domingo, 27 de outubro de 2013

105 - "E se não quiser largar-te?... O que fazes? Bates, é?"

Ruben
Os dias têm passado, entre treinos e as visitas ao meu filho. O Filipe está cada dia mais bonito e felizmente está a ter uma evolução muito boa, neste momento está com o equivalente a 31 semanas e 4 dias ou seja 25 dias de vida e já pesa 1700g.
Hoje acordei animado, finalmente vou poder jogar, o mister resolveu apostar em mim para o onze inicial e por isso tudo farei para não desiludir, a verdade é que com tudo o que aconteceu nos últimos meses, esta época tem sido para esquecer.
Joguei os noventa minutos que terminaram com um empate a um golo, ainda assim estava contente porque a nível pessoal o jogo até correu bem. Despachei-me o mais rápido possível porque hoje o Sr. Manuel faz anos e convidou-me para jantar. Conduzi calmamente para casa dos pais da Mariana e quando lá cheguei já estavam todos reunidos, cumprimentei-os a todos e quando aproximei-me da Mariana para também a cumprimentar com os beijinhos da praxe
- Vamos jantar! - sem que contasse com tal reação por parte do meu amor, a Mariana tentou afastar-se
- Posso cumprimentar-te?! - agarrei-a pelo braço e apesar de ter a sua família toda a olhar-me não a larguei
- Chegasse mais cedo!
- Tive jogo... - tentei justificar-me
- Pois agora a desculpa é do jogo... - a Mari ripostou e depois saiu da sala
- O que é que lhe deu? - a Maria foi quem reagiu em primeiro
- Não sei mas vou já saber! - saí e fui procura-la, encontrei-a na cozinha - Posso saber o porque desta tua reação? - olhou-me
- Esquece... - suspirou
- Esqueço nada, o que se passa? Despachei-me o mais rápido que consegui...
- Engraçado... o jogo são noventa minutos com vá mais uns trinta para tomares banho e outros vinte para chegares cá dá cinquenta e nós já esperamos por sua excelência há mais de oitenta!
- Mas desde quando é que controlas os meus horários?
- Desde o momento que para a vossa excelência bajular as fãs eu fico à espera de sua alteza para jantar! - sorri porque a Mari estava com ciúmes
- Mesmo sério vais implicar com as miúdas?
- Até podem ser na sua maioria miúdas mas tens pelo menos duas que mais parecem abutres à espera para atacar e comer-te! - gargalhei
- Sério? Amor - falei sem pensar, talvez por perceber que estava ruída de ciúmes mas como falei também a Mariana interrompeu assim que percebeu o que disse
- Amor o tanas! O meu nome é Mariana! - resmungou - E são abutres sim!
- O que é que te deu para teres ciúmes das miúdas?
- Não são ciúmes!
- Ai não? - perguntei divertido mas a Mari não respondeu e saiu da cozinha possessa, deixando-me a mim a sorrir sozinho e quando reparei já tinha o seu pai olhar-me
- É impressão minha ou a conversa não correu bem?
- Mais ou menos… - respondi já a tentar abandonar a cozinha para evitar mais perguntas mas não tive sorte
- A minha filha tem falado comigo, logo sei o que se passa - olhei-o - por isso só te peço que tenhas cuidado para não magoares novamente a Mariana…
- Isso é a última coisa que quero… - suspirei - fiz tanta asneira que agora estou a pagar caro... - acabei por admitir e ao contrário do que esperava o seu pai sorriu
- Ruben diz-me a verdade - olhei-o - desde que a minha filha se reaproximou de ti porque percebeu que estavas a precisar de todo o apoio nunca se passou nada? - baixei o olhar
- Somos só amigos se é isso que quer saber, a sua filha não consegue confiar em mim, não acredita que a amo porque quem ama não trai e que apesar de ter terminado a relação antes de envolver-me com a Sofia para a Mari foi traição - sorriu - que foi?
- Se há dois anos falassem que estaria aqui a ter esta conversa contigo não acreditaria mas vocês são a prova viva de que quando o amor existe move montanhas - olhei-o confuso - Ruben o que quero dizer é que foi preciso ver a minha filha a sofrer por ti para perceber que vocês se amam, é verdade que tomaram decisões erradas em diversos momentos e que por isso estão separados mas esta separação só existe fisicamente porque emocionalmente continuam unidos e se queres que seja sincero duvido que alguma vez tenham estado tão unidos, o Filipe uniu-vos.
- Não percebo…
- Ruben, a Mariana ama-te tanto que nos últimos meses foi humilhada diversas vezes por ti e mesmo assim contínua do teu lado - baixei o olhar - O que quero dizer é que muito provavelmente a Mari recuou e não permite que te aproximes mais porque tem medo de te perder novamente, no entanto continua a desejar-te - olhei-o abismado, talvez por não esperar que fosse tão direto - e a querer outro tipo de mimos!
- Sinto-me perdido... - confessei de forma tão espontânea que o Sr. Manuel voltou a rir para depois ouvir algo que levou-me às lágrimas
- É normal, perdeste o rumo quando a minha filha abortou! Já percebi que te culpas por não teres estado do seu lado quando aconteceu e enquanto não te libertares dessa culpa não encontrarás o rumo. Ruben o teu maior erro não foi a Sofia, foi a forma como tentaste destruir o vosso amor, só conseguiste aumentar mais a vossa dor, se queres um conselho dá-lhe espaço, respeita a ritmo da Mariana porque se não te deixou de amar durante estes meses não será agora que o conseguirá… deixa acontecer naturalmente e aos poucos reconquistarás a sua confiança…
***
Depois do jantar aproveitei que a Mari estava a brincar com o nosso afilhado para aproximar-me
- Posso? - olhou-me
- Não tens mais nada de útil para fazeres?
- Tirando brincar com o meu afilhado e estar com a mulher que amo não!
- Ruben... - interrompi
- Esquece Mariana por muito que queiras afastar-te não vou deixar, nós merecemos uma nova oportunidade…
A Mariana não contra-argumentou e por isso fiz-lhe companhia, ainda que remetidos ao silêncio, ficamos bastante tempo sem abrir a boca até que resolvi fazê-lo
- Amanhã aparece no treino!
- Dá-me um bom motivo!
- Vês o treino, depois podemos lanchar e ainda marcas território...
- Ãh?
- O treino é aberto ao público.
- Não sou cadela para marcar território! - resmungou e levantou-se, voltei a segui-la e assim que entramos no seu antigo quarto
- Pois não - agarrei-a pela cintura e fi-la rodar o corpo de forma a ficar de frente para mim - és só aquela que quero do meu lado hoje e sempre - acariciei o seu rosto com a minha mão - Mariana não fujas ao que sentes.
- O que queres dizer com isso?
- Que a conversa com o teu pai - olhou-me admirada - serviu para perceber porquê que te afastaste nestes últimos dias... não estás a conseguir gerir as emoções, tal como sinto desejo por ti que também sentes por mim mas tens medo ou receio ou lá o que for, não queres entregar-te novamente a mim porque estás magoada e juro que percebo mas se não me deres a oportunidade de provar-te que agora já sei o que quero nunca seremos felizes juntos. Mariana não estou a pedir mais do que já tenho.
- Será que não entendes que ter-te constantemente de volta de mim deixa-me fragilizada? Que a continuar assim não sei se esta cena de sermos só amigos durará muito... porra és o único homem que amei, o único que enlouquece-me só com uns simples beijos - sorri ao ouvi-la a admitir - o único por quem consigo sentir desejo, o único que quero só para mim... quero-te do meu lado por inteiro e não às migalhas.
- Então porquê que foges?
- Porque apesar de tudo o que disse ser verdade, há uma verdade ainda maior - suspirou para olhar-me nos olhos - não confio em ti! Ruben quando não estás comigo a dúvida instala-se.
- Que duvida?
- Se estás ou não com outras - baixou o olhar - é por isso que ando a evitar-te, desculpa não tens culpa, o problema é meu mas não consigo deixar de sentir insegurança e nunca fui possessiva...
- Dá-me uma oportunidade para provar-te que podes confiar!
- Não! Ruben por muito que queira não consigo... desculpa mas não dá, não quando ainda está tudo tão presente - suspirou - amo-te mas há muito que só amor não chega...
- Estás a desistir da tua ou melhor da nossa felicidade?
- Não! Muito pelo contrário, estou a lutar por essa tal de felicidade!
- Não percebo...
- Ruben para ser feliz contigo primeiro tenho de ser feliz comigo mesma, preciso voltar a amar-me - engoli em seco as suas palavras - roubaste-me muita coisa e uma delas foi o amor-próprio... aos poucos e poucos conseguiste mudar-me e se por um lado agradeço pois deixei de ser aquela eterna adolescente inconsciente por outro odeio no que me tornaste... Ruben o meu maior erro foi abdicar do meu amor-próprio para te amar, aliás continua a ser o meu maior erro porque mais uma vez estou a magoar-me por não conseguir ignorar tudo aquilo porque estás a passar, mais uma vez estou a colocar-te em primeiro e enquanto isso não mudar, enquanto estiver assim tão dependente de ti nunca conseguirei voltar para ti, porque sei que nunca terei o discernimento suficiente para te dizer um NÃO quando houver algo que não concorde...
- Posso pelo menos ter esperança?!
- Não te vou responder a isso... a decisão será tua até porque não sei se algum dia conseguirei dar-te a resposta que tanto procuras e agora sai, quero ficar sozinha!
Respeitei o seu pedido e depois de me despedir saí do seu quarto, fui até à sala e despedi-me da sua família, usando a desculpa de estar cansado para justificar a minha saída.

Mariana
Cinco dias passaram desde o aniversário do meu pai e ando cada vez mais confusa, ainda assim não consigo deixar de falar com o Ruben, o meu amigo está cada dia mais feliz, também não é para menos, afinal o Filipe completa hoje trinta dias de vida. Cheguei ao hospital e assim que entrei na unidade de Neonatologia um sorriso enorme surgiu no meu rosto ao ser informada que o Filipe já não estava na incubadora.
Depressa fui ter com o Ruben que estava perdido em pensamentos enquanto olhava para o filho
- Oi… - falei assim que aproximei-me dele
- Olá… como é que estás? - falou sem retirar os olhos do Filipe
- Bem… e tu? Não devias estar feliz por o meu afilhado já não estar na incubadora?
- E estou muito feliz mas também estou preocupado…
- Então?
- Não vês… o Filipe está agitado e não há nada que o faça acalmar… tenho medo que esteja a sentir alguma coisa…
- Os bebés não são eternamente anjinhos - instintivamente abracei o Ruben, o meu amigo estava mesmo abatido e assim que o fiz olhou-me o que foi suficiente para voltamos a perdemo-nos nos olhos um do outro e só saímos do transe em que estávamos quando o menino se voltou a mexer, de facto estava agitado
- Oh filho… - suspirou
- Porquê que não lhe pegas, pode ser que acalme…
- Já o fiz mas não adiantou…
- Ah… ok…
- Mas se quiseres tentar…
- Eu?! Se tu que és pai não o consegues acalmar sou eu que o vou conseguir…
- Não custa tentar… além disso o Filipe adora-te!
Acabei por ceder ao pedido do Ruben até porque também já tinha saudades de pegar no meu anjinho. Estava com o menino nos meus braços a tentar acalma-lo quando o Ruben se aproximou, o que fragilizou-me pois estava demasiado perto de mim, tanto que sentia a sua respiração na minha cara. Ficamos os dois simplesmente a observar o menino que por incrível que pareça acalmou. Estava maravilhada a olhar para o Filipe que só reparei que o Ruben tinha tirado uma foto quando o meu telemóvel deu sinal de notificação do instagram e após retira-lo do bolso das calças foi impossível não sorrir ao ver o que tinha feito

@Rubenamorim_ Olá... sou o Filipe e faz hoje trinta dias que nasci! E para comemorar o dia pude finalmente deixar aquela “casinha transparente” que tanto me ajudou... mas como hoje só deram boas notícias ao meu papá resolvi brincar um pouco com ele e fiz birra quando pegou em mim ao colo... deixei o papá preocupado mas depois chegou a madrinha @Marianamendes e assim que pegou em mim fiquei logo muito contente...
@Marianamendes_ @Rubenamorim estás cheio de piada... mas pronto hoje tens desculpa afinal é mesmo um dia que merece ser recordado para todo o sempre... ah e tenho muito orgulho no afilhado que me arranjaste :P
Respondi e voltei a colocar o telemóvel do bolso, preferi ficar a babar no pequenino do que entrar por caminhos perigosos. O Filipe acabou por adormecer e por isso deitei-o no seu berço, só voltei a pegar no menino quando o momento de lhe dar o biberão chegou, o Ruben permitiu que fosse eu a dar e confesso que ao início tive algum receio, pois o Filipe ainda não se adaptou completamente ao biberão.
O momento que se seguiu foi de pavor, tive mesmo receio que o menino se engasgasse mas acabou por correr tudo bem e concluí a minha tarefa com sucesso ao coloca-lo para arrotar, no entanto foi o Ruben quem lhe trocou a fralda, algo que deixou-me maravilhada, pois o meu amigo é finalmente um pai por inteiro.
Ficamos ainda algum tempo a ver o Filipe mas quando me queixei com fome acabamos por sair para jantar num restaurante junto ao rio Tejo e aproveitamos a noite para metermos a conversa em dia, tudo corria bem até ao momento que o Ruben me pediu ajuda para preparar o quarto do Filipe
- Para quê que queres um quarto todo pipi?
- Então o menino merece ter o seu espaço e se tenho possibilidades financeiras para lhe decorar o quarto, não percebo porquê que não o posso fazer…
- A questão não é essa…
- Então?
- O Filipe ainda é muito pequenino logo convém que durma no teu quarto ou então vais passar a noite em pé para o veres, logo não precisas decorar já o quarto…
- Estou a ponderar contratar alguém para cuidar do Filipe - olhei-o abismada - que foi?
- Vais deixar o teu filho entregue a alguém que não conheces?
- Sabes bem que infelizmente não tenho horários para ser pai a tempo inteiro…
- Ah e por isso vais contratar uma flana qualquer para ficar com o teu filho noite e dia! - falei sem medir bem as palavras e por isso o Ruben facilmente me apanhou
- É impressão minha ou estás novamente com ciúmes…
- Ciúmes? Estás louco! - atirei quando já estávamos a chegar junto do seu carro
- São ciúmes sim… conheço-te…
- Não é nada disso! Só acho que se és pai deves cuidar do teu filho!
- Hum… Hum… - sorriu para depois abrir a porta do lado do pendura para que entrasse

Ruben
Depois dos momentos partilhados com a Mari no hospital, bem como durante o jantar, onde o meu amor deixou durante minutos os ciúmes virem ao de cima acabei por levá-la até casa.
- Queres subir?
- Hum… pode ser!
Perdemos a noção das horas pois metemo-nos à conversa e quando vimos já era tardíssimo, talvez por isso tenha dito para ficar a dormir no quarto de hóspedes, algo que aceitei.
Acordei durante a madrugada e não resisti em ir até ao seu quarto, abri a porta e vi a Mariana agitada, acabei por aproximar-me e assim que deitei-me do seu lado, a razão do meu viver, sossegou o que fez-me sorrir, pelo menos enquanto dorme a sua consciência não prevalece ao coração, a Mariana acabou por se aconchegar no meu corpo, o que fez com que pouco ou nada tenha dormido com receio que quando acordasse e verificasse que estava do seu lado e ainda para mais a dormir em conchinha com ela fosse ficar chateada.
- Bom dia – a Mariana falou ao entrar na cozinha
- Dormiste bem?
- Sim...
- Que sim mais estranho foi esse? – olhou por uns segundos
- Ah... é que...
- É que?! – insisti, a Mariana estava estranha
- Nós dormimos juntos? – parei de cortar o pão e olhei
- Se com juntos queres dizer na mesma cama e abraçados, sim dormimos - preferi a verdade à mentira até porque corria o risco de mentir e ela se recordar - desculpa sem que abusei mas não resisti em deitar-me ao teu lado...
- Obrigada – sorriu e depois deu-me um beijinho no rosto, o que deixou-me admirado
- Estás a agradecer o quê? – olhou-me
- O não teres mentido...
- Meteste-me à prova? – sorriu – Mas isso quer dizer que te recordas... mas tavas a dormir...
- Quando foste ao quarto estava acordada mas não tive coragem para o demonstrar...
- Então isso quer dizer que...
- Sim, quer dizer que dormi o resto da noite em conchinha contigo porque quis, porque já tinha saudades de dormir aconchegada, de sentir o teu respirar conta o meu corpo – baixou o olhar – desculpa sei que com estas minhas atitudes te estou a dar esperanças mas sinto falta destes pequenos momentos - sem que nada o previsse começou a chorar
- Pshiu anda cá – abracei-a – tem calma... sempre que precisares estou aqui... e não te preocupes com as falsas esperanças – fi-la olhar para mim – estás a ser sincera, sei que não é por dormirmos abraçados que voltaremos ao que eramos...
- Tenho medo de estar a desperdiçar o que pode ser a nossa última oportunidade, - foi impossível não sorrir ao ouvi-la - sei que são mais as vezes que recuo do que as que avanço mas só o faço por ter receio do incerto, do desconhecido, do futuro... só sei que o presente está a ser maravilhoso mas que não consigo vivê-lo na plenitude porque este medo que sinto não permite - as lágrimas apareceram - e por isso mesmo talvez o melhor é afastar-me, não quero magoar-te ainda mais e sinto que é isso que acontecerá se mantivermos esta proximidade, Ruben estar do teu lado começa a ser tortura, tenho vontade de beijar-te mas a minha consciência não deixa, o meu lado racional assim o impede...
- Deixa o lado racional... vive simplesmente!
- Não Ruben! Estás a pedir o impossível porque é este lado racional que me mantém viva, é este lado racional que faz-me pensar primeiro em mim por isso não o posso ignorar, já o fiz no passado e acabei por sofrer…
- Então usa esse lado racional para equilibrar a balança - olhou-me sem entender - Mariana se decidires manter-te afastada de mim vou respeitar mas garanto que vou reconquistar tudo o que perdi por estupidez, vou provar-te que o nosso amor é muito mais forte do que julgas... - interrompeu-me
- Não dificultes - implorou
- Não estou a dificultar... estou a dar-te duas opções, a primeira é fugires ao que sentimos e a outra é deixares que continue do teu lado a provar-te dia após dia que aprendi com os meus erros.
- A segunda não é opção... é tortura!
- E a primeira é o quê? Vais dizer que tens aí algures um botão no teu coração que consegues desligar e esquecer que amas-me? Que me desejas? Que sentes falta das minhas carícias, dos meus beijos e me teres perto de ti... É que se tiveres diz-me onde é, pode ser que também o tenha e só ainda não o descobri, porque garanto-te que o que me mata neste momento é o receio que optes por fugir e não os olhares, os abraços, as carícias… tudo isto é o que dá-me forças para sair da cama todos os dias, para treinar, jogar, mas acima de tudo para querer viver...
- Tenho que me afastar! - falou decidida
- Podes tentar mas não deixarei! Mariana cometi esse erro no passado e olha só no que deu... só serviu para sofrermos os dois...
- Não percebes que a cada dia que passo do teu lado fico mais fragilizada - interrompi
- Isso é bom... é sinal que o dia que voltarei a ter-te por completo está mais próximo, nós voltaremos a ser felizes juntos mas para isso é necessário que deixes, não penses no amanhã, vive o presente!
- Não consigo... nós já começamos e terminamos tanta vez...
- Mariana podes dificultar ao máximo e juro que entendo porque tenho consciência que magoei-te muito mas não vou desistir de ti e conseguirei fazer com que percas esse medo estúpido - dei-lhe um beijo no rosto - e agora vamos comer…
A Mariana não respondeu, olhou-me só por uns segundos e foi-se sentar à espera que terminasse de torrar o pão para comermos. Os minutos seguintes foram de silêncio total, a Mariana estava perdida em pensamentos e não quis interrompe-la e quando terminou de comer seguimos para o hospital.

Mariana
O Ruben ter admitido que dormimos abraçados tranquilizou-me, ainda assim as palavras que trocamos ao pequeno-almoço deixaram-me ainda mais confusa, a verdade é que cada dia que passa as saudades são maiores e mesmo já tendo chorado e sofrido bastante por sua culpa não o consigo esquecer…
Depois do pequeno-almoço fomos diretos ao hospital, o Ruben quis ver o filho antes do treino e confesso que também já estava com saudades daquele anjinho, por isso mesmo aceitei o seu convite e acompanhei-o, uma vez que hoje não trabalho.
- Agora que já vimos o Filipe o que dizes em acompanhar-me ao treino?
- Aceito! - o Ruben sorriu - Já tenho saudades de implicar com alguns dos teus colegas de balneário…
O Ruben esmoreceu um pouco, talvez por ter percebido que não era por ele que ia assistir ao treino, no entanto fomos até ao Seixal sempre na conversa e só a interrompemos quando teve que entrar para se equipar.
Vi o treino todo sossegada no meu canto e foi quando já estava a caminhar para junto do carro do Ruben percebi que estava a ser observada mas não parei, muito pelo contrário, fingi que não tinha reparado e continuei caminho até junto do seu carro, felizmente não tive que esperar quase nada, pois quando dei por mim já o Ruben estava com os seus lábios colados à minha bochecha direita, o que despertou a curiosidade dos adeptos que por ali circulavam e quando o Ruben parou o carro para os “famosos” autógrafos mais uma vez senti-me a ser observada.

Ruben
Acordar e ouvir a Mariana a admitir que se dormimos juntos foi porque ela assim o quis deixou-me com certezas que se continuar a ter calma conseguirei provar que podemos ser felizes juntos, foi essa certeza que me fez convidá-la para assistir ao treino e depois para almoçar comigo, algo que aceitou e por isso fomos até ao meu apartamento.
Preparamos algo rápido para o almoço e comemos na sala, literalmente de prato na mão, algo que o meu amor adora fazer. Almoçamos com alguma conversa à mistura e outras tantas risadas que nos acompanharam até quando fomos arrumar a cozinha
- Deixa que lavo a loiça!
- Era só o que mais faltava!
- Deixa de ser chato!
A Mariana estava numa de ateimar mas como também não estava numa de facilitar acabei por abraça-la para a retirar da cozinha e assim que o fiz
- Larga-me! - ouvi-la a pedir de forma mais tensa fez-me perceber que aquele simples abraço a afetou mais do que seria suposto, talvez por isso deixei de agir com racionalidade e
- E se não quiser largar-te? - virei-a para mim - O que fazes? Bates, é? - suspirou profundamente o que arruinou com o pouco autocontrolo que ainda tinha - caramba amo-te e sinto saudades tuas, dos teus beijos, dos carinhos, de tudo...
A Mariana não respondeu, ficamos simplesmente a olharmo-nos intensamente durante alguns segundos e sem que esperasse a Mariana tomou a liberdade de beijar-me

- Também tenho saudades tuas, dos teus beijos, dos carinhos, de tudo...

E agora? Irá a Mariana se arrepender do beijo e do desabafo final?

segunda-feira, 21 de outubro de 2013

104 - "...eu não estou arrependido, mas sei que não estás preparada…"

Maria
O João seguiu mesmo com o processo de guarda para a frente. Temi passar meses enrolada em burocracia e que me retirassem o Guilherme, mas felizmente o processo foi rápido e todos, desde amigos a família incluindo os pais dele, que foram chamados a testemunhar fizeram-no a meu favor. Não porque o João é mau pai, mas porque as circunstâncias em que vive e os motivos da nossa separação assim os "obrigou". De qualquer forma e contra a minha vontade hoje 15 dias depois de o ter visto pela última vez fui obrigada a deixar que o Guilherme fosse passar o fim de semana com ele
- Fica tranquila Maria que eu não o largo um segundo!
- Oh Teresa e se o João não o deixa voltar?
- O meu filho não ia fazer isso!
- Acha mesmo que não?!
- Não sei Maria... já não o conheço... mas eu não o permitirei segunda-feira estamos cá!... Guilherme beijinhos na mamã!
O meu filho recebeu os meus mimos e quando percebeu que ia sair de casa só com os avós paternos fez aquilo que sempre faz assim que percebe que o vou "deixar" chorou. Chorou muito e chamou por mim, tive de me fechar no quarto para não correr em direcção a ele e proibir a sua ida, algo que não resultou e quando já saia de casa disparada sou impedida de o fazer pelo meu vizinho.
Agora com a Mariana entregue aos cuidados do Pipo e do Rúben tem sido o Rui o meu suporte e nem foi preciso abrir a boca
- Cruzei-me com eles na porta o menino chamava por ti, mas não podes ir Maria... tens de deixar... não podes ser igual ao João...
- Eu sei... - solucei
- Anda... vamos lá para casa... pedimos sushi e vemos um filme para te distraíres... anda!
- Não sou boa companhia hoje...
- És uma excelente companhia sempre!
Acabei por aceitar o convite e passar o serão em casa do Rui. O serão e todo o fim de semana já que apenas tive ordem para me ausentar da sua companhia quando o sono era maior que eu.
Mas na segunda-feira nem mesmo o maravilhoso pequeno-almoço preparado por ele me fez "esquecer" que estava a horas de voltar a ter o meu bebé nos braços
- E se ele não volta?
- Maria!
- Não é Maria... imagina que o João resolve ficar com ele?
- A Teresa não ia permitir!
- Oh a Teresa é mãe dele...
- Pois é... mas testemunhou a teu favor e ofereceu-se para supervisionar as visitas achas que o faria?
- Ai não sei... tou tao confusa...
Os segundos pareciam horas e finalmente a campainha tocou, corri para a porta para encontrar o meu filho a dormir ao colo da avó
- Finalmente!
- Maria até chegamos mais cedo!
- Eu sei, mas nem deviam ter ido... quer dizer...
- Eu percebo Maria... aliás depois do que vi e ouvi em casa do João podes ter a certeza que o Guilherme não ficará um segundo longe do meu olhar
- Mas o João tratou-o mal? Teresa, vou ao tribunal e proíbo...
- Maria o João sempre que teve um milésimo de segundo esteve colado ao menino... o que me preocupa é a Carmen...
- Essa... o que é que ela fez? Se ela tocou no meu filho eu esqueço que ela tem o dela na barriga!
- Ela não fez nada porque não teve hipótese... o João não lhe dá espaço para tal e eu muito menos, além de que na presença do João o menino é um rei... já quando ele não está a conversa é outra... ela pensa que se falar espanhol ninguém a percebe... coitada.... correu-lhe mal!


Teresa
Ofereci-me para levar o Guilherme a ver o pai porque sinceramente já não reconheço o meu filho. E tive algum receio de como seria a estadia do pequeno junto do pai e da... bem da Mãe do irmão ou irmã.
Assim que lá cheguei foi impossível não reparar no "amor" que preenche aquela casa, nem quando a Maria e o João se encontraram no dia dos anos dele o ambiente era tão frio.
A Carmen bem tenta fingir que são um casal modelo, mas qualquer pessoa vê que o meu filho não está feliz e eu pude confirmá-lo ao ouvir uma conversa entre pai e filho
- Pois é bebé vamos ter que ter uma conversa muito séria para quando fores grande não fazeres a mesma asneira que o papá e o padrinho! A Carmen está á espera de um mano ou uma mana para ti... e o papá é o responsável porque foi irresponsável e inconsequente e quis disfarçar as saudades que tinha da mamã... e agora o papá não podia voltar a fazer o que fez contigo... não podia estar longe do bebé que vem ai como esteve de ti! Merda! Estou a fazer o mesmo... estou a usar o bebé que não nasceu para tapar a tua falta.... ai Bruninho o que é que eu fiz...
- João esta na hora do menino comer
- Eu dou!
A tarefa foi complicada apesar da boa vontade do meu filho o meu neto resolveu que não queria comer e ainda deu um ar da sua graça quando depois de cerrar bem a boca para não receber comida
- oh filho... não faças isto ao papá! Se vais daqui sem comer o que é que a tua mamã vai dizer? Vá come lá!
- Mamã? Mamã! MAMÃ!!!
- João o menino chorou muito para vir e a Maria ficou desfeita, isto não é solução...
- A Maria só fica assim porque provocou e eu não quero saber como ela fica… Porque também ninguém quer saber como eu fico! E como eu fico aqui?  Eu não tenho a minha mulher nem o meu filho!
- João tu não tens a tua ex-mulher e um dos teus filhos mas isso foi uma escolha tua!
- Escolha mãe? - enquanto falávamos e visto que o tom da conversa aumentava a Carmen pegou no menino e levou-o com ela. "Finalmente fez algo de jeito" pensei.
- Sim fizeste-a no mesmo momento que decidiste dormir com...
- Eu não pensei...
- Ainda mais razão me dás!
O João e o seu bom-feitio deixaram-me sozinha e acabei por ir procurar o meu neto.
Quando cheguei perto do quarto da Carmen, depois de correr toda a casa, ouço
- Mira mi plaga ahora vamos a aclarar las cosas aquí. Tengo que no me gusta ... óptima también no me gusta usted y no te quiero por aquí! Recuerdos a tu madre y esto es indeseable para mí. Así, mientras que no se puede conducir de una vez la Vida João es bueno que se comporta bien si no … (Olha minha peste vamos esclarecer já aqui as coisas. Já percebi que não gostas de mim... óptimo também não gosto de ti e não te quero cá em casa! Lembras a tua Mãe e isso é indesejável para mim. Por isso enquanto não te conseguir expulsar de uma vez da vida do João é bom que te portes bem se não...)
- Se não o quê? Vais fazer-lhe mal é?
- Fazer mal ao anjinho eu?! De onde tirou essa ideia?
- Mas tu achas que eu sou o quê? Nem te atrevas a responder! Ficas a saber que ouvi e compreendi perfeitamente tudo o que acabaste de dizer ao meu neto. Por isso toma bem atenção a tudo o que fazes porque ao primeiro deslize podes acreditar que te vais dar mal
- Está a ameaçar-me? Vou dizer ao João
- Não não estou a ameaçar... estou a avisar que tenhas cuidado porque não é por dizeres que estás gravida... sim que a única prova dessa gravidez é a tua palavra... que eu vou "adoptar-te" como fez o meu filho ou esconder-me numa concha como a Maria. Comigo a conversa é outra e depois do que já fizeste ao meu filho e a minha nora garanto-te que no meu neto não tocas nem num cabelo!
- Porque se não?
- Verás...
Retirei-lhe o menino dos braços e garanti que ela não se aproximava dele o resto do tempo, algo que não foi muito difícil já que o pequenino chorava assim que pressentia a sua presença.
Se não fosse o brilho que via noa olhos do meu filho por ter o filho nos braços tinha feito a vontade à Maria e acabado com esta e as próximas visitas.
Mas este fim de semana em Valencia serviu ainda para estranhar alguns comportamentos da Carmen enquanto gravida. Sintomas de gravidez só benéficos para ela, barriga nem vê-la e aqueles carinhos que qualquer grávida adora fazer muito menos e depois as consultas ou a falta de lembrança quanto às mesmas além de que nenhuma gravida que se prese se esquece de trazer consigo a imagem da eco.
Voltei a Lisboa e quando entreguei o menino à Mãe, percebi que esta não tinha passado o fim de semana sozinha.


Maria
Quando a Teresa me contou que a outra queria ver o Guilherme longe resolvi que iria fazer o contrario e que da próxima vez que ele fosse visitar o pai o surpreendesse a sério e a partir desse dia e por muito que me custasse fui até à arrecadação e de uma caixa escondida num canto retirei várias fotos do João e espalhei-as pelo quarto do Guilherme e também algumas na sala. Desde ai que sempre que estava com ele num desses espaços e enquanto brincava ou cuidava dele ia-o incentivando a chamar pelo pai
- Vá lá bebé diz lá Papá! - o menino olhava para mim e para a foto e ria, mas não dizia - Sim a mamã adora ver-te rir, mas temos de mostrar àquela coisa quem é que manda, e quem manda és tu! Vá quem é este diz lá?... Pa-pá!
- Ui… quem manda… - ouvi-o rir
- Olha amor temos visitas! - aproximei-me dele e cumprimentei-o com dois beijinhos - tudo bem?
- Sim! Mas estava assustado por isso abri a porta com as chaves que me deste…
- Se dei é para usares… mas assustado porquê?
- Porque estava farto de tocar…
- Não ouvi, estava aqui distraída… afinal ele vai já amanhã e ainda não o consegui meter a dizer papá… - o Guilherme riu
- Ui que ele tem uma mistura boa do mau feitio da mãe e do mau feitio do pai - gargalhou
- Rui Jorge não tem piada!
- Isso dos dois nomes é para assustar? Não resulta… E agora vamos para a sala que está a começar
- A começar o quê?
- Não te faças desentendida… está a começar aqueles 90 minutos semanais em que choras como uma Madalena arrependida… ou seja o jogo do Valência.
- Oh…
- Vá anda…
Segui com o Rui para a sala e sentei-me com ele no sofá e deixei o Guilherme no seu tapete no chão, já que como é óbvio com 11 meses o pequenote tem mais que fazer que ficar 90 minutos com os olhos colados ao ecrã.
O jogo começou e como sempre o reguila brincava e eu, eu aproveitei para mais uma vez receber os miminhos do Rui
Até que o pequenino começa a bater as palminhas
- Então filho estás a bater palminhas porquê?
- Mamã! - olhou para mim e depois para a tv - Papá!!!! - disse enquanto mostravam um grande plano do João - Papá… - começou a chorar assim que a imagem mudou. Peguei-o ao colo
- Pronto bebé, não chora que amanhã a avó Té leva o menino a ir ter com o papá e para dar a prenda sim?
- Não chora! Nem o bebé nem a mamã boa? - olhei-o, mas não respondi continuei a embalar o meu pequenote que não só acalmou como adormeceu, deixei-o na cama e voltei á sala - Vá… conseguiste! Ele amanhã já vai chamar o papá! Agora podes relaxar anda cá que eu faço-te uma massagem
Acabei mesmo por me sentar no meio das suas pernas enquanto o Rui me ia massajando as costa, para depois iniciar um ataque de cocegas que só terminou quando no meio da brincadeira acabamos por encostar os lábios, este encosto não durou 10 segundos já que de imediato me afastei
- Desculpa Maria! Desculpa mesmo… eu não estou arrependido, mas sei que não estás preparada… AINDA não estás preparada… mas assim já sabes que…
- Rui eu não quero… não quero nem posso.. principalmente porque é indecente da minha parte para contigo… sim que se me ia saber bem ser mimada e tudo isso que tu já me fazes, sim ia, todos gostamos, mas eu não estou, para já e penso que nunca conseguirei estar disponível para conseguir retribuir…
- Ainda Maria… ainda… mas compreendo e respeito… já te pedi desculpa… achas que podemos esquecer isto?
Acabei por aceder ao pedido e “esquecer” o que aconteceu até mesmo porque os dias seguintes foram uma montanha russa de sentimentos.
Se no dia seguinte o Guilherme viajou com os avós com destino a casa do pai, quando voltou
- Maria agora que o menino está a dormir, preciso de te contar uma coisa…
- Diga...
- O João…
- Não quero saber… ou melhor se não tiver nada a ver com o Guilherme não quero saber
- Maria o João descobriu que afinal a Carmen não está, ou melhor nunca esteve grávida…
- A sério? Afinal ao contrário do que gosta tanto de se gabar é mesmo burro e cai duas vezes na mesma mentira… lamento…
- Maria… ele meteu a Carmen fora de casa…
- Teresa com todo o respeito não quero saber
- Vais dizer-me que não muda nada?
- Muda… muda o facto de saber que para já ninguém vai tentar fazer mal ao meu filho quando estiver com o pai…
- Só isso Maria?
- Sim, só… - respirei fundo - E agora se não se importa eu vou matar saudades do meu filho e dormir que amanhã a rotina volta ao normal e já falta menos de um mês para a primeira festa de anos do meu campeão…
- Ah agora por isso o João…
- Esqueça! O menino não vai para lá nesse dia nem que o tribunal ordene!
- Não é isso Maria… o João só pediu que…
Mariana
Desde que o Filipe nasceu vinte e dois dias passaram comigo a dividir-me entre o trabalho, a minha prima, o Ruben e como é lógico a visitar o pequeno, mas tudo isto tem sido desgastante, porque para apoiar o Ruben acabo por me magoar, a verdade é que o Filipe faz-me recordar a perda dos gémeos no entanto não consigo fingir que aquele anjinho não existe, o menino não tem culpa do que se passou e por isso mantenho-me o melhor que consigo do lado do seu pai.
O Filipe nestes últimos dias melhorou e felizmente a infeção já é passado, tanto que o pequenino já não está ligado ao ventilador, o que animou tanto o Ruben como a restante família e amigos.
Hoje acordei e inevitavelmente lembrei-me de duas pessoas, por motivos diferentes, a primeira por ser o meu pai e um dos meus pilares nos últimos tempos, a verdade é que a minha relação com o meu pai melhorou bastante e nem dei por isso. O outro foi o Ruben… afinal hoje é o dia deles e como tal resolvi assinalar o dia através das redes sociais
Sempre ouvi que pai não é quem procria mas sim quem ama, cuida, se preocupa, chora, sorri mas acima de tudo quem está sempre presente nas nossas vidas, amor de pai não acontece quando se engravida uma mulher… amor de pai é algo puro e verdadeiro, honesto e sincero, amor de pai é estar disposto a abdicar de si em prol do ser inocente que ganhou vida após um encontro de um espermatozoide com um óvulo (ok… não é a forma mais romântica mas é a real), amor de pai é o que tenho… aquele que sempre recebi e me foi dado da forma mais espontânea e verdadeira… OBRIGADA PAI… obrigada por me escolheres para tua filha, por me dares amor, carinho, algumas palmadas (que hoje sei que foram muito bem dadas :P), por teres chorado no dia que entrei para o infantário e que me foste deixar ou no dia que acabei o secundário e que percebeste que dentro de menos de dois meses a tua filha ganharia assas para voar para longe… obrigada por todos os sorrisos, aqueles que marcaram momentos como o dia que terminei a minha licenciatura… isto porque és o MEU PAI… OBRIGADA por tudo… tenho ORGULHO em ser TUA FILHA… não o sou de sangue mas sou de coração que é o que verdadeiramente importa… sangue é genética… coração é AMOR PURO E SINCERO…
AMO-TE PAI!! Feliz dia do pai… :)
Partilhei uma foto minha com poucos dias e nos braços do meu pai, acompanhada por um desabafo sincero, não tive vergonha e muito menos complexos em afirmar que não sou uma Mendes de sangue, porque na verdade o que interessa é que o sou de coração, sou filha porque o meu pai me escolheu e não porque lhe caí nos braços após uma noite de sexo, por isso não “bloqueei” nem a foto nem o desabafo e não demorou muito para que tanto o meu instagram, facebook ou twitter começasse a ser “bombardeado” com perguntas do género “ o teu pai não é teu pai?”, a verdade é que só a minha família, o João, o Rui, a Ana e o Fábio sabiam da verdade, os restantes amigos e conhecidos nem sequer imaginavam, mas hoje senti a obrigação de retribuir todo o amor que o meu pai deu-me durante estes anos todos e de assinalar este dia de forma única.
Almocei com o cota e ofereci um mimo para assinalar o dia dos pais e mais uma vez ouvi o meu pai a dizer que devo seguir o coração em vez da razão, por incrível que pareça o meu pai é o único que sabe do que se passou entre mim e o Ruben no dia do seu aniversário e no fundo sei que está a torcer para que admita que não sou ninguém sem o Ruben.
Foi a pensar nas suas palavras que entrei no hospital para ver o Filipe, o menino estava agitado, algo que não é normal e por isso fiquei a observá-lo enquanto o mimava, fazendo pequenas carícias com os meus dedos no seu rosto e barriguinha quando uma das neonatalogistas que pertencem à equipa médica se aproximou e depois de cumprimentar-me
- O Filipe hoje está muito agitado - comentei de imediato o que fez a Dra. Fátima sorrir
- Sim, está um pouco.
- Mas está tudo bem com ele?
- O pequeno campeão está agitado porque quer mimo - sorri ao ouvi-la - quer pegar nele?
- Como? - a Dra. Fátima sorriu
- O Filipe nestes últimos dias teve francas melhorias e está estável por isso se quiser pegar no menino poderá fazê-lo.
- Posso? - perguntei ainda meio atordoada com o que ouvia
- Sim... até é benéfico para os prematuros...
A Dra. Fátima explicou-me a importância de pegarmos nos bebés prematuros e ainda ajudou-me a encontrar a posição perfeita para acolher o Filipe e depois de destapar o peito, recebi o menino,
coloquei-o em contato direto com a minha pele e sentir aquele anjinho foi uma das melhores sensações que já tive, perdi-me a observá-lo, apesar de ser tão pequenino e frágil é um bebé que a cada dia que passa está mais bonito e forte.
Estava tão embrenhada no momento que só quando olhei para o lado é que vi o Ruben, não sei ao tempo que ali estava, só sei que o encontrei “lavado” em lágrimas, o rapaz não conseguiu falar e muito menos aproximar-se, mantinha-se à entrada a observar-nos à distância.
- Anda... - incentivei-o a aproximar-se quando lhe estiquei o braço, o Ruben muito lentamente chegou junto de nós - queres pegar nele?
- Não! - respondeu prontamente
- Porquê?
- Tenho medo... - sorri ao ouvi-lo - posso deixá-lo cair... - voltei a sorrir
- Oh isso não acontecerá...
- Deixa... - estávamos a olharmo-nos olhos nos olhos - o Filipe está a adorar - o Ruben fez algumas carícias ao filho mas sempre de olhos posto em mim o que estava a deixar-me fragilizada - não é filho... gostas de tar aí - suspirou - como o pai te entende...
- Ruben Filipe em vez de estares a dizer disparates devias pegar sim no teu filho!!
- Não consigo… - percebi que não estava a renegar o menino, estava sim com pavor de o deixar cair ou algo do género, por isso com toda a calma falei
- Consegues sim! Só tens de te sentar e encostar o Filipe ao teu peito, de preferência em contato com a pele… foi isso que a médica explicou…
O Ruben não disse nada, ficou a olhar-me e como sei que para reagir precisa sempre de um empurrão, acabei por quase ordenar que se sentasse e depois pedi ajuda à enfermeira para segurar no Filipe enquanto o Ruben se preparava, o meu amigo não teve outra solução que fazer o que lhe estava a mandar e uns segundos bastaram para o Ruben ficar completamente embevecido a olhar o filho, registei aquele momento e depois fiquei unicamente a babar aqueles dois, pai e filho, até ser interrompida com a chegada da Dra. Fátima que nos trouxe só boas notícias, o que nos deixou aos dois com um mega sorriso no rosto e enquanto não resisti em pegar novamente no Filipe, o Ruben preferiu ficar simplesmente a olhar-nos.
- O que se passa?
- Nada!
- Então porquê que nos olhas assim?! - sorriu
- Ah é que...
- Diz!
- Estava aqui a pensar e tenho um convite para te fazer!
- Convite?!
- Aceitas ser a madrinha do Filipe?
- Eu?!
- Sim... o menino precisa de uma madrinha e sinceramente não vejo ninguém tão perfeita para o ser para além de ti - aproximou-se - Mariana estás do lado do meu filho desde o primeiro momento, foste tu que mais lutaste por ele... além disso és a única em quem confio plenamente e sei que nunca falhará ao meu pequenino.
- E quem vai ser o padrinho? - sorriu - Sim que só aceito ser madrinha se o meu par for alguém jeitoso! - brinquei com a situação pois fiquei sem saber se deveria ou não aceitar, afinal madrinha é como uma segunda mãe e neste caso o Filipe só terá a madrinha...
- Ainda não decidi, pensei no João mas depois há a Maria - interrompi
- A minha prima compreenderá mas o filho é teu logo a decisão será tua!
- Pois... também pensei no Fábio ou então no meu irmão...
- Não pareces muito decidido!
- Ohhh...
- Que foi?
- Todos me condenaram quando engravidei a Sofia... - percebi que lhe custou admitir tal coisa mas mesmo assim não perdoei
- É normal - olhou-me - foste irresponsável, além disso não foste propriamente um pai “modelo” desde o início, é verdade que o Filipe não foi um bebé planeado e até mesmo desejado mas a partir do momento que a Sofia engravidou tornaste-te pai e tinhas obrigações que não cumpriste!
- Não precisas atirar-me isso à cara!
- Ruben - respirei fundo - magoaste-me muito desde que perdi os gémeos mas o que me desiludiu e fez perder a confiança inabalável que tinha em ti foi mesmo a forma como renegaste o teu filho, nunca o amaste verdadeiramente, só dias depois de ter nascido é que começaste a ama-lo e sinceramente ainda tenho dúvidas se já o amas incondicionalmente! Sim, é estranho mas o que me doeu mais foi isso, foi ver-te a renegar o teu filho, fizeste o mesmo que a Sofia e se até podia esperar isso dela de ti não... porque o Ruben que amo não é nem nunca foi aquele em que te tornaste!
- É por isto que tenho a certeza que serás a melhor madrinha que o Filipe poderá ter...
- E serei com muito orgulho! Porque o Filipe é um vencedor!
- Obrigado!
- Estás a agradecer o quê?
- O estar do nosso lado mesmo sabendo que cada vez que entras aqui sofres calada...
- Ruben não! Não ouses sequer continuar com esta conversa! Não interessa o que sinto ou deixo de sentir, se estou aqui é porque fiz uma escolha e fi-la consciente de todas as consequências que a minha decisão tinha... talvez seja mesmo masoquista mas pelo menos durmo de consciência tranquila!
O Ruben não respondeu, algo que agradeci no silêncio, naquele momento continuar com aquela conversa só faria com que deixasse cair as lágrimas que guardo para mim há imenso tempo...
***
- Jantas comigo? - perguntou-me quando já estávamos a sair do hospital
- Hum… pode ser!
Segui atrás do Ruben e rapidamente percebi que estávamos a ir na direção da sua casa.
- Entra - deu-me passagem depois de abrir a porta do seu apartamento - fica à vontade que vou só preparar alguma coisa para jantarmos!
- Eu ajudo!
- Deixa estar… preparo algo rápido!
- Ok!

Ruben
Desde que o Filipe nasceu que aprendi o verdadeiro significado da expressão “um dia de cada vez”, porque se está bem hoje amanhã poderá não estar, é assim que tenho vivido cada um destes vinte e um dias, no entanto há uns dias que o Filipe está estável, o que é muito bom e talvez por isso nestes últimos dias tenho entrado na unidade de neonatologia com um único pensamento, quando será o dia que o encontro num berço e longe da incubadora... era nisso que mais uma vez pensava quando entrei e vi a Mariana com o meu filho ao colo, aquilo fragilizou-me mas ao mesmo tempo deixou-me a rejubilar de felicidade, ver o meu amor com o meu filho junto do seu peito, foi só a imagem mais linda que alguma vez vi, o meu pequenino estava tão sereno, ainda assim de olho aberto.
Naquele momento esqueci que somos só amigos mas a Mariana fez questão de relembrar-me, ainda assim não ficou chateada e acabou por mais uma vez estar do meu lado quando peguei no Filipe, isto depois de ter recusado inicialmente por ter sido domado por uma onde de pavor, tive medo de lhe fazer mal, afinal é tão pequenino, no entanto consegui aproveitar ao máximo aquele tempo em que pude tê-lo nos meus braços.
Mas foi depois de falar com a médica que o meu amor voltou a pegar no Filipe e não resisti em fazer o convite que já andava para fazer há uns dias, lógico que a Mariana aceitou ser madrinha do Filipe mas só o fez depois de atirar-me à cara algumas verdades, ainda assim quando saímos do hospital convidei-a para jantar.
- Ah é verdade - olhei para a Mari quando já estávamos a comer - feliz dia papá! - suspirei - que foi?
- Tenho medo de não saber cuidar do meu filho sozinho, de não ser bom pai…
- Hey! Primeiro és bom pai sim… estás a aprender como qualquer pai de primeira viagem mas és bom pai… e quanto a estares sozinho isso não é verdade, tens a tua família e amigos…
- Sim… mas é diferente… uma coisa é o apoio da família e dos amigos… - agarrei na sua mão - outra é o apoio da pessoa que amamos…
- Ruben…
- Desculpa… foi mais forte…
- Tudo bem mas tens de te controlar!
- Como é que consegues?
- Consigo o quê?
- Estar perto de mim e teres esse autocontrolo todo? Mariana, nós amamo-nos e não adianta negares...
- Não é autocontrolo...
- Então é o quê?
- É medo…
- Medo? - por esta não esperava e talvez por isso olhei-a
- Sim medo! Medo de te perder… - sorri apesar de não ter nexo nenhum o que falou foi bom ouvir - De voltar a ser enxovalhada por ti...
- Isso nunca irá acontecer… amo-te e sabes bem disso…
- Se o que sentes por mim fosse amor não te tinhas enrolado com a primeira que apareceu à tua frente - atirou magoada, por muito tempo que passe a Mariana nunca esquecerá e isso dói…
- Já não estávamos juntos quando isso aconteceu!
- É traição na mesma ou será que deixaste de amar-me durante os meses que tiveste com ela? Pois fica a saber que senti a mesma dor que sentiria se tivéssemos juntos, além disso nós não acabamos - olhou-me com as lágrimas a molharem o seu rosto - foste tu que acabaste… eu nunca consegui seguir em frente, prova disso é que continuo a mesma parva de sempre, continuo a magoar-me porque não consigo afastar-me de ti, dói sempre que pego no Filipe mas mesmo assim não consigo esquecer que aquele anjinho existe… continuo pressa a ti e isso dói… dói porque vivo na incerteza, vivo apavorada porque estou sempre à espera do dia que receba a merda de um email a dizer que já não significo nada para ti…
- Mariana amo-te e sim errei muito mas percebi que só do teu lado estou completo, preciso de ti ou melhor nós precisamos um do outro.
- Não! O que preciso é de ter serenidade e não a tenho porque vivo na incerteza de quando serei abandonada de novo…
- Isso não vai acontecer, és a minha vida juntamente com o Filipe, abandonar-te é o mesmo que matar-me aos poucos. Mariana não posso alterar o passado, errei bastante e agora estou a pagar por esses erros mas será que não mereço uma oportunidade?
- Não entendes...
- Não entendo o quê?
- Que não consigo confiar em ti - baixou o olhar - basta estalares os dedos para te caírem aos pés e não negues que sabes que tenho razão... não vou aguentar outra traição porque para mim a Sofia é sinónimo de traição mesmo que digas que já não estávamos juntos é traição porque nunca deixei de te amar... tu não me amas porque se amasses nunca me tinhas traído...
- Não digas isso... fui fraco mas nunca deixei de te amar, deixa-me provar-te que podes voltar a confiar em mim... só te peço tempo porque só com o tempo é que irás recuperar a confiança em mim, tenho noção que fiz merda da grande por isso não estou à espera que consigas confiar em mim assim do nada... mas dá-me uma oportunidade de provar que aprendi com os meus erros, amor mudaste imenso, deixaste de ser aquela miúda que conheci para te tornares numa mulher madura e talvez seja isso que ainda me falta, tenho de deixar de ser miúdo para ser o homem que precisas, só te peço tempo...
A Mariana não respondeu, simplesmente levantou-se e saiu...

Será que depois desta conversa algo mudará na vida do Ruben e da Mariana? Terá ainda o Filipe madrinha ou depois da conversa a Mariana se afastará?
Quanto ao outro casal... O que será que o João pediu? E como reagirá a Maria à novidade? E as coisas com o Rui?