é solução...
Depois do resto de manha algo animada que tivemos, fomos almoçar fora para depois a Mari acompanhar-me ao treino mas em vez de o ir ver preferiu ficar no carro a dormir, não a condenei até porque dormir foi coisa que não vez durante a noite e por isso deixei-a à vontade. Quando regressei iniciei uma conversa com os minimeus mas depressa percebi que estava a ser ouvida pela mãe deles, trocamos algumas palavras mas acabamos por seguir até casa e foi quando chegamos que deparamo-nos com os seus pais à nossa espera.
- Tem calma... - falei ao vê-la com as lágrimas nos olhos.
- Mas afinal o que é que eles querem?!
- Não sei... queres que diga para voltarem depois?
- Não! Eles podem ficar - olhei admirado - afinal a rua é mesmo pública... agora lá em casa garanto que não entram! E agora se não te importares mete o carro na garagem assim evitamos tentativas de aproximação!
Fiz o que pediu, não adiantava contradizê-la e assim que estacionei a Mariana saiu imediatamente do carro.
- Espera! - pedi quando o meu amor já estava no elevador e com a porta a fechar
- Tanto tempo! - reclamou
- Amor... sei que não queres falar com eles mas temos a obrigação de pelo menos mandá-los embora... não os vais deixar à porta.
- Faz o que quiseres mas lá em casa não entram e muito menos quero falar com eles!
A Mariana estava decidida a adiar a conversa e no fundo era também essa a minha opinião, a última coisa que precisa é de se enervar e por isso acabei por sair no rés-do-chão enquanto a Mari seguiu para o piso do nosso apartamento.
- Ruben! - a mãe da Mariana chamou-me assim que abri a porta - O que se passa? - olhei-os - A minha filha tem o telemóvel desligado desde ontem, para o telefone da vossa casa não adianta ligar que não dá, o teu telemóvel chama mas ninguém atende e agora a minha filha nem sequer olha para nós...
- Pois... - calei-me por não saber como lhes dizer o que se passa na realidade e apesar de saber que a Mariana não os quer em casa, não tive outra solução que não convidá-los a subir, afinal não iria dizer-lhes no meio da rua que a filha descobriu toda a verdade e que por isso não os quer ver - subam...
- O que se passa? Estás estranho? Mal nos olhas? - a D. Fernanda debitava a uma velocidade louca as perguntas e por isso tive que a interromper quando já estávamos a entrar no apartamento
- Não há outra forma de o dizer... por isso... - hesitei ao ver a Mariana a passar quase a correr no corredor, talvez por ter percebido que vinha acompanhado por quem não queria ver.
- Mas o que se passa? Ruben vocês ontem tiveram consulta... está tudo bem com os meus netos? - olhei para o Sr. Manuel, estava de facto preocupado.
- Com os bebés está tudo bem e com a Mariana também, pelo menos em termos clínicos...
- Estás a assustar-nos!
- D. Fernanda e Sr. Manuel - respirei fundo antes de continuar - ontem depois da consulta consegui convencer a Mariana a ouvir o que você - olhei para o pai dela - tinha para lhe dizer, tanto que fomos até à vossa casa mas como ainda não tinham chegado, a vossa filha resolveu usar a chave que tem para entrarmos...
- Mas nós não vos encontramos! - a mãe da Mariana falou mas foi interrompida pelo marido.
- Ruben... vocês estavam lá quando cheguei com o Jorge?! - a Fernanda olhou-o sem entender, ao contrário de mim, que sabia perfeitamente ao que se referia - Fala!
- Estávamos... - assim que confirmei também vi o desespero apoderar-se do Manuel, o que levou a Fernanda a perguntar o que se passava - nós ouvimos sem querer a conversa...
- Qual conversa? Não estou a entender nada!
- Fernanda não aguentei mais e acabei por contar a verdade toda ao Jorge... contei que a Mariana não é...
- Não! - a Fernanda começou a chorar - não tinhas esse direito... - a mãe da Mari virou-se contra o Manuel e disse uma quantidade de disparates que só terminaram quando a interrompi e pedi que se acalmasse - Ruben, estou desesperada - olhei-a, no fundo percebia o receio que tinha em perder a filha - não posso perder a minha filha... nem consigo imaginar no que deve estar a pensar a uma hora destas!
- Tenham calma - olhei-os à vez - D. Fernanda não imagino sequer o que vai na cabeça da Mariana ou o que está a sentir porque a vossa filha ainda não conseguiu deitar cá para fora tudo o que lhe vai no pensamento, só sei que pouco dormiu durante a noite, que hoje anda em pé nem sei bem como e que as únicas palavras que proferiu a respeito do assunto é que não vos quer ver, não quer ouvir e muito menos falar convosco, para a Mariana neste momento a única verdade que conhece e que se vai agarrar é ao nosso amor e aos nossos filhos, por favor peço que respeitem isso e se afastem, para o bem dos vossos netos não procurem a Mariana...
- Mas eu preciso de lhe explicar... - sentou-se no sofá, acho que só o fez porque as forças lhe faltaram.
- D. Fernanda... desculpe mas vou respeitar o pedido da sua filha, a Mariana está de rastos apesar de não o demonstrar, a verdade é que quando ouviu o seu marido a contar toda a verdade ficou sem chão, não conseguiu reagir e só horas depois é que falou, para dizer que a partir de ontem a única família que conhece sou eu e os bebés que carrega, por isso respeite a vontade da Mariana, afinal tudo em que acreditava desmoronou como um castelo de cartas...
- O Manuel não tinha o direito de mexer no passado... - levantou-se e começou a andar de um lado para o outro, estava desesperada e isso foi notório.
- D. Fernanda - aproximei-me dela e abracei-a fazendo-a parar e olhar-me - não diga isso... a Mariana tinha o direito de saber tudo e depois este passado que tanto quis esconder já nos trouxe tantos dissabores, mesmo sem termos culpa o vosso passado interferiu com o nosso passado, presente e com toda a certeza futuro porque nada vai ser igual, a Mariana agora tem a possibilidade de finalmente perceber o pai, entender que afinal o seu marido só a quis proteger, é verdade que não o fez da melhor forma mas ninguém o pode julgar... nem a ele nem a si, vocês os dois amam a Mariana e ela também vos ama, só precisa de tempo para assimilar tudo e aprender a viver nesta nova realidade.
Enquanto falava percebi que a Fernanda olhava para a porta, algo que fiz também e encontrei a Mari a olhar-nos mas assim que a sua mãe deu um passo em frente para ir ao seu encontro o meu amor saiu a correr.
- Fique aqui - pedi ao perceber que a Fernanda tinha intenção de seguir a filha
- Mas...
- Fernanda - ouvimos pela primeira vez a voz do Manuel - deixa ser o Ruben a ir ter com a Mariana... ela não nos vai ouvir...
- E a culpa é TUA só TUA! - a Fernanda acusou-o e antes que iniciassem uma discussão
- Hey... acabou! - olharam-me - Pensem na vossa filha... e D. Fernanda pare de culpar o Sr. Manuel porque ambos tiveram culpa! Agora fiquem aqui que vou ter com a vossa filha... assim que puder volto - falei já a sair da sala.
Fui directo ao quarto mas não a encontrei, foi quando percebi que estava na casa de banho, abri a porta e encontrei-a sentada completamente alheia.
- Amor... - ainda tentei falar mas assim que sentei-me do seu lado a Mariana agarrou-se a mim a chorar desesperadamente, deixei-a acalmar, o que levou algum tempo mas assim que pelo menos parou de soluçar - os teus pais estão na sala - levantou-se imediatamente
- Não sei do que falas... não conheço essa personagem do sexo masculino a quem supostamente devia chamar de pai - olhei-a - e mãe?! Pois... mãe é coisa que ela não é... se fosse não deixava a filha viver uma mentira e muito menos deixava aquele com quem se casou infernizar a nossa vida... por isso agradeço que os vás mandar embora... não quero respirar o mesmo ar que eles... não quero os nossos filhos a conviverem com a mentira...
- Chega! - agarrei-a pelos dois braços - É mesmo pelos nossos filhos que terás que assimilar tudo o que descobriste, amor é verdade que eles te mentiram desde sempre, que não tinham esse direito mas também é verdade que tens na sala duas pessoas capazes de darem a sua vida por ti, a tua mãe podia ter ido pelo caminho mais fácil, podia ter abortado mas não o fez e o teu pai... o teu pai amou-te desde a altura em que estavas na barriga da tua mãe... ele nunca te abandonou, esteve lá para assumir uma responsabilidade que não era dele, não se importou em abdicar da sua vida em prol da tua por isso não os condenes...
- Não percebes... - afastou-se
- Não percebo o quê? Que tens ali na sala duas pessoas que te amam, que tiveram a coragem de lutarem contra as adversidades só para te terem nos seus braços, que te mentiram porque não queriam que estivesses a passar por tudo isto, que te deram a possibilidade de cresceres com os teus pais unidos, que te deram uma infância normal...
- Vivi uma mentira... como é que isso pode ser normal?
- Uma mentira? Consideras que o que viveste é uma mentira? Mariana não é o sangue do Manuel que corre nas tuas veias mas é o amor e a dedicação dele a ti que te conduziu até aqui, foi ele que esteve do teu lado quando estavas doente, foi ele que esteve sempre presente quando precisaste, foi ele que te educou por isso é ele que tem todo o direito de ser chamado de pai e não aquele que simplesmente engravidou a tua mãe e desapareceu sem sequer olhar para trás - a Mariana olhava-me de uma forma estranha ainda assim continuei - amor não viveste uma mentira, viveste a tua vida, a vida que te ofereceram sem pedirem nada em troca, compreendo que estejas magoada, revoltada e até mesmo a pensares que estás sozinha mas não estás... amor tens duas pessoas que sempre te amaram à espera que lhes perdoes este erro... Mariana não quer dizer que o faças já mas pensa antes de tomares uma decisão...
- Não sei o que pensar...
- Então não penses - olhou-me sem entender o que falei - ouve simplesmente o lado deles... não os julgues... tenta só compreende-los... tens a oportunidade de ir até à sala e ouvires da boca dos teus pais as razões que os levaram a mentir, a esconder da família toda a verdade...
- Não sei se consigo...
- Amor consegues sim... tu amas os teus pais e não vai ser por descobrires agora que não é o sangue de um Mendes que te corre nas veias que vai mudar isso.
- Não sei... - respirou profundamente - preciso de tempo...
- E terás todo o tempo que precisares mas dá uma oportunidade à tua mãe para te contar a sua versão...
- Não consigo... pelo menos hoje não...
- Tudo bem... vou só avisá-los que neste momento não queres falar com eles e já venho ter contigo.
A Mariana concordou comigo e enquanto foi até ao quarto eu fui até à sala informar os seus pais, lógico que receberam a notícia com tristeza mas respeitaram o pedido da filha e foram embora. Estava a regressar ao quarto quando o meu telemóvel voltou a tocar, mais uma vez a Maria tentava saber noticias nossas mas fui incapaz de atender, só eu sei o que já me custa falar com o João e desviar sempre o assunto quando o meu amigo tenta entender o que se passa, por isso voltei a ignorar a chamada e fui ter com a Mariana.


Mariana
No fundo mas bem lá no fundo sei que o Ruben tem razão no que falou mas também sei que “à flor da pele” não é isso que sinto, a verdade é que toda a minha vida foi uma mentira, a família que sempre conheci como sendo minha afinal não é. Sinto-me perdida, abandonada mas acima de tudo uma estranha a mim mesma, afinal quem sou eu? Alguém que nasceu por um erro? Ou simplesmente alguém que nem deveria ter nascido? Tenho a cabeça em “água”, não consigo raciocinar e muito menos chegar a conclusões...
***
Dois dias passaram e depois de muito pensar tomei uma decisão, mas antes de a anunciar tinha que perceber se teria o apoio do Ruben, por isso aproveitei o jantar para lhe comunicar e perguntar a sua opinião.
- Amor - olhou-me - andei a pensar e se concordares comigo - hesitei afinal se concordar vou desistir de algo que me dá prazer.
- Diz...
- Ruben... pensei e talvez o melhor seja enviar a minha carta de despedimento ao Jorge Mendes - o Ruben que bebia água engasgou-se - estás bem? - perguntei preocupada
- Eu estou... já tu... mas o que é que te deu para te demitires?
- Talvez ter descoberto que não sou ninguém... que vivi anos e anos uma vida que não é a minha, que estou farta de mentiras, que só quero desaparecer - não aguentei e chorei... chorei talvez tudo o que não chorei em anos de vida, naqueles anos em que tudo fazia sentido, em que julgava ter uma família, em que sabia se precisasse que eles estariam lá.

Ruben
A novidade que a Mariana me deu apanhou-me de surpresa e acabei por ter uma saída infeliz ao perguntar o que lhe estava a dar para se querer demitir, mas ainda bem que a tive, afinal serviu para a Mariana deitar cá para fora tudo o que andou a acumular durante os últimos dias, deixei-a chorar que nem criança ao meu colo, senti que era disso que precisava e quando acalmou voltei a falar.
- Amor se achas que o melhor para ti neste momento é deixares de trabalhar com o teu tio - olhou-me para logo depois sair do meu colo
- Não tenho tio... aliás nem sei se aquele a quem devia chamar de pai tem irmãos... afinal não o conheço! E quanto a trabalhar para um tal de Jorge Mendes não me parece que seja boa ideia...
- E porque não? Gostas do que fazes...
- Pois mas ambos sabemos que não andei anos a queimar pestanas para trabalhar nesta área...
- O problema não é esse e ambos sabemos! Mariana não é por te despedires que vais conseguir esquecer que não és uma Mendes de sangue... mas faz o que quiseres...
- Vou despedir-me mas fica descansado que não pretendo ficar a viver às tuas custas - atirei já chateada e quando tentei sair da mesa o Ruben impediu-me ao colocar-se diante de mim - sai!
- Que estejas na lama com tudo o que descobriste compreendo mas agora que te vires contra mim já é abuso, não tenho culpa nenhuma por te terem mentido a vida toda, por o homem a quem chamaste de pai não ser o teu biológico, por quereres a todo o custo afastares-te da família Mendes que por sinal é a única que conheces e que te acolheu sempre de braços abertos - já chorava novamente - caramba amo-te e só quero o melhor para ti... sinceramente duvido muito que te despedires seja o melhor e não... não estou a falar do dinheiro que felizmente problemas desses nós não temos, não tenho qualquer problema em te sustentar enquanto não encontrares um trabalho mas será que é mesmo isso que queres? Mariana não tens feitio para viver às custas de ninguém e nos dias que corre não é fácil arranjar trabalho muito menos quando estás grávida... tem calma... não tomes decisão nenhuma de cabeça quente...
A Mariana não falou, simplesmente procurou o conforto dos meus braços, acabei por sentar-me e puxá-la novamente para o meu colo, onde passou os minutos seguintes para depois despertá-la para a realidade com alguns mimos, afinal tinha que jantar e foi por entre mimos que consegui convencê-la a comer alguma coisa.
O meu amor acabou por se ir deitar, ultimamente come e dorme ou melhor tenta dormir, o que tem-me deixado preocupado e por isso resolvi ligar à Ana, disse-lhe que a Mari anda a atravessar uma fase complicada, que tem estado nervosa mas nunca revelei o verdadeiro motivo. A nossa amiga acabou por dizer que no fim-de-semana vinha-nos visitar, talvez assim animasse a Mariana e ainda pediu que vigiasse a Mariana mas sem que ela se apercebesse e que ao mínimo sinal de que algo possa não estar tão bem que lhe ligasse, a conversa serviu para também eu serenar um pouco ainda assim mantive-me em alerta nos dias seguintes.

Mariana
Desde que descobri que não sou ninguém que os dias têm custado a passar, ainda assim tenho no Ruben o meu grande apoio, o meu amor tem estado sempre do meu lado mesmo que nem sempre concorde com as minhas decisões. Sei que o João tem ligado para o Ruben numa tentativa de saber o que se passa mas o meu amor desvia sempre o assunto, sei disto não porque o Ruben conta mas sim porque por vezes oiço as conversas sem querer. A Maria é que finalmente deixou de tentar ligar-me, nos primeiros dias insistia diversas vezes mas agora finalmente percebeu que não vou atender e por isso parou. O Jorge, no dia que tomou conhecimento da minha carta de demissão ainda teve o desplante de aparecer por Braga, julgava ele que vinha com a conversa que quem cria é que é pai e que esquecia que afinal sou uma mentira na vida deles, corri com o senhor cá de casa e dessa vez não contei ao Ruben, ele desconhece este fato e nem quero que sonhe quanto mais que descobra, estou farta de tentar fazer com que entenda o meu lado.
***
Com o passar dos dias a sensação de impotência perante o que descobri foi diminuindo, agora já sorrio pelo menos sempre que o Ruben se coloca a ter infindáveis conversas com os nossos minimeus, anda cada dia mais babado e orgulhoso da minha barriga de 15ª semana. Quem se farta de gozar com a cara dele são os colegas ainda assim o meu amor não muda em nada e faz com cada figurinha quando resolve começar a mimar-me que só contribui para que as gargalhadas apareçam.
Hoje acordei com um mau humor daqueles, talvez por ter acordado sozinha e com a sensação que a nossa ida a Lisboa não irá correr como o planeado, apesar de ter pedido encarecidamente à Ana para não abrir a boca...

Como irá correr a consulta?
Será que vão descobrir o sexo do outro minimeu?
Irá a Mariana encontrar algum dos elementos do clã Mendes?

7 comentários:

  1. Estou desejosa de saber o que se vai passar nessa consulta!
    Venha o próximo!
    Beijinhos!

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  2. Ain estou muitíssimo curiosa pelo próximo para saber TUDO!!
    Estou ansiosa para saber se a Maria e a Mariana se encontram (e como correrá essa conversa) estou curiosa para saber o que aconteceu quando o Joao atendeu a chamada que recebeu no capitulo passado e tambem para saber se serão 2 rapazes Amorim *-*

    Continuem!!

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  3. Fantástico...

    Quero mais... Tou super curiosa para ver o próximo...

    Continua...

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  4. Quero ver como vai correr a consulta.
    Se não se descobrir o sexo do outro minimeu é porque está determinado a manter o suspense.
    E sim, acho que a Mariana vai encontrar a Maria :p

    Beijinhos

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  5. Quero ver como vai correr a consulta.
    Se não se descobrir o sexo do outro minimeu é porque está determinado a manter o suspense.
    E sim, acho que a Mariana vai encontrar a Maria :p

    Beijinhos

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  6. A cada capítulo que leio, este Ruben vai subindo na minha consideração, ele é definitivamente a âncora da Mariana, sem ele ela já tinha ido ao fundo há muito tempo. Ele é o seu lado racional, tenta que ela veja que as coisas não teem que ser assim como ela diz, e foi o que ele fez na visita surpresa dos pais da Mariana. Mais do que óbvio, visto ela não atender o telefone, qual é o pai ou a mãe que não sabendo nada do filho, não conseguindo falar com ou saber notícias não ia nem que fosse ao fim do mundo só para ver com os próprios olhos que o filho tá bem? Foi o que os pais da Mariana fizeram, e o Ruben mais uma vez mostrou que no meio de todos é o que de momento tem melhor cabeça, consegue pensar e agir de acordo com as situações, se ele fizesse o que a Mariana lhe pediu seria o mesmo que fugir, ou enfiar a cabeça numa toca e deixar-se ficar até que o "problema" passasse. Gosto deste Ruben, adulto, maduro, capaz de lidar com tudo, principalmente com o mau feitio da Mariana, que continua a não querer aceitar que a esta é a familia dela, para o bem e para o mal, não foi ela que a escolheu, mas escolheram-na a ela para fazer parte dela, independentemente de ser do mesmo sangue ou não, e enquanto a Mariana não aceitar isto, a vida dela vai continuar a ser um inferno.
    A ida a Lisboa, pois, eu espero bem, que desta vez o Ruben não se dê mal, ele e o menino João, porque acho que se vai dar um confronto daqueles entre Maria e Mariana, para o bem das duas e das suas crias, espero que corra tudo bem, que falem muito que chorem muito mas que nunca se esqueçam do amor que as une.
    Ah! quase que me esquecia, ADOREI.
    Continuem, e quero o próximo

    Beijocas

    Fernanda

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  7. Olá:D
    ADOREI!
    Agora que já temos confirmado que um dos minis é um rapazola agora quero mesmo muito saber o sexo do outro!
    Todos os cenários possíveis me agradam,mas tenho de confessar que um casalinho era perfeito *.*
    Fico à espero do próximo!
    Beijinhos
    Rita

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