quarta-feira, 23 de janeiro de 2013

‎060 - "não há confiança e onde não há confiança não há nós!"



Maria
Os dias que pensei serem calmos mostraram-se bombásticos a Mariana voltou a Lisboa e ao contrario do que eu pensava em vez de vir feliz da vida vinha numa depressão que nunca tinha visto e com uma noticia que me fez ficar também a mim completamente acabada
- Mas dizes-me o que se passou ou não?
- Eu e o Ruben divorciamos-nos!
- Vocês o quê?? - senti o coração disparar - Mariana diz-me por favor que não foi por minha causa... - comecei a sentir a cara a humedecer - Mariana eu nunca quis que isto vos afectasse... oh prima esta decisão que eu tomei era para ter consequências só para mim... e logo agora que eu tinha uma coisa boa para te contar...
- Uma coisa boa?
- Eu estive doente e a Teresa veio cá para casa... e no dia seguinte apareceu-me cá em casa o João e...
- E?
- E... bem nós falamos e... o João vai manter-se presente o resto da gravidez da pipoquinha e claro quando nascer...
- Fizeram as pazes?
- Estamos em cessar-fogo, para bem do bebé...
- Isso é bom... a madrinha fica contente por ti - acariciou a minha barriga - e por ti também... - falou num tom seco para mim e ia sair da sala
- Prima por favor desculpa eu nunca pensei que isto acontecesse! Eu já devia ter tomado esta decisão antes... eu não devia ter deixado que vocês...
- CHEGA! Agora já está! Pára de chorar! Tens de tomar bem conta desse bebé para que pelo menos tudo isto valha a pena! - nisto saiu da sala e ouvi a porta do seu quarto bater
Não sabia o que fazer, estava completamente atordoada com tudo isto e uma coisa era imprescindível fazer

Acabei de enviar a sms e só uma coisa me vinha à cabeça o facto de ter com uma atitude irreflectida e mimada estragado o casamento das duas pessoas que nunca me abandonaram... estava a começar a desesperar quando recebo uma chama do Skype
- João!!!!
- Maria o que é que se passa?? O bebé?
- Tá bem... e eu também... pelo menos fisicamente!
- O que é que se passa?
- A Mariana voltou hoje de Braga e... - comecei a chorar descontroladamente
- Calma pequenina.. acalma-te e conta-me o que se passa
- Ela informou-me que se divorciaram... ela e o Ruben divorciaram-se João!
- Tás a gozar?!
- Achas?
- Conta bem isso - contei-lhe o que se passou - Maria a culpa não é tua! É deles... deles que nunca se entendem
- João esquece! Nós os dois sabemos bem que eles já estavam mais que acertados e se o Ruben não tivesse assumido o cuidado de mim como fez não estavam assim!
- Maria por favor acalma-te! E agora pensa noutra coisa volta-te só para o nosso bebé - ainda me sentia uma parva sempre que ouvia a palavra “nosso” na boca dele - vês assim com esse sorriso fica tudo muito melhor...vou falar com o Ruben e tu vais ter calma e vais mantendo a tua prima debaixo de olho... - desatei a rir o que parecia louco para a conversa que estávamos a ter - O que foi?
- A pipoquinha decorou bem a tua voz! Estava calminha... acho que também se assustou com a noticia dos padrinhos, mas desde que começas-te a falar que não pára! Grande rave que vai aqui na minha barriga!!- ouvi-o gargalhar
- Queria poder senti-lo também.... - desabafou num tom quase inaudível, senti o coração mirrar novamente
- Já falta pouco para o Natal!
- É... e com a sorte que tenho há-de fazer greve e só se mexer quando eu não estiver por perto!
- Isso já é um assunto entre vocês os dois!
- Oh tu podias ir já falando com a pipoquinha
- Fala tu! - deitei-me no sofá e apontei a webcam para a minha barriga
- Pipoquinha ouve o pai tás a ouvir? Se tiveres mexe-te que a mamã diz
- Olha lá! Eu ia aproveitar que ficavas a tomar conta da “criaturinha” para dormir! 
- Deixa de ser preguiçosa!
- Preguiçosa porque sou eu que não durmo nada há quase uma semana...
- Não dormes?
- Pois há alguém que resolveu que é mais divertido fazer ginástica quando a mãe devia dormir... mas vai lá falando que estão aqui a dar resposta de que te estão a ouvir...
- Ah é  verdade Pipoca é para deixares o papá sentir-te também... e não arranjares horários estranhos... quer dizer se quiseres passar as  noites em festa... o papá pode sempre dormir com a mamã!
- PAROU! Menos... muito menos João!!
- Oh Princesa!
- Maria... eu chamo-me Maria!
- Tenho saudades tuas... de estar contigo...
- Eu também... mas é a vida...- ele desistiu de insistir tentar que a conversa continuasse para onde eu não queria e ficamos mesmo a conversar sobre coisas do e para o bebé.
Os dias foram passando a um ritmo relativamente calmo, cada vez que via a minha prima completamente em baixo o peso na consciência aumentava, não tinha tido mais qualquer noticia do Ruben a não ser um “obrigado” à minha sms, mas sabia que o João ia falando com ele todos os dias.
Estávamos já na semana que antecede o natal, era  dia de consulta na Ana e o João chegaria apenas a tempo de ir directo lá ter, já tínhamos tudo combinado afinal... O que não tem faltado é conversa já que passamos horas via Skype a conversar e por momentos  simplesmente a olhar para o ecrã... é impressionaste as saudades que tinha dele e não tinha percebido...
- Tio estou no ir! - gritei no corredor
- Vais onde com tanta pressa e tão linda?

- Consulta na Ana e depois não sei, vou para qualquer lado, mas o mais provável é que vá mesmo para casa porque dispenso ter publico enquanto o João estiver a meter a conversa em dia com o bebé!
- Ah o João a meter conversa em dia com o bebé?! Sei! - riu-se - Vai lá e depois diz-me se vem dai uma princesa ou um campeão!
- Combinado...
Sai directa para o Consultório da Ana.
-  Boa Tarde!!!
- Boa Tarde Maria a Dra Ana vai já atende-la - sentei-me e passados poucos minutos a Ana chamou-me
- Maria Mendes! - levantei-me e fui imediatamente para perto dela - Então que cara é essa?
- O outro atrasado mental! Fez-me prometer que só vinha hoje porque ele estava cá e agora não aparece!
- E viva o amor!
- Ana!
- Oh Maria enquanto ele não chega... confessa lá que isso é tudo saudades dele... - olhei-a comecei-me a rir
- Oh... enquanto não nos falávamos estava tudo bem, mas agora que nos falamos todos os dias parece que ainda custa mais!
- Mas fizeram mesmo as pazes? Voltaram a estar juntos?
- Não... uma coisa é uma coisa... outra coisa é outra coisa...
- E chegaram a essa conclusão juntos?
- Não cheguei eu sozinha!
- Como sempre... - ela fez um ar resignado, mas depois - Maria e assumires que mais do que precisares do pai do teu filho para ajudar a cria-lo precisas do “teu homem”... não me olhes assim que não és santinha nenhuma e gostas da festa - gargalhamos as duas  - e estamos a falar do João...
- Para mim neste momento é mais fácil não estar com ele e ponto final do que estar-mos “juntos” - fiz aspas com os dedos - cada um na sua terra com 1000km’s de distancia e muita, mas mesmo muita falta de confiança...
- Falta de confiança?
- Sim... eu não sou santinha nenhuma, mas desde que ele foi que estou sozinha... mesmo! E tirando a noite em que fiquei assim, ando a ver navios...  mas o mesmo não aconteceu com ele... diz que lá por terras de “nuestros hermanos” há muitas hermanas a deixar meter a mão... e o resto todo... onde não devem...
- Eeeee ciumenta!
- Pois sou... e assim ele faz o que quer e eu não tenho nada com isso e se estivermos juntos...
- Só tu … é que em vez de mostrares quem é a dona do pedaço ainda para mais com essa barriga, abres mão do que é teu!
- Oh sim claro meu...- neste momento batem na porta
- Sim?
- Posso?
- Deves! - levantou-se e cumprimentou-o - vamos para a sala da eco?
- Vamos! - levantei-me e ia já em direcção à sala quando
- Ana tens só mais dois minutinhos??
- Tenho João... tenho os minutos que quiseres... - dito isto saiu do gabinete
- Tás parvo? Há mais pais a quererem saber dos seus bebés... e pais que de certeza estão aqui a horas!
- Desculpem... - falou acariciando-me a barriga, para enquanto levantava a blusa - o avião atrasou e depois o transito estava infernal... - acabou de falar e deu-me um beijo na barriga, adorava vê-lo  derretido com a minha barriga, mas estes beijos começavam a ter em mim um efeito menos recomendável e ele percebeu, detesto que me conheça assim - Se quiseres posso dar-te mais miminhos... mas em casa! - piscou-me o olho e seguiu a Ana algo que também fiz.
Os minutos seguintes foram para os procedimentos habituais vestir a bata, encher a barriga do maldito e gelado gel e para a Ana confirmar que felizmente tudo continuava excelente com a pipoquinha
- Bem e agora vamos lá ver se temos algo a mostrar aos papás! - a Ana começou a procurar algo que nos “dissesse” se iríamos receber uma menina ou um menino e eu e o João entre-olhamos-nos e sorrimos para voltar a colar os olhos no ecrã

João
Voltei a Valência com vontade de ficar coladinho à Maria e à pipoquinha, mas não podia e assim que me apresentei no treino tive que dar algumas  justificações o que me obrigou a contar ao mister o que realmente se passava, ele felicitou-me e garantiu-me que caso fosse necessário teria autorização para voltar a ausentar-me, depois do mister foi mesmo o Ricardo a pedir-me satisfações, assim que terminou o treino
- Olha lá que historia é essa de ires passar o fim de semana a Lisboa? Deves ser mais que os outros não? - disse-me a esconder a vontade de rir
- Podes ladrar o que quiseres que hoje não me chateias!
- Ui que estamos de bom humor! Pode-se saber o motivo?
- Podes... é este! - atirei-lhe a imagem da eco que a Maria fez
- Puto isto é um bebé!
- Não, um bebé é o filho de um qualquer... esse é O bebé! O MEU bebé!
- Ãh?!
- A Maria está gravida!
- Grande novidade! Está quase é a parir!
- Quase não ainda falta um bocadinho...
- Pára! Pára! Caiu a ficha estás a dizer que o pai do bebé da Maria és tu?
- Quem é que achavas que era? … Esquece nem respondas...
- Parabéns! Desculpa a reacção, mas...
- É normal a história não é fácil .. - acabei por lhe contar como tudo tinha acontecido
- Bem... vocês dois vou-vos contar... mas  ainda bem que está tudo resolvido
- Tudo... tudo não está... ela deu-me autorização para ser pai do meu filho, ou filha... nada mais, no item “nós” continua tudo na mesma
- Calma... uma coisa de cada vez
Acabei por ficar até tarde de conversa com o Ricardo e quando cheguei a casa tal como tínhamos combinado liguei o skype e passei a noite a conversa com a Maria  que entretanto lá me contou como tinha corrido a surpresa que organizou para a prima e para o Ruben e as novidades não eram decididamente nada boas, certo é que a Maria se culpava imenso e de dia para dia fui percebendo que a sua relação com a prima estava mais distante o que só piorava a situação.
Durante o restante das duas semanas os dias foram todos iguais treino/jogo, skype com a Maria e pesquisa, muita pesquisa sobre tudo o que era importante, e o que não era também, saber sobre a gravidez e sobre bebés.
No dia de regressar a Lisboa confesso que estava insuportável
- Bom pessoal Bom Natal! Feliz Navidad! Beijos e abraços! Fui!!!
- Espera onde vais a fugir? - perguntou-me o Soldado
- Para casa... para Lisboa! A minha mulher tem consulta hoje! Vamos saber se vamos ter um menino ou uma  menina!
- A tua mulher?! Menino ou menina? Pensava que eras solteiro... nem imaginava que estivesses para ser pai!
- Longa história!
- Mulher? Se a Maria te ouve!
- Acredita que não volto para cá sem isso resolvido!
- Só me resta desejar-te boa sorte! Ahh e depois diz lá o que descobrem na eco!
- OkOk
Sai a voar até ao aeroporto, o  voo atrasou-se e em Lisboa o transito estava um caos já cheguei atrasado ao consultório da Ana. Quando pedi para entrar a Ana deu-me permissão e a Maria refilou por estar atrasado, mas quando a Ana nos deixou sozinhos e pude sem assistência cumprimentar o  bebé senti a Maria tremer e não foi o frio que a arrepiou, conhecia bem aquele tremor e não ia deixar passar a oportunidade para me aproximar dela.
Ela não me deu grande troco e fomos finalmente até à sala da eco.
Estávamos a babar o ecrã quando a Ana fala
- Bem parece  que a pipoquinha resolveu não deixar duvidas! E agora papás como se vai chamar? - olhamos para o ecrã e não era preciso a Ana dizer nada era um rapaz sem margem para duvidas olhei para a Maria e
- Guilherme! - disse ela
- Bruno! - disse eu exactamente ao mesmo tempo e a Ana gargalhou
- Bem parece que vão ter que chegar a um acordo!
- Acordo? Não sei porquê o MEU FILHO vai chamar-se GUILHERME e não há discussão possível!
- Oh Maria?
- Nem Maria, nem meio Maria! João... eu já decidi!
- Depois falamos nisso com mais calma!
- Sim.. sim... - ela ia limpando o gel - Ana está tudo bem com o Guilherme mesmo?- falou nitidamente a provocar
-  Tudo óptimo!  20 semaninhas certas, 298 gramas e 20 cm...
- Mais alguma recomendação?
- Nada que já não saibas... cuidado com o que comes no Natal e de resto estás óptima amiga!
- Obrigada Até logo!
- Txau meninos portem-se bem! E calma com a escolha do nome do meu sobrinho!
Saímos da clínica em silêncio e dessa forma chegamos junto ao seu carro
- Onde é  que tens o carro?
- Não tenho
- Mas não chegaste atrasado por causa do transito?!
- É o taxista estava louco
- Ah... queres boleia?
- Se não te atrapalhar muito quero!
- E vais para onde? - perguntou quando já estávamos no carro
- Para onde tu fores...
- Como?
- Vou para onde fores!
- E quem disse que podes ou que eu quero companhia?
- Ninguem... mas temos de falar... temos de decidir o nome do Bruno
- GUI-LHER-ME! O nome do MEU FILHO é GUILHERME!!! - fui incapaz de não gargalhar - não vejo onde possa estar a graça?!
- Primeiro é o NOSSO filho e não o teu filho! 2º oh fofinha – abriu-me os olhos
- Maria!!
- 2º... Maria... podíamos tentar chegar a um acordo!
- Não há acordo possível já disse que o meu filho se chama Guilherme e ponto!
- Maria importas-te de ser minimamente razoável?
- João é Guilherme dês as voltas que deres! E faz o favor de não me enervar!
- Oh Maria... sabes perfeitamente porque quero que se chame Bruno...

Maria
Um menino... vou ter um menino não consegui ficar particularmente feliz acho que se fosse menina ficava igualmente feliz e no meio desta mentalização de que vinha ai um “pilas” a Ana pergunta pelo nome e para mim isso era algo que não trazia qualquer tipo de duvida! Sempre disse que se tivesse um menino lhe chamaria Guilherme da mesma forma que se fosse uma menina seria Beatriz, mas parece que o João não estava de acordo. Ainda tentei insistir fazendo-me de surda e não querendo admitir a possibilidade de dar outro nome ao meu bebé, mas quando o João me “chamou” para a realidade e de forma indirecta me relembrou porque queria que a pipoquinha se chama-se Bruno que tive que recuar um bocadinho na minha firme posição, mas recuar não significa abdicar.
- Pois sei, mas eu sempre quis um Guilherme!
- Não podiamos deixa Guilherme para o próximo?
- Podiamos? Proximo?! Mas qual foi a parte do “nós” não existe que não percebeste?
- Maria... não desivies o assunto!
- Eu não sei se terei outro menino por isso... o máximo que aceito é traumatizar o MEU - ele espumava de raiva quando eu  dizia “meu” - filho para o resto da vida e chamar-lhe Guilherme Bruno
- Isso é quase tão mau como Maria Micaela! Bruno Guilherme soa muito melhor!
- Oi?! Guilherme Bruno e é pegar ou largar!
- Para já pode ser... mas vais ver como até Maio ainda mudas de ideias!
- Não tinha  tantas certezas! E agora toca a levantar  o rabinho do acento que o Guilherme quer os pasteis de Belém da praxe! - vi-o  sorrir e acabamos mesmo por ir até ao café onde depois dos pedidos feitos peguei no telemóvel
- Hora de informar das novidades! - liguei para os meus pais e vi que ele fazia o mesmo e depois - e agora o resto do mundo!
-  És tão torta fofinha! - disse assim que apareceu a ultima publicação que fiz no Facebook
- Maria! Chamo-me Maria...
- Fof...
- João! - tive de o interromper assim que senti as pontas dos seus dedos a tocarem a minha cara enquanto me afastavam os cabelos da face e eu  sabia o que se seguiria ai se sabia...
- Porquê?
- Porquê o quê?
- Porque é que não podemos voltar...- ele calou-se
- Voltar??
- Sim Maria! Não te faças de desentendida! Voltar a estarmos juntos... voltar a haver “nós”... - respirei fundo
- João não há confiança e onde não há confiança não há nós!
- Não confias em mim é isso que estás a dizer?
- E tu não confias em mim...
- Não te passei nenhuma procuração para falares por mim - disse  num tom de voz mais duro
- Vamos a acalmar o tom de voz antes que fiques sozinho, para começar... e depois não preciso de procuração nenhuma tu deste-me provas mais que suficientes!
- Eu dei-te provas? - riu sarcástico
- A  conta por favor! - o funcionário de imediato me entregou o talão paguei e levantei-me - Eu vou-me embora se quiseres boleia é agora
- Então agora foges é?
- João eu só não vou continuar a conversa aqui porque já estas a falar alto  de mais para o meu gosto e eu não me posso chatear... por isso vou para casa e tu se quiseres  continuar a insistir nesse assunto é bom que penses 1000 vezes antes de abrir a boca porque eu não vou medir as palavras que vão sair da minha e as coisas são capazes de azedar a sério!
- Vamos até minha casa!
- Desculpa?
- Prometo que não abro a boca até chegarmos lá... prometo que penso as 1000 vezes... a juntar aos outros milhares de vezes que  já pensei e quando chegarmos lá  conversamos
- Não acho boa ideia... - não sei se eram as saudades se as hormonas certo é que a vontade de deixar o lado racional para trás e apenas seguir o impulso de voltar a senti-lo tocar-me era grande demais, mas se o fizesse o “ambiente” seria sempre complicado - mas se insistes... depois não digas que não avisei...
Fomos até ao carro e depois até casa do João sem trocar qualquer palavra quando lá chegamos saímos do carro segui-o até à entrada do apartamento ele entrou e eu fiquei na porta, ouvia-o falar mas não  conseguia entrar
- Maria?
- Diz?
- Vais ficar ai?
- Convidaste-me para entrar?
- Desde quando é que precisas disso?
- Desde que a casa não é minha - tentei disfarçar o “medo” de ficar sozinha com ele ali onde haviam tantas recordações
- Entra... está à vontade - apontou-me a sala, segui até lá -  senta-te... chá, sumo, agua?
- Nada obrigada!
- Podes dizer-me agora que provas é  que eu dei
- João antes de pensares se quer em ires para Valência já duvidavas do Sérgio, quando recebeste aquela proposta quiseste ouvir o que tinha para dizer e nem avisando que o que tinha para dizer não ia agradar e não pensaste duas vezes em desaparecer sem nem um “ai”. - estava a começar a ser invadida pelas lágrimas por isso parei um pouco respirei fundo - E depois, depois optei por me afastar do pessoal para não ter que passar pelo desconforto de estar fechada no mesmo espaço que tu! E quando não consigo, quando armam para cima de nós e ficamos sozinhos, bem quando ficamos sozinhos o resultado é este - apontei para a minha barriga - mas antes de se saber o resultado final o que é que fizeste? Deste-me uma prova fulcral da total confiança  que tens em mim! Atendes uma chamada não sabes o contexto da conversa e nem pensas em ouvir o que posso ou não ter para te dizer e em vez disso escreves um bilhete que me deixa mais baixa que pedras da calçada e...
- Maria...
- Agora ouves até ao fim! Quando nos vimos no Real x Valência pensaste que estava lá  porquê? Passou-te por um milésimo de segundo que tivesse saudades tuas?! Não! E nem tentes negar porque apesar de já ser o Guilherme a dar sinais de vida no dia do casamento do Ruben e da minha prima eu ouvi... - ele olhou-me assustado  - ah pois é! Eu ouvi TUDO e ainda tive que ouvir a boquinha na entrada do comboio...
- Boquinha que respondeste ao mesmo nível!
- E querias o quê?! Certo é que atirei o barro à parede e colou porque pouco tempo depois recebi  aquela chamada ridícula!
- Maria..
- E quando eu descobri que estava grávida e “anunciei” e quando o Ruben te ligou alguma vez colocaste a hipótese de seres o pai? Tentaste falar comigo? João desculpa, mas eu assumo que tenho ciumes e muitos! Sempre assumi! E tu? Assumes que não confias minimamente em mim? Achas mesmo que conseguimos manter uma relação minimamente saudável assim? Achas que o Guilherme merece crescer a ver-nos sempre a desconfiar e acusar? Eu acho que é preferível que ele nos veja separados desde sempre...
- E eu acho que devíamos tentar mais uma vez... pelo Guilherme...
- Pelo Guilherme? É por ele... é por ele que te peço que respeites a minha decisão... João eu acho que ele não merece nascer e crescer num ambiente onde os pais desconfiam um do outro e onde a qualquer momento “salta” uma boquinha! Pelo Guilherme João! É por ele que estou a lutar contra a porcaria do descontrolo hormonal e estou a seguir o meu lado racional... por isso não uses o Guilherme como trunfo!
- Não foi isso que queria fazer... desculpa! Estás decidia? - acenei afirmativamente - Então prometo que vou tentar... mas não consigo garantir...
- Estamos combinados então! Bom eu vou andando... preciso dormir... voltamos a ver-nos antes do Natal?
- Amanhã se não te atrapalhar!
- Pode ser... quando  quiseres liga ou aparece! - aproximei-me dele e recebi um beijo carinhoso e lento na bochecha que por mim podia ter demorado muito mais, e ao mesmo tempo acariciava o Guilherme
- Vai com cuidado... diz quando chegares a casa... e tu meu menino - agachou-se para ficar  ao nível da minha barriga - é para te portares bem e deixares a mamã dormir de noite! De noite é que se dorme! - deu um beijo rápido na barriga e sai em direcção a casa.

Ruben
Estava a ressacar em casa quando ouvi a porta a abrir, presumi que fosse a minha mãe mas afinal quem apareceu foi o Mauro e por sinal logo a “mandar vir”.
- Mesmo sério vais continuar a fazeres-te de cuidadinho sem ires à luta?
- DESAPARECE! Estou sem paciência para vos aturar, sim já sei que a culpa é minha mas sabes que não ajuda nada ter-te sempre a atirar-me isso à cara!
- Mano... atina... vai falar com a Mariana! Já passou uns dias pode ser que agora consigam falar...
- Falar o quê? A Mariana disse tudo e se tivesse assim tão interessada em resolver alguma coisa tinha ficado em Lisboa em vez de ir para as noitadas de Faro...
- A mulher é tua - olhei-o com vontade de o mandar para o caralho mas não o fiz até porque não tive hipótese - mas nem tu acreditas nisso... sabes bem que a Mariana não foi para Faro com o intuito de gozar as noitadas, ela foi porque tal como tu deve estar na merda e só quis evitar que se cruzassem.
- Não quero falar mais sobre isso...
- Estás na merda porque queres! Desculpa dizer-te isto mas é verdade, não lutaste até pelo contrário cedeste ao pedido de divórcio quando todos sabemos que se tivesses sido homem suficiente terias conseguido contornar isso, é verdade que a Mariana desistiu de vocês mas será que no fundo não foste tu o primeiro a desistir? Mano passaste os últimos meses mais preocupado com a Maria do que com a tua mulher, babaste em cima da prima e da sua barriga sem dares atenção nenhuma à Mariana, já para não falar que sempre que a rapariga abordava o assunto “filhos” fugias, não achas que isso para uma mulher é demais? 
Puto sinceramente muito aguentou a rapariga, ela foi contra o pai por ti, apoiou-te a 100% na confusão que foi a tua saída do Benfica, só não ia mais vezes a Braga porque não podia, casou contigo e mais uma vez sofreu as represálias do seu pai e até mesmo da restante família mas continuou de pedra e cal ao teu lado para depois ver-te a dedicares o pouco tempo que tinhas disponível com a gravidez da Maria.
- CHEGA! SAI!
- Chega?? Achas mesmo que chega? Mano corre atrás da vossa felicidade que ainda vais a tempo, a Mariana deve estar tão na merda como estás por isso não desistas, vai falar com ela mas com calma, aparece à sua frente de surpresa e exige uma conversa nem que seja para meterem um ponto final de vez! 
- Já o metemos quando assinamos os papéis...
- Ai foi? Então esclarece-me uma dúvida - olhei-o - onde é que está aquele Ruben que papava todas e mais algumas para tentar esquecer o sentimento que tinha por uma tal Mariana e que andou anos a pensar que não era correspondido só porque no passado tal como no presente não teve coragem para lutar pelo que sente e acredita...
- Mas afinal o que queres?
- Que acordes e percebas que está na hora de retribuíres TUDO mas mesmo TUDO o que a Mariana fez por ti nos últimos dois anos! Porra abdica um pouco de ti, pára de olhar só para o teu umbigo e luta para recuperares o que perdeste por incompetência tua! Não esperes que seja a Mariana a meter o rabinho entre as pernas e venha atrás de ti porque foi isso que a rapariga fez no passado e olha só o que recebeu em troca - olhou-me - um “agora espera porque primeiro está a grávida”...
Não aguentei continuar a ouvir o sermão do meu irmão, apesar de ter consciência que em parte tem razão tive que sair de casa para deixar de o ouvir, no fundo a culpa é minha porque meti o meu casamento em segundo plano mas caramba a Mariana também desistiu depressa demais e é isso que magoa-me, que faz com que ainda não tenha corrido atrás do prejuízo...
Passei a tarde toda às voltas e só voltei a ver o meu irmão quando apareci em casa da minha mãe para a consoada, mais uma vez levei com os olhares e conselhos dos que me são mais próximos mas só quando agarrei no telemóvel e vi uma mensagem algo inesperada é que tomei uma atitude.

Que mensagem será? E de quem?

terça-feira, 22 de janeiro de 2013

059 - "o meu filho ou filha não precisa do pai! Tem-me a mim! Há tantos filhos orfãos!"



Maria
Acordei com o som da campainha, mas sem as mínimas condições de me levantar para no mínimo ver quem era. Felizmente também não precisei de o fazer
- Deixa-te estar quieta que eu vou lá - voltei a ouvir a voz da Teresa e senti-a levantar-se do pequeno sofá que tinha junto da cama, não consegui responder por palavras apenas me esforcei para um sorriso, sinceramente soube-me bem saber que apesar de ter adormecido tinha alguém do meu lado.
Ouvi-a abrir a porta e depois ouvi que falava com alguém mas não estava em condições de reconhecer a voz, mas fiquei pouco tempo na ignorância já que passados segundos tinha o Sérgio e a Pilar junto a mim e atrás deles a Teresa que olhava todos os movimentos. Assim que os vi tentei falar mas nem um  "piu" me saiu
- Aí Maria que estas a piorar... - ao ver e ouvi-la lembrei-me da minha mãe quando me via doente - vou ligar para a Ana -falou tocando-me na testa - é que nem preciso medir para saber que estás a arder!
O Sérgio e a Pilar estavam com ar assustado e por isso peguei no telemóvel para me comunicar através de texto que ia escrevendo na zona de notas e a que eles me iam respondendo. A Teresa ligou mesmo para a Ana que lhe indicou dois medicamentos que deixa tomar com urgência  e depois de saber que o Sérgio e e a Pilar era namorados e que jogavam na equipa dela a equipa "conta ao João" e de os encher de recomendações lá me deixou prometendo ser breve.
- Diz lá quem é a simpática Sra? -  perguntou o Sérgio
- A bruxa?! - exclamou o Sérgio
- Sim tinhas mas não esperava vê-la aqui!
- Maria eu sei que não é altura para falarmos nisso mas já não será tempo de dares um pai ao teu filho?
- Estás a ser irracional! E não precisas disso! Maria o pai da criança não se recusou a assumi-la aliás mesmo que o queira fazer tu não lhe deste essa hipótese, mas depois de ver a mãe dele aqui desculpa mas não acredito que ele o faça...- ela parou caminhou até à cómoda e pegou numa foto que lá tinha - Maria olha para esta foto não me parece muito antiga...
- É do principio do verão... quando tudo estava bem - sussurrei
- Vês o que te digo?!  Acreditas  mesmo que alguém que tira uma fotografia como esta passados poucos meses já esqueceu a outra pessoa?! Maria desculpa, mas por tudo o que me contaste vocês estão só no meio de uma tremenda birra, não conheço o João mas acho mesmo que se lhe deres essa oportunidade ele não irá rejeitar o bebé antes pelo contrario! 
- Pilar eu...
- Tu vais descansar que não te podes esforçar... - o Sérgio falou - mas já percebemos que estás a perceber que tens  mesmo de falar com ele... vamos combinar uma coisa? - acenei-lhe afirmativamente - Quando estiveres melhor metes-te num avião, eu juro que espero por ti no aeroporto, e vais falar com ele...
- Excelente ideia amor! - a Pilar chegou-se perto dele e deu-lhe um pequeno beijo - eu tambem vou e vamos ficar na entrada do predio e se não correr bem tu vens ter connosco e nunca mais falamos no assunto
- Como quiserem...- ainda ia refilar mas a campainha tocou
- Eu vou lá...- o Sérgio não me deixou ir 
O Sergio saiu para abrir a porta e eu fiquei com a Pilar a falar sobre o bebé e todas as mudanças que se adivinhavam, continuava quase rouca, mas somos interrompidas por uma voz que reconheceria até no fim do mundo 

João
Quando finalmente tomei coragem para  tocar a campainha, já esperava que não fosse a Maria a abrir, mas sim a minha mãe. Mas surpresa das surpresas foi o espanhol a atender-me assim que o vi só me apeteceu dar meia volta e desaparecer
- João! - ouvi-o chamar-me ignorei-o e segui na direcção do elevador, ele voltou a insistir e eu também, mas  quando fui  abrir a porta esta foi travada - Te estoy llamando! - falou novamente e eu apenas insisti em tentar abrir a porta - ¿No oyes? - ele continuava e eu já perdia a paciencia - Y yo que pensaba que eras un tipo con la raza y, finalmente, fuera de la cancha... Eres un NIÑO!!
- E o que é que tu tens com isso? A tua mulher não está doente? Estás aqui a chatear-me os  cornos por alma de quem? Vai lá e se não te importas avisas a minha mãe que passei por aqui! - estávamos a falar alto de mais e assim que termino de falar
- O que é que se passa aqui?! - a Maria entrou na sala acompanhada de uma outra mulher que não conhecia -  Tu?! - ela estava rouca,  só se percebia metade do que dizia e estava pálida e nitidamente congestionada - O que é que tás a fazer aquiiiiiiiiii - ela não acabou de falar agarrou-se no móvel que tinha na entrada e estava quase a cair quando a outra rapariga a levou até ao sofá ela estava notoriamente fraca e quando  se sentou no sofá estava ainda mais pálida 
- Maria que no debería haber salido de la cama! - ou outro falou indo na direcção dela
- Traté de mantenerla, pero era imposible! - a rapariga tambem espanhola falou
- Afecto se la lleva a la habitación, por favor! - a rapariga ainda tentou mas a Maria não aceitou
- Não vou a lado nenhum! Se não se importam vocês os dois explicam-me o  que se estava a passar!
- Nada de especial! Era só o teu amigo que não queria que me fosse embora
- Para variar el João estaba notando todo mal! Vamos a tu habitación y te por favor consúltelo - o outro achava que era quem para falar?! - Los vamos a dejar mi amor? - mi amor?! fiquei parvo e ainda mais quando os vi juntarem rapidamente os lábios 
- Sese! Pilar por favor! - eles ignoraram - Pilar este é o João! João esta é a Pilar namorada do Sérgio...- namorada do Sérgio?! Isso era bom! - o Sérgio acho que já conheces... deves ter vindo procurar a tua mãe certo? Ela saiu, mas deve estar a voltar eu digo-lhe que estiveste cá... agora podes ir - enquanto ela falava eles saíram e estávamos só nós na sala - o Sérgio já não te vai impedir...
- É vou mesmo...- depois de ter sido mandado embora não ia continuar a insistir muito menos no estado em que ela estava - as melhoras...
- Obriga...  - a Maria ao levantar-se voltou a perder a força tentei ajuda-la  - obrigada... podes ir que o Sérgio ou a Pilar já me ajudam... 
Engoli em seco e sai, estava preocupado com ela, mas a presença do Sérgio acompanhado foi mais uma prova daquilo que todos me diziam e eu desconfiava. Sai novamente em direcção ao elevador e quando abro a porta do mesmo
- Filho! - a minha mãe estava a sair de lá
- Mãe? Mas tu não devias estar com a Maria? Cheguei aqui e estava...
- Fui à farmácia! Ela piorou e a Ana receitou-lhe uns medicamentos...  chegaste e estava um casal de amigos a ajudarem-na! Muito simpaticos por acaso
- É sim, pois... bom eu vou andando que já percebi que não sou bem-vindo vou até casa, quando puderes passa lá, ahhh a Maria está na sala e não está muito bem...
- Nem penses que te vais embora! Vocês falaram?!
- Nada de mais...
- Já  suspeitava... entra! - olhei-a - entra para a cozinha, leva estes sacos para lá e eu já vou ter contigo... João a Maria não está nas melhores condições mas vocês não podem adiar mais a conversa que têm pendente...
- Está bem - disse respirando fundo enquanto entrava para a cozinha e vi-a a seguir para a sala onde a ouvi falar com a Maria e os seus convidados e passados alguns segundos já não estava sozinho o Sérgio entrou na cozinha e sentou-se na mesa tal como eu estava
- Ya sé que no te caigo bien ¿Qué le pareció un montón de tonterías, pero eso no debería justificación alguna para usted, pero tengo que decir que María nunca me dejó cerca de lo mínimo para que pudiera ser responsable de su embarazo! Ahora tenemos que ir a tomar  entrenamiento mañana - assim que acabou de falar saiu da cozinha e minutos depois ouvi-os sair definitivamente daquela casa.
Fiquei ainda algum tempo sozinho até que a minha mãe volta a entrar na cozinha e sem me dizer nada prepara um chocolate quente 
- Toma! - passou-me a bandeja para as mãos - vai lá que o teu filho ou filha está desesperado por um chocolate quente...
- Oh mãe!
- A Maria está no quarto... sabes o caminho certo?! - acenei afirmativamente -  Então vai lá, ahh e ela que tome isto - colocou um  comprimido no tabuleiro - vai lá... resolvam lá a vossa vida qualquer coisa estou na sala
Acabei por seguir para o seu quarto onde antes de entrar bati na porta

Maria
A minha alma estava parva o que é que o João faria ali? Mas entre a emoção, os nervos e a constipação acabei por me sentir a perder os sentidos e por isso voltaram a levar-me para o quarto depois de ter mandado o João embora, acreditava mesmo que ele tinha saído até que  bateram na porta 
- Entre Teresa!
- Sou eu... - ele entrou devagar - … a minha mãe pediu para te trazer isto...
- Ahhh obrigada... - senti-me corar - não era preciso a tua mãe estar a perder o dia dela... e tu, muito menos!
- Eu não estou a ter trabalho nenhum... estou é preocupado contigo... quer dizer com vocês! - ele  estava tão atrapalhado quanto eu - mas parece que alguém queria um chocolate quente e posso garantir que o da Dona Teresa é o melhor do mundo - sorri
- Obrigada... mas isto quando me dá a vontade só passa mesmo quando satisfaço o desejo...
- Muitos desejos?
- Alguns...
- Come... a minha mãe pediu que tomasses o comprimido também...
- Ah é verdade! 
Bebi o chocolate lentamente estava-me a saber maravilhosamente bem, o João ficou sentado nos pés da cama apenas a  olhar-me
Adorava quando ele o fazia, sentia-me a mulher mais desejada do mundo, eu tinha de lhe contar e era agora
-  João
-  Maria - falamos em simultâneo
- Fala...
- Não fala tu... até porque a Ana pediu que eu não forçasse a voz...
- Ok - ele engoliu em seco e respirou fundo - Eu queria saber dizer isto de outra forma, saber ser fofinho e sensível porque tu está muito frágil e não te podes enervar mas eu só sei uma maneira... - voltou a parar e como o conhecia percebi que era só para ganhar coragem - é meu não é?! Esse bebé é meu... nosso! É resultado daquela noite não é? 
- O que é que achas?!
- Sinceramente... desde que meteste a primeira eco que olho para ela e penso que é meu... mas essa tua historia que não sabes quem  é o pai e a tua relação com o “Sese” - não resisti a gargalhar porque era indisfarçável que o João estava com ciumes - eu não sabia o que pensar afinal... tu não querias filhos e nem pensaste duas vezes quanto a nós...  eu  sei que devia ter falado contigo, mas... mas...
- Mas?!
-Naquela noite... - sorriu - aquela noite foi brutal... tão brutal que... - pela primeira vez aproximou-se mais de mim aproximando a mão da minha barriga - posso?
- Deves! - sentia um sorriso parvo a nascer-me no rosto e quando a mão dele tocou na minha barriga nasceu um arrepio tão bom
- Mas aquela noite acabou com o teu telemóvel a tocar e aquela voz irritante do outro lado e...tás a chorar? - acenei-lhe com a cabeça 
- Antes a voz irritante do outro que um bilhete a tratar-te como uma rameira qualquer
- Eu passei-me... - sussurrou
- É... mas isso não interessa! João o bebé é teu... se quiseres acompanhar a gravidez e todo o crescimento óptimo  mas se não quiseres por mim dá no mesmo já tinha tudo organizado para cria-lo sozinha - tentei desviar o assunto
- Essa questão nem  se coloca - voltou a sentar-se junto a mim e colocou a mão sobre a minha barriga e parece que a pipoquinha gostou porque pela primeira vez senti-a, aliás sentimos mexer foi maravilhoso o meu bebé mostrava-me que estava ali e ainda por cima acreditei que feliz por finalmente sentir-se desejado também pelo pai - isto... isto ... isto é... está a mexer! Eu estou a sentir!
- Eu também  - chorava já um rio - A pipoquinha gostou de conhecer o pai! - enquanto falava levantei a blusa e deixei a mão do João em  contacto directo com a minha pele e coloquei a minha por cima enquanto os dois babava-mos a minha barriga somos interrompidos
- Maria como estás? - a Teresa sorriu
- Mexeu mãe! - o João estava todo babado!
- Mexeu?! - perguntou a Teresa que sabia que era novidade
- Sim!- peguei no meu telemóvel e passei-o à Teresa - O vovó babada tire lá ai uma fotografia
- Vovó?! A sério que já resolveram isso? Ai que bom!! - ela deu-nos um beijo na bochecha - então como querem a foto?
- Só aqui as mãos!
A Teresa lá tirou a foto e assim que me deu o telemóvel de volta

Ao ler o que escrevi o João desatou a rir meteu “like” mas não partilhou pelo menos por agora, para evitar alvoroços
- Bem vocês  estão a precisar de meter a conversa em dia e a Maria parece que com a companhia já está melhor eu vou andando...
- Oh Teresa! Obrigada muito obrigada mesmo!! - abracei-a
- De nada querida... sempre que precisares já sabes... portem-se bem os três!
O  João despediu-se  da mãe e acompanhou-a  mesmo até à porta para voltar logo de seguida todo animado. Sentou-se ao meu lado na cama e depois de lhe ter contado 500 vezes como tinham sido estas 15 semanas e de ter explicado o que acabei por provocar ao Ruben e à minha prima resolveu voltar a focar-se na minha barriga e enquanto eu ria ele falava para ela
- Pipoquinha?! Vou-te contar quando apanhar o teu padrinho logo lhe digo... não tinha nada melhor para te chamar?!- falava indignado
- O Ruben pensou em normal ou cara de joelho, mas normal lá está é vulgar e cara de joelho é muito grande por isso olha...
- Desculpa fui uma besta!
- Pois foste! -  sei que ele pediu desculpas por se sentir arrependido, mas eu tinha ficado magoada e não ia fingir
- Desculpa a sério... não vai ser nada igual... aliás já te disse que tens a barriguinhas mais linda do mundo - falou fazendo aquilo que eu temia desde que entrou no quarto aproximando demais a sua cara da minha, aproximou até ficarmos a milímetros e quando tentou  beijar-me
- Não... nem penses... - voltei a cara - João uma coisa é o bebé ter o pai por perto outra coisa é....
- É...?
- Somos nós... desculpa mas não aguento outra noite de sonho para acordar num pesadelo... 
- Oh Maria mas...
- Não há mas! Estamos entendidos quanto ao bebé, mas o resto não vai mudar!
- Já viste que passaste metade deste tempo todo em Madrid? Porque não podes mudar o destino para Valência?
- Quem disse que não posso? Aqui é mais não quero! João quando te pedi tempo para digerir a informação e chegar sozinha a essa decisão obrigaste-me a reagir a quente! E sem qualquer pudor reagiste da mesma forma... continuaste a tua vida sem nem um “ai” e nem a porcaria da mensagem de boa sorte que me custou horrores enviar-te dignaste a responder! Já para não falar das tuas “amigas” sim que como pudeste ver eu o Sérgio somos mesmo AMIGOS. O Sérgio para mim está quase ao nível do Ruben, mas as tuas amigas...
- Já decidiste isso e não vais mudar mesmo... vais fazer o mesmo e manter a tua decisão por birra?
- Não vou fazer aquilo que neste momento é o  certo para mim... - estava a falar com ele e bocejar o medicamento tinha feito efeito e sentia o corpo a reagir positivamente - desculpa mas tou cheia de sono... tenho mesmo de dormir...
- Claro... mas vou ficar aqui...- olhei-o com má cara - nem me olhes assim  podes precisar de qualquer coisa a meio da noite...
- Como queiras sabes onde fica o quarto da Mari e onde estão as coisas...
- Não percebeste EU VOU FICAR AQUI - dito isto tirou a roupa ficando apenas de boxers e enfiou-se na cama, no lugar que sempre foi dele 
- Não tenho condições de discutir mesmo... - deitei-me de lado ficando de costas para ele e passados segundos senti-o aproximar-se, deu-me um beijo bem no canto da boca e depois voltou a colocar a mão na minha barriga 
- Boa noite
- Boa noite papá!
A manhã seguinte foi passada a dormir ou a fingir já que acordar até acordei, mas a conversa do João com a pipoca estava tão boa que decidi não atrapalhar e “acordei” só quando recebi uma chamada da Ana para saber como estava disse-lhe que estava bem, mas o João ao perceber quem era retirou-me o telemóvel e acabou por ser ele a relatar-lhe como tinha estado e mesmo que o bebé já se sentia a Ana acho que como eu percebeu a animação do papá e por isso mandou-me ir ao consultório na segunda logo de manhã.
A  tarde foi passada por casa com o João sempre colado a mim porque segundo ele tinha 15 semanas de atraso e pouco tempo para poder recuperar, era incapaz de lhe  dizer que me largasse  porque também eu estava a adorar e ainda fiquei mais feliz ao ver a alegria dos meus pais quando apareceram lá em casa e perceberam que o neto ou neta já tinha a presença do pai. Quando a noite chegou nem consegui dizer nada já que o João com a maior naturalidade voltou a deitar-se junto a mim.
Segunda começou cedo, despachei-me e fui com o João até ao consultório da Ana tal como previ aquela consulta era só mesmo para a nossa amiga perceber como nos estávamos  a entender e para que o  João pudesse ver o bebé
Confesso que não sabia para onde olhar se para o ecrã onde estava o meu bebé se para o João que estava vidrado no ecrã enquanto a Ana lhe explicava tudo o que se via, os olhos dele brilhavam e tinha um sorriso parvo na cara, mas que não disfarçava as lágrimas que tentava esconder, acabei por fazer aquilo que tinha jurado a mim mesma que não faria e em vez de evitar promovi um “pequeno” contacto físico entre nós, além da mão dele na minha barriga, e apertei-lhe a mão com a minha ele olhou-me sorriu e apertou de volta enquanto a Ana tentava decifrar se seria um menino ou uma menina a pedido do João
- Tal como eu disse, não consigo mesmo ver, mas daqui a duas semaninhas a menina tem consulta e ai na morfológica já devo ver
- Vês? Eu disse - brinquei com o João enquanto limpava o gel e ia até à secretária da Ana
O resto da consulta foi de pura conversa já que entre detalhes do historial clínico do João e “fofocas” para meter em dia ainda passamos alguns minutos. Quando sai do consultórios, e tal como estava desde a eco segui de mão dada com o João até ao carro e quando entrei desatei a rir feita parva
- O que foi?
- Tens muita pressa?
- Tenho de estar no aeroporto daqui a 2 horas porquê?
- O bebé quer pasteis de Belém! É habito depois da consulta da tia Ana comer pasteis  - disse a rir
- Então vamos lá!
Fomos até Belém e nem no carro separamos as mãos a não ser que ele precisasse mudar alguma mudança e de vez em quando ora ele ora eu apertávamos  um bocadinho, não se ouvia um “ai” no carro mas aquele silencio era maravilhoso.
- Ficas linda assim... - tirou-me uma migalha da cara - a atacares os pasteis!
- Não gozes a culpa é da pipoca e por isso tua! - falei ao mostrar-lhe a língua
- Falando de coisas sérias... como é que contamos?
- Contamos o quê?!
- Olha do bebé... de mim...
- Oh não contamos! Os meus pais já sabem, os teus também e outros logo vão percebendo!
- Nem para a Maria e para o Ruben?
- Desculpa?! Por eles podia ter morrido - disse a rir - A festa deve ter sido boa deve... mas nem uma sms para saber se estava viva mandaram... -gargalhamos os dois - além disso os dois  sempre tiveram 100% de certezas sobre esse assunto!
-  Lá isso! Sabes que o Ruben viu vídeos de partos...
- O Ruben é louco! - o alarme do telemóvel dele apitou 
- Está na hora de ir - disse perdendo o sorriso
- Vou-te levar ao aeroporto! - peguei nas chaves do carro e levantei-me do banco de jardim junto ao rio onde estávamos e segui-mos até à Portela onde ainda ficamos alguns minutos à conversa
- Liga mesmo!
- Assim  que aterrar é a primeira coisa que faço! - levantou-me a blusa 
- João!!! 
- Xiu vou-me despedir! - deu um beijo rápido na minha barriga e fez uma festa - Toma conta da mamã! Adoro-vos - voltou a beijar-me próximo de mais dos meus lábios - Promete que mandas as fotos?
- Sim... e também já prometi que ligo não já?!  - ele sorriu a acenou afirmativamente
- No Natal tou cá!
- Sim papá!  Boa viagem!
Ele acabou por seguir e eu fui até ao escritório,  onde a alcoviteira do  meu tio já esperava  que eu lhe contasse de onde tinha surgido aquele “papá” da foto.

Ruben
Estes dias têm sido horríveis e só piorou quando avisaram-me que a Mariana tinha estado no camarote a ver o jogo sem esperar por mim no final, rumei até casa e quando lá cheguei nem sinal dela, liguei-lhe diversas vezes sem sucesso uma vez que não atendeu, acabei por tentar a Maria, afinal a Raquel comentou que estavam juntas mas nem a prima atendeu.
Já estava a desesperar quando a Maria retornou a chamada, fiquei a saber onde estavam e confesso que apesar de resmungar com o facto de ter que satisfazer o seu desejo no meu intimo rejubilei... era a oportunidade que precisava para resolver as cenas com a mulher que amo por isso antes de sair de casa meti mesmo alguma roupa dentro de um saco e fui tratar de ir buscar o jantar para os três... sim que se tinha que ir lá... jantava com elas!
Fiz a viagem toda a pensar na melhor maneira de tocar no assunto sem magoar ainda mais a Mariana e apesar de ter imaginado várias formas nenhuma delas impediu que isso acontecesse, o meu amor reagiu mal à armação da prima e além de deixar-me a congelar do lado de fora da porta ainda conseguiu fazer pior quando ouvi o último desabafo dela... a Mariana estava a desejar morrer... sim morrer para deixar de sofrer e isso sim acabou com ela e comigo, se a Mariana mergulhou num choro sentido e bem audível, eu... eu simplesmente “engoli” uma por uma todas as palavras... todos os pedidos de desculpas... sabia que se continuasse a insistir nesta conversa que depressa virou discussão só iria estar a agravar mais a nossa situação por isso optei pela saída mais fácil e eficaz... peguei na Mari e levei-a até à cama, o meu amor estava sem forças e como tal nem resistiu, deitei-a e lá ficou a chorar até adormecer.
Fui jantar antes que desfalecesse e acabei por perder-me em pensamentos, revi mentalmente todos os acontecimentos que nos conduziram até aqui e acabei por chegar a uma conclusão. A ideia era conversar calmamente com a Mariana na manhã seguinte mas ficou mesmo pela intenção, uma vez que quando acordei ela já não estava e assim que chegou comunicou-me a frio que queria o divórcio, tentei de tudo para que desistisse da ideia mas dei-me por vencido, por muito que insistisse em tentarmos mais uma vez a Mariana estava irredutível e nem o facto da Maria e do João já estarem mais próximo fez com que vacilasse na decisão que tomou ainda no Gerês.
Nos dias seguintes assinamos os papéis do divórcio, nunca hei-de esquecer esse momento, senti-me lixo ao assinar aquilo, talvez por ter a plena consciência que a culpa em grande parte foi minha e só minha.
A Mariana regressou a Lisboa no mesmo dia e com ela levou tudo o que lhe pertencia mas que estava no meu apartamento, não deixou o mínimo sinal da sua passagem por Braga a não ser as fotos que tinha espalhadas pelas divisões.
Os dias seguintes foram um pesadelo, a sorte é que a interrupção do campeonato para o Natal estava próxima, caso contrário acho que até o lugar no banco de suplentes tinha perdido, simplesmente deixei de ter vontade para lutar pelo que fosse, ter a certeza que já não tinha a Mari à minha espera retirava-me as forças para enfrentar mais um dia.
E foi neste estado de espírito que cheguei a Lisboa onde tive que encarar a minha família e dar a novidade que de boa não tinha nada.

Será mesmo o fim do casal Ruben e Mariana? E o João e a Maria terão futuro a dois?



segunda-feira, 21 de janeiro de 2013

058 - "Oh Maria liga para a Ana mas não faças esforços..."


Mariana
Nas últimas duas semanas tentei desesperadamente procurar o lado positivo de toda esta situação mas juro que a cada dia torna-se mais complicado encontrá-lo, continuo a falar com o Ruben mas no fim de cada telefonema, conversa pela net ou até mesmo de ler uma simples mensagem dele a sensação que tenho é que o estou a perder para um filho que nem sequer é do Ruben.
Desde a última vez que esteve em Lisboa e depois daquele telefonema nunca mais tocamos no assunto mas também é verdade que não vejo o Ruben cara a cara desde esse dia, ele não conseguiu vir a Lisboa por causa dos jogos e eu... eu sinto-me sem forças para ir até Braga, para estar simplesmente umas horas com o Ruben e ainda por cima a ouvi-lo falar da pipoquinha.
Assim se passou duas semanas... estava a precisar de uns dias longe dos problemas e acabei por comentar com a Maria isso que para meu desanimo achou logo a solução...
- Já sei... prima estás é a precisar de ir apanhar os ares do Norte - olhei-a e sem conseguir evitar suspirei - que foi?
- Nada... é só cansaço - menti por não querer que a Maria percebesse que os ares do Norte neste momento não são de todo o melhor para mim.
- Por isso mesmo... que dizes de irmos ver o jogo do Ruben hoje e depois... olha depois podíamos aproveitar que estamos lá e ir até ao Gerês... tu adoras aquilo e assim descansas...
- E... ó Maria não me apetece...
- Oh deixa-te de coisas... pensa comigo... vês o Ruben, ele fica inspirado para o jogo e depois... depois tínhamos um fim-de-semana de primas... só as duas... para recordar aqueles que fazíamos quando estávamos em Faro...
- Ok... - respondi só para a calar.
- Então anda - puxou-me pelo braço - vamos fazer a mala que temos uma viagem pela frente...
Apesar de não ter vontade nenhuma lá fui eu até Braga, a Maria insistiu em levar o carro e mesmo sabendo que tinha “obrigação” de contrariar não o fiz. A viagem passou entre conversa e alguns momentos de pura reflexão, minha claro, porque a Maria quando não estava à conversa comigo estava a cantarolar as músicas que passavam na rádio, não sei o motivo mas estava de facto muito contente...
Chegamos a Braga em cima da hora de jogo e por isso fomos directas ao estádio, assistimos o jogo do camarote e quando terminou.
- Vamos?!
- Essa pressa toda é para quê? Tanto quanto sei o Ruben é sempre dos últimos a sair...
- Maria... nós temos uma viagem para fazer...
- E?!
- E... já é tarde...
- Então e depois?!
- Depois... olha depois não me apetece apanhar uma seca e além disso ele nem sabe que cá estamos por isso também não irá sentir falta...
A Maria acabou por se resignar e seguimos caminho, durante a viagem o Ruben tentou ligar-me mas para minha sorte tinha o telemóvel no silêncio e como tal fingi que não tinha visto, como não atendi insistiu mas agora para a Maria que se recusou a atender por ir a conduzir.
Chegamos e ao entrar no quarto deparei-me com algo que fez-me recordar os melhores momentos que já tive com o Ruben e por isso quando a Maria disse para ir primeiro que ela para o banho nem tentei fazê-la mudar de ideias, precisava de um momento a sós para arrumar as ideias mas principalmente as saudades dele... sei que a opção foi minha mas a verdade é que o Ruben também não fez nada nestas últimas duas semanas para alterar a situação.
Assim que apanhei-me sozinha fui vencida pela tristeza e chorei, há quem diga que quanto mais chora menos mija mas no meu caso é quanto mais choro mais vontade tenho para mandar a minha prima dar uma volta e reclamar os mimos do Ruben para mim...
Não sei o tempo que tive dentro da banheira mas quando saí já vestida e pronta para o tal jantar não encontrei a Maria, esperei uns minutos até que a vi entrar, questionei-a e fui informada que tinha ido procurar um sítio para jantarmos. Voltei a ficar a sós quando a Maria foi-se despachar e por sinal levou uma eternidade, tanto que já estava a stressar com ela e pior fiquei quando já estávamos no carro e a Maria se lembrou que tinha deixado o telemóvel em casa, resmunguei mas lá foi a Madre Santa buscá-lo...
Procurei-o em tudo o que era sítio e após uns minutos desisti, ela se o queria que o viesse buscar e quando abri a porta para sair dou de caras com quem não esperava.
- Tu?! - não sei se exclamei ou interroguei só sei que o Ruben respondeu
- Boa noite para ti também... e sim sou eu...
- O que é que estás aqui a fazer?
- Ao que parece vim trazer-vos o jantar...
- Ãh?!
- Sim... a Maria ligou-me a dizer que estava de desejo - interrompi-o
- Ah pois... como é que eu ainda pergunto o que é que estás aqui a fazer... realmente sou muito burra! - atirei ao passar por ele mas parei para - mas só para que saibas a Maria já decidiu onde vamos jantar por isso podes meter o que trouxeste no frio que fica para a amanhã...
- Espera!!
- Que foi?! - perguntei já nos últimos degraus que entretanto tinha descido
- Precisamos de falar...
- Não há nada a dizer... tenho a minha prima à espera... faz boa viagem no regresso a Braga!
- Mas...
Deixei-o a falar sozinho e caminhei até onde deveria estar a Maria à minha espera mas só encontrei o lugar que até à uns minutos era ocupado pelo seu carro vago, olhei em volta só para comprovar que realmente se tinha ido embora deixando-me para trás e por sinal com o Ruben, comecei imediatamente a praguejar e só não lhe chamei foi mãe! Afinal quem é que ela pensava que era para fazer estas merdas?! Se eu não andava a visitar o Ruben era porque não queria ve-lo e a única culpada de isso estar a acontecer era ela e a sua bem-dita gravidez! Quando este pensamento me surgiu mais uma vez fui incapaz de não me sentir um pequeno monstro, mas caramba era a minha vida que estava a virar-se de cabeça para baixo! Bem, mas ficar aqui a queixar-me não vai resolver nada, vou ter que entrar e encarar o “problema”, respirei fundo e quando viro-me para ir até casa...
- Bem parece que a pipoquinha não quis esperar...
- É seu caralho! Sai-me da frente - o Ruben gargalhou para no segundo seguinte e sem que esperasse puxar-me para ele beijando-me como há muito não o fazia ou então era mesmo só as saudades que sinto dele a provocar tal sensação, só sei que não tive forças para terminar o beijo, mas quando este terminou ele sentiu o peso da minha mão, podíamos estar casados mas ele que não pensasse que era chegar e aviar! Assim que ia a repetir o gesto agarrou-me a mão e voltou a unir os nossos lábios e quando já estava completamente entregue resolveu falar
- A Maria armou tudo... - foi as primeiras palavras do Ruben depois de uns minutos... sim minutos em que só nos beijamos - toma... - esticou-me um papel

- Não acredito nisto... ela não tinha o direito - barafustei apesar de, por dentro, estar em êxtase por o ter tão perto - mas quem pensa que é para pôr e dispor assim da minha vida!!!! - amachuquei o bilhete e depois de o jogar no chão deixei o Ruben “plantado” e subi as escadas o mais rápido que consegui, fechando-lhe a porta na cara...
- Mariana... abre!! - fiz ouvidos de mercador e fui ver o que tinha trazido para o meu jantar... sim meu já que a Maria tinha seguido para Lisboa... e por falar em Lisboa resolvi mandar-lhe uma mensagem sim que se lhe ligasse seria para mandá-la para um sítio nada agradável...

Fui curta e grossa mas estava mesmo chateada... não por a Maria dar-me a oportunidade de passar dois dias com o Ruben mas sim porque não se tem de meter na minha vida... se resolvi dar “um tempo” é porque estou tão mas tão confusa que já não sei o que pensar, o Ruben não quer filhos mas depois mima a Maria como se fosse o filho dele... isto sim está a dar cabo de mim... será que o Ruben só me quer pela metade?!
Estava novamente a divagar... completamente perdida nos meus pensamentos quando o ruído proveniente do meu estômago fez-me regressar à terra e apesar de continuar a ouvir o Ruben a pedir para lhe abrir a porta ignorei-o e fui jantar.
Comi nas calmas até porque voltei a perder-me em pensamentos, revi mentalmente todos os momentos que vivi do seu lado, os bons e os maus, e quanto mais pensava menos vontade tinha de deixá-lo na rua, afinal estava frio e... e ele é a pessoa que amo apesar de todos os seus deslizes...
Os minutos passaram e o coração venceu a cabeça, sim que se ouvisse a cabeça o Ruben ou regressava para Braga ou passava a noite no carro, resolvi abrir a porta e quando o fiz deparei-me com ele sentado nos primeiros degraus.
- Entra!
- Tens a certeza?! Vê lá posso continuar aqui... sim que mais uns segundinhos e começam a ser visíveis as estalactites no nariz!
- Entra! - parou de ironias e entrou - a casa de banho é ali! - olhou-me levantando a sobrancelha - Enfia-te imediatamente na banheira com a água quente!
- E quem manda és tu?
- Olha... faz o que quiseres... se queres gelar por completo força... se não quiseres faz o que te digo...
- Isso é preocupação?! Ou é só peso na consciência?!
- Tens o que sobrou do bacalhau em cima da mesa... isto se não quiseres morrer de fome... - virei-lhe as costas e quando já entrava no quarto senti os seus braços em volta da minha cintura - Larga-me! - sacudi os seus braços - Posso estar preocupada contigo mas isso não é sinónimo de que podes chegar aqui e usar... - teria continuado a dizer um monte de disparates mas o Ruben levou a mão à minha boca e obrigou-me a calar

- CHEGA!! - retirou a sua mão da minha boca e virou-me encostando-me à parede de forma que não conseguisse fugir - Foda-se estou farto desta merda toda... Eu casei contigo não foi com a tua prima... é ao meu lado que devias estar mas é a Maria que te tem... és tu que quero para mãe dos meus filhos mas é ela que está grávida... e sinceramente ainda não consegui entender esses ciúmes parvos... que te levam a dizer algo tão estúpido como “... em Maio conversamos...” Mariana tens noção como é que me senti ao ouvir isso? Pior ainda quando sugeriste que se não aguentasse que tinha autorização de pular a cerca... ou ainda quando vejo que estás tão ou mais na merda do que eu mas porque és teimosa não o reconheces e por isso estamos assim?!
- É isso que achas? Que não tenho motivos para estar a sentir-me lixo? Ruben não duvido que algures aí dentro continues a sentir o mesmo amor por mim como sentias no dia que casamos mas há muito que deixei de ser amada, acarinhada, até mesmo idolatrada para passar a ver-te SEMPRE e quando digo SEMPRE não estou a exagerar de volta da Maria... Ruben queixas-te que resolvi meter o nosso casamento em stand-bye mas foste tu que o colocaste... perdi a conta às vezes que passava horas à tua espera mesmo que isso implicasse ficar acordada até de madrugada para depois ver-te a correr para o quarto da Maria ou a passares horas na conversa com ela enquanto eu... eu tinha só direito a receber um beijo rápido e depois encontrava-te de vez em quando na cama... mas pior... é que só quando ficaste mesmo sem esse de vez em quando é que resolves acordar e reclamares os teus direitos enquanto marido... pois mas o tempo em que a mulher era criada para seu USADA pelo marido já lá vai... não tenho poder de encaixe para tanto...
- Mas tás parva? Porra Mariana estou a km’s de distancia de tudo e todos, sinto-me a enlouquecer de saudades tuas! E sempre que chego a Lisboa é com o pensamento de as matar, mas tu sabes perfeitamente que não tem sido possível... Mariana a tua prima precisa de nós! E o João também! Por muito que queira deixa-la sofrer as consequências das decisões completamente irresponsáveis que tomou, não consigo e não consigo porque sei que precisa de NÓS! Ou melhor porque precisa do João! E mais o próprio João precisa que façamos isso por ele! Mariana o João faz-se forte e usa o estar longe para disfarçar, mas está literalmente na merda... e eu não sei outra forma de o ajudar a não ser substitui-lo... garantir que quando aquelas duas cabeças duras se entenderem tenham que se preocupar só com o que por ai vem...
- E o que é que vem aí?! - não o deixei responder e mesmo por entre um choro que se tornava cada vez mais intenso - É o filho e a felicidade DELES... sim porque a nossa não é de certeza... Ruben eu não aguento mais... dói demais ver-te a mimares a Maria mesmo sabendo que é minha prima e que só o fazes porque tal como eu queres o melhor para ela mas EU JÁ NÃO SEI VIVER SEM TI... tiraste-me essa capacidade... fragilizaste-me tanto que fiquei completamente dependente de ti... que agora... agora... só quero MORRER para deixar de sentir-me a pior pessoa por estar com ciúmes da minha prima ou por invejar aquela gravidez...
Sucumbi ao choro e à dor que senti ao admitir que prefiro morrer do que continuar assim mas o pior é que não o disse da boca para fora... aquilo saiu-me do coração e não sei se foi por isso ou se foi simplesmente porque o Ruben não sabia o que fazer para acalmar-me, só sei que pegou-me ao colo e levou-me até à cama onde acebei por adormecer após muitas volta e reviravoltas.
Acordei no dia seguinte e com uma única certeza... a decisão teria que a tomar hoje por isso levantei-me sem fazer barulho, vesti-me e saí de casa, fui caminhar e após horas a andar sem destino regressei a casa já com a minha posição tomada. O Ruben bem tentou convencer-me a desistir mas foi incapaz e nos dias seguintes acabamos mesmo por nos divorciar e cada um seguiu o seu caminho...

Maria
Acordei sobressaltada com o toque do telemóvel e atendi automaticamente
- om aaa - foi o que se ouviu daquilo que foi a tentativa de “bom dia”
- Maria és tu? - reconhecia a voz da Teresa, tentei responder, mas não consegui - Maria está tudo bem?
- Ter...a ou uuu im - as palavras saiam só às metades e a garganta doia-me horrores engoli alguma saliva o que aumentou a dor mas permitiu falar um pouco - Acho que só estou com uma grande constipação... 
- SÓ?! Maria tu nem consegues falar! Já estás a tratar disso?
-Acabei de acordar... ouu igar a Ana paaaa ver  o que posso azer e se conseguir vou fazer um chá
- Oh Maria liga para a Ana mas não faças esforços, pede antes que a Mariana te leve o chá
- A minha prima não está!
- Estás sozinha?! Vou já para ai não vais ficar sozinha!
- Oh Teresa não é preciso! Eu desenrasco-me!
- Não está em discussão é só o tempo de ai chegar!
Dito isto desligou-me  o telefone, como estava com dificuldade em falar preferi mandar um sms para a Ana a explicar o que sentia, ela respondeu da mesma forma e avisando logo que não me queria a forçar a voz, nem qualquer outra coisa. Pediu-me para ficar de molho e para trocar qualquer medicamento por chá, muito chá e agua, além de sopas. E  que segunda feira quando voltasse com o Fábio do fim-de-semana romântico me ligava para me “avaliar” mas que caso algo piorasse eu ligasse imediatamente.
Quando acabei esta troca de sms’s com a Ana a campainha tocou arrastei-me até ao interfone e confirmei que era a Teresa abri a porta e ela assim que entrou
- Maria querida vamos já para a cama olha para ti... - beijou-me a testa - estás quentinha, vamos ver essa febre... - chegamos ao quarto - Já comeste?
- Não... estive a falar com a Ana
- E o  que ela te disse?
- Que ficasse “de molho” e que me entregasse ao chá e às sopas... e que se não aliviasse que segunda-feira ela vem cá, mas ela está fora com o Fábio também não quis atrapalhar... e o mesmo serve para si...
- Caladinha... - colocou-me o termómetro e aconchegou-me na cama - pois é febre... eu vou invadir-te a casa, mas tu precisas de cuidado e eu vou ficar aqui até teres quem cuide ou até ficares boa! - saiu do quarto e voltou com umas toalhas molhadas que me colocou na cabeça, para voltar a sair e voltar minutos depois com um chá e umas torradas que me forçou a comer.
- Teresa não precisa ficar a sério... não lhe quero empatar o fim de semana...
- Não empatas nada, assim fazemos companhia uma à outra e sempre nos podemos conhecer melhor... afinal conhecemos-nos à tanto tempo e no fundo pouco sei sobre ti... - ela foi interrompida pelo toque do seu telemóvel e acabou por ir até à sala para atendê-lo. Não me lembro de a ver ou sentir chegar novamente ao quarto já que devo ter adormecido.

João
Tinha voltado de Portugal há duas semanas e cada vez dava mais  por mim a pensar na Maria, não com a magoa que sentia pela forma egoista com que encarou esta mudança, mas sim com saudade e com outra magoa... a magoa de não estar a acompanhar aquela gravidez...
E para ajudar a minha mãe tinha decidido passar a ser uma das melhores amigas da Maria e sempre que falava com ela ligava-me a contar a novidades, mas já há uns dias que não me diz nada por isso decidi ligar-lhe eu.
- Olá filhote! Como estás? - disse assim que atendeu
- Eu bem... tudo na mesma…
- Sei...
- Que sei foi esse está mesmo tudo bem mãe e contigo?
- Sim está tudo bem comigo...
- Liguei para casa e não estava ninguém
- ah é que não estou em casa...- esta resposta pareceu-me uma forma de me despachar mas resolvi insistir
- Isso já percebi, onde é que andas?
- Estou em casa da Maria...- da Maria?!
- Da Maria... a Maria grávida... a minha Maria?!
- Sim João dessa Maria mesmo!...
- E posso saber o que fazes ai?  Oh mãe no que te estás a meter?
- João a Maria está doente!...
- Doente? Com o  quê?
- Uma grande constipação e a garganta completamente inflamada!...
- Ah só isso... - não liguei porque a Maria nesta altura do ano é certo que fica assim e o tratamento é sempre o mesmo - é normal nela.. uns brufen’s e uns  ben-u-ron’s o fim de semana de molho e fica “nova”
- Não João ela não pode tomar nada disso!...
- Então se não pode como é que se cura? O bebé não pode ficar afectado com isso?- comecei a preocupar-me
- Com chá... sopa... e mimo!- chá e sopa não é comigo, mas mimo...- O principal problema é a febre! De resto só mesmo o ela não comer
- E porque é que tu estás ai?
- A Mariana está em Braga com o Ruben a Maria está sozinha e eu vim...- a sério que o Ruben e a Mariana a deixaram sozinha?! E eu que contava com eles para tomarem conta dela por mim!
- Sozinha?! Mãe não saias dai! - tomei uma decisão louca, mas eu não aguentava - Eu... eu estou ai antes do fim do dia!
- João calma!- sim claro primeiro rebenta a bomba e depois pede calma!
- Tou a ir!
Assim que desliguei a chamada já tinha a viagem seleccionada na net, liguei ao clube e informei que tinha assuntos pessoais urgentes a resolver em Lisboa e deram-me permissão para me ausentar.
Voei para Portugal durante a tarde e perto da hora do jantar já estava em Lisboa, mais precisamente na porta da casa da Maria, mas antes de entrar ainda fiquei lá parado quase uma hora só a olhar para a porta tentando arranjar nada mais nada menos que coragem para lhe exigir que ela confirmasse que aquele filho era meu e mais que me deixasse acompanhar o seu desenvolvimento desde o principio, desde agora...
Não sei se quando chegar à sua frente teria coragem para lhe obrigar a fosse o que fosse porque nos conheço aos dois e a Maria quando está assim fica um farrapo e eu... eu quando a vejo assim só consigo fazer-lhe as vontades... Respirei  fundo e toquei a campainha...
Quem atenderá a porta? Como reagirá a Maria à presença do João? E o Ruben e a Mari... será mesmo o fim?