Ruben
As horas passaram
e como a Mari continuava a dormir fui preparar o nosso jantar, fi-lo com todo o
amor e carinho mas o certo é que quando entrou na cozinha também saiu
disparada, fui atrás de si e depressa percebi o motivo.
A Mariana
olhou-me, o que foi suficiente para rodar sobre os meus calcanhares e meter-me
a milhas, naquele momento estava a rogar-me uma praga e antes que lhe desse os
cinco minutos deixei-a sozinha, fui até à cozinha e preparei-lhe um chá com
umas torradas, apesar de estar enjoada já há muita hora que não come nada e
isso não pode ser.
Coloquei a
chávena do chá bem com o prato com as duas torradas num tabuleiro e fui à sua
procura, encontrei-a deitada na cama e só quando a chamei é que abriu os olhos.
- SAI! Deixa-me sozinha e leva contigo essa
porcaria que só o cheiro enjoa!
- Amor...
- Amor o catano! Deixa-me sozinha e de
preferência longe de cheiros que me agoniam!
- Mas tens de comer...
- Ruben - respirou
profundamente - sei que tenho de comer
mas percebe que agora não desce nada... Ruben só de pensar em comia... -
fechou os olhos - a sério dá-me uns
minutos e pode ser que isto passe...
- Ok...
Saí do quarto e
levei o tabuleiro apesar de contrariado resolvi facilitar, até porque se está
enjoada só tenho que esperar que passe e depois sim mais que não seja obrigo-a
a comer.
Os minutos passaram
e como não havia meio da Mari aparecer, fui espreitá-la, acabei por entrar no
quarto e sentei-me na cama a olhá-la.
- O que queres?
- Saber se estás melhor...
- Mais ou menos - suspirou - desculpa a forma
como te falei à pouco...
- Shiuu - fiz-lhe uma
carícia no rosto - já passou -
encolhi os ombros - percebi que só
falaste daquela forma porque estás enjoada mas caramba preocupo-me contigo, é
normal que tente tomar conta de ti afinal vocês - levei a mão à sua barriga
- são o bem mais precioso que tenho
- sorriu.
- Anda cá... - chegou-se mais para o centro da cama de forma a ter espaço para
deitar-me do seu lado - sabes -
olhou-me - às vezes dou comigo a pensar
o que seria de mim se o meu tio não tivesse oferecido trabalho à Maria,
provavelmente não teríamos regressado a Lisboa e hoje continuávamos
afastados...
- Onde queres chegar com esta conversa?
- A algo tão simples como já não sei viver sem
ti... és chato, teimoso, embirrento, mimado mas também amoroso, cuidadoso,
amigo e principalmente és a minha vida!!! A minha e a do bebé...
- Amor porquê que falas sempre no singular? - olhou-me - A Ana disse que...
- Sei bem o que a Ana disse mas também sei que
falou que ainda era muito cedo para ter certeza e como tal prefiro a ideia de
que se enganou...
- E se viermos a ter a confirmação que serão
dois...
- Neste momento prefiro pensar que é só um... e
agora pára com esta conversa que só me deixa ansiosa.
- Ok, mas se forem dois já não há volta a dar por
isso teremos que falar na mesma...
A Mariana não
respondeu, ainda ficamos um bocado deitados mas acabei por levantar-me para
jantar, o meu amor ficou na cama e quando já estava a arrumar a cozinha depois
de comer, apareceu.
- Precisas de alguma coisa? - perguntei ao vê-la a sentar-se e a apoiar os
cotovelos na mesa.
- Podes fazer-me um chá e umas torradas... que as
outras já estão frias - falou nada
convicta o que deu para perceber que estava a fazer o esforço para meter alguma
coisa no estômago, algo que deixou-me contente pelo menos não a posso acusar de
não tentar.
- Trato já disso... se quiseres volta para a cama
que depois levo.
- Prefiro comer aqui... estou farta de estar
deitada.
A Mariana esperou
que fizesse as torradas e depois de comer fomos até ao sofá onde passamos as
horas seguintes, vimos o jogo da selecção e por sinal vimo-los a perder, como
também percebemos que a minha ausência tinha sido notada mas justificaram como
assuntos urgentes mas do foro pessoal e como tal autorizaram a minha saída.
- Os teus colegas perceberam o motivo pelo qual
desapareceste? - olhei para a
Mariana.
- Não sei... quando recebi a notícia estava na
sala de convívio e confesso que não fui discreto mas também como saí à pressa
assim que me foi dada autorização não tive tempo para falar com ninguém e hoje
mantive o telemóvel desligado por isso duvido que estejam a par do verdadeiro
motivo.
- Ah... ok.
- Mas porquê?
- Curiosidade...
- Sim... Amor o que é que te está a incomodar?
- Não é nada...
- Pois... e agora a verdade! - olhou-me - Mariana conheço-te por isso sei que algo está a incomodar-te.
- Posso pedir-te uma cena?
- Podes!
- Não contes sobre a gravidez a mais ninguém - olhei-a - Ruben
sei que fui a primeira a contar ao Fábio e ao João mas - calou-se por uns
segundos, segundos esses que foram suficientes para perceber o motivo do seu
pedido.
- Amor não penses nisso - suspirou - o teu desmaio foi algo isolado, só tens de seguir à risca todas as
indicações da Ana e não vai acontecer nada aos bebés.
- Tenho medo...
- Hey... não te vou mentir e dizer que não tenho
receio mas não podemos estar constantemente a pensar nisso.
- E se... - não a deixei continuar a falar
- Mariana não quero ouvir-te e muito menos ver-te
assim desanimada, desmaiaste porque enervaste-te e o teu corpo reagiu mas agora
aqui ninguém te vai incomodar, somos só nós os dois, amor só tens de descansar
e vais ver que corre tudo bem.
- E se não correr tudo bem?!
- Vai correr tudo bem mas se por um azar muito
grande isso não acontecer vou estar na mesma do teu lado e juntos ultrapassamos
tudo mas agora não quero que penses nisso... amor não gosto de ver-te assim
desanimada.
- Não era isto que tinha em mente... Ruben nunca
pensei ter que deixar de trabalhar tão cedo, ter que deixar de fazer a minha
vida normalmente, caramba gravidez não é doença mas...
- Mas nada! Mariana não és a primeira e não serás
a última grávida a ficar de repouso desde o início da gravidez, lembra-te que
agora já não és só tu, neste momento tens pelo menos uma vida a crescer dentro
de ti mas sabes muito bem que pode ser duas por isso é bom que tenhas juízo e
por muito que te custe ficar parada vais ficar e aproveita estes dias para
encascares nessa cabeça dura que podes estar grávida de gémeos porque quanto
mais depressa te mentalizares para essa realidade melhor - a Mariana já estava com as lágrimas nos olhos
- sei que estou a ser bruto mas caramba
achas que para mim está a ser fácil?? Amor estou muito feliz por estares
grávida mas não te esqueças que nenhum dos dois estava minimamente preparado
para esta realidade, para mim também está a ser uma fase de reajustamento, a
partir do momento que engravidaste as nossas vidas mudaram, agora só nos temos
que adaptar e quanto mais depressa melhor. E já que estamos a falar disso
lembra-te que se para ti foi complicado acordares naquele quarto sem saberes
nada do nosso bebé para mim não foi muito melhor, estava a quilómetros de
distância de ti, a sensação de impotência foi enorme, já para não falar do medo
que tive em vos perder, só descansei quando entrei naquele quarto e vi com os
meus olhos que estavam ambos bem por isso Mariana faz o que tiveres que fazer
mas cumpre todas as indicações da Ana para bem da minha sanidade mental mas
acima de tudo para o teu bem e dos nossos filhos.
- Vou deitar-me!
Saiu da sala sem
dizer mais nada, sei que fui demasiado duro mas tive que o ser, a Mariana tem
que perceber que agora já não é só ela e quanto mais depressa se mentalizar que
terá que abdicar dela para o bem de todos melhor. Fiquei pela sala a fazer
tempo para que reflectisse pois tinha consciência que se entrasse no quarto
naquele momento que a Mari começaria a disparatar, algo que nesta altura é
completamente dispensável.
Mariana
Ouvir o Ruben a
dizer aquilo chateou-me, não por estar a ser bruto mas porque no fundo sei que
tem razão em tudo o que disse e foi isso que aborreceu-me. Fui para o quarto a
matutar nas palavras dele e desejosa que viesse atrás de mim algo que não
aconteceu, afinal conhece-me tão bem que por ter consciência que se viesse tipo
cãozinho atrás da dona que levaria uma rebocada não veio algo que neste momento
sinto raiva.
Passei vários
minutos sozinha e por ver que o Ruben nunca mais vinha acabei por meter o rabo
entre as pernas e fui chamá-lo.
- Não vens para a cama? - olhou-me
- Já te passou a birra?
- Ohh
- Ohhh nada! Mariana só consigo ir descansado
para os treinos e jogos se souber que terás cuidado...
- Fica tranquilo - aproximei-me dele e sentei-me no seu colo - vou cumprir na integra todas as indicações
da Ana por mais que isso custe vou segui-las - beijei-o - mas prepara-te porque não vai ser fácil
- sorriu - vou andar insuportável...
- Insuportável já andas - olhei-o - aliás
sempre foste insuportável - gargalhou talvez por ver a minha cara de amuo -
amor lembraste do quanto me fizeste a
vida negra?
- Ãh?!
- Ao início... quando nos conhecemos - gargalhei ao recordar o dia em que fomos
apresentados.
- Porquê que te lembraste disso agora?
- Porque quando penso no passado o presente
parece-me surreal, naquele dia saí de casa a pensar que seria só mais um jogo
para afinal ser o dia que mudou toda a minha vida, aquele beijo roubado
despertou em mim um conjunto de sensações que nunca havia experimentado - interrompi-o.
- Espera aí... estás a querer dizer que nunca
tinhas beijado ninguém? - sorriu - Que fui a tua primeira experiência a nível
de sexo sempre soube agora...
- Não! Não foste a primeira que beijei mas foste
a primeira que conseguiu transmitir-me algo mais... não posso dizer que foi
esse beijo que levou-me a amar-te porque não foi, mas talvez tenha sido o que
me fez perceber o que os rapazes falavam e que nunca tinha sentido antes.
- Posso fazer-te uma pergunta?
- Diz!
- O que te fez avançar naquela noite?
- Sinceramente? - abanei a cabeça em sinal afirmativo - não sei - suspirou - talvez
o desespero...
- Ãh?
- Sim... desespero de saber que estava a
perder-te - encolheu os ombros - a verdade é que aquela noite significava o
fim de um ciclo, sabia que não tinhas concorrido para a faculdade em Lisboa,
logo dentro de meses ias embora e sabendo o quanto eras despegada das coisas e
mesmo das pessoas muito dificilmente teria oportunidade de mais tarde dizer-te
que gostava de ti, ao contrário do que pensas não foi aquela noite que
despertou em mim a certeza que gostava de ti, essa já a tinha, não sei como aconteceu
mas a verdade é que quando dei conta já gostava de ti, sempre me trataste de
igual para igual, nunca ligaste ao rótulo de envergonhado que tinha, para ti
era só mais um amigo que ao contrário dos outros não andava atrás de tudo o que
era rabo de saia, foste das poucas pessoas que sempre respeitou a minha
escolha, é verdade que ao início fizeste de tudo para envergonhares-me mas com
o tempo acabamos por nos tornar cumplices, entre nós deixou de haver
constrangimento, sempre que estava contigo sentia-me bem, mesmo quando te dava
a travadinha e te sentavas ao meu colo ou me cumprimentavas com um beijo no
canto dos meus lábios sentia-me bem, descontraído, livre… acho que sentia-me
simplesmente eu e depois com o passar dos meses fui percebendo que afinal eras
mais importante para mim do que pensava, doía ver-te com outros mas ao mesmo
tempo pensava que não era ninguém para impedir-te, afinal sabia que para ti
sexo era algo banal mas ao mesmo tempo algo de que sentias falta, por isso
andei meses a remoer se algum dia iria conseguir oferecer o que querias, levei
tempo demais a decidir e talvez tenha sido esse o meu erro, adiei durante meses
com medo que fosse gozado que quando consegui ter coragem para iniciar-me nesse
campo e percebi o que tinha perdido não consegui lidar com isso, ter a certeza
que por uma estúpidez minha te tinha perdido deixou-me lixado, a noite do baile
foi única não por ter sido a minha primeira vez mas sim por ter percebido que
afinal não te era indiferente.
- Como é que percebeste?
- Talvez pela forma como esperaste por mim…
Mariana naquele momento confesso que não percebi talvez por estar com a cabeça
a mil e preocupado em não falhar mas a verdade é que naquela noite não
procuraste a tua satisfação mas sim a minha - olhei-o surprrendida - não
faças essa cara… amor já te tinha ouvido falar de sexo com as raparigas por
isso tinha assim uma pequena ideia dos teus limites logo sei que não andei
perto... mas mesmo assim não te importaste, naquela noite fizeste-me sentir
único ao estares só preocupada em diminuíres ao máximo os meus nervos que como
deves calcular eram mais que muitos, isso fez-me perceber mais tarde que talvez
tivesse sido especial para ti também, mas quando percebi já era tarde ou pelo
menos sempre pensei que fosse, sabia que tinhas regressado à vida que levavas
antes de te ter conhecido e isso fez-me colocar uma pedra sobre o assunto, foi
a partir desse momento que decidi gozar a vida, aproveitar ao máximo o facto de
ter raparigas atrás de mim para tentar esquecer-te mas a verdade é que nunca
consegui e isso magoava-me porque fizesse o que fizesse no fim era em ti que
pensava, eras tu que desejava, era contigo que queria estar a experimentar todo
um conjunto de sensações, emoções e mesmo posições, era contigo que queria ter
evoluído nesse sentido e não com uma rapariga diferente todas as noites, andei
meses nesta vida até que acabei por cair na estupidez de escolher a Ana como
vitima... sei que a magoei e muito, hoje arrependo-me mas naquela altura não
pensei o quanto as minhas atitudes podiam magoá-la.
- E apesar disso tudo nunca pensaste em
procurar-me?
- Pensei... pensei tanta vez nisso mas coragem
para o fazer nunca tive.
- Porquê?!
- Oh Mariana porque não sabia o que iria
encontrar... não tinha a menor ideia se irias querer falar comigo mas
principalmente porque tinha medo...
- Medo?!
- Sim... medo... medo do nosso reencontro, medo
de não conseguir dizer-te o que queria, medo de te encontrar com alguém, só a
ideia que pudesses ter namorado assombrava-me, preferi ser cobarde do que
apanhar-te nos braços de outro... aí sim não me perdoaria nunca...
- Explica-me só mais uma coisa - o Ruben olhava-me de uma forma que estava a
desconcentrar-me, talvez pelos seus olhos espelharem sinceridade - porquê que no dia que nos reencontramos
naquele bar reagiste daquela forma? Foste um autêntico filha da mãe para não
dizer outra coisa...
- Fui? Engraçado só te respondi no mesmo tom de
provocação... Mariana o problema não foi o que disse ou fiz mas sim o facto de
pensares que irias encontrar o mesmo Ruben que tinhas deixado em Lisboa anos
atrás... Reagi daquela forma porque foi a única que encontrei para proteger-me,
apesar de querer muito estar novamente contigo também tinha noção que se o
fizesse o mais provável era magoar-me.
- Porquê que tivemos de ser tão complicados?!
Perdemos anos...
- Não penso assim - olhei-o sem entender o que queria dizer - amor se passamos por isto tudo talvez tenha
sido porque precisámos de crescer separados para agora dar-mos valor ao
sentimento que nos une, afinal loucos como somos talvez se fossemos pelo
caminho “normal” aquele em que iniciássemos um namoro na adolescencia hoje não
estaríamos aqui porque não teríamos a maturidade que temos, não iríamos dar
valor ao que construimos porque simplesmente não saberíamos o que é não ter
nada e desejar tudo.
- Ohh mas ainda hoje somos tão imaturos...
- Achas?
- Não acho... tenho a certeza! Ruben se
tivéssemos aprendido alguma coisa com estes anos de ausência não nos teríamos
divorciado à primeira contrariedade, não teríamos deixado a gravidez da Maria
interferir na nossa vida e muito menos teria deixado que viesses para Braga
sozinho...
- Pois... talvez tenhamos errado se virmos as
cenas por esse prisma mas se olhares
para o resto verás que crescemos... onde é que está aquela Mari que só queria
sexo? Onde está a miúda que via nos rapazes objectos de prazer? Onde está
aquela que enchia a boca para dizer “Casar
e filhos nem pensar” Mas principalmente onde está aquela mulher que ao
inicio fugiu de mim porque tinha noção que o sentimento que nos une é demasiado
forte e que por ter medo de se magoar preferiu fugir?
- Isso não invalida tudo o que falei... a verdade
é que fomos dois putos ao recusarmos lutar pelo nosso casamento.
- Amor só não somos casados no papel porque
realmente fomos putos e mais uma vez imaturos mas não digas que não lutamos,
isso não é verdade, tanto que não é que hoje estamos aqui e vamos ser pais,
Mariana sempre falaste que o casamento não é mais que um contrato...
- Pois... mas falhamos.
- Queres casar de novo, é isso? - baixei o olhar - Amor... Mariana não é vergonha admitires que mudaste de opinião e se
for realmente importante para ti oficializarmos a nossa relação então terei
todo o gosto de o fazer mas se o fizermos desta vez não será como dois
fugitivos - olhei-o - amor se
assinarmos novamente os papeis terá que ser algo feito com cabeça tronco e
membros, primeiro porque quero, segundo porque as nossas famílias nunca nos
perdoariam se voltássemos a casar sem a presença deles e terceiro porque nós
merecemos de uma vez por todas algo dito “normal”, por isso pensa e se quiseres
casar são estas as condições.
E agora o que dirá a Mariana?
Aceitará ela as condições do Ruben?
E se aceitar para quando será o casamento?
E o que dirá o Sr. Manuel...
