quinta-feira, 12 de dezembro de 2013

110 - "Mas posso sempre deixar-te com um miminho para te lembrares de vez em quando!"

Olá a todas
Antes demais queremos pedir desculpas pela demora em vos darmos novo capítulo mas tem-nos sido dificil conciliar as nossas vidas "reais" com as "imaginárias". Mas finalmente conseguimos terminar o capítulo e como "penitência" por vos termos feito esperar tanto tempo deixamos um capítulo um pouco maior...
Esperamos pelos vossos comentários...
Beijinhos
Mariana e Maria

João
Apesar de deixar sempre bem claro que nunca iria voltar a ter com ela nada mais que uma amizade, a Maria ter ficado por Valência enquanto tive doente e deixar-me aproveitar cada segundo com o nosso filho foi maravilhoso.
Dei por mim a viver aquilo com que tinha imaginado quando decidi vir para Valência e tentei que ela me acompanhasse, chegar a casa vindo do treino e ao abrir a porta em vez do silêncio ouvia gargalhadas, tinha companhia às refeições…
- Mas qual é mesmo a pressa para ires para casa? - perguntou o Hélder quando me ouviu recusar um “café” depois do treino
- A Maria volta para Lisboa amanhã… - ele e o Ricardo trocaram olhares e gargalhadas - e quero aproveitar estes últimos momentos com o Bruno…
- Se quiseres que o Bruno fique lá em casa esta noite… vão busca-lo amanhã!
- Muita piada Ricardo…
- Então meia-leca… vais dizer que vocês não fizeram as pazes?
- Claro que não Hélder… o puto chora sempre no momento H…
- Dois grandes palhaços que o circo nacional perdeu! Já não vos disse que estamos apenas a tentar manter uma relação de amizade como sempre tivemos por causa do nosso filho?
- E agora a verdade!
- Esta é a verdade Ricardo! Mas se queres saber se para mim chega… Não, não chega, mas é melhor que nada…
- E vais deixar as coisas assim?
- E querem que deixe como? Fui eu que as meti assim e agora… agora não posso obriga-la a trocar alguém que a trata bem, por alguém como eu…
- Alguém que a trata bem?! Mas ela já tem alguém?
- Ela diz que  não tem nada, que são amigos e tal… mas eu vejo como ela fica toda sorrisinhos quando fala com ele… e até o Bruno sente saudades dele…
- Ele tem nome?
- Eish oh Ricardo toda a gente sabe que ele se chama Rui… 
- Mas é mesmo serio ela e o Rui?.... Nunca quis acreditar…
- Pois mas pelo que vejo e oiço é mesmo… e agora deixem-me aproveitar enquanto o meu filho fica por cá.
Aproveitei cada minuto e quando a hora do voo chegou levei-os ao aeroporto. A partir deste dia sempre que o Bruninho me vinha visitar era a Maria que o trazia, embora nunca mais tenha aceitado ficar em nossa casa, preferindo sempre um hotel, tal não impedia que nos acompanhasse durante o dia em passeios ou mesmo assistindo aos jogos no estádio.
Mais uma vez chegou o momento de os deixar, mas desta vez apesar de mais cedo do que normalmente era por uma boa causa.
- Quando chegarem avisa…
- Sim, quando chegar a casa do Ruben digo qualquer coisa, antes não sei porque vou com o tempo contado ao segundo… 
- Só não refilo porque… porque até eu ia só para ver o Ruben trocar uma fralda!
- Não sejas assim! Segundo a minha prima e a Ana ele desenrasca-se muito bem mesmo… - ouvimos a chamada para o voo deles - bebé beijo no pai!
- Porta-te bem! E cuida da mamã!
Eles seguiram e mais uma vez eu fiquei.

Maria
Acabada de aterrar em Lisboa e enquanto seguia para o carro liguei ao Rui
- Já chegaram?
- Olá para ti também!
- Olá! Chegaram?
- Sim! Vou agora até casa do Ruben, de certeza que não queres vir também?
- De certeza… é um momento muito importante e intimo e ele não me grama lá muito…
- Oh que conversa… sabes que ele é sempre assim… é tímido! - disse a rir lembrando-me do Ruben que conheci há muitos anos
- Não é timidez Maria… é amizade… amizade ao João… e eu não o condeno… vão lá e quando chegares a casa toca na campainha que já tenho o jantar pronto para nós!
- A sério?
- Sim… 
- Boa! Vou desligar que vou arrancar! 
A chamada terminou e quando cheguei a casa do Ruben só tive mesmo tempo de cumprimentar os presentes e colocar o Guilherme a falar com o pai, fui até a varanda da casa e liguei em alta-voz
- Tou…
- Papá!
- Oh bebé! Já chegaste? Onde estás?
- Padinho! Pipipo!!
- Tás em casa do padrinho? E o Filipe já chegou?
- Não, nós chegamos agora e o Ruben ainda… olha chegaram… xau!
Nem ouvi mais nada e desliguei a chamada, segui até à sala onde os momentos seguintes foram para babar o pequenote e ver a felicidade da minha prima em chegar a casa com o filho, sim filho que diga ela o que disser eles já se adotaram mutuamente.
Acabei por sair mais cedo  do que o previsto já que o Guilherme resolveu ter ciúmes do pequeno Filipe já que este recebia todas as atenções, principalmente as que vinham dos seus padrinhos.

Ruben
Estávamos todos na conversa quando o Filipe acordou a choramingar, olhei para o relógio e percebi que devia ser de fome e por isso fui preparar o seu biberão mas como a experiência ainda é pouca levei mais tempo que o que o Filipe estava disposto a esperar e por isso a Mariana apareceu na cozinha já com o menino no colo.
- Então demora muito? - sorriu
- Não gozes! - trocamos um olhar cúmplice e fomos até à sala, onde peguei no Filipe e dei-lhe o biberão mas não correu propriamente bem pois o meu filho engasgou-se e acabou por deitar fora o pouco que já tinha bebido, tive que o trocar sempre sob o olhar atento dos presentes, nomeadamente da Mariana que por muito que tenha tentado disfarçar não conseguiu. Já com o Filipe mudado voltei a insistir para que bebesse o leite mas o meu filho não estava para aí virado, só chorava. Tentei acalma-lo mas revelou-se mais complicado e comecei mesmo a desesperar, não sabia o que ele tinha e sentia-me cada vez mais perdido
- Posso tentar? - ouvir a Mari foi um alivio
- Sim…
Pegou no meu filho e após uns longos e penosos minutos conseguiu acalmar o Filipe para depois aquecer novamente o leite para lhe dar, isto tudo com o meu filho ao colo, fiquei simplesmente a observar, perdido em pensamentos e em desejos, afinal tê-la a cuidar do Filipe é o que mais quero, primeiro porque a amo e segundo porque o meu filho merece uma mãe.
A Mariana regressou à sala e conseguiu que o Filipe bebesse o leite todo mas só porque teve uma paciência enorme para esperar pelo querer do meu filho, já que o Filipe parou imensas vezes. Já com a barriguinha cheia, coloquei-o a arrotar e depois troquei a fralda, tentei adormecê-lo mas isso foi mais complicado, tanto que acabei por deita-lo na alcofa e levá-lo comigo para a sala.
- Bem já vi o campeão e também já percebi que o pai dele tem na madrinha do filho o seu maior apoio - olhei para o Jorge - por isso já posso ficar descansado - sorriu - Ruben vou embora que isto já é agitação demais para o menino, qualquer coisa que precises liga!
- Obrigado Jorge.
- Nós também vamos… não é homem?
- Sim… sim… vá Ruben boa sorte para este novo desafio e faço das palavras do meu irmão as minhas, se precisares de alguma coisa não hesites…
Agradeci mais uma vez e acompanhei-os à porta, foi quando se estavam a despedir que o pai da Mari surpreendeu novamente
- Ruben é quando pegamos no nosso filho que percebemos que não somos nada… e que o nosso filho é tudo - olhei-o - nunca te esqueças disso!
Nada disse e depois de fechar a porta regressei à sala, onde o meu filho já andava a passear entre o colo do meu irmão e o da minha mãe, sempre sob o olhar atento da Mariana o que mais uma vez fez-me sorrir.
- Primo - olhei para a Maria que se riu - não precisas fazer esse ar de quem não espera ser chamado como tal - sorriu - tenho de admitir houve uma altura que perdi as esperanças mas sinceramente agora acho que já esteve mais longe do que está… só te peço para teres cuidado, não dês passo nenhum maior que a perna! E agora também vou que o Guigas está com uma crise de ciúmes...
Sorri ao ouvi-la para depois agradecer as palavras e o apoio da Maria para depois a acompanhar à porta.

Anabela
Desde que o meu neto nasceu que a vida do meu filho parece ter entrado novamente nos eixos, pelo menos agora que tem a Mariana do seu lado anda mais feliz...
É impossível não reparar no apoio incondicional que recebe da rapariga, mesmo depois de tudo o que passaram juntos e separados, a Mariana manteve-se do seu lado, emparando-o muitas vezes e obrigando-o a reagir. O certo é que o meu neto tem na Mariana o que mais se assemelha a uma mãe e ao fim de sessenta dias isso é mais do que evidente, a forma como a Mariana cuida do menino é estupenda e a ligação que ambos já criaram é enorme, tanto que o Filipe já a reconhece, também não é difícil tendo a Mariana passado imenso tempo com o menino.
O certo é que mais uma vez esteve presente em mais uma etapa da vida do meu neto, foi a Mariana que trazia o Filipe ao colo quando chegaram a casa e que conseguiu acalma-lo, a ele e ao Ruben, quando o menino começou a fazer birra. Confesso que senti mesmo uma pontinha de ciúmes mas o alívio foi bem superior, já que em determinado momento houve algo na forma como o meu filho e a Mariana se olhavam que sossegou o meu coração de mãe, pela primeira vez em meses tive esperanças que seja desta que estes dois se acertem...
Os minutos foram passando e as visitas foram saindo, foi quando já só estava o Mauro, a Mariana, eu e o Ruben que o menino começou a chorar, o que fez o meu filho lhe pegar ao colo na tentativa de o calar mas o meu neto cada vez chorava mais, de facto não estava a ser nada fácil estas primeiras horas...
- Oh Mariana o que é que faço? - sorri ao ouvi-lo, o Ruben simplesmente procurou auxilio naquela que ama
- O filho é teu...
- Sério... - a Mariana sorriu para logo de seguida pegar no menino
- Oh pequenino estás tramado... o teu pai saiu-me cá um atrofiado de primeira...
- Que lindo a falares mal de mim ao meu filho! - o Ruben resmungou mas sempre com um sorriso no rosto
- Quem confessa a verdade não merece castigo! - a Mariana estava nitidamente a desafia-lo - E prova disso é que ao meu colo o menino calou-se...
- Ai é?!
- É... - estavam no despique sem se incomodarem minimamente com a minha presença ou a do Mauro
- Oh mãe - olhei para o Mauro que falou de forma a não interromper o irmão e a Mariana - não quer ir andando?
- O teu irmão pode precisar de ajuda...
- Acha? Oh mãe neste momento já só estamos a empata-los - o Mauro sorriu e por isso olhei na direção do Ruben, encontrando-o abraçado à Mariana e a dar miminhos ao filho - vá vamos deixá-los!
- E se a Mariana depois vai embora?
- E que tal você deixar de interferir na vida do mano? Oh mãe, o mano é bem capaz de cuidar do menino e se precisar também sabe que pode ligar a pedir ajuda. Quanto a Mariana ir embora isso é com eles, deixe-os viver um dia de cada vez porque só assim é que podem decidir o rumo a dar à vida deles.
Não estava de todo satisfeita e por isso mesmo acabei por fazer o que o meu coração de mãe dizia.
- Ruben - assim que o chamei parece que despertei a Mariana para a realidade, uma vez que se afastou imediatamente do meu filho - queres que a mãe fique cá esta noite?
- Não...
- Tens a certeza? Oh filho a mãe pode ficar...
- Mãe agradeço o apoio e sem dúvida nenhuma que vou precisar dele mas hoje prefiro ficar sozinho...
 - Mas podes precisar de alguma coisa, não estás habituado a cuidar de um bebé, já para não dizer que tens o sono pesado...
- Oh Anabela, desculpe a frontalidade mas não acha que já chega? - olhei para a Mariana - O Ruben já está inseguro o suficiente não precisa que você dê a entender que não conseguirá cuidar do filho!
- Só estou preocupada com o meu neto...
- Então somos duas! Também estou preocupada com o Filipe mas não é por isso que tenho o direito de melindrar o pai dele! Se o Ruben já disse que quer ficar sozinho então deixe-o ficar!
- Já entendi... vocês querem ficar sozinhos!
- Oh mãe não é nada disso - o Ruben suspirou - a Mariana só reagiu porque tem sido ela que passou os últimos dias a ouvir as minha lamentações e receios...
- Vocês estão juntos e não querem admitir!
- Está enganada! Anabela a única ligação que tenho ao Ruben é a amizade e agradeço que não misture as coisas para isso já bem basta os atrasados dos jornalistas que tivemos que aturar!
O Ruben acabou por contar o que a Mariana se recusou, alegando que ia tentar adormecer o menino no quarto.
- Mano agora que a Mariana saiu e que contaste isso, vocês estão juntos?
- Não... infelizmente não!
- Mas nunca se passou nada entre os dois?
- Não! - a rapidez com que respondeu fez-me perder a esperança
- Vais desistir?
- Mauro não se trata de desistir... esqueçam! Eu e a Mariana já falamos e já nos acertamos, somos unicamente amigos e é assim que queremos continuar, nenhum dos dois está preparado para mais, simplesmente queremos paz!
- Mas amas a rapariga!
- Pois a amo... amo-a mais do que a mim mesmo mas do que adianta ama-la quando juntos só nos magoamos? Percebam de uma vez que decidimos pela amizade de comum acordo, neste momento é amizade o único sentimento que conseguimos dar e receber, amarei sempre a Mariana e disso não tenho dúvidas mas chegamos a um momento que não dá mais ou melhor só dá mesmo amizade! Espero que respeitem isso e nos deixem em paz, para especulações já basta as que vêm de fora, nós queremos e precisamos de sossego. A Mariana tem sido a minha tábua de salvação e não posso dar-me ao luxo de a perder, por isso mãe não se meta, sei que quer o melhor para mim por isso respeite a minha vontade e as minhas decisões.
Não respondi, simplesmente despedi-me do meu filho e fui até ao quarto do meu neto para lhe dar um beijinho, como o menino ainda estava de olho aberto acabei por ficar um tempo com o meu neto, enquanto a Mariana o tentava adormecer...
Ruben
Custou ser tão rígido com a minha mãe quando sei que só está preocupada comigo mas tenho que lhe colocar um travão ou então quando der por mim está a interferir nos cuidados com o Filipe e neste momento a última coisa que preciso é dela a opinar, não é que me sinta mais seguro, mas algo dentro de mim diz-me que a Mariana não reagirá bem a isso e agora mais do que nunca preciso do meu amor.
- Puto - olhei para o meu irmão - vocês não estão mesmo juntos?
- Não...
- De certeza? - olhei-o - Mano podes confiar em mim - suspirei - o que é que se passa?
- Mauro isto não sai daqui!
- Prometo!
- Nós não namoramos mas também não se pode dizer que somos só amigos - o meu irmão sorriu
- Vocês já...
- Não e está muito longe de acontecer... mas já tivemos alguns momentos de troca de carinho, mas a Mariana ainda está muito magoada com tudo o que aconteceu, ainda nem sequer recuperou da perda dos gémeos, nós temos andado a fazer umas sessões com uma psicóloga - pela expressão do meu irmão deu para entender que ficou surpreso - porque o que vi na noite que o Guigas fez  um ano foi doloroso e arrasador, vi a Mariana completamente desesperada, mano ela quebrou ao fim de um ano a acumular tudo para si... doeu tanto ter a perceção do que lhe fiz... destruí a Mariana...
- Mano não tiveste culpa...
- Tive Mauro, o pior é que tive mesmo! Mano a Mariana quando descobriu que o Sr. Manuel não é o pai biológico cortou qualquer contacto com a família Mendes e o Guigas só nasceu porque armei com o João delas se encontrarem, a Mariana ignorou a Maria, o que fez a prima se enervar e desencadeou o parto, senti-me culpado e por isso fiquei do lado da Maria quando devia ter ficado com a Mari... abandonei-a e por isso passou a noite sozinha no hospital, Mauro a Mari não perdeu os dois bebés ao mesmo tempo, ela quando chegou ao hospital a menina ainda estava viva, ela ouviu o seu coração bater... horas depois deram-lhe a notícia que a menina não tinha sobrevivido... e eu onde estava? Em casa a julga-la por ser tão insensível e quando tentou contar-me que já não íamos ser pais, voltei a sê-lo, mano quando a Mari contou que tinha passado a noite no hospital associei de imediato que tinha ido ver o Guigas, disse-lhe isso mesmo o que só a destruiu mais... horas depois descobri que tinha perdido os gémeos e não aguentei vê-la desfeita... fugi, abandonei-a completamente... a Mariana agarrou-se ao que conseguiu para esquecer o que nunca seremos capaz de esquecer, ela agarrou-se ao Guigas, cuidou do menino quando a Maria não conseguia e mais tarde quando deixou de ter o Guigas, ocupou a cabeça no trabalho, enquanto eu só a desiludia e a magoava ainda mais... na noite que antecedeu o casamento da Maria e do João, nós fizemos amor - o Mauro esbugalhou os olhos - e na manhã seguinte a Mariana acordou sozinha para encontrar-me depois com a Sofia agarrada ao meu pescoço, porque tinha acabado de contar-me que ia ser pai... aquele dia foi para esquecer, ver a Maria e o João tão felizes e saber que tinha perdido a Mari para sempre fez com que passasse a viver por viver, depois os meses seguintes foram de completa tortura e quando a Mariana pediu ou melhor implorou para que não me cassasse, disse-lhe que amava a Sofia porque simplesmente quis proteger o meu filho... nunca pensei que a Mariana fosse aparecer no dia do casamento para mais uma vez impedir-me de cometer um erro... depois disso e contra o que seria de esperar acabamos por nos aproximarmos... a Mariana revelou-se o meu maior apoio e voltou a agarrar-se a um filho que não é dela para ter uma razão para continuar a querer viver mas isso só a magoou mais, nem sei como é que conseguiu entrar dia após dia na unidade de neonatologia, só sei que o fez e impediu que o Filipe se sentisse depressado, ela ama o meu filho e nem no dia que fez um ano que perdeu os gémeos evitou de visitá-lo, por tudo isto... sim tenho culpa em tudo o que passou, tenho culpa por a Mariana ter perdido o seu sorriso, por ter desejado desaparecer, mano nós amamo-nos mas não estamos preparados para sermos mais do que amigos, ainda que as saudades sejam muitas e que o desejo aumente drasticamente sempre que estamos só os dois... não posso nem quero levá-la a fazer algo para o qual não esteja preparada e acredita a Mariana não está preparada para amar de novo...
- Nem sei o que dizer...
- Não digas nada, não há mesmo nada a dizer...
O meu irmão fez mesmo o que pedi e não disse nada, acabei por limpar as lágrimas que inevitavelmente molharam o meu rosto enquanto desabafei com o meu irmão e depois fui até à varanda, estava a precisar de ar...
A minha mãe regressou à sala uns minutos depois para sair com o meu irmão...
Estava na sala quando vi a Mariana regressar.
- Finalmente adormeceu... - falou ao sentar-se ao meu lado
- Queres ver um filme ou fazer alguma coisa?
- Vou ter que ir embora...
- Fica! - olhou-me
- Ruben...
- Por favor... Mariana fica comigo pelo menos até jantarmos, depois prometo que não peço mais mas pelo menos fica o resto da tarde...
- Ok...
As horas seguintes foram tranquilas, vimos um filme mas o sossego terminou quando o Filipe acordou, tentei dar-lhe o leite mas mais uma vez não consegui fazê-lo e isso começou a assustar-me, até porque quando estava internado só ao início é que tive dificuldade em fazê-lo. Tentei tudo para acalmar o menino mas acabou por ser a Mariana a fazê-lo, algo que revelou-se complicado, ainda assim conseguiu que o menino bebesse o leite e após largos minutos adormeceu-o, colocando-o no seu berço.
- O que é que lhe fazes? - olhou-me e sorriu
- Nada… tenho paciência e deixo-o cansar-se sem me stressar… - encolheu os ombros - Ruben os bebés precisam de chorar porque é a única forma que têm para se expressar e até gastar energias mas se entras em stress sempre que não o consegues acalmar não irás longe porque os bebés sentem isso… tens um longo caminho pela frente…
- Só espero estar à altura do desafio…
- Ruben és um pai excelente - olhei-a - só tens de deixar de ter medo… é normal que agora que o tens cá em casa te sintas mais inseguro e aches que não consegues cuidar do Filipe mas isso não é verdade.
- Sinto-me sozinho - suspirei - perdido…

Maria
Cheguei a casa tomei um duche e só depois dei “sinal de vida” ao vizinho.
- Só agora?
- Não… mas já tomei duche e o Guilherme vinha com sono e birra de ciúmes dos padrinhos por isso adormeci-o logo…
- Ahhh então podemos entrar?
- Aqui? Vamos lá para casa! Eu ajudo com as pizzas
- Quais pizzas?!
- As que mandas-te vir para o jantar!
- Lamento desiludi-la mas o jantar não é pizza e se vai ser na sua casa… terá de se fechar no quarto até que eu a chame!
- Mauuu… mas o que é que tas a tramar?
- Euuu?! Surpresa!
Acabei mesmo por ir até ao quarto e aproveitar para ler uns e-mails enquanto ouvia as movimentações, que eram muitas, na sala
- Já podes vir! - disse abrindo a porta do quarto
- Boa estava cheia de fome!

Segui-o e quando cheguei à sala deparei-me com algo que não esperava, e como não sabia bem como responder decidi partilhar com os meus amigos mais próximos de forma a tirar alguma carga simbólica
"Ele sabe que depois de mais um fim de semana tenso, sabe-me sempre bem um miminho!”
Claro que muitos “boatos” surgiram dentro do meu círculo de amigos, alguns apostando mesmo que o autor de tal proeza era o João, não respondi
- Posso saber a que se deve este jantar?
- Tinha saudades tuas… e bem… eu estive a pensar e… eu sei que o que sentes pelo João continua intacto apesar de tudo… mas também sei que o que sinto por ti, e também pelo Guilherme, cresce de dia para dia… e por isso achei que estava na hora de te perguntar se estás disposta a tentar… a deixar-me tentar mudar o dono do teu coração?
- Rui eu…
- Shiu… não respondas! Vamos jantar… pensa no assunto e…
- Eu já pensei e voltei a pensar, mas não chego a conclusão nenhuma… acho que não consigo faze-lo assim de um segundo para o outro de forma definitiva… acho que tem de ser algo gradual e natural… mas sim estou disposta a tentar… a deixar-te tentar… mas sem compromisso…
- Sem compromisso… prometo que não pressiono! 
Sorri, não sabia mais o que fazer, mas sabia que cada minuto a mais com o João era um minuto mais perto de voltar para ele e isso eu sabia que não queria, ou melhor o meu orgulho não deixava!
Tal como prometeu o Rui não pressionou, mas também não evitou alguns gestos de carinho mais íntimos que o normal entre nós. Foi já quando o jantar se aproximava do final que
- Um brinde?
- Nunca se nega! Mas a quê?
- A ti! A mim! Ao Guilherme e ao futuro que espero que seja pelo menos a três… mas que não me importo que seja a 4,5,6 ou 7 se isso significar que vamos encher o Guilherme de irmãos… - olhei-o sem saber mais uma vez o que responder - mas isso só o futuro o dirá… por isso brindamos só a mim, a ti, ao Guilherme e a que este seja o primeiro de muitos momentos felizes!
Fizemos os nossos copos tocarem-se e bebemos
- Rui! 
- Sim?
- Junta o teu copo ao meu!
- Para quê?
- Junta e já vês!

Ele fez o que lhe pedi e eu tirei uma foto que partilhei desta vez como todos os que me seguiam nas redes sociais
“Inícios, finais, reinícios e novos finais… é disso que a vida é feita de etapas… que esta seja mais uma feliz e longa, mas isso, isso só o futuro dirá!”
- A sério que queres meter isto aqui assim?
- Se pode sair em revistas quando era totalmente mentira porque não posso ser eu a partilhar um bom momento?
- Amo-te! - ao ouvi-lo senti um misto de emoções o primeiro culpa, por saber que não correspondo o sentimento apesar de todo o carinho que sinto por ele, o segundo de bem-estar, por me sentir amada 
- Obrigada…
- Não precisas agradecer… não precisas dizer nada…
Depois deste momento mais intenso e de um momento de silêncio que de desagradável nada teve voltamos ao clima de cumplicidade, leveza e animação que caracterizam as nossas conversas e assim foi até ao momento do café
- Bem tá na hora de ir embora - o Rui falou enquanto continuava o cafuné que fazia nos meus cabelos enquanto a minha cabeça se mantinha no seu colo, logo depois de mais um bocejo meu - que a Princesa quer dormir
- Lamento, mas aqui não há princesas… - ele olhou-me - só Rainhas! Sim que mãe de príncipe é Rainha!
- Como queira Vossa Alteza! - rimos - Mas vá vai lá dormir que eu arrumo isto tudo!
- Nem penses não tem assunto nenhum! Deixa isso ai amanhã eu limpo! - falar com o Rui ou com uma parede foi o mesmo já que o ouvi concordar comigo, para assim que me ouviu ir até ao quarto usar a sua chave e arrumar a sala, ouvi o barulho e já de pijama encontrei-o na cozinha - Mas eu falo chinês??
- Não… mas eu disse que arrumava! Vai dormir… - falou depois de me olhar de cima a baixo e dando-me um beijo na bochecha, muito perto dos lábios - que eu já acabei e não te incomodo mais… que também tenho de ir que a idade não perdoa e já tou aflito das costas…
- Sério?! Oh coitadinho a sorte é que euzinha sou uma excelente massagista!
- Ai és? 
- Sim sou! Anda! - fi-lo seguir-me até ao meu quarto - Tira a camisa e deita-te!
- Maria…
- Maria nada! Ah espera estás com vergonha de mim é?!
- Não é vergonha… é que…
- É que?
- Que estás assim vestida… e a mandar-me deitar na tua cama e… um homem não é de ferro e tu sabes que eu… bem eu gosto de ti e… prometi que não te pressionava, mas assim começa a ficar difícil!
- Parvo! Deixa de dizer e pensar asneiras! E deita-te sem camisa e com as costinhas para cima! Que eu vou vestir um fato de treino para não te incomodar tanto
- Deixa lá isso que não me incomodas nada! - era esquisito, estar a ser observada e a provocar desejo nítido e declarado a um homem que não era o João, mas estava-me a saber muito bem, estava a fazer maravilhas pela minha autoestima - antes pelo contrário…
- Ai sim?! Então vá na caminha já! - ele deitou-se e eu iniciei uma massagem sem segundas intenções que pretendia apenas relaxa-lo que era bem percetível toda a tenção que acumulava nas costas
- Acostumava-me a isto com facilidade!
- Nem penses! Que tenho mais que fazer da vida que cuidar de idosos!
- Má! 
- Pois sou! Mas posso sempre deixar-te com um miminho para te lembrares de vez em quando!
- Tás a falar de quê? - perguntou assustado quando sentiu a minha unha começar a percorrer-lhe as costas com intensidade
- De uma foto!! - respondi a rir para de seguida preparar o telemóvel e fazê-lo disparar sozinho - Já tá!


"Não há jantares grátis! Já me tinham dito… e agora tenho a certeza!"
- Tens mesmo a certeza disto?
- Do quê?
- De partilhar assim!
- Tenho total e absoluta!!!

Com o Filipe em casa muito vai mudar na vida do Ruben... terá ele preparado para ser pai e mãe? E a Mariana qual será o seu papel???
Maria e Rui... cada vez mais próximos... o que o futuro lhes reserva???
João... sozinho em Valência como reagirá aos momentos partilhados pela Maria??

sábado, 23 de novembro de 2013

109 - "...depois cada um segue a sua vida..."

Mariana
Acordei com uma só vontade, esquecer o dia de ontem e para isso tentei usar o “escape” do Filipe ao perguntar ao Ruben se o ia ver, mas aquele que amo foi bem explícito ao afirmar que preciso de ajuda... sei que tem razão, que preciso mesmo de virar a página mas sinto-me incapaz de reviver tais memórias, só quero esquecer, no entanto já se passou um ano e aquela tarde e noite continua tão presente na minha memória...
Tentei fugir mais uma vez ao refugiar-me na casa de banho, não sei o tempo que demorei, só sei que quando saí embrulhada numa toalha lá estava ele, o Ruben estava decidido a fazer marcação serrada.
- Mas não desistes?
- Não me peças para desistir da MINHA VIDA - olhei-o - Mariana és a MINHA VIDA e não aguento ver-te assim - as lágrimas molharam-lhe o rosto - porque enquanto não estiveres bem eu também não estou! Dói ver-te assim e a culpa que sinto corrói-me por dentro, sei que te abandonei e que no meio disto tudo sou o que menos mural tenho para te pedir ou exigir alguma coisa mas também sei que neste momento sou o único que conseguirei fazer algo por ti e não, não me peças para cometer o mesmo erro e abandonar-te de novo! - deu um passo na minha direção, reduzindo assim a distância a nada, estávamos agora com os rostos colados - nós precisamos de superar a dor e vamos fazê-lo juntos, só assim conseguiremos aguentar mas acima de tudo superar o que nos aconteceu.
- O que nos aconteceu?! O que aconteceu é muito simples não sou suficientemente mulher para aguentar uma gravidez! É isso que aconteceu e não é a falar com uma psicóloga que passarei a ser - respondi aos gritos
- Não quero saber se és ou não suficientemente mulher para suportar uma gravidez, o que quero é a MINHA MULHER! Aquela que não vira a cara, que não desiste e tu estás a desistir de TI, DE MIM, DE NÓS!! - respondeu-me também aos gritos talvez para que me calasse - e não vou deixar! Nós até podemos nunca mais voltar a namorar mas garanto que não desistirei de ti, independentemente de tudo és minha amiga por isso não peças que te veja a caminhar para o abismo e não faça nada...
- Ok queres que vá a merda de uma psicóloga eu vou mas depois cada um segue a sua vida, porque garanto-te que serei incapaz de olhar novamente para ti...
- Isso é o que veremos! E agora vou ligar à Ana a perguntar se consegue interceder por nós e marcar uma consulta para hoje!
- Não é preciso...
- Cala-te! Quem sabe o que é preciso sou eu!
- Não és meu pai!
- Pois não sou aquele que amas e que te ama!
A vontade que tive foi de lhe bater mas até para isso estava sem forças. Acabei por correr com ele do quarto para que pudesse vestir-me e assim que entrei na sala
- Temos a primeira consulta dentro de duas horas! - olhei-o - Se quiseres podemos ir ver o Filipe...
- Não uses o menino para me dares a volta! - sorriu
- Longe de mim usar o nosso menino para dar-te a volta - fiquei sem reação ao ouvir o “nosso menino” e quando voltei a mim já o tinha bem próximo - és difícil mas ainda tenho argumentos suficientes para conseguir que entendas o que é melhor - agarrou-me as mãos - Mariana vai doer, vai magoar e ao início até podemos achar que não está a resultar mas no final tudo acabará bem...
Não respondi mas caí no erro de o abraçar, voltei a ceder e a deixar que me desse a volta...

Ruben
Dez dias passaram desde que vi a Mariana naquele desespero e desde esse dia que temos “trabalhado” juntos para recuperarmos a alegria de viver, a verdade é que as nossas vidas tiveram suspensas durante o último ano.
As sessões com a psicóloga têm sido duras, especialmente a primeira onde a Mariana contou com detalhes aquela tarde e noite, ouvir tudo fez-me sentir ainda pior, não sei como é que conseguiu suportar tudo mas o certo é que conseguiu, caso contrário não a teria comigo agora...
Os últimos dias têm sido divididos entre os treinos, o hospital para estar o máximo de tempo com o Filipe e os momentos com a Mariana. A verdade é que com a desculpa das consultas tenho aproveitado ao máximo todas as oportunidades para estar do seu lado e os passeios após sairmos das sessões têm-se tornado recorrentes...

Sofia
A melhor coisa que me podia ter acontecido foi ver-me livre daquela coisa que estava dentro de mim a pesar cada vez mais... A verdade é que já não servia para nada e quanto mais depressa visse livre melhor... por isso mesmo quando acordei naquela cama de hospital e fui informada que a aberração estava a lutar pela vida desejei a sua morte, era só o que mais faltava ter que cuidar daquilo... se quisesse um animal de estimação tinha um cão ou gato...
Felizmente só tive de ficar uns dias naquele quarto, ainda assim foi demasiado tempo... todos queriam convencer-me a visita-lo e isso só irritava, ainda mais sabendo que o Ruben também não estava interessado no monstrinho...
Ao fim de três semanas recebi uma carta do tribunal a informar que tinha de registar aquela coisa... adiei ao máximo mas não tive outra solução do que entrar em contacto com um advogado que tratou de todo o processo, não queria ter mais contacto com o monstro...
Os dias foram passando e já sentia novamente com forças para lutar pelo que é meu por direito por isso regressei a Lisboa para estar perto do Ruben... Descobri que afinal o senhor certinho assumiu aquilo... assumiu o monstrinho depois dele nascer... aquilo revoltou-me porque aquela coisa estava a rouba-lo de mim... Passei os dias seguintes a desejar pela milésima vez que algo acontecesse mas de cada vez que ele saía do hospital o seu sorriso não enganava... o Ruben estava feliz... nunca o tinha visto sorrir assim...
Mas se este tempo serviu para perceber que se for boa mãe que o terei para mim também serviu para descobri que a outra mo quer roubar... começou a ser frequente vê-la a rondar o Ruben e não sei como consegui controlar-me quando os vi sair a sorrir e depois seguirem juntos no carro dele, o clima era evidente... Segui-os e percebi que estavam às compras para o atrassadinho... ela estava a ocupar o meu lugar e isso não deixarei nem que...
Os dias continuaram a passar comigo atenta a todos os passos daquele que é meu... consegui descobri o buraco onde aquela que vou ter que despachar vive... o Ruben anda a passar muito tempo com ela...
Sessenta dias depois finalmente sinto-me novamente eu... cada vez tenho menos marcas no meu corpo... agora já consigo olhar ao espelho e reconhecer-me, aquela coisa bem tentou deixar-me feia mas não conseguiu... finalmente posso voltar a aparecer à frente do Ruben... agora sim já tenho corpinho para isso...
Saí de casa com um único objectivo... esperar o Ruben no hospital para entramos juntos... se o quero para mim vou ter que tolerar a presença daquela coisa nas nossas vidas, pelo menos até conseguir livrar me dele...
Estava já a perder a paciência uma vez que o Ruben nunca mais chegava quando vi o seu carro mas com ele vinha a outra estúpida... ainda pensei em ir até junto dele mas ao vê-lo a tirar a cadeirinha do carro percebi que é hoje que a aberração vai para casa, algo que não estava de todo nos meus planos e por isso deixei-me ficar sossegada.
Vi-os a entrarem de sorriso no rosto mas pior que isso abraçados, sim o Ruben colocou o seu braço por cima dos ombros daquela estúpida e isso revoltou-me… Assim que os deixei de ver, ocupei o pensamento com uma só cena, a melhor forma de começar a atormentar a vida deles… o Ruben só terá descanso quando perceber que só comigo será feliz…

Ruben
Hoje faz sessenta dias que o meu menino nasceu e é um dia que ficará marcado para sempre na minha vida e na vida do Filipe, finalmente vou poder levar o meu filho para casa.
Estava a terminar de comer o pequeno-almoço quando tocaram à campainha e assim que vi quem era um sorriso surgiu no meu rosto.
- Bom dia - deu-me dois beijinhos
- Posso saber o que fazes aqui quando deverias estar a trabalhar?
- Dever devia mas como hoje é um dia especial - olhei-a - meti o dia de férias...
- Isso quer dizer que vais comigo buscar o nosso menino - quando falei “nosso” a Mariana olhou-me e notei surpresa mas quem ficou verdadeiramente surpreendido fui eu quando a Mariana respondeu
- Se deixares...
- Só faz sentido se fores comigo - respondi de sorriso no rosto
- Então vamos!
- Isso é tudo pressa para o trazeres para casa?
- É! O lugar do menino é aqui!
- O lugar do nosso menino é ao NOSSO lado… - interrompeu-me
- Ruben não tentes usar a vinda do Filipe para casa a teu belo prazer!
- Desculpa…
- Esquece! E agora vamos!
- Ok vou só buscar a cadeirinha do Filipe ao quarto!
- Trás também o saco dele!
- Ãh?
- O saco com as fraldas e tudo o que o menino precisa para quando sai de casa - olhei-a sem entender - porra o saco que tens em cima da cómoda e que deixei pronto ontem quando aqui estive! - sorri ao perceber mais uma vez todo o cuidado que tem com o Filipe
Fui ao quarto buscar o que pediu e quando regressei encontrei-a a olhar para uma foto nossa que tínhamos tirado há uns dias num passeio à beira-rio depois de mais uma sessão com a psicóloga
- Para ser perfeita só falta aí o Filipe - aproveitei que estava de costas e que não tinha dado pela minha presença para a abraçar, falando desta forma ao seu ouvido, o que a fez suspirar
- Já tens tudo?
- Porquê que insistes em continuar a fugir? - olhou-me
- Porque é o melhor para todos…
- O melhor para todos é assumires que dependes de mim para ser feliz tal como dependo de ti!
- Ruben não insistas! E agora vamos!
A Mariana soltou-se dos meus braços e saiu, fui atrás levando a cadeirinha uma vez que o saco do menino, ela levou-o.
Conduzi calmamente até ao hospital e pelo caminho falamos de tudo um pouco mas foi quando chegamos que ao vê-la a retirar o saco do carro que tive de a questionar
- Porquê que insististe em levar o saco? - olhou-me
- Porque é aqui que tenho a roupinha para vestir ao Filipe e porque o menino pode precisar de alguma coisa…
- Mas do hospital vamos diretos a casa…
- Não compliques! E deixa isto para quem sabe! - olhei-a e foi impossível não sorrir, tal como foi controlar a vontade que tinha e por isso abracei-a
- Larga-me! - olhou-me
- Não consigo…
- Desculpa?!
- Oh Mariana… - desviei o olhar
- Que foi?
- Será que vou conseguir…
- Lógico que vais! Ruben pode ser complicado ao início mas daqui a uns dias já tudo será normal, passará a ser a tua rotina e sentirás mais segurança…
- Só espero que tenhas razão…
- Lógico que tenho! - falou determinada e pela primeira vez no dia abraçou-me, o que aproveitei para a puxar ainda mais para mim e foi abraçados que entramos no hospital
- Ena que novidade é esta? - a Mariana assim que ouviu a Ana largou-me
- Não é novidade! É mais do mesmo - a nossa amiga olhou-nos à vez - aqui o menino está com medo da nova fase…
- Pois e tu como boa amiga que és, vieste apoia-lo não resistindo a abraça-lo… pois sei!
- Não comeces! - pedi e a Ana lá parou, acompanhando-nos até ao gabinete do pediatra do Filipe.
Os minutos seguintes foram para o pediatra nos explicar os cuidados redobrados que teremos que ter com o Filipe, bem como algumas dicas que poderão ser-nos úteis daqui para a frente. Voltou ainda a explicar que não podemos ou melhor não devemos comparar o desenvolvimento do Filipe com o de um bebé de fim de tempo, porque o nosso menino terá sempre um “atraso” em relação a esse outro bebé, tanto que para se poder “comparar” as fases de crescimento por norma usam o que chamam de idade corrigida, que não é mais que retirar aos meses que o bebé tem desde que nasceu o número de meses que faltava para o fim do tempo, ou seja no caso do Filipe apesar de já ter dois meses na idade corrigida é como se tivesse acabado de nascer, daí não podermos esperar que o menino comesse já a sorrir ou a fazer gracinhas…
O que podemos e devemos fazer é estimula-lo ao máximo para que o seu desenvolvimento seja cada vez mais progressivo e foi isso que também nos foi explicado. A Mariana tal como eu teve sempre atenta e aproveitou para retirar dúvidas, o que acabou também por dar-me alguma serenidade pois sei que terei nela um apoio fundamental…
Finalmente o momento de levá-lo chegou, fomos até junto do Filipe e foi a Mariana que o vestiu, sim que apesar do menino não estar nu, o meu amor meteu na cabeça que aquilo não era roupa para o menino sair do hospital, enfim… mulheres!
Aproveitei para registar o momento, afinal era o último dia do Filipe naquela unidade…
- O papá está pronto?
- E a mamã?
- Ruben!
- Mariana!
- Estás aqui, estás ali!
- Desde que te tenha do nosso lado estou onde quiseres!
- Chega! Estás a passar todos os limites!
Resolvi terminar com a brincadeira antes que a Mariana se chateasse a sério comigo e depois dela colocar o menino na cadeirinha, agarrou no saco colocando-o ao ombro e a mim coube-me a tarefa de levar o nosso menino.
Caminhava feliz por ter finalmente o Filipe connosco mas assim que transpor as portas do hospital para o exterior desci ao “inverno” sem esperar fomos fotografados, estavam jornalistas à nossa espera e não tiveram qualquer problema em invadir a nossa privacidade.
De um momento para o outro vi-me rodeado de jornalistas que queriam a melhor foto, a sorte é que a Mariana antes de sairmos do hospital resolveu tapar a cadeirinha com uma fralda de pano… Aqueles que tinha diante de mim não tiveram acanhamento nenhum e começaram com perguntas atrás de perguntas, queriam saber detalhes que não estava disposto a partilhar e por isso mesmo recusei prestar qualquer tipo de declaração, ainda assim voltaram a insistir, foi ao ponto da Mariana tomar uma atitude, pediu-me as chaves do carro e depois pegou na cadeirinha do Filipe levando-o até ao carro ou melhor tentou porque houve um engraçadinho que se colocou à sua frente
- Importa-se de sair? Quero passar!
- É verdade que depois de tudo regressou para o Ruben Amorim? E está disposta a assumir um filho que não é seu mesmo depois de ter perdido dois?
- É a verdade que quer? - por momentos temi o que pudesse dizer, a Mariana estava nitidamente com cara de quem ia aprontar alguma - Então tudo bem… a verdade é só uma e resume-se à - neste momento já estavam todos atentos ao que falava - à vossa falta de profissionalismo!
- Não lhe admito…
- Não admite o quê? Que diga que não tem ética profissional? Lamento mas não tem mesmo! Você não veio à procura de informar os leitores do seu jornal, você veio tentar esmiuçar a minha vida pessoal e achou-se no direito de opinar sobre um assunto que não lhe diz respeito, quando não pediu sequer permissão para o fazer! Vocês acham-se os senhores da razão mas esquecem-se que também são humanos, nenhuma mulher está livre de perder os seus filhos, nem a sua… páre por uns minutos e pense em como a sua mulher se sentiria se depois de perder os vossos filhos houvesse alguém que aparecesse na sua frente com uma câmara apontada ao seu rosto e perguntasse se ia substituir os filhos que amava mas que infelizmente não conheceu por outro que até nem é seu mas sim filho de um amigo de longa dada…
Mas já que estão assim tão interessados no assunto posso esclarecer que uma parte de mim morreu há pouco mais de um ano, morreu junto com os nossos filhos - dei a mão à Mariana - só quem perdeu os seus filhos desta ou de forma idêntica saberá o que sinto, só essa mulher entenderá que vocês são uma cambada de insensíveis!
Aproveito ainda para esclarecer que a única relação que me liga ao Ruben é unicamente a amizade.
- Mas não tem como negar que ultimamente estão mais próximos, a Mariana até regressou a Lisboa após o nascimento do filho do Ruben…
- Sim regressei por motivos profissionais e pessoais que nunca tiveram relacionados com o nascimento do menino e muito mesmo com o hipotético reatamento da nossa relação!
- No entanto são vistos frequentemente em clima de romance - o palhaço que abriu a boca para falar da perda dos gémeos voltou a mandar a boca e quando já preparava para responder a Mariana voltou a fazê-lo
- O que é que pretende? Que admita que amo o Ruben? Ou que admita que reatamos? Ou ainda que serei mãe do filho dele? Ah espere quer que diga o que vende… é isso! Então aqui vai… sim amo o Ruben e continuarei a amar, não reatamos a relação entre homem e mulher mas reatamos a amizade, amizade essa que no passado nos manteve sempre no rumo certo, éramos o apoio um do outro e é assim que queremos continuar. Quanto ao facto de ultimamente andarmos mais tempo juntos, é perfeitamente normal, como amiga senti o dever e até a obrigação de o apoiar, independentemente do que sempre senti de cada vez que entrei na unidade de neonatologia ou o que sinto sempre que dou colo e conforto ao menino ou ainda o que sinto por ter noção que nunca saberei o que é ser mãe mas isso não vos interessa, o que interessa é enxovalhar a vida das pessoas… então os meus sinceros parabéns porque de facto fazem um trabalho exemplar mas comigo garanto que não o farão, porque acabei de admitir a única verdade existente… façam dela o que quiserem mas garanto que se vir uma vírgula fora do lugar no mesmo instante processo quem tiver que processar!
E agora deem licença o carnaval terminou!
Ainda estava a assimilar o que a Mariana tinha admitido quando os jornalistas se afastaram permitindo desta forma a nossa passagem.
- Estás bem? - perguntei assim que entramos no carro, isto depois da Mariana certificar-se que a cadeirinha do Filipe estava bem presa
- Sim…
- E agora a verdade - olhou-me
- É a verdade que queres? Então fica a saber que pela primeira vez consegui falar da perda dos gémeos sem ter vontade de chorar mas também não quero continuar a falar disso…
- Desculpa - pedi ao agarrar a sua mão que estava pousada na sua perna esquerda - a culpa disto é toda minha…
- Shiu! Ruben não tens culpa ou melhor tens tanta culpa quanto eu… nós erramos os dois no passado e no presente queremos os dois isto - sorriu ao ouvi-la - portanto a culpa é dos dois!
- Define o isto?
- Ai oh Ruben… isto que temos… a amizade…
- Quero muito mais que amizade e nunca te escondi isso!
A Mariana não respondeu, aliás retirou a sua mão debaixo da minha, ainda assim mantive a mão na sua perna. O meu amor durante a viagem até ao meu apartamento olhou diversas vezes para o Filipe.
- O menino não foge… - meti-me com ela, o que fez com que sorrisse
- Ainda não foge… espera mais uns meses e vais ver parece uma enguia a fugir de ti!
- De nós!
- Ãh?
- Parece uma enguia a fugir de nós!
A Mariana voltou a ignorar o que falei e assim que estacionei o carro na garagem do meu prédio, depressa saiu do carro para retirar a cadeirinha do Filipe do carro
- Deixa estar que levo…
- Não o posso levar?
- Podes mas não há necessidade - olhou-me - O menino já pesa…
- Eich que exagerado! Mas tudo bem leva lá o Filipe!
Peguei na cadeirinha do Filipe enquanto a Mariana voltou a levar o seu saco, mas durante pouco tempo porque assim que entramos no elevador o Filipe começou a chorar e a Mariana pegou nele, fazendo de mim “burro de carga”, uma vez que levei a cadeirinha e o saco do Filipe. Abri a porta e dei passagem aos meus dois amores, a Mariana estava com um sorriso lindo e isso aqueceu-me o coração…
Mas se julgava que os minutos seguintes seriam só nossos enganei-me… afinal fomos surpreendidos por uma receção, a minha família, a Maria, os pais da Mariana e o Jorge esperavam o Filipe, o que fez com que os primeiros minutos do menino em casa tenham sido agitados, todos queriam vê-lo e não consegui impedir que o menino começasse a passar de colo em colo, o  que irritou o Filipe que pouco tempo depois de o deitar no seu berço começou a chorar, tentei acalma-lo mas a tarefa tornou-se numa missão impossível, o Filipe chorava cada vez mais e fui “socorrido” pela avó babada que assim que conseguiu tirou o neto dos braços do pai, o que acabou por originar um momento de risota para os restantes pois a minha mãe não o conseguiu calar, o menino estava mesmo numa de fazer a sua primeira birra em casa.
- Dê cá o menino… - a Mariana retirou o Filipe do colo da minha mãe - Oh Filipe eles não percebem nada disto… - sorri ao ouvi-la mas principalmente ao vê-la a cuidar do meu tesouro, a Mariana sentou-se no sofá, tal como fazia na cadeira do hospital e colocou o Filipe contra o seu peito e após uns minutos o menino já estava sereno ainda assim de olho aberto.
- E não é que o puto já sabe o que é bom… - a boca do meu irmão fez com que o fuzilasse com o olhar mas de nada adiantou pois ainda fez pior - que foi? Vais dizer que não gostavas de fazer o mesmo que o teu filho está a fazer…
A Mariana assim que o ouvi levantou-se de imediato e saiu com o Filipe
- Estás satisfeito? Sinceramente Mauro se tivesses calado ganhavas mais! - atirei aborrecido
- Desculpa lá mas vocês estão a atirar areia para os nossos olhos! Achas mesmo que acredito que são só amigos? Se fossem a Mariana não tinha feito metade do que fez…
- Infelizmente somos SÓ amigos!
Atirei ao sair da sala para procurar a Mariana, precisava o quanto antes de perceber até onde as palavras do meu irmão a tinha atingido. Encontrei-a no quarto do Filipe a adormece-lo e por isso mantive-me quieto a ouvi-la cantar para o meu filho.
- Já adormeceu! - falou com um sorriso no rosto enquanto o deitava no seu berço
- Desculpa… - olhou-me - o meu irmão abusou…
- Não falou nada que os outros não pensem também…
- Sim mas podia ter evitado…
- Esquece! - o meu amor voltou a concentrar as atenções no Filipe - Hoje é dia de alegria e não dia para te chateares com o teu irmão… e agora vamos deixar o pequenino dormir
- É…
A Mariana passou próximo da cómoda e pegou no intercomunicador que permite ouvir da sala caso o menino acorde, algo que mais uma vez fez-me sorrir.
- Que foi?
- Nada…
- Estás a sorrir por nada?
- Estou a sorrir porque te tenho aqui - aproveitei a proximidade dos nossos corpos para a abraçar - atenta a tudo para que o Filipe esteja bem…
- Pois mas não te habitues porque é mal de pouca duração!
- Mal? Quem me desse que todos os meus males fossem como este…
- Ruben… - desprendeu-se dos meus braços e foi até à sala
- Então o meu neto?
- Ficou a dormir! - a Mariana respondeu tranquilamente
- Ah…
- Oh mãe parece que ficou desiludida… - meti-me com a minha mãe mas ouvi algo que não esperava
- Fiquei mesmo! O meu neto preferiu o colo da Mariana ao da avó - os presentes sorriram enquanto a Mariana ficou constrangida e talvez por isso a Maria tenha vindo em seu socorro
- Oh Ruben responde mas é ao que interessa - olhei-a - estás preparado para a primeira grande prova de fogo? - a Maria gozou - a primeira noite sozinho com a riqueza do Filipe???
- Não… - confessei o meu maior receio - mas sou pai e tenho que habituar-me…
- Podes sempre pedir ajuda à avó! - a Mari atirou de forma automática o que nos deixou a todos a olhá-la - Que foi? Assim a avó deixa de ter ciúmes da madrinha do teu filho! - todos sorriram pois perceberam que a Mari só respondeu assim porque tinha ficado com aquela entalada mas quem surpreendeu foi o Sr. Manuel quando disse
- Mas não é da avó que o menino precisa e muito menos da madrinha… - fiquei literalmente pasmo a olhar para o pai da Mariana - mas isso são outros quinhentos…
Depois da boca que o pai da Mari mandou a conversa desenrolou-se sempre à volta do que espero para os primeiros dias do Filipe em casa e quanto mais ouvia mais apavorado estava a ficar.


Irá o Ruben aguentar a pressão de ficar sozinho com o Filipe? E a Sofia o que andará a tramar? Quanto aos jornalistas será que terminou por aqui?

terça-feira, 19 de novembro de 2013

#108 - " foi com ele que o meu filho festejou, foi ele que mereceu a dedicatória e era ele que era chamado de pai."

João
Cada dia que passava era mais um. Mais um dia de solidão e de culpa. Tentei manter ao máximo a minha rotina diária e a forma como me relacionava com os outros mas de dia para dia sentia-me mais em baixo, tão em baixo que acabei por ficar doente.
Fui atacado por uma valente gripe e apesar de já ter a autorização para poder estar presente no aniversário do Bruno acabei por passar o dia de cama. Apenas vi o meu campeão através de uma chamada skype que a Ana e o Fábio conseguiram fazer de forma à que a Maria não se apercebeu.
A noite foi péssima piorei imenso, uma vez que a febre aumentou
- João tens mesmo que ir ao médico!
- Isto passa... amanhã já estou bom... 
- Isso foi o que disseste ontem e olha para ti
- Ai oh Filipa... - tinha neste momento a visita do casal Postiga
- Nem Filipa, nem meio Filipa... se não queres ir pelo menos que venha cá a Drª Eva
- Não é preciso... eu... 
- Tu...
- Eu - custou mas tive de admitir - só estou assim porque o Bruno faz hoje um ano e... e eu não posso estar com ele.... aliás nos últimos 365 dias tive poucas vezes... por culpa minha...
- Não te vou passar a mão pelo pêlo... tens mesmo culpa! E se eu fosse a Maria te garanto que o Hélder não tinha a tua sorte!
- Sorte?!
- Sim sorte... se o Hélder me tivesse traído, pensado que ia ser pai do filho de outra e ainda me tentasse tirar a guarda dos miúdos uma coisa te garanto ele nunca mais os via!
Não respondi, sabia que ela tinha razão, sabia que a Maria engolia o orgulho para deixar o menino ver-me. Eles ainda ficaram algum tempo, mas acabaram por sair e eu deitei-me de baixo de uma tonelada de cobertores e quando finalmente consegui adormecer sonhei.
Sonhei com a Maria, com o nosso filho e com o Rui, o homem que se tinha tornado referência para o meu filho.
Vi-os a passearem os três felizes, vi o Bruno a jogar futebol... era na selecção aquele equipamento era da selecção e aquele jovem só podia ser o Bruno, confirmei quando pude ler "Guilherme Mendes 23" na camisola, ele tinha acabado de marcar e correu para a bancada a festejar consegui ler-lhe nos lábios "para ti pai" mas não era na minha direcção que vinha ele correu para junto da Maria, a idade pouco a tinha mudado mantinha-se linda e estava visivelmente feliz abraçada a ele, ao homem para quem o MEU FILHO corria chamando de Pai. Era ele, era o Rui, foi com ele que o meu filho festejou, foi ele que mereceu a dedicatória e era ele que era chamado de pai. Senti as pernas a tremerem e sei que ia iniciar caminho para perto deles. Mas fui interrompido acordei assustado, em pânico, e não era pelo som estridente da campainha mas pelo sonho que passava como um filme e só depois de o rever consegui levantar-me e ir abrir a porta.
Assim que a abri dei de caras com a Drª Eva, uma das médicas do Valência

- Buenos Dias João
- Bom dia Dra… desculpe mas o que faz aqui? Eu já estou melhor hoje até vou ao treino
- Não, hoje não vais!
- Mas estou mesmo melhor! Já nem febre tenho!
- Pois realmente estás com melhor cara - tocou-me com as costas da mão na testa - e febre também não me parece que tenhas, mas mantenho que hoje já não vais ao treino!
- Mas porquê? Não posso continuar a faltar ainda para mais se já estou melhor!
- Realmente não convém que faltes, mas tendo em conta as horas só conseguirás ir ao treino de amanhã!
Só nesse instante olhei para o relógio que tinha na parede de entrada de casa
- Ahh… eu não ouvi o despertador… e agora?!
- Agora vais aproveitar o dia de hoje para descansar e ficares realmente bom e… bem… quando nos apercebemos que estavas atrasado o Hélder disse-nos que tinha estado contigo e acabou por nos dizer que o teu filho fez anos ontem, eu como não sabia que tinhas filhos acabei por falar com a Filipa que me fez o resumo daquilo que tem sido a tua vida pessoal, desculpa sei que é pessoal, mas se puder ajudar?
- A Filipa não tinha que contar nada! - falei de forma rispida - como disse é a minha vida pessoal. Vou cumprir a sua ordem e ficar de descanso hoje, mas amanhã estarei de regresso aos treinos e agradecia que não voltasse a falar do meu filho!
- É nítido que precisas de ajuda a esse nível… conheces o nosso psicólogo não conheces?!
- Já lhe disse que não preciso de ninguém a meter-se neste assunto!
- Como queiras…
- Obrigado por ter vindo, peço desculpa pelo incomodo - dirigi-me até à porta e abri-a num nítido convite a que saísse e assim que ela o faz olho para o lado de fora e tenho em minha frente as duas pessoas mais importantes da minha vida e o meu pequeno assim que me viu esticou os seus braços na minha direcção 
- Papá!!!
- Bruninho! Parabéns campeão!!! - tirei-o do colo da Maria e entrei para a sala onde o enchi de beijos e mimos até que
- Mamã? - o Bruno olhava em volta e parou a sua cabecinha na direcção da porta - Mamã!!!! - começou a choramingar

Maria
Quem abriu a porta foi o João, mas para que de casa saísse aquela que era considerada a mulher mais “hot” do futebol a antiga médica do Chelsea e actual médica do Valência, não me viram de imediato por isso foi fácil ver que o João estava em “trajes menores” , leia-se de boxers e uma tshirt, ela só quando passou a porta é que me viu e como nos conhecíamos não deixou de mostrar um ar espantado apesar de me cumprimentar, para no instante seguinte sentir que o João me levava do colo o Guilherme.
A Eva continuou o seu caminho até à rua e eu fiquei no mesmo sitio sem conseguir reagir, só conseguia pensar que no dia anterior o meu filho não tinha tido a presença do pai no seu primeiro aniversário porque este tinha estado “ocupado” com a nova médica do clube. A vontade que tive foi de pegar no Guilherme e voltar para Lisboa, mas quando ouvi as suas gargalhadas de felicidade por receber os mimos do pai, acabei por ficar sem reacção, ali no meio do hall do prédio sem saber o que fazer, a única coisa que me ocorreu foi ligar ao Rui e quando já desbloqueava o telemóvel ouvi
- Mamã!!! - olhei e vi o Guilherme todo esticado no colo do pai, tentando vir ter comigo
- Entra… 
- Obrigada… não quero incomodar, vim só trazer o Guilherme já que a tua mãe não podia vir e tu estavas muito “ocupado” - nem tentei esconder a ironia - eu vou até ao hotel, levo o Guilherme também se ele te empatar os planos…
- Que conversa é essa? Nem ele, nem tu… vocês nunca empatam os meus planos!
- Tira-me desse filme! Se ele não te incomoda, tens aqui as coisas dele. Voltamos a Portugal amanhã depois do almoço. Eu agora vou… Bebé da mamã porta bem que a mamã amanhã vem buscar-te sim?! - aproveitei que o João tinha vindo até perto da porta e beijei o pequenino - Amanhã venho busca-lo, qualquer coisa tens o meu numero. Adeus
- Maria… - tentei ignorar e continuar - Maria…
- Diz?
- Não precisas ir para nenhum hotel… sabes perfeitamente que podes ficar aqui connosco…
- Tás parvo só pode!
- A sério Maria! Se não o fizeres por também sentires saudades de estarmos juntos fá-lo pelo menino… Maria a Drª Eva estava a sair cá de casa não pelas coisas que imaginaste, mas porque eu estive doente - assim que o ouvi admito que fiquei preocupada, ele raramente fica doente - Sim Maria doente! - odeio quando ele me lê os pensamentos - não foi nada de mais, só uma gripe e durante a noite tive febre… acordei melhor, mas tenho medo de piorar e ficar sozinho com o menino… - voltei a ficar sem saber o que fazer e nesse tempo pai e filho aproximaram-se para que o Guilherme voltasse ao meu colo enquanto que o João pegou na pequena mala que tinha comigo - vamos?
- Eu não acho boa ideia…
- Posso saber porquê?
- Porque… porque como é mais que óbvio não vou ficar no teu quarto!
- Tens o quarto da… quer dizer o quarto de hospedes!
- O quarto da Carmen… nesse muito menos!
- Oh Maria podes sempre ficar no quarto do Bruninho, se bem que não é no meu quarto mas sim no NOSSO que te estás a recusar a ficar!
- Eu fico no do Guilherme, mas voltas a usar nosso para falar de algo que não seja o nosso filho e juro que não fico nem mais um segundo… ah e quanto menos falarmos melhor
- Como queiras… vá entra está á vontade… estás em casa - olhei-o de lado - o que é? Não se costuma dizer faz como se estivesses em casa?!
- Importas-te que leve as coisas para o quarto do menino então?
- Já te disse para estares à vontade…
Sai de perto dele assim que consegui, fui até ao quarto do Guilherme e vi que ele tinha acabado de o decorar, que tinha enchido o quarto de fotos da minha gravidez e dos tempos que tinnhamos passado juntos, olhei uma por uma e senti um aperto no coração. Respirei fundo e nesse mesmo momento ouvi o toque do meu telemovel, com aquele toque só poderia ser uma pessoa
- Estou?
- Estás onde? Com quem? Estás bem? O menino?! - não consegui não rir - não gozes estou preocupado!
- Calma Rui! Não estou a gozar só achei piada! É que nem a minha mãe me controla assim!
- Oh… estou preocupado e confesso que com saudades vossas! Saudades?! - enquanto falava resolvi meter o telemovel em alta-voz, para ir arrumando as malas 
- Eu já te ligava quando acabasse de arrumar as nossas coisa…
- Arrumar as vossas coisas? Mas o menino não ficou com o pai?
- Ficou… e eu também, fiquei em casa dele…
- Tu o quê?!
- Eu fiquei em casa do João… 
- Posso saber porquê?
- Porque parece que ele tem estado doente e não se sentia bem em ficar com o menino sozinho…
- Ah… e não era melhor terem voltado para cá? O menino não pode ficar doente?
- Rui relaxa… parece que o João já está melhor e o menino está tão feliz que… olha se apanhar uma constipação o pior que pode acontecer é ter que passar uns dias com ele de molho em casa…
- Tu és a mãe tu é que sabes… - reparei que o Rui não tinha gostado, mas ele tinha razão eu é que era a mãe e o João o pai
- Vais amuar? - resolvi brincar
- Oh não… mas tenho saudades vossas e tomar o pequeno almoço sozinho é horrível!
- Oh coitadinho! - gargalhei
- Não tem piada Maria Micaela! Não tem piada nenhuma! 

João
Quando consegui que a Maria ficasse lá em casa, no quarto do Bruno, mas mesmo assim debaixo do mesmo tecto que eu, foi impossível não deixar crescer uma esperançazinha de que  fosse possível explicar-lhe tudo o que se tinha passado e quem sabe se assim os três sozinhos não fosse uma boa situação para nos entender-mos, para lhe pedir desculpa…
Foi com essa ideia, de lhe amolecer o coração que resolvi ir com o Bruno até ao seu quarto onde a Maria tinha ido guardar as coisas, para convida-la a tomar o pequeno almoço comigo. Mas quando lá cheguei, percebi que falava ao telemóvel e deixei-me ficar a ouvir a conversa sendo levado para o meu “pesadelo” desta noite só despertando quando oiço
- Mamã!!! UIIII!!!
- É o Rui sim bebé! Queres falar com ele?? - a Maria chegou-se perto de mim tirou-me o menino do colo - E tu deste para ouvir as conversas dos outros foi?
- Eu vinha só… -não pude continuar 
- Maria o que se passa?
- Uiii!
- Guilherme?! A mamã?
- Guigas qui! Mamã qui!
- Tou aqui! Tenho isto em alta-voz e ouve quem ouvisse a conversa… e quisesse falar contigo
- Olá campeão!
- Guigas!
- Sim o Guigas é o campeão! Onde é que tu andas que eu tenho de tomar o pequeno almoço sozinho?
- Papá!!! - finalmente algo nesta conversa de “família” me fazia sorrir, o MEU filho respondeu ao outro que tinha vindo ter comigo e quando o fez olhou-me a sorrir
- Foste ter com o papá? Que bom! Mas volta rápido que eu tenho saudades tuas e da mamã!
- Sim… sim… vai mas é trabalhar malandro! 
- Sim Sra os seus desejos são ordens!! - pensava que finalmente iam acabar com aquela tortura - mas mais logo liga sim?
- Claro que sim! Não é Guilherme? Quando viermos dormir ligamos para dar as boas noites ao bebé grande!
- Se for para vos ouvir até me podes chamar de bebé pequeno! - gargalharam os dois 
- Parvo! Beijinhos té logo - e agora sim o pesadelo acabou - Podes explicar-me agora porque raio estavas a ouvir a conversa?
- Eu não tive intenção vinha só chamar-te para tomares o pequeno almoço comi… conosco e o Bruno é que assim que ouviu vozes…
- Ah… eu já comi obrigada… mas fico com o menino, para não te atrapalhar… e sim ele assim que ouve o Rui reage logo… eles dão-se muito bem…
Tinha ficado muito melhor sem esta informação, mas mesmo assim fingi que não me afectava e convidei-a a fazer-me companhia para poder ir brincando com o menino.

Maria
Confesso que o momento em que percebi que o João acompanhava a conversa me deixou um tanto desconfortável afinal o Ruben já tinha comentado comigo as tentativas do João em saber se as ultimas noticias eram ou não verdade, mas decidi não fazer nada que confirmasse ou desmentisse as suas suspeitas apenas continuei com a conversa que agora incluía o Guilherme que adora o Ui como ele chama. 
Quando a conversa terminou e depois de ter mostrado o meu desagrado por ter tido uma conversa pessoal escutada acabei por ser convidada a acompanhar o pequeno-almoço, algo a que acedi apenas porque tinha o Guilherme ao meu colo.
- Não comes mais nada?! - perguntei admirada quando vi que o pequeno almoço do João se cingia apenas a um copo de leite
- Não consigo comer mais… a febre parece que está a querer voltar e a garganta doi-me - deu-me uma certa vontade de rir, e de o abraçar e dar-lhe colo afinal o João doente é pior que uma criança
- Ai ai filho que pai mais mariquinhas que te arranjei! Anda!
- Para onde? Deixa-me só…
- Não, não vais beber isso assim! Anda lá para a sala - quando ele já se sentava no sofá coloquei o Guilherme no chão - Filho não deixes o teu pai fazer nenhuma asneira… e tu quietinho que eu volto já!!
Não o deixei responder e voltei para a cozinha. Aqueci um copo de leite e misturei-lhe mel, encontrei facilmente tudo afinal estava exactamente no sitio onde tinha deixado, andar naquela cozinha deu-me um aperto no coração enorme aquele já tinha sido “território meu” e agora eu não passava de uma intrusa, fosse como fosse acabei mesmo por ser invadida por várias recordações mais ou menos decentes passadas naquele espaço e naquela casa e quando a torradeira “deu sinal” acabei por despertar e afastar de mim aqueles pensamentos, passei as mãos por aguas e as mesmas pela cara respirei fundo e segui com a refeição para a sala.
- Tudo comido se fazes favor! - disse enquanto pousava o tabuleiro no seu colo
- Oh Maria…
- Mau! É que nem penses em dar maus exemplos ao teu filho!
- É só por isso que queres que coma? E que estás a cuidar de mim?
- Não vás por ai! Come se quiseres se não quiseres não comas! 
- Guigas qué!!! - o pequenote apontava para o leite do pai e pedia
- Desculpa mas vou invadir-te a cozinha outra vez
- Sabes que é… - olhei-o - que estás à vontade…
Segui até á cozinha e no biberão do Guilherme meti-lhe um pouco de leite igual ao do pai
- Está aqui Guilherme! A mamã dá ou bebes sozinho
- Guigas! - disse sorrindo, passei-lhe o biberão para as mãos e sentei-me com ele no chão enquanto o via todo satisfeito e ao mesmo tempo ia dando um olhinho ao pai que continuava a fazer caretas cada vez que levava o leite á boca
- Deixa-te de fitas! Olha pró teu filho a beber o leite sozinho! - ele riu-se e acabou por beber o leite - e as torradas também são para comer!
- Oh Maria…
- Tou a ver que em vez de ser o pai a ensinar o filho vai ter de ser o filho a dar exemplo ao pai! Guilherme! - o menino olhou para mim - Queres pãozinho queres? - o menino esticou a mão, afinal não recusa comida nunca - Toma! - assim que lhe passei um bocadinho de torrada ele levou de imediato à boca comendo todo satisfeito, voltei-me para o João - Vês?! É facil até um bebé de um ano e um dia consegue! 
- Não me gozes… obrigado pelo pequeno almoço mas não consigo mesmo! - olhou para o menino - Ele já comeu tudo?!
- Este na hora de comer mostra logo quem é o pai!
- Estás-me a chamar comilão?!
- Quem eu?! Não!!!! - rimos-nos os dois e quando dei por isso o nosso pequenino acompanhava-nos na gargalhada.
O Resto do tempo até a hora do almoço foi passada comigo colada ao ecrã do tablet tentando abstrair-me de onde estava e na companhia de quem, conversei com o Rui, com a Ana e com o meu tio via chat, mas mesmo assim a voz, o riso e o cheiro do João “invadiam-me” deixando-me completamente fragilizada, estar ali obrigava-me a reviver os momentos que tínhamos passado, bons e maus.
Acabei por deixa-los na sala e seguir para a varanda e foi de lá que tirei a fotografia que não resiti em partilhar
“O meu filho veio festejar o seu primeiro ano de vida com o pai!! A sorte é que o pai está doente! (coitadinho! :p )”


Quando a publiquei limitei o acesso a quem a poderia ver apenas a família e os amigos mais íntimos, para que não houvesse qualquer tipo de especulações. Mas de seguida vi-me “obrigada” a partilhar nova fotografia e desta vez nem liguei com quem o fazia
”Quem é o pai? Quem é o filho? O Guilherme quando for grande vai ser médico!


- Mamã o menino precisa trocar a fralda!
- E o pai tem algum problema nas mãos?
- Tu fazes melhor...
- OK... estás melhor? - acenou com a cabeça - então trata lá do almoço...
- Vamos almoçar com o pessoal? Eles tão sempre a perguntar por ti...
- Como quiseres... vou tratar dele...
Acabei por despachar o menino e juntar-me ao João. O almoço foi bastante animado embora o pessoal tenha estado sempre a tentar perceber se nós estávamos novamente juntos.
Quando chegou a hora de voltar a casa o João insistiu em passear pelas ruas de valência e quando finalmente chegamos a casa enquanto fui ver o meu email o João jogou-se para o tapete com o Guilherme. Fiquei a observar e mais uma vez não resisti
"Cada vez com mais duvidas sobre quem é o adulto! :p"


A tarde foi passada na brincadeira e acabei por me juntar a eles de forma natural. Até que o João acabou por se aproximar de mais e eu vi-me obrigada a afastar.
O jantar foi tranquilo e depois de adormecer-mos o Guilherme fui novamente até ao tablet desta vez liguei imediatamente o skype e iniciei uma chamada com o Rui onde ele quis saber tudo o que se passava.
- E depois almoçamos com o Postiga... - neste momento sou interrompida o João tirou-me o tablet das mãos
- E ela foi a casa de banho a meio e arrotou 2 ou foram 3 - olhou para mim - vezes?
- Não tens piada! Dá-me isso!
- oh que pena o palhaço perdeu a piada! - atirou para o sofá - namorem à vontade vou-me deitar... não se incomodem por mim... -saiu da sala
- Desculpa Rui... não sei o que lhe deu
- Ciúmes Maria! Ele viu-te chegar e ainda lhe deste comida... achava que agora iam para a cama e tava tudo bem!
- Mas eu nunca lhe dei qualquer indício...
- Maria nós nunca namoramos, nunca casamos, não temos um filho e mesmo assim eu tenho esperanças imagina ele...
- oh Rui...
- eu sei, eu sei... desculpa...
- bem o campeão acordou... vou lá
Despedi-me do Rui e quando cheguei ao quarto já lá estava o João
- O que é que ele tem?
- Não precisava deixar o teu namorado pendurado eu tratava dele! Perdeu só a chupa não foi amor?
Aproximei-me e ao tirar o Guilherme do seu colo toquei-lhe e senti-o a ferver. Joguei a mão à sua testa
- João vai-te deitar imediatamente! Estas a arder!
- Eu estou bem!
- E eu sou o Pai Natal, agora a serio João estás a por o menino em risco!
- Maria eu preciso falar contigo! Por favor!
- Vai deitar-te eu já lá vou...  Porque temos mesmo muito que esclarecer...

Ele saiu e eu adormeci o nosso bebé. Quando o deixei parei alguns minutos em frente ao quarto do João sem coragem para abrir aquela porta. Já tinha sido muito feliz ali, mas também tinha sido muito triste. Respirei fundo, bati e abri a porta 

- Já cá estou o que queres? - quando a olhei ele estava coberto de mantas e a tremer
- Frio Maria muito frio!
- Isso é da febre! - aproximei-me e realmente ele estava cada vez mais quente. Pouco podia fazer dei-lhe um antipoético e esperei que baixasse mas nada. O João queria falar, mas sabia o que ele queria e ele no estado  que estava não conseguia ter nenhuma conversa. - João fica quieto e calado por favor se não essa febre não vai baixar!
- Mas eu preciso pedir-te desculpa Maria... desculpa...
- Esquece João... não quero falar nisso foi o que teve de ser e acabou. Agora é continuar cada um com a sua vida e sempre que o nosso filho precisar é partilharmos o mesmo espaço o mais civilizadamente possível e quem sabe sermos amigos...
- Mas..
- Mas agora vais dormir... eu vou buscar agua fria e umas toalhas para ver se a febre baixa
Sai do quarto e fiquei no corredor encostada contra a parede. Ver o João naquele estado estava a partir-me o coração. Continuei o que ia fazer e lá lhe molhei com toalhas húmidas e felizmente a febre baixou
- Pronto já baixou... eu vou deitar-me mas deixo aqui o intercomunicador qualquer coisa chama que eu ouço no quarto do Guilherme
- Fica aqui - olhei-o - como amiga Maria mas não me deixes sozinho
- estou no quarto do lado e qualquer coisa ouço no comunicador...
- obrigado
Acabei por sair e deitar-me junto do Guilherme, mas não dormi fiquei apenas a observá-lo e a lembrar-me do seu sorriso durante o dia. Não sei quanto tempo passou mas algum tempo depois comecei a ouvir um ligeiro ruido, parecia um gemido e segundos depois foi perfeitamente nítido a voz do João. Ele falava palavras sem sentido mas parecia aflito. Desliguei o comunicador e fui até ao quarto dele assim que abri a porta vi-o agitado e encharcado em suor enquanto tremia. 
- João calma... estás outra vez a arder! É melhor chamar um médico...
- Maria não! 
- João o médico passa-te qualquer coisa e de manhã já estás bom!
- Maria... Bruninho... Maria não me faças isto! Não deixes o Bruninho fazer-me isto! - sei que o devia acalmar mas ao mesmo tempo tinha de saber o que o agitava tanto afinal ele estava em pânico - Maria eu vim só ver o menino... o nosso filho está óptimo grande... e o golo... que golo! Mas ele não pode Maria o pai dele sou eu! Eu sei... sei que vos fiz mal... que vos troquei por um embuste.... mas Maria ele não pode chamar esse homem... ele nao pode chamar o Rui de pai! O pai dele sou eu!!!
- João calma o pai dele és tu! Ninguém vai ocupar esse lugar...
- mas o teu marido também era eu e agora tas ai com ele! E vão ser pais??
- oh João mas tu tas parvo?!
- perdoa-me... por favor!
O João devia estar a ter alguma alucinação da febre o certo é que ele estava mesmo aflito.
- João eu perdoar já perdoei... mas esquecer nunca vou ser capaz e é por isso que o melhor é cada um seguir a sua vida! Agora por favor acalma-te, dorme para amanhã estares bem...

Sai do quarto e afundei-me no sofá só consegui chorar o que o João dizia não fazia sentido e só depois de um par de horas percebi que ele estava a projectar o futuro e nesse futuro o Guilherme tinha o Rui como seu pai. Chorei mais ainda nunca na minha vida pensei em tal coisa. Se alguma coisa eu tinha como certa engolindo os sapos que fossem precisos era que o meu filho ia estar com o pai sempre que ambos o quisessem.
O resto da noite foi passada assim entre os quartos de pai e filho um dormia tranquilamente o outro continuava agitado e de quando em quando voltava a pedir-me perdão e que não deixasse o Guilherme chamar outro de pai como eu já chamava outro de amor. Cada palavra dele era um punhal no coração ainda para mais sendo ditas de forma inconsciente, mas aquilo que tinha visto há uns meses naquele quarto e o que tinha ouvido não o permitiam.
O dia amanheceu e o João surpreendeu-me quando dava o pequeno almoço ao Guilherme
- oh João vai deitar-te!
- eu tenho treino!
- Tu tas maluco? Passaste a noite a delirar!
- Então não foi um pesadelo? Tu disseste-me mesmo que acabou de vez?
- Disse João disse
- Não há mesmo hipótese?! 
- João por favor! - implorei para que se afastasse
- Como achares melhor... desculpa! Pequenote nunca te esqueças que o papa sou eu! Eu!
Ele continuava agitado embora já sem febre todo este medo ele estava mesmo assustado com a ideia... 
Fiquei estes dias com ele até ele estar perfeitamente bem e voltei para Lisboa e para a agitação e loucura da minha vida profissional. Com apenas uma mudança, passei a ser eu a levar o Guilherme ao pai e começamos a reanimar a nossa amizade, aquela que tínhamos no secundário. Enquanto a minha relação com o Rui estava cada vez mais próxima.
 
Será Amizade só?!
E o Rui e a Dra Eva terão uma palavra a dizer?
E como estarão o Ruben, a Mariana e o pequeno Filipe?