segunda-feira, 21 de outubro de 2013

104 - "...eu não estou arrependido, mas sei que não estás preparada…"

Maria
O João seguiu mesmo com o processo de guarda para a frente. Temi passar meses enrolada em burocracia e que me retirassem o Guilherme, mas felizmente o processo foi rápido e todos, desde amigos a família incluindo os pais dele, que foram chamados a testemunhar fizeram-no a meu favor. Não porque o João é mau pai, mas porque as circunstâncias em que vive e os motivos da nossa separação assim os "obrigou". De qualquer forma e contra a minha vontade hoje 15 dias depois de o ter visto pela última vez fui obrigada a deixar que o Guilherme fosse passar o fim de semana com ele
- Fica tranquila Maria que eu não o largo um segundo!
- Oh Teresa e se o João não o deixa voltar?
- O meu filho não ia fazer isso!
- Acha mesmo que não?!
- Não sei Maria... já não o conheço... mas eu não o permitirei segunda-feira estamos cá!... Guilherme beijinhos na mamã!
O meu filho recebeu os meus mimos e quando percebeu que ia sair de casa só com os avós paternos fez aquilo que sempre faz assim que percebe que o vou "deixar" chorou. Chorou muito e chamou por mim, tive de me fechar no quarto para não correr em direcção a ele e proibir a sua ida, algo que não resultou e quando já saia de casa disparada sou impedida de o fazer pelo meu vizinho.
Agora com a Mariana entregue aos cuidados do Pipo e do Rúben tem sido o Rui o meu suporte e nem foi preciso abrir a boca
- Cruzei-me com eles na porta o menino chamava por ti, mas não podes ir Maria... tens de deixar... não podes ser igual ao João...
- Eu sei... - solucei
- Anda... vamos lá para casa... pedimos sushi e vemos um filme para te distraíres... anda!
- Não sou boa companhia hoje...
- És uma excelente companhia sempre!
Acabei por aceitar o convite e passar o serão em casa do Rui. O serão e todo o fim de semana já que apenas tive ordem para me ausentar da sua companhia quando o sono era maior que eu.
Mas na segunda-feira nem mesmo o maravilhoso pequeno-almoço preparado por ele me fez "esquecer" que estava a horas de voltar a ter o meu bebé nos braços
- E se ele não volta?
- Maria!
- Não é Maria... imagina que o João resolve ficar com ele?
- A Teresa não ia permitir!
- Oh a Teresa é mãe dele...
- Pois é... mas testemunhou a teu favor e ofereceu-se para supervisionar as visitas achas que o faria?
- Ai não sei... tou tao confusa...
Os segundos pareciam horas e finalmente a campainha tocou, corri para a porta para encontrar o meu filho a dormir ao colo da avó
- Finalmente!
- Maria até chegamos mais cedo!
- Eu sei, mas nem deviam ter ido... quer dizer...
- Eu percebo Maria... aliás depois do que vi e ouvi em casa do João podes ter a certeza que o Guilherme não ficará um segundo longe do meu olhar
- Mas o João tratou-o mal? Teresa, vou ao tribunal e proíbo...
- Maria o João sempre que teve um milésimo de segundo esteve colado ao menino... o que me preocupa é a Carmen...
- Essa... o que é que ela fez? Se ela tocou no meu filho eu esqueço que ela tem o dela na barriga!
- Ela não fez nada porque não teve hipótese... o João não lhe dá espaço para tal e eu muito menos, além de que na presença do João o menino é um rei... já quando ele não está a conversa é outra... ela pensa que se falar espanhol ninguém a percebe... coitada.... correu-lhe mal!


Teresa
Ofereci-me para levar o Guilherme a ver o pai porque sinceramente já não reconheço o meu filho. E tive algum receio de como seria a estadia do pequeno junto do pai e da... bem da Mãe do irmão ou irmã.
Assim que lá cheguei foi impossível não reparar no "amor" que preenche aquela casa, nem quando a Maria e o João se encontraram no dia dos anos dele o ambiente era tão frio.
A Carmen bem tenta fingir que são um casal modelo, mas qualquer pessoa vê que o meu filho não está feliz e eu pude confirmá-lo ao ouvir uma conversa entre pai e filho
- Pois é bebé vamos ter que ter uma conversa muito séria para quando fores grande não fazeres a mesma asneira que o papá e o padrinho! A Carmen está á espera de um mano ou uma mana para ti... e o papá é o responsável porque foi irresponsável e inconsequente e quis disfarçar as saudades que tinha da mamã... e agora o papá não podia voltar a fazer o que fez contigo... não podia estar longe do bebé que vem ai como esteve de ti! Merda! Estou a fazer o mesmo... estou a usar o bebé que não nasceu para tapar a tua falta.... ai Bruninho o que é que eu fiz...
- João esta na hora do menino comer
- Eu dou!
A tarefa foi complicada apesar da boa vontade do meu filho o meu neto resolveu que não queria comer e ainda deu um ar da sua graça quando depois de cerrar bem a boca para não receber comida
- oh filho... não faças isto ao papá! Se vais daqui sem comer o que é que a tua mamã vai dizer? Vá come lá!
- Mamã? Mamã! MAMÃ!!!
- João o menino chorou muito para vir e a Maria ficou desfeita, isto não é solução...
- A Maria só fica assim porque provocou e eu não quero saber como ela fica… Porque também ninguém quer saber como eu fico! E como eu fico aqui?  Eu não tenho a minha mulher nem o meu filho!
- João tu não tens a tua ex-mulher e um dos teus filhos mas isso foi uma escolha tua!
- Escolha mãe? - enquanto falávamos e visto que o tom da conversa aumentava a Carmen pegou no menino e levou-o com ela. "Finalmente fez algo de jeito" pensei.
- Sim fizeste-a no mesmo momento que decidiste dormir com...
- Eu não pensei...
- Ainda mais razão me dás!
O João e o seu bom-feitio deixaram-me sozinha e acabei por ir procurar o meu neto.
Quando cheguei perto do quarto da Carmen, depois de correr toda a casa, ouço
- Mira mi plaga ahora vamos a aclarar las cosas aquí. Tengo que no me gusta ... óptima también no me gusta usted y no te quiero por aquí! Recuerdos a tu madre y esto es indeseable para mí. Así, mientras que no se puede conducir de una vez la Vida João es bueno que se comporta bien si no … (Olha minha peste vamos esclarecer já aqui as coisas. Já percebi que não gostas de mim... óptimo também não gosto de ti e não te quero cá em casa! Lembras a tua Mãe e isso é indesejável para mim. Por isso enquanto não te conseguir expulsar de uma vez da vida do João é bom que te portes bem se não...)
- Se não o quê? Vais fazer-lhe mal é?
- Fazer mal ao anjinho eu?! De onde tirou essa ideia?
- Mas tu achas que eu sou o quê? Nem te atrevas a responder! Ficas a saber que ouvi e compreendi perfeitamente tudo o que acabaste de dizer ao meu neto. Por isso toma bem atenção a tudo o que fazes porque ao primeiro deslize podes acreditar que te vais dar mal
- Está a ameaçar-me? Vou dizer ao João
- Não não estou a ameaçar... estou a avisar que tenhas cuidado porque não é por dizeres que estás gravida... sim que a única prova dessa gravidez é a tua palavra... que eu vou "adoptar-te" como fez o meu filho ou esconder-me numa concha como a Maria. Comigo a conversa é outra e depois do que já fizeste ao meu filho e a minha nora garanto-te que no meu neto não tocas nem num cabelo!
- Porque se não?
- Verás...
Retirei-lhe o menino dos braços e garanti que ela não se aproximava dele o resto do tempo, algo que não foi muito difícil já que o pequenino chorava assim que pressentia a sua presença.
Se não fosse o brilho que via noa olhos do meu filho por ter o filho nos braços tinha feito a vontade à Maria e acabado com esta e as próximas visitas.
Mas este fim de semana em Valencia serviu ainda para estranhar alguns comportamentos da Carmen enquanto gravida. Sintomas de gravidez só benéficos para ela, barriga nem vê-la e aqueles carinhos que qualquer grávida adora fazer muito menos e depois as consultas ou a falta de lembrança quanto às mesmas além de que nenhuma gravida que se prese se esquece de trazer consigo a imagem da eco.
Voltei a Lisboa e quando entreguei o menino à Mãe, percebi que esta não tinha passado o fim de semana sozinha.


Maria
Quando a Teresa me contou que a outra queria ver o Guilherme longe resolvi que iria fazer o contrario e que da próxima vez que ele fosse visitar o pai o surpreendesse a sério e a partir desse dia e por muito que me custasse fui até à arrecadação e de uma caixa escondida num canto retirei várias fotos do João e espalhei-as pelo quarto do Guilherme e também algumas na sala. Desde ai que sempre que estava com ele num desses espaços e enquanto brincava ou cuidava dele ia-o incentivando a chamar pelo pai
- Vá lá bebé diz lá Papá! - o menino olhava para mim e para a foto e ria, mas não dizia - Sim a mamã adora ver-te rir, mas temos de mostrar àquela coisa quem é que manda, e quem manda és tu! Vá quem é este diz lá?... Pa-pá!
- Ui… quem manda… - ouvi-o rir
- Olha amor temos visitas! - aproximei-me dele e cumprimentei-o com dois beijinhos - tudo bem?
- Sim! Mas estava assustado por isso abri a porta com as chaves que me deste…
- Se dei é para usares… mas assustado porquê?
- Porque estava farto de tocar…
- Não ouvi, estava aqui distraída… afinal ele vai já amanhã e ainda não o consegui meter a dizer papá… - o Guilherme riu
- Ui que ele tem uma mistura boa do mau feitio da mãe e do mau feitio do pai - gargalhou
- Rui Jorge não tem piada!
- Isso dos dois nomes é para assustar? Não resulta… E agora vamos para a sala que está a começar
- A começar o quê?
- Não te faças desentendida… está a começar aqueles 90 minutos semanais em que choras como uma Madalena arrependida… ou seja o jogo do Valência.
- Oh…
- Vá anda…
Segui com o Rui para a sala e sentei-me com ele no sofá e deixei o Guilherme no seu tapete no chão, já que como é óbvio com 11 meses o pequenote tem mais que fazer que ficar 90 minutos com os olhos colados ao ecrã.
O jogo começou e como sempre o reguila brincava e eu, eu aproveitei para mais uma vez receber os miminhos do Rui
Até que o pequenino começa a bater as palminhas
- Então filho estás a bater palminhas porquê?
- Mamã! - olhou para mim e depois para a tv - Papá!!!! - disse enquanto mostravam um grande plano do João - Papá… - começou a chorar assim que a imagem mudou. Peguei-o ao colo
- Pronto bebé, não chora que amanhã a avó Té leva o menino a ir ter com o papá e para dar a prenda sim?
- Não chora! Nem o bebé nem a mamã boa? - olhei-o, mas não respondi continuei a embalar o meu pequenote que não só acalmou como adormeceu, deixei-o na cama e voltei á sala - Vá… conseguiste! Ele amanhã já vai chamar o papá! Agora podes relaxar anda cá que eu faço-te uma massagem
Acabei mesmo por me sentar no meio das suas pernas enquanto o Rui me ia massajando as costa, para depois iniciar um ataque de cocegas que só terminou quando no meio da brincadeira acabamos por encostar os lábios, este encosto não durou 10 segundos já que de imediato me afastei
- Desculpa Maria! Desculpa mesmo… eu não estou arrependido, mas sei que não estás preparada… AINDA não estás preparada… mas assim já sabes que…
- Rui eu não quero… não quero nem posso.. principalmente porque é indecente da minha parte para contigo… sim que se me ia saber bem ser mimada e tudo isso que tu já me fazes, sim ia, todos gostamos, mas eu não estou, para já e penso que nunca conseguirei estar disponível para conseguir retribuir…
- Ainda Maria… ainda… mas compreendo e respeito… já te pedi desculpa… achas que podemos esquecer isto?
Acabei por aceder ao pedido e “esquecer” o que aconteceu até mesmo porque os dias seguintes foram uma montanha russa de sentimentos.
Se no dia seguinte o Guilherme viajou com os avós com destino a casa do pai, quando voltou
- Maria agora que o menino está a dormir, preciso de te contar uma coisa…
- Diga...
- O João…
- Não quero saber… ou melhor se não tiver nada a ver com o Guilherme não quero saber
- Maria o João descobriu que afinal a Carmen não está, ou melhor nunca esteve grávida…
- A sério? Afinal ao contrário do que gosta tanto de se gabar é mesmo burro e cai duas vezes na mesma mentira… lamento…
- Maria… ele meteu a Carmen fora de casa…
- Teresa com todo o respeito não quero saber
- Vais dizer-me que não muda nada?
- Muda… muda o facto de saber que para já ninguém vai tentar fazer mal ao meu filho quando estiver com o pai…
- Só isso Maria?
- Sim, só… - respirei fundo - E agora se não se importa eu vou matar saudades do meu filho e dormir que amanhã a rotina volta ao normal e já falta menos de um mês para a primeira festa de anos do meu campeão…
- Ah agora por isso o João…
- Esqueça! O menino não vai para lá nesse dia nem que o tribunal ordene!
- Não é isso Maria… o João só pediu que…
Mariana
Desde que o Filipe nasceu vinte e dois dias passaram comigo a dividir-me entre o trabalho, a minha prima, o Ruben e como é lógico a visitar o pequeno, mas tudo isto tem sido desgastante, porque para apoiar o Ruben acabo por me magoar, a verdade é que o Filipe faz-me recordar a perda dos gémeos no entanto não consigo fingir que aquele anjinho não existe, o menino não tem culpa do que se passou e por isso mantenho-me o melhor que consigo do lado do seu pai.
O Filipe nestes últimos dias melhorou e felizmente a infeção já é passado, tanto que o pequenino já não está ligado ao ventilador, o que animou tanto o Ruben como a restante família e amigos.
Hoje acordei e inevitavelmente lembrei-me de duas pessoas, por motivos diferentes, a primeira por ser o meu pai e um dos meus pilares nos últimos tempos, a verdade é que a minha relação com o meu pai melhorou bastante e nem dei por isso. O outro foi o Ruben… afinal hoje é o dia deles e como tal resolvi assinalar o dia através das redes sociais
Sempre ouvi que pai não é quem procria mas sim quem ama, cuida, se preocupa, chora, sorri mas acima de tudo quem está sempre presente nas nossas vidas, amor de pai não acontece quando se engravida uma mulher… amor de pai é algo puro e verdadeiro, honesto e sincero, amor de pai é estar disposto a abdicar de si em prol do ser inocente que ganhou vida após um encontro de um espermatozoide com um óvulo (ok… não é a forma mais romântica mas é a real), amor de pai é o que tenho… aquele que sempre recebi e me foi dado da forma mais espontânea e verdadeira… OBRIGADA PAI… obrigada por me escolheres para tua filha, por me dares amor, carinho, algumas palmadas (que hoje sei que foram muito bem dadas :P), por teres chorado no dia que entrei para o infantário e que me foste deixar ou no dia que acabei o secundário e que percebeste que dentro de menos de dois meses a tua filha ganharia assas para voar para longe… obrigada por todos os sorrisos, aqueles que marcaram momentos como o dia que terminei a minha licenciatura… isto porque és o MEU PAI… OBRIGADA por tudo… tenho ORGULHO em ser TUA FILHA… não o sou de sangue mas sou de coração que é o que verdadeiramente importa… sangue é genética… coração é AMOR PURO E SINCERO…
AMO-TE PAI!! Feliz dia do pai… :)
Partilhei uma foto minha com poucos dias e nos braços do meu pai, acompanhada por um desabafo sincero, não tive vergonha e muito menos complexos em afirmar que não sou uma Mendes de sangue, porque na verdade o que interessa é que o sou de coração, sou filha porque o meu pai me escolheu e não porque lhe caí nos braços após uma noite de sexo, por isso não “bloqueei” nem a foto nem o desabafo e não demorou muito para que tanto o meu instagram, facebook ou twitter começasse a ser “bombardeado” com perguntas do género “ o teu pai não é teu pai?”, a verdade é que só a minha família, o João, o Rui, a Ana e o Fábio sabiam da verdade, os restantes amigos e conhecidos nem sequer imaginavam, mas hoje senti a obrigação de retribuir todo o amor que o meu pai deu-me durante estes anos todos e de assinalar este dia de forma única.
Almocei com o cota e ofereci um mimo para assinalar o dia dos pais e mais uma vez ouvi o meu pai a dizer que devo seguir o coração em vez da razão, por incrível que pareça o meu pai é o único que sabe do que se passou entre mim e o Ruben no dia do seu aniversário e no fundo sei que está a torcer para que admita que não sou ninguém sem o Ruben.
Foi a pensar nas suas palavras que entrei no hospital para ver o Filipe, o menino estava agitado, algo que não é normal e por isso fiquei a observá-lo enquanto o mimava, fazendo pequenas carícias com os meus dedos no seu rosto e barriguinha quando uma das neonatalogistas que pertencem à equipa médica se aproximou e depois de cumprimentar-me
- O Filipe hoje está muito agitado - comentei de imediato o que fez a Dra. Fátima sorrir
- Sim, está um pouco.
- Mas está tudo bem com ele?
- O pequeno campeão está agitado porque quer mimo - sorri ao ouvi-la - quer pegar nele?
- Como? - a Dra. Fátima sorriu
- O Filipe nestes últimos dias teve francas melhorias e está estável por isso se quiser pegar no menino poderá fazê-lo.
- Posso? - perguntei ainda meio atordoada com o que ouvia
- Sim... até é benéfico para os prematuros...
A Dra. Fátima explicou-me a importância de pegarmos nos bebés prematuros e ainda ajudou-me a encontrar a posição perfeita para acolher o Filipe e depois de destapar o peito, recebi o menino,
coloquei-o em contato direto com a minha pele e sentir aquele anjinho foi uma das melhores sensações que já tive, perdi-me a observá-lo, apesar de ser tão pequenino e frágil é um bebé que a cada dia que passa está mais bonito e forte.
Estava tão embrenhada no momento que só quando olhei para o lado é que vi o Ruben, não sei ao tempo que ali estava, só sei que o encontrei “lavado” em lágrimas, o rapaz não conseguiu falar e muito menos aproximar-se, mantinha-se à entrada a observar-nos à distância.
- Anda... - incentivei-o a aproximar-se quando lhe estiquei o braço, o Ruben muito lentamente chegou junto de nós - queres pegar nele?
- Não! - respondeu prontamente
- Porquê?
- Tenho medo... - sorri ao ouvi-lo - posso deixá-lo cair... - voltei a sorrir
- Oh isso não acontecerá...
- Deixa... - estávamos a olharmo-nos olhos nos olhos - o Filipe está a adorar - o Ruben fez algumas carícias ao filho mas sempre de olhos posto em mim o que estava a deixar-me fragilizada - não é filho... gostas de tar aí - suspirou - como o pai te entende...
- Ruben Filipe em vez de estares a dizer disparates devias pegar sim no teu filho!!
- Não consigo… - percebi que não estava a renegar o menino, estava sim com pavor de o deixar cair ou algo do género, por isso com toda a calma falei
- Consegues sim! Só tens de te sentar e encostar o Filipe ao teu peito, de preferência em contato com a pele… foi isso que a médica explicou…
O Ruben não disse nada, ficou a olhar-me e como sei que para reagir precisa sempre de um empurrão, acabei por quase ordenar que se sentasse e depois pedi ajuda à enfermeira para segurar no Filipe enquanto o Ruben se preparava, o meu amigo não teve outra solução que fazer o que lhe estava a mandar e uns segundos bastaram para o Ruben ficar completamente embevecido a olhar o filho, registei aquele momento e depois fiquei unicamente a babar aqueles dois, pai e filho, até ser interrompida com a chegada da Dra. Fátima que nos trouxe só boas notícias, o que nos deixou aos dois com um mega sorriso no rosto e enquanto não resisti em pegar novamente no Filipe, o Ruben preferiu ficar simplesmente a olhar-nos.
- O que se passa?
- Nada!
- Então porquê que nos olhas assim?! - sorriu
- Ah é que...
- Diz!
- Estava aqui a pensar e tenho um convite para te fazer!
- Convite?!
- Aceitas ser a madrinha do Filipe?
- Eu?!
- Sim... o menino precisa de uma madrinha e sinceramente não vejo ninguém tão perfeita para o ser para além de ti - aproximou-se - Mariana estás do lado do meu filho desde o primeiro momento, foste tu que mais lutaste por ele... além disso és a única em quem confio plenamente e sei que nunca falhará ao meu pequenino.
- E quem vai ser o padrinho? - sorriu - Sim que só aceito ser madrinha se o meu par for alguém jeitoso! - brinquei com a situação pois fiquei sem saber se deveria ou não aceitar, afinal madrinha é como uma segunda mãe e neste caso o Filipe só terá a madrinha...
- Ainda não decidi, pensei no João mas depois há a Maria - interrompi
- A minha prima compreenderá mas o filho é teu logo a decisão será tua!
- Pois... também pensei no Fábio ou então no meu irmão...
- Não pareces muito decidido!
- Ohhh...
- Que foi?
- Todos me condenaram quando engravidei a Sofia... - percebi que lhe custou admitir tal coisa mas mesmo assim não perdoei
- É normal - olhou-me - foste irresponsável, além disso não foste propriamente um pai “modelo” desde o início, é verdade que o Filipe não foi um bebé planeado e até mesmo desejado mas a partir do momento que a Sofia engravidou tornaste-te pai e tinhas obrigações que não cumpriste!
- Não precisas atirar-me isso à cara!
- Ruben - respirei fundo - magoaste-me muito desde que perdi os gémeos mas o que me desiludiu e fez perder a confiança inabalável que tinha em ti foi mesmo a forma como renegaste o teu filho, nunca o amaste verdadeiramente, só dias depois de ter nascido é que começaste a ama-lo e sinceramente ainda tenho dúvidas se já o amas incondicionalmente! Sim, é estranho mas o que me doeu mais foi isso, foi ver-te a renegar o teu filho, fizeste o mesmo que a Sofia e se até podia esperar isso dela de ti não... porque o Ruben que amo não é nem nunca foi aquele em que te tornaste!
- É por isto que tenho a certeza que serás a melhor madrinha que o Filipe poderá ter...
- E serei com muito orgulho! Porque o Filipe é um vencedor!
- Obrigado!
- Estás a agradecer o quê?
- O estar do nosso lado mesmo sabendo que cada vez que entras aqui sofres calada...
- Ruben não! Não ouses sequer continuar com esta conversa! Não interessa o que sinto ou deixo de sentir, se estou aqui é porque fiz uma escolha e fi-la consciente de todas as consequências que a minha decisão tinha... talvez seja mesmo masoquista mas pelo menos durmo de consciência tranquila!
O Ruben não respondeu, algo que agradeci no silêncio, naquele momento continuar com aquela conversa só faria com que deixasse cair as lágrimas que guardo para mim há imenso tempo...
***
- Jantas comigo? - perguntou-me quando já estávamos a sair do hospital
- Hum… pode ser!
Segui atrás do Ruben e rapidamente percebi que estávamos a ir na direção da sua casa.
- Entra - deu-me passagem depois de abrir a porta do seu apartamento - fica à vontade que vou só preparar alguma coisa para jantarmos!
- Eu ajudo!
- Deixa estar… preparo algo rápido!
- Ok!

Ruben
Desde que o Filipe nasceu que aprendi o verdadeiro significado da expressão “um dia de cada vez”, porque se está bem hoje amanhã poderá não estar, é assim que tenho vivido cada um destes vinte e um dias, no entanto há uns dias que o Filipe está estável, o que é muito bom e talvez por isso nestes últimos dias tenho entrado na unidade de neonatologia com um único pensamento, quando será o dia que o encontro num berço e longe da incubadora... era nisso que mais uma vez pensava quando entrei e vi a Mariana com o meu filho ao colo, aquilo fragilizou-me mas ao mesmo tempo deixou-me a rejubilar de felicidade, ver o meu amor com o meu filho junto do seu peito, foi só a imagem mais linda que alguma vez vi, o meu pequenino estava tão sereno, ainda assim de olho aberto.
Naquele momento esqueci que somos só amigos mas a Mariana fez questão de relembrar-me, ainda assim não ficou chateada e acabou por mais uma vez estar do meu lado quando peguei no Filipe, isto depois de ter recusado inicialmente por ter sido domado por uma onde de pavor, tive medo de lhe fazer mal, afinal é tão pequenino, no entanto consegui aproveitar ao máximo aquele tempo em que pude tê-lo nos meus braços.
Mas foi depois de falar com a médica que o meu amor voltou a pegar no Filipe e não resisti em fazer o convite que já andava para fazer há uns dias, lógico que a Mariana aceitou ser madrinha do Filipe mas só o fez depois de atirar-me à cara algumas verdades, ainda assim quando saímos do hospital convidei-a para jantar.
- Ah é verdade - olhei para a Mari quando já estávamos a comer - feliz dia papá! - suspirei - que foi?
- Tenho medo de não saber cuidar do meu filho sozinho, de não ser bom pai…
- Hey! Primeiro és bom pai sim… estás a aprender como qualquer pai de primeira viagem mas és bom pai… e quanto a estares sozinho isso não é verdade, tens a tua família e amigos…
- Sim… mas é diferente… uma coisa é o apoio da família e dos amigos… - agarrei na sua mão - outra é o apoio da pessoa que amamos…
- Ruben…
- Desculpa… foi mais forte…
- Tudo bem mas tens de te controlar!
- Como é que consegues?
- Consigo o quê?
- Estar perto de mim e teres esse autocontrolo todo? Mariana, nós amamo-nos e não adianta negares...
- Não é autocontrolo...
- Então é o quê?
- É medo…
- Medo? - por esta não esperava e talvez por isso olhei-a
- Sim medo! Medo de te perder… - sorri apesar de não ter nexo nenhum o que falou foi bom ouvir - De voltar a ser enxovalhada por ti...
- Isso nunca irá acontecer… amo-te e sabes bem disso…
- Se o que sentes por mim fosse amor não te tinhas enrolado com a primeira que apareceu à tua frente - atirou magoada, por muito tempo que passe a Mariana nunca esquecerá e isso dói…
- Já não estávamos juntos quando isso aconteceu!
- É traição na mesma ou será que deixaste de amar-me durante os meses que tiveste com ela? Pois fica a saber que senti a mesma dor que sentiria se tivéssemos juntos, além disso nós não acabamos - olhou-me com as lágrimas a molharem o seu rosto - foste tu que acabaste… eu nunca consegui seguir em frente, prova disso é que continuo a mesma parva de sempre, continuo a magoar-me porque não consigo afastar-me de ti, dói sempre que pego no Filipe mas mesmo assim não consigo esquecer que aquele anjinho existe… continuo pressa a ti e isso dói… dói porque vivo na incerteza, vivo apavorada porque estou sempre à espera do dia que receba a merda de um email a dizer que já não significo nada para ti…
- Mariana amo-te e sim errei muito mas percebi que só do teu lado estou completo, preciso de ti ou melhor nós precisamos um do outro.
- Não! O que preciso é de ter serenidade e não a tenho porque vivo na incerteza de quando serei abandonada de novo…
- Isso não vai acontecer, és a minha vida juntamente com o Filipe, abandonar-te é o mesmo que matar-me aos poucos. Mariana não posso alterar o passado, errei bastante e agora estou a pagar por esses erros mas será que não mereço uma oportunidade?
- Não entendes...
- Não entendo o quê?
- Que não consigo confiar em ti - baixou o olhar - basta estalares os dedos para te caírem aos pés e não negues que sabes que tenho razão... não vou aguentar outra traição porque para mim a Sofia é sinónimo de traição mesmo que digas que já não estávamos juntos é traição porque nunca deixei de te amar... tu não me amas porque se amasses nunca me tinhas traído...
- Não digas isso... fui fraco mas nunca deixei de te amar, deixa-me provar-te que podes voltar a confiar em mim... só te peço tempo porque só com o tempo é que irás recuperar a confiança em mim, tenho noção que fiz merda da grande por isso não estou à espera que consigas confiar em mim assim do nada... mas dá-me uma oportunidade de provar que aprendi com os meus erros, amor mudaste imenso, deixaste de ser aquela miúda que conheci para te tornares numa mulher madura e talvez seja isso que ainda me falta, tenho de deixar de ser miúdo para ser o homem que precisas, só te peço tempo...
A Mariana não respondeu, simplesmente levantou-se e saiu...

Será que depois desta conversa algo mudará na vida do Ruben e da Mariana? Terá ainda o Filipe madrinha ou depois da conversa a Mariana se afastará?
Quanto ao outro casal... O que será que o João pediu? E como reagirá a Maria à novidade? E as coisas com o Rui?

terça-feira, 15 de outubro de 2013

103 - "Diga Doutor por favor há algum problema com o meu filho ou com a Carmen?"

Carmen
Ir a Lisboa no dia de anos do João foi uma tentativa de mostrar a todos os seus amigos e familiares que eu existia e estava grávida, mas ao contrario do que esperava não fui “oficialmente” apresentada a ninguém, durante o jogo fiquei sempre no camarote praticamente isolada, vi ao longe a Maria e depois vi que a Paula e a Filipa estavam bastante divertidas enquanto liam algo numa revista e quando me aproximei elas esconderam-na, mas consegui tira-la e assim que vi fiquei estupefata afinal a Maria tinha arrasado e sabendo como o João a ama tinha a certeza que assim que visse ia reagir.
Estava a pensar em como iria usar este trunfo a meu favor quando
- Carmen o que é isso?
- Uma revista... Com a sua norinha! E que bem que ela ficou! Sou obrigada a admitir que mesmo depois da peste nascer o corpo não ficou nada mal!
- Carmen se não te importas exijo respeito! Comigo, com a minha nora e com o meu neto!
E lá estava ela, mas quem pensa que será? Minha mãe não?!
- Pensa que está a falar com quem?! Eu não lhe admito que fale comigo assim!
- Carmen não abuses da nossa paciência! Estás gravida de um neto nosso, mas não tens o direito de falares assim com a minha mulher e para falares da Maria ainda tens muita sopa que comer!
Depois de mais uma conversa simpática com os meus sogros, acabei por me entregar ao jogo e no final “Bem dito, bem feito”. No final o João assim que saiu do balneário foi direto à Maria e a conversa realmente descambou até que o Ruben lá os separou e seguimos até casa. Quando chegamos a casa era realmente a cara deles, do João e da Maria e mesmo depois de ter sido “mandada” para aquilo que é um quarto de hóspedes muito mal-arranjado consegui ouvir que a Maria tinha retirado as suas coisas o que não evitava que a casa gritasse “Maria” em todas os cantos!
Fiquei a ouvir a conversa atrás da porta e percebi que o João está realmente a sofrer por estar longe da Maria, mas não gostei nada de saber que ele tinha resolvido levar o diabinho para Valência! É que não faltava mais nada a não ser ter que ter a cria da outra a toda a hora a relembrar-nos da sua existência! E ainda gostei menos da ideia de ter que ir a uma consulta na amiguinha deles e como não sabiam que me ouviam…
- Carmen despacha-te!
- Ai João estou tão enjoada! Deixa-me ficar aqui quieta
- Vá lá, tenho pressa!
- Para quê? Nós não vamos só no avião do fim da tarde?
- Sim, mas quero ir ver uns amigos e não te quero deixar aqui sozinha
- Ai João… - deixei-o sozinha e corri para o wc fingindo que vomitava, hoje nem estava enjoada, mas tinha que ser.
Enrolei o enjoo durante todo o dia e só sai de casa mesmo quando estava na hora limite para o voo.
- Estás muito animada!
- Sim!
- Nem parece que estiveste tão mal a manhã toda… E logo hoje que...
- Oh estou a voltar para casa finalmente! Não gosto muito de Lisboa! O que tem hoje?
- Tinha uma surpresa para ti… mas deixa… - ele falava como sempre fala comigo, engolindo a raiva e tentando ser amável, mas completamente distante e frio.
João
Ao contrário do que esperava não consegui ir até ao consultório da Ana já que a Carmen enjoo e não a consegui arrancar do wc. Aproveitei o tempo que lá esteve fechada para estar com o meu príncipe.
- Bebé do pai! - falei assim que o vi entrar na sala já acordado ao colo da minha mãe e ele riu - ai que saudades que o papá tinha tuas!
- Ele também tinha tuas filho!
- Anda colinho do papá… vem! - o pequenino estendeu os braço e acabei por ficar a brincar com ele - papá! vá diz lá!... pronto já percebi que não vais dizer, mas o papá queria tanto… o papá tá cheio de saudades tuas… tuas e da mamã! E tu como é que deixaste a mamã e a madrinha fazerem aquelas fotografias?! Estão bem giras, mas… mas só o papá e o padrinho é que podem ver! E agora o papá vai mesmo ter que te levar com o papá… vais com o papá para Valência e vamos viver lá os quatro sim? O papá, tu e a Carmen e o mano ou mana! E tu vais ajudar a tomar conta do bebé sim? Quando o papá tiver que ir trabalhar…
- Vais mesmo com essa ideia para a frente?
- Claro! - a minha mãe demonstrou o seu desagrado pela cara com que me olhou - a Maria passou-se! É noitadas, é fotos destas e… e o que será que não sei mais? Com certeza algum amigo…
- A Maria tem amigos sim! Sempre os teve e são eles que a ajudam e a amparam sempre que tu te lembras de fazer asneira!
- Para quem não a podia nem ver…
- Não a podia ver porque não a conhecia, mas ela conseguiu conquistar-me e muito se deve as tuas atitudes completamente indecentes! João a Maria sofreu no passado e está a sofrer agora por causa da tua falta de noção de consequências e convenhamos que uma sessão como a que ela e a prima fizeram não tem um decimo das consequências para a vossa, ou melhor para a vida do vosso filho do que o que tu fizeste! e se queres que te diga mais o Ruben tem sido muito mais homem do que tu! Apesar de toda a porcaria que também fez, teve uma atitude bastante adulta no que toca a esta revista!
- Claro que teve, não é a mulher dele nem a mãe do filho dele que aparece naquelas fotos
- Pois não, mas também não é a tua! João a Maria já tratou de todos os papéis do divórcio e se ainda estão casados é porque tu te “esqueces” de os assinar! Filho… - suspirou - o que fizeste é muito difícil de perdoar, para não dizer impossível, por isso agora sê homenzinho assume a consequência e deixa a Maria tentar refazer a vida dela. Ligados vão estar sempre porque o pequeno - fez uma festa no Bruno que observava a conversa como se percebesse a importância - obrigar-vos-á a dividirem acontecimentos, mas isto que estás a fazer é pior para todos! João levares o teu filho é descabido! Vais tira-lo da mãe que foi a pessoa que sempre fez tudo por ele para o levares para um local completamente desconhecido para ele e deixa-lo entregue aos cuidados de uma…
- De uma nada! Mãe quer queiramos quer não a Carmen vai ter um filho meu! E vive comigo e por isso é uma espécie de madrasta do Bruno… além disso até lhe fará bem a ela tomar conta do Bruno, é um teste para quando o bebé nascer!
- João o teu filho não é um boneco, para as gravidas fazerem “test dirve”! E ficas já a saber que se essa parvoíce de pedido de custódia avançar eu testemunharei a favor da Maria! - dito isto saiu batendo a porta
Ainda fiquei mais algum tempo com o Bruno até que tive de o deixar com a minha mãe e voltar a Valência na companhia da Carmen, não sem antes ligar para a Ana a agradecer a disponibilidade em receber-nos e agendando para uma próxima oportunidade quem sabe. Assim que cheguei a Valência recebi a notícia de que o filho do Ruben tinha nascido, tentei falar com ele mas foi impossível.
Fui sabendo do que se passava com o Ruben através do Fábio. Que também me ia dando algumas novidades sobre a Maria mesmo que eu dissesse vezes sem conta
- Fábio na boa, não quero saber!
- Não queres mesmo? Então porque não assinas já a porcarias dos papéis e envias pela tua mãe, ela vai ai este fim de semana não é?
- Vem… tenho tantas saudades do Bruno! Nunca mais sai a bendita decisão…
- Vais mesmo manter isso?
- Vou e não vou discutir a minha decisão com alguém que nem pensou duas vezes antes de testemunhar contra mim!
- João não foi contra ninguém! Disse só a verdade e neste caso tu não tens razão nenhuma! E pior tu sabes isso muito bem! Que assim que viste a revista tivesses ameaçado ainda percebo apesar de achar que o menino nunca devia ter sido metido nisso, agora levar isto adiante, desculpa mas não concordo! e agora tenho de desligar que vou ter com…
- Com?
- A Maria e o Rui eles vem jantar cá a casa
- A Maria e quem? Mas isso já está assim é? Já fazem jantarinhos a quatro e tudo?! Muito me contas!
- João…
- Tchau não te atrases!

Mariana
Ser obrigada a retirar o Ruben para que não visse a equipa médica a socorrer o filho não foi fácil, até porque pela primeira vez vi o meu amigo a reagir como pai, o Ruben desesperou e lutou para ficar próximo do filho, não tive outra solução que quase o arrastar mas para isso contei com a ajuda da Ana.
Os minutos que passaram até termos notícias foram desesperantes, o Ruben não conseguiu ficar sentado e por isso andava pela sala de espera de um lado para o outro, não consegui dizer nada, porque simplesmente não consegui colocar-me no seu lugar, a verdade é que o Ruben passou os últimos quatro dias a renegar o filho e no dia que o sente pela primeira vez, assiste a um episódio traumático…
Felizmente o Filipe recuperou, apesar de ter sofrido uma paragem cardiorrespiratória, mas não deixou de ser complicado gerir as emoções que daí resultaram. O Ruben ficou verdadeiramente abalado e por isso acabou por ficar no meu apartamento.
***
Seis, seis foram os dias que passaram desde que o Filipe teve a paragem cardiorrespiratória e faz hoje precisamente dez dias que nasceu, os últimos dias têm sido animadores com o pequenino a dar sinais de ser um lutador e talvez seja isso que tem contribuído para que o Ruben ande menos tenso, o meu amigo já retomou os treinos e acredito que a pouco e pouco consiga voltar a ser convocado.
Aproveitei a pausa do almoço para visitar o Filipe e quando estava a entrar no hospital vejo o Ruben a chegar, abrandei o passo e segundos depois já o tinha do meu lado
- Oi - dei-lhe dois beijinhos
- Vieste vê-lo?
- Sim... afinal dez dias de vida só se fazem uma vez! - sorriu - ena que o papá já sorri!!!!
- Oh... contigo do meu lado é impossível não sorrir...
- Ruben...
- Desculpa - baixou o olhar - é mais forte - suspirou - mas não deixa de ser verdade - olhou-me - contigo do meu lado tudo fica mais fácil, dás-me segurança, não sei explicar...
- Então não expliques e vamos lá ver o Filipe - falei animada e talvez por isso voltou a sorrir
- Vamos! - o Ruben conforme falou aproximou-se e sem esperar colocou o braço por cima dos meus ombros, confesso que senti um arrepio a percorrer o meu corpo, ainda assim não consegui ter coragem para terminar com aquilo, muito pelo contrário acabei por também eu o abraçar, colocando o meu braço nas suas costas, o que mais uma vez o fez sorrir.

Ruben
Faz hoje dez dias que o Filipe nasceu e finalmente estou a conseguir reagir, já regressei aos treinos mas acima de tudo ando mais calmo.
Saí do treino direto ao hospital e para surpresa minha o meu amor também estava a chegar, trocamos algumas palavras e acabamos por entrar no hospital abraçados. Fomos diretos à unidade de neonatologia com a intenção de vermos de imediato o Filipe mas infelizmente não aconteceu, ouvir da boca do médico que o estado de saúde do meu filho piorou nas últimas horas foi demasiado duro, ainda assim fiz um esforço para ouvir tudo o que o médico falava, o Filipe estava com uma infeção generalizada e as próximas horas seriam cruciais...
- Não fiques assim... tens de acreditar...
- Acreditar no quê? Ouviste o médico!
- Hey... Ruben vamos entrar ali dentro como entramos nos últimos nove dias, com esperança que o Filipe vença esta luta...
- Não é justo... porquê? Porquê que isto está a acontecer?
- Não sei... mas não adianta estarmos a fazer estas perguntas... - a Mariana abraçou-me - é perca de tempo e agora mais do que nunca o Filipe precisa de sentir o pai presente, anda - deu-me a mão - vamos!
Entrei de mãos dadas com a Mariana e a cada passo que dava sentia-a a apertar-me um pouco mais a mão.
Ver o meu filho novamente ligado ao ventilador e a receber uma transfusão de sangue foi horrível mas pelo menos tinha-a comigo, a Mariana tem sido sem dúvida um enorme apoio, tanto para mim como para o Filipe, pelo menos é no que quero acreditar, afinal o menino não precisa só de sentir o pai, também precisa de sentir a presença maternal e esta sem dúvida está a senti-la através da Mariana, o meu amor é o que o menino tem de mais parecido com uma mãe uma vez que a Sofia rejeitou-o completamente. Se por um lado é mau porque o meu filho tem o direito de conhecer a mãe por outro estou aliviado, pelo menos não terei que aturar a Sofia, uma vez que legalmente fiquei com a guarda do Filipe.

Carmen
Já passou quase um mês desde que estivemos em Lisboa. Felizmente o João não conseguiu a custodia do Guilherme, estar fora do pais e sempre ausente de casa e bem… e eu… não o ajudaram muito, confesso que festejei loucamente quando soube o resultado.
O diabo veio cá apenas um fim de semana e acompanhado pela bruxa da avó!
E durante duas noites não preguei olho já que a criatura resolveu chorar e ainda chamar a “Mamã” o que deixou o pai com um humor de cão.
Se já não me liga muito, quando o filho está cá o João esquece-me, ou melhor tem o telemóvel programado para não o deixar esquecer-se de mim e lá pergunta se estou bem ou preciso de algo quando o aparelho apita.
Hoje é dia do pai, o meu continua a vida dele como se eu tivesse morrido e o do meu filho ou filha, pelo menos finge que se preocupa, e eu bem eu vou fazer-lhe uma surpresa já que o outro filho não vai estar cá.
- Feliz dia papá! - disse assim que o vi entrar na cozinha e já tinha o pequeno-almoço especial todo preparado
- ãh?! Ah… obrigado…  foste tu que fizeste isto?
- E quem mais seria? Porque estaria de avental? - olhou-me e juro que vi faísca a saírem-lhe dos olhos
- Não sei, mas como andas tão enjoada… O que fazes com esse avental?! Tira-o já!!
- Era o único que havia!
- Mas não é teu! Estava ai por algum motivo! Tira-o imediatamente! E que seja a ultima vez que fazes a gracinha de usar algo da Maria que esteja cá em casa! Acho que já falamos sobre isso! - levantou-se e ia a sair da cozinha quando a campainha da porta toca, olhou-me pensando que seria mais alguma coisa preparada por mim, mas esta surpresa seria para os dois

João
Hoje é dia do Pai, convidei o meu para vir até cá, já que tinha que estar longe do meu filho, que pelo menos tivesse o meu pai por perto.
Quando a campainha tocou confesso que fiquei bastante contente já que se tal não tivesse acontecido as coisas com a Carmen iam acabar mal, já que mais uma vez tinha repetido a gracinha de usar coisas da Maria que eu tinha deixado estrategicamente guardadas, para não dizer escondidas, pela casa.
Fui até à porta e quando a abri foi impossível não sorrir tinha como esperava o meu pai, mas também a minha mãe e o meu filho
- Feliz dia do pai! - a minha mãe disse fazendo-se passar pelo Bruno, para antes que eu conseguisse falar - Quem é este que está aqui? Diz lá à vó Té quem é este?
- Papá! - fui completamente surpreendido e invadido por um mar de lagrimas nunca imaginei que ouvir aquele meio palmo de gente reconhecer-me e chamar-me fosse tão… tão… especial
- Eeeee que o meu filho é um chorão! - olhei-o sem conseguir parar apenas tirei o menino do colo da minha mãe
- Obrigado… - sussurrei
- Papá!
- Filho!
Acabei por o deitar no sofá enquanto o enchia de cocegas e assim passei uns minutos até que
- Ah não sabia que vinha e que traziam apêndices!
- Carmen!
- Estoy bromando! Que guapo! - disse chegando-se perto do Bruno e tentando brincar com ele, algo que não conseguiu já que assim que o fez o meu pequenote resolveu chorar só se calando quando ela se afastou
- João toma! - a minha mãe estendeu-me um envelope-embrulho do qual retirei

o pequeno quadro ainda me deixou mais encantado, mas não acabava ali tinha mais um DVD
- E isto pequenino? Foste tu que filmaste? - disse a rir
- Não isso fomos mesmo nós eu e o teu pai… sem que os actores principais dessem por ele. Aliás acho que se soubessem iam boicotar e confesso que com razão… vê!
Meti o cd no leitor e comecei a ver uma sequências de imagens e de pequenos vídeos feitos pelo telemóvel e nitidamente camuflado em que aparecia a Maria sempre acompanhada com o Bruno e em que lhe mostrava fotografias e vídeos em que me mostrava ao menino e ia repetindo “papá! vá Guilherme tu consegues! Diz lá!” até que ao fim de algumas tentativas e enquanto apenas o colocava a ver um jogo meu em direto o menino e quando surjo em primeiro plano o diz! Tinha o coração cheio de alegria, mas ao mesmo tempo apertado de ver na cara da Maria o esforço que fazia para que o nosso filho me visse
- Ah e tal não te quero ver mais, mas depois passa horas com a desculpa do filho a ver fotos e tv…
Acordei quando ouvi a Carmen
- Se não tens nada de interessante para fazer despacha-te! Vou fazer o mesmo e depois vamos sair todos!
- Vamos onde? - perguntou ela surpreendida por a incluir num plano com os meus pais
- Surpresa!
- Adoro surpresas!
Assim como lhe pedi ela foi-se despachar e eu também e em pouco tempo saiamos os cinco com destino incógnito para os restantes já que apenas eu sabia onde iríamos
- O que estamos a fazer aqui? - perguntou a Carmen assim que nos viu na entrada de uma Maternidade
- Acho que era uma boa ideia conhecer o meu filho ou filha hoje, não concordas?! - ela estava pálida - Afinal sempre que vens ao médico eu não consigo vir contigo e sei que está tudo bem, mas nunca o ou a vi!
- Ah sim… concordo, mas assim do nada? Não devem poder atender-nos…
- Podem! Afinal não é do nada que aparecemos aqui… como não sabia como contactar o teu medico mistério, perguntei á Paula quem a acompanhou e marquei consulta, só tinham para hoje e achei que a coincidência não podia ser melhor!
- Ah… mas… podias ter dito… eu tinha marcado no meu…
- O teu nunca pode quando eu posso!
- Como queiras!
Entramos e depois de nos identificar na receção em poucos minutos fomos chamados, achei a Carmen muito tensa, mas não conseguia perceber porquê

Carmen
O dia que podia ter sido calmo revelou-se um terramoto. Além dos sogros tinha ainda de levar com o “diabo” e o João ainda resolveu armar-se em esperto e arranjar-me uma surpresa. Não tive como fugir e segui até á consulta
A primeira parte da consulta consegui controlar, afinal sabia perfeitamente quais os sintomas que qualquer grávida saudável deveria ter neste período da gravidez
- Muito bem Carmen aparentemente está tudo bem. Mas disse-me que o médico que a segue é?
- Ah é o Dr.…. o Dr…
- Realmente  nunca me disseste o nome….
- É…
- Está com um lapso de memória? Acontece, relaxe… tem o seu livro de gravida consigo?
- Não… não imaginava ao que vinha e por isso deixei-o em casa…
- Isso é que fez mal deve andar sempre com ele…
- Pois eu sei… foi mesmo um lapso…
- Bem então vamos lá até á marquesa para vermos esse ou essa pequeno
Seguimos para a sala onde tinha o ecógrafo e o que temia aconteceu…
- Carmen teve alguma perda de sangue ou dor fora do normal desde a sua ultima consulta?

João
A questão colocada pelo Dr fez-me ficar ainda maus assustado, afinal já tinha assistido às ecos da Maria e algo estava estranho no que se via, ou melhor não via
- Não… nunca tive problema nenhum porquê?
- Porque…
- Diga Doutor por favor há algum problema com o meu filho ou com a Carmen?
- Bem… nem sei como lhe dizer isto, mas a Carmen não está grávida… - olhei-a espantado e ela forçava um choro tão falso que só me apetecia…
- Não está? Como não está?! Não estás?? - olhei-a e só conseguia lembrar-me de algo porque já passei há uns anos atrás
- Não está… e pelo que consigo observar, bem… - o senhor estava visivelmente constrangido - a Carmen ou nunca esteve grávida ou já não o está há muito tempo, uma vez que além de não haver qualquer alteração do seu útero ela está em pleno período menstrual
- O QUÊ?!!! - o Dr explicou que ela não estava grávida e que o mais provável era ter sido psicológico tentei mostrar-me o mais compreensivo possível, mas quando sai - Vou passear com os meus pais e o meu filho, tens 45 minutos para tirares tudo o que é teu de minha casa e deixares a chave na portaria!
- Pero...
- Pero o raio que te parta! É assim e rápido porque já só tens 44 minutos!

Será que a Carmen cumpre a "ordem"? Como ficará o João depois de passar pela segunda vez pelo mesmo golpe desta vez perdendo a Maria? E a Maria como terá passado este mês?
E quanto ao trio Ruben, Mariana e Filipe como andarão eles? E o que terá o destino reservado para o Ruben no seu primeiro “dia do pai” como pai?