quinta-feira, 24 de janeiro de 2013

061 - "que seja infinito"


Mariana
Desde que sou oficialmente divorciada que os meus dias se resumem a casa trabalho, trabalho casa. 
Os dias passam e a sensação de vazio é cada vez maior, principalmente quando encontro a Maria pela casa feliz da vida, a sensação que tenho quando a vejo é a que estão a trespassar-me com facas, a verdade é que não deixa de ter culpa em tudo o que se está a passar comigo e parece que não é nada com ela.
Decidi gozar os meus últimos dias de férias e como tal fui até Faro, afinal Algarve é sinónimo de refúgio para mim, foi lá que vivi durante anos, anos esses em que consegui por momentos abstrair-me do Ruben e foi à procura de momentos desses que fui.
Diverti-me imenso ou melhor fingi que estava a divertir-me mas no fundo estive só a adiar o inadiável, pois no momento que regressei a Lisboa fui invadida pelo mesmo sentimento de culpa e falhanço com que vivi nas últimas semanas.
Hoje, véspera de Natal, o meu desejo resume-se a desaparecer da face da terra, sim pode ser exagerado mas é o que sinto, dói cada vez mais a ausência do Ruben, um mimo ou simplesmente um “amo-te” proferido à distância de um telefonema, o vazio que sinto dentro de mim é cada vez maior e está a arrastar-me para um poço sem fundo, no entanto e mais uma vez, fiz o esforço de fingir que estou a reagir, este ano a noite será na casa do meu tio e apesar de não ter grande vontade apareci mais cedo.
A tarde foi passada entre muita conversa mas nunca o tema Ruben surgiu, talvez por ter mentido, há uns dias, quando a minha tia perguntou o porquê dele não vir ao jantar e lhe disse que tínhamos decidido passar com as respectivas famílias. A verdade é que não percebo como é que ainda acreditam em mim quando ando visivelmente na merda mas ainda bem que assim é, não estou com paciência para grandes explicações e muito menos para ouvir o meu pai.
A noite chegou e com ela o momento do jantar, estávamos todos à mesa quando e sem contar a minha prima Matilde resolve questionar o motivo pelo qual o Ruben não estava presente.
- Matilde, o Ruben está a jantar com a família dele...
- Ohh mas tu agora também és família dele - a perspicácia da miúda atingiu-me de uma forma que não consegui segurar as lágrimas - porquê que estás a chorar? - perguntou preocupada mas não respondi, aliás saí da mesa sem pedir licença.
Fui até ao jardim, precisava de uns minutos a sós antes de comunicar o fim do meu casamento, não adiantava continuar a negar o óbvio e um tempo depois, que afinal foram mais do que pensei pois quando voltei a entrar em casa já tinham terminado de jantar.
- Preciso dizer-vos algo - falei assim que entrei na sala onde encontrei a minha família que olharam-me imediatamente - sei que já vos devia ter dito mas... - não consegui continuar a falar, verbalizar que divorciei-me era para mim o final deprimente de um amor que tinha tudo para ser eterno.
- Prima... - a Maria veio ao meu encontro e abraçou-me mas até aquele gesto de carinho meteu-me nojo, afinal era culpa dela
- Larga-me! - não pedi mas sim ordenei, a minha prima olhou-me com tristeza e culpa, aliás é algo que tem feito desde que lhe comuniquei que divorciei-me.
- Mas afinal o que se passa? - o “velho do Restelo” foi quem falou para admiração de todos - O que é que aquele playboy fez?! - ouvir tal coisa feriu-me ainda mais, ainda assim
- Páre! Páre de falar assim - as lágrimas escorriam-me pela cara - chega... não aguento mais, você sempre teve contra mas pode descansar finalmente porque já sou uma mulher divorciada! - percebi pelo rosto de TODOS que não esperavam tal coisa.
- Sempre tive razão! - como é que simples palavras podem magoar tanto - Aquele fedelho nunca gostou da Mariana! Mas parece que fui o único a ver isso... espero que tenha sido um abre olhos e que para a próxima oiças o que tenho a dizer! - a arrogância com que falou foi o limite dos limites e que levou-me a explodir de vez.
- Para a próxima? Qual próxima? Aquela que não vai haver porque primeiro amar verdadeiramente só se ama uma vez e eu AMO o Ruben, segundo não vai haver próxima porque simplesmente NUNCA mas mesmo NUNCA lhe vou dar nova hipótese de me magoar, até pode estar cheio de razão mas tinha mesmo que dizê-lo quando estou na merda por ter perdido a única motivo para viver? Você não é pai... você nem o significado da palavra amar sabe por isso é que nunca apoiou a minha decisão de ficar com o Ruben...
Falei por entre saluços, estava literalmente no fundo do poço e nem a presença da Matilde fez com que lutasse para esconder a realidade, vi a tristeza no rosto da maioria da minha família mas também alguma surpresa e só percebi o motivo quando virei-me para sair da sala por não conseguir ficar sob o olhar de “pena” deles.
- Mariana preciso falar contigo... - não reagi porque simplesmente não tinha forças para tal - por favor! - respirei fundo - Mariana não vou desistir de NÓS! - ouvir tal coisa revoltou-me tanto que acabei por desabafar
- A sério?! A sério que não vais desistir de nós?! - perdi a noção do tom de voz há muito que andava a controlar-me mas ouvir tal mentira fez-me perder as estribeiras - Realmente não podes desistir de nós porque isso pressupõe que ainda existe um nós... mas esse destruíste quando meteste a Maria em primeiro plano, quando passaste a viver em função de uma gravidez da qual não és responsável, quando negaste vezes e vezes pensares sequer em ter um filho TEU - o Ruben baixou o olhar - mas sabes o que doeu mais, sabes? - gritei - Responde!
- Não - murmurou ainda assim não ficou sem resposta
- O que doeu e fez com que tomasse a decisão de divorciar-me de ti foi o precisar de ti, dos teus mimos e sentir-me a pior pessoa por querer algo tão banal como sentir-me desejada pelo meu marido, senti-me egoísta por querer o que a Maria está a viver, perdi a conta às vezes que desejei ser eu a estar no lugar da Maria, vi-te a mimá-la e eu... eu ficava simplesmente com os restos... Ruben viveste os últimos meses em função da Maria e da pipoquinha quando ela só se tinha que virar, ser mulher, meter o rabo entre as pernas e falar com o pai do filho dela, algo que acabou por fazer mas tarde demais! Não aguentei esperar por ti, não aguentei magoar-me mais e mais a cada dia, mas o erro foi meu, quis proteger tanto a Maria que compactuei com a loucura dela e fui arrastada para o abismo, sim saltei porque se não o fizesse era bem capaz de cometer alguma loucura...
- NÃO! Não digas isso... só saber que pensaste mata-me por dentro - os olhos do Ruben brilhavam talvez por estar a controlar-se para não chorar - Mariana és a MINHA VIDA... é verdade não te dei valor nos últimos meses mas és o ar que respiro... és a minha essência... és aquela por quem o meu coração bate todos os segundos... és aquela que é capaz de enlouquecer-me só com um beijo mas também quando encascas nessa cabeça que só te quero usar... levas-me ao desespero e ao êxtase em segundos... PORRA ÉS A RAZÃO DO MEU VIVER... não podes desistir assim... nós amamo-nos e não tentes negar isso porque se não existisse amor não estaríamos os dois mal como estamos...
Mariana, lutamos para esquecermos o sentimento que nos unia, luta essa ingrata porque só serviu para nos magoarmos, vivemos na ilusão e a iludir outras pessoas, reencontramo-nos anos depois para nos voltarmos a magoar pois teimávamos em não reconhecer que o sentimento que nos uniu na noite do baile de finalistas continuava tão ou mais acesso como naquele dia que nos despedimos antes de ires para Faro, acabamos por ceder e envolvemo-nos várias vezes, acordamos viver uma amizade colorida quando na verdade sempre foi amor, sim porque de todas as vezes que nos envolvemos nunca foi para temperar o corpo mas sim para voltarmos a sentirmo-nos amados, porque se fosse pelo sexo em si tínhamos onde o ir buscar - olhava-o na expectativa de saber até onde iria - mas como nunca fomos adultos o suficiente voltamos a afastarmo-nos quando revelaste algo que poucas pessoas sabem - tremi ao ouvi-lo - ainda assim procuraste-me quando soubeste que estava no hospital, apoiaste-me mesmo depois de ter sido um otário e te ter magoado com o que falei, mais uma vez acabamos por ceder para dias depois estragar tudo ao não admitir que namorávamos, ficámos meses afastados até finalmente reconhecemos que nos amamos, nessa altura colocaste o meu amor à prova, prova essa que acabamos por vencer e nem o facto de termos o teu pai contra mudou alguma coisa, lutaste contra ele, apoiaste-me incondicionalmente quando mais precisei, aceitaste casar e cortaste relações com o teu pai por isso Mariana não consigo tolerar a ideia de perder-te... não desta forma tão estúpida... Porra AMO-TE tanto e sim errei e muito quando parti do pressuposto que te tinha para sempre, reconheço que não te dei o devido valor... se quiseres que implore eu imploro mas não me deixei, não te dês por vencida, juntos conseguimos recuperar desta fase má... - já há muito que as lágrimas escorriam pelo meu rosto, tê-lo diante de mim mas principalmente com a minha família a assistir ele a admitir tudo fez-me perceber que se chegamos até aqui o erro foi tanto dele como meu, porque também não fiz grande coisa para mudar... - Mariana - agarrou-me as mãos - não desistas... - interrompi-o.
- Ruben não aguento mais - as lágrimas que há muito tentava segurar molharam-lhe o rosto, percebi que não tinha entendido o que estava a dizer por isso - não consigo continuar assim... - levei as mãos ao seu rosto limpando-lhe o rosto húmido - preciso de ti... dos teus mimos... do teu amor, de te ter perto de mim todos os dias e sim estou a ser o mais egoísta possível mas a minha prima que atine, que corra atrás de quem ama e ele.. ele que deixe de ser cona de sabão, até parece que não tem os tomates no sítio, e lute para recuperar a mulher que ama - o Ruben sorriu mas ouvi o que não esperava
- Lamento... mas tenho de discordar - a desilusão apoderou-se de mim mas... - se há coisa que o João tem no sítio são os tomates e já sei disso desde o tempo do Benfica mas se ainda assim tiveres dúvidas basta olhares para a barriga da tua prima...
Acabei por rir, não pelo que falou mas por ter olhado no exacto momento em que, o Ruben, falava para a minha família e ter visto a cara de desagrado do meu pai ao ouvir tal disparate, ainda assim senti necessidade de esclarecer...
- Ruben... e agora? Como é que vai ser? - sorriu-me e que sorriso...
- Agora?! Agora vamos deixar de ser parvos e de nos magoarmos - olhou-me com uma intensidade tremenda - Mariana, vamos deixar que os outros resolvam os seus próprios problemas que nós temos os nossos e não são tão poucos quanto isso... A Maria tem o João que pode muito bem cuidar dela? E quanto à pipoquinha... essa está muito bem dentro da barriga da sua mãe e não será mais tema de discórdia entre os seus padrinhos... Mariana foi preciso quase perder-te para perceber o quanto deixei-me envolver pela gravidez da Maria, que mesmo não sendo o responsável acabei por tomar as dores do João - suspirou - desculpa... desculpa porque acabei por esquecer-me de ti talvez porque calhei no erro absurdo de pensar que te tinha como garantida... quando basta um acumular de situações para desgastar uma relação e levá-la ao extremo...
- Promete... - não consegui continuar a falar porque o Ruben simplesmente puxou-me para ele beijando-me, sentir de novo os seus lábios fez-me sentir novamente viva, foi minha a iniciativa de prolongar ao máximo aquele momento e só separamos as nossas bocas quando precisamos de ar.
- Prometo tudo o que quiseres - sorri ao ouvi-lo - mas promete tu também que se houver algum momento em que sintas que não estou a dar o máximo que falas comigo imediatamente, não deixes arrastar a situação porque não vou aguentar passar pelo mesmo que passei nestes últimos dias...
Não lhe respondi por palavras mas sim por actos, beijei-o novamente para depois o arrastar comigo, precisava urgentemente de estar a sós com ele e por isso fomos até ao piso superior.

Ruben
A mensagem que recebi do João com uma simples frase

recordou-me o colar que ofereci à Mari no primeiro Natal depois do seu regresso a Lisboa fez-me perceber que tinha de reagir, fui até à casa do Jorge e assim que cheguei toquei à campainha, quem abriu a porta foi a empregada do Jorge, cumprimentei-a e fui até à sala onde ao entrar ouvi as palavras do Manuel, a filha estava desfeita mas ainda assim não perdeu a oportunidade de lhe jogar à cara que sempre teve razão, no entanto a Mariana surpreendeu-me com o que falou, apesar de estarmos separados defendeu-me, ouvir tais palavras só serviu para reforçar ainda mais a minha intenção de resolvermos tudo, pedi-lhe para falarmos e ao contrário do que tinha em mente a conversa foi em frente da sua família mas confesso que abstrai-me desse detalhe no instante que comecei a falar tudo o que tinha entalado.
Os minutos seguintes serviram para perceber verdadeiramente todo o mal que lhe fiz, sem intenção magoei-a imenso e cheguei a ter medo que não houvesse volta a dar mas mais uma vez a Mariana cedeu, talvez porque no fundo nos amamos e isto não passou de mais uma crise.
- Posso saber o que estamos aqui a fazer?! - perguntei abraçado a ela e com a minha boca a percorrer-lhe o pescoço.
- Pára! - soltou-se dos meus braços e afastou-se.
- Desculpa - aproximei-me dela e voltei a rodear o seu corpo com os meus braços - mas as saudades são mais que muitas...
- Também tenho saudades mas não te trouxe aqui para isso! - olhou-me - só preciso ficar assim abraçada a ti mas sem o olhar da minha família sobre nós...
Fiz-lhe a vontade e acabamos por nos deitarmos na cama, onde passamos os minutos seguintes a trocar alguns mimos, simples beijos ou carícias mas acabamos por ser despertados para a realidade quando vimos a Matilde a entrar no quarto.
- Prima!!! Anda lá abaixo para eu ver as minhas prendas que a mãe não deixa desembrulhar se não tiveres lá...
Sorrimos ao ouvi-la e acabamos por segui-la sem hesitarmos mas assim que entramos novamente na sala senti o olhar da sua família em cima de mim, principalmente do seu pai, ainda assim fiz o esforço de disfarçar o desconforto que senti e sentei-me do sofá, já a Mariana preferiu o meu colo ao lugar vago que havia do meu lado mas se pensava que iria ficar por isso mesmo enganei-me...
- Não mudas mesmo… - a Maria meteu-se com a Mariana assim que colou os seus lábios aos meus.
- Dói-te alguma coisa, é?
- Não… mas podias evitar certo tipo de cenas como sentares-te ao colo do Ruben e pior ainda se beijarem à frente do tio quando sabes perfeitamente que detesta este tipo de manifestações de carinho…
- Temos pena! Também não gosto de muita coisa e tenho de comer! Além disso tenho saudades do Ruben...
- Não digo mais nada mas depois não te queixes quando o tio armar a barraca!
- Ah… isso descansa que se há coisa que o velho do Restelo não arma são barracas… ainda para mais à frente dos outros… - percebemos o sentido que a Mari deu à palavra quando pronunciou “barracas” e por isso acabamos por gargalhar e só não lhe respondemos porque a sua tia iniciou a distribuição dos presentes.
Os instantes seguintes foram para observar a alegria da Matilde ao ver os presentes mas a surpresa da noite tive-a quando a miúda após estar já à diversos minutos a brincar com os seus brinquedos novos perguntou algo que apanhou-me a mim e à Mariana desprevenidos.
- Oh prima - olhou para a Mariana - tu tavas chateada com o Ruben? - é incrível como uma simples perguntar despertou o interesse da família toda
- Sim!
- E agora já não tás?
- Não.
- Tu casaste com o Ruben não foi? - a pergunta da Matilde reabriu uma ferida que estava longe de ficar sarada ainda assim a Mari respondeu-lhe serenamente.
- Sim!
- Então porquê que não usas uns anéis como o papá e mamã usam?
- Matilde a prima e o Ruben somos diferentes... - a Mariana estava numa de fugir às perguntas da miúda mas esta não facilitou
- Foi por isso é que não fui ao teu casamento? É por serem diferentes que não quiseram ninguém?
- É mais ou menos isso...
- Mas eu gostava de chamar primo ao Ruben, posso?
- Se o Ruben não se importar, podes!
- Tu deixas não deixas? - perguntou agora virada para mim.
- Sim! - respondi prontamente para ver se ela parava com as perguntas mas e ao contrário do que desejava continuou tocando num assunto delicado.
- Fixe... mas prima quando é que vais ter uma barriga assim como a da prima Maria?! - a pergunta da miúda voltou a despertar a atenção dos presentes pois o barulhinho de fundo acabou imediatamente.
- Oh minha piolha isso ainda não está nos nossos planos - tentou acabar ali com o assunto mas…
- Porquê? É tão giro… - a Maria sorriu
- Giro?! Sei… - deixei escapar o que fez a Mari olhar-me
- Oh Matilde porque o Ruben não está em Lisboa e agora vou buscar alguma coisa para comer!
A Mariana fugiu assim à curiosidade da Matilde que acabou por ir brincar com as suas bonecas e assim que se afastou
- Continuas com essa ideia de não quereres filhos?!
- Não comeces…
- Desculpa mas primo desde que soubeste que estou grávida andas a babar na minha barriga e não venhas dizer que é mentira porque sabemos bem que é verdade… tanto que é que vocês separaram-se...
A Maria teria continuado mas houve algo que nos despertou a atenção...

Mariana
A noite de consoada estava a ser surpreendente, primeiro pela “visita” inesperada do Ruben e tudo o que daí resultou e segundo pela insistência da Matilde em falar sobre o casamento que já não tem efeitos legais e depois sobre filhos, mais uma vez o Ruben magoou-me com a falta de vontade em discutir o assunto.
Como não queria continuar a levar com as perguntas da Matilde resolvi ir até à mesa dos doces e foi quando deixei todos a olharem-me, afinal pedi à minha tia que colocasse uma rabanada no meu prato por estar mais perto delas.
- Que foi? Está tudo a olhar-me porquê?
- Filha nunca gostaste de rabanadas!
- Ai… oh mãe mas hoje apetece-me!
- Estás bem dessa cabeça?! Oh prima aqui a grávida sou eu… supostamente sou a única - a minha prima fez uma pequena pausa o que criou uma certa desconfiança no ar - que posso ter desejos estranhos… sim porque sou a única grávida, certo?! - a insinuação e/ou interrogação dela deixou a nossa família toda a olhar-me incluindo o Ruben e por isso mesmo resolvi...
- Isso agora… não achas que estás a querer saber muito…
- Mariana?! - olhei para o Ruben
- Que foi?
- Nem brinques!
- Sim… sei que não queres mas quem anda à chuva molha-se e olha que temos um bom exemplo disso aqui nesta sala... - o Ruben olhou-me nada satisfeito com o rumo da conversa, até porque se fosse verdade e tivesse mesmo grávida já estaria de mais de oito semanas, dado que não nos envolvemos há quase dois meses - mas podes ficar descansado que só me apeteceu uma rabanada mas se isto vos faz assim tanta confusão fiquem lá com as rabanadas todas que viro-me para os outros doces!
Assim que falei escolhi o que me apeteceu e quando já regressava para junto da Maria o Ruben colocou-se à minha frente.
- Tinhas mesmo necessidade de dizer aquilo?!
- Não vais começar, pois não? Foi só uma brincadeira…
- Sem piada nenhuma!
- Fonix… sei que não queres ser pai de um filho meu mas também não precisas fazer de uma brincadeira inocente um drama! - respondi com sete pedras na mão.
- Primeiro a questão não é essa - o Ruben olhou-me - sabes bem que quero ser pai dos TEUS sim TEUS filhos porque quero ter mais que um mas também sabes que esse planos serão para daqui a um tempo!
- Pois… deve ser quando tiver idade para ser avó dos filhos da Maria mas tudo bem… deixa que enquanto não sou avó dos filhos dos outros serei madrinha…
Assim que lhe respondi virei costas e fui até ao jardim, apesar do frio que se fazia sentir precisava de arejar os neurónios ou até mesmo congelá-los para não voltar a chatear-me a sério com o Ruben.
- Posso?!
- Ruben... o que queres?
- Importaste de regressar lá para dentro?
- Preciso de uns minutos a sós... já vou ter contigo!
- Tudo bem... mas tens a nossa família - foi impossível não o olhar quando ouvi o “nossa família” - lá dentro à tua espera!
- Já vou... a sério.
O Ruben já não insistiu mais, deu-me um leve beijo e entrou em casa para regressar logo depois com o meu casaco que colocou pelas minhas costas, de facto conhece-me e sabe que aquele “já vou” seria mais longo do que o suposto.
Não sei o tempo que estive no jardim só sei que quando entrei ouvi vozes vindas de outra divisão da casa que despertou-me a atenção, aproximei-me e encontrei o Ruben à conversa ou diria antes a ouvir uma data de disparates do meu pai.
- … sempre tive razão, não és homem para a minha filha!
- Engraçado... você também não é pai para a filha que tem! Mas que moral tem você para julgar-me quando há meses que não fala com a Mariana e nem depois de vê-la mal conseguiu ter uma palavra de apoio!
- Sou o pai dela...
- Não parece nada! Pai que é pai quer o melhor para os filhos e tudo bem você até pode achar que o melhor não sou eu mas caramba não teve já tempo suficiente para perceber que nós nos amamos, da nossa forma é um facto mas amamo-nos ou acha que conseguimos chegar até aqui por mero acaso?! Acabou de saber que nos divorciamos mas testemunhou de imediato a nossa reconciliação, viu o quanto mal a Mariana estava e em vez de a apoiar ainda espezinhou mais... se conhecesse a sua filha verdadeiramente sabe perfeitamente que não é pessoa de se deixar levar facilmente por isso se está comigo, se resolveu dar nova oportunidade ao nosso amor é porque existe mais na nossa relação do que o que você pensa!
- Se a amasses assim tanto não lhe negavas um filho! - ouvia a conversa escondida queria saber até onde iriam aqueles dois - E até digo mais se a amasses como falas nunca terias colocado a gravidez da Maria à frente do vosso casamento.
- Não nego que dei demasiada atenção à Maria e sim isso arrastou-nos para o abismo, as minhas atitudes magoaram muito a Mariana, tanto que pediu-me o divórcio, ouvi-a dizer algo tão doloroso como preferia morrer a continuar assim e foi só por isso que assinei os papéis, a última coisa que queria era levá-la a cometer algum disparate mas apesar de tudo hoje presenciou a nossa reconciliação porque nos amamos e quanto ao filho você não tem nada com o assunto mas que fique esclarecido que só não quero ser pai enquanto tivermos afastados... é horrível só poder ver a barriga crescer de quinze em quinze dias ou saber que há uma consulta e que estou em estágio ou nos jogos fora... é doloroso pensar que pode acontecer alguma coisa e não vou estar presente... sim... são estas as razões que estão na origem de negar-lhe um filho e nunca o não amar a Mariana!
O Ruben assim que terminou de falar virou costas e regressou à sala, segui atrás dele mas sem deixar que percebesse e quando entrei fui sentar-me ao seu colo, algo que o surpreendeu mas ainda assim não o impediu de mimar-me ao ponto de dar-me alguns beijinhos discretos que por sinal adorei.
As horas passaram e o momento de despedir-me da minha família chegou, distribuí beijinhos por todos à excepção daquele a quem deveria chamar de pai. O Ruben acabou também por seguir o meu exemplo e saímos finalmente.
- Queres ir até lá a casa? - notei algum receio no seu tom de voz.
- Ruben - suspirei - não sei se é boa ideia...
- Porquê? - aproximou-se perigosamente de mim.
- Porque apesar de te querer e muito sinto que preciso de espaço para organizar a confusão de sentimentos que vai dentro de mim...
- Estás a querer dizer que queres continuar separada?
- Não! Quero dizer que preciso de espaço para assimilar tudo o que dizemos um ao outro nestes últimos tempos mas principalmente hoje, ali diante da minha família...
- Queres dizer da nossa... da NOSSA FAMÍLIA! Mariana, podemos estar divorciados no papel mas em momento algum depois de ter assinados os papéis senti isso, continuei a respeitar-te e a amar da mesma forma...
- Só preciso de espaço... não estou a terminar mas preciso desta noite para organizar as ideias, só te peço isso!
- Tudo bem... mas podes fazê-lo no meu apartamento.
- Não compliques...
- Ok! - suspirou - posso pelo menos despedir-me de ti com um beijo?
Não lhe respondi por palavras mas sim por actos, foi minha a iniciativa de unir as nossas bocas mas a intenção de ser só um mero beijo de despedida caiu por terra quando o Ruben prensou o meu corpo contra o carro dele, as nossas línguas entrelaçaram-se e percorreram a boca um do outro numa ânsia destemida, deixei-me levar e só despertei quando senti as mãos do Ruben por baixo do meu casaco.
- Boa noite! - falei ao afastar-me dele.
- Tens a certeza que preferes assim?
- Tenho!
O Ruben deu-se por vencido e ficou a ver-me a arrancar com o carro, conduzi até ao meu apartamento mas sempre a pensar nele e em tudo o que se passou nesta noite, a cada km percorrido a certeza que tinha tomado a decisão errada apoderava-se mais de mim mas ainda assim a cabeça foi mais teimosa que o coração e levou-me até ao destino traçado inicialmente mas foi quando lá cheguei e depois de ver algo que mudei de ideias. Conduzi até ao apartamento dele e apesar de ter as chaves decidi anunciar a minha chegada ao tocar na campainha.
O Ruben veio à porta já sem camisa e não resisti, atirei-me para os seus braços

e acabei por ser levada ao seu colo até ao quarto no entanto não nos amamos, o Ruben respeitou o meu pedido de “espaço” e conformou-se em simplesmente adormecer abraçado a mim.

Ruben
Acordei com a Mariana a mexer-se e abri imediatamente os olhos para perceber que continuava a dormir, aproveitei que ainda dormia para levantar-me e preparar o nosso pequeno-almoço, estava tão entretido que nem dei pela entrada da Mariana e só quando é que dei pela sua presença.
- Oi - sorri e limpei as mãos para dar-lhe um beijo de bons dias que serviu para quebrar algum do “gelo” que estranhamente se tinha formado entre nós e que já durava há tempo demais, joguei com isso a meu favor puxando-a para mim, estávamos com os nossos corpos colados, tanto que sentia a sua respiração a bater-me no rosto, o seu cheiro entranhou-se em mim de uma forma que enlouqueceu-me e foi uma questão de segundos até saciar o desejo que invadiu-me ou melhor que nos invadiu, sim que apesar de querer e muito senti-la novamente como uma parte de mim só o fiz porque o seu olhar não deixava dúvidas, a Mariana queria que tornasse mais uma vez realidade tudo o que nos ia no pensamento naquele exacto momento...

Amamo-nos ali mesmo na cozinha e louco é aquele ou aquela que julga que ficamos por isso mesmo... o resto da manhã foi para fazermos verdadeiramente as pazes mas desta vez na cama e da forma em que realmente somos bons... a levar o outro ao extremo... a permitimos em horas sentir-nos vivos de todas as formas possíveis e imaginárias, tanto que nem houve fome... só mesmo quando os nossos estômagos deram sinal é que nos lembramos que ainda estávamos em jejum... gargalhamos feitos loucos que somos e no fim de mais uns quantos beijos lá nos levantamos para comer o nosso pequeno-almoço que deveria ser mesmo almoço mas que nenhum dos dois teve energias para o fazer.
A tarde acabou também por ser passada em casa, ainda tentei arrancar a Mariana do sofá mas foi impossível e no meio de simples brincadeiras de dois putos apaixonados, sim que era assim que sentia-me... novamente um adolescente mas desta vez a redescobrir a própria namorada e o quanto é bom estar naquele impasse do “avanço ou não avanço” ou do “será que ela quer?” ou ainda “o quero mais...” acabei por fazer o mesmo que os putos fazem e tentei a minha sorte e a Mari... a Mari fez-me uma que não esperava e ao terminar o longo beijo deu-me uma ligeira mordidela no lábio, ligeira é forma de dizer porque senti o sabor do meu próprio sangue e como “paga” atirei-lhe uma almofada

à cara e segundos depois já a tinha completamente dominada debaixo de mim, sentei-me em cima das suas pernas, prendendo-as com as minhas e o resto... bem o resto foi mais do mesmo e assim se passou um dia inteirinho enfiados em casa.

Mariana
Cada vez convenço-me mais que já não há solução possível para nós, tanto o Ruben como eu somos dois loucos, só assim consigo justificar estas últimas semanas mas principalmente a noite de ontem e o dia de hoje.
Estava a preparar o nosso jantar quando o Ruben apareceu e abraçou-me imediatamente.
- Precisas de ajuda?
- Não... Preciso que desampares a loja que hoje já tiveste a tua dose...
- Na na ni na não... - olhei-o por cima do meu ombro e encontrei-o de sorriso no rosto - isto não é nem um terço do que andamos a dever um ao outro - suspirou.
- Lá porque ando a dever não quer dizer que tenho de pagar tudo no mesmo dia, além disso hoje já conseguiste destruir as minhas reservas de energia.
A conversa continuou sempre em volta do mesmo assunto e com algumas picardias à mistura para terminarem no momento que nos sentamos à mesa para jantar.
O resto do serão foi mais do mesmo connosco a mimarmo-nos e terminou comigo a adormecer nos braços do Ruben.

Será que é desta que ficam juntos para sempre?

12 comentários:

  1. Ou sou eu que ando demasiado sensível ou o Ruben desesperado looool mas esta declaração do Ruben à Mariana deixou-me com lágrimas nos olhos! *-*
    Adoreii!!! :D
    Venha o próximo!
    Besos

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  2. E eu não disse que a reconciliação era ainda melhor?! Adorei, adorei, adorei... A declaração do Ruben foi tão fofa que não tinha como a Mariana não voltar para ele...

    Continuem...

    Bjs, Clara

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  3. Olá :)
    A-M-E-I ♥♥
    O João conhece mesmo bem o Rúben, uma simples frase e conseguiu o que mais ninguém foi capaz de fazer *-*
    Sim, espero que desta vez seja um "Juntos para Sempre, e sempre" ♥

    Com as palavras do Rúben pensei que o pai da Mariana ia perceber que ele a amava mesmo, mas o homem é teimoso como uma mula.

    Agora só falta a Maria e o João, sim porque o João saiu do último treino com a promessa de que regressava com tudo resolvido :)

    Próximos capítulos *-*
    Beijinhos
    Daniela ^^

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  4. Um dia inteirinho sem acessar e eu já estava me desesperando LOL Mas valeu a pena, está perfeito, como sempre. Chorei e ri tanto haha :P Mais, please. Beijinhos :*

    GabiS.

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  5. Bela prenda de Natal, eu bem me parecia que a mensagem não era da Mariana, era bom demais, mas sábias palavras as do menino João, pelo menos tiveram algum efeito, resultou melhor do que a descasca do Mauro. O homem tava inspirado, e nem o facto de estar na presença da familia Mendes o intimidou de dizer tudo o que sentia, foi lindo. Adorei, como é óbvio, em relação à pergunta no final do capitulo, "para sempre" é muito tempo, ficam juntos pelo menos até à próxima discussão, pelo menos sempre foi assim, não me parece que vá mudar, mas nunca se sabe o que vai nas cabecinhas das meninas que escrevem esta história maravilhosa.
    Agora quero saber novidades do outro casal de casmurros, eles também teem direito a uma prenda de Natal como a da Mariana e do Ruben.
    Adorei

    Beijocas

    Fernanda

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  6. fabuloso...

    tou super curiosa para ver o proximo... quero mais...

    continua...

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  7. Olá :D
    Adorei meninas!
    Espero mesmo que seja infinito ahah
    Beijinhos
    Ritááá xD

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  8. Aleluia! Foi homenzinho! Só falta o outro. lol
    Adorei a declaração! Fiquei toda derretida com a mensagem do João ao lembrar-me do presente que o Rúben tinha dado à Mariana.
    Ai quero mais! Por favor!
    Beijinhos

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  9. Olá novamente lol minha internet voltou, e não sei porque mas me sentir no direito de comentar novamente, como acho que devia ter comentado, mas tive que ser rápida anteriormente, por não estar em casa :c Enfim, perfeito vocês já sabem que está, porque isso nem é mais novidade. Vibrei muito assim que vi apenas o titulo, fiquei com um certo receio sim, mas no final deu tudo certo, e awn... como é bom vê-los juntos and felizes *-* E sim, espero que desta, não só eles, como o João e a Maria também fiquem juntos 4ever <3 haha beijinhos :*
    GabiS

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  10. Uma única frase pode fazer toda a diferença =)

    Os verdadeiros amigos sabem dar aquele clique no momento certo, muito bom :D

    Abreijos
    PatriciaQ

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  11. Olá!
    Já tinha lido o capitulo mas só agora tive oportunidade de comentar :S e ainda peço desculpa por não ter comentado o 60.
    Quando ao 61 ADOREI!
    E então a declaração do Rúben foi sem dúvida DO MELHOR!!*.*
    Eu quero mais meninas!
    Beijinhos
    Rita

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  12. Olá!
    É oficial: atualizei-me! 88 paginas, mais de 30000 palavras pareciam obra, mas dei por mim a pensar "ainda bem que deixem acumular capitulos porque se os lesse a tempo e horas nao iria aguentar ter de esperar pelo proximo!".
    Realmente GRANDES emoçoes!
    A reviravolta que isto deu. De um casamento-bomba a um divorcio, motivado pela razao mais improvavel... E aquele pai...Valha-me Deus! Fica ali o exemplo de tudo o que NAO se deve ser! Mas felizmente estes dois acertaram-se e espero que seja mesmo um felizes para sempre, apesar de duvidar MUITO disso.
    Quanto ao trio, bem pipocas ia precisando eu! Ai menino Joao, o maior cego e realmente o que nao quer ver! Caramba se fosses menos otario, a esta hora nao so tinhas o papel de pai como o de namorado (palpite)!! TEIMOSO!
    Vá, venham os proximos, que eu na proxima 6ª leio xD

    Beso
    Ana Santos

    P.S. Acho que fica claro atraves do meu "dialogo" com uma personagem que a minha sanidade mental ja nao esta propriamente em boas condiçoes... Duas horas de leitura imprevisivel e cheia de emoçoes tinha de ter consequencias xD

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