Ruben
Para quem passou
quinze dias na melhor companhia possível passar uma semana sozinho tornou-se
num tédio, a sorte foi o jogo ser fora e por isso ocupou-me o tempo no
fim-de-semana.
Acordei na
segunda-feira animado porque de tarde seguia para a concentração da selecção,
felizmente tenho sido chamado constantemente à selecção o que me tem agradado
imenso.
A tarde foi
animada e deu para partilhar momentos divertidos com o pessoal, durante o
jantar as conversas paralelas foram mais que muitas e no fim seguimos todos
para a sala convívio.
***
Hoje o dia foi
preenchido com os treinos e palestras ainda assim antes de jantar tive um
bocado a falar com a Mariana, ela ainda não tinha dado a novidade da sua
mudança aos pais e por isso as coisas andavam calmas.
No fim do jantar
o Miguel desafiou-me para jogar uma partida de PES mas foi quando já ganhava
que o João apareceu.
- Mano preciso falar contigo!
- Eish... É caso de vida ou morte que nem posso
acabar o jogo? - brinquei
- Ninguém morreu mas... - olhei-o e no mesmo momento interrompi o jogo
- O que se passa?
- Vem comigo! - o pessoal olhou-nos com alguma curiosidade
- Diz! Estás a deixar-me preocupado - falei assim que nos afastamos deles.
- Mano não passou de um susto mas a Mari está no
hospital...
- É o QUÊ? - não devo ter falado mas sim gritado porque o pessoal olhou todo - Como assim no hospital? - pode parecer
exagero mas senti-me a perder as forças e só não caí porque o João agarrou-me.
- Ruben a única coisa que sei é que a Mariana
desmaiou mas está tudo bem com ambos.
- Só acredito vendo! - falei e logo depois saí disparado da sala de
convívio, fui falar com os responsáveis da selecção para saber se poderia ir
até Lisboa, expliquei a situação e tendo em conta que o jogo é particular
deram-me autorização para ausentar-me da concentração.
Fui directo ao
quarto e quando abri a porta para sair.
- Vamos? - o João
questionou-me
- Vamos?!
- Sim... o mister disse para ir contigo até
porque não vais conduzir nessa pilha de nervos!
Não barafustei
porque a única coisa que queria era chegar o quanto antes a Lisboa, pelo
caminho ainda tentei ligar à Mari mas quem atendeu foi a Maria, inteirei-me do
estado da Mariana ainda assim não consegui serenar, tinha a sensação que a
Maria não estava a contar tudo.
Mariana
A última coisa
que me lembro é de ter aquela sensação que o chão nos foge debaixo dos pés para
acordar depois num sítio que não me era familiar, olhei em volta e percebi
tratar-se de um hospital, algo que assustou-me imenso e só consegui pensar no
meu bebé, levei imediatamente as mãos à barriga numa tentativa desesperada de
perceber se estava tudo bem, lógico que fiquei na mesma, o que só contribuiu
para a minha ansiedade aumentar, felizmente uma enfermeira apareceu.
- O meu bebé? - perguntei imediatamente e a senhora já de uma certa idade
aproximou-se e muito serenamente disse.
- Tenha calma, vou já chamar a Dra. Ana - só quando ouvi o nome da minha amiga é que
percebi que estava na clínica e não num hospital.
A enfermeira saiu
e uns minutos depois a Ana entrou.
- O bebé? - ela sorriu.
- Mariana agora já está tudo bem mas quando
chegaste vinhas com os valores da pressão arterial alterados e foi isso que
provocou o desmaio, tens que ser seguida e hoje ficas em observação.
- Quem é que veio comigo?
- Os teus pais - olhei-a surpreendida - Sim o
teu pai está lá fora e por sinal bastante preocupado.
- Não quero saber dele! Contaste da gravidez?
- Não... mas avisei a Maria e também está lá
fora.
- O que é que contaste a eles?
- A verdade, que foi a pressão que alterou mas
ocultei a gravidez, não sabia se já tinhas contado por isso achei melhor não
mencionar a vinda do neto deles.
- Obrigada e por acaso sabes se avisaram o Ruben?
- Sim... e segundo o que a Maria falou já vem a
caminho que ninguém o consegui segurar em Guimarães - sei que não devia mas sorri ao tomar
conhecimento de tal, afinal estava mesmo a precisar do Ruben do meu lado - mas agora isso não interessa, tens de
descansar e cuidar de ti...
A Ana deu-me um
sermão enorme e depois ainda falou todos os cuidados que tenho de ter, tentei
memorizar tudo o que falou mas confesso que foi informação demais para o meu
estado de cansaço, algo que a Ana deve ter percebido porque acabou por abrandar
o ritmo e dizer que quando estivesse melhor que falávamos, pedi-lhe que deixasse
a minha mãe e a Maria entrar para que as duas serenarem, pois conheço-as e sei
que só vendo com os seus olhos é que acalmavam.
- Filha!! - a minha mãe abraçou-me com alguma força.
- Hey tenha calma ou ainda me sufoca!
- Desculpa mas a mãe ficou tão preocupada quando
percebeu que tinhas desmaiado.
- Pois... - baixei o olhar - Desculpe a
confusão que arranjei - respirei profundamente - a mãe sabe que a adoro mas não dá mais... aquele a quem você chama de
marido está cada vez mais intragável...
- Filha é o teu pai! - repreendeu-me e só não continuou porque
- Isso agora não interessa nada - a Maria aproximou-se de mim - Tia a Ana foi bem explícita quando nos
disse que a Mari não se pode enervar - a minha prima agarrou-me a mão - o Ruben deve estar a chegar, avisei o João
e assim que lhe contou já ninguém conseguiu segurá-lo em Guimarães.
- Oh não posso negar que estou contente por estar
a chegar - sorri - sei que não devia mas...
- Sim... sei como é que isso funciona - a Maria sorriu e tal cumplicidade fez despertar
a curiosidade da minha mãe.
- Posso saber o que é que vocês estão a esconder?
- Nada mãezinha... nada!
- Mariana! - olhei-a - Isto está tudo
muito estranho, primeiro desmaias sem razão aparente, sim que não engoli
totalmente o que a Ana falou, ainda para mais depois de ela ter feito questão
de te acompanhar sempre desde que chegamos à clínica e que nos viu a entrar,
agora estás a falar por meias palavras com a tua prima, filha estás...
A minha mãe não
conseguiu concluir o raciocínio porque a entrada do Ruben a impediu.
Ruben
Nunca antes uma
viagem de Guimarães a Lisboa tinha levado tanto tempo, parecia que as horas não
passavam mas assim que o João estacionou o carro saí imediatamente e só parei
na recepção para saber notícias da Mari seguindo depois para o seu quarto,
entrei e encontrei-a acordada na companhia da sua mãe e da Maria.
- Amor - fui até junto
da cama e naquele momento pouco me importei se a sua mãe já sabia ou não e por
isso levei a mão à sua barriga, algo que a fez sorrir - pregaste-me um susto...
- Desculpa... - falou já com as lágrimas nos olhos.
- Hey... já passou, vocês estão bem e é que interessa - voltei a unir as nossas bocas para depois
depositar alguns beijinhos na sua barriga, ainda invisível, algo que a fez
gargalhar.
- Amor - olhei-a - pára que estás a fazer-me cócegas -
sorriu e fez-me sinal para que me deitasse ao seu lado, algo que fiz sem
hesitar - parece que afugentamos a Maria
e a minha mãe.
- A única coisa que me interessa agora é saber
como é que estão, amor quando o João falou que estavas aqui senti-me... - hesitei por não saber qual a melhor palavra
para descrever aquilo que tinha sentido mas foi a Mariana que a encontrou.
- Desesperado, angustiado, com medo e a sentiste
a vida a escapar-te por entre os dedos...
- Sim foi isso...
- Pois... foi o que também senti quando acordei
aqui nesta cama - suspirou - tive tanto medo, só de pensar até me dá
calafrios... Ruben desculpa...
- Não tens culpa...
- Tenho - olhei-a - isto só aconteceu porque fui a casa dos
meus pais - a Mariana desviou o olhar - queria despedir-me da minha mãe e avisá-los da mudança mas como deves
imaginar a conversa depressa deu lugar à discussão e... - calou-se e
percebi que não estava a contar tudo.
- Amor o que é que o teu pai fez? - a Mariana agarrou-me no braço com uma força
tremenda como se tivesse medo que fugisse e só percebi o motivo quando a ouvi a
contar o resto - ele o quê? Bateu-te?
- tentei levantar-me mas a força com que a Mari agarrava-me era de tal ordem
tanta que não consegui.
- Ruben peço-te por tudo ignora, só quero
esquecer que tenho pai, aquele nem merece o ar que respira, doeu tanto ouvi-lo
a dizer o que disse à minha mãe só porque ela se meteu no meio da nossa
discussão, a sério por mim não irá conhecer nunca o neto ou neta!
Confesso que
arrepiei-me ao ouvi-la, a Mariana pela primeira vez destilava ódio, sim pode
parecer uma palavra muito forte mas acho que era isso que ela sentia naquele
momento pelo pai, tentei ainda demovê-la de tal convicção mas desisti no momento
que percebi que só a estava a enervar por isso mudei de assunto.
- E a tua mãe como reagiu à novidade de ser avó? - é incrível como a Mariana em segundos deixou
de estar tensa para sorrir assim que ouviu-me a perguntar algo tão simples.
- Não sei... amor não lhe cheguei a dizer.
- Não?!
- Não... quando a minha mãe ia para perguntar se
estou grávida entraste...
- Ah... pois então deve ter percebido que está
certa - sorrimos e continuamos a conversar até
sermos interrompidos pela Ana que entrou no quarto.
- Estás bem? - perguntou-me depois de cumprimentar-me.
- Sim... foi só um susto.
- É... a Mariana tem de ter juízo mas acredito
que aprendeu a lição e agora tenho um miminho para os dois - sorriu - Mari
senta a bunda nessa cadeira que vamos passear um pouco - olhámo-la
desconfiados - vá não façam essa cara a
menos que não queiram ver o que vos tenho para mostrar e acreditem vão amar
- gargalhou.
- Vou fazer uma ecografia, é isso? - a Mariana perguntou visivelmente animada.
- É... quero mostrar-vos algo - a Ana sorria como se não fosse normal para ela
ver bebés todos os dias.
Ajudei a Mariana
a sentar-se na cadeira de rodas e depois empurrei-a sempre seguindo a Ana,
entramos num gabinete que percebi ser o dela, a Mariana deitou-se na maca e
assim que a Ana lhe colocou o gel na barriga o meu amor queixou-se que estava
frio, o que levou a nossa amiga a rir e a comentar que as grávidas são todas
iguais, afinal queixam-se sempre do mesmo.
A Mariana
agarrou-me na mão e puxou-me ainda mais para si, estava com os olhos colados no
monitor na tentativa de descobrir o nosso bebé no meio daquela mancha negra mas
a tarefa revelou-se complicada, afinal para mim aquilo era tudo igual e só
consegui identificar o nosso bebé porque a Ana parou assim que o encontrou.
Olhei para a
Mariana e encontrei-a tal como eu estava, emocionada por ver o nosso
feijãozinho, apertei-lhe ligeiramente a mão o que fez com que olhasse,
sorri-lhe e como resposta tive um verdadeiro puxão na camisola, obrigando-me a
baixar e assim que o fiz beijou-me com uma intensidade tremenda.
- É o nosso feijãozinho - suspirou - a
sensação de vê-lo é... é... olha nem sei! - gargalhei acompanhado pela Ana
afinal ver a Mari sem resposta é algo quase inédito.
- Sim... é o vosso bebé mas... - olhamo-la imediatamente enquanto movimentava a
sonda.
- Está tudo bem? - perguntei ao ver a Ana a fixar muito o
monitor.
- Sim está mas...
- Mas o quê? Não nos assustes... - pedi ao ver a Mari a ficar ansiosa.
- Ainda é cedo para ter a certeza mas parece que
o feijãozinho - usou o termo
que a Mari tinha usado momentos antes para se referir ao nosso bebé o que nos
levou a sorrir - pode não estar
sozinho...
- ÃH? - reagi de
imediato já a Mariana estagnou ao ouvir a Ana - Gémeos?
- Sim...
- Ana não brinques!!
- Ruben não estou a brincar muito pelo contrário
só não vos dou a confirmação porque de facto ainda é muito cedo para isso, além
de que não dá para ver bem mas que parece lá isso parece, já para não falar que
vocês quando as fazem fazem-nas sempre em grande... - gozou com a nossa cara mas nem lhe respondi
até porque a Mari ainda não tinha reagido.
- Amor... Mariana estás bem?
- Bem? Ruben Filipe eu posso ter dois monstrinhos
dentro de mim e tu tens o descaramento de perguntar se estou BEM? - não aguentei e desmanchei-me a rir talvez por
não esperar tal reação da Mariana.
- Eish tem lá calma... isso só prova que sou
muito BOM... - brinquei mas
ouvi o que não esperava.
- Que és bom já sei eu e Lisboa inteira, agora
que és tão produtivo é que desconhecia!
- Talvez porque só com uma certa monstrinha é que
quis experimentar a minha produtividade - a Mariana olhou-me furiosa mas confesso que até estava a adorar a
ideia de serem dois.
- Olha vai chamar monstrinha à senhora sua mãe! - bufou - Ana
tu diz-me que estás só a gozar com a nossa cara!!!
- Mariana tem calma - a Ana falava enquanto limpava o gel da barriga
da Mari - como falei ainda é muito cedo
para se ter a certeza mas existe essa probabilidade, mas agora o que interessa
é cuidarmos de ti, seja um ou mais, tens de seguir com o mesmo cuidado todas as
indicações que te dei e como sei que não ouviste nem metade vou informar o
Ruben para que ande atento, agora não descontes nele o medo que estás a sentir
por achares que não serás capaz de ser mãe de gémeos, isso que estás a sentir é
normal mas acredita que passa...
- Lógico que passa daqui a nove meses e isto
porque não sou burra caso contrário teria que aguentar quase um ano - controlei-me para não rir - vou virar elefanta para ter dois
monstrinhos...
- Se tiveres que ser elefanta para teres os
nossos filhos então ficas desde já a saber que serás a elefanta mais resmungona
que conheço mas também a única que é capaz de fazer com que me sinta vivo por
isso deixa lá o drama para o momento em que eles nascerem e começarem a chorar
ao mesmo tempo - olhou-me - amor a sério seja menino ou menina, um ou
dois, o que interessa é que corra tudo bem, não penses em demasia que não
adianta nada.
- Lógico para ti é tudo muito fácil... não és tu
que os vais carregar durante meses!
- Olha sabes que mais?! Posso não levar com o
peso da barriga mas levo com a mãe deles que é bem pior, irra que feitio o teu!
Não querias um filho? Então fiz-te a vontade mesmo não sabendo que a estava a
fazer por isso agora não te queixes!
A Mariana
olhou-me e depois de bufar lá se calou o que permitiu que a Ana falasse tudo o
que achou ser importante para esta nova fase, tentei assimilar o máximo que
consegui e depois fomos finalmente para o quarto da Mari.
- Amor... Mariana queres falar? - perguntei assim que ficamos a sós.
- Não! Quero dormir, tenho sono!
- Ok... - a Mariana
acomodou-se - posso pelo menos ficar
contigo? - olhou-me
- Não podes! DEVES ou achas que isto é só
fazê-los??
- Juro que ainda não consegui perceber se estás
furiosa porque são gémeos ou porque ainda não temos a confirmação - sentou-se na cama a olhar-me.
- Tenho medo - baixou o olhar - e se for
gémeos?
- O que tem? - aproximei-me da cama onde acabei por sentar-me do seu lado.
- Oh Ruben quero ser mãe mas tipo não era suposto
ser aos pares...
- Não penses nisso agora até porque a serem
gémeos não serás a primeira nem a última mulher a passar por isso e se estás
com medo das possíveis complicações... amor complicações aparecem tanto em
gravidezes só de um ou de mais mas não podemos estar a pensar nisso,
independentemente de ser ou não gémeos vamos amá-los de igual forma, ok pode
ser complicado porque são dois a crescer dentro de ti e depois dois a berrarem
com fome ou porque tem a fralda suja mas também serão dois no momento do
primeiro sorriso, da primeira papa, da primeira palavra,..., amor será sempre
tudo a dobrar mas as coisas boas vão prevalecer às menos boas e no fundo o que
interessa é que nos amamos e que vamos ser pais.
A Mariana não
respondeu, simplesmente se deitou e pediu mimo, fiz-lhe a vontade e acabei por
deitar-me ao seu lado, adormecemos os dois e só acordei de manhã com a Ana a
chamar.
- Podemos falar?
- Sim - segui a Ana
até ao corredor e vi-a a fechar a porta do quarto.
- Ruben não quis tocar no assunto ontem porque a
Mari já estava ansiosa e nervosa demais mas agora mais do que nunca precisa de
sossego, o que a fez desmaiar pode trazes sérios riscos tanto para ela como
para os bebés caso não seja controlado, desculpa se te estou a assustar mas
como vossa amiga mas principalmente como médica da Mari tenho a obrigação de o
fazer.
- O que é que posso fazer?
- Dá-lhe muito mimo e evita bate bocas como o que
tiveram ontem quando vos disse que podem ser gémeos, mas principalmente evita
os encontros com o Sr. Manuel afinal e ao contrário do que a Mariana tenta
passar isso mexe muito com ela e nesta fase pode ser prejudicial, fora isto é
andares atento mas sem estares constantemente em cima, dá-lhe espaço mas tenta
controlá-la para não abusar por exemplo no ritmo do trabalho...
- Pode começar já a trabalhar?
- Poder pode mas vou metê-la de baixa pelo menos
até confirmarmos se são ou não gémeos e para ela descansar um pouco mas isso
não será solução a Mariana vai stressar se ficar fechada em casa, prefiro que
mantenha o ritmo dela desde que isso não prejudique a gravidez, entendes?
- Sim...
- Não estás muito convicto disso!
- Oh... se a Mari não fosse tão casmurra seria
mais fácil - contei-lhe a
“discussão” que tivemos sobre a possível mudança de casa.
- Tem calma... Ruben uma coisa de cada vez, agora
concentra-te nela e deixa o resto para depois, a Mariana não vai aceitar ficar
em Lisboa por isso terão que decidir o que for melhor para todos, ela vai
acabar por ceder.
- Espero bem que sim!
Continuamos a
conversar mas acabei por regressar para o quarto não fosse a Mari acordar. O
tempo que levou até despertar serviu para pensar em tudo o que a Ana me disse e
assim que já estávamos no carro a caminho do apartamento da Mariana resolvi perguntar
como queria fazer as cenas.
- Ruben a única coisa que não tem discussão
possível é a minha ida para Braga, o resto... vê-se depois, tenho que falar com
o meu tio por causa do trabalho mas sinceramente agora estou sem cabeça - a Mariana ficou sentida quando a Ana lhe
comunicou que tinha que ficar de repouso nos próximos dias, isso para ela é o
mesmo que cortar as asas a um pássaro ainda assim não a ouvi reclamar e isso
sim deixa-me reticente, a Mari não é de acatar calada as ordens que não lhe agradam...
Chegamos ao seu
apartamento e quando entramos encontramos a sua mãe à nossa espera, confirmamos
a gravidez mas ocultamos a possibilidade de serem gémeos, apesar de não termos
ainda falado no assunto, sabia que a Mariana não queria falar disso pelo menos
até termos a certeza.
Aproveitei que a
mãe da Mari se ofereceu para ficar a fazer-lhe companhia para ir até ao meu
apartamento, queria tomar um duche e mudar de roupa, antes de regressarmos a
Braga.
Mariana
Quando a Ana
insinuou que podem ser gémeos senti um medo tremendo, foi de tal forma que nem
consigo explicar, sinto que não estou preparada para ser mãe de dois bebés e
isso fez-me reagir de uma forma negativa. A sorte é que o Ruben ao contrário de
mim reagiu bem, pelo menos sei que tenho nele o apoio que preciso para
enfrentar esta nova fase das nossas vidas.
Mas se acordei
ainda a mentalizar-me para esta realidade depressa tive que tomar conhecimento
de outra, a de ficar de repouso pelo menos nas próximas semanas, percebi que
não adianta barafustar e por isso acatei a ordem expressa da Ana para não
abusar nos esforços, até porque não quero que nada aconteça com os meus bebés.
Da clínica fomos
directos para o meu apartamento e quando lá chegamos encontramos a minha mãe à
nossa espera, confirmei a gravidez mas não lhe disse da possibilidade de serem
gémeos, acabei por ficar na sua companhia quando o Ruben foi até ao seu
apartamento.
- Agora que estamos sozinhas - olhei-a - engravidaste
com o consentimento do Ruben ou...
- A gravidez não foi planeada se é isso que quer
saber!
- Estás de quanto tempo?
- Ainda é recente... aliás tem mesmo que ser
tendo em conta que nós passamos uma fase conturbada...
- E como é que estão agora?
- Bem...
- Filha estás a contar tudo? É que tenho a
sensação que estás a esconder alguma coisa!
- Está tudo bem mas a verdade é que não era
suposto ser assim... quero muito ser mãe no entanto a novidade apanhou os dois
desprevenidos, acho que ainda estou a mentalizar-me que serei mãe daqui a uns
meses.
- Esta mudança para Braga é por causa da gravidez?
- Não, a verdade é que a gravidez é só mais um
motivo para querer estar do lado do Ruben mas antes de saber que estou gravida
já tinha decidido mudar-me para lá, aliás o tio antes de ir de férias deu-me a
possibilidade de ir para os escritórios da Gesti no Porto e por falar no tio - suspirei - tenho que lhe contar da gravidez até porque isso vai alterar os
planos...
- E ao teu pai - olhei-a - não vais contar?
- Não!
- Filha...
- Mãe o pai não quer saber da minha felicidade
por isso não vou estar a enervar-me mais, neste momento tenho de pensar em mim
e nos meus - olhou-me
imediatamente - no meu filho -
corrigi mas mãe é mãe e...
- Mariana estás grávida de gémeos?
- Há essa possibilidade - a minha mãe sorriu - a Ana ontem disse-nos que podem ser gémeos mas ainda é muito cedo para
se ter a confirmação por isso não comente com ninguém, só o Ruben é que sabe e
agora você...
- E ele? - sorriu - Está feliz? Já que pelo que vejo não
pareces muito animada com essa possibilidade...
- Oh mãe - baixei o olhar
- estou feliz mas também cheia de medo
que aconteça alguma coisa... não sei explicar mas a ideia de ter dois bebés
assusta.
- Tem calma... cada coisa a seu tempo preocupa-te
agora em cuidares de ti para que o meu ou os meus netos venham com saúde - abraçou-me e como soube bem aquele abraço da
minha mãe - mas acho que devias contar
ao teu pai - afastei-me imediatamente e saí mesmo da sala, lógico que a
minha mãe seguiu-me e quando já estava na cozinha a preparar uma sandes para
comer - filha não vais conseguir esconder
a gravidez e apesar de tudo o teu pai merece saber por vocês e não por
terceiros.
- Esse senhor desde que teve a confirmação que
estava com o Ruben nunca aceitou o nosso relacionamento por isso não vai ser
agora que irá aceitar o neto e sinceramente neste momento não quero pensar
nisso.
- Não digas isso, Mariana o teu pai ama-te, tem
um feitio especial tal como tens o teu, aliás nisso são muito parecidos mas não
há dia nenhum que não o apanhe a olhar para as tuas fotos, ele é orgulhoso e
custa-lhe admitir que afinal errou no julgamento que fez do Ruben e do vosso
namoro, filha eu própria ao início também fiquei de pé atrás, vocês
conheceram-se quando ainda eram adolescentes e sempre tiveram os vossos
conflitos, o Ruben nessa altura era um menino enquanto tu - olhou-me - já tinhas a “escola” toda, sim filha, sempre soube que não eras a
menina ingénua que o teu pai pensava, nunca te disse mas cheguei a apanhar por
exemplo preservativos por entre as tuas coisa, logo aquilo não estaria lá se
não os andasses já a usar - gargalhei ao ver o ar de incomodada da minha
mãe a falar de tal assunto - não sei
onde está a piada!!
- Oh mãe não acha que agora já vem um bocado
tarde? Agora é que vem falar disso? Mas sim tem razão... o Ruben do meu lado
era mesmo um menino - sorri ao
recordar - mas se voltasse ao passado
fazia tudo igual, não me arrependo de ter iniciado a minha vida sexual com a
idade que o fiz, compreendo que para si deve ser estranho mas fi-lo consciente
do que estava a fazer, se quer saber foi com o Paulo, aquele rapaz que o pai
tanto adorava e em que tinha plena confiança, até lhe digo mais, fizemo-lo
mesmo debaixo das “barbas” do pai já que foi lá em casa e depois do Paulo -
olhei-a - perdi a conta aos rapazes com
quem fui para a cama, nunca fui santa nenhuma e se houve altura que acalmei foi
nos meses seguintes a ter conheci o Ruben, ele no seu jeito de menino
envergonhado conseguiu conquistar-me sem me ter apercebido, para mim era só um
amigo mas a verdade é que deixei-me da vida que levava para passar a partilhar
momentos com o Ruben, momentos esses que nem beijos tinham, as tardes passadas
ao lado dele em que simplesmente víamos TV ou em que íamos ao cinema ou ainda
as que ficava simplesmente sentada a vê-lo jogar, satisfaziam-me de tal forma
que deixei de ter a mesma necessidade que tinha em procurar outros tipos de
divertimentos, no entanto não me deixei completamente dessa vida, simplesmente
acalmei um pouco, porque pelo menos nas horas que estava ao lado do Ruben se
havia coisa que não existia entre nós eram momentos desses, é verdade que em
certas alturas houve uns beijos mas foram todos “forçados” - a minha mãe
sorriu e interrompeu-me mesmo.
- Mas vocês nunca...
- Oh mãe...
- O que foi? Sim, estou curiosa para conhecer um
pouco mais da vossa história e se já confessaste que o fizeste com outros
também podes falar do Ruben ou não?
- Poder posso mas...
- Tu não me digas que foste a primeira com quem
ele - gargalhei ao ouvi-la.
- Sim - sorri - fui - suspirei - e se quer que lhe diga é talvez de todas a vez que melhor me recordo,
oh mãe o que senti foi único... nós não namorávamos e até à noite do baile a
única coisa que tinha acontecido foi uns beijos que lhe roubei e que sempre o
deixavam atrapalhado mas na noite do baile de finalistas, o Ruben
surpreendeu-me e... olhe aconteceu mas foi uma vez sem exemplo, aliás o Ruben
acabou por se afastar completamente de mim nas semanas seguintes e só na noite
e dia anterior a ir para Faro é que voltamos a falar, despedimo-nos com a
“promessa” de nos voltarmos a ver mas isso não aconteceu durante os anos
seguintes, perdi mesmo o contacto com o Ruben, o que sabia dele era através do
Fábio mas a informação chegava sempre filtrada, tanto que não sabia que o Ruben
se tinha tornado tão “livre”, foi uma surpresa para mim quando o voltei a
reencontrar e tive noção da pessoa em que se tinha tornado, cheguei a sentir-me
culpada e ao mesmo tempo triste pela volta que a nossa amizade tinha dado, as
primeiras semanas depois do meu regresso a Lisboa não foram fáceis, andávamos
constantemente a discutir, só porque não queríamos admitir tudo o que sentimos
quando nos reencontramos, tudo aquilo que andamos anos a tentar esquecer veio
ao de cima assim que nos vimos.
Acabamos por conseguir falar da noite que nos
marcou para sempre e acordamos não tocar mais no assunto, recuperamos aos
poucos a amizade que sempre existiu entre nós e com as horas de convívio foi
impossível não cair em tentação, voltamos a nos envolver fisicamente e depois
da primeira vez outras vieram, andamos numa de estarmos juntos quando nos
apetecia mas sem nunca admitirmos para os outros que isso andava a acontecer,
os meses foram passando e o sentimento que sempre nos uniu aumentou tanto que
deixamos de ter forças para lutarmos contra ele, não foi fácil ao inicio porque
os fantasmas do passado assombravam mas depois de muitas discussões decidimos
assumir que nos amamos e iniciamos uma relação, foi nessa altura que vos
contei, o meu namoro com o Ruben começou oficialmente durante as férias em Faro
e quando cheguei a Lisboa contei-vos na primeira oportunidade que tive, ou seja
nos anos do tio Jorge, mas o pai reagiu da forma que sabemos e nunca se
preocupou em tentar perceber o nosso lado ou mesmo a dar o benefício da dúvida,
ele crucificou o Ruben porque antes de mim andou a saltitar mas a verdade é que
se andou nessa vida a culpa foi minha, foi para tentar esquecer-me que o Ruben
rodou tanto...
- Mariana, filha, não julgues o teu pai dessa
forma, acredita em mim, ele tem motivos para reagir assim - olhei-a - e
para ser sincera apesar de nunca ter ido contra o teu namoro a ideia também não
me agradou, também tive receio que a vossa história acabasse mal, vocês têm os
dois um passado conturbado...
- Mas pelo menos você deu-nos o benefício da
dúvida...
- Filha, não consigo condenar o teu pai por não
ter dado esse benefício... Mariana dá uma oportunidade ao teu pai, ele ama-te
tanto...
- Não! Agora tenho de pensar em mim e no meu
bebé!
- Bebé que tem o direito de conhecer o avô materno!
Filha, conta ao teu pai que estás grávida, por favor!
- Mãe, não insista! Se quiser contar-lhe não a
vou impedir mas da minha boca não vai saber...
A minha mãe ainda
tentou insistir mas o regresso do Ruben colocou fim à conversa, acabamos por
nos despedir e quando a minha mãe saiu, o meu amor colocou algumas das minhas
malas no meu carro e rumamos até Braga, uma vez que o João já tinha levado o
carro do Ruben para Guimarães, uma vez que regressou para jogar pela selecção.
Como e quando saberá o Sr. Manuel que vai ser
avô?
E a novidade de poderem ser gémeos será
confirmada?
Que impacto terá isto na vida do casal?