terça-feira, 15 de outubro de 2013

103 - "Diga Doutor por favor há algum problema com o meu filho ou com a Carmen?"

Carmen
Ir a Lisboa no dia de anos do João foi uma tentativa de mostrar a todos os seus amigos e familiares que eu existia e estava grávida, mas ao contrario do que esperava não fui “oficialmente” apresentada a ninguém, durante o jogo fiquei sempre no camarote praticamente isolada, vi ao longe a Maria e depois vi que a Paula e a Filipa estavam bastante divertidas enquanto liam algo numa revista e quando me aproximei elas esconderam-na, mas consegui tira-la e assim que vi fiquei estupefata afinal a Maria tinha arrasado e sabendo como o João a ama tinha a certeza que assim que visse ia reagir.
Estava a pensar em como iria usar este trunfo a meu favor quando
- Carmen o que é isso?
- Uma revista... Com a sua norinha! E que bem que ela ficou! Sou obrigada a admitir que mesmo depois da peste nascer o corpo não ficou nada mal!
- Carmen se não te importas exijo respeito! Comigo, com a minha nora e com o meu neto!
E lá estava ela, mas quem pensa que será? Minha mãe não?!
- Pensa que está a falar com quem?! Eu não lhe admito que fale comigo assim!
- Carmen não abuses da nossa paciência! Estás gravida de um neto nosso, mas não tens o direito de falares assim com a minha mulher e para falares da Maria ainda tens muita sopa que comer!
Depois de mais uma conversa simpática com os meus sogros, acabei por me entregar ao jogo e no final “Bem dito, bem feito”. No final o João assim que saiu do balneário foi direto à Maria e a conversa realmente descambou até que o Ruben lá os separou e seguimos até casa. Quando chegamos a casa era realmente a cara deles, do João e da Maria e mesmo depois de ter sido “mandada” para aquilo que é um quarto de hóspedes muito mal-arranjado consegui ouvir que a Maria tinha retirado as suas coisas o que não evitava que a casa gritasse “Maria” em todas os cantos!
Fiquei a ouvir a conversa atrás da porta e percebi que o João está realmente a sofrer por estar longe da Maria, mas não gostei nada de saber que ele tinha resolvido levar o diabinho para Valência! É que não faltava mais nada a não ser ter que ter a cria da outra a toda a hora a relembrar-nos da sua existência! E ainda gostei menos da ideia de ter que ir a uma consulta na amiguinha deles e como não sabiam que me ouviam…
- Carmen despacha-te!
- Ai João estou tão enjoada! Deixa-me ficar aqui quieta
- Vá lá, tenho pressa!
- Para quê? Nós não vamos só no avião do fim da tarde?
- Sim, mas quero ir ver uns amigos e não te quero deixar aqui sozinha
- Ai João… - deixei-o sozinha e corri para o wc fingindo que vomitava, hoje nem estava enjoada, mas tinha que ser.
Enrolei o enjoo durante todo o dia e só sai de casa mesmo quando estava na hora limite para o voo.
- Estás muito animada!
- Sim!
- Nem parece que estiveste tão mal a manhã toda… E logo hoje que...
- Oh estou a voltar para casa finalmente! Não gosto muito de Lisboa! O que tem hoje?
- Tinha uma surpresa para ti… mas deixa… - ele falava como sempre fala comigo, engolindo a raiva e tentando ser amável, mas completamente distante e frio.
João
Ao contrário do que esperava não consegui ir até ao consultório da Ana já que a Carmen enjoo e não a consegui arrancar do wc. Aproveitei o tempo que lá esteve fechada para estar com o meu príncipe.
- Bebé do pai! - falei assim que o vi entrar na sala já acordado ao colo da minha mãe e ele riu - ai que saudades que o papá tinha tuas!
- Ele também tinha tuas filho!
- Anda colinho do papá… vem! - o pequenino estendeu os braço e acabei por ficar a brincar com ele - papá! vá diz lá!... pronto já percebi que não vais dizer, mas o papá queria tanto… o papá tá cheio de saudades tuas… tuas e da mamã! E tu como é que deixaste a mamã e a madrinha fazerem aquelas fotografias?! Estão bem giras, mas… mas só o papá e o padrinho é que podem ver! E agora o papá vai mesmo ter que te levar com o papá… vais com o papá para Valência e vamos viver lá os quatro sim? O papá, tu e a Carmen e o mano ou mana! E tu vais ajudar a tomar conta do bebé sim? Quando o papá tiver que ir trabalhar…
- Vais mesmo com essa ideia para a frente?
- Claro! - a minha mãe demonstrou o seu desagrado pela cara com que me olhou - a Maria passou-se! É noitadas, é fotos destas e… e o que será que não sei mais? Com certeza algum amigo…
- A Maria tem amigos sim! Sempre os teve e são eles que a ajudam e a amparam sempre que tu te lembras de fazer asneira!
- Para quem não a podia nem ver…
- Não a podia ver porque não a conhecia, mas ela conseguiu conquistar-me e muito se deve as tuas atitudes completamente indecentes! João a Maria sofreu no passado e está a sofrer agora por causa da tua falta de noção de consequências e convenhamos que uma sessão como a que ela e a prima fizeram não tem um decimo das consequências para a vossa, ou melhor para a vida do vosso filho do que o que tu fizeste! e se queres que te diga mais o Ruben tem sido muito mais homem do que tu! Apesar de toda a porcaria que também fez, teve uma atitude bastante adulta no que toca a esta revista!
- Claro que teve, não é a mulher dele nem a mãe do filho dele que aparece naquelas fotos
- Pois não, mas também não é a tua! João a Maria já tratou de todos os papéis do divórcio e se ainda estão casados é porque tu te “esqueces” de os assinar! Filho… - suspirou - o que fizeste é muito difícil de perdoar, para não dizer impossível, por isso agora sê homenzinho assume a consequência e deixa a Maria tentar refazer a vida dela. Ligados vão estar sempre porque o pequeno - fez uma festa no Bruno que observava a conversa como se percebesse a importância - obrigar-vos-á a dividirem acontecimentos, mas isto que estás a fazer é pior para todos! João levares o teu filho é descabido! Vais tira-lo da mãe que foi a pessoa que sempre fez tudo por ele para o levares para um local completamente desconhecido para ele e deixa-lo entregue aos cuidados de uma…
- De uma nada! Mãe quer queiramos quer não a Carmen vai ter um filho meu! E vive comigo e por isso é uma espécie de madrasta do Bruno… além disso até lhe fará bem a ela tomar conta do Bruno, é um teste para quando o bebé nascer!
- João o teu filho não é um boneco, para as gravidas fazerem “test dirve”! E ficas já a saber que se essa parvoíce de pedido de custódia avançar eu testemunharei a favor da Maria! - dito isto saiu batendo a porta
Ainda fiquei mais algum tempo com o Bruno até que tive de o deixar com a minha mãe e voltar a Valência na companhia da Carmen, não sem antes ligar para a Ana a agradecer a disponibilidade em receber-nos e agendando para uma próxima oportunidade quem sabe. Assim que cheguei a Valência recebi a notícia de que o filho do Ruben tinha nascido, tentei falar com ele mas foi impossível.
Fui sabendo do que se passava com o Ruben através do Fábio. Que também me ia dando algumas novidades sobre a Maria mesmo que eu dissesse vezes sem conta
- Fábio na boa, não quero saber!
- Não queres mesmo? Então porque não assinas já a porcarias dos papéis e envias pela tua mãe, ela vai ai este fim de semana não é?
- Vem… tenho tantas saudades do Bruno! Nunca mais sai a bendita decisão…
- Vais mesmo manter isso?
- Vou e não vou discutir a minha decisão com alguém que nem pensou duas vezes antes de testemunhar contra mim!
- João não foi contra ninguém! Disse só a verdade e neste caso tu não tens razão nenhuma! E pior tu sabes isso muito bem! Que assim que viste a revista tivesses ameaçado ainda percebo apesar de achar que o menino nunca devia ter sido metido nisso, agora levar isto adiante, desculpa mas não concordo! e agora tenho de desligar que vou ter com…
- Com?
- A Maria e o Rui eles vem jantar cá a casa
- A Maria e quem? Mas isso já está assim é? Já fazem jantarinhos a quatro e tudo?! Muito me contas!
- João…
- Tchau não te atrases!

Mariana
Ser obrigada a retirar o Ruben para que não visse a equipa médica a socorrer o filho não foi fácil, até porque pela primeira vez vi o meu amigo a reagir como pai, o Ruben desesperou e lutou para ficar próximo do filho, não tive outra solução que quase o arrastar mas para isso contei com a ajuda da Ana.
Os minutos que passaram até termos notícias foram desesperantes, o Ruben não conseguiu ficar sentado e por isso andava pela sala de espera de um lado para o outro, não consegui dizer nada, porque simplesmente não consegui colocar-me no seu lugar, a verdade é que o Ruben passou os últimos quatro dias a renegar o filho e no dia que o sente pela primeira vez, assiste a um episódio traumático…
Felizmente o Filipe recuperou, apesar de ter sofrido uma paragem cardiorrespiratória, mas não deixou de ser complicado gerir as emoções que daí resultaram. O Ruben ficou verdadeiramente abalado e por isso acabou por ficar no meu apartamento.
***
Seis, seis foram os dias que passaram desde que o Filipe teve a paragem cardiorrespiratória e faz hoje precisamente dez dias que nasceu, os últimos dias têm sido animadores com o pequenino a dar sinais de ser um lutador e talvez seja isso que tem contribuído para que o Ruben ande menos tenso, o meu amigo já retomou os treinos e acredito que a pouco e pouco consiga voltar a ser convocado.
Aproveitei a pausa do almoço para visitar o Filipe e quando estava a entrar no hospital vejo o Ruben a chegar, abrandei o passo e segundos depois já o tinha do meu lado
- Oi - dei-lhe dois beijinhos
- Vieste vê-lo?
- Sim... afinal dez dias de vida só se fazem uma vez! - sorriu - ena que o papá já sorri!!!!
- Oh... contigo do meu lado é impossível não sorrir...
- Ruben...
- Desculpa - baixou o olhar - é mais forte - suspirou - mas não deixa de ser verdade - olhou-me - contigo do meu lado tudo fica mais fácil, dás-me segurança, não sei explicar...
- Então não expliques e vamos lá ver o Filipe - falei animada e talvez por isso voltou a sorrir
- Vamos! - o Ruben conforme falou aproximou-se e sem esperar colocou o braço por cima dos meus ombros, confesso que senti um arrepio a percorrer o meu corpo, ainda assim não consegui ter coragem para terminar com aquilo, muito pelo contrário acabei por também eu o abraçar, colocando o meu braço nas suas costas, o que mais uma vez o fez sorrir.

Ruben
Faz hoje dez dias que o Filipe nasceu e finalmente estou a conseguir reagir, já regressei aos treinos mas acima de tudo ando mais calmo.
Saí do treino direto ao hospital e para surpresa minha o meu amor também estava a chegar, trocamos algumas palavras e acabamos por entrar no hospital abraçados. Fomos diretos à unidade de neonatologia com a intenção de vermos de imediato o Filipe mas infelizmente não aconteceu, ouvir da boca do médico que o estado de saúde do meu filho piorou nas últimas horas foi demasiado duro, ainda assim fiz um esforço para ouvir tudo o que o médico falava, o Filipe estava com uma infeção generalizada e as próximas horas seriam cruciais...
- Não fiques assim... tens de acreditar...
- Acreditar no quê? Ouviste o médico!
- Hey... Ruben vamos entrar ali dentro como entramos nos últimos nove dias, com esperança que o Filipe vença esta luta...
- Não é justo... porquê? Porquê que isto está a acontecer?
- Não sei... mas não adianta estarmos a fazer estas perguntas... - a Mariana abraçou-me - é perca de tempo e agora mais do que nunca o Filipe precisa de sentir o pai presente, anda - deu-me a mão - vamos!
Entrei de mãos dadas com a Mariana e a cada passo que dava sentia-a a apertar-me um pouco mais a mão.
Ver o meu filho novamente ligado ao ventilador e a receber uma transfusão de sangue foi horrível mas pelo menos tinha-a comigo, a Mariana tem sido sem dúvida um enorme apoio, tanto para mim como para o Filipe, pelo menos é no que quero acreditar, afinal o menino não precisa só de sentir o pai, também precisa de sentir a presença maternal e esta sem dúvida está a senti-la através da Mariana, o meu amor é o que o menino tem de mais parecido com uma mãe uma vez que a Sofia rejeitou-o completamente. Se por um lado é mau porque o meu filho tem o direito de conhecer a mãe por outro estou aliviado, pelo menos não terei que aturar a Sofia, uma vez que legalmente fiquei com a guarda do Filipe.

Carmen
Já passou quase um mês desde que estivemos em Lisboa. Felizmente o João não conseguiu a custodia do Guilherme, estar fora do pais e sempre ausente de casa e bem… e eu… não o ajudaram muito, confesso que festejei loucamente quando soube o resultado.
O diabo veio cá apenas um fim de semana e acompanhado pela bruxa da avó!
E durante duas noites não preguei olho já que a criatura resolveu chorar e ainda chamar a “Mamã” o que deixou o pai com um humor de cão.
Se já não me liga muito, quando o filho está cá o João esquece-me, ou melhor tem o telemóvel programado para não o deixar esquecer-se de mim e lá pergunta se estou bem ou preciso de algo quando o aparelho apita.
Hoje é dia do pai, o meu continua a vida dele como se eu tivesse morrido e o do meu filho ou filha, pelo menos finge que se preocupa, e eu bem eu vou fazer-lhe uma surpresa já que o outro filho não vai estar cá.
- Feliz dia papá! - disse assim que o vi entrar na cozinha e já tinha o pequeno-almoço especial todo preparado
- ãh?! Ah… obrigado…  foste tu que fizeste isto?
- E quem mais seria? Porque estaria de avental? - olhou-me e juro que vi faísca a saírem-lhe dos olhos
- Não sei, mas como andas tão enjoada… O que fazes com esse avental?! Tira-o já!!
- Era o único que havia!
- Mas não é teu! Estava ai por algum motivo! Tira-o imediatamente! E que seja a ultima vez que fazes a gracinha de usar algo da Maria que esteja cá em casa! Acho que já falamos sobre isso! - levantou-se e ia a sair da cozinha quando a campainha da porta toca, olhou-me pensando que seria mais alguma coisa preparada por mim, mas esta surpresa seria para os dois

João
Hoje é dia do Pai, convidei o meu para vir até cá, já que tinha que estar longe do meu filho, que pelo menos tivesse o meu pai por perto.
Quando a campainha tocou confesso que fiquei bastante contente já que se tal não tivesse acontecido as coisas com a Carmen iam acabar mal, já que mais uma vez tinha repetido a gracinha de usar coisas da Maria que eu tinha deixado estrategicamente guardadas, para não dizer escondidas, pela casa.
Fui até à porta e quando a abri foi impossível não sorrir tinha como esperava o meu pai, mas também a minha mãe e o meu filho
- Feliz dia do pai! - a minha mãe disse fazendo-se passar pelo Bruno, para antes que eu conseguisse falar - Quem é este que está aqui? Diz lá à vó Té quem é este?
- Papá! - fui completamente surpreendido e invadido por um mar de lagrimas nunca imaginei que ouvir aquele meio palmo de gente reconhecer-me e chamar-me fosse tão… tão… especial
- Eeeee que o meu filho é um chorão! - olhei-o sem conseguir parar apenas tirei o menino do colo da minha mãe
- Obrigado… - sussurrei
- Papá!
- Filho!
Acabei por o deitar no sofá enquanto o enchia de cocegas e assim passei uns minutos até que
- Ah não sabia que vinha e que traziam apêndices!
- Carmen!
- Estoy bromando! Que guapo! - disse chegando-se perto do Bruno e tentando brincar com ele, algo que não conseguiu já que assim que o fez o meu pequenote resolveu chorar só se calando quando ela se afastou
- João toma! - a minha mãe estendeu-me um envelope-embrulho do qual retirei

o pequeno quadro ainda me deixou mais encantado, mas não acabava ali tinha mais um DVD
- E isto pequenino? Foste tu que filmaste? - disse a rir
- Não isso fomos mesmo nós eu e o teu pai… sem que os actores principais dessem por ele. Aliás acho que se soubessem iam boicotar e confesso que com razão… vê!
Meti o cd no leitor e comecei a ver uma sequências de imagens e de pequenos vídeos feitos pelo telemóvel e nitidamente camuflado em que aparecia a Maria sempre acompanhada com o Bruno e em que lhe mostrava fotografias e vídeos em que me mostrava ao menino e ia repetindo “papá! vá Guilherme tu consegues! Diz lá!” até que ao fim de algumas tentativas e enquanto apenas o colocava a ver um jogo meu em direto o menino e quando surjo em primeiro plano o diz! Tinha o coração cheio de alegria, mas ao mesmo tempo apertado de ver na cara da Maria o esforço que fazia para que o nosso filho me visse
- Ah e tal não te quero ver mais, mas depois passa horas com a desculpa do filho a ver fotos e tv…
Acordei quando ouvi a Carmen
- Se não tens nada de interessante para fazer despacha-te! Vou fazer o mesmo e depois vamos sair todos!
- Vamos onde? - perguntou ela surpreendida por a incluir num plano com os meus pais
- Surpresa!
- Adoro surpresas!
Assim como lhe pedi ela foi-se despachar e eu também e em pouco tempo saiamos os cinco com destino incógnito para os restantes já que apenas eu sabia onde iríamos
- O que estamos a fazer aqui? - perguntou a Carmen assim que nos viu na entrada de uma Maternidade
- Acho que era uma boa ideia conhecer o meu filho ou filha hoje, não concordas?! - ela estava pálida - Afinal sempre que vens ao médico eu não consigo vir contigo e sei que está tudo bem, mas nunca o ou a vi!
- Ah sim… concordo, mas assim do nada? Não devem poder atender-nos…
- Podem! Afinal não é do nada que aparecemos aqui… como não sabia como contactar o teu medico mistério, perguntei á Paula quem a acompanhou e marquei consulta, só tinham para hoje e achei que a coincidência não podia ser melhor!
- Ah… mas… podias ter dito… eu tinha marcado no meu…
- O teu nunca pode quando eu posso!
- Como queiras!
Entramos e depois de nos identificar na receção em poucos minutos fomos chamados, achei a Carmen muito tensa, mas não conseguia perceber porquê

Carmen
O dia que podia ter sido calmo revelou-se um terramoto. Além dos sogros tinha ainda de levar com o “diabo” e o João ainda resolveu armar-se em esperto e arranjar-me uma surpresa. Não tive como fugir e segui até á consulta
A primeira parte da consulta consegui controlar, afinal sabia perfeitamente quais os sintomas que qualquer grávida saudável deveria ter neste período da gravidez
- Muito bem Carmen aparentemente está tudo bem. Mas disse-me que o médico que a segue é?
- Ah é o Dr.…. o Dr…
- Realmente  nunca me disseste o nome….
- É…
- Está com um lapso de memória? Acontece, relaxe… tem o seu livro de gravida consigo?
- Não… não imaginava ao que vinha e por isso deixei-o em casa…
- Isso é que fez mal deve andar sempre com ele…
- Pois eu sei… foi mesmo um lapso…
- Bem então vamos lá até á marquesa para vermos esse ou essa pequeno
Seguimos para a sala onde tinha o ecógrafo e o que temia aconteceu…
- Carmen teve alguma perda de sangue ou dor fora do normal desde a sua ultima consulta?

João
A questão colocada pelo Dr fez-me ficar ainda maus assustado, afinal já tinha assistido às ecos da Maria e algo estava estranho no que se via, ou melhor não via
- Não… nunca tive problema nenhum porquê?
- Porque…
- Diga Doutor por favor há algum problema com o meu filho ou com a Carmen?
- Bem… nem sei como lhe dizer isto, mas a Carmen não está grávida… - olhei-a espantado e ela forçava um choro tão falso que só me apetecia…
- Não está? Como não está?! Não estás?? - olhei-a e só conseguia lembrar-me de algo porque já passei há uns anos atrás
- Não está… e pelo que consigo observar, bem… - o senhor estava visivelmente constrangido - a Carmen ou nunca esteve grávida ou já não o está há muito tempo, uma vez que além de não haver qualquer alteração do seu útero ela está em pleno período menstrual
- O QUÊ?!!! - o Dr explicou que ela não estava grávida e que o mais provável era ter sido psicológico tentei mostrar-me o mais compreensivo possível, mas quando sai - Vou passear com os meus pais e o meu filho, tens 45 minutos para tirares tudo o que é teu de minha casa e deixares a chave na portaria!
- Pero...
- Pero o raio que te parta! É assim e rápido porque já só tens 44 minutos!

Será que a Carmen cumpre a "ordem"? Como ficará o João depois de passar pela segunda vez pelo mesmo golpe desta vez perdendo a Maria? E a Maria como terá passado este mês?
E quanto ao trio Ruben, Mariana e Filipe como andarão eles? E o que terá o destino reservado para o Ruben no seu primeiro “dia do pai” como pai?

domingo, 13 de outubro de 2013

102 - "O menino pode ter-nos aos dois…"

Mariana
Se o Ruben reagiu bem à novidade da revista o mesmo não se pode dizer do João que fez um escândalo e ainda avisou a Maria que vai pedir a guarda do Guigas, o que abalou a minha prima e como tal a noite foi para esquecer, mas em contrapartida o momento do almoço foi bastante agradável bem como os minutos partilhados com a Ana.
- Bem… vai lá cumprir com os teus deveres de boa profissional que vou dar um giro… - despedi-me da Ana e assim que o fiz a nossa amiga entrou nas instalações da clínica
- Vais já embora? - olhei para o Ruben
- Vou dar uma volta pelo jardim e depois vou…
- Ah… se ainda tiveres por perto depois da consulta terminar posso dar-te boleia…
- Obrigada mas não precisas de ter trabalho… apanho o metro!
- Não me dás trabalho…
- Hum… então quando saíres liga… se ainda estiver por aqui pode ser que aceite… - sorriu
- Então até já…
Sem que tivesse à espera o Ruben aproximou-se e deu-me um beijo na minha bochecha direita mas confesso que tal gesto deixou-me atordoada…

Ruben
Despedi-me da Mari e entrei na clínica para reencontrar a Sofia… a consulta correu bem e consegui ver o meu filho que já tem vinte e oito semanas, ainda assim tenho de ser sincero, não consigo viver este momento como viveria se fosse a Mari a estar deitada na maca, aliás foi a pensar nisso que estive o tempo quase todo.
No final da consulta, a Ana avisou quando queria voltar a ver a Sofia e depois de mais meia dúzia de palavras trocadas saímos do gabinete, algo que aproveitou para tentar azucrinar-me a paciência.
- Tenho uma coisa para te dar - falou com um sorriso cínico para logo depois retirar a revista da mala e entregar-me - Essa nunca me enganou... que grande vadia...
- Sofia onde vez uma vadia - olhei-a - eu vejo uma rapariga que tem um corpo escultural, uma beleza indescritível, uma sensualidade brutal e que fez uma produção fotográfica para uma revista masculina, em que a qualidade está estupenda porque a Mariana tem carisma e sensualidade, além de se ter rodeado de excelentes profissionais...
- Ora bolas não tive o prazer de ser a primeira a mostrar-te... sim que o que acabaste de falar é discurso ensaiado...
- Não, não é! Fui sincero!
- Não te incomoda, portanto?
- Não... - respondi quando já estávamos a sair da clinica
- Isso quer dizer que se fizer uma não te importas? - ouvir tal disparate fez-me gargalhar - onde está a piada?
- Oh Sofia olha ao espelho que terás a resposta!
- QUÊ?!
- É isso que ouviste, não queiras comparar-te à Mari ou à Maria ou a qualquer outra mulher que já tenha ou que vá fazer uma produção dessas, nem aqui nem no fim do mundo tens carisma para tal! E agora deixa-me ir que tenho mais que fazer!
Conforme falei entrei no meu carro e liguei à Mari, o meu amor avisou que já estava em casa e isso entristeceu-me mas não desisti e convidei-a para jantar, algo que só aceitou quando concordei que a Maria fosse também.

Mariana
Definitivamente hoje o dia está a ser estranho, esta insistência toda do Ruben em passar tanto tempo comigo está a dar-me cabo dos nervos e por isso quando convidou-me para jantar só aceitei na condição de levar a Maria comigo, afinal a minha prima precisa de se divertir.
A noite estava a ser agradável mas terminou mal, uma vez que depois da Ana ligar ao Ruben a avisá-lo que a Sofia tinha dado entrada nas urgências com uma hemorragia, revivi em segundos tudo o que passei quando perdi os gémeos, ainda assim acompanhei-o até ao hospital, já que não estava em condições de conduzir...
A viagem foi feita num silêncio agonizante e a cada minuto que passava o meu amigo desesperava mais um pouco.
- Tem calma… isto é mesmo assim - falei quando já estávamos à espera que nos dessem notícias - a preocupação da equipa médica é assistir a grávida para que nada de mal aconteça ao bebé - sei que fui fria mas só falei a verdade mas foi o suficiente para o Ruben se agarrar a mim a chorar que nem madalena arrependida, não tive outra solução que não acolher o meu amigo e reconforta-lo o melhor que consegui.
As notícias tardavam em chegar e o Ruben já tinha retomado a sua meia-maratona, andava de um lado para o outro da sala de espera e por muito que pedisse para se sentar não obedecia.
- Não será melhor avisar a Anabela? - olhei para a Maria
- Achas?
- É o neto dela... e o Ruben desesperado como está não vai pensar em nada...
- Pois... vou ligar primeiro ao Mauro, ele que decida se diz ou não à Anabela!
Afastei-me um pouco para ligar ao irmão do Ruben e assim que lhe disse o que se estava a passar foi logo avisada que iria passar pela casa da Anabela e que vinham logo depois para o hospital, regressei à sala de espera e encontrei o Ruben sentado no chão


Acabei por aproximar-me dele e após insistir bastante consegui convencê-lo a sentar-se numa cadeira, fiquei do seu lado remetida ao silêncio até que a Anabela e o Mauro entraram na sala.
- Já sabem mais alguma coisa? - o Mauro foi quem falou, já que a Anabela preocupou-se mais em reconfortar o filho
- Não...
O Mauro foi ter com o Ruben e aproveitei que o meu amigo já tinha a família para o apoiar, além da Maria, para tentar descobrir notícias, saí de fininho e chateei todos quanto podia mas só quando vi a Ana é que consegui novidades.
- Como está a Sofia? E o bebé? - a minha amiga baixou o olhar, sinal que as notícias não seriam as melhores
- Anda, vamos ter com o Ruben!
- Espera! - olhou-me e bastou isso para que percebesse o que queria saber
- A Ana está bem dentro dos possíveis e o bebé - por momentos senti o meu corpo a contrair - o menino está a lutar pela vida, tivemos que fazê-lo nascer mas anda que já explico tudo...
Segui a minha amiga e assim que o Ruben nos viu a entrar na sala de espera
- Como é que está o meu filho? - disparou imediatamente
- Ruben, a Sofia deu entrada nas urgências com uma hemorragia muito grave, provocada pelo deslocamento da placenta e não tivemos outra solução que retirar o bebé pois já estava em sofrimento e a Sofia corria risco de vida.
- E o bebé?
- O teu filho está a lutar pela vida...
Só um pensamento ocorreu-me, o Ruben agora mais do que nunca precisa do apoio dos amigos, como tal fui das primeiras a reconforta-lo, até porque foi para os meus braços que o rapaz “correu”.
- Ruben quando quiseres ver o teu filho...
- Não sei se consigo... - falou por entre um soluçar imenso
- Consegues sim! Ruben - fi-lo olhar-me - é teu filho!
- Vens comigo?
- Eu... eu não sei se posso... - por um lado queria estar do seu lado mas por outro não mas assim que a Ana disse que podia acompanha-lo, o Ruben não largou mais a minha mão.
Seguimos a Ana e a cada passo que dávamos sentia o meu amigo a ficar mais tenso e talvez inseguro. Entramos os dois para os cuidados neonatais e foi de mãos dadas que nos aproximamos da incubadora onde o seu filho lutava pela vida.
- Não queres tocar nele? - falei por o ver sem reação
- Não…
- Ruben, o menino não tem culpa de nada e está a lutar pela vida, é teu filho e precisa de ti! - tentei ser pratica mas a verdade é que também estava a custar ver um ser tão pequenino, rodeado de máquinas que apitavam por todo o lado e cheio de fios.
***
O Ruben ficou o tempo que lhe permitiram a olhar para o pequenino e só quando nos avisaram que tínhamos de sair é que o meu amigo reagiu, isto quando já estávamos a regressar para a sala de espera onde tanto o Mauro como a Anabela nos aguardavam
- Obrigado…
- Fiz por ti o que faria por qualquer outro amigo…
O Ruben não falou mais e quando chegamos junto da sua família tive que ser eu a dizer tudo o que nos tinha sido transmitido, o filho do Ruben terá pela frente uma luta árdua e demorada mas se Deus existe olhará pela vida daquele anjinho…


Ruben
Dizem que quando vimos pela primeira vez o nosso filho tudo muda mas infelizmente não foi nada disso que senti, muito pelo contrário, olhar para aquele pequeno ser só contribuiu para que a revolta que há muito sinto dentro de mim se manifestasse, não consegui tocar nele e muito menos chama-lo de filho…
Saí da unidade de neonatologia com um só pensamento, agarrar na Mari e desaparecer, precisava dela, do seu apoio, dos seus mimos mas acima de tudo do seu amor, por isso mesmo assim que a rapariga informou a minha família do estado do mais recente elemento, só pensei em sair daquele hospital mas tal não foi possível, pelo menos não de forma imediata porque a Mariana ao ver a Ana resolveu perguntar pela Sofia
- A Sofia já está no quarto?
- Ainda não...
- Mas ela tem consciência do que se estava a passar? - olhei para a Mari e isso bastou para perceber o quanto aquela pergunta a tinha magoado, ainda assim não consegui reagir, talvez porque a única coisa que ocupava o meu pensamento era que por causa daquele que dizem ser meu filho perdi o meu amor e agora...
- Sim... quer dizer ela teve sempre consciente até ser anestesiada.
- E ainda demorará muito tempo a ir para o quarto?
- Ainda vai levar algum...
Assim que ouvi tal informação não perdi mais tempo e puxei a Mari pela mão, por incrível que pareça a Mariana não ofereceu resistência, muito pelo contrário, acompanhou-me e quando dei por mim estava no seu apartamento.
***
Acordei com a Mariana a chamar-me e apesar da vontade não ser nenhuma saí da cama e fui comer. Estávamos a terminar o pequeno-almoço quando voltei à realidade, isto porque a Mariana assim me obrigou ao avisar que já tinha falado com o mister e como tal já estava avisado da situação, fiquei ainda a saber que nos próximos dias estou dispensado dos treinos mas que ainda assim tenho de passar pelo Seixal.
Da casa da Mari fomos diretos ao hospital, não porque fiz questão mas sim porque fui obrigado pelo meu amor.
- Bom dia! - a Mariana cumprimentou a Ana
- Como estás? - olhei-a
- Não sei... - fui sincero
- A Sofia já acordou... - olhei-a e percebi que algo não estava bem - Ruben...
- Diz!
- Amigo, já estive com ela mas a Sofia não está a reagir bem...
- Como assim?
- Mariana a Sofia não quer saber do filho, está em negação.
- Oh isso é do choque... depois passa!
- Não sei... Ruben o melhor é ires vê-la!
- Não estou com intenções de me demorar muito por isso...
- Nem penses! Ruben vais ver a Sofia e depois vais ver o teu filho porque ambos precisam de ti!
- Mariana...
- Nem Mariana nem meio Mariana! Vê se és homem pelo menos uma vez na vida! Tens a mãe do teu filho em negação talvez porque nunca a apoiaste como deverias mas até aqui era só uma grávida, agora é a mãe do teu filho! O menino já nasceu e merece ser amado!
Não respondi e talvez por isso a Mari tenha virado as costas e desaparecido, ainda tentei segui-la mas a Ana agarrou-me pelo braço.
- Deixa-a!
- Mas...
- Mas nada! A Mariana tem razão - olhei-a - a Sofia está a precisar de ti...
Estive a ouvir a Ana e as suas três mil e quinhentas recomendações para no final deixar que me convencesse a visitar a Sofia. Entrei no seu quarto e fui de imediato brindado com indiferença, tentei falar com ela mas a única coisa que consegui ouvir foi a Sofia a renegar o filho, afirmou mesmo que não quer saber dele, porque ele é uma aberração. Doeu ouvi-la, apesar de ainda não conseguir sentir o menino como meu filho também não é caso para lhe chamar aberração, talvez por isso tentei convencê-la a ver o bebé mas não adiantou, estava decidida em seguir a sua vida longe do menino, aliás afirmou mesmo que se não o quiser que o dá para adoção, algo que revoltou-me e por isso saí porta fora.
Acabei por ir até aos cuidados Neonatais daquele hospital e assim que entrei vi a Mariana junto do menino, não sei porquê mas sorri ao vê-la, o meu amor estava tão concentrada a olha-lo que só deu pela minha presença quando falei, estava tão revoltado com o que a Sofia tinha dito que não resisti em desabafar com a Mariana, contei-lhe tudo e foi a Mariana que mais uma vez teve a clareza de raciocínio que não tive, o meu amor aconselhou-me a falar o quanto antes com o meu advogado, algo que fiz assim que saímos do hospital, mais uma vez a Mariana esteve do meu lado e acompanhou-me ao escritório do Dr. Pedro, onde expliquei o que se estava a passar e o meu advogado aconselhou-me um colega seu especialista em questões de direito da família.
Do seu escritório fomos diretos ao meu apartamento, a Mari mais uma vez provou que me conhece verdadeiramente e percebeu que estava a precisar do meu “refugio”, como tal levou-me para casa.
- Tens de reagir - olhei-a quando já tinha a cabeça deitada no seu colo - o teu filho precisa de ti!
- Não posso fazer nada por ele…
- Podes! Podes ama-lo, podes tocar nele, senti-lo…
- Para quê?
- Ruben!
- Juro que por muito que queira não consigo sentir nada por ele… sei que é meu filho mas é o culpado por ter-te perdido…
- Não te admito isso! Ruben nem penses culpar o teu filho por algo que não tem culpa, o menino não tem culpa de ter um pai cobarde, desculpa que te diga mas és um cobarde sim! Foste cobarde quando deixaste a Sofia chantagear-te e voltaste a ser cobarde hoje quando não conseguiste tocar no teu filho… faz-te homem! Cresce porque agora já tens um filho a depender de ti, é verdade que neste momento depende mais dele próprio do que do pai mas no dia que sair da incubadora mas principalmente no dia que o tragas para casa, só tu o podes ajudar, o menino só te tem a ti por isso acorda para a vida e reage!
- O menino pode ter-nos aos dois…
- Ruben percebe uma coisa - olhou-me nos olhos - se continuo aqui é porque és meu amigo e sei que precisas de apoio mas esse apoio não será dado dessa forma que insinuaste, não serei a mãe do teu filho e muito menos a madrasta! É bom que percebas que sou só tua AMIGA… nada mais!
- Fazes-me falta… preciso de ti, do teu apoio… Mariana és a única que me conhece verdadeiramente, a única que sabe o que preciso sem ter que falar, só contigo é que consigo ser eu próprio, não sei se aguento muito mais… - acabei por admitir o que guardei para mim mesmo nestes últimos meses
- Hey… aguentas sim! O teu filho precisa de ti - olhou-me - e eu também preciso que estejas bem…
- Tu? - sorri ligeiramente
- Sim… Ruben caramba somos amigos e sabes bem que sempre fiz de tudo para ver os meus amigos bem, contigo não vai ser diferente… Não vou conseguir ignorar a dor que estás a sentir neste momento e fingir que nada se passa, por isso tens de prometer que farás um esforço para aceitar o teu filho…
- Ajudas-me?
- Por muito que gostasse de ajudar não há nada que possa fazer, tens de ser tu a encontrar o teu caminho, a única coisa que prometo é que estarei do teu lado nestes primeiros dias mas não penses que isto vai mudar alguma coisa no que respeita a nós!
Não consegui ter forças para contra argumentar e por isso ficamos no silêncio.
***
Faz hoje quatro dias que nasceu, quatro dias que ainda não foram suficientes para habituar-me à realidade de agora ser pai, a única diferença que existe é que os meus horários tiveram que ser reajustados para que pudesse visita-lo, ainda assim só o consigo fazer quando a Mariana ou alguém está comigo, pois sozinho sou incapaz de o visitar.
- Olá - a Mariana assim que entrou no meu carro cumprimentou-me
- Oi…
- Então? Que desânimo é esse?
- Não me apetece ir ao hospital…
- Ruben! - suspirei mas não falei nada, optei por conduzir até ao hospital
Entrei no hospital acompanhado pela Mariana mas antes de vê-lo uma das médicas que o acompanham informou-nos que o quadro clinico dele piorou, que o iriamos encontrar ligado a outra máquina que o estava a ajudar a respirar, uma vez que o que tinha já não era suficiente. No momento que ouvi tal informação senti-me a pior pessoa, ele não tinha culpa de nada, é só um bebé que luta pela vida e pelo qual não consigo sentir nada…
- Hey!!! - a Mariana puxou-me pela mão - acorda! Ruben tens de reagir… ser pai é muito mais do que vir todos os dias aos cuidados neonatais deste hospital para ficar a olhar para o teu filho através do vidro da incubadora, o menino merece muito mais, merece sentir que tem aqui o pai presente, que apesar das circunstâncias é um bebé amado…
- Não consigo! Como é que vou cuidar de um bebé quando nem de mim sei cuidar? Como é que vou ama-lo quando me odeio a mim próprio? Mariana nada disto faz sentido…
- Ruben! Não digas isso… - abraçou-me ou não fosse estar novamente a chorar, aliás chorar é o que mais tenho feito nos últimos dias
- É verdade… a minha vida há meses que deixou de fazer sentido e já nem estou a falar de te ter perdido - baixei o olhar - estou a referir-me ao facto de ter perdido a minha identidade, Mariana há muito que não me reconheço…
- Ruben… - a Mari suspirou - continuas igual, continuas o mesmo Ruben, só tens de encarar a realidade e viver!
- Como é que vou viver se me sinto a morrer de dia para dia? Não te tenho…
- Tens! - olhei-a - Como sempre me tiveste! Tens-me como amiga, isso nunca mudou e nem vai mudar...
- Não chega… Perdoa-me… se amas perdoa-me…
- Há muito que deixou de ser uma questão de perdoar, perdoar já perdoei caso contrário não estaria aqui. Ruben entende que por muito amor que sinta por ti será sempre menor do que aquele que nestes últimos meses aprendi a ter por mim própria, não posso nem vou voltar para ti, já te disse uma vez e repito, o nosso amor é doentio, cada vez acredito mais no destino e se tivemos que passar por tudo isto é porque assim estava destinado, a verdade é que todo este sofrimento serviu para conhecer duas pessoas fantásticas, o Rui e o Cris, são eles que são agora os meus dois mosqueteiros, é para eles que me tornei transparente e é com eles que atualmente consigo ser eu própria, sou simplesmente a Mariana que se gosta de divertir mas agora numa versão atinada, finalmente estou a conseguir recuperar o sorriso, a alegria de viver, por isso lamento mas não dá, não vivas na ilusão de voltar a ter-me de outra forma que não a amizade porque isso não vai acontecer e se não conseguires separar os sentimentos garanto que me afasto definitivamente…
- NÃO! Isso não, preciso de ti… da Mariana amiga…
- E terás… a amiga terás sempre! E agora vamos entrar ali dentro e ver o TEU filho!
Mais uma vez reagi porque fui obrigado, a Mariana quase que arrastou-me até junto da incubadora onde estava aquele que dizem ser meu filho e assim que nos aproximamos o meu amor teve um gesto tão bonito, como foi o de pegar na mãozinha minúscula do meu filho, aquilo fez-me ter vontade para também o tocar pela primeira vez mas havia algo a impedir, por muito que tentasse não conseguia. Fiquei a olhar para o meu filho e não sei o tempo que fiquei a faze-lo, só sei que despertei para a realidade quando a Mariana pegou na minha mão e fez com que a passasse pelas aberturas que a incubadora tem, pela primeira vez os meus dedos estiveram a escassos centímetros da mão minúscula do meu filho.
- Ruben… - olhei-a e foi suficiente para ganhar coragem e sentir pela primeira vez o meu filho, o olhar da Mariana transmitia força e foi essa força que desbloqueou-me.
Aquele momento em que pequei na mãozinha do meu pequenino foi algo indescritível, é uma parte de mim que está a lutar pela vida e que merece todo o respeito e admiração, é o meu filho. Acabei por abstrair-me da realidade e só quando ouvi a Ana e a Mariana a conversar é que percebi que já tinha passado imenso tempo, mas a verdade é que perdi mesmo a noção dos minutos quando senti pela primeira vez o meu bebé.
- Agora que já deste o primeiro passo - olhei para a Ana - é bom que dês o seguinte… escolhe o nome do teu filho!
- Não consigo…
- Sinceramente Ruben já metes nojo! - a Mariana perdeu a paciência - Reage! O teu filho precisa de ti, será que não sentes nada pelo menino? Estou farta… farta de magoar-me a mim mesma porque dói entrar aqui e olhar para estes bebés, dói porque dava tudo o que tenho para que os meus tivessem tido esta oportunidade mas que infelizmente não foi possível, dói porque olho para o TEU filho e penso nos que perdi, ainda assim estou aqui… talvez seja mesmo estúpida e o que tenho de fazer é desaparecer de vez, talvez assim percebas o quanto nojento estás a ser…
- Desculpa…
- Chega de pedidos de desculpas… se queres fazer alguma coisa pelo bem da nossa amizade - olhou-me nos olhos - AMA O TEU FILHO! E agora escolhe o nome do menino de uma vez!
- Ajudas-me? - a Mariana revirou os olhos e depois de bufar
- Vá… diz lá nomes…
- Miguel, Tiago, Duarte,..., Rodrigo - fui debitando nomes mas sem “sentir” nenhum deles, talvez porque sempre sonhei viver este momento a dois com a Mari, mas não desta forma, a escolher o nome só do meu filho...
- Gosto de Miguel e de Tiago mas o menino não tem cara nem de Miguel nem de Tiago - olhei-a abismado - mas sim de Filipe!
- Filipe?
- Sim… é o teu segundo nome e o primeiro do teu filho! - olhei-a, tal como a Ana - É isso mesmo! Está decidido o menino será Filipe! - não consegui reagir de imediato e muito menos quando a vi e ouvi - então amor gostas do teu nome - também a Mariana já tinha a sua mão no interior da incubadora e acariciava o menino enquanto falava com ele, aquilo fragilizou-me tanto que não consegui segurar as lágrimas - Filipe… ai pequenino estás tramado com o pai que te calhou… sabes o teu papá sempre levou muito tempo para tomar certas decisões mas isso não significa que não te ame…


Mariana
Ao fim de quatro dias a minha paciência esgotou-se, acabei por admitir o quanto dói acompanhar de perto toda esta situação e talvez tenha sido isso que fez o Ruben reagir, finalmente consegui que sentisse pela primeira vez o filho e que escolhesse o nome, se bem que o nome fui eu que o dei.
Estava a observar o meu amigo a olhar para o filho ao mesmo tempo que lhe fazia festinhas quando de repente comecei a ouvir um apito diferente dos restantes, percebi que vinha de uma das máquinas que estavam ligadas ao Filipe mas não tive tempo para reagir, pois em menos de nada já nos tinham afastado e já estavam de volta do pequenino, fomos obrigados a sair sem saber se o voltaríamos a ver com vida…
Irá o Filipe sobreviver?
Como ficará o Ruben depois de ver o seu filho “apagar” à sua frene?
E a Sofia que renegou o filho voltará atrás na sua palavra? Irá “assombrar” a vida do Ruben daqui para a frente?
E até onde esta aproximação da Mariana e do Ruben irá?