Maria
O João seguiu mesmo com o processo de
guarda para a frente. Temi passar meses enrolada em burocracia e que me
retirassem o Guilherme, mas felizmente o processo foi rápido e todos, desde
amigos a família incluindo os pais dele, que foram chamados a testemunhar
fizeram-no a meu favor. Não porque o João é mau pai, mas porque as
circunstâncias em que vive e os motivos da nossa separação assim os
"obrigou". De qualquer forma e contra a minha vontade hoje 15 dias
depois de o ter visto pela última vez fui obrigada a deixar que o Guilherme
fosse passar o fim de semana com ele
- Fica tranquila Maria que eu não o largo um
segundo!
- Oh Teresa e se o João não o deixa voltar?
- O meu filho não ia fazer isso!
- Acha mesmo que não?!
- Não sei Maria... já não o conheço... mas eu não
o permitirei segunda-feira estamos cá!... Guilherme beijinhos na mamã!
O meu filho recebeu os meus mimos e
quando percebeu que ia sair de casa só com os avós paternos fez aquilo que
sempre faz assim que percebe que o vou "deixar" chorou. Chorou muito
e chamou por mim, tive de me fechar no quarto para não correr em direcção a ele
e proibir a sua ida, algo que não resultou e quando já saia de casa disparada
sou impedida de o fazer pelo meu vizinho.
Agora com a Mariana entregue aos cuidados
do Pipo e do Rúben tem sido o Rui o meu suporte e nem foi preciso abrir a boca
- Cruzei-me com eles na porta o menino chamava
por ti, mas não podes ir Maria... tens de deixar... não podes ser igual ao
João...
- Eu sei... - solucei
- Anda... vamos lá para casa... pedimos sushi e
vemos um filme para te distraíres... anda!
- Não sou boa companhia hoje...
- És uma excelente companhia sempre!
Acabei por aceitar o convite e passar o
serão em casa do Rui. O serão e todo o fim de semana já que apenas tive ordem
para me ausentar da sua companhia quando o sono era maior que eu.
Mas na segunda-feira nem mesmo o
maravilhoso pequeno-almoço preparado por ele me fez "esquecer" que
estava a horas de voltar a ter o meu bebé nos braços
- E se ele não volta?
- Maria!
- Não é Maria... imagina que o João resolve ficar
com ele?
- A Teresa não ia permitir!
- Oh a Teresa é mãe dele...
- Pois é... mas testemunhou a teu favor e
ofereceu-se para supervisionar as visitas achas que o faria?
- Ai não sei... tou tao confusa...
Os segundos pareciam horas e finalmente a
campainha tocou, corri para a porta para encontrar o meu filho a dormir ao colo
da avó
- Finalmente!
- Maria até chegamos mais cedo!
- Eu sei, mas nem deviam ter ido... quer dizer...
- Eu percebo Maria... aliás depois do que vi e
ouvi em casa do João podes ter a certeza que o Guilherme não ficará um segundo
longe do meu olhar
- Mas o João tratou-o mal? Teresa, vou ao
tribunal e proíbo...
- Maria o João sempre que teve um milésimo de segundo
esteve colado ao menino... o que me preocupa é a Carmen...
- Essa... o que é que ela fez? Se ela tocou no
meu filho eu esqueço que ela tem o dela na barriga!
- Ela não fez nada porque não teve hipótese... o
João não lhe dá espaço para tal e eu muito menos, além de que na presença do
João o menino é um rei... já quando ele não está a conversa é outra... ela
pensa que se falar espanhol ninguém a percebe... coitada.... correu-lhe mal!
Teresa
Ofereci-me para levar o Guilherme a ver o
pai porque sinceramente já não reconheço o meu filho. E tive algum receio de
como seria a estadia do pequeno junto do pai e da... bem da Mãe do irmão ou
irmã.
Assim que lá cheguei foi impossível não
reparar no "amor" que preenche aquela casa, nem quando a Maria e o
João se encontraram no dia dos anos dele o ambiente era tão frio.
A Carmen bem tenta fingir que são um
casal modelo, mas qualquer pessoa vê que o meu filho não está feliz e eu pude
confirmá-lo ao ouvir uma conversa entre pai e filho
- Pois
é bebé vamos ter que ter uma conversa muito séria para quando fores grande não
fazeres a mesma asneira que o papá e o padrinho! A Carmen está á espera de um
mano ou uma mana para ti... e o papá é o responsável porque foi irresponsável e
inconsequente e quis disfarçar as saudades que tinha da mamã... e agora o papá
não podia voltar a fazer o que fez contigo... não podia estar longe do bebé que
vem ai como esteve de ti! Merda! Estou a fazer o mesmo... estou a usar o bebé
que não nasceu para tapar a tua falta.... ai Bruninho o que é que eu fiz...
- João esta na hora do menino comer
- Eu dou!
A tarefa foi complicada apesar da boa
vontade do meu filho o meu neto resolveu que não queria comer e ainda deu um ar
da sua graça quando depois de cerrar bem a boca para não receber comida
- oh filho... não faças isto ao papá! Se vais
daqui sem comer o que é que a tua mamã vai dizer? Vá come lá!
- Mamã? Mamã! MAMÃ!!!
- João o menino chorou muito para vir e a Maria
ficou desfeita, isto não é solução...
- A Maria só fica assim porque provocou e eu não
quero saber como ela fica… Porque também ninguém quer saber como eu fico! E
como eu fico aqui? Eu não tenho a minha
mulher nem o meu filho!
- João tu não tens a tua ex-mulher e um dos teus
filhos mas isso foi uma escolha tua!
- Escolha mãe? - enquanto falávamos e visto que o tom da conversa
aumentava a Carmen pegou no menino e levou-o com ela. "Finalmente fez algo de jeito" pensei.
- Sim fizeste-a no mesmo momento que decidiste
dormir com...
- Eu não pensei...
- Ainda mais razão me dás!
O João e o seu bom-feitio deixaram-me
sozinha e acabei por ir procurar o meu neto.
Quando cheguei perto do quarto da Carmen,
depois de correr toda a casa, ouço
- Mira
mi plaga ahora vamos a aclarar las cosas aquí. Tengo que no me gusta ... óptima
también no me gusta usted y no te quiero por aquí! Recuerdos a tu madre y esto
es indeseable para mí. Así, mientras que no se puede conducir de una vez la
Vida João es bueno que se comporta bien si no … (Olha minha peste vamos
esclarecer já aqui as coisas. Já percebi que não gostas de mim... óptimo também
não gosto de ti e não te quero cá em casa! Lembras a tua Mãe e isso é
indesejável para mim. Por isso enquanto não te conseguir expulsar de uma vez da
vida do João é bom que te portes bem se não...)
- Se não o quê? Vais fazer-lhe mal é?
- Fazer mal ao anjinho eu?! De onde tirou essa
ideia?
- Mas tu achas que eu sou o quê? Nem te atrevas a
responder! Ficas a saber que ouvi e compreendi perfeitamente tudo o que
acabaste de dizer ao meu neto. Por isso toma bem atenção a tudo o que fazes
porque ao primeiro deslize podes acreditar que te vais dar mal
- Está a ameaçar-me? Vou dizer ao João
- Não não estou a ameaçar... estou a avisar que
tenhas cuidado porque não é por dizeres que estás gravida... sim que a única
prova dessa gravidez é a tua palavra... que eu vou "adoptar-te" como
fez o meu filho ou esconder-me numa concha como a Maria. Comigo a conversa é
outra e depois do que já fizeste ao meu filho e a minha nora garanto-te que no
meu neto não tocas nem num cabelo!
- Porque se não?
- Verás...
Retirei-lhe o menino dos braços e garanti
que ela não se aproximava dele o resto do tempo, algo que não foi muito difícil
já que o pequenino chorava assim que pressentia a sua presença.
Se não fosse o brilho que via noa olhos
do meu filho por ter o filho nos braços tinha feito a vontade à Maria e acabado
com esta e as próximas visitas.
Mas este fim de semana em Valencia serviu
ainda para estranhar alguns comportamentos da Carmen enquanto gravida. Sintomas
de gravidez só benéficos para ela, barriga nem vê-la e aqueles carinhos que
qualquer grávida adora fazer muito menos e depois as consultas ou a falta de
lembrança quanto às mesmas além de que nenhuma gravida que se prese se esquece
de trazer consigo a imagem da eco.
Voltei a Lisboa e quando entreguei o
menino à Mãe, percebi que esta não tinha passado o fim de semana sozinha.
Maria
Quando a Teresa me contou que a outra
queria ver o Guilherme longe resolvi que iria fazer o contrario e que da
próxima vez que ele fosse visitar o pai o surpreendesse a sério e a partir
desse dia e por muito que me custasse fui até à arrecadação e de uma caixa
escondida num canto retirei várias fotos do João e espalhei-as pelo quarto do
Guilherme e também algumas na sala. Desde ai que sempre que estava com ele num
desses espaços e enquanto brincava ou cuidava dele ia-o incentivando a chamar
pelo pai
- Vá lá bebé diz lá Papá! - o menino olhava para mim e para a foto e ria,
mas não dizia - Sim a mamã adora ver-te
rir, mas temos de mostrar àquela coisa quem é que manda, e quem manda és tu! Vá
quem é este diz lá?... Pa-pá!
- Ui… quem manda… - ouvi-o rir
- Olha amor temos visitas! - aproximei-me dele e cumprimentei-o com dois
beijinhos - tudo bem?
- Sim! Mas estava assustado por isso abri a porta
com as chaves que me deste…
- Se dei é para usares… mas assustado porquê?
- Porque estava farto de tocar…
- Não ouvi, estava aqui distraída… afinal ele vai
já amanhã e ainda não o consegui meter a dizer papá… - o Guilherme riu
- Ui que ele tem uma mistura boa do mau feitio da
mãe e do mau feitio do pai - gargalhou
- Rui Jorge não tem piada!
- Isso dos dois nomes é para assustar? Não
resulta… E agora vamos para a sala que está a começar
- A começar o quê?
- Não te faças desentendida… está a começar
aqueles 90 minutos semanais em que choras como uma Madalena arrependida… ou
seja o jogo do Valência.
- Oh…
- Vá anda…
Segui com o Rui para a sala e sentei-me
com ele no sofá e deixei o Guilherme no seu tapete no chão, já que como é óbvio
com 11 meses o pequenote tem mais que fazer que ficar 90 minutos com os olhos
colados ao ecrã.
O jogo começou e como sempre o reguila
brincava e eu, eu aproveitei para mais uma vez receber os miminhos do Rui
Até que o pequenino começa a bater as
palminhas
- Então filho estás a bater palminhas porquê?
- Mamã! - olhou para mim
e depois para a tv - Papá!!!! -
disse enquanto mostravam um grande plano do João - Papá… - começou a chorar assim que a imagem mudou. Peguei-o ao colo
- Pronto bebé, não chora que amanhã a avó Té leva
o menino a ir ter com o papá e para dar a prenda sim?
- Não chora! Nem o bebé nem a mamã boa? - olhei-o, mas não respondi continuei a embalar
o meu pequenote que não só acalmou como adormeceu, deixei-o na cama e voltei á
sala - Vá… conseguiste! Ele amanhã já
vai chamar o papá! Agora podes relaxar anda cá que eu faço-te uma massagem
Acabei mesmo por me sentar no meio das
suas pernas enquanto o Rui me ia massajando as costa, para depois iniciar um
ataque de cocegas que só terminou quando no meio da brincadeira acabamos por
encostar os lábios, este encosto não durou 10 segundos já que de imediato me
afastei
- Desculpa Maria! Desculpa mesmo… eu não estou
arrependido, mas sei que não estás preparada… AINDA não estás preparada… mas
assim já sabes que…
- Rui eu não quero… não quero nem posso..
principalmente porque é indecente da minha parte para contigo… sim que se me ia
saber bem ser mimada e tudo isso que tu já me fazes, sim ia, todos gostamos,
mas eu não estou, para já e penso que nunca conseguirei estar disponível para
conseguir retribuir…
- Ainda Maria… ainda… mas compreendo e respeito…
já te pedi desculpa… achas que podemos esquecer isto?
Acabei por aceder ao pedido e “esquecer”
o que aconteceu até mesmo porque os dias seguintes foram uma montanha russa de
sentimentos.
Se no dia seguinte o Guilherme viajou com
os avós com destino a casa do pai, quando voltou
- Maria agora que o menino está a dormir, preciso
de te contar uma coisa…
- Diga...
- O João…
- Não quero saber… ou melhor se não tiver nada a
ver com o Guilherme não quero saber
-
Maria o João descobriu que afinal a Carmen não está, ou melhor nunca esteve grávida…
- A sério? Afinal ao contrário do que gosta tanto
de se gabar é mesmo burro e cai duas vezes na mesma mentira… lamento…
- Maria… ele meteu a Carmen fora de casa…
- Teresa com todo o respeito não quero saber
- Vais dizer-me que não muda nada?
- Muda… muda o facto de saber que para já ninguém
vai tentar fazer mal ao meu filho quando estiver com o pai…
- Só isso Maria?
- Sim, só… - respirei fundo - E agora se
não se importa eu vou matar saudades do meu filho e dormir que amanhã a rotina
volta ao normal e já falta menos de um mês para a primeira festa de anos do meu
campeão…
- Ah
agora por isso o João…
- Esqueça! O menino não vai para lá nesse dia nem
que o tribunal ordene!
- Não é isso Maria… o João só pediu que…
Mariana
Desde que o Filipe nasceu vinte e dois
dias passaram comigo a dividir-me entre o trabalho, a minha prima, o Ruben e
como é lógico a visitar o pequeno, mas tudo isto tem sido desgastante, porque
para apoiar o Ruben acabo por me magoar, a verdade é que o Filipe faz-me
recordar a perda dos gémeos no entanto não consigo fingir que aquele anjinho
não existe, o menino não tem culpa do que se passou e por isso mantenho-me o
melhor que consigo do lado do seu pai.
O Filipe nestes últimos dias melhorou e
felizmente a infeção já é passado, tanto que o pequenino já não está ligado ao
ventilador, o que animou tanto o Ruben como a restante família e amigos.
Hoje acordei e inevitavelmente lembrei-me
de duas pessoas, por motivos diferentes, a primeira por ser o meu pai e um dos
meus pilares nos últimos tempos, a verdade é que a minha relação com o meu pai
melhorou bastante e nem dei por isso. O outro foi o Ruben… afinal hoje é o dia
deles e como tal resolvi assinalar o dia através das redes sociais
Sempre ouvi que pai não é quem procria mas sim quem ama,
cuida, se preocupa, chora, sorri mas acima de tudo quem está sempre presente
nas nossas vidas, amor de pai não acontece quando se engravida uma mulher… amor
de pai é algo puro e verdadeiro, honesto e sincero, amor de pai é estar
disposto a abdicar de si em prol do ser inocente que ganhou vida após um
encontro de um espermatozoide com um óvulo (ok… não é a forma mais romântica
mas é a real), amor de pai é o que tenho… aquele que sempre recebi e me foi dado
da forma mais espontânea e verdadeira… OBRIGADA PAI… obrigada por me escolheres
para tua filha, por me dares amor, carinho, algumas palmadas (que hoje sei que
foram muito bem dadas :P), por teres chorado no dia que entrei para o
infantário e que me foste deixar ou no dia que acabei o secundário e que
percebeste que dentro de menos de dois meses a tua filha ganharia assas para
voar para longe… obrigada por todos os sorrisos, aqueles que marcaram momentos
como o dia que terminei a minha licenciatura… isto porque és o MEU PAI…
OBRIGADA por tudo… tenho ORGULHO em ser TUA FILHA… não o sou de sangue mas sou
de coração que é o que verdadeiramente importa… sangue é genética… coração é
AMOR PURO E SINCERO…
AMO-TE PAI!! Feliz dia do pai… :)
Partilhei uma foto minha com poucos dias
e nos braços do meu pai, acompanhada por um desabafo sincero, não tive vergonha
e muito menos complexos em afirmar que não sou uma Mendes de sangue, porque na
verdade o que interessa é que o sou de coração, sou filha porque o meu pai me escolheu
e não porque lhe caí nos braços após uma noite de sexo, por isso não “bloqueei”
nem a foto nem o desabafo e não demorou muito para que tanto o meu instagram,
facebook ou twitter começasse a ser “bombardeado” com perguntas do género “ o
teu pai não é teu pai?”, a verdade é que só a minha família, o João, o Rui, a
Ana e o Fábio sabiam da verdade, os restantes amigos e conhecidos nem sequer
imaginavam, mas hoje senti a obrigação de retribuir todo o amor que o meu pai
deu-me durante estes anos todos e de assinalar este dia de forma única.
Almocei com o cota e ofereci um mimo para
assinalar o dia dos pais e mais uma vez ouvi o meu pai a dizer que devo seguir
o coração em vez da razão, por incrível que pareça o meu pai é o único que sabe
do que se passou entre mim e o Ruben no dia do seu aniversário e no fundo sei
que está a torcer para que admita que não sou ninguém sem o Ruben.
Foi a pensar nas suas palavras que entrei
no hospital para ver o Filipe, o menino estava agitado, algo que não é normal e
por isso fiquei a observá-lo enquanto o mimava, fazendo pequenas carícias com
os meus dedos no seu rosto e barriguinha quando uma das neonatalogistas que
pertencem à equipa médica se aproximou e depois de cumprimentar-me
- O Filipe hoje está muito agitado - comentei de imediato o que fez a Dra. Fátima
sorrir
- Sim, está um pouco.
- Mas está tudo bem com ele?
- O pequeno campeão está agitado porque quer mimo - sorri ao ouvi-la - quer pegar nele?
- Como? - a Dra. Fátima
sorriu
- O Filipe nestes últimos dias teve francas
melhorias e está estável por isso se quiser pegar no menino poderá fazê-lo.
- Posso? - perguntei
ainda meio atordoada com o que ouvia
- Sim... até é benéfico para os prematuros...
A Dra. Fátima explicou-me a importância
de pegarmos nos bebés prematuros e ainda ajudou-me a encontrar a posição
perfeita para acolher o Filipe e depois de destapar o peito, recebi o menino,
coloquei-o em contato direto com a minha
pele e sentir aquele anjinho foi uma das melhores sensações que já tive,
perdi-me a observá-lo, apesar de ser tão pequenino e frágil é um bebé que a
cada dia que passa está mais bonito e forte.
Estava tão embrenhada no momento que só
quando olhei para o lado é que vi o Ruben, não sei ao tempo que ali estava, só
sei que o encontrei “lavado” em lágrimas, o rapaz não conseguiu falar e muito
menos aproximar-se, mantinha-se à entrada a observar-nos à distância.
- Anda... - incentivei-o a aproximar-se quando lhe estiquei o braço, o Ruben
muito lentamente chegou junto de nós - queres
pegar nele?
- Não! - respondeu
prontamente
- Porquê?
- Tenho medo... - sorri ao ouvi-lo - posso deixá-lo
cair... - voltei a sorrir
- Oh isso não acontecerá...
- Deixa... - estávamos a olharmo-nos olhos nos olhos - o Filipe está a adorar - o Ruben fez algumas carícias ao filho mas
sempre de olhos posto em mim o que estava a deixar-me fragilizada - não é filho... gostas de tar aí -
suspirou - como o pai te entende...
- Ruben Filipe em vez de estares a dizer
disparates devias pegar sim no teu filho!!
- Não consigo… - percebi que não estava a renegar o menino, estava sim com pavor de
o deixar cair ou algo do género, por isso com toda a calma falei
- Consegues sim! Só tens de te sentar e encostar
o Filipe ao teu peito, de preferência em contato com a pele… foi isso que a
médica explicou…
O Ruben não disse nada, ficou a olhar-me
e como sei que para reagir precisa sempre de um empurrão, acabei por quase
ordenar que se sentasse e depois pedi ajuda à enfermeira para segurar no Filipe
enquanto o Ruben se preparava, o meu amigo não teve outra solução que fazer o
que lhe estava a mandar e uns segundos bastaram para o Ruben ficar
completamente embevecido a olhar o filho, registei aquele momento e depois
fiquei unicamente a babar aqueles dois, pai e filho, até ser interrompida com a
chegada da Dra. Fátima que nos trouxe só boas notícias, o que nos deixou aos
dois com um mega sorriso no rosto e enquanto não resisti em pegar novamente no
Filipe, o Ruben preferiu ficar simplesmente a olhar-nos.
- O que se passa?
- Nada!
- Então porquê que nos olhas assim?! - sorriu
- Ah é que...
- Diz!
- Estava aqui a pensar e tenho um convite para te
fazer!
- Convite?!
- Aceitas ser a madrinha do Filipe?
- Eu?!
- Sim... o menino precisa de uma madrinha e
sinceramente não vejo ninguém tão perfeita para o ser para além de ti - aproximou-se - Mariana estás do lado do meu filho desde o primeiro momento, foste tu
que mais lutaste por ele... além disso és a única em quem confio plenamente e
sei que nunca falhará ao meu pequenino.
- E quem vai ser o padrinho? - sorriu - Sim
que só aceito ser madrinha se o meu par for alguém jeitoso! - brinquei com
a situação pois fiquei sem saber se deveria ou não aceitar, afinal madrinha é
como uma segunda mãe e neste caso o Filipe só terá a madrinha...
- Ainda não decidi, pensei no João mas depois há
a Maria - interrompi
- A minha prima compreenderá mas o filho é teu
logo a decisão será tua!
- Pois... também pensei no Fábio ou então no meu
irmão...
- Não pareces muito decidido!
- Ohhh...
- Que foi?
- Todos me condenaram quando engravidei a
Sofia... - percebi que lhe custou admitir tal
coisa mas mesmo assim não perdoei
- É normal - olhou-me - foste
irresponsável, além disso não foste propriamente um pai “modelo” desde o
início, é verdade que o Filipe não foi um bebé planeado e até mesmo desejado
mas a partir do momento que a Sofia engravidou tornaste-te pai e tinhas
obrigações que não cumpriste!
- Não precisas atirar-me isso à cara!
- Ruben - respirei fundo
- magoaste-me muito desde que perdi os
gémeos mas o que me desiludiu e fez perder a confiança inabalável que tinha em
ti foi mesmo a forma como renegaste o teu filho, nunca o amaste
verdadeiramente, só dias depois de ter nascido é que começaste a ama-lo e
sinceramente ainda tenho dúvidas se já o amas incondicionalmente! Sim, é
estranho mas o que me doeu mais foi isso, foi ver-te a renegar o teu filho,
fizeste o mesmo que a Sofia e se até podia esperar isso dela de ti não...
porque o Ruben que amo não é nem nunca foi aquele em que te tornaste!
- É por isto que tenho a certeza que serás a
melhor madrinha que o Filipe poderá ter...
- E serei com muito orgulho! Porque o Filipe é um
vencedor!
- Obrigado!
- Estás a agradecer o quê?
- O estar do nosso lado mesmo sabendo que cada
vez que entras aqui sofres calada...
- Ruben não! Não ouses sequer continuar com esta
conversa! Não interessa o que sinto ou deixo de sentir, se estou aqui é porque
fiz uma escolha e fi-la consciente de todas as consequências que a minha
decisão tinha... talvez seja mesmo masoquista mas pelo menos durmo de
consciência tranquila!
O Ruben não respondeu, algo que agradeci
no silêncio, naquele momento continuar com aquela conversa só faria com que
deixasse cair as lágrimas que guardo para mim há imenso tempo...
***
- Jantas comigo? - perguntou-me quando já estávamos a sair do
hospital
- Hum… pode ser!
Segui atrás do Ruben e rapidamente
percebi que estávamos a ir na direção da sua casa.
- Entra - deu-me
passagem depois de abrir a porta do seu apartamento - fica à vontade que vou só preparar alguma coisa para jantarmos!
- Eu ajudo!
- Deixa estar… preparo algo rápido!
- Ok!
Ruben
Desde que o Filipe nasceu que aprendi o
verdadeiro significado da expressão “um dia de cada vez”, porque se está bem
hoje amanhã poderá não estar, é assim que tenho vivido cada um destes vinte e
um dias, no entanto há uns dias que o Filipe está estável, o que é muito bom e
talvez por isso nestes últimos dias tenho entrado na unidade de neonatologia
com um único pensamento, quando será o dia que o encontro num berço e longe da
incubadora... era nisso que mais uma vez pensava quando entrei e vi a Mariana
com o meu filho ao colo, aquilo fragilizou-me mas ao mesmo tempo deixou-me a
rejubilar de felicidade, ver o meu amor com o meu filho junto do seu peito, foi
só a imagem mais linda que alguma vez vi, o meu pequenino estava tão sereno,
ainda assim de olho aberto.
Naquele momento esqueci que somos só
amigos mas a Mariana fez questão de relembrar-me, ainda assim não ficou
chateada e acabou por mais uma vez estar do meu lado quando peguei no Filipe,
isto depois de ter recusado inicialmente por ter sido domado por uma onde de
pavor, tive medo de lhe fazer mal, afinal é tão pequenino, no entanto consegui
aproveitar ao máximo aquele tempo em que pude tê-lo nos meus braços.
Mas foi depois de falar com a médica que
o meu amor voltou a pegar no Filipe e não resisti em fazer o convite que já
andava para fazer há uns dias, lógico que a Mariana aceitou ser madrinha do
Filipe mas só o fez depois de atirar-me à cara algumas verdades, ainda assim
quando saímos do hospital convidei-a para jantar.
- Ah é verdade - olhei para a Mari quando já estávamos a comer - feliz dia papá! - suspirei - que foi?
- Tenho medo de não saber cuidar do meu filho
sozinho, de não ser bom pai…
- Hey! Primeiro és bom pai sim… estás a aprender
como qualquer pai de primeira viagem mas és bom pai… e quanto a estares sozinho
isso não é verdade, tens a tua família e amigos…
- Sim… mas é diferente… uma coisa é o apoio da
família e dos amigos… - agarrei na sua
mão - outra é o apoio da pessoa que
amamos…
- Ruben…
- Desculpa… foi mais forte…
- Tudo bem mas tens de te controlar!
- Como é que consegues?
- Consigo o quê?
- Estar perto de mim e teres esse autocontrolo
todo? Mariana, nós amamo-nos e não adianta negares...
- Não é autocontrolo...
- Então é o quê?
- É medo…
- Medo? - por esta não
esperava e talvez por isso olhei-a
- Sim medo! Medo de te perder… - sorri apesar de não ter nexo nenhum o que
falou foi bom ouvir - De voltar a ser
enxovalhada por ti...
- Isso nunca irá acontecer… amo-te e sabes bem
disso…
- Se o que sentes por mim fosse amor não te
tinhas enrolado com a primeira que apareceu à tua frente - atirou magoada, por muito tempo que passe a
Mariana nunca esquecerá e isso dói…
- Já não estávamos juntos quando isso aconteceu!
- É traição na mesma ou será que deixaste de
amar-me durante os meses que tiveste com ela? Pois fica a saber que senti a
mesma dor que sentiria se tivéssemos juntos, além disso nós não acabamos - olhou-me com as lágrimas a molharem o seu rosto
- foste tu que acabaste… eu nunca
consegui seguir em frente, prova disso é que continuo a mesma parva de sempre,
continuo a magoar-me porque não consigo afastar-me de ti, dói sempre que pego
no Filipe mas mesmo assim não consigo esquecer que aquele anjinho existe…
continuo pressa a ti e isso dói… dói porque vivo na incerteza, vivo apavorada
porque estou sempre à espera do dia que receba a merda de um email a dizer que
já não significo nada para ti…
- Mariana amo-te e sim errei muito mas percebi
que só do teu lado estou completo, preciso de ti ou melhor nós precisamos um do
outro.
- Não! O que preciso é de ter serenidade e não a
tenho porque vivo na incerteza de quando serei abandonada de novo…
- Isso não vai acontecer, és a minha vida
juntamente com o Filipe, abandonar-te é o mesmo que matar-me aos poucos. Mariana
não posso alterar o passado, errei bastante e agora estou a pagar por esses
erros mas será que não mereço uma oportunidade?
- Não entendes...
- Não entendo o quê?
- Que não consigo confiar em ti - baixou o olhar - basta estalares os dedos para te caírem aos pés e não negues que sabes
que tenho razão... não vou aguentar outra traição porque para mim a Sofia é
sinónimo de traição mesmo que digas que já não estávamos juntos é traição
porque nunca deixei de te amar... tu não me amas porque se amasses nunca me
tinhas traído...
- Não digas isso... fui fraco mas nunca deixei de
te amar, deixa-me provar-te que podes voltar a confiar em mim... só te peço
tempo porque só com o tempo é que irás recuperar a confiança em mim, tenho
noção que fiz merda da grande por isso não estou à espera que consigas confiar
em mim assim do nada... mas dá-me uma oportunidade de provar que aprendi com os
meus erros, amor mudaste imenso, deixaste de ser aquela miúda que conheci para
te tornares numa mulher madura e talvez seja isso que ainda me falta, tenho de
deixar de ser miúdo para ser o homem que precisas, só te peço tempo...
A Mariana não respondeu, simplesmente
levantou-se e saiu...
Será que depois desta conversa algo mudará na vida do Ruben e da
Mariana? Terá ainda o Filipe madrinha ou depois da conversa a Mariana se
afastará?
Quanto ao outro casal... O que será que o João pediu? E como reagirá a
Maria à novidade? E as coisas com o Rui?


