(Mariana)
Os dias passaram e como ao sábado não trabalho estava estatelada no sofá sem fazer nenhum quando ouvi a campainha, levantei-me e fui até à porta.
- Mãe… Pai… - exclamei surpreendida.
- Filha, isso é tudo vontade de nos veres?
- Ó pai não diga isso - encolhi os ombros - só não vos esperava.
- Mas viemos incomodar?
- Ó mãe desde quando é que incomodam - sorri - mas entrem.
- A tua prima não está?
- Não saiu para resolver qualquer coisa porque como vai para o Norte… Então e vocês querem beber ou comer alguma coisa? - perguntei ao entrarmos na sala.
- Não, nós viemos cá convidar-te para lancharmos os três mas fora daqui.
- Tem mesmo que ser? - perguntei com voz de molengona.
- Filha, desde que voltaste que ainda não tivemos quase tempo nenhum juntos…
- Ok, vou vestir-me.
Acabei por fazer a vontade aos meus pais e nos minutos seguintes estive trancada no quarto a despachar-me.
Os meus pais quiseram ir a um café novo que segundo eles estava a ser muito falado, concordei com uma única exigência… ir com eles, não estava a apetecer-me conduzir.
- Filha - desviei os olhos da carta dos gelados e olhei-a - estás a pensar visitar Faro?
- Hã?
- Então é natural que tenhas lá deixado amigos - sorri com a insinuação da minha mãe.
- Ó mãe poupe-me que sabe bem que não sofro desse mal nem quero sofrer.
- Mariana mas já não és nenhuma adolescente por isso deves ter alguém.
- Pai mas afinal o que quer? Já vos disse que não tenho ninguém e estou muito bem assim - resmunguei.
- Pronto filha não precisas encrespares-te tanto ou será caso para dizer onde há fumo há fogo.
- Mau… estão a ficar sozinhos na tarda muito… parem com esta conversa a vida é minha se não quero ter ninguém não tenho e acabou a conversa - rematei já chateada.
- Sempre pensei que o mau feitio era só comigo… - saltei na cadeira assim que ouvi a voz do Ruben atrás de mim.
- Deves pensar que tens a exclusividade de… - ripostei mas ao olhar para trás arrependi-me afinal com o Ruben estava a sua mãe - boa tarde D. Anabela - falei agora num tom afável - está tudo bem consigo? - cumprimentei a mãe dele com dois beijinhos enquanto o Ruben cumprimentou e trocou algumas palavras com os meus pais.
- Sim - sorriu - então e contigo? Nunca mais soube nada a teu respeito - desviei o olhar para o Ruben - desde o dia que te foste despedir do Ruben porque ias para Faro estudar que deixei de saber novidades tuas aliás tuas e da tua prima.
- Pois… acabamos por nos afastar - desviei o olhar do Ruben - mas deixe-me apresentá-la aos meus pais - sorri e apresentei-os para logo a seguir ouvir a minha mãe a convidá-los para se juntarem a nós, naquele momento se pudesse tinha ido embora.
- Então e tu meu rapaz continuas o mesmo introvertido - gargalhei.
- Ó pai aqui o Ruben mudou tanto que o melhor é ficar mesmo calado…
- Para quem estava com mau feitio… agora estás cheia de piada - picou-me aproveitando para colocar o seu braço por cima dos meus ombros.
- Sabes como é… tens esse poder em mim desde da nossa adolescência… - olhamo-nos - afinal sempre foste o bobo da corte - sorri vitoriosa e retirei o seu braço dos meus ombros.
- Filha - ouvi o meu pai.
- Ai ó pai já não tenho idade para repreender-me e além disso não falei nada que não fosse verdade.
- É realmente a sua filha tem razão… - olhei para o Ruben - naquela altura fui mesmo o bobo da corte… vezes demais até… mas abri os olhos e hoje só goza comigo quem eu deixo e não quem quer…
- Ui… está mesmo convencido que há alguém a querer gozar com ele - murmurei mas ainda assim o Ruben ouviu.
- Não estou convencido… tenho a certeza… e uma delas és tu - respondeu-me no mesmo tom e aproveitando o facto de os nossos pais estarem a falar.
- Só em sonhos… - ripostei.
- Sim - sorriu - em sonhos… por isso é que da última vez estavas bem acordada… Mariana admite que ganhei!
- Ui… desde quando é que virou jogo??
- Desde que voltaste… que deste-me aquele estalo… e desde que andas a inventar desculpas atrás de desculpas para fugires de mim - o Ruben voltou a aproximar-se colocando novamente o braço sobre os meus ombros - será assim tão complicado admitires?
- Admitir o quê?
- Ai não sabes? Então logo aparece pela minha casa que refrescamos essa memória… - o Ruben deixou cair o seu braço pelas minhas costas e sem que estivesse à espera apalpou-me sorrindo como se nada fosse.
- Se fosse a ti esperava sentado… não perco mais o meu tempo com meninos da mamã!
- O que é que falaste?
- Que não perco tempo com meninos da mamã… e tu nitidamente continuas a ser um…
- Vais arrepender-te amargamente do que me chamaste! - ameaçou junto do meu ouvido.
- Ruben! - o meu pai chamou-o - espero que ainda te lembres do aviso que fiz há uns anos… - sorri com o “aviso / ameaça” do meu pai, isto porque para o meu cota os jogadores de futebol só se querem divertir mal sabe ele que a filha também só se quer divertir.
- Não se preocupe… nunca toquei com um dedo que fosse na sua filha - atirou com o maior desplante.
- Deixa de ser mentiroso - ripostei levando o Ruben a olhar bem como os nossos pais - sabes bem que tocaste e não foi pouco… - gargalhei ao ver a cara do Ruben - Pai até lhe digo mais… o aviso daquela noite não sortiu efeito nenhum - o Ruben olhava-me “chocado”
- Mariana! - o meu pai encrespou-se
- Ai tenha lá calma… olhe o seu coração… bem sei que não tem problemas mas nunca se sabe - gargalhei - paizinho… mas já que toquei no assunto fiquem os três a saber que o Ruben tocou tanta vez que perdi a conta… afinal ao longo de quase dois anos… os beijinhos, os abracinhos, as festinhas foram mais que muitos - o Ruben estava sem reação - mas também não entendo o motivo de tanto espanto… éramos amigos… passávamos tanto tempo juntos… no mínimo tínhamos que nos tocar mais que não fosse no momento de nos cumprimentar… sim porque vocês ensinaram-me que devo sempre ser educada e cumprimentar as pessoas - gargalhei - mesmo sério o pai pensou que pudesse ter tido alguma coisa com o Ruben…
- Nunca se sabe o que os jovens fazem.
- Pai, você sabe que tem uma filha que sabe muito bem o que faz e o que quer - olhei o Ruben pelo canto do olho - logo não precisa estar a dar numa de pai galinha… até porque se quiser fazer faço e você nem chega a saber!
O meu pai teria respondido mas aproximou-se da nossa mesa um menino a pedir um autografo ao Ruben e acabamos por ficar a ver a interação deles.
Continuamos à conversa mas agora coisas banais até que o momento das despedidas chegou, estávamos já junto dos carros quando ao ver os meus pais a despedirem-se da D. Anabela provoquei o Ruben.
- Ainda falas que não és menino da mamã… não sei como é que não te deu o treco quando falei que não ligaste nenhuma ao aviso do meu pai - sorri vitoriosa - como vês continuas a cheirar a leitinho!
- Mariana não estiques a corda… que ela rebenta!
- Ui… isso é o melhor que consegues…
- Que se lixe - respirou fundo e entrou no carro
- Oh assim não mete pica… contínuas a não dar luta! - sabia que estava a abusar mas também sabia que o Ruben não iria fazer nada diante dos nossos pais.
- Mas afinal o que queres? - voltou a sair do carro - Dares comigo em louco, é? Lamento mas não consegues… fiquei vacinado há uns anos atrás!
- Será que ficaste? - olhou-me - Se fosse verdade as bocas passavam-te ao lado…
- O problema não é as bocas… o problema é que um gajo não é de ferro - proferiu ao olhar-me de cima a baixo - e tu sabes muito bem disso… pior ainda jogas com isso a teu favor - respirou fundo - e sim… deixas-me fora de mim mas não é pelas razões que pensas.
- Então que razões são essas? - aproximei-me ainda mais dele, o Ruben encontrava-se encostado ao seu carro e do lado oposto estava os nossos pais à conversa e completamente alheios ao que se passava connosco - Será que alguma vez vamos conseguir ter um conversa franca sobre essas razões? - o Ruben aproveitou a nossa proximidade para agarrar na minha mão.
- Vem até lá a casa - olhava-me de uma forma que desconcentrou-me - podíamos falar… ou acabar o que deixamos pendente no passado - sorriu.
- Ruben… entende que não vou para a cama contigo!
- Vais com todos e não vais comigo porquê?
- Porquê já o fizemos no passado e não resultou.
- Esquece o passado… nós já não somos adolescentes…
- O problema não é esse - suspirei - nós somos amigos e não amantes!
- Também és amiga do Fábio e no entanto sei que se comeram tanto no passado como no outro dia - atirou de rajada largando-me a mão.
- É verdade no passado tivemos mesmo alguma coisa mas no dia do aniversário do João não aconteceu nada além de uns beijos - o Ruben olhou-me com alguma admiração - e quanto a também ser meu amigo… sim é verdade mas o Fábio não é especial para mim como tu o és - voltei a agarrar-lhe a mão - entende que foste, és e serás sempre alguém especial para mim - olhávamo-nos com uma intensidade tremenda - e por isso não consigo cometer o mesmo erro do passado, nós não devíamos ter chegado tão longe - baixei o olhar.
- Porquê que te arrependes tanto? - perguntou-me agora colado a mim e com a sua mão no meu rosto obrigando-me a olhá-lo nos olhos - foi assim tão péssimo? - sorri.
- Não… Ruben não foste péssimo… foste o único que fez-me sentir diferente e só consegui descobrir isso tarde demais.
- Podemos sempre tentar novamente…
- Desculpa mas não… Ruben não é por ti… o problema não é teu mas sim meu… não consigo magoar-te gratuitamente.
O Ruben teria respondido mas fomos interrompidos pelo meu pai que queria ir embora, respirei fundo e despedi-me da D. Anabela e quando aproximei-me do Ruben para repetir o gesto fui surpreendida por ele.
- Sr. Mário não se preocupe que deixo a sua filha em casa - olhou-me - vamos?
- Ó Ruben as nossas casas ficam para lados opostos.
- Então e depois? Tenho o resto da tarde livre - sorriu - só tenho de deixar a minha mãe em casa e estou por tua conta - olhei-o - anda lá…
- Ok - aceitei - pai vou mesmo aceitar a boleia do Ruben - despedi-me dos meus pais e quando voltei-me para entrar no carro percebi que a mãe do Ruben deixou o lugar do pendura para mim, respirei fundo e entrei.
A curta viagem até à casa da mãe do Ruben foi feita quase no silêncio ou melhor eles estavam os dois a combinar qualquer coisa mas como era assunto de família não meti o bedelho.
- Agora nós - o Ruben olhou-me assim que a mãe dele entrou em casa - onde é que queres ir?
- Para casa, não foi isso que disseste ao meu pai… que deixavas-me em casa - sorriu.
- E não menti… vou mesmo deixar-te em casa mas isso só depois de jantarmos…
- Não inventes.
- Mariana prometo que não tento sequer beijar-te quanto mais saltar para cima de ti mas aceita passar o resto da tarde comigo.
- Amanhã não tens jogo? - sorriu.
- Não, jogamos ontem - abanou a cabeça - realmente tu e a tua prima são o oposto - gargalhou.
- Pára de rir e vamos embora.
- Preciso saber se aceitas o convite que te fiz.
- Aceito com uma condição.
- Diz.
- Vamos para a tua casa - olhou-me admirado - não estou para levar depois com o interrogatório da Maria.
- Tudo bem - sorriu para logo depois começar a conduzir - mas posso saber o motivo de teres que levar com o interrogatório da tua prima? Até parece que não sou amigo das duas.
- A Maria não é parva… sabe bem que entre nós há uma tensão qualquer originada por algo que ficou mal resolvido no passado e está constantemente a mandar piadas sobre isso.
- Nunca lhe contaste?
- Não - olhei-o - porquê tu contaste ao João?
- Não.
- Então não sei porquê o espanto de não ter contado nada à Maria… à espera já sei… nunca duvidaste que irias ser objeto de gozo…
O Ruben não respondeu e por isso o resto da viagem foi feito em silêncio absoluto.
- Entra e fica à vontade… podes retirar os sapatos como tanto gostas - sorri-lhe.
- Ainda te lembras…
- Ya, como recordo que quando estás por casa preferes uma roupa mais confortável - o seu olhar percorreu todo o meu corpo - por isso podes ir até ao meu quarto, retira o que quiseres do armário para vestires…
- Deixa… não quero incomodar.
- Mariana não é incomodo nenhum mas faz como quiseres, vou até à cozinha buscar uns sumos para bebermos.
- Ok.
Sentei-me no sofá mas acabei por aceitar a oferta do Ruben e fui mesmo até ao seu quarto, abri a porta do armário e quando estava a retirar uma camisola e umas calças reparei numa caixa no fundo do armário em que por cima tinha roupa, a curiosidade foi enorme e acabei por abri-la, ao espreitar o conteúdo gelei por completo, aquilo estava cheio de recordações da nossa adolescência, desde fotos até a pequenas lembranças que lhe dei, voltei a fechar a caixa e regressei à sala.
- Realmente não mudas mesmo - olhei-o - até para escolheres uma camisola e umas calças minhas levaste uma eternidade!
- Vai gozar com outra - gargalhou.
- Até ia mas não está cá mais ninguém!
- Vai passear macacos e deixa-me em paz - olhamo-nos por alguns segundos.
- Posso fazer-te uma pergunta? - foi ele que quebrou o silêncio.
- Chuta!
- Achas que a tua prima e o João atinam?
- A minha prima sempre foi atinada... a sem juízo da família sempre fui eu!
- Oh sabes perfeitamente do que falo...
- Ruben... nós sabemos ou melhor sempre desconfiamos com quase 100% de certeza que aquilo não era só amizade mas daí a eles assumirem alguma coisa já tenho as minhas dúvidas... cá para mim vão andar naquele chove não molha e tu o que achas? - desviei o olhar da televisão e encontrei-o a olhar-me atento.
- Não concordo contigo... para mim eles vão assumir sim... pode levar algum tempo mas acabam por admitir o que todos sabemos.
- O que te leva a dizer isso?
- O facto de serem o oposto de nós... e não terem destruído as memórias de quase dois anos de convívio.
- Ruben não destruí nada - suspirei - tudo o que vivemos sempre esteve bem presente, nunca consegui desligar-me por muito que tenha dito o contrário mas aprendi a seguir em frente, são recordações que quero sempre manter mas que não vão passar disso.
- Ficaste assim tão aborrecida comigo por ter tido aquela reação?
- Fiquei lixada comigo mesma... Ruben durante meses andei a condenar-me por ter permitido que acontecesse o que aconteceu, pela primeira vez senti-me lixo, usada e só uns anos depois é que entendi o porquê - calei-me e desviei o olhar do dele.
- Continua...
- Hã?
- Estavas a falar e paraste.
- Já falei tudo.
- Mariana - senti as mãos do Ruben a agarrar as minhas - fui mesmo especial para ti?
- Já disse que sim.
- Porquê?
- Porque foste o primeiro com quem senti algo mais sem ser sexo... porque no fundo amei-te durante aquele tempo que estivemos juntos... porque pensei ser possível construirmos algo juntos para no fim perceber que usaste-me.
- Isso não é verdade!
- É... caso contrário não tinhas fugido.
- Querias o quê? Sabes perfeitamente que nunca tinha estado com ninguém que foste tu que de uma forma ou de outra escolhi e que se fugi foi porquê mais uma vez faltou-me a coragem para admitir que queria mais, tive medo que não tivesses gostado, que fosse gozado por ti ou que não tivesse dado prazer nenhum.
- Gozado? Mesmo sério achas que ia gozar contigo?
- Não seria a primeira vez!
- Ah ok... não digas mais nada... usaste isto tipo vingança, foi?
- Não, não foi... eu quis aquilo tal como quero hoje - olhei-o - mas se hoje sei como dar e receber naquela altura não sabia... sabes que não foi assim tão confortável quanto isso saber que estava com alguém entendido no assunto quando eu nem a porcaria do preservativo consegui colocar.
- Responde-me só a uma cena... quanto tempo é que levou esta tua transformação? - sorriu.
- Depois de ires para Faro andei uns meses quieto no meu canto mas com o tempo e picado com as fotos e comentários que ia vendo no hi5 acabei por soltar-me... a pouco e pouco fui ganhando o jeito... depois a cena de ser jogador de futebol também ajudou à festa principalmente quando deixei o Belenenses e regressei ao Benfica.
- Como é que foi o teu regresso? Afinal sempre foi o que quiseste... vingar na equipa principal.
- Foi bom... a realização de mais um objetivo e motivo de orgulho - sorriu - agora é a tua vez.
- O que queres saber?
- Onde é que estás a trabalhar e se é mesmo isto que querias.
Passamos os minutos seguintes a falarmos de nós e dos nossos objetivos futuros para regressarmos ao passado e contamos como foram os anos que estivemos afastados, mas agora sem ressentimentos, senti pela primeira vez depois do meu regresso que conversava com o meu amigo e não com alguém que quer levar-me à força toda para a cama.
As horas passaram em amena cavaqueira e só reparei que já ali estávamos há imenso tempo quando o Ruben avisou que iria mandar vir o jantar.
- Se deixares que invada a tua cozinha posso fazer algo para os dois - sorriu.
- Nunca precisaste do meu consentimento para nada por isso não vai ser agora que vais começar a pedir autorização para fazeres o que te apetece… mas vou contigo - olhei-o - que foi? Posso não ser grande espada na cozinha mas ainda consigo ajudar.
- Ok, mas já sabes que não sou a minha prima e que os meus dotes culinários ficam um bocado longe dos dela - gargalhamos para logo depois nos levantarmos e assim que o fizemos foi impossível não nos olharmos mutuamente, afinal ficamos a escassos centímetros um do outro.
- Vamos? - o Ruben sorriu o que foi suficiente para perder um pouco a noção da realidade e pior fiquei quando agarrou-me na mão e entrelaçou os seus dedos nos meus puxando-me então para a cozinha, fui praticamente em piloto automático, o toque do Ruben tem um efeito estranho em mim e deixa-me fragilizada.
Resolvi fazer algo prático e rápido, até porque a concentração não era nenhuma sempre com o Ruben de volta de mim, aproveitamos para continuar à conversa e o assunto Maria e João voltou.
- Nunca pensei que o João se afiambrar-se à Maria durante o jogo - gargalhei ao recordar o momento - é que pronto... nós sabíamos mas o resto do pessoal nem por isso ou pelo menos não tinha a certeza.
- Oh... aqueles dois já não conseguem disfarçar... apesar de não admitirem também não disfarçam...
- E nós? - atirou de rajada aproximando-se perigosamente de mim.
- Nós... - senti a sua mão na minha cara - Ruben... - afastou-se.
- Desculpa mas fica difícil estar do teu lado e disfarçar que não te desejo, que desde que nos reencontramos que não me sais da cabeça, que até sonhar contigo já sonhei - o Ruben admitia-o a encarar-me - como é que consegues controlar-te? - sorri com a pergunta.
- Não controlo... quando quero muito faço... - fui impedida de concluir o meu pensamento, o Ruben reduziu completamente a distância e beijou-me com uma vivacidade tremenda mas acabei por conseguir afastá-lo - isto não está certo!
- Porquê? Mariana conheço-te e por isso sei que queres tanto quanto eu…
- Ruben por muito que queira não consigo talvez porque a recordação do passado ainda está presente, sabes que doeu bastante o nosso afastamento, antes que tudo eras meu amigo, eras o único que a seguir à minha prima sabia tudo o que se passava comigo, era convosco que desabafava, foste tu que de uma forma ou de outra mudaste alguma coisa em mim ou será que nunca reparaste que uns meses depois de te conhecer acalmei ligeiramente - olhávamo-nos intensamente - e depois por um erro cometido numa noite em que ambos já tínhamos bebido mais do que seria suposto perdi tudo isso - o Ruben interrompeu-me.
- Para ti foi um erro? - já estávamos novamente próximos.
- Foi porque nos afastamos.
- Mariana se pudesse regressar ao passado a única coisa que alterava seria só a minha reação, se fosse hoje não fugiria mas naquela altura estava confuso, não sabia o que sentia por ti, entende que foi complicado aceitar que aquela rapariga que até então era só a minha melhor amiga e a única que consegui deixar que se aproximasse de mim passou de amiga a algo mais, isto porque ao longo dos meses criamos uma relação única que sempre pensei que fosse amizade mas que depois do que se passou connosco percebi que era algo muito mais forte… tão forte que até hoje não consegui senti-lo de novo por mais nenhuma rapariga, nós tínhamos uma ligação especial, bastava olhar-te nos olhos para adivinhar o que te ia no pensamento e isto faz-me falta, eras o meu ponto de equilibro e de um momento para o outro fiquei sem ele, acabei por tornar-me na pessoa que sou hoje talvez porque foi a forma que encontrei para estar mais próximo de ti - olhei-o perplexa - pelo menos hoje sei aquilo que sentes e entendo-te perfeitamente, também não consigo apegar-me a ninguém, talvez porque fui, sou e serei eternamente teu - o Ruben agarrou-me pela cintura - posso ir para a cama com todas as mulheres do mundo mas és a única de quem gosto - arrepiei-me - mas ainda assim sei que dificilmente iremos conseguir construir alguma coisa em comum, és demasiado casmurra para admitires o que sentes, não te julgo porque também andei anos a negar o que sentia por ti e durante esse tempo andei a iludir alguém que não merecia, estive numa relação durante bastante tempo, ela amava-me e apesar de lhe dizer que era reciproco no fundo sabia que estava a mentir, ela nunca conseguiu que sentisse nem metade do que senti quando nos envolvemos, arrastei a situação porque apesar de tudo sentia-me bem do seu lado mas no dia que a vi a fazer planos para o futuro não consegui continuar com a farsa, acabei com ela, sei que sofreu e condeno-me por isso, podia ter feito as cenas de outra forma mas agora não há volta a dar, é por isto tudo que hoje sou um salta-pocinhas tal como também o és, não nos sentimos preparados para iniciar uma relação daí andarmos nesta vida.
E agora o que será que a Mariana responde? Será que estes dois alguma vez se acertam?
Os dias passaram e como ao sábado não trabalho estava estatelada no sofá sem fazer nenhum quando ouvi a campainha, levantei-me e fui até à porta.
- Mãe… Pai… - exclamei surpreendida.
- Filha, isso é tudo vontade de nos veres?
- Ó pai não diga isso - encolhi os ombros - só não vos esperava.
- Mas viemos incomodar?
- Ó mãe desde quando é que incomodam - sorri - mas entrem.
- A tua prima não está?
- Não saiu para resolver qualquer coisa porque como vai para o Norte… Então e vocês querem beber ou comer alguma coisa? - perguntei ao entrarmos na sala.
- Não, nós viemos cá convidar-te para lancharmos os três mas fora daqui.
- Tem mesmo que ser? - perguntei com voz de molengona.
- Filha, desde que voltaste que ainda não tivemos quase tempo nenhum juntos…
- Ok, vou vestir-me.
Acabei por fazer a vontade aos meus pais e nos minutos seguintes estive trancada no quarto a despachar-me.
Os meus pais quiseram ir a um café novo que segundo eles estava a ser muito falado, concordei com uma única exigência… ir com eles, não estava a apetecer-me conduzir.
- Filha - desviei os olhos da carta dos gelados e olhei-a - estás a pensar visitar Faro?
- Hã?
- Então é natural que tenhas lá deixado amigos - sorri com a insinuação da minha mãe.
- Ó mãe poupe-me que sabe bem que não sofro desse mal nem quero sofrer.
- Mariana mas já não és nenhuma adolescente por isso deves ter alguém.
- Pai mas afinal o que quer? Já vos disse que não tenho ninguém e estou muito bem assim - resmunguei.
- Pronto filha não precisas encrespares-te tanto ou será caso para dizer onde há fumo há fogo.
- Mau… estão a ficar sozinhos na tarda muito… parem com esta conversa a vida é minha se não quero ter ninguém não tenho e acabou a conversa - rematei já chateada.
- Sempre pensei que o mau feitio era só comigo… - saltei na cadeira assim que ouvi a voz do Ruben atrás de mim.
- Deves pensar que tens a exclusividade de… - ripostei mas ao olhar para trás arrependi-me afinal com o Ruben estava a sua mãe - boa tarde D. Anabela - falei agora num tom afável - está tudo bem consigo? - cumprimentei a mãe dele com dois beijinhos enquanto o Ruben cumprimentou e trocou algumas palavras com os meus pais.
- Sim - sorriu - então e contigo? Nunca mais soube nada a teu respeito - desviei o olhar para o Ruben - desde o dia que te foste despedir do Ruben porque ias para Faro estudar que deixei de saber novidades tuas aliás tuas e da tua prima.
- Pois… acabamos por nos afastar - desviei o olhar do Ruben - mas deixe-me apresentá-la aos meus pais - sorri e apresentei-os para logo a seguir ouvir a minha mãe a convidá-los para se juntarem a nós, naquele momento se pudesse tinha ido embora.
- Então e tu meu rapaz continuas o mesmo introvertido - gargalhei.
- Ó pai aqui o Ruben mudou tanto que o melhor é ficar mesmo calado…
- Para quem estava com mau feitio… agora estás cheia de piada - picou-me aproveitando para colocar o seu braço por cima dos meus ombros.
- Sabes como é… tens esse poder em mim desde da nossa adolescência… - olhamo-nos - afinal sempre foste o bobo da corte - sorri vitoriosa e retirei o seu braço dos meus ombros.
- Filha - ouvi o meu pai.
- Ai ó pai já não tenho idade para repreender-me e além disso não falei nada que não fosse verdade.
- É realmente a sua filha tem razão… - olhei para o Ruben - naquela altura fui mesmo o bobo da corte… vezes demais até… mas abri os olhos e hoje só goza comigo quem eu deixo e não quem quer…
- Ui… está mesmo convencido que há alguém a querer gozar com ele - murmurei mas ainda assim o Ruben ouviu.
- Não estou convencido… tenho a certeza… e uma delas és tu - respondeu-me no mesmo tom e aproveitando o facto de os nossos pais estarem a falar.
- Só em sonhos… - ripostei.
- Sim - sorriu - em sonhos… por isso é que da última vez estavas bem acordada… Mariana admite que ganhei!
- Ui… desde quando é que virou jogo??
- Desde que voltaste… que deste-me aquele estalo… e desde que andas a inventar desculpas atrás de desculpas para fugires de mim - o Ruben voltou a aproximar-se colocando novamente o braço sobre os meus ombros - será assim tão complicado admitires?
- Admitir o quê?
- Ai não sabes? Então logo aparece pela minha casa que refrescamos essa memória… - o Ruben deixou cair o seu braço pelas minhas costas e sem que estivesse à espera apalpou-me sorrindo como se nada fosse.
- Se fosse a ti esperava sentado… não perco mais o meu tempo com meninos da mamã!
- O que é que falaste?
- Que não perco tempo com meninos da mamã… e tu nitidamente continuas a ser um…
- Vais arrepender-te amargamente do que me chamaste! - ameaçou junto do meu ouvido.
- Ruben! - o meu pai chamou-o - espero que ainda te lembres do aviso que fiz há uns anos… - sorri com o “aviso / ameaça” do meu pai, isto porque para o meu cota os jogadores de futebol só se querem divertir mal sabe ele que a filha também só se quer divertir.
- Não se preocupe… nunca toquei com um dedo que fosse na sua filha - atirou com o maior desplante.
- Deixa de ser mentiroso - ripostei levando o Ruben a olhar bem como os nossos pais - sabes bem que tocaste e não foi pouco… - gargalhei ao ver a cara do Ruben - Pai até lhe digo mais… o aviso daquela noite não sortiu efeito nenhum - o Ruben olhava-me “chocado”
- Mariana! - o meu pai encrespou-se
- Ai tenha lá calma… olhe o seu coração… bem sei que não tem problemas mas nunca se sabe - gargalhei - paizinho… mas já que toquei no assunto fiquem os três a saber que o Ruben tocou tanta vez que perdi a conta… afinal ao longo de quase dois anos… os beijinhos, os abracinhos, as festinhas foram mais que muitos - o Ruben estava sem reação - mas também não entendo o motivo de tanto espanto… éramos amigos… passávamos tanto tempo juntos… no mínimo tínhamos que nos tocar mais que não fosse no momento de nos cumprimentar… sim porque vocês ensinaram-me que devo sempre ser educada e cumprimentar as pessoas - gargalhei - mesmo sério o pai pensou que pudesse ter tido alguma coisa com o Ruben…
- Nunca se sabe o que os jovens fazem.
- Pai, você sabe que tem uma filha que sabe muito bem o que faz e o que quer - olhei o Ruben pelo canto do olho - logo não precisa estar a dar numa de pai galinha… até porque se quiser fazer faço e você nem chega a saber!
O meu pai teria respondido mas aproximou-se da nossa mesa um menino a pedir um autografo ao Ruben e acabamos por ficar a ver a interação deles.
Continuamos à conversa mas agora coisas banais até que o momento das despedidas chegou, estávamos já junto dos carros quando ao ver os meus pais a despedirem-se da D. Anabela provoquei o Ruben.
- Ainda falas que não és menino da mamã… não sei como é que não te deu o treco quando falei que não ligaste nenhuma ao aviso do meu pai - sorri vitoriosa - como vês continuas a cheirar a leitinho!
- Mariana não estiques a corda… que ela rebenta!
- Ui… isso é o melhor que consegues…
- Que se lixe - respirou fundo e entrou no carro
- Oh assim não mete pica… contínuas a não dar luta! - sabia que estava a abusar mas também sabia que o Ruben não iria fazer nada diante dos nossos pais.
- Mas afinal o que queres? - voltou a sair do carro - Dares comigo em louco, é? Lamento mas não consegues… fiquei vacinado há uns anos atrás!
- Será que ficaste? - olhou-me - Se fosse verdade as bocas passavam-te ao lado…
- O problema não é as bocas… o problema é que um gajo não é de ferro - proferiu ao olhar-me de cima a baixo - e tu sabes muito bem disso… pior ainda jogas com isso a teu favor - respirou fundo - e sim… deixas-me fora de mim mas não é pelas razões que pensas.
- Então que razões são essas? - aproximei-me ainda mais dele, o Ruben encontrava-se encostado ao seu carro e do lado oposto estava os nossos pais à conversa e completamente alheios ao que se passava connosco - Será que alguma vez vamos conseguir ter um conversa franca sobre essas razões? - o Ruben aproveitou a nossa proximidade para agarrar na minha mão.
- Vem até lá a casa - olhava-me de uma forma que desconcentrou-me - podíamos falar… ou acabar o que deixamos pendente no passado - sorriu.
- Ruben… entende que não vou para a cama contigo!
- Vais com todos e não vais comigo porquê?
- Porquê já o fizemos no passado e não resultou.
- Esquece o passado… nós já não somos adolescentes…
- O problema não é esse - suspirei - nós somos amigos e não amantes!
- Também és amiga do Fábio e no entanto sei que se comeram tanto no passado como no outro dia - atirou de rajada largando-me a mão.
- É verdade no passado tivemos mesmo alguma coisa mas no dia do aniversário do João não aconteceu nada além de uns beijos - o Ruben olhou-me com alguma admiração - e quanto a também ser meu amigo… sim é verdade mas o Fábio não é especial para mim como tu o és - voltei a agarrar-lhe a mão - entende que foste, és e serás sempre alguém especial para mim - olhávamo-nos com uma intensidade tremenda - e por isso não consigo cometer o mesmo erro do passado, nós não devíamos ter chegado tão longe - baixei o olhar.
- Porquê que te arrependes tanto? - perguntou-me agora colado a mim e com a sua mão no meu rosto obrigando-me a olhá-lo nos olhos - foi assim tão péssimo? - sorri.
- Não… Ruben não foste péssimo… foste o único que fez-me sentir diferente e só consegui descobrir isso tarde demais.
- Podemos sempre tentar novamente…
- Desculpa mas não… Ruben não é por ti… o problema não é teu mas sim meu… não consigo magoar-te gratuitamente.
O Ruben teria respondido mas fomos interrompidos pelo meu pai que queria ir embora, respirei fundo e despedi-me da D. Anabela e quando aproximei-me do Ruben para repetir o gesto fui surpreendida por ele.
- Sr. Mário não se preocupe que deixo a sua filha em casa - olhou-me - vamos?
- Ó Ruben as nossas casas ficam para lados opostos.
- Então e depois? Tenho o resto da tarde livre - sorriu - só tenho de deixar a minha mãe em casa e estou por tua conta - olhei-o - anda lá…
- Ok - aceitei - pai vou mesmo aceitar a boleia do Ruben - despedi-me dos meus pais e quando voltei-me para entrar no carro percebi que a mãe do Ruben deixou o lugar do pendura para mim, respirei fundo e entrei.
A curta viagem até à casa da mãe do Ruben foi feita quase no silêncio ou melhor eles estavam os dois a combinar qualquer coisa mas como era assunto de família não meti o bedelho.
- Agora nós - o Ruben olhou-me assim que a mãe dele entrou em casa - onde é que queres ir?
- Para casa, não foi isso que disseste ao meu pai… que deixavas-me em casa - sorriu.
- E não menti… vou mesmo deixar-te em casa mas isso só depois de jantarmos…
- Não inventes.
- Mariana prometo que não tento sequer beijar-te quanto mais saltar para cima de ti mas aceita passar o resto da tarde comigo.
- Amanhã não tens jogo? - sorriu.
- Não, jogamos ontem - abanou a cabeça - realmente tu e a tua prima são o oposto - gargalhou.
- Pára de rir e vamos embora.
- Preciso saber se aceitas o convite que te fiz.
- Aceito com uma condição.
- Diz.
- Vamos para a tua casa - olhou-me admirado - não estou para levar depois com o interrogatório da Maria.
- Tudo bem - sorriu para logo depois começar a conduzir - mas posso saber o motivo de teres que levar com o interrogatório da tua prima? Até parece que não sou amigo das duas.
- A Maria não é parva… sabe bem que entre nós há uma tensão qualquer originada por algo que ficou mal resolvido no passado e está constantemente a mandar piadas sobre isso.
- Nunca lhe contaste?
- Não - olhei-o - porquê tu contaste ao João?
- Não.
- Então não sei porquê o espanto de não ter contado nada à Maria… à espera já sei… nunca duvidaste que irias ser objeto de gozo…
O Ruben não respondeu e por isso o resto da viagem foi feito em silêncio absoluto.
- Entra e fica à vontade… podes retirar os sapatos como tanto gostas - sorri-lhe.
- Ainda te lembras…
- Ya, como recordo que quando estás por casa preferes uma roupa mais confortável - o seu olhar percorreu todo o meu corpo - por isso podes ir até ao meu quarto, retira o que quiseres do armário para vestires…
- Deixa… não quero incomodar.
- Mariana não é incomodo nenhum mas faz como quiseres, vou até à cozinha buscar uns sumos para bebermos.
- Ok.
Sentei-me no sofá mas acabei por aceitar a oferta do Ruben e fui mesmo até ao seu quarto, abri a porta do armário e quando estava a retirar uma camisola e umas calças reparei numa caixa no fundo do armário em que por cima tinha roupa, a curiosidade foi enorme e acabei por abri-la, ao espreitar o conteúdo gelei por completo, aquilo estava cheio de recordações da nossa adolescência, desde fotos até a pequenas lembranças que lhe dei, voltei a fechar a caixa e regressei à sala.
- Realmente não mudas mesmo - olhei-o - até para escolheres uma camisola e umas calças minhas levaste uma eternidade!
- Vai gozar com outra - gargalhou.
- Até ia mas não está cá mais ninguém!
- Vai passear macacos e deixa-me em paz - olhamo-nos por alguns segundos.
- Posso fazer-te uma pergunta? - foi ele que quebrou o silêncio.
- Chuta!
- Achas que a tua prima e o João atinam?
- A minha prima sempre foi atinada... a sem juízo da família sempre fui eu!
- Oh sabes perfeitamente do que falo...
- Ruben... nós sabemos ou melhor sempre desconfiamos com quase 100% de certeza que aquilo não era só amizade mas daí a eles assumirem alguma coisa já tenho as minhas dúvidas... cá para mim vão andar naquele chove não molha e tu o que achas? - desviei o olhar da televisão e encontrei-o a olhar-me atento.
- Não concordo contigo... para mim eles vão assumir sim... pode levar algum tempo mas acabam por admitir o que todos sabemos.
- O que te leva a dizer isso?
- O facto de serem o oposto de nós... e não terem destruído as memórias de quase dois anos de convívio.
- Ruben não destruí nada - suspirei - tudo o que vivemos sempre esteve bem presente, nunca consegui desligar-me por muito que tenha dito o contrário mas aprendi a seguir em frente, são recordações que quero sempre manter mas que não vão passar disso.
- Ficaste assim tão aborrecida comigo por ter tido aquela reação?
- Fiquei lixada comigo mesma... Ruben durante meses andei a condenar-me por ter permitido que acontecesse o que aconteceu, pela primeira vez senti-me lixo, usada e só uns anos depois é que entendi o porquê - calei-me e desviei o olhar do dele.
- Continua...
- Hã?
- Estavas a falar e paraste.
- Já falei tudo.
- Mariana - senti as mãos do Ruben a agarrar as minhas - fui mesmo especial para ti?
- Já disse que sim.
- Porquê?
- Porque foste o primeiro com quem senti algo mais sem ser sexo... porque no fundo amei-te durante aquele tempo que estivemos juntos... porque pensei ser possível construirmos algo juntos para no fim perceber que usaste-me.
- Isso não é verdade!
- É... caso contrário não tinhas fugido.
- Querias o quê? Sabes perfeitamente que nunca tinha estado com ninguém que foste tu que de uma forma ou de outra escolhi e que se fugi foi porquê mais uma vez faltou-me a coragem para admitir que queria mais, tive medo que não tivesses gostado, que fosse gozado por ti ou que não tivesse dado prazer nenhum.
- Gozado? Mesmo sério achas que ia gozar contigo?
- Não seria a primeira vez!
- Ah ok... não digas mais nada... usaste isto tipo vingança, foi?
- Não, não foi... eu quis aquilo tal como quero hoje - olhei-o - mas se hoje sei como dar e receber naquela altura não sabia... sabes que não foi assim tão confortável quanto isso saber que estava com alguém entendido no assunto quando eu nem a porcaria do preservativo consegui colocar.
- Responde-me só a uma cena... quanto tempo é que levou esta tua transformação? - sorriu.
- Depois de ires para Faro andei uns meses quieto no meu canto mas com o tempo e picado com as fotos e comentários que ia vendo no hi5 acabei por soltar-me... a pouco e pouco fui ganhando o jeito... depois a cena de ser jogador de futebol também ajudou à festa principalmente quando deixei o Belenenses e regressei ao Benfica.
- Como é que foi o teu regresso? Afinal sempre foi o que quiseste... vingar na equipa principal.
- Foi bom... a realização de mais um objetivo e motivo de orgulho - sorriu - agora é a tua vez.
- O que queres saber?
- Onde é que estás a trabalhar e se é mesmo isto que querias.
Passamos os minutos seguintes a falarmos de nós e dos nossos objetivos futuros para regressarmos ao passado e contamos como foram os anos que estivemos afastados, mas agora sem ressentimentos, senti pela primeira vez depois do meu regresso que conversava com o meu amigo e não com alguém que quer levar-me à força toda para a cama.
As horas passaram em amena cavaqueira e só reparei que já ali estávamos há imenso tempo quando o Ruben avisou que iria mandar vir o jantar.
- Se deixares que invada a tua cozinha posso fazer algo para os dois - sorriu.
- Nunca precisaste do meu consentimento para nada por isso não vai ser agora que vais começar a pedir autorização para fazeres o que te apetece… mas vou contigo - olhei-o - que foi? Posso não ser grande espada na cozinha mas ainda consigo ajudar.
- Ok, mas já sabes que não sou a minha prima e que os meus dotes culinários ficam um bocado longe dos dela - gargalhamos para logo depois nos levantarmos e assim que o fizemos foi impossível não nos olharmos mutuamente, afinal ficamos a escassos centímetros um do outro.
- Vamos? - o Ruben sorriu o que foi suficiente para perder um pouco a noção da realidade e pior fiquei quando agarrou-me na mão e entrelaçou os seus dedos nos meus puxando-me então para a cozinha, fui praticamente em piloto automático, o toque do Ruben tem um efeito estranho em mim e deixa-me fragilizada.
Resolvi fazer algo prático e rápido, até porque a concentração não era nenhuma sempre com o Ruben de volta de mim, aproveitamos para continuar à conversa e o assunto Maria e João voltou.
- Nunca pensei que o João se afiambrar-se à Maria durante o jogo - gargalhei ao recordar o momento - é que pronto... nós sabíamos mas o resto do pessoal nem por isso ou pelo menos não tinha a certeza.
- Oh... aqueles dois já não conseguem disfarçar... apesar de não admitirem também não disfarçam...
- E nós? - atirou de rajada aproximando-se perigosamente de mim.
- Nós... - senti a sua mão na minha cara - Ruben... - afastou-se.
- Desculpa mas fica difícil estar do teu lado e disfarçar que não te desejo, que desde que nos reencontramos que não me sais da cabeça, que até sonhar contigo já sonhei - o Ruben admitia-o a encarar-me - como é que consegues controlar-te? - sorri com a pergunta.
- Não controlo... quando quero muito faço... - fui impedida de concluir o meu pensamento, o Ruben reduziu completamente a distância e beijou-me com uma vivacidade tremenda mas acabei por conseguir afastá-lo - isto não está certo!
- Porquê? Mariana conheço-te e por isso sei que queres tanto quanto eu…
- Ruben por muito que queira não consigo talvez porque a recordação do passado ainda está presente, sabes que doeu bastante o nosso afastamento, antes que tudo eras meu amigo, eras o único que a seguir à minha prima sabia tudo o que se passava comigo, era convosco que desabafava, foste tu que de uma forma ou de outra mudaste alguma coisa em mim ou será que nunca reparaste que uns meses depois de te conhecer acalmei ligeiramente - olhávamo-nos intensamente - e depois por um erro cometido numa noite em que ambos já tínhamos bebido mais do que seria suposto perdi tudo isso - o Ruben interrompeu-me.
- Para ti foi um erro? - já estávamos novamente próximos.
- Foi porque nos afastamos.
- Mariana se pudesse regressar ao passado a única coisa que alterava seria só a minha reação, se fosse hoje não fugiria mas naquela altura estava confuso, não sabia o que sentia por ti, entende que foi complicado aceitar que aquela rapariga que até então era só a minha melhor amiga e a única que consegui deixar que se aproximasse de mim passou de amiga a algo mais, isto porque ao longo dos meses criamos uma relação única que sempre pensei que fosse amizade mas que depois do que se passou connosco percebi que era algo muito mais forte… tão forte que até hoje não consegui senti-lo de novo por mais nenhuma rapariga, nós tínhamos uma ligação especial, bastava olhar-te nos olhos para adivinhar o que te ia no pensamento e isto faz-me falta, eras o meu ponto de equilibro e de um momento para o outro fiquei sem ele, acabei por tornar-me na pessoa que sou hoje talvez porque foi a forma que encontrei para estar mais próximo de ti - olhei-o perplexa - pelo menos hoje sei aquilo que sentes e entendo-te perfeitamente, também não consigo apegar-me a ninguém, talvez porque fui, sou e serei eternamente teu - o Ruben agarrou-me pela cintura - posso ir para a cama com todas as mulheres do mundo mas és a única de quem gosto - arrepiei-me - mas ainda assim sei que dificilmente iremos conseguir construir alguma coisa em comum, és demasiado casmurra para admitires o que sentes, não te julgo porque também andei anos a negar o que sentia por ti e durante esse tempo andei a iludir alguém que não merecia, estive numa relação durante bastante tempo, ela amava-me e apesar de lhe dizer que era reciproco no fundo sabia que estava a mentir, ela nunca conseguiu que sentisse nem metade do que senti quando nos envolvemos, arrastei a situação porque apesar de tudo sentia-me bem do seu lado mas no dia que a vi a fazer planos para o futuro não consegui continuar com a farsa, acabei com ela, sei que sofreu e condeno-me por isso, podia ter feito as cenas de outra forma mas agora não há volta a dar, é por isto tudo que hoje sou um salta-pocinhas tal como também o és, não nos sentimos preparados para iniciar uma relação daí andarmos nesta vida.
E agora o que será que a Mariana responde? Será que estes dois alguma vez se acertam?
Olá :)
ResponderEliminarNossa que biolencia!
Depois do que o Rúben me falou quem ficou arrepiada sou eu lol
Quero a resposta da Mariana!!!
Ficoa à espero do próximo M&M´s!
Beijinhos
Rita
Olá meninas :D
ResponderEliminarMais um capítulo fantástico!
Adorei e gostava imenso que estes dois se acertassem :D
Beijinhos
Ritááá xD
Tão querido! Ele admitiu! Já é um começo, só falta ela... lol
ResponderEliminarAmei!
Quero mais.
Beijinhos
Olá!
ResponderEliminarA Rita Martins tirou-me a frase :O É que e mesmo "Nossa que biolência!"
Bem, eu não sei como a Mariana não lhe salta para cima? Mas será que fui a única que li aquela declaração de amor??? :O
Ai quero mais!!!! Fiquei curiosa pela reação da Mariana! (Não me "desiludam"! xD)
Beijo
Ana
Lindo, consegui chorar haha. Tá perfeito, e agora estou curiosa pra saber a reação da Mariana. Maissss *-*
ResponderEliminarGabiiS.
Fantastico publica o proximo rapido.bjs
ResponderEliminarFantástico como sempre :)
ResponderEliminarcontinuem com o excelente trabalho...
Espero anciosa pelo próximo capitulo ;D
Até que enfim que numa conversa entre estes dois não houve gritos nem acusações.
ResponderEliminarA Mariana admitiu que o amou no passado, só falta admitir que ainda o ama no presente, já o Ruben, esmerou-se, com uma declaração destas...palavras para quê? foi lindo, e desta vez não foi para a picar e muito menos no gozo.
Adorei, tá lindo, mas agora quero saber como é que a Mariana vai reagir a esta declaração de amor, por isso meninas, bandeiem-se.
Beijocas
Fernanda
Olá =)
ResponderEliminarEstou sem palavras *.*
Amo cada capítulo e esta declaração...
Estou ansiosa pelo vosso próximo capítulo...
Beijinhos
Olá :)
ResponderEliminarHoje li pela primeira vez esta fic e cofesso.. Tive que ler todos os capítulos seguidos!! Não consegui parar!!!
Adorei <3
Estou desejosa de ler os próximos capítulos!!
SD
AMEI!
ResponderEliminaristo sim foi por as cartas em cima da mesa!
O ruben acabou por dizer o q sentiu e o q lhe vai no coracao, a mariana agora so tem de aceitar e admitir q tbm gosta dle!
E a menina maria onde anda? Cheira-ne que foi despedir se do Joao por causa da viagem.
Beijinhos, publiquem rapido!
wuou!!!! que capitulo foi este? amei esta conversa, foi qualquer coisa de muitooooo bom!!! soube-me tao bem ler algo vosso, agora só consigo ler de vez em quando mas sempre que leio deixa-me sempre bem melhor!!
ResponderEliminarqueroooo muito o proximo, e quero que estes dois se entendam apesar de adorar esta picardia entre ambos! :P
fico a espera!!
beijinhos
Oh meu Deus! O Rúben inspirou-se bem! Mal consigo encontrar palavras para elogiar este capitulo perfeito!
ResponderEliminarQuero muito ver a reacção da Mariana!
Beijinhos*
Mónica
Para quando o proximo?
ResponderEliminarBjs
Uau adorei esta declaração do Ruben.
ResponderEliminarAgora tou para ver a reacção da Mariana.