(Maria)
Os dias tem sido longos desde que a minha prima cortou relações comigo, mas mais longos ainda desde que tomei conhecimento do motivo. O João como prometeu falou com o Ruben que lhe acabou por confessar não conseguir fazer a Mariana tocar no assunto.
Durante todo este tempo coloquei-me na posição da Mariana, percebo-a, percebo que sinta que tudo foi uma mentira e que esteja baralhada. Mas não consigo aceitar porque me magoa muito que ela me corte assim da sua vida, afinal foi por essa mentira que nos conhecemos mas não foi ela que nos uniu. Quantas primas "de sangue" existem por esse mundo fora que até podem viver juntas 24h/dia 365 dias por ano e mesmo assim não se suportam?! Até irmãos quanto mais primos! Sim nós somos, éramos, sei lá... Primas mas o que nos unia era amizade, era a cumplicidade que criamos ao longo de todos estes anos e que para mim conta mais do que uma mera semelhança de adn.
Era isto que repetia pela milésima vez ao meu tio
- Maria eu já percebi isso! E acha que deixei de gostar da tua prima ou que gosto de vocês as duas de maneira diferente só porque afinal não somos biologicamente da mesma família?! Mas não podemos fazer nada ela decidiu que para ela e para a gravidez dela esta é a melhor solução...
- Que seja! Mas para mim e para a minha gravidez não é! Tio sabes perfeitamente aquilo que passei nas últimas 37 semanas... E por isso sabes que se não fosse ela... Eu preciso da Mari! Sabes quanto tempo falta para o meu filho nascer?! Onde está a madrinha? Tou a ser egoísta? Tou! E depois?! Se ela pode eu também e por isso mesmo podes parar de gastar saliva porque assim que o Ruben me der o toque que combinou com o João dar assim que chegar à clínica eu vou direta para lá!
- Não mudas de idéias? - neguei com um movimento de cabeça - então vou contigo... Vocês não estão em condições de se meterem numa situação dessas e só vou ficar descansado se lá estiver!
- É que nem penses! Esta conversa vai ser só nossa! E além disso está lá o Ruben e a Ana! - nesse exato momento o meu telemóvel dá sinal - tá na hora...
- Já que não te consigo fazer mudar de idéias só espero que essa loucura corra bem! Ahhh e quando caírem nos braços uma da outra não te esqueças de dar notícias aqui ao velho!
- Ok! Txau!!!
Sai disparada, pelo menos tanto quanto o meu barrigão deixava. No carro esqueci os limites de velocidade e assim que estacionei voltei a voar até ao consultório da Ana, sabia que não podia perder um minuto pois se a consulta estivesse a horas como era ponto de honra da Ana e eu me atrasasse já não a apanharia.
Durante todo o caminho só conseguia prever a conversa, o que eu ia dizer e ela responder, conosco sempre tinha sido tudo muito natural éramos muito intuitivas no que se relacionava com a outra e agora eu estava completamente perdida, não imaginava como ela iria reagir com esta minha “surpresa” e muito menos como eu própria iria reagir caso ela me rejeitasse assim cara-a-cara. Estava já parada na porta da clínica quando oiço a voz do Ruben a despedir-se da Ana, nesse mesmo instante entro na sala de espera e vejo-os novamente a minha prima está com a barriguinha já tão grande e apesar de tudo era notória a sua felicidade, óptimo a Ana devia-lhe ter dado boas noticias sobres os “monstrinhos”. Ainda a olhei durante uns minutos apenas para matar saudades, sabia que assim que me fizesse notar as coisas iriam mudar, mas não aguentei mais
- Boa tarde! - entrei fingindo que não sabia que a encontraria ali, só o Ruben sabia que iria, já que a Ana não iria compactuar com tal principalmente como nossa médica e assim que me ouviu olhou-me admirada, o Ruben discretamente me piscou o olho já a Mariana depois de confirmar que era mesmo eu apressou-se a despedir-se da Ana.
- Bom Ana então volto daqui a um mês! Beijinhos que já vi que hoje não sou a ultima paciente. - assim que terminou de falar dirigiu-se de imediato à porta
- Mariana! - chamei-a e ela ignorou-me por isso cheguei-me perto dela e com um movimento mais brusco fi-la olhar para mim - Prima olha para mim! - ela baixou a cabeça e tentou afastar-se - Mariana! Vais mesmo voltar-me as costas?! Mariana se é isso que queres juro-te que nunca mais me vais ver na tua vida! E que o Guilherme nem se quer vai imaginar que existe alguém com o teu nome, quanto mais que poderia ter sido a sua madrinha, que ele está aqui ainda na minha barriga e que vai nascer e crescer porque quando era microscópico TU fizeste das tripas coração para que ele estivesse bem. - eu já chorava e a Mariana fingia que não me ouvia com a cara voltada para o chão, agora já entre os braços do Ruben que a abraçou
- Maria pára!
- Maria pára nada! Ana desculpa, mas ela não pense que toma as decisões que quer e que afectam a vida dos outros sem nem sequer informar os visados e ninguém lhe diz nada! - a Ana apenas se aproximou de mim e senti-a pousar a sua mão no meu ombro, sabia que era uma forma de me transmitir força, mas acima de tudo calma - E tu? Vais continuar ai a fingir-te de morta? Eu estou a falar contigo!! - esperei alguns segundos e nada - Já vi que sim! Olha que até agora cheguei a sentir-me mal por imaginar o que deves estar a sofrer - finalmente reagiu olhou-me admirada, pelos vistos o Ruben não lhe tinha dito que eu já sabia - Tás a olhar assim porquê?! Achas mesmo que ninguém ia ter o mínimo de piedade de mim e contar-me o que se passava? Pois enganaste-te o tio Jorge depois de semanas a ver-me penar por não imaginar o que raio teria eu feito para que do nada me tivesses deixado de falar, para que nem um “morre” por sms te dignasses a mandar e depois de horas a implorar-lhe que o fizesse acabou por me contar o que se passa. - ela olhava-me mas parecia que eu estar a falar com ela ou com uma parede era a mesma coisa - E sabes o que aconteceu?! Fiquei a sentir-me péssima! Porque eu andava preocupada comigo quando tu devias estar mal, e eu não conseguia deixar de ser egoísta e pensar que... aahhhh - senti uma dor relativamente forte e anormal no fim das costas - pensar que o Guilherme está a crescer e a madrinha não está a acompanhar! Que o meu ou minha afilhada está a crescer e eu não posso ver! Isto claro quando não estava a pensar se ainda teria madrinha para o meu filho ou se ainda teria afilhado/a! E tu?! Fugiste!! Jogaste fora os laços que nos uniam! E não falo dos familiares e de sangue porque esses apesar de não concordar percebo que os cortes, mas sempre pensei que antes de tudo fossemos amigas... aquela historia das “irmãs de mães diferentes” aaaaaaaaaaahhhhhhhhhhhhhh - voltei a sentir agora mais forte e a apanhar também a barriga, confesso que me assustei e por isso joguei a mão à barriga
- Maria!! - ouvi o Ruben e a Ana ao mesmo tempo
- Eu estou bem! - respondi-lhes e continuei - “irmãs de mães diferentes” e as “irmãs que nós escolhemos” a AMIZADE! Deixou tudo de existir?? Jogaste fora porque alguém errou por te amar?? ai... ai... aiiiiin - respirei fundo - FALA!!! Diz que tenho razão! Diz que não queres saber mais de nós! Que não queres saber mais de MIM - as lágrimas pulavam dos meus olhos não só pela raiva e pela tristeza que aquela postura da Mariana me provocava, mas também por este desconforto e por vezes mesmo dor que me estava a assustar
- É isso que queres?! Pois bem! Eu não te quero mais ver! Tu não me és nada! Ou melhor és só mais um dos detalhes que compunha a mentira toda em que vivi! - voltou as costas e saiu, depois de ter falado como se nada fosse
- AAAAAAAAAAAAAAAAIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIII! - senti uma dor mais forte a Ana de imediato pediu à assistente que lhe chamasse com urgência uma ambulância, não percebi porquê e achei que fosse um exagero, o Ruben que tinha saído atrás da Mariana voltou atrás
- Maria? O que é que tens? - não lhe respondi - Ana??
- Ruben, não sei! Mas pela postura corporal dela tenho medo que o Guilherme nasça agora ou que seja sinal de que não está bem, eu vou com ela para o hospital!
- Não! Ana eu não vou para lado nenhum! É só um susto... são contrações de treino né? Tu avisaste-me que elas podiam aparecer... leva-me só para casa
- Maria a médica aqui sou eu! E depois do estado em que tens estado e do que eu vi aqui... desculpa, mas vamos para o hospital nem sequer te vou avaliar aqui!
- Dra a ambulância vai demorar...
- Cancela! Ruben ajuda-me aqui a leva-la até ao meu carro
Eles apoiaram-me os dois mas ao fim de dois passos o Ruben acabou mesmo por me pegar ao colo, passamos pela Mariana que estava junto do carro que estava estacionado ao lado do da Ana, ela para variar nem se torceu nem amolgou. Assim que a Ana abriu a porta o Ruben sentou-me no banco de trás
- Ana eu conduzo!
- Ruben esquece!
- Maria ninguém te perguntou nada!
- Ruben desaparece a tua mulher e os teus filhos estão à tua espera e eu não quero que tenhas problemas outra vez por nossa casa!
- Tens a certeza?
- Tenho! Desaparece! - ele meteu-se dentro do carro deu-me um beijo na testa - tem calma, vai correr tudo bem... bebé o padrinho quer conhecer-te mas ainda é cedo fica lá quietinho!
- Ruben ele não vai nascer!!! - disse irritada - Ele não pode nascer já! Ainda faltam 3 semanas! E o João não está cá! - neste momento acho que me caiu a ficha, comecei a chorar - ele não pode, não vai nascer... eu tou sozinha...
- Maria calma por favor! Nós vamos já para o hospital e vemos o que se passa e sozinha não estás! Nós estamos aqui contigo... Ruben liga ao João por favor... e vai lá que se não fores eu não sei se consigo salvar os três juniores!
- Ok eu ligo ao João... Maria eu ligo-lhe e fico à espera de saber como estás... e só te livras de mim porque nem eu nem a Ana aguentamos as duas em crise!
Ele acabou por ir embora e Ana que já estava no lugar de condutor saiu disparada.
(João)
O telefone tocou, era o Ruben pensei que as noticias só podiam ser as melhores
- Puto já te deixaram sozinho, para meterem a conversa em dia?
- João! -a voz dele assustou-me - Onde estás?
- Em casa! O que é que se passa?
- As coisas correram mal, a Mariana não quis falar com a Maria e acabou mesmo por dizer que já nunca mais a queria ver que não queria saber dela e do bebé e a Maria com o stress com que estava...
- Não pares agora!!!
- A Ana está a leva-la para o hospital! Ela acha que pode ser um parto prematuro!
- O QUÊ?!!
- A Maria estava... começou com contracções enquanto falava com a Mari e ... - ouvi uma porta de carro a fechar - e a Ana pensa que o Guilherme vai chegar mesmo mais cedo, puto eu tentei ir com elas para o hospital, mas a Maria não me deixou... João???
- O que é que eu faço?! Como é que eu chego ai agora?? - estava desesperado não sabia em que pensar e muito menos o que fazer, estava cheio do medo... parto prematuro pode ser complicado e....
- De avião! Nem penses em meter-te no carro! Eu só vou para cima amanhã qualquer coisa estou aqui por isso tem calma
- Calma?! O meu filho vai nascer... antes do tempo! E eu estou aqui! E a Maria deve estar em pânico porque ela anda cheia de medo do parto
- João eu tenho de desligar agora, já te ligo, mas não arranques daí à parva a Maria está acompanhada!
- Sim... sim!
Assim que desliguei a chamada liguei para a minha mãe, ela ficou de ir ter com a Maria ao hospital, liguei também aos pais da Maria e ao Jorge, precisei garantir que a Maria não estaria sozinha de maneira nenhuma. Depois de todos alertados liguei ao clube e obtive as devidas autorizações para me ausentar, voos para Lisboa não são muitos a sair daqui por isso atirei meia dúzia de coisas para a mala e arranquei para a estrada afinal tinha centenas de km’s e mais de oito horas pela frente.
(Maria)
Quando chegamos ao hospital a Ana entrou directamente comigo para uma sala de observação de obstetrícia ligou-me a um imenso mar de fios avaliou todos os dados vitais, meus e do Guilherme, fez-me uma eco e
- Maria o Guilherme quer mesmo nascer amiga!
- E agora? - eu estava em pânico - Ainda é cedo né?
- Calma amiga! Ele está com 46cm e com 2600kg por isso pode nascer...
- Eu quero esperar! Eu quero o João! - nisto o telemóvel da Ana tocou
- E tás cheia de sorte - passou-me o telemóvel para a mão
- Amor!!!
- Maria! Onde estás? Como estás? O menino??
- Amor... eu tou no hospital - temia a reacção do João, ele tinha-me avisado sobre isto poder acontecer
- Eu já sei Maria - falou num suspiro - o Ruben ligou-me... como é que estás?
- A Ana diz que o Guilherme quer mesmo nascer... e que tem tamanho e peso para que aconteça sem problemas, mas eu tenho medo! Eu tou sozinha! Eu quero-te aqui! - falava a uma velocidade louca e chorava também
- Calma eu já vou a caminho! Achas que ele aguenta mais umas horinhas? - o telemóvel estava em alta-voz a pedido da Ana que acabou por responder
- Não papá ele em principio não vai esperar! E tu vem com calma!
- Ana como é que ela está?
- Em pânico! Mas é normal foram muitas emoções! E a juntar o medo que sempre teve deste momento...
- Olhem vocês os dois eu estou aqui.... aiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiii
- João vem com calma que eu vou tratar da chegada do teu filho e a Maria não pode estar ao telemóvel!
- Amoor vem devagar! Nós estamos aqui à tua espera! - estava assustada com o João vir a conduzir
- Não te preocupes comigo Maria! Calma adoro-vos!!!
- Desculpa!!
- Esquece Maria! Força eu tou já a chegar!!!
A Ana desligou a chamada
- Desculpa, mas está na hora amiga! E quanto a essa ideia de que estás sozinha, bem se eu não chego ficas a saber que lá fora a sala tá cheia temos dois avôs e duas avós ansiosas, um tio avô a tentar acalmar tudo, mas igualmente nervoso e um padrinho que por ele estava aqui...
- Oh mas aqui és minha médica e não minha amiga, estás cá para garantir que o Guilherme nasce bem, não para me agarrar a mão e dar-me força...
- Ok estás desculpada, mas podes ter um acompanhante queres que chame alguém?
- Disseste que o Ruben estava ai?
- Sim...
- Chama-o por favor! Afinal os padrinhos servem para substituir o pai e o Ruben prometeu-me que estava aqui comigo, quando eu descobri que estava grávida...
- Só vocês! Eu vou lá chama-lo
(João)
Consegui falar com a Maria e passado poucos minutos o telemóvel tocou novamente,
- Tou
- Puto tou aqui no hospital
- E?
- E... a tua namorada acabou de me mandar chamar! Segundo a Ana ela diz que se o pai não está o padrinho assume o lugar... se não te importares, eu vou!
- Importar?! Mas ainda estás ao telefone porquê?? Vai ter com ela! Diz-lhe que está tudo bem... eu estou já a chegar!
- Tem calma! Eu vou e juro que filmo tudo... tem de ser é com o telemóvel que não tava preparado, mas tu vais ver tudo!
- Obrigado mano!
Ele desligou e secretamente saber que ela não estava sozinha deixou-me mais calmo.
(Maria)
- Já estás maquilhada e penteada? - o Ruben entrou no bloco junto com a Ana já todo “equipado” e quando olhei na sua direcção vinha a filmar com o telemóvel
- O que é que tás a fazer? Tás parvo?! Desliga isso!!!
- Nem penses prometi ao pai que filmava tudo! - consegui neste momento vê-lo bem e estava todo verde das batas
- O verde fica-te bem!
- Sim... sim! Isso é do menino estar a nascer... como estás? - sentou-se numa cadeira que uma enfermeira lhe passou
- Com medo! Com dores! Eu não tenho nada para o menino vestir!!! - ouvi-o gargalhar
- Tem calma a tua mãe passou por tua casa tens lá fora as vossas malas!
- E tu o que fazes aqui? - estava a conversar com ele para me abstrair do procedimentos da Ana que me deixavam mais assustada
- Diz que a minha comadre queria companhia!
- E a tua mulher?? - onde é que ela terá ficado?!
- Maria agora não! Pensa só em ti
- Maria! - a Ana chamou-me a atenção eu olhei - Mudança de planos vamos ter de passar para uma cesariana!
- O quê? Porquê? - eu e o Ruben falamos em simultâneo
- O Guilherme tem o cordão em volta do pescoço e eu não quero arriscar... amiga confia em mim... é mesmo só precaução!
- OH Ana...
- O meu colega da anestesia já foi chamado ... não sentes nada e se quiseres ainda vamos a tempo de epidural e ai podes ver logo o menino como num parto normal... e o Ruben também pode ficar...
- Eu quero ficar!
- Tu não apitas! Ana o que aconselhas?
- Epidural para poderes ver logo o menino! Estás em condições para a receber e com o Guilherme também tirando a colocação do cordão não há mais riscos...
- Que seja!
Os momentos seguintes foram para me prepararem para a intervenção cirúrgica, sim que é isso que uma cesariana é, além da anestesia que foi bastante eficaz, tinha o Ruben a manter-me distraída, sim que se eu tava ansiosa, nervosa, cheia de medo mas o Ruben não estava melhor!
- Maria vou começar - a Ana falou por trás do lençol que tinha em baixo do peito de forma a tapar a visão do que se passava a mim e ao Ruben
- Ok...
- Primi... Maria tou aqui! - ele deu-me a mão - um sorrisinho aqui pró papá ver!
- Pró papá só deixo uma coisa, um aviso! Nem penses que vou passar por isto outra vez! O Guilherme vai ser filho único!
- Oh Maria! - a Ana gritou-me - tu não me faças rir! Olha que quem fica com uma cicatriz feia és tu!
- Já me calei!
E calei-me mesmo, aliás fez-se silencio na sala, não sentia nada do que a Ana e os colegas me faziam mas podia ver, ia acompanhando todos os seus movimentos através das sombras que passavam o lençol e alguns momentos de pois, impossíveis de quantificar porque perdi completamente a noção do tempo desde que entrei na clínica e vi a minha prima, pude ouvir um som finalmente um som e era o som de um chorinho, o Ruben mexeu-se de imediato para voltar a câmara do telemóvel em direcção da Ana que já tinha nas mãos o meu menino ainda não o via, mas já o ouvia e sentia as lágrimas a correr-me pela cara.
- Nasceu... - ouvi o Ruben num sussurro e só consegui rir, ele espreitou e voltou à posição inicial - é... é...
- É lindo! E aparentemente saudável, - a voz da Ana ia-se aproximando - Olá mamã! - assim que falou colocou-o sob o meu peito
- Olá! Amor lindo! A mamã estava desejosa de ver a tua carinha! - só conseguia olhar para aquele rostinhho lindo - O papá vem já... mas olha aqui quem está... é o maluquinho do padrinho! Que ainda passou umas quantas por nossa causa não foi bebé?! Diz ola padrinho! - segurei na mão do meu menino e tentei fazer um adeus
- Olá Campeão! O padrinho vai ali fora e logo volta para te ver quando tiveres limpo sim?! - o Ruben estava com uma cara de nojo hilariante
- Bem campeão anda cá que a tia Ana vai levar-te ao banho e vai vestir-te antes que o padrinho desmaie - rimos todos - Amiga vou leva-lo para os primeiros exames e para o vestir, enquanto tens que ficar aqui um bocadinho no recobro, aproveita a anestesia e dorme, assim que puderes levo-te para um quarto e prometo que tens lá o príncipe à espera!
- Ana... obrigada!!
- Oh...
- Mostra-o aos avós e ao tio sim?
- Sim! E nem precisas pedir que o papá tem entrada liberada a qualquer hora!
Levaram finalmente o meu menino e o Ruben saiu também, prometeu-me ligar ao João assim que chegasse à sala de espera
(João)
Passou mais de uma hora quando volto a ter noticias, novamente do Ruben
- PARABÉNS PAPÁ!!!! - senti as lágrimas a correr - É um rapagão com 46cm e 2595g nasceu de cesariana...
- Nasceu de quê?!
- Cesariana!
- O que é que aconteceu?
- O cordão estava em volta do pescoço a Ana teve medo e preferiu não arriscar, mas a Maria levou epidural esteve e está acordada, viu o menino e agora está no recobro o menino está a tomar banho... nasceu todo nojento mano! - não consegui não gargalhar - Tás a conduzir ou vais parar agora?
- Tenho uma estação de serviço acho que vou parar...
- A chorar puto?? Pára lá que assim que olhares vais ter a primeira foto do teu filho!
- Obrigado mano! Tou a chorar sim! Quando os teus nascerem logo me contas!
Parei uns km’s à frente numa estação de serviço, e como o prometido tinha a foto do Guilherme e mensagens da minha mãe, do meu pai e dos pais da Maria.
As horas a seguir foram um tormento e quando finalmente cheguei ao hospital tinha a Ana à minha espera
- Parabéns papá!!!
- Obrigado amiga!
- Anda! Vamos lá vê-los - ela levou-me directamente ao quarto - É esta a porta, entra conhece o bonitão, dá uns mimos na mamã e depois logo falamos, mas temos mesmo de falar
- Estás a assustar-me passa-se alguma coisa?
- Calma, para já está tudo bem, mas tendo em conta todas as circunstâncias em que aconteceu o parto e um ou dois sinais já dados pelo Maria acho melhor prevenirmos para não termos de remediar...
- Estás a falar de quê?
- Vai lá... goza-os aos dois! Aproveitem estes momentos únicos os três e depois já falamos
Fiz o que me disse e assim que abri a porta a Maria desviou o olhar do pequeno berço e assim que me viu sorriu, foi impossível não sorri também ela fez-me um gesto para me chegar perto dela sem barulho, vi pela primeira vez o meu filho que dormia, mas assim que me sentei na cama ao lado da Maria ele abriu os olhos
- Olá papá! Eu não consegui esperar! - a Maria falava por ele - Podex pegar eu! Eu não choro!
- Eu não sei...
- Oh João?!
- É tão pequenino e se o deixo cair?!
- João Pedro! Eu não me posso mexer desta cama tou perdida de dores e já o peguei e já lhe dei de mamar por isso ganha mas é vergonha na cara!
Não tive resposta peguei o pequenino cheio de medo e ele realmente não chorou e acabou mesmo por voltar a adormecer, deitei-o novamente no berço para estar mais confortável e sentei-me na cabeceira da cama da Maria ela trocou de imediato a almofada pelo meu peito e estava visivelmente cansada e com dores por isso optei por apenas lhe dar alguns mimos e acabei por a ver adormecer.
Depois de alguns minutos quando percebi que nem mãe nem filho iam acordar, fui procurar pela Ana para saber afinal o que se estava a passar porque tinha ficado preocupado.
Os dias tem sido longos desde que a minha prima cortou relações comigo, mas mais longos ainda desde que tomei conhecimento do motivo. O João como prometeu falou com o Ruben que lhe acabou por confessar não conseguir fazer a Mariana tocar no assunto.
Durante todo este tempo coloquei-me na posição da Mariana, percebo-a, percebo que sinta que tudo foi uma mentira e que esteja baralhada. Mas não consigo aceitar porque me magoa muito que ela me corte assim da sua vida, afinal foi por essa mentira que nos conhecemos mas não foi ela que nos uniu. Quantas primas "de sangue" existem por esse mundo fora que até podem viver juntas 24h/dia 365 dias por ano e mesmo assim não se suportam?! Até irmãos quanto mais primos! Sim nós somos, éramos, sei lá... Primas mas o que nos unia era amizade, era a cumplicidade que criamos ao longo de todos estes anos e que para mim conta mais do que uma mera semelhança de adn.
Era isto que repetia pela milésima vez ao meu tio
- Maria eu já percebi isso! E acha que deixei de gostar da tua prima ou que gosto de vocês as duas de maneira diferente só porque afinal não somos biologicamente da mesma família?! Mas não podemos fazer nada ela decidiu que para ela e para a gravidez dela esta é a melhor solução...
- Que seja! Mas para mim e para a minha gravidez não é! Tio sabes perfeitamente aquilo que passei nas últimas 37 semanas... E por isso sabes que se não fosse ela... Eu preciso da Mari! Sabes quanto tempo falta para o meu filho nascer?! Onde está a madrinha? Tou a ser egoísta? Tou! E depois?! Se ela pode eu também e por isso mesmo podes parar de gastar saliva porque assim que o Ruben me der o toque que combinou com o João dar assim que chegar à clínica eu vou direta para lá!
- Não mudas de idéias? - neguei com um movimento de cabeça - então vou contigo... Vocês não estão em condições de se meterem numa situação dessas e só vou ficar descansado se lá estiver!
- É que nem penses! Esta conversa vai ser só nossa! E além disso está lá o Ruben e a Ana! - nesse exato momento o meu telemóvel dá sinal - tá na hora...
- Já que não te consigo fazer mudar de idéias só espero que essa loucura corra bem! Ahhh e quando caírem nos braços uma da outra não te esqueças de dar notícias aqui ao velho!
- Ok! Txau!!!
Sai disparada, pelo menos tanto quanto o meu barrigão deixava. No carro esqueci os limites de velocidade e assim que estacionei voltei a voar até ao consultório da Ana, sabia que não podia perder um minuto pois se a consulta estivesse a horas como era ponto de honra da Ana e eu me atrasasse já não a apanharia.
Durante todo o caminho só conseguia prever a conversa, o que eu ia dizer e ela responder, conosco sempre tinha sido tudo muito natural éramos muito intuitivas no que se relacionava com a outra e agora eu estava completamente perdida, não imaginava como ela iria reagir com esta minha “surpresa” e muito menos como eu própria iria reagir caso ela me rejeitasse assim cara-a-cara. Estava já parada na porta da clínica quando oiço a voz do Ruben a despedir-se da Ana, nesse mesmo instante entro na sala de espera e vejo-os novamente a minha prima está com a barriguinha já tão grande e apesar de tudo era notória a sua felicidade, óptimo a Ana devia-lhe ter dado boas noticias sobres os “monstrinhos”. Ainda a olhei durante uns minutos apenas para matar saudades, sabia que assim que me fizesse notar as coisas iriam mudar, mas não aguentei mais
- Boa tarde! - entrei fingindo que não sabia que a encontraria ali, só o Ruben sabia que iria, já que a Ana não iria compactuar com tal principalmente como nossa médica e assim que me ouviu olhou-me admirada, o Ruben discretamente me piscou o olho já a Mariana depois de confirmar que era mesmo eu apressou-se a despedir-se da Ana.
- Bom Ana então volto daqui a um mês! Beijinhos que já vi que hoje não sou a ultima paciente. - assim que terminou de falar dirigiu-se de imediato à porta
- Mariana! - chamei-a e ela ignorou-me por isso cheguei-me perto dela e com um movimento mais brusco fi-la olhar para mim - Prima olha para mim! - ela baixou a cabeça e tentou afastar-se - Mariana! Vais mesmo voltar-me as costas?! Mariana se é isso que queres juro-te que nunca mais me vais ver na tua vida! E que o Guilherme nem se quer vai imaginar que existe alguém com o teu nome, quanto mais que poderia ter sido a sua madrinha, que ele está aqui ainda na minha barriga e que vai nascer e crescer porque quando era microscópico TU fizeste das tripas coração para que ele estivesse bem. - eu já chorava e a Mariana fingia que não me ouvia com a cara voltada para o chão, agora já entre os braços do Ruben que a abraçou
- Maria pára!
- Maria pára nada! Ana desculpa, mas ela não pense que toma as decisões que quer e que afectam a vida dos outros sem nem sequer informar os visados e ninguém lhe diz nada! - a Ana apenas se aproximou de mim e senti-a pousar a sua mão no meu ombro, sabia que era uma forma de me transmitir força, mas acima de tudo calma - E tu? Vais continuar ai a fingir-te de morta? Eu estou a falar contigo!! - esperei alguns segundos e nada - Já vi que sim! Olha que até agora cheguei a sentir-me mal por imaginar o que deves estar a sofrer - finalmente reagiu olhou-me admirada, pelos vistos o Ruben não lhe tinha dito que eu já sabia - Tás a olhar assim porquê?! Achas mesmo que ninguém ia ter o mínimo de piedade de mim e contar-me o que se passava? Pois enganaste-te o tio Jorge depois de semanas a ver-me penar por não imaginar o que raio teria eu feito para que do nada me tivesses deixado de falar, para que nem um “morre” por sms te dignasses a mandar e depois de horas a implorar-lhe que o fizesse acabou por me contar o que se passa. - ela olhava-me mas parecia que eu estar a falar com ela ou com uma parede era a mesma coisa - E sabes o que aconteceu?! Fiquei a sentir-me péssima! Porque eu andava preocupada comigo quando tu devias estar mal, e eu não conseguia deixar de ser egoísta e pensar que... aahhhh - senti uma dor relativamente forte e anormal no fim das costas - pensar que o Guilherme está a crescer e a madrinha não está a acompanhar! Que o meu ou minha afilhada está a crescer e eu não posso ver! Isto claro quando não estava a pensar se ainda teria madrinha para o meu filho ou se ainda teria afilhado/a! E tu?! Fugiste!! Jogaste fora os laços que nos uniam! E não falo dos familiares e de sangue porque esses apesar de não concordar percebo que os cortes, mas sempre pensei que antes de tudo fossemos amigas... aquela historia das “irmãs de mães diferentes” aaaaaaaaaaahhhhhhhhhhhhhh - voltei a sentir agora mais forte e a apanhar também a barriga, confesso que me assustei e por isso joguei a mão à barriga
- Maria!! - ouvi o Ruben e a Ana ao mesmo tempo
- Eu estou bem! - respondi-lhes e continuei - “irmãs de mães diferentes” e as “irmãs que nós escolhemos” a AMIZADE! Deixou tudo de existir?? Jogaste fora porque alguém errou por te amar?? ai... ai... aiiiiin - respirei fundo - FALA!!! Diz que tenho razão! Diz que não queres saber mais de nós! Que não queres saber mais de MIM - as lágrimas pulavam dos meus olhos não só pela raiva e pela tristeza que aquela postura da Mariana me provocava, mas também por este desconforto e por vezes mesmo dor que me estava a assustar
- É isso que queres?! Pois bem! Eu não te quero mais ver! Tu não me és nada! Ou melhor és só mais um dos detalhes que compunha a mentira toda em que vivi! - voltou as costas e saiu, depois de ter falado como se nada fosse
- AAAAAAAAAAAAAAAAIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIII! - senti uma dor mais forte a Ana de imediato pediu à assistente que lhe chamasse com urgência uma ambulância, não percebi porquê e achei que fosse um exagero, o Ruben que tinha saído atrás da Mariana voltou atrás
- Maria? O que é que tens? - não lhe respondi - Ana??
- Ruben, não sei! Mas pela postura corporal dela tenho medo que o Guilherme nasça agora ou que seja sinal de que não está bem, eu vou com ela para o hospital!
- Não! Ana eu não vou para lado nenhum! É só um susto... são contrações de treino né? Tu avisaste-me que elas podiam aparecer... leva-me só para casa
- Maria a médica aqui sou eu! E depois do estado em que tens estado e do que eu vi aqui... desculpa, mas vamos para o hospital nem sequer te vou avaliar aqui!
- Dra a ambulância vai demorar...
- Cancela! Ruben ajuda-me aqui a leva-la até ao meu carro
Eles apoiaram-me os dois mas ao fim de dois passos o Ruben acabou mesmo por me pegar ao colo, passamos pela Mariana que estava junto do carro que estava estacionado ao lado do da Ana, ela para variar nem se torceu nem amolgou. Assim que a Ana abriu a porta o Ruben sentou-me no banco de trás
- Ana eu conduzo!
- Ruben esquece!
- Maria ninguém te perguntou nada!
- Ruben desaparece a tua mulher e os teus filhos estão à tua espera e eu não quero que tenhas problemas outra vez por nossa casa!
- Tens a certeza?
- Tenho! Desaparece! - ele meteu-se dentro do carro deu-me um beijo na testa - tem calma, vai correr tudo bem... bebé o padrinho quer conhecer-te mas ainda é cedo fica lá quietinho!
- Ruben ele não vai nascer!!! - disse irritada - Ele não pode nascer já! Ainda faltam 3 semanas! E o João não está cá! - neste momento acho que me caiu a ficha, comecei a chorar - ele não pode, não vai nascer... eu tou sozinha...
- Maria calma por favor! Nós vamos já para o hospital e vemos o que se passa e sozinha não estás! Nós estamos aqui contigo... Ruben liga ao João por favor... e vai lá que se não fores eu não sei se consigo salvar os três juniores!
- Ok eu ligo ao João... Maria eu ligo-lhe e fico à espera de saber como estás... e só te livras de mim porque nem eu nem a Ana aguentamos as duas em crise!
Ele acabou por ir embora e Ana que já estava no lugar de condutor saiu disparada.
(João)
O telefone tocou, era o Ruben pensei que as noticias só podiam ser as melhores
- Puto já te deixaram sozinho, para meterem a conversa em dia?
- João! -a voz dele assustou-me - Onde estás?
- Em casa! O que é que se passa?
- As coisas correram mal, a Mariana não quis falar com a Maria e acabou mesmo por dizer que já nunca mais a queria ver que não queria saber dela e do bebé e a Maria com o stress com que estava...
- Não pares agora!!!
- A Ana está a leva-la para o hospital! Ela acha que pode ser um parto prematuro!
- O QUÊ?!!
- A Maria estava... começou com contracções enquanto falava com a Mari e ... - ouvi uma porta de carro a fechar - e a Ana pensa que o Guilherme vai chegar mesmo mais cedo, puto eu tentei ir com elas para o hospital, mas a Maria não me deixou... João???
- O que é que eu faço?! Como é que eu chego ai agora?? - estava desesperado não sabia em que pensar e muito menos o que fazer, estava cheio do medo... parto prematuro pode ser complicado e....
- De avião! Nem penses em meter-te no carro! Eu só vou para cima amanhã qualquer coisa estou aqui por isso tem calma
- Calma?! O meu filho vai nascer... antes do tempo! E eu estou aqui! E a Maria deve estar em pânico porque ela anda cheia de medo do parto
- João eu tenho de desligar agora, já te ligo, mas não arranques daí à parva a Maria está acompanhada!
- Sim... sim!
Assim que desliguei a chamada liguei para a minha mãe, ela ficou de ir ter com a Maria ao hospital, liguei também aos pais da Maria e ao Jorge, precisei garantir que a Maria não estaria sozinha de maneira nenhuma. Depois de todos alertados liguei ao clube e obtive as devidas autorizações para me ausentar, voos para Lisboa não são muitos a sair daqui por isso atirei meia dúzia de coisas para a mala e arranquei para a estrada afinal tinha centenas de km’s e mais de oito horas pela frente.
(Maria)
Quando chegamos ao hospital a Ana entrou directamente comigo para uma sala de observação de obstetrícia ligou-me a um imenso mar de fios avaliou todos os dados vitais, meus e do Guilherme, fez-me uma eco e
- Maria o Guilherme quer mesmo nascer amiga!
- E agora? - eu estava em pânico - Ainda é cedo né?
- Calma amiga! Ele está com 46cm e com 2600kg por isso pode nascer...
- Eu quero esperar! Eu quero o João! - nisto o telemóvel da Ana tocou
- E tás cheia de sorte - passou-me o telemóvel para a mão
- Amor!!!
- Maria! Onde estás? Como estás? O menino??
- Amor... eu tou no hospital - temia a reacção do João, ele tinha-me avisado sobre isto poder acontecer
- Eu já sei Maria - falou num suspiro - o Ruben ligou-me... como é que estás?
- A Ana diz que o Guilherme quer mesmo nascer... e que tem tamanho e peso para que aconteça sem problemas, mas eu tenho medo! Eu tou sozinha! Eu quero-te aqui! - falava a uma velocidade louca e chorava também
- Calma eu já vou a caminho! Achas que ele aguenta mais umas horinhas? - o telemóvel estava em alta-voz a pedido da Ana que acabou por responder
- Não papá ele em principio não vai esperar! E tu vem com calma!
- Ana como é que ela está?
- Em pânico! Mas é normal foram muitas emoções! E a juntar o medo que sempre teve deste momento...
- Olhem vocês os dois eu estou aqui.... aiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiii
- João vem com calma que eu vou tratar da chegada do teu filho e a Maria não pode estar ao telemóvel!
- Amoor vem devagar! Nós estamos aqui à tua espera! - estava assustada com o João vir a conduzir
- Não te preocupes comigo Maria! Calma adoro-vos!!!
- Desculpa!!
- Esquece Maria! Força eu tou já a chegar!!!
A Ana desligou a chamada
- Desculpa, mas está na hora amiga! E quanto a essa ideia de que estás sozinha, bem se eu não chego ficas a saber que lá fora a sala tá cheia temos dois avôs e duas avós ansiosas, um tio avô a tentar acalmar tudo, mas igualmente nervoso e um padrinho que por ele estava aqui...
- Oh mas aqui és minha médica e não minha amiga, estás cá para garantir que o Guilherme nasce bem, não para me agarrar a mão e dar-me força...
- Ok estás desculpada, mas podes ter um acompanhante queres que chame alguém?
- Disseste que o Ruben estava ai?
- Sim...
- Chama-o por favor! Afinal os padrinhos servem para substituir o pai e o Ruben prometeu-me que estava aqui comigo, quando eu descobri que estava grávida...
- Só vocês! Eu vou lá chama-lo
(João)
Consegui falar com a Maria e passado poucos minutos o telemóvel tocou novamente,
- Tou
- Puto tou aqui no hospital
- E?
- E... a tua namorada acabou de me mandar chamar! Segundo a Ana ela diz que se o pai não está o padrinho assume o lugar... se não te importares, eu vou!
- Importar?! Mas ainda estás ao telefone porquê?? Vai ter com ela! Diz-lhe que está tudo bem... eu estou já a chegar!
- Tem calma! Eu vou e juro que filmo tudo... tem de ser é com o telemóvel que não tava preparado, mas tu vais ver tudo!
- Obrigado mano!
Ele desligou e secretamente saber que ela não estava sozinha deixou-me mais calmo.
(Maria)
- Já estás maquilhada e penteada? - o Ruben entrou no bloco junto com a Ana já todo “equipado” e quando olhei na sua direcção vinha a filmar com o telemóvel
- O que é que tás a fazer? Tás parvo?! Desliga isso!!!
- Nem penses prometi ao pai que filmava tudo! - consegui neste momento vê-lo bem e estava todo verde das batas
- O verde fica-te bem!
- Sim... sim! Isso é do menino estar a nascer... como estás? - sentou-se numa cadeira que uma enfermeira lhe passou
- Com medo! Com dores! Eu não tenho nada para o menino vestir!!! - ouvi-o gargalhar
- Tem calma a tua mãe passou por tua casa tens lá fora as vossas malas!
- E tu o que fazes aqui? - estava a conversar com ele para me abstrair do procedimentos da Ana que me deixavam mais assustada
- Diz que a minha comadre queria companhia!
- E a tua mulher?? - onde é que ela terá ficado?!
- Maria agora não! Pensa só em ti
- Maria! - a Ana chamou-me a atenção eu olhei - Mudança de planos vamos ter de passar para uma cesariana!
- O quê? Porquê? - eu e o Ruben falamos em simultâneo
- O Guilherme tem o cordão em volta do pescoço e eu não quero arriscar... amiga confia em mim... é mesmo só precaução!
- OH Ana...
- O meu colega da anestesia já foi chamado ... não sentes nada e se quiseres ainda vamos a tempo de epidural e ai podes ver logo o menino como num parto normal... e o Ruben também pode ficar...
- Eu quero ficar!
- Tu não apitas! Ana o que aconselhas?
- Epidural para poderes ver logo o menino! Estás em condições para a receber e com o Guilherme também tirando a colocação do cordão não há mais riscos...
- Que seja!
Os momentos seguintes foram para me prepararem para a intervenção cirúrgica, sim que é isso que uma cesariana é, além da anestesia que foi bastante eficaz, tinha o Ruben a manter-me distraída, sim que se eu tava ansiosa, nervosa, cheia de medo mas o Ruben não estava melhor!
- Maria vou começar - a Ana falou por trás do lençol que tinha em baixo do peito de forma a tapar a visão do que se passava a mim e ao Ruben
- Ok...
- Primi... Maria tou aqui! - ele deu-me a mão - um sorrisinho aqui pró papá ver!
- Pró papá só deixo uma coisa, um aviso! Nem penses que vou passar por isto outra vez! O Guilherme vai ser filho único!
- Oh Maria! - a Ana gritou-me - tu não me faças rir! Olha que quem fica com uma cicatriz feia és tu!
- Já me calei!
E calei-me mesmo, aliás fez-se silencio na sala, não sentia nada do que a Ana e os colegas me faziam mas podia ver, ia acompanhando todos os seus movimentos através das sombras que passavam o lençol e alguns momentos de pois, impossíveis de quantificar porque perdi completamente a noção do tempo desde que entrei na clínica e vi a minha prima, pude ouvir um som finalmente um som e era o som de um chorinho, o Ruben mexeu-se de imediato para voltar a câmara do telemóvel em direcção da Ana que já tinha nas mãos o meu menino ainda não o via, mas já o ouvia e sentia as lágrimas a correr-me pela cara.
- Nasceu... - ouvi o Ruben num sussurro e só consegui rir, ele espreitou e voltou à posição inicial - é... é...
- É lindo! E aparentemente saudável, - a voz da Ana ia-se aproximando - Olá mamã! - assim que falou colocou-o sob o meu peito
- Olá! Amor lindo! A mamã estava desejosa de ver a tua carinha! - só conseguia olhar para aquele rostinhho lindo - O papá vem já... mas olha aqui quem está... é o maluquinho do padrinho! Que ainda passou umas quantas por nossa causa não foi bebé?! Diz ola padrinho! - segurei na mão do meu menino e tentei fazer um adeus
- Olá Campeão! O padrinho vai ali fora e logo volta para te ver quando tiveres limpo sim?! - o Ruben estava com uma cara de nojo hilariante
- Bem campeão anda cá que a tia Ana vai levar-te ao banho e vai vestir-te antes que o padrinho desmaie - rimos todos - Amiga vou leva-lo para os primeiros exames e para o vestir, enquanto tens que ficar aqui um bocadinho no recobro, aproveita a anestesia e dorme, assim que puderes levo-te para um quarto e prometo que tens lá o príncipe à espera!
- Ana... obrigada!!
- Oh...
- Mostra-o aos avós e ao tio sim?
- Sim! E nem precisas pedir que o papá tem entrada liberada a qualquer hora!
Levaram finalmente o meu menino e o Ruben saiu também, prometeu-me ligar ao João assim que chegasse à sala de espera
(João)
Passou mais de uma hora quando volto a ter noticias, novamente do Ruben
- PARABÉNS PAPÁ!!!! - senti as lágrimas a correr - É um rapagão com 46cm e 2595g nasceu de cesariana...
- Nasceu de quê?!
- Cesariana!
- O que é que aconteceu?
- O cordão estava em volta do pescoço a Ana teve medo e preferiu não arriscar, mas a Maria levou epidural esteve e está acordada, viu o menino e agora está no recobro o menino está a tomar banho... nasceu todo nojento mano! - não consegui não gargalhar - Tás a conduzir ou vais parar agora?
- Tenho uma estação de serviço acho que vou parar...
- A chorar puto?? Pára lá que assim que olhares vais ter a primeira foto do teu filho!
- Obrigado mano! Tou a chorar sim! Quando os teus nascerem logo me contas!
Parei uns km’s à frente numa estação de serviço, e como o prometido tinha a foto do Guilherme e mensagens da minha mãe, do meu pai e dos pais da Maria.
As horas a seguir foram um tormento e quando finalmente cheguei ao hospital tinha a Ana à minha espera
- Parabéns papá!!!
- Obrigado amiga!
- Anda! Vamos lá vê-los - ela levou-me directamente ao quarto - É esta a porta, entra conhece o bonitão, dá uns mimos na mamã e depois logo falamos, mas temos mesmo de falar
- Estás a assustar-me passa-se alguma coisa?
- Calma, para já está tudo bem, mas tendo em conta todas as circunstâncias em que aconteceu o parto e um ou dois sinais já dados pelo Maria acho melhor prevenirmos para não termos de remediar...
- Estás a falar de quê?
- Vai lá... goza-os aos dois! Aproveitem estes momentos únicos os três e depois já falamos
Fiz o que me disse e assim que abri a porta a Maria desviou o olhar do pequeno berço e assim que me viu sorriu, foi impossível não sorri também ela fez-me um gesto para me chegar perto dela sem barulho, vi pela primeira vez o meu filho que dormia, mas assim que me sentei na cama ao lado da Maria ele abriu os olhos
- Olá papá! Eu não consegui esperar! - a Maria falava por ele - Podex pegar eu! Eu não choro!
- Eu não sei...
- Oh João?!
- É tão pequenino e se o deixo cair?!
- João Pedro! Eu não me posso mexer desta cama tou perdida de dores e já o peguei e já lhe dei de mamar por isso ganha mas é vergonha na cara!
Não tive resposta peguei o pequenino cheio de medo e ele realmente não chorou e acabou mesmo por voltar a adormecer, deitei-o novamente no berço para estar mais confortável e sentei-me na cabeceira da cama da Maria ela trocou de imediato a almofada pelo meu peito e estava visivelmente cansada e com dores por isso optei por apenas lhe dar alguns mimos e acabei por a ver adormecer.
Depois de alguns minutos quando percebi que nem mãe nem filho iam acordar, fui procurar pela Ana para saber afinal o que se estava a passar porque tinha ficado preocupado.
O que será que a Ana anda a prever? Que sinais terá dado a Maria?
E o Ruben terá recuperado do “susto”?
A Mariana como será que vai reagir a todos estes acontecimentos e ao marido ter novamente estado junto da prima?