segunda-feira, 1 de abril de 2013

073 - "Queres casar de novo, é isso?"


Ruben
As horas passaram e como a Mari continuava a dormir fui preparar o nosso jantar, fi-lo com todo o amor e carinho mas o certo é que quando entrou na cozinha também saiu disparada, fui atrás de si e depressa percebi o motivo.

A Mariana olhou-me, o que foi suficiente para rodar sobre os meus calcanhares e meter-me a milhas, naquele momento estava a rogar-me uma praga e antes que lhe desse os cinco minutos deixei-a sozinha, fui até à cozinha e preparei-lhe um chá com umas torradas, apesar de estar enjoada já há muita hora que não come nada e isso não pode ser.
Coloquei a chávena do chá bem com o prato com as duas torradas num tabuleiro e fui à sua procura, encontrei-a deitada na cama e só quando a chamei é que abriu os olhos.
- SAI! Deixa-me sozinha e leva contigo essa porcaria que só o cheiro enjoa!
- Amor...
- Amor o catano! Deixa-me sozinha e de preferência longe de cheiros que me agoniam!
- Mas tens de comer...
- Ruben - respirou profundamente - sei que tenho de comer mas percebe que agora não desce nada... Ruben só de pensar em comia... - fechou os olhos - a sério dá-me uns minutos e pode ser que isto passe...
- Ok...
Saí do quarto e levei o tabuleiro apesar de contrariado resolvi facilitar, até porque se está enjoada só tenho que esperar que passe e depois sim mais que não seja obrigo-a a comer.
Os minutos passaram e como não havia meio da Mari aparecer, fui espreitá-la, acabei por entrar no quarto e sentei-me na cama a olhá-la.
- O que queres?
- Saber se estás melhor...
- Mais ou menos - suspirou - desculpa a forma como te falei à pouco...
- Shiuu - fiz-lhe uma carícia no rosto - já passou - encolhi os ombros - percebi que só falaste daquela forma porque estás enjoada mas caramba preocupo-me contigo, é normal que tente tomar conta de ti afinal vocês - levei a mão à sua barriga - são o bem mais precioso que tenho - sorriu.
- Anda cá... - chegou-se mais para o centro da cama de forma a ter espaço para deitar-me do seu lado - sabes - olhou-me - às vezes dou comigo a pensar o que seria de mim se o meu tio não tivesse oferecido trabalho à Maria, provavelmente não teríamos regressado a Lisboa e hoje continuávamos afastados...
- Onde queres chegar com esta conversa?
- A algo tão simples como já não sei viver sem ti... és chato, teimoso, embirrento, mimado mas também amoroso, cuidadoso, amigo e principalmente és a minha vida!!! A minha e a do bebé...
- Amor porquê que falas sempre no singular? - olhou-me - A Ana disse que...
- Sei bem o que a Ana disse mas também sei que falou que ainda era muito cedo para ter certeza e como tal prefiro a ideia de que se enganou...
- E se viermos a ter a confirmação que serão dois...
- Neste momento prefiro pensar que é só um... e agora pára com esta conversa que só me deixa ansiosa.
- Ok, mas se forem dois já não há volta a dar por isso teremos que falar na mesma...
A Mariana não respondeu, ainda ficamos um bocado deitados mas acabei por levantar-me para jantar, o meu amor ficou na cama e quando já estava a arrumar a cozinha depois de comer, apareceu.
- Precisas de alguma coisa? - perguntei ao vê-la a sentar-se e a apoiar os cotovelos na mesa.
- Podes fazer-me um chá e umas torradas... que as outras já estão frias - falou nada convicta o que deu para perceber que estava a fazer o esforço para meter alguma coisa no estômago, algo que deixou-me contente pelo menos não a posso acusar de não tentar.
- Trato já disso... se quiseres volta para a cama que depois levo.
- Prefiro comer aqui... estou farta de estar deitada.
A Mariana esperou que fizesse as torradas e depois de comer fomos até ao sofá onde passamos as horas seguintes, vimos o jogo da selecção e por sinal vimo-los a perder, como também percebemos que a minha ausência tinha sido notada mas justificaram como assuntos urgentes mas do foro pessoal e como tal autorizaram a minha saída.
- Os teus colegas perceberam o motivo pelo qual desapareceste? - olhei para a Mariana.
- Não sei... quando recebi a notícia estava na sala de convívio e confesso que não fui discreto mas também como saí à pressa assim que me foi dada autorização não tive tempo para falar com ninguém e hoje mantive o telemóvel desligado por isso duvido que estejam a par do verdadeiro motivo.
- Ah... ok.
- Mas porquê?
- Curiosidade...
- Sim... Amor o que é que te está a incomodar?
- Não é nada...
- Pois... e agora a verdade! - olhou-me - Mariana conheço-te por isso sei que algo está a incomodar-te.
- Posso pedir-te uma cena?
- Podes!
- Não contes sobre a gravidez a mais ninguém - olhei-a - Ruben sei que fui a primeira a contar ao Fábio e ao João mas - calou-se por uns segundos, segundos esses que foram suficientes para perceber o motivo do seu pedido.
- Amor não penses nisso - suspirou - o teu desmaio foi algo isolado, só tens de seguir à risca todas as indicações da Ana e não vai acontecer nada aos bebés.
- Tenho medo...
- Hey... não te vou mentir e dizer que não tenho receio mas não podemos estar constantemente a pensar nisso.
- E se... - não a deixei continuar a falar
- Mariana não quero ouvir-te e muito menos ver-te assim desanimada, desmaiaste porque enervaste-te e o teu corpo reagiu mas agora aqui ninguém te vai incomodar, somos só nós os dois, amor só tens de descansar e vais ver que corre tudo bem.
- E se não correr tudo bem?!
- Vai correr tudo bem mas se por um azar muito grande isso não acontecer vou estar na mesma do teu lado e juntos ultrapassamos tudo mas agora não quero que penses nisso... amor não gosto de ver-te assim desanimada.
- Não era isto que tinha em mente... Ruben nunca pensei ter que deixar de trabalhar tão cedo, ter que deixar de fazer a minha vida normalmente, caramba gravidez não é doença mas...
- Mas nada! Mariana não és a primeira e não serás a última grávida a ficar de repouso desde o início da gravidez, lembra-te que agora já não és só tu, neste momento tens pelo menos uma vida a crescer dentro de ti mas sabes muito bem que pode ser duas por isso é bom que tenhas juízo e por muito que te custe ficar parada vais ficar e aproveita estes dias para encascares nessa cabeça dura que podes estar grávida de gémeos porque quanto mais depressa te mentalizares para essa realidade melhor - a Mariana já estava com as lágrimas nos olhos - sei que estou a ser bruto mas caramba achas que para mim está a ser fácil?? Amor estou muito feliz por estares grávida mas não te esqueças que nenhum dos dois estava minimamente preparado para esta realidade, para mim também está a ser uma fase de reajustamento, a partir do momento que engravidaste as nossas vidas mudaram, agora só nos temos que adaptar e quanto mais depressa melhor. E já que estamos a falar disso lembra-te que se para ti foi complicado acordares naquele quarto sem saberes nada do nosso bebé para mim não foi muito melhor, estava a quilómetros de distância de ti, a sensação de impotência foi enorme, já para não falar do medo que tive em vos perder, só descansei quando entrei naquele quarto e vi com os meus olhos que estavam ambos bem por isso Mariana faz o que tiveres que fazer mas cumpre todas as indicações da Ana para bem da minha sanidade mental mas acima de tudo para o teu bem e dos nossos filhos.
- Vou deitar-me!
Saiu da sala sem dizer mais nada, sei que fui demasiado duro mas tive que o ser, a Mariana tem que perceber que agora já não é só ela e quanto mais depressa se mentalizar que terá que abdicar dela para o bem de todos melhor. Fiquei pela sala a fazer tempo para que reflectisse pois tinha consciência que se entrasse no quarto naquele momento que a Mari começaria a disparatar, algo que nesta altura é completamente dispensável.

Mariana
Ouvir o Ruben a dizer aquilo chateou-me, não por estar a ser bruto mas porque no fundo sei que tem razão em tudo o que disse e foi isso que aborreceu-me. Fui para o quarto a matutar nas palavras dele e desejosa que viesse atrás de mim algo que não aconteceu, afinal conhece-me tão bem que por ter consciência que se viesse tipo cãozinho atrás da dona que levaria uma rebocada não veio algo que neste momento sinto raiva.
Passei vários minutos sozinha e por ver que o Ruben nunca mais vinha acabei por meter o rabo entre as pernas e fui chamá-lo.
- Não vens para a cama? - olhou-me
- Já te passou a birra?
- Ohh
- Ohhh nada! Mariana só consigo ir descansado para os treinos e jogos se souber que terás cuidado...
- Fica tranquilo - aproximei-me dele e sentei-me no seu colo - vou cumprir na integra todas as indicações da Ana por mais que isso custe vou segui-las - beijei-o - mas prepara-te porque não vai ser fácil - sorriu - vou andar insuportável...
- Insuportável já andas - olhei-o - aliás sempre foste insuportável - gargalhou talvez por ver a minha cara de amuo - amor lembraste do quanto me fizeste a vida negra?
- Ãh?!
- Ao início... quando nos conhecemos - gargalhei ao recordar o dia em que fomos apresentados.
- Porquê que te lembraste disso agora?
- Porque quando penso no passado o presente parece-me surreal, naquele dia saí de casa a pensar que seria só mais um jogo para afinal ser o dia que mudou toda a minha vida, aquele beijo roubado despertou em mim um conjunto de sensações que nunca havia experimentado - interrompi-o.
- Espera aí... estás a querer dizer que nunca tinhas beijado ninguém? - sorriu - Que fui a tua primeira experiência a nível de sexo sempre soube agora...
- Não! Não foste a primeira que beijei mas foste a primeira que conseguiu transmitir-me algo mais... não posso dizer que foi esse beijo que levou-me a amar-te porque não foi, mas talvez tenha sido o que me fez perceber o que os rapazes falavam e que nunca tinha sentido antes.
- Posso fazer-te uma pergunta?
- Diz!
- O que te fez avançar naquela noite?
- Sinceramente? - abanei a cabeça em sinal afirmativo - não sei - suspirou - talvez o desespero...
- Ãh?
- Sim... desespero de saber que estava a perder-te - encolheu os ombros - a verdade é que aquela noite significava o fim de um ciclo, sabia que não tinhas concorrido para a faculdade em Lisboa, logo dentro de meses ias embora e sabendo o quanto eras despegada das coisas e mesmo das pessoas muito dificilmente teria oportunidade de mais tarde dizer-te que gostava de ti, ao contrário do que pensas não foi aquela noite que despertou em mim a certeza que gostava de ti, essa já a tinha, não sei como aconteceu mas a verdade é que quando dei conta já gostava de ti, sempre me trataste de igual para igual, nunca ligaste ao rótulo de envergonhado que tinha, para ti era só mais um amigo que ao contrário dos outros não andava atrás de tudo o que era rabo de saia, foste das poucas pessoas que sempre respeitou a minha escolha, é verdade que ao início fizeste de tudo para envergonhares-me mas com o tempo acabamos por nos tornar cumplices, entre nós deixou de haver constrangimento, sempre que estava contigo sentia-me bem, mesmo quando te dava a travadinha e te sentavas ao meu colo ou me cumprimentavas com um beijo no canto dos meus lábios sentia-me bem, descontraído, livre… acho que sentia-me simplesmente eu e depois com o passar dos meses fui percebendo que afinal eras mais importante para mim do que pensava, doía ver-te com outros mas ao mesmo tempo pensava que não era ninguém para impedir-te, afinal sabia que para ti sexo era algo banal mas ao mesmo tempo algo de que sentias falta, por isso andei meses a remoer se algum dia iria conseguir oferecer o que querias, levei tempo demais a decidir e talvez tenha sido esse o meu erro, adiei durante meses com medo que fosse gozado que quando consegui ter coragem para iniciar-me nesse campo e percebi o que tinha perdido não consegui lidar com isso, ter a certeza que por uma estúpidez minha te tinha perdido deixou-me lixado, a noite do baile foi única não por ter sido a minha primeira vez mas sim por ter percebido que afinal não te era indiferente.
- Como é que percebeste?
- Talvez pela forma como esperaste por mim… Mariana naquele momento confesso que não percebi talvez por estar com a cabeça a mil e preocupado em não falhar mas a verdade é que naquela noite não procuraste a tua satisfação mas sim a minha - olhei-o surprrendida - não faças essa cara… amor já te tinha ouvido falar de sexo com as raparigas por isso tinha assim uma pequena ideia dos teus limites logo sei que não andei perto... mas mesmo assim não te importaste, naquela noite fizeste-me sentir único ao estares só preocupada em diminuíres ao máximo os meus nervos que como deves calcular eram mais que muitos, isso fez-me perceber mais tarde que talvez tivesse sido especial para ti também, mas quando percebi já era tarde ou pelo menos sempre pensei que fosse, sabia que tinhas regressado à vida que levavas antes de te ter conhecido e isso fez-me colocar uma pedra sobre o assunto, foi a partir desse momento que decidi gozar a vida, aproveitar ao máximo o facto de ter raparigas atrás de mim para tentar esquecer-te mas a verdade é que nunca consegui e isso magoava-me porque fizesse o que fizesse no fim era em ti que pensava, eras tu que desejava, era contigo que queria estar a experimentar todo um conjunto de sensações, emoções e mesmo posições, era contigo que queria ter evoluído nesse sentido e não com uma rapariga diferente todas as noites, andei meses nesta vida até que acabei por cair na estupidez de escolher a Ana como vitima... sei que a magoei e muito, hoje arrependo-me mas naquela altura não pensei o quanto as minhas atitudes podiam magoá-la.
- E apesar disso tudo nunca pensaste em procurar-me?
- Pensei... pensei tanta vez nisso mas coragem para o fazer nunca tive.
- Porquê?!
- Oh Mariana porque não sabia o que iria encontrar... não tinha a menor ideia se irias querer falar comigo mas principalmente porque tinha medo...
- Medo?!
- Sim... medo... medo do nosso reencontro, medo de não conseguir dizer-te o que queria, medo de te encontrar com alguém, só a ideia que pudesses ter namorado assombrava-me, preferi ser cobarde do que apanhar-te nos braços de outro... aí sim não me perdoaria nunca...
- Explica-me só mais uma coisa - o Ruben olhava-me de uma forma que estava a desconcentrar-me, talvez pelos seus olhos espelharem sinceridade - porquê que no dia que nos reencontramos naquele bar reagiste daquela forma? Foste um autêntico filha da mãe para não dizer outra coisa...
- Fui? Engraçado só te respondi no mesmo tom de provocação... Mariana o problema não foi o que disse ou fiz mas sim o facto de pensares que irias encontrar o mesmo Ruben que tinhas deixado em Lisboa anos atrás... Reagi daquela forma porque foi a única que encontrei para proteger-me, apesar de querer muito estar novamente contigo também tinha noção que se o fizesse o mais provável era magoar-me.
- Porquê que tivemos de ser tão complicados?! Perdemos anos...
- Não penso assim - olhei-o sem entender o que queria dizer - amor se passamos por isto tudo talvez tenha sido porque precisámos de crescer separados para agora dar-mos valor ao sentimento que nos une, afinal loucos como somos talvez se fossemos pelo caminho “normal” aquele em que iniciássemos um namoro na adolescencia hoje não estaríamos aqui porque não teríamos a maturidade que temos, não iríamos dar valor ao que construimos porque simplesmente não saberíamos o que é não ter nada e desejar tudo.
- Ohh mas ainda hoje somos tão imaturos...
- Achas?
- Não acho... tenho a certeza! Ruben se tivéssemos aprendido alguma coisa com estes anos de ausência não nos teríamos divorciado à primeira contrariedade, não teríamos deixado a gravidez da Maria interferir na nossa vida e muito menos teria deixado que viesses para Braga sozinho...
- Pois... talvez tenhamos errado se virmos as cenas por esse prisma  mas se olhares para o resto verás que crescemos... onde é que está aquela Mari que só queria sexo? Onde está a miúda que via nos rapazes objectos de prazer? Onde está aquela que enchia a boca para dizer “Casar e filhos nem pensar” Mas principalmente onde está aquela mulher que ao inicio fugiu de mim porque tinha noção que o sentimento que nos une é demasiado forte e que por ter medo de se magoar preferiu fugir?
- Isso não invalida tudo o que falei... a verdade é que fomos dois putos ao recusarmos lutar pelo nosso casamento.
- Amor só não somos casados no papel porque realmente fomos putos e mais uma vez imaturos mas não digas que não lutamos, isso não é verdade, tanto que não é que hoje estamos aqui e vamos ser pais, Mariana sempre falaste que o casamento não é mais que um contrato...
- Pois... mas falhamos.
- Queres casar de novo, é isso? - baixei o olhar - Amor... Mariana não é vergonha admitires que mudaste de opinião e se for realmente importante para ti oficializarmos a nossa relação então terei todo o gosto de o fazer mas se o fizermos desta vez não será como dois fugitivos - olhei-o - amor se assinarmos novamente os papeis terá que ser algo feito com cabeça tronco e membros, primeiro porque quero, segundo porque as nossas famílias nunca nos perdoariam se voltássemos a casar sem a presença deles e terceiro porque nós merecemos de uma vez por todas algo dito “normal”, por isso pensa e se quiseres casar são estas as condições.
E agora o que dirá a Mariana?
Aceitará ela as condições do Ruben?
E se aceitar para quando será o casamento?
E o que dirá o Sr. Manuel...

terça-feira, 5 de março de 2013

072 - "Desapareçam os dois daqui já!"

(João)
Depois de deixar Portugal tinha certeza de que teria de fazer algo com a Maria afinal a ideia de que estava a engordar não a abandonava e sempre que falávamos ao telefone ela repetia de uma forma que era possível perceber o quão desagradada com a situação ela se sentia.
Poucos dias depois acabei por voltar a Portugal e a Norte já que o jogo da Selecção era em Guimarães.
Já estava a chegar ao fim do dia, já tínhamos mesmo jantado quando a Maria me liga e eu apanho um valente justo assim que ela me diz estar no hospital, acabei por relaxar um pouco  quando me explicou que afinal era a Mariana a paciente e não ela, embora tenha ficado com uma missão complicada em mãos, avisar o Ruben.
Fui até ao “salão de jogos” onde o pessoal já estava agarrado aos comandos num campeonato de PES, o Ruben jogava como sempre concentradissimo apenas falando para insultar o adversário ou os próprios jogadores, tive que interrompê-lo e quando lhe contei o que se passava tal como esperava alem de não reagir muito bem a primeira coisa que falou foi em ir ter com a Mariana, entendi-o perfeitamente já que assim que a Maria me disse que estava mo hospital pensei no mesmo.
Assim que ele saiu para o quarto eu fui avisar o Mister, quando cheguei ao hall  do Hotel onde estavam também o João aproveitei e avisei ambos
- Desculpem interromper-vos, mas...
- Não, não podes ir a Lisboa babar a barriga da Maria - disse o João, de quem fui colega em Braga, a rir
- Não era isso que ia pedir, ou melhor não para mim... a Mariana, mulher do Ruben, ela está grávida também... ainda poucas pessoas sabem, mas está e foi internada há pouco tempo... em principio foi uma quebra de tenção, mas ainda não sabem os efeitos no bebé e o Ruben quer ir ter com ela...
- Agora? Ele deve estar nervoso não? - o Paulo tentava perceber como estava o Ruben
- Sim agora ele deve querer meter-se no carro e ir directo... está em pânico mesmo...
- A Mariana e a Maria são primas não é? - acenei afirmativamente - então vais com ele!
- Posso? Eu não queria abusar...
- Desapareçam os dois daqui já! - já me estava a afastar quando - João depois dá noticias!
Fui de imediato procurá-lo e encontrei-o a sair do quarto
- Vamos? 
- Vamos?! - ele olhou-me admirado
- Sim... o mister disse para ir contigo até porque não vais conduzir nessa pilha de nervos!
Ele ainda bufou qualquer coisa que ignorei metemos-nos no carro e seguimos para Lisboa sem paragens e com poucas conversas o Ruben não estava para ai voltado e apenas o momento em  que falou com a Maria o deixou um pouco mais calmo.
Assim que paramos no parque da clinica
-  Puto agora respira fundo e entra com calma a Mariana deve estar toda trocada e se tu entras acelerado...
- Eu sei... eu sei...
Claro que falar com ele ou com uma parede foi o mesmo, ele entrou lançado e de imediato teve  autorização para entrar no quarto enquanto eu ainda  chegava à sala de espera onde encontrei o “tio Jorge” este homem tem uma sorte com as sobrinhas...
- Boa noite!
- Boa noite... oh João o que é que vocês os dois fazem aqui?!
- O Mister Paulo autorizou o Ruben a vir e eu vim de ama... já têm noticias?
- Não nada, pode ser que agora com a entrada do Ruben a Maria e a minha cunhada saiam... - assim que acabou de falar a Maria aparece
- João!- deu-me um beijo rápido e fiz-lhe uma festa na barriga
- A tua prima como está?
- Foi só uma quebra de tenção - falou mais para o tio que para mim e depois sim voltou a atenção - e tu que fazes aqui?
- Vim tomar conta do louco!- deu uma gargalhada
- A fome e a vontade de comer... lindo!
- Olha lá por fome... já comeste?
- Não - falou enquanto revirava os olhos
- vamos?... 
- Tio nós vamos comer qualquer coisa, não vale a pena ficar cá...
- Eu também vou andando qualquer noticia avisa
- Fica descansado - despedimos-nos do Jorge e comecei a caminhar com a Maria na direcção do carro dela - vieram como? 
- No carro do Ruben
- Ficam quanto tempo?
- Depende do Ruben, mas tenho de ligar para cima
- Então vamos! A noite passas cá né?
- Sim, vou ligar ao Mister 
Liguei para cima a avisar como estavam as coisas e o Ruben foi  dispensado do jogo e eu terei de voltar até ao inicio da tarde, de imediato arranjei voo para o Porto na hora de almoço o que me permite passar o resto da noite e a manhã com a Maria. Jantamos calmamente em casa das MM’s e depois acabamos por passar a noite a trocar miminhos e a matar saudades. Ficamos a saber que a Mariana teria alta no dia seguinte e por isso adormecemos calmamente.

(Maria)
Depois do susto com a minha prima tinha acabado por ser compensada com a presença do João, acordei com uma enorme barulheira e cheiro a torradas e de imediato segui para a cozinha
- Bom dia!
- João é de madrugada o que é que  estás  a fazer?
- São quase 8h
- Eu hoje só entro às 9:30... ainda posso dormir mais uns minutinhos...
- Vais trabalhar? Para o escritório?
- Não hoje vou passar o dia sentada  na varanda a contar os carro que passam na ponte!
- Deixa-te de ironias... - deu-me um beijo rápido - tás a ver Bruno?! Isto é uma prova do excelente humor matinal da mamã! Acostuma-te!
- Piada... - refilei pegando uma das torradas com excelente aspecto
- Vês como fiz bem... come e cala-te... mas vais mesmo trabalhar? Podias ficar em casa esta manhã...
- Poder podia... mas dá-me um bom motivo!
- EU! - gargalhei
- Isso é suposto convencer-me?
- E não convence?
- Humm... nem por isso - falei a rir
- Bruno! Acorda bebé! Diz lá para a mãe ficar em casa para irmos passear os três!
- Ah se é para passear a coisa muda de figura... e qual é o itenerário?
- Veste-te rápido e depois vês...
- Podias dizer antes para eu saber o que visto...
- Vai já... já!
Percebi que não saberia nada antes e por isso resolvi vestir-me de forma confortável

- Amor sabes que estamos em Fevereiro e está frio? - perguntou-me assim que me viu
- Sei... mas já não me serve nada!
- Essa conversa outra vez?
- É verdade João!
- Calma... falamos disso depois quando não tiveres tão stressada... mas a sorte é que vamos para um local quente...
- E que local é esse?
- Já vês!
Saímos e ele sem me dizer nada tirou-me a chaves das mãos e seguimos para destinjo incerto.
Quando dei por mim estava enfiada numa loja de puericultura e roupa pré-mamã
- O que viemos aqui fazer João?!
- Várias coisas mas a primeira vais mesmo perder o tempo que quiseres contigo! Tou farto da birra da roupa! - olhei-o capaz de o matar - e nem me olhes assim andas armada em parva porque resolveste que a tua barriga tem de caber na roupa que usas normalmente! Amor o Bruno tá a crescer é normal que a tua barriga cresça e por isso tens de vestir coisas mais largas... em vez de deixares de comer e ficares a martirizar-te por a roupa não te servir... 
- Oh tás a ver até tu achas que ando um farrapo... 
- Maria tu estás é a ser casmurra e nem sei porquê! Agora que com o frio que está não vais andar com vestidos assim não vais! Deixa-te lá de birras!
- Eu não me apetece comprar nada... fica tudo apertado e feia... pareço sempre um cachalote fora de agua!
- Maria!
- Pronto eu vou dar um olhinho pela loja.- e tal como prometido dei a volta à loja e comprei imensa coisa, desde moveis a roupara para o Guilherme e ainda alguns acessórios como sacos de fraldas, babetes e chupetas - e pronto por hoje está... estou cansada
- Nem penses!
- Pronto está bem...
Enquanto o João foi até ao carro levar tudo o que já tinha comprado lá segui até à secção de pronto a vestir e onde acabei por me perder. Percebi assim que peguei na segunda peça de roupa que estava a sentir-me mal porque durante o inicio da gravidez e com a total ausência, forçada por mim, do João tinha decidido que  não iria comprar nada afinal não tinha motivos para “me arranjar” e com as mudanças ainda não tinha alterado esta decisão na minha “cabeça” até aquele momento.
- Ainda demoras?
- Comecei agora!
- Maria estás à 45 minutos de roda dos cabides e já viste tudo!
- 45?! 
- Para quem não queria..
- Oh... 
- Que  cara é essa?
- É que tenho de ir experimentar tudo!
- Oh Maria... - falou a bufar
- Acordas-te o monstro! Mas preciso da tua ajuda!
- Da minha para quê?
- Para vestir e despir isto tudo!- vi-o sorrir - Deixa de ser perverso que é só para ser mais rápido!
- Eu vi logo... quando a esmola é muita o santo desconfia...
Só consegui rir-me da cara de enorme frete que ele fazia, mas lá acabei por provar todas as roupas e escolher as que realmente acabei por comprar para no fim comermos alguma coisa
- Levas-me ao aeroporto?
- Não!
- Não?
- Tenho de passar em casa, arrumar tudo e fazer a minha mala
- Desculpa?
- Olha eu tinha tudo pronto, mas se comprei roupas novas agora tenho de trocar e tu esperas quietinho que ainda temos duas horas para o avião!
- Tás a querer dizer que também vens?
- EI!! Finalmente chegaste lá!
-  Adoro-te!
- E eu a ti, mas agora vamos lá rápido!
Acabamos por fazer o que tinha planeado num instante fui a casa tratei da mala e segui viagem com o João já que iria assistir ao jogo no estádio.
Chegados a Guimarães o João voltou para estágio e eu aproveitei para tratar de alguns assuntos de trabalho que tinha de resolver a Norte, aliás esse era realmente o motivo que me levava lá, apenas juntei o útil ao agradável.

(Ruben)
Deixei a Mariana com a mãe e fui até casa, ainda passei pelo SPA para dar um beijinho à minha mãe e um abraço ao Mauro que estranharam de imediato a minha presença em Lisboa.
- Filho! O que se passou? - perguntou assim que deu pela minha presença na entrada do SPA.
- Bom dia - dei-lhe dois beijinhos - o mano?
- Está no escritório...
- Então venha comigo para não estar a repetir duas vezes!
- Mas passou-se alguma coisa?
Não respondi e assim que o Mauro nos deu permissão para entrar, cumprimentei-o e sentei-me numa das cadeiras.
- Puto, o que estás aqui a fazer? Não devias estar em Guimarães com a selecção?
- Pois... - hesitei por não saber se deveria contar toda a verdade ou omitir a parte da gravidez - devia mas estou em Lisboa desde ontem à noite - olharam-me preocupados - a Mariana foi parar ao hospital e eu vim para cá assim que fui informado.
- Mas é grave?
- Não... foi só um susto.
- Um susto?! Filho, o que é que não estás a contar? - baixei o olhar
- Mãe não faça muitas perguntas... agora está tudo bem e é o que interessa, só vim cá porque é provável que a minha ausência na concentração da selecção seja notada e não queria que ficassem a saber pelos jornais...
- Quando é que regressas a Braga? Ou ainda vais para Guimarães?
- Já informei que não vou ao jogo, daqui vou directo a Braga até porque a Mariana vai já comigo.
- Como assim? - olhei para o Mauro.
- Ah... com isto tudo esqueci-me de vos avisar mas a Mariana vai viver comigo.
- Mas...
- Sim Mauro sei que pode ser temporário mas neste momento é o que temos e vamos aproveitar cada dia, se daqui a uns meses tiver que regressar a Lisboa assim será.
- Filho... - olhei para a minha mãe - qual é mesmo o verdadeiro motivo para terem decidido isso agora quando deveria ter sido há um ano? - não respondi e por isso - Ruben o que é que vocês estão a tramar desta vez?
- Nada... só queremos estar juntos!
- Da última vez que andaram aos mistérios descobrimos que casaram para meses depois nos avisares que já se tinham divorciado e um mês depois já estavam novamente juntos, sinceramente começo a não vos entender!
- Mãe...
- Mãe nada! Ruben nunca nos escondreste nada e ultimamente parece que o fazes constantemente - baixei o olhar - sei que se amam e acredita que não tenho nada contra muito pelo contrário, sempre gostei muito da Mariana mesmo com todos os seus “porquês” e de muitas vezes achar que abusava em certo tipo de atitudes, sempre soube que era dela que gostavas, sentimento que apesar de tentares nunca conseguiste esquecer e que por isso quando se reencontraram cresceu ainda mais, se se amam só posso desejar que sejam felizes mas espero que não te esqueças dos valores que tanto eu como o teu pai te ensinamos, Ruben Filipe a família é o que temos de mais sagrado e nós sempre te mostramos isso, cresceste com os teus pais divorciados mas sempre unidos para o vosso bem por isso não te admito que de um momento para o outro te afastes assim, não sem uma explicação lógica!
- Desculpe se a desiludi mas você sabe bem que este último ano foi complicado...
- Isso não é desculpa! Ainda mais quando nós sempre te apoiamos, achas que gostei de saber que o meu filho casou e nem pude ir ao seu casamento, mesmo este tendo sido algo do mais simples que pode haver? Achas que como mãe gostei de saber que se divorciaram por uma estupidez? Achas que foi fácil ver-te no estado em que andaste enquanto não fizeram as pazes? Ruben, só quero perceber o que se passa contigo, não eras assim, sempre partilhaste connosco o que te atormentava, onde anda aquele rapaz que se aconselhava com a mãe ou com o pai quando tinha alguma decisão a tomar? Onde anda aquele menino que tudo fazia para não deixar os pais preocupados?
- Desculpe... sei que não tenho sido propriamente o filho que estava habituada, eu próprio não me reconheço às vezes - suspirei - mas acredito que agora vai voltar tudo ao normal, pelo menos assim espero...
- Podes começar a contar o motivo pelo qual a Mariana resolveu mudar-se para Braga.
- Resumindo - olhei para a minha mãe e depois para o Mauro - além dela andar a sentir-se sozinha e de isso estar a prejudicar o seu trabalho, ainda há outro motivo que nos fez tomar a decisão - voltei a olhá-los - e foi por isso que vim a Lisboa assim que soube que estava no hospital - foi impossível não sorri ao pensar que serei pai daqui a uns meses - a Mariana está grávida...
- Ãh?! Mas mano tu não querias!
- Aconteceu...
- Ou seja a Mariana fez de propósito!
- Não! - olharam-me - A culpa ou melhor o descuido foi dos dois...
- Puto fica-te bem defenderes a Mari mas confessa lá que esse descuido foi forçado - olhei-o - mano da última vez que falámos sobre o assunto e não foi assim há tanto tempo estavas mais do que decidido a esperar mais uns meses antes de iniciarem os treinos nesse sentido...
- Sei o que falei mas também sei o que fiz e garanto que se a Mariana engravidou foi porque facilitei, sabia perfeitamente o risco que estava a correr quando não usei a devida protecção porque se há coisa que a Mariana nunca escondeu foi o facto de ter deixado a pílula, até porque discutiu esse assunto comigo antes de tomar a decisão por isso não a posso culpar por ter engravidado, aliás já bem basta a Mari achar que a culpa é só dela...
- Filho - olhei para a minha mãe - estás a querer dizer que a Mari não está feliz com a novidade?
- Feliz está mas teve medo que fosse disparatar com ela por ter engravidado, afinal já tivemos tantas discussões sobre esse assunto.
- E tu? Como estás a lidar com a novidade?
- Oh mano - suspirei enquanto sorria - opa estou... nem sei, dizer que estou feliz é pouco para descrever o que senti quando a Mariana confirmou que aqueles dois riscos significam que o resultado do teste é positivo - a minha mãe gargalhou acompanhada pelo Mauro - ohh parem lá de gozar, a sério é indescritível a sensação que tenho sempre que olho para a barriga dela, saber que está ali - hesitei por um lado queria dizer que há a probabilidade de serem gémeos mas por outro ainda é tão recente que optei por não mencionar - o resultado do nosso amor e da noite em que fizemos as pazes é algo único, a vocês nunca neguei a vontade de ser pai mas sempre o disse que só seria se sentisse que tinha encontrado a pessoa certa para ser a mãe dos meus filhos e essa pessoa sempre foi a Mari, só não sabia se algum dia ia acontecer...
A conversa ainda durou uns minutos e depois de receber as felicitações por esta nova etapa e de ter pedido para não divulgarem a notícia fui até ao apartamento da Mariana e quando já caminhava para a porta do prédio.
- Ruben - virei-me ao ouvir o meu nome e vi o Sr. Manuel a aproximar-se
- Você?
- A Mariana está em casa? - olhei-o incrédulo.
- Está mas como é óbvio você não se vai aproximar dela!
- Não és ninguém para impedir-me!
- Aí é que você se engana mas não vou estar a perder o meu tempo a bater boca consigo, a Mariana está à minha espera para regressarmos a Braga.
- Preciso falar primeiro com a minha filha...
- Você não precisa de nada, primeiro porque a Mariana não o quer ver nem pintado de ouro, segundo porque mesmo que quisesse não deixava uma vez que a sua filha não se pode enervar e terceiro você foi o responsável por ter apanhado um dos maiores sustos que um homem pode apanhar por isso lamento mas só conseguirá aproximar-se dela passando por cima de mim ou então no dia que a Mariana queira que isso aconteça! Agora se não for muito incomodo desapareça das nossas vidas porque já fez estragos suficientes!
- Só quero uns minutos - olhei-o - Ruben até podes ouvir o que tenho para dizer mas não me leves a Mariana para Braga sem ter a oportunidade de falar com ela, sei que tens todos os motivos para duvidar de mim, mas só quero entender-me com a minha filha.
- Desculpe mas não acredito... não quando já vi e ouvi por diversas vezes a forma como tratou a Mariana, aliás basta recuarmos umas horas atrás... foi você o responsável por a Mariana ter ido parar ao hospital é bom que nunca se esqueça disso porque garanto que não vou esquecer!
- Entende que foi preciso vê-la desmaiada mas principalmente estar na clínica sem saber uma única notícia da minha filha para ter percebido o quanto errei, mas tive medo por ela, não queria que se magoasse e fui eu próprio a magoá-la mas como pai peço-te que me deixes falar com ela...
- Lamento mas não vai entrar! Quanto muito aviso a Mariana que está aqui e se ela o quiser receber tudo bem mas duvido porque a sua filha está cansada de ser maltratada por si e agora mais do que nunca precisa de sossego e garanto-lhe que por mim terá, nem que para isso tenha que a afastar de si!
O Sr. Manuel ainda insistiu em entrar comigo mas não lhe permiti tal coisa, entrei no prédio e fechei-lhe a porta na cara, subi de elevador e quando entrei em casa percebi que a mãe tentava convencê-la a contar ao pai sobre a gravidez.
- Amor - beijei-a e levei a mão à sua barriga - como é que estão?
- Cheios de saudades tuas - sorri ao ouvi-la - tinhas que demorar tanto? - refilou.
- Desculpa mas passei pelo SPA antes de vir para cá - olhou-me - sim contei da gravidez à minha mãe e ao Mauro, amor desculpa mas tinha que lhes explicar o porquê que deixei a concentração da selecção, até porque não ia deixá-los saberem pela comunicação social...
- Fizeste bem - sorriu - mas o que é que eles disseram?
- Ficaram contentes por nós mas depois falas com eles até porque tens lá em baixo à entrada do prédio o teu pai - olhou-me surpreendida - amor ele quer falar contigo e sinceramente já lhe disse que por mim não se aproxima de ti mas também sei que não tenho esse direito por isso se o quiseres receber... - a Mariana interrompeu-me.
- Quero ir mas é para Braga! E quanto mais depressa melhor! Desse senhor quero distância - olhou para a mãe - desculpe mas prefiro nem vê-lo, pelas razões que já lhe disse - encolheu os ombros - mãe sei que estou a magoá-la com a minha atitude mas neste momento não consigo ter forças para falar com o pai.
- Tens a certeza?! Amor o teu pai pareceu preocupado e apesar de não me ter convencido completamente...
- Por isso mesmo - olhei-a - Ruben prefiro não arriscar, até porque quem já passou tanto mês sem lhe falar passa mais nove pelo menos... quando o bebé nascer logo penso no assunto, até lá qualquer assunto que envolva o Sr. Manuel está encerrado.
A sua mãe ainda insistiu mas acabou por se despedir de nós e sair, pedi-lhe para avisar o seu marido que a filha, tal como eu esperava, não o quis receber.
Os minutos seguintes foram para dar mimo à Mariana mas também para colocar as suas malas no carro de forma a seguirmos para Braga o quanto antes. Ainda assim a Mari pediu para pararmos no escritório da Gesti para que pudesse falar com o tio e assim o fizemos.
- Olhem só quem são eles - sorrimos para o Jorge - não devias estar a descansar?
- Eish... menos! Tio sei que tenho de descansar mas ainda não é ao ponto de não poder sair da cama, além disso precisava mesmo de falar consigo antes de seguir para Braga.
- Sendo assim vamos até à minha sala - falou uma vez que estávamos na recepção - tens aí nessa pasta - apontou para uma pasta que tinha em cima da mesa - tudo o que precisas para iniciares o trabalho - olhei para a Mariana
- Tio... é mesmo sobre isso que preciso falar consigo.
- Não vais aceitar?
- Vou mas há um pequeno detalhe - a Mariana deu-me a mão, entendi que estava com algum receio da reação do tio - vou ter que ficar algum tempo de baixa...
- Baixa? Mas afinal o que se passa contigo?
- Nada de grave - olhou-me e sorriu - e que não passe daqui a mais ou menos nove meses...
- Estás grávida?
- Sim... vem aí mais um Mendes Amorim
O Jorge que recebeu a novidade com um sorriso no rosto e deu-nos os parabéns, ainda ficamos uns minutos à conversa com ele mas acabamos por seguir para Braga.
A viagem foi calma até porque a Mariana acabou por adormecer e só acordou quando a despertei com bastantes beijinhos, lógico que rabujou mas aquilo passou-lhe quando se deitou e voltou a adormecer. Ainda pensei em desfazer-lhe as malas mas isso ainda a acordava e por isso deixei-me ficar pela sala.
Como irá correr o jogo?
E os próximos tempos em Braga?

quarta-feira, 20 de fevereiro de 2013

071 - "Ninguém morreu mas... "

Ruben
Para quem passou quinze dias na melhor companhia possível passar uma semana sozinho tornou-se num tédio, a sorte foi o jogo ser fora e por isso ocupou-me o tempo no fim-de-semana.
Acordei na segunda-feira animado porque de tarde seguia para a concentração da selecção, felizmente tenho sido chamado constantemente à selecção o que me tem agradado imenso.
A tarde foi animada e deu para partilhar momentos divertidos com o pessoal, durante o jantar as conversas paralelas foram mais que muitas e no fim seguimos todos para a sala convívio.
***
Hoje o dia foi preenchido com os treinos e palestras ainda assim antes de jantar tive um bocado a falar com a Mariana, ela ainda não tinha dado a novidade da sua mudança aos pais e por isso as coisas andavam calmas.
No fim do jantar o Miguel desafiou-me para jogar uma partida de PES mas foi quando já ganhava que o João apareceu.
- Mano preciso falar contigo!
- Eish... É caso de vida ou morte que nem posso acabar o jogo? - brinquei
- Ninguém morreu mas... - olhei-o e no mesmo momento interrompi o jogo
- O que se passa?
- Vem comigo! - o pessoal olhou-nos com alguma curiosidade
- Diz! Estás a deixar-me preocupado - falei assim que nos afastamos deles.
- Mano não passou de um susto mas a Mari está no hospital...
- É o QUÊ? - não devo ter falado mas sim gritado porque o pessoal olhou todo - Como assim no hospital? - pode parecer exagero mas senti-me a perder as forças e só não caí porque o João agarrou-me.
- Ruben a única coisa que sei é que a Mariana desmaiou mas está tudo bem com ambos.
- Só acredito vendo! - falei e logo depois saí disparado da sala de convívio, fui falar com os responsáveis da selecção para saber se poderia ir até Lisboa, expliquei a situação e tendo em conta que o jogo é particular deram-me autorização para ausentar-me da concentração.
Fui directo ao quarto e quando abri a porta para sair.
- Vamos? - o João questionou-me
- Vamos?!
- Sim... o mister disse para ir contigo até porque não vais conduzir nessa pilha de nervos!
Não barafustei porque a única coisa que queria era chegar o quanto antes a Lisboa, pelo caminho ainda tentei ligar à Mari mas quem atendeu foi a Maria, inteirei-me do estado da Mariana ainda assim não consegui serenar, tinha a sensação que a Maria não estava a contar tudo.
Mariana
A última coisa que me lembro é de ter aquela sensação que o chão nos foge debaixo dos pés para acordar depois num sítio que não me era familiar, olhei em volta e percebi tratar-se de um hospital, algo que assustou-me imenso e só consegui pensar no meu bebé, levei imediatamente as mãos à barriga numa tentativa desesperada de perceber se estava tudo bem, lógico que fiquei na mesma, o que só contribuiu para a minha ansiedade aumentar, felizmente uma enfermeira apareceu.
- O meu bebé? - perguntei imediatamente e a senhora já de uma certa idade aproximou-se e muito serenamente disse.
- Tenha calma, vou já chamar a Dra. Ana - só quando ouvi o nome da minha amiga é que percebi que estava na clínica e não num hospital.
A enfermeira saiu e uns minutos depois a Ana entrou.
- O bebé? - ela sorriu.
- Mariana agora já está tudo bem mas quando chegaste vinhas com os valores da pressão arterial alterados e foi isso que provocou o desmaio, tens que ser seguida e hoje ficas em observação.
- Quem é que veio comigo?
- Os teus pais - olhei-a surpreendida - Sim o teu pai está lá fora e por sinal bastante preocupado.
- Não quero saber dele! Contaste da gravidez?
- Não... mas avisei a Maria e também está lá fora.
- O que é que contaste a eles?
- A verdade, que foi a pressão que alterou mas ocultei a gravidez, não sabia se já tinhas contado por isso achei melhor não mencionar a vinda do neto deles.
- Obrigada e por acaso sabes se avisaram o Ruben?
- Sim... e segundo o que a Maria falou já vem a caminho que ninguém o consegui segurar em Guimarães - sei que não devia mas sorri ao tomar conhecimento de tal, afinal estava mesmo a precisar do Ruben do meu lado - mas agora isso não interessa, tens de descansar e cuidar de ti...
A Ana deu-me um sermão enorme e depois ainda falou todos os cuidados que tenho de ter, tentei memorizar tudo o que falou mas confesso que foi informação demais para o meu estado de cansaço, algo que a Ana deve ter percebido porque acabou por abrandar o ritmo e dizer que quando estivesse melhor que falávamos, pedi-lhe que deixasse a minha mãe e a Maria entrar para que as duas serenarem, pois conheço-as e sei que só vendo com os seus olhos é que acalmavam.
- Filha!! - a minha mãe abraçou-me com alguma força.
- Hey tenha calma ou ainda me sufoca!
- Desculpa mas a mãe ficou tão preocupada quando percebeu que tinhas desmaiado.
- Pois... - baixei o olhar - Desculpe a confusão que arranjei - respirei profundamente - a mãe sabe que a adoro mas não dá mais... aquele a quem você chama de marido está cada vez mais intragável...
- Filha é o teu pai! - repreendeu-me e só não continuou porque
- Isso agora não interessa nada - a Maria aproximou-se de mim - Tia a Ana foi bem explícita quando nos disse que a Mari não se pode enervar - a minha prima agarrou-me a mão - o Ruben deve estar a chegar, avisei o João e assim que lhe contou já ninguém conseguiu segurá-lo em Guimarães.
- Oh não posso negar que estou contente por estar a chegar - sorri - sei que não devia mas...
- Sim... sei como é que isso funciona - a Maria sorriu e tal cumplicidade fez despertar a curiosidade da minha mãe.
- Posso saber o que é que vocês estão a esconder?
- Nada mãezinha... nada!
- Mariana! - olhei-a - Isto está tudo muito estranho, primeiro desmaias sem razão aparente, sim que não engoli totalmente o que a Ana falou, ainda para mais depois de ela ter feito questão de te acompanhar sempre desde que chegamos à clínica e que nos viu a entrar, agora estás a falar por meias palavras com a tua prima, filha estás...
A minha mãe não conseguiu concluir o raciocínio porque a entrada do Ruben a impediu.
Ruben
Nunca antes uma viagem de Guimarães a Lisboa tinha levado tanto tempo, parecia que as horas não passavam mas assim que o João estacionou o carro saí imediatamente e só parei na recepção para saber notícias da Mari seguindo depois para o seu quarto, entrei e encontrei-a acordada na companhia da sua mãe e da Maria.
- Amor - fui até junto da cama e naquele momento pouco me importei se a sua mãe já sabia ou não e por isso levei a mão à sua barriga, algo que a fez sorrir - pregaste-me um susto...
- Desculpa... - falou já com as lágrimas nos olhos.
- Hey... já passou, vocês estão bem e é  que interessa - voltei a unir as nossas bocas para depois depositar alguns beijinhos na sua barriga, ainda invisível, algo que a fez gargalhar.
- Amor - olhei-a - pára que estás a fazer-me cócegas - sorriu e fez-me sinal para que me deitasse ao seu lado, algo que fiz sem hesitar - parece que afugentamos a Maria e a minha mãe.
- A única coisa que me interessa agora é saber como é que estão, amor quando o João falou que estavas aqui senti-me... - hesitei por não saber qual a melhor palavra para descrever aquilo que tinha sentido mas foi a Mariana que a encontrou.
- Desesperado, angustiado, com medo e a sentiste a vida a escapar-te por entre os dedos...
- Sim foi isso...
- Pois... foi o que também senti quando acordei aqui nesta cama - suspirou - tive tanto medo, só de pensar até me dá calafrios... Ruben desculpa...
- Não tens culpa...
- Tenho - olhei-a - isto só aconteceu porque fui a casa dos meus pais - a Mariana desviou o olhar - queria despedir-me da minha mãe e avisá-los da mudança mas como deves imaginar a conversa depressa deu lugar à discussão e... - calou-se e percebi que não estava a contar tudo.
- Amor o que é que o teu pai fez? - a Mariana agarrou-me no braço com uma força tremenda como se tivesse medo que fugisse e só percebi o motivo quando a ouvi a contar o resto - ele o quê? Bateu-te? - tentei levantar-me mas a força com que a Mari agarrava-me era de tal ordem tanta que não consegui.
- Ruben peço-te por tudo ignora, só quero esquecer que tenho pai, aquele nem merece o ar que respira, doeu tanto ouvi-lo a dizer o que disse à minha mãe só porque ela se meteu no meio da nossa discussão, a sério por mim não irá conhecer nunca o neto ou neta!
Confesso que arrepiei-me ao ouvi-la, a Mariana pela primeira vez destilava ódio, sim pode parecer uma palavra muito forte mas acho que era isso que ela sentia naquele momento pelo pai, tentei ainda demovê-la de tal convicção mas desisti no momento que percebi que só a estava a enervar por isso mudei de assunto.
- E a tua mãe como reagiu à novidade de ser avó? - é incrível como a Mariana em segundos deixou de estar tensa para sorrir assim que ouviu-me a perguntar algo tão simples.
- Não sei... amor não lhe cheguei a dizer.
- Não?!
- Não... quando a minha mãe ia para perguntar se estou grávida entraste...
- Ah... pois então deve ter percebido que está certa - sorrimos e continuamos a conversar até sermos interrompidos pela Ana que entrou no quarto.
- Estás bem? - perguntou-me depois de cumprimentar-me.
- Sim... foi só um susto.
- É... a Mariana tem de ter juízo mas acredito que aprendeu a lição e agora tenho um miminho para os dois - sorriu - Mari senta a bunda nessa cadeira que vamos passear um pouco - olhámo-la desconfiados - vá não façam essa cara a menos que não queiram ver o que vos tenho para mostrar e acreditem vão amar - gargalhou.
- Vou fazer uma ecografia, é isso? - a Mariana perguntou visivelmente animada.
- É... quero mostrar-vos algo - a Ana sorria como se não fosse normal para ela ver bebés todos os dias.
Ajudei a Mariana a sentar-se na cadeira de rodas e depois empurrei-a sempre seguindo a Ana, entramos num gabinete que percebi ser o dela, a Mariana deitou-se na maca e assim que a Ana lhe colocou o gel na barriga o meu amor queixou-se que estava frio, o que levou a nossa amiga a rir e a comentar que as grávidas são todas iguais, afinal queixam-se sempre do mesmo.
A Mariana agarrou-me na mão e puxou-me ainda mais para si, estava com os olhos colados no monitor na tentativa de descobrir o nosso bebé no meio daquela mancha negra mas a tarefa revelou-se complicada, afinal para mim aquilo era tudo igual e só consegui identificar o nosso bebé porque a Ana parou assim que o encontrou.
Olhei para a Mariana e encontrei-a tal como eu estava, emocionada por ver o nosso feijãozinho, apertei-lhe ligeiramente a mão o que fez com que olhasse, sorri-lhe e como resposta tive um verdadeiro puxão na camisola, obrigando-me a baixar e assim que o fiz beijou-me com uma intensidade tremenda.
- É o nosso feijãozinho - suspirou - a sensação de vê-lo é... é... olha nem sei! - gargalhei acompanhado pela Ana afinal ver a Mari sem resposta é algo quase inédito.
- Sim... é o vosso bebé mas... - olhamo-la imediatamente enquanto movimentava a sonda.
- Está tudo bem? - perguntei ao ver a Ana a fixar muito o monitor.
- Sim está mas...
- Mas o quê? Não nos assustes... - pedi ao ver a Mari a ficar ansiosa.
- Ainda é cedo para ter a certeza mas parece que o feijãozinho - usou o termo que a Mari tinha usado momentos antes para se referir ao nosso bebé o que nos levou a sorrir - pode não estar sozinho...
- ÃH? - reagi de imediato já a Mariana estagnou ao ouvir a Ana - Gémeos?
- Sim...
- Ana não brinques!!
- Ruben não estou a brincar muito pelo contrário só não vos dou a confirmação porque de facto ainda é muito cedo para isso, além de que não dá para ver bem mas que parece lá isso parece, já para não falar que vocês quando as fazem fazem-nas sempre em grande... - gozou com a nossa cara mas nem lhe respondi até porque a Mari ainda não tinha reagido.
- Amor... Mariana estás bem?
- Bem? Ruben Filipe eu posso ter dois monstrinhos dentro de mim e tu tens o descaramento de perguntar se estou BEM? - não aguentei e desmanchei-me a rir talvez por não esperar tal reação da Mariana.
- Eish tem lá calma... isso só prova que sou muito BOM... - brinquei mas ouvi o que não esperava.
- Que és bom já sei eu e Lisboa inteira, agora que és tão produtivo é que desconhecia!
- Talvez porque só com uma certa monstrinha é que quis experimentar a minha produtividade - a Mariana olhou-me furiosa mas confesso que até estava a adorar a ideia de serem dois.
- Olha vai chamar monstrinha à senhora sua mãe! - bufou - Ana tu diz-me que estás só a gozar com a nossa cara!!!
- Mariana tem calma - a Ana falava enquanto limpava o gel da barriga da Mari - como falei ainda é muito cedo para se ter a certeza mas existe essa probabilidade, mas agora o que interessa é cuidarmos de ti, seja um ou mais, tens de seguir com o mesmo cuidado todas as indicações que te dei e como sei que não ouviste nem metade vou informar o Ruben para que ande atento, agora não descontes nele o medo que estás a sentir por achares que não serás capaz de ser mãe de gémeos, isso que estás a sentir é normal mas acredita que passa...
- Lógico que passa daqui a nove meses e isto porque não sou burra caso contrário teria que aguentar quase um ano - controlei-me para não rir - vou virar elefanta para ter dois monstrinhos...
- Se tiveres que ser elefanta para teres os nossos filhos então ficas desde já a saber que serás a elefanta mais resmungona que conheço mas também a única que é capaz de fazer com que me sinta vivo por isso deixa lá o drama para o momento em que eles nascerem e começarem a chorar ao mesmo tempo - olhou-me - amor a sério seja menino ou menina, um ou dois, o que interessa é que corra tudo bem, não penses em demasia que não adianta nada.
- Lógico para ti é tudo muito fácil... não és tu que os vais carregar durante meses!
- Olha sabes que mais?! Posso não levar com o peso da barriga mas levo com a mãe deles que é bem pior, irra que feitio o teu! Não querias um filho? Então fiz-te a vontade mesmo não sabendo que a estava a fazer por isso agora não te queixes!
A Mariana olhou-me e depois de bufar lá se calou o que permitiu que a Ana falasse tudo o que achou ser importante para esta nova fase, tentei assimilar o máximo que consegui e depois fomos finalmente para o quarto da Mari.
- Amor... Mariana queres falar? - perguntei assim que ficamos a sós.
- Não! Quero dormir, tenho sono!
- Ok... - a Mariana acomodou-se - posso pelo menos ficar contigo? - olhou-me
- Não podes! DEVES ou achas que isto é só fazê-los??
- Juro que ainda não consegui perceber se estás furiosa porque são gémeos ou porque ainda não temos a confirmação - sentou-se na cama a olhar-me.
- Tenho medo - baixou o olhar - e se for gémeos?
- O que tem? - aproximei-me da cama onde acabei por sentar-me do seu lado.
- Oh Ruben quero ser mãe mas tipo não era suposto ser aos pares...
- Não penses nisso agora até porque a serem gémeos não serás a primeira nem a última mulher a passar por isso e se estás com medo das possíveis complicações... amor complicações aparecem tanto em gravidezes só de um ou de mais mas não podemos estar a pensar nisso, independentemente de ser ou não gémeos vamos amá-los de igual forma, ok pode ser complicado porque são dois a crescer dentro de ti e depois dois a berrarem com fome ou porque tem a fralda suja mas também serão dois no momento do primeiro sorriso, da primeira papa, da primeira palavra,..., amor será sempre tudo a dobrar mas as coisas boas vão prevalecer às menos boas e no fundo o que interessa é que nos amamos e que vamos ser pais.
A Mariana não respondeu, simplesmente se deitou e pediu mimo, fiz-lhe a vontade e acabei por deitar-me ao seu lado, adormecemos os dois e só acordei de manhã com a Ana a chamar.
- Podemos falar?
- Sim - segui a Ana até ao corredor e vi-a a fechar a porta do quarto.
- Ruben não quis tocar no assunto ontem porque a Mari já estava ansiosa e nervosa demais mas agora mais do que nunca precisa de sossego, o que a fez desmaiar pode trazes sérios riscos tanto para ela como para os bebés caso não seja controlado, desculpa se te estou a assustar mas como vossa amiga mas principalmente como médica da Mari tenho a obrigação de o fazer.
- O que é que posso fazer?
- Dá-lhe muito mimo e evita bate bocas como o que tiveram ontem quando vos disse que podem ser gémeos, mas principalmente evita os encontros com o Sr. Manuel afinal e ao contrário do que a Mariana tenta passar isso mexe muito com ela e nesta fase pode ser prejudicial, fora isto é andares atento mas sem estares constantemente em cima, dá-lhe espaço mas tenta controlá-la para não abusar por exemplo no ritmo do trabalho...
- Pode começar já a trabalhar?
- Poder pode mas vou metê-la de baixa pelo menos até confirmarmos se são ou não gémeos e para ela descansar um pouco mas isso não será solução a Mariana vai stressar se ficar fechada em casa, prefiro que mantenha o ritmo dela desde que isso não prejudique a gravidez, entendes?
- Sim...
- Não estás muito convicto disso!
- Oh... se a Mari não fosse tão casmurra seria mais fácil - contei-lhe a “discussão” que tivemos sobre a possível mudança de casa.
- Tem calma... Ruben uma coisa de cada vez, agora concentra-te nela e deixa o resto para depois, a Mariana não vai aceitar ficar em Lisboa por isso terão que decidir o que for melhor para todos, ela vai acabar por ceder.
- Espero bem que sim!
Continuamos a conversar mas acabei por regressar para o quarto não fosse a Mari acordar. O tempo que levou até despertar serviu para pensar em tudo o que a Ana me disse e assim que já estávamos no carro a caminho do apartamento da Mariana resolvi perguntar como queria fazer as cenas.
- Ruben a única coisa que não tem discussão possível é a minha ida para Braga, o resto... vê-se depois, tenho que falar com o meu tio por causa do trabalho mas sinceramente agora estou sem cabeça - a Mariana ficou sentida quando a Ana lhe comunicou que tinha que ficar de repouso nos próximos dias, isso para ela é o mesmo que cortar as asas a um pássaro ainda assim não a ouvi reclamar e isso sim deixa-me reticente, a Mari não é de acatar calada as ordens que não lhe agradam...
Chegamos ao seu apartamento e quando entramos encontramos a sua mãe à nossa espera, confirmamos a gravidez mas ocultamos a possibilidade de serem gémeos, apesar de não termos ainda falado no assunto, sabia que a Mariana não queria falar disso pelo menos até termos a certeza.
Aproveitei que a mãe da Mari se ofereceu para ficar a fazer-lhe companhia para ir até ao meu apartamento, queria tomar um duche e mudar de roupa, antes de regressarmos a Braga.
Mariana
Quando a Ana insinuou que podem ser gémeos senti um medo tremendo, foi de tal forma que nem consigo explicar, sinto que não estou preparada para ser mãe de dois bebés e isso fez-me reagir de uma forma negativa. A sorte é que o Ruben ao contrário de mim reagiu bem, pelo menos sei que tenho nele o apoio que preciso para enfrentar esta nova fase das nossas vidas.
Mas se acordei ainda a mentalizar-me para esta realidade depressa tive que tomar conhecimento de outra, a de ficar de repouso pelo menos nas próximas semanas, percebi que não adianta barafustar e por isso acatei a ordem expressa da Ana para não abusar nos esforços, até porque não quero que nada aconteça com os meus bebés.
Da clínica fomos directos para o meu apartamento e quando lá chegamos encontramos a minha mãe à nossa espera, confirmei a gravidez mas não lhe disse da possibilidade de serem gémeos, acabei por ficar na sua companhia quando o Ruben foi até ao seu apartamento.
- Agora que estamos sozinhas - olhei-a - engravidaste com o consentimento do Ruben ou...
- A gravidez não foi planeada se é isso que quer saber!
- Estás de quanto tempo?
- Ainda é recente... aliás tem mesmo que ser tendo em conta que nós passamos uma fase conturbada...
- E como é que estão agora?
- Bem...
- Filha estás a contar tudo? É que tenho a sensação que estás a esconder alguma coisa!
- Está tudo bem mas a verdade é que não era suposto ser assim... quero muito ser mãe no entanto a novidade apanhou os dois desprevenidos, acho que ainda estou a mentalizar-me que serei mãe daqui a uns meses.
- Esta mudança para Braga é por causa da gravidez?
- Não, a verdade é que a gravidez é só mais um motivo para querer estar do lado do Ruben mas antes de saber que estou gravida já tinha decidido mudar-me para lá, aliás o tio antes de ir de férias deu-me a possibilidade de ir para os escritórios da Gesti no Porto e por falar no tio - suspirei - tenho que lhe contar da gravidez até porque isso vai alterar os planos...
- E ao teu pai - olhei-a - não vais contar?
- Não!
- Filha...
- Mãe o pai não quer saber da minha felicidade por isso não vou estar a enervar-me mais, neste momento tenho de pensar em mim e nos meus - olhou-me imediatamente - no meu filho - corrigi mas mãe é mãe e...
- Mariana estás grávida de gémeos?
- Há essa possibilidade - a minha mãe sorriu - a Ana ontem disse-nos que podem ser gémeos mas ainda é muito cedo para se ter a confirmação por isso não comente com ninguém, só o Ruben é que sabe e agora você...
- E ele? - sorriu - Está feliz? Já que pelo que vejo não pareces muito animada com essa possibilidade...
- Oh mãe - baixei o olhar - estou feliz mas também cheia de medo que aconteça alguma coisa... não sei explicar mas a ideia de ter dois bebés assusta.
- Tem calma... cada coisa a seu tempo preocupa-te agora em cuidares de ti para que o meu ou os meus netos venham com saúde - abraçou-me e como soube bem aquele abraço da minha mãe - mas acho que devias contar ao teu pai - afastei-me imediatamente e saí mesmo da sala, lógico que a minha mãe seguiu-me e quando já estava na cozinha a preparar uma sandes para comer - filha não vais conseguir esconder a gravidez e apesar de tudo o teu pai merece saber por vocês e não por terceiros.
- Esse senhor desde que teve a confirmação que estava com o Ruben nunca aceitou o nosso relacionamento por isso não vai ser agora que irá aceitar o neto e sinceramente neste momento não quero pensar nisso.
- Não digas isso, Mariana o teu pai ama-te, tem um feitio especial tal como tens o teu, aliás nisso são muito parecidos mas não há dia nenhum que não o apanhe a olhar para as tuas fotos, ele é orgulhoso e custa-lhe admitir que afinal errou no julgamento que fez do Ruben e do vosso namoro, filha eu própria ao início também fiquei de pé atrás, vocês conheceram-se quando ainda eram adolescentes e sempre tiveram os vossos conflitos, o Ruben nessa altura era um menino enquanto tu - olhou-me - já tinhas a “escola” toda, sim filha, sempre soube que não eras a menina ingénua que o teu pai pensava, nunca te disse mas cheguei a apanhar por exemplo preservativos por entre as tuas coisa, logo aquilo não estaria lá se não os andasses já a usar - gargalhei ao ver o ar de incomodada da minha mãe a falar de tal assunto - não sei onde está a piada!!
- Oh mãe não acha que agora já vem um bocado tarde? Agora é que vem falar disso? Mas sim tem razão... o Ruben do meu lado era mesmo um menino - sorri ao recordar - mas se voltasse ao passado fazia tudo igual, não me arrependo de ter iniciado a minha vida sexual com a idade que o fiz, compreendo que para si deve ser estranho mas fi-lo consciente do que estava a fazer, se quer saber foi com o Paulo, aquele rapaz que o pai tanto adorava e em que tinha plena confiança, até lhe digo mais, fizemo-lo mesmo debaixo das “barbas” do pai já que foi lá em casa e depois do Paulo - olhei-a - perdi a conta aos rapazes com quem fui para a cama, nunca fui santa nenhuma e se houve altura que acalmei foi nos meses seguintes a ter conheci o Ruben, ele no seu jeito de menino envergonhado conseguiu conquistar-me sem me ter apercebido, para mim era só um amigo mas a verdade é que deixei-me da vida que levava para passar a partilhar momentos com o Ruben, momentos esses que nem beijos tinham, as tardes passadas ao lado dele em que simplesmente víamos TV ou em que íamos ao cinema ou ainda as que ficava simplesmente sentada a vê-lo jogar, satisfaziam-me de tal forma que deixei de ter a mesma necessidade que tinha em procurar outros tipos de divertimentos, no entanto não me deixei completamente dessa vida, simplesmente acalmei um pouco, porque pelo menos nas horas que estava ao lado do Ruben se havia coisa que não existia entre nós eram momentos desses, é verdade que em certas alturas houve uns beijos mas foram todos “forçados” - a minha mãe sorriu e interrompeu-me mesmo.
- Mas vocês nunca...
- Oh mãe...
- O que foi? Sim, estou curiosa para conhecer um pouco mais da vossa história e se já confessaste que o fizeste com outros também podes falar do Ruben ou não?
- Poder posso mas...
- Tu não me digas que foste a primeira com quem ele - gargalhei ao ouvi-la.
- Sim - sorri - fui - suspirei - e se quer que lhe diga é talvez de todas a vez que melhor me recordo, oh mãe o que senti foi único... nós não namorávamos e até à noite do baile a única coisa que tinha acontecido foi uns beijos que lhe roubei e que sempre o deixavam atrapalhado mas na noite do baile de finalistas, o Ruben surpreendeu-me e... olhe aconteceu mas foi uma vez sem exemplo, aliás o Ruben acabou por se afastar completamente de mim nas semanas seguintes e só na noite e dia anterior a ir para Faro é que voltamos a falar, despedimo-nos com a “promessa” de nos voltarmos a ver mas isso não aconteceu durante os anos seguintes, perdi mesmo o contacto com o Ruben, o que sabia dele era através do Fábio mas a informação chegava sempre filtrada, tanto que não sabia que o Ruben se tinha tornado tão “livre”, foi uma surpresa para mim quando o voltei a reencontrar e tive noção da pessoa em que se tinha tornado, cheguei a sentir-me culpada e ao mesmo tempo triste pela volta que a nossa amizade tinha dado, as primeiras semanas depois do meu regresso a Lisboa não foram fáceis, andávamos constantemente a discutir, só porque não queríamos admitir tudo o que sentimos quando nos reencontramos, tudo aquilo que andamos anos a tentar esquecer veio ao de cima assim que nos vimos.
Acabamos por conseguir falar da noite que nos marcou para sempre e acordamos não tocar mais no assunto, recuperamos aos poucos a amizade que sempre existiu entre nós e com as horas de convívio foi impossível não cair em tentação, voltamos a nos envolver fisicamente e depois da primeira vez outras vieram, andamos numa de estarmos juntos quando nos apetecia mas sem nunca admitirmos para os outros que isso andava a acontecer, os meses foram passando e o sentimento que sempre nos uniu aumentou tanto que deixamos de ter forças para lutarmos contra ele, não foi fácil ao inicio porque os fantasmas do passado assombravam mas depois de muitas discussões decidimos assumir que nos amamos e iniciamos uma relação, foi nessa altura que vos contei, o meu namoro com o Ruben começou oficialmente durante as férias em Faro e quando cheguei a Lisboa contei-vos na primeira oportunidade que tive, ou seja nos anos do tio Jorge, mas o pai reagiu da forma que sabemos e nunca se preocupou em tentar perceber o nosso lado ou mesmo a dar o benefício da dúvida, ele crucificou o Ruben porque antes de mim andou a saltitar mas a verdade é que se andou nessa vida a culpa foi minha, foi para tentar esquecer-me que o Ruben rodou tanto...
- Mariana, filha, não julgues o teu pai dessa forma, acredita em mim, ele tem motivos para reagir assim - olhei-a - e para ser sincera apesar de nunca ter ido contra o teu namoro a ideia também não me agradou, também tive receio que a vossa história acabasse mal, vocês têm os dois um passado conturbado...
- Mas pelo menos você deu-nos o benefício da dúvida...
- Filha, não consigo condenar o teu pai por não ter dado esse benefício... Mariana dá uma oportunidade ao teu pai, ele ama-te tanto...
- Não! Agora tenho de pensar em mim e no meu bebé!
- Bebé que tem o direito de conhecer o avô materno! Filha, conta ao teu pai que estás grávida, por favor!
- Mãe, não insista! Se quiser contar-lhe não a vou impedir mas da minha boca não vai saber...
A minha mãe ainda tentou insistir mas o regresso do Ruben colocou fim à conversa, acabamos por nos despedir e quando a minha mãe saiu, o meu amor colocou algumas das minhas malas no meu carro e rumamos até Braga, uma vez que o João já tinha levado o carro do Ruben para Guimarães, uma vez que regressou para jogar pela selecção.
Como e quando saberá o Sr. Manuel que vai ser avô?
E a novidade de poderem ser gémeos será confirmada?
Que impacto terá isto na vida do casal?